domingo, 31 de agosto de 2025

Sobre a Arte


"A arte é a contemplação; é o prazer do espírito que penetra a natureza e descobre que a natureza também tem alma."  ~ Auguste Rodin
Minha arte digital.

Anna von Hausswolff - The Whole Woman (ft. Iggy Pop)

Melhor som aqui
Letra
Listen to me
I'm stronger than I seem
'Cause I've been through this huge emotion
Now I'm not afraid to go down
To the harbor
And to see you once again
I'll tell you the whole truth
And you will see me as the woman I am

I cannot escape
The mistakes that you've made
But I know it in my heart
And I knew it from the start

When I see you, I lose my faith
I lose my time, I lose my days
The reality is far away
When you say my name

I want you to be here
I want to see you, I want you near
I wanna touch you, smell your hair
Feel your lips everywhere

Somewhere in the dawn
I have hopes to see your face
But you're stuck inside a lie
I hope you'll carry my name

Oh, the ocean in our hearts
Will it bring us more apart?
If I tell you who I am
Will you love me as the woman I am?

The story in the sand (of who I am)
Protected by your hand (of who I am)
The dream wash over thee
And unleash your seeds on me

Iconoclastia, resiliência e diálogo geracional em "The Whole Woman"
A colaboração entre Anna von Hausswolff e Iggy Pop em "The Whole Woman" combina duas gerações e estéticas marcantes do rock underground e da música experimental numa obra profunda sobre transformação, dor e libertação. Em termos de nacionalidades, Anna von Hausswolff é uma compositora, cantora e organista sueca, nascida em Gotemburgo e aclamada na cena vanguardista europeia, enquanto Iggy Pop é um lendário cantor e performer norte-americano, originário de Michigan e amplamente reconhecido como o "Padrinho do Punk".

Musicalmente, a canção transita entre o darkwave neoclássico, o rock experimental e o gothic pop. A instrumentação é construída a partir de arranjos dramáticos de cordas, como violoncelo, viola da gamba e violino, que se entrelaçam a sintetizadores, percussão solene e o uso característico do órgão de tubos. O grande destaque do estilo está na tensão vocal entre os dois artistas: o alcance soprano etéreo, dramático e expressivo de Anna von Hausswolff contrasta diretamente com o timbre barítono grave, cru e narrativo de Iggy Pop, criando uma atmosfera que evoca um diálogo teatral entre a inocência e a vivência, a elevação e a ancestralidade.

O significado da obra gira em torno da ideia de resiliência, cura e superação de traumas. Liricamente, a faixa não aborda o amor romântico convencional, mas sim um amor compassivo que pode existir entre amigos, familiares ou no próprio ato de reconexão consigo mesma após a quebra de uma armadura emocional. O conceito visual e narrativo evoca a imagem do mar e dos portos como símbolos de limpeza, purificação e travessia. O caminho para se tornar uma "mulher inteira" (The Whole Woman) exige encarar as sombras do passado, desapegar-se de expectativas externas e aceitar a fragilidade como uma forma de força renovada.

Por fim, as inspirações literárias e filosóficas do projeto estão enraizadas na própria ideia de iconoclastia - a destruição de ídolos, dogmas e ilusões. Há ressonâncias diretas do existencialismo, no qual o indivíduo precisa destruir velhas estruturas conceituais para assumir a responsabilidade sobre sua própria existência. A narrativa da canção também carrega marcas do drama do escritor russo Maxim Gorky, cuja obra As Profundezas explora a dignidade e a miséria humana em cenários de dor. Além disso, a música dialoga com mitologias femininas e a reinterpretação de narrativas bíblicas e patriarcais, propondo uma visão de totalidade em que o sagrado e o profano, a luz e a sombra, coexistem no processo de redefinição da identidade feminina.

Página oficial
Anna von Hausswoff

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Cartel da banca: bancos não têm de pagar nada pelas infrações cometidas em 11 anos



O Tribunal Constitucional rejeitou uma segunda tentativa da Autoridade da Concorrência (AdC) no caso conhecido como 'cartel da banca' para reverter a anulação das coimas de 225 milhões de euros aos bancos.

Num acórdão de 25 de agosto, a que a Lusa teve acesso, a conferência do Tribunal Constitucional (TC) indefere a reclamação do regulador da concorrência contra o facto de, em junho, o juiz-conselheiro Afonso Patrão ter rejeitado admitir o recurso que a AdC submeteu para apreciar a constitucionalidade do processo.

Com esta segunda decisão, o TC recusa de forma definitiva apreciar se o acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa (TRL) que declarou o processo prescrito é, ou não, conforme com a Constituição da República Portuguesa e com o direito da União Europeia (UE).

