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sábado, 19 de fevereiro de 2022

Em louvor dos trabalhos manuais, por Carlos Malpique


1 - A criança não se contenta com imaginar teoricamente. Acha isso muito pouco. Do imaginar ao realizar, quase não deixa espaço. O dito e feito, o imaginado e realizado, assumem, nela, o efeito de uma irresistível pressão. Quer ver logo tudo concretizado. Quer seja ela própria, ou em colaboração com outras crianças, a executora dos planos sonhadores. Se imaginou aspectos da vida selvagem - e a televisão hoje lhe dá abundantes sugestões -, logo os quer viver com outras crianças. E se, acaso, fantasia alguma máquina, alguma casa, algum artefacto, logo reclama martelo, madeira, pregos, tesouras, facas, argila, areia, e ó mãos para que vos quero! Como disse Stanley Hall, padre mestre nas coisas da psicologia infantil, nunca a mão esteve mais perto do cérebro do que nessas idades.
O manualizar, o fazer concretamente, o transitar da imaginação à prática é uma das mais patentes dimensões espirituais da criança.

2 - A criança é uma forma abreviada da evolução da humanidade. O homem, antes de ser homo sapiens, foi homo faber, homo manualis. Antes de teorizar, comprovou-se em fazer (1). Assim o homem nos seus primórdios, e assim também a criança nos dias de agora. O sábio dizia: dêem-me um ponto de apoio, e eu levantarei o mundo. A criança é como dissesse: dêem-me possibilidades e oportunidades de eu fazer, pelas minhas próprias mãos, com ferramentas mais ou menos improvisadas, este mundo e o outro, e eu serei feliz, não saberei o que é um momento de tédio, não darei pela passagem do tempo. A inteligência da criança não se processa no mundo do abstracto, mas no mundo do concreto. Para vir a dar, com eficiência, o salto ao mundo, puramente intelectivo, precisa do trampolim dos trabalhos manuais.

(1) - Saber é fazer, no que respeita a trabalhos manuais. E estes não se fazem por correspondência. E preciso sujar as mãos, em flagrante exercício. Já Herculano dava prioridade ao ensino técnico sobre o meramente literário. E que o primeiro era o do aprender fazendo, ao passo que o se­gundo era o dos flatus vocis, o do palavreado, constituído por cheques sem cobertura no banco da experiência.

Cruz Malpique - Em louvor dos Trabalhos Manuais. Labor, Revista do Ensino Liceal, N.º 301, Aveiro, Abril de 1972.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Chávenas de café quase amargo


Enamorados de Rococó
Há vidas que vão, de um ao outro extremo -- desde que alvorecem até que se extinguem -- com ininterrupto esforço de vontade. São carros numa subida sem fim, carros que marcham em prise permanente. São vidas que não conhecem um minuto de descanso, fazendo pontaria sem tréguas a um alvo distante, do qual só tiram os olhos quando a morte lhos fecha.
As vidas dessa casta decorrem na clave da heroicidade. Não sabem o que é um desfalecimento. Em ambiente de facilidades, sentir-se-iam murchar. Apetecem, por natureza, os lances difíceis. A vitória que alcançassem, sem risco, tê-la-iam por vergonhosa.

Um Flaubert, por exemplo, no mundo dos escritores, abominava com facilidade. Se uma linha lhe saía de um jacto logo ele desconfiava da fartura... Nunca escreveu como quis – mas nunca renunciou à vontade de ver se poderia alcançar o seu ideal negaceante da prosa sem pontos mortos, da prosa flagrantemente ajustada à viva realidade. A sua pena correu-lhe sempre heróica sobre o papel -- ladeira, para ele, ultra-íngreme. A colocação de um adjectivo atormentava-o. "Para fazer uma boceta derribava uma floresta" -- disse Dumas, a respeito do autor de Madame Bovary . Condensar o estilo era a sua obsessão. Detestava o farfalho retórico. Remendos de púrpura, muito do agrado de primários, não os podia ver. A frase definitiva seria, para ele, aquele a que, declamada com voz natural, não alterasse o ritmo espontâneo da respiração.

A perfeição do estilo foi nele uma tortura, um milagre de vontade. Incontentadiço, como era, cortava constantemente, na ânsia febril de encontrar a frase justa. "Ah!, eu sei o que são os terrores do estilo! Sinto que o pescoço se me parte, de tanto suportar a cabeça inclinada. As repetições de palavras, os todos, os mas, os porques, os entretantos que tenho de eliminar...

Tarefa sem fim". O gosto da execução impecável era, em Flaubert, a mais cruciante das obsessões. Suava, amarfanhava-se, primeiro que se desse por satisfeito. Madame Bovary levou-lhe o melhor de seis anos a compor, e Salammbô quatro. Trabalhando sete horas por dia, escrevia vinte páginas num mês. Páginas houve que lhe levaram cinco dias!
Com vontade indomável lutou sempre, nunca soube o que foi uma vitória fácil em literatura.
Esta venceu-o, de fadiga. Ele, porém, ganhou a posteridade.