O litígio chega agora ao fim com este acórdão, fazendo transitar em julgado a decisão do TRL que declarou a prescrição e que anulou as coimas aos 11 bancos condenados pelo Tribunal da Concorrência.

Para o TC, a questão de inconstitucionalidade colocada pela AdC "não tem natureza normativa, sendo, por isso, inidónea a fiscalização concreta da constitucionalidade".

Segundo o acórdão, o tribunal entende que a AdC não lhe solicitou "que interprete a Constituição em consonância com o direito da União Europeia", antes que analisasse "a alegada desconformidade da interpretação seguida pelo tribunal a quo [Relação de Lisboa] com o direito da União Europeia num problema de inconstitucionalidade com referência, por um lado, ao valor que a Constituição atribui ao direito da UE e, por outro, à eficácia jurisdicional do direito da UE". Por isso, entendeu rejeitar analisar a decisão tomada pelo TRL.

A 20 de setembro de 2024, o Tribunal da Concorrência deu como provado que, de 2002 a 2013, os principais bancos do mercado português agiram em "conluio" para falsear a concorrência e confirmou as coimas aplicadas pela AdC em 2019.

Nessa instância ficou provado que as instituições trocavam informação de forma regular por telefone e por email para enviar dados aos concorrentes sobre os 'spreads' que iam praticar e sobre os volumes de crédito já concedidos.

Os bancos recorreram da decisão da primeira instância para o TRL, onde um coletivo de juízes declarou a contraordenação prescrita, por considerar que no período em que o processo esteve a ser analisado no Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) o processo não ficava suspenso para efeitos de contagem da prescrição.

A decisão no TRL foi tomada sem unanimidade, com um dos três juízes do coletivo a discordar que o processo estivesse prescrito.

A AdC e o Ministério Público recorreram para o TC para tentarem travar a anulação das coimas, mas logo num primeiro momento o tribunal rejeitou o pedido.

Foi contra essa decisão que a AdC apresentou a reclamação agora rejeitada.

Tal como o TC, o TRL também não analisou se a conduta dos bancos infringiu, ou não, a concorrência, porque, no ponto de partida, considerou os autos prescritos.

À Lusa, fonte oficial da AdC reagiu à decisão do TC afirmando que "fez tudo o que pôde para que esta infração à lei da concorrência fosse punida, até porque foi confirmada" por duas instâncias judiciais (o Tribunal da Concorrência e o TJUE).

"Esta decisão da conferência do TC não retira razão à AdC", afirma a instituição liderada por Nuno Cunha Rodrigues, lembrando que o TCRS "confirmou os factos" e que o TJUE confirmou que se tratava de "uma infração por objeto (expressão do direito da concorrência que qualifica as infrações como tão graves que dispensam a prova de efeitos nos consumidores)".

Os bancos que veem as coimas anuladas são a CGD (82 milhões de euros), BCP (60 milhões), Santander (35,65 milhões), BPI (30 milhões) Banco Montepio (13 milhões de euros), BBVA (2,5 milhões), BES (700 mil), BIC (500 mil), Crédito Agrícola (350 mil), UCI (150 mil). O Barclays também foi condenado, mas sem ter de pagar coima por ter denunciado o caso à AdC.

A Autoridade da Concorrência (AdC) afirmou ter feito todos os esforços para que os bancos envolvidos no ‘cartel da banca’ fossem sancionados pelas infrações cometidas entre 2002 e 2013.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

A Doutrina Invisível - A História Secreta do Neoliberalismo

O neoliberalismo (eu sugeria anarco-capitalismo) instalou-se nas nossas vidas como se fosse algo natural. Geralmente temos dificuldade em defini-lo e em perceber o mal que nos pode trazer. Este livro vem mudar isso.

Que somos nós? Éramos cidadãos, mas, hoje, parece que fomos reduzidos a consumidores. Da década de 1930 para cá, a ideia de que é a competição que nos define como espécie foi sendo adoptada e alimentada por elites, determinadas em preservar as suas fortunas e o seu poder. Think tanks, corporações, os media, as universidades e os políticos tornaram-se a força motriz para difundir e cristalizar uma ideologia que nos esvazia enquanto pessoas, que exclui direitos e promove o neoliberalismo como doutrina que regula, secreta e silenciosamente, a nossa existência. Mas o que é o neoliberalismo? Por que razão estamos subjugados a ele?

George Monbiot e Peter Hutchison traçam a história do nascimento e da ascensão do neoliberalismo. Os autores argumentam que o neoliberalismo está por trás de crises como as alterações climáticas, a precariedade dos serviços públicos, as catástrofes financeiras e a pobreza infantil, tudo isso enquanto enfraquece a democracia em favor do poder económico.

O livro também conecta o neoliberalismo ao ressurgimento de formas autoritárias de governo e propõe uma alternativa de democracia participativa baseada no conceito de "suficiência privada, luxo público".

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Alterações climáticas podem estar a enfraquecer dentes de tubarões


Pesquisadores alemães da Universidade Heinrich Heine Düsseldorf afirmam que a acidificação dos oceanos está enfraquecendo os dentes afiados dos tubarões, tornando-os quebradiços e frágeis. As descobertas, publicadas no dia 27 de agosto na revista Frontiers in Marine Science, levantam preocupações quanto à sobrevivência de um dos principais predadores do oceano, à medida que o dióxido de carbono continua a reduzir o pH da água do mar.

As more of the greenhouse gas carbon dioxide (CO2) is released into the atmosphere, more of this gas is also absorbed by the oceans. The consequence: The so-called pH-value of seawater decreases, making it more acidic. The acidity has a potentially corrosive effect on minerals – including those in the tooth material of marine organisms. 

Sharks are known for being able to replace their teeth, with new ones growing to replace older ones when they wear down. This is crucial for their survival as they rely on their teeth to catch their prey. 

A research team headed by Professor Dr Sebastian Fraune from the Institute of Zoology and Organismic Interactions at HHU has, in collaboration with biologists from the Sealife Oberhausen marine aquarium, examined the impact of ocean acidification on shark teeth. They placed shark teeth in containers of water at different levels of acidity: at the current pH of the oceans and at the expected pH in 2300. 

“Shark teeth comprise highly mineralised phosphates, but they are susceptible to corrosion. The more acidic water in the simulated 2300 scenario damaged the shark teeth, including roots and crowns, much more than the water at the current acidity level. Global changes are thus so far-reaching that they can impact the microstructure of shark teeth,” says Maximilian Baum, former HHU student and now a freelance diver, photographer and speaker. He is the lead author of the study. 

Corresponding author Professor Fraune: “The teeth are highly sophisticated weapons designed to cut flesh, but not to withstand the acidification of the oceans. Our results show how fragile even nature’s sharpest weapons can be. It is possible that the ability of sharks to replace their teeth on an ongoing basis will not be able to keep up with the changes in their environment.” 

Teeth shed naturally by blacktip reef sharks (Carcharhinus melanopterus) kept at Sealife Oberhausen were used for the study. These teeth were divided between separate containers – one holding seawater with a pH of 8.1 (the current level) and the other with a pH of 7.3 (what is expected in 2300) – and incubated for eight weeks. Baum: “This pH corresponds to an almost tenfold increase in acidity compared with today.”

The teeth were then examined under the microscope at the Center for Advanced Imaging at HHU. Fraune: “At a pH-value of 7.3, we observed surface damage such as cracks and holes, increased root corrosion and structural deterioration. In addition, the surface morphology was more irregular, which can weaken the structure of the teeth and make them more susceptible to breaking.”

Timo Haussecker, Aquarium Curator at Sealife Oberhausen and co-author of the study: “As we only examined naturally shed teeth, the study does not take account of any repair processes, which may occur in living organisms. The situation may therefore be more complex in living sharks as they may be able to remineralise damaged teeth, albeit with greater energy expenditure.” 

“Even moderate decreases in pH-values can impact more sensitive species with slow tooth replacement cycles or have a cumulative effect over the course of time,” adds Baum. “For sharks, it is certainly of great importance that the pH-value of the oceans remains near the current average of 8.1.”

Maximilian Baum and Professor Fraune conclude: “Our research reminds us that anthropogenic changes can impact entire food webs and ecosystems.”

Esta é uma notícia preocupante e um exemplo de como a química atmosférica impacta diretamente a biologia marinha. O estudo da Universidade Heinrich Heine Düsseldorf toca em um ponto crítico: a integridade estrutural da fluorapatita, o mineral que compõe o esmalte dos dentes de tubarão.

Aqui está uma análise do que está acontecendo quimicamente e por que isso é tão vital para esses predadores:

O Processo de Acidificação
Normalmente, o oceano é levemente alcalino. No entanto, à medida que absorve o CO2 da atmosfera, ocorre uma reação química que forma o ácido carbônico (H2CO3), reduzindo o pH da água.
A Estrutura do Dente: Diferente dos humanos, cujos dentes são feitos de hidroxiapatita, os tubarões possuem dentes revestidos de fluorapatita. Isso os torna naturalmente mais resistentes e "pré-fluoretados".
A Corrosão: O estudo mostrou que a exposição prolongada (cerca de 9 semanas) a um pH mais baixo causa uma corrosão visível na superfície dos dentes.