Muitos têm dito mal de Boileau, considerando que nunca foi um inspirado, e tudo conseguiu a golpes de vontade no mundo da forma literária. Não consta, no entanto, que Flaubert fizesse coro com esses maldizentes. Moralmente, não podia. Sentia-o seu irmão nas angústias da perfeição formal.
O estilo de Flaubert (um prodígio da vontade) é naturalmente simples. O sublime, o termo solene, rebuscado, para impressionar leitores ingénuos, são falhas de que o não podemos acusar. A simplicidade custou-lhe uma vida de canseiras. Daria duas, três vidas, para a alcançar. Só os beócios vivem enamorados do rococó.

Apagar-se
Santa Margarida Maria de Alacoque, escrevendo, em 1686, a um seu irmão, dizia: -- Tenho apenas um desejo: amar a Deus, esquecer-me e apagar-me".
Como este programa contrasta com o de boa maioria de humanas criaturas! O desejo destas -- o seu ardente desejo -- é precisamente o de se fazerem notadas, o de amarrem as simples temporalidades, o de fazerem constar que gens sunt, et cavalgare sabent. Apagar-se, esquecer-se, desaparecer na voragem do mundo, fugir do tumulto, seria, para esses tais, o suplício dos suplício. A exibição é sua constante preocupação. Dela, nela, por ela, e para ela vivem.

Mudar
Quem de um campo (político, religioso, estético...) para outro muda, fica sempre na tristíssima contingência de ser furiosamente atacado por aqueles a quem abandonou, sem deixar de merecer suspeitas àqueles para quem se passou.
Não vejo, porém, razão para censuras, se a mudança foi inspirada por sinceros motivos. Não se vê que, tendo um homem assentado praça no sector A, permaneça para todo o sempre, no referido sector. Se razões de consciência o persuadirem a mudar -- não vejo que haja incoerência na mudança. Incoerência existiria, se teimasse em ficar onde primeiro sentou praça -- apenas para evitar a crítica. A imutabilidade absoluta é privilégio dos mortos.
Não se acobertem, porém, como esta prosa, os que de um para o outro campo desertam, apenas em função dos pruridos de estômago e vísceras adjacentes. A nossa prosa mira muito mais alto.
Cruz Malpique

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Súplica (Quase Enfática) do Mestre (que se Estreia), Dirigida às Musas da Pedagogia, por Carlos Malpique



1 - Eu sei que o magistério é honor, mas sei, outrossim, que também é - e principalmente - ónus, o que, dito em português de lei, se pode assim exprimir: eu sei que ensinar é uma honra, mas sei também que, a par disso, é um peso, e dos maiores.
A honra é o inefável da profissão. O peso é o trabalho extenuante de todos os dias, para abrir os espíritos à luz da verdade, às emoções do belo, aos sentimentos de uma doce humanidade.
Pois dai-me amor, tal e tanto, que eu possa, sem desfalecimentos, abrir esses espíritos para a luz da verdade, para as emoções do belo, para os sentimentos da doce humanidade. Fazei com que eu consiga o milagre - que o não há maior - de lapidar brutos diamantes, para que, de si, despeçam todo o fulgor possível; de fazer, da natureza humana, uma obra-prima de curiosidade alerta para todos os segredos do mundo, uma inteligência capaz de ler as relações que ligam as coisas entre si; uma vontade capaz de vencer todas as adversidades; um poder de iniciativa que meta todas as lanças na áfrica das dificuldades; um espírito critico que deite por terra
todas as superstições; uma fé que remova todos os obstáculos à realização de um mundo melhor.

2 - Fazei que eu consiga insinuar na alma dos meus alunos o formoso dito de Lessing: «Se Deus me desse, na sua mão direita, a verdade já acabadinha, e, na sua mão esquerda, a possibilidade de eu a descobrir pelo meu próprio esforço, não hesitaria: eu me decidiria pela segunda dádiva, contra a primeira».

3 - Dai-me discípulos que de mim precisem, só temporariamente. Sei, com um saber de experiências feito, que os discípulos que mais honram os mestres não são aqueles que os seguiram servilmente, mas antes os que, em tempo oportuno, souberam conquistar a sua carta de alforria. Nada melhor do que passar pelos mestres, com a condição, porém, de tudo fazerem, para deles se libertarem, com rumo à sua individualidade específica. Dos discípulos subservientes não reza a história, a não ser para lhes dar as zabumbadas da troça.
O educador, para merecer este título, deve ser, acima de tudo, um electrizador de espíritos, um catalisador de específicas originalidades. O seu papel não é substituir-se ao educando, mas, pelo contrário, propiciar que este se afirme, o mais possível, sui generis e sui juris. Criará nele o sentimento. da auto-desconfiança, a fobia de tutelas que lhe minimizem a personalidade. Despertará nele o gosto da resposta de conta própria, contra a resposta meramente psitacista.
(...)
in Malpique, Cruz (1976). O binómio mestre-discípulo : duas súplicas e um juramento / pelo Dr. Cruz Malpique – Conferência Porto: Imprensa Social

Foto retirada de Homenagem a Carlos Malpique