O Impacto Mecânico: Com a superfície danificada, os dentes perdem sua "afiação" e tornam-se propensos a rachaduras e quebras durante a caça.

Por que isso é um problema sistémico?

Abaixo, veja como essa fragilidade afeta o ecossistema como um todo:
ImpactoConsequência para o TubarãoEfeito no Ecossistema
Eficiência de CaçaMenor capacidade de segurar e cortar presas.Desequilíbrio nas populações de peixes menores.
Gasto EnergéticoTubarões precisam trocar de dentes com mais frequência.O animal gasta mais energia metabólica para regeneração.
SobrevivênciaMaior risco de inanição ou infecções bucais.Perda de predadores de topo, essenciais para a saúde dos recifes.

Palestina - Música como Resistência


O professor de música Palestiniano Ahmed Muin lidera os seus alunos da Cidade de Gaza com canções a cappella. Em Gaza, até as vozes resistem, erguendo-se acima do zumbido incessante dos drones.

Sheel sheel ya Jamali 
Carry, carry the camel, oh camel driver 

Sheel ya hawatak b’Allah 
I protect you by God 

Dem Al shaheed mutaar bil hael 
The martyr’s blood is scented with cardamom 
Leel ya Leelo 
Night, oh night 

Wael wael al thaleme 
Woe, woe to the oppressor 

Wael Wello min Allah 
Woe to him from God 

La Ishar ala nujoom el leel 
Who stays up with the stars of the night

 Ana da wellu 
I will heal him

No dia 14 de agosto de 2025 o  Cardeal Matteo Zuppi, presidente da Conferência Episcopal Italiana e arcebispo de Bolonha. , conduziu um vigília de oração que durou cerca de sete horas, durante a qual leu em voz alta, nome por nome, 12.211 crianças palestinianas e 16 crianças israelitas mortas desde o início da guerra entre Israel e Hamas, a partir de 7 de outubro de 2023. O registo continha 469 páginas, e os nomes foram lidos num local simbólico: as ruínas da igreja de Casaglia, em Monte Sole de Marzabotto, palco de um massacre nazi em 1944.


terça-feira, 26 de agosto de 2025

Por Dentro do Mossad

Constantes ondas de calor estão a acelerar o envelhecimento humano




Um novo estudo inovador publicado na Nature Climate Change revelou que a exposição repetida ao calor extremo pode acelerar o envelhecimento biológico, o tipo de desgaste interno que prevê problemas de saúde graves e morte prematura. 

Os investigadores acompanharam 25.000 adultos em Taiwan durante 15 anos e descobriram que mesmo aumentos modestos na exposição a ondas de calor fizeram com que a sua idade biológica ultrapassasse a idade real, particularmente para os trabalhadores manuais que passam mais tempo ao ar livre.

Em apenas dois anos, a experiência de quatro dias extra de onda de calor correlacionou-se com um aumento de nove dias na idade biológica e, para alguns trabalhadores, este aumento saltou para 33 dias.

Os cientistas afirmam que as descobertas marcam uma “mudança de paradigma” na nossa compreensão dos efeitos a longo prazo do calor na saúde, colocando os seus danos em pé de igualdade com o tabagismo, o consumo excessivo de álcool ou uma dieta inadequada.

A investigação concluiu que à medida que as ondas de calor se tornam mais intensas e frequentes devido às alterações climáticas, milhares de milhões de pessoas- especialmente  as comunidades mais desfavorecidas, sem acesso a aparelhos de refrigeração e quem trabalha ao ar livre, ou a habitação segura -  são mais afetadas por esta exposição e enfrentam um maior risco de envelhecimento precoce e de doenças crónicas. Os danos começam cedo na vida e podem persistir durante toda a vida, agravando as disparidades na saúde. Esta investigação realça a necessidade urgente de ações climáticas globais e de estratégias locais de saúde pública para proteger as populações dos efeitos ocultos e permanentes do aumento das temperaturas.

Outro estudo muito semelhante e complementar foi publicado na Science Advances em fevereiro de 2025 por investigadores da USC, que se concentrou especificamente em adultos mais velhos nos EUA e utilizou relógios epigenéticos para mostrar que aqueles em regiões quentes (como Phoenix) envelheciam biologicamente até 14 meses mais rápido ao longo de alguns anos.

Sobre a trilogia de Margaret Atwood

Estive a ler a trilogia de Margaret Atwood: "Órix e Crex", "O Ano do Dilúvio" e "Maddaddman". Excelente. Temos que ler os 3 livros porque há interconexão narrativa. Sem ser desmancha-prazeres, eis alguns tópicos que podem despertar-vos para a sua leitura.

1. Órix e Crex
Narrado sobretudo por Jimmy (também chamado "Homem das Neves"), sobrevivente de uma catástrofe global.
Explora a amizade de Jimmy com Crake, um génio da biotecnologia que cria os "crakers", seres humanos geneticamente modificados para viver sem violência, religião ou competição.
Órix, figura misteriosa, é uma mulher marcada pela exploração sexual e torna-se chave na relação entre os dois amigos e na criação dos crakers.
O romance aborda bioengenharia, extinção, consumismo e desumanização.

2. O Ano do Dilúvio
Corre em paralelo temporal a Órix e Crex, mas com outra perspectiva. Segue Toby e Ren, membros de uma eco-seita chamada "Os Jardineiros de Deus", que defendem a preservação da vida e uma ética ecológica em contraste com o mundo corporativo e destrutivo em redor.
Mostra a degradação ambiental, a exploração animal e a desigualdade social.
O "Dilúvio Secular" anunciado pelos Jardineiros (uma catástrofe biotecnológica/pandémica) concretiza-se.

3. MaddAddam
Conclui a trilogia, unindo as linhas narrativas anteriores.
Mostra os sobreviventes humanos a tentar conviver com os crakers e outras espécies geneticamente alteradas.
Inclui a narrativa de Zeb e da sua ligação com Toby, trazendo à luz histórias sobre fanatismo, violência e resistência.
Explora como mitos e narrativas são criados para dar sentido ao mundo e como podem fundar novas sociedades.

Temas centrais da trilogia
Biotecnologia e manipulação genética – questiona os limites éticos da ciência.
Colapso ecológico e social – crítica ao capitalismo corporativo, à exploração ambiental e ao consumismo.
Religião e mito – mostra como as histórias moldam identidades e sobrevivência.
Humanidade vs. pós-humanidade – pergunta o que significa ser humano num mundo de criações artificiais.
Esperança e reconstrução – apesar da distopia, abre espaço para reinvenção e novas formas de vida.

Em resumo, a Trilogia de Margaret Atwood, é uma poderosa reflexão sobre o futuro da humanidade perante as crises ecológicas e tecnológicas que ela própria engendra. Ao explorar a manipulação genética, o colapso ambiental e o poder das corporações, a autora expõe os riscos de um progresso sem ética. Mas, para além da distopia, a obra sublinha a necessidade vital das narrativas: são as histórias — mitos, memórias e lendas — que permitem aos sobreviventes reinventar-se e encontrar sentido. Em última análise, Atwood mostra que contar histórias é uma forma de resistir, de criar comunidade e de sobreviver.

domingo, 24 de agosto de 2025

Infantino’s latest Oval Office show reminds us Trump will be inescapable at the 2026 World Cup


When Donald Trump remained on stage, grinning in the sun as Chelsea lifted the Club World Cup trophy last month, it was all too easy to treat the incident as a one-off mistake. A moment that said plenty about Trump’s ego, sure. But ultimately, only a moment.

Nope. It’s reality. Inescapable. Donald Trump will be everywhere Fifa is in the US, including at the 2026 World Cup – due to start in about 10 months, when Canada and Mexico will co-host.

If this much wasn’t clear already after that moment at MetLife Stadium and all the other times Trump or his agenda have affected World Cup affairs, it may have become so after Friday’s Oval Office appearance with Fifa president Gianni Infantino – the eighth reported meeting between the pair since January, and the fifth to take place in public at the White House.

Trump wore a signature hat reading “TRUMP WAS RIGHT ABOUT EVERYTHING” – one of his collection that was deemed noteworthy enough to display to world leaders in the middle of high-stakes talks with lives hanging in the balance. He then announced that the attention of the soccer world will once again be on him in December. On the fifth of that month, the World Cup draw will take place not at the Las Vegas Sphere as had been widely expected, but at Washington DC’s Kennedy Center – a historic venue and a worthy place to sort through some ping-pong balls, but also one that is now controlled by Trump, who has installed himself as chair, named himself as host of the institution’s annual honors, overseen upcoming renovations (“there’s nothing like gold,” he said on Friday in reference to his Oval Office redesign), and may soon lend his wife’s name to the opera house.

“Some people refer to it as the ‘Trump Kennedy Center,’ but we’re not prepared to do that quite yet,” Trump said on Friday. “Maybe in a week or so.”

The World Cup is not federally controlled like the Kennedy Center, but it will now be subject to a similar dynamic. The tournament Trump has taken credit for bringing to the US will take place under his presidency, with the draw and “big press conferences” happening in a venue he controls, put on by an organization run by someone looking to befriend Trump at every turn – including by becoming the Trump Organization’s tenant. There is almost no choice other than to accept that Trump will make sure he is front and center at this tournament – even in spots where he has no business, or where his involvement may be seen as uncouth or inappropriate. It’s a dynamic Americans know well now, more than a decade into Trump’s rise.

After Trump’s announcement, Infantino allowed him to hold the single most valuable hardware in men’s soccer, the World Cup trophy – not unheard of for heads of state, but more uncommon when accompanied with Infantino’s comment: “Since you are a winner, of course, you can as well touch it.”

Trump asked if he could keep the trophy afterward, and it was not immediately clear that he was joking, given that Infantino let him keep the Club World Cup trophy, where it has been on display in the Oval Office ever since.

Trump made this latest World Cup announcement in practically the same breath as he expounded on his latest imposition on the American people – a strong-arm takeover of Washington DC, which he called a “crime-infested rat hole” despite the fact that the Justice Department had previously reported a 30-year low in violent crime in the capital. Trump continued to promote his crackdown later on, with the trophy directly in front of him on the Resolute Desk, as if it was a microphone meant to amplify his message. When Trump got to talking about immigration, Infantino moved the trophy out of the way.

When prompted by Trump on Friday, Infantino – rather than demurring to comment on the domestic affairs of a foreign country – gave a solemn “oh yes” to express approval of the president’s plan for DC. It’s a plan Trump said he intends to spread to other American cities, mentioning Chicago specifically, but one can easily imagine that any city that voted against him – like 10 of the 11 US host cities for the upcoming World Cup – would be on the list.

“Johnny”, as Trump calls Infantino, then gifted him a ceremonial ticket to the World Cup final – row 1, seat 1.

Given all of this, expect the World Cup final camera to linger on Trump’s face longer than many of the players, coaches, and team staff who will have worked all their professional lives to get to that point.

You’ll see him at the World Cup before then, too. He’ll boast endlessly about how well the tournament is going, only changing tack if things get so bad it’s obvious to everyone, in which case he’ll blame someone else (watch your back, “Johnny”). He’ll do at least one half-time interview on Fox, which is broadcasting the tournament in the US. Alexi Lalas, a big fan of Trump’s Maga movement, will shake his hand. Don’t rule out a gold-encrusted seat waiting for Trump at the final and any other games he chooses to attend.

There can be no doubt now – the World Cup is not a guest in the house Trump runs. It is his plaything. And Fifa appears happy to do anything it takes for things to remain that way lest world football’s governing body be discarded or, worse, made a target.

The World Cup, beneath all of the commercialism, is almost comically pure-hearted. It’s a celebration of the most popular sport in the world. It gives people across the world something in common to talk about, to bond over, to yell at. That feeling goes double for the host nations, and it’s a large part of the tournament’s singular power. It’s why it’s so coveted by countries that rule through authoritarian means – and that now arguably includes the US under Trump

Indelible, sublime moments will still happen at the 2026 tournament. People will still take joy, hurt, anger, and feelings from them. But those moments will be punctuated by Trump – eternally encroaching on even the most elevated of emotional experiences.

If this news drives you to boo, ready your vocal cords. If it drives you to act, start thinking about what you want that to look like. If it thrills you, pace yourself. Whichever way, it’s time to get used to it.

sábado, 23 de agosto de 2025

Entre o negro das cinzas e as cores de uma borboleta: o pouco que resta do “vazio” da Bio-Reserva do Vale da Aveleira

Logo no primeiro dia em que foi à Bio-Reserva verificar os estragos do incêndio, Manuel Malva captou em fotografia uma das "tristezas" que lhe passou pelas mãos: uma borboleta morta, perdida no meio do cinzento que ainda há poucos dias tinha sido verde. O vice-presidente da Milvoz acredita que a borboleta noturna quadripunctaria tenha morrido devido à onda de calor enquanto voava, caindo depois no solo já ardido.


Um incêndio devastador consumiu, na passada sexta-feira, grande parte da Bio-Reserva Integral do Vale da Aveleira, situada na encosta norte da Serra da Lousã, no distrito de Coimbra. Manuel Malva, biólogo e vice-presidente da Milvoz - Associação de Proteção e Conservação da Natureza -, revela em entrevista à SIC Notícias, que arderam entre 55 a 60 hectares de um total de 70 hectares que compõem a área total da reserva.

Reconhecida pela “elevada importância de conservação” e integrada na rede Natura 2000, a Bio-Reserva Integral do Vale da Aveleira “tem, ou tinha” (como Manuel Malva ainda hesita em afirmar), uma vegetação representativa de séculos, tornando-se um bosque raro, uma vez que são cada vez menos aqueles que conseguem resistir.

O fogo começou no dia 14 de agosto no Candal, uma aldeia de xisto no coração da Serra da Lousã, e “em poucas horas, assumiu uma dimensão e violência avassaladoras”. Ao final da manhã do dia seguinte, a Bio-Reserva já se encontrava cercada pelas chamas, “num cenário marcado por temperaturas muito elevadas e fenómenos extremos de vento”, descreve o comunicado da Milvoz.

Ainda numa primeira avaliação, foi possível perceber que se preservaram algumas das zonas mais nucleares do bosque, mas “uma percentagem muito grande, na sua totalidade, foi completamente perdida ou está severamente afetada”, lamenta o biólogo.

Num cenário de “verdadeira calamidade ecológica”, como descreve a associação, “grande parte dos habitats maduros sucumbiu ao fogo", incluindo os inúmeros castanheiros centenários, o medronhal climácico, os azinhais, os adernais e parte dos bosques de azereiro.

“As dezenas de castanheiros centenários que tínhamos eram absolutamente monumentais. Eram uma das joias da Bio-Reserva. Íamos iniciar um projeto para datar algumas dessas árvores, que poderiam ter 400 ou até 500 anos, mas apesar de ainda não termos conseguido contabilizar, perdemos a maioria”, antecipa o vice-presidente da Milvoz.

Foi uma mortandade gigantesca
O fogo avançou a uma “velocidade assustadora” e “grande parte dos animais não conseguiu escapar”.

Ainda sem conseguir avançar números, o biólogo explica que, durante as visitas ao terreno, viu muitos animais “cansados, queimados ou feridos”, que terão agora de “dispersar para áreas da serra que não arderam, embora muitos provavelmente não o conseguirão fazer”.

“É uma tristeza muito profunda caminhar numa paisagem em que tudo foi reduzido a cinzas e, de repente, encontrar uma borboleta tão singela, tão frágil, que de alguma maneira é um dos poucos elementos que resistiu ao local, além do negro e das cinzas”, descreve.

“É uma tragédia que já estava anunciada, mas os culpados irão ser chamados à sua responsabilidade”

Manuel Malva alerta que a Serra da Lousã tem um “problema ecológico grave”, resultado de “décadas de inação por parte das entidades que que supostamente gerem a serra, com particular foco no Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF)".

"A invasão biológica por acácias foi ignorada durante anos, e ninguém demonstrou interesse em controlar a situação quando ainda havia tempo”, aponta.

“O Estado Português acumula mais de 10 anos de incumprimento. Ao longo desse tempo deveriam ter sido implementadas medidas de gestão ativa para a preservação desta Zona Especial de Conservação e para evitar tragédias como as que acabam de acontecer”, salienta o comunicado da Milvoz.

O biólogo considera tratar-se de uma "tragédia que já estava anunciada”, sobretudo pelo “enorme desleixo” por parte das entidades estatais face à “gestão da paisagem da serra, que nunca foi feita devidamente”.

"Temos extensíssimas áreas da serra que estão cobertas por eucaliptos, por acácias, por pinhal não gerido e esse tipo de floresta é um autêntico barril de pólvora”, acrescenta em entrevista, salientando que "esta situação da Lousã é representativa de um cenário que se multiplica por toda a paisagem do Norte e Centro de Portugal".

A solução, conclui o vice-presidente da Milvoz, passa por atuar na base do problema: “tornar a paisagem muito mais resistente e resiliente a estas catástrofes".

Para já, fica a sensação de “desilusão” e “vazio” naqueles que conheciam bem a Bio-Reserva Integral do Vale da Aveleira e a viram, em questão de horas, passar de um local "tão pujante de vida’ para um "cenário lunar, completamente negro”, retrata Manuel Malva.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Antes que tudo arda

Incêndio em Avô (Oliveira do Hospital)

Em 2017, Portugal enfrentou uma das suas maiores tragédias coletivas: o incêndio de Pedrógão Grande. Uma ferida que destruiu vidas, memórias e esperanças, e expôs a vulnerabilidade estrutural do país. Nesse ano, após ouvir diferentes vozes ligadas à prevenção e ao combate, preparei uma breve síntese sobre a situação da floresta portuguesa. O retrato era conhecido, mas revelou-se devastador: um mosaico desordenado de pequenas propriedades essencialmente privadas, muitas abandonadas; política florestal errática e ausente no terreno; uma vigilância insuficiente; proteção civil dependente de participação voluntária; meios aéreos privados caros, mas ainda assim ausentes; comunidades rurais envelhecidas e esquecidas. Em síntese: uma floresta frágil, altamente inflamável, e um Estado incapaz de salvaguardar o interesse público.

Passaram oito anos. Houve avanços: destacaria o BUPi e os processos de emparcelamento que abriram caminho para resolver a fragmentação fundiária; a criação da AGIF (Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais) e a sua ação programática trouxe mais visibilidade e expressão territorial à política florestal; a vigilância tecnológica progrediu; a proteção civil incrementou a capacidade de intervenção e preparação; a contratação de meios aéreos tornou-se mais transparente, mas ainda assim ineficaz.

No essencial, os bloqueios estruturais mantêm-se intactos. A floresta continua dividida, sem escala para uma gestão eficiente e transformadora. As políticas públicas do setor transitaram entre ministérios, mas permanecem sem coerência e incapazes de inspirar a confiança que o problema exige. A vigilância tecnológica cobre apenas parte da realidade diversa do país. A proteção civil, mais preparada, continua excessivamente dependente de esforço voluntário. O papel das Forças Armadas mantém-se episódico e sem coordenação local. Os projetos-piloto de mosaicos resilientes existem, mas são insuficientes para travar tendências e implementar a transição florestal, e as comunidades rurais continuam esmagadas pela burocracia e pelo abandono.

A verdade é que pouco mudou. A floresta portuguesa continua refém de interesses sobrepostos, centralismo sufocante e ausência de reformas estruturais que integrem floresta, agricultura, água e biodiversidade num mosaico vivo e resiliente. A acumulação descontrolada de biomassa, alimentada pelo abandono rural, transformou vastas áreas em depósitos de combustível à espera da próxima ignição. E manter grandes extensões de monocultura inflamável, num contexto climático cada vez mais adverso — com secas mais longas, ondas de calor mais intensas e ciclos de incêndio cada vez mais prolongados — é prolongar a catástrofe. É urgente diversificar espécies, apostar em ecossistemas resilientes, combinar produção florestal com regeneração ambiental e colocar a floresta ao serviço da segurança, da economia e da vida.

Esta mudança exige também um novo contrato com a indústria. O setor não pode ser assistente ou comprador de matéria-prima barata e combustível para exportação. Precisa de assumir corresponsabilidade na regeneração, investir em gestão sustentável, inovar em produtos de maior valor acrescentado e comprometer-se com a transição ecológica do país.

O futuro exige cinco escolhas inadiáveis: governança descentralizada com técnicos e meios próximos do território; uma reforma fundiária realista que permita gestão conjunta; a profissionalização parcial do combate, associada à prevenção; a assunção realista e firme do nexo entre floresta, agricultura, água, biodiversidade e clima; e, sobretudo, a reconstrução da confiança social, devolvendo às comunidades o papel de parceiras centrais, com incentivos claros e retorno económico justo.

Se 2017 foi o ano da tragédia, e 2018–2025 o tempo da resposta insuficiente, o próximo ciclo só pode ser o da reforma estrutural. Ou teremos a coragem de transformar a floresta portuguesa em alavanca de resiliência e futuro, ou continuaremos prisioneiros de um ciclo de fogo, abandono e luto.

Antes que tudo arda.

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

A maior desregulamentação climática da história dos EUA: Trump quer revogar limites às emissões


Em 29 de julho de 2025, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), sob a liderança de Lee Zeldin, anunciou a proposta de revogar o chamado endangerment finding — a declaração científica, aprovada em 2009, ainda no governo Obama, de que os gases com efeito estufa (nomeadamente CO₂) representam uma ameaça à saúde pública e ao bem-estar da população, anunciou a revista brasileira Veja. Esta constatação é a pedra angular legal que permite à EPA impor limites às emissões provenientes de veículos, centrais elétricas e operações de combustíveis fósseis.

Zeldin caracterizou esta proposta como “a maior ação de desregulamentação da história dos EUA”, afirmando que remover esta base legal abriria caminho para eliminar as normas existentes e impedir futuras regulações federais. A Veja refere ainda que o líder afirmou: “Estamos a encerrar o que chamo de graal sagrado da religião do clima”.

Para conseguir implementar com mais segurança as suas ideias, a Folha de São Paulo, diz ainda que Trump anunciou cortes de cerca de 65 % no pessoal da EPA, reduzindo significativamente a capacidade operacional da agência para fiscalizar e implementar políticas ambientais.

Mas ainda há luz ao fundo do túnel. Trump ainda não venceu. Um artigo de um só planeta diz que grupos ambientalistas e analistas jurídicos alertam que o plano de Trump enfrenta barreiras legais. Segundo eles, a constatação de 2009 baseia-se numa decisão do Supremo tribunal de 2007 que reconheceu que os gases com efeito de estufa podem ser considerados poluentes atmosféricos. A mesma fonte adverte também que o representante do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais (NRDC), David Doniger, é “praticamente impossível” que a EPA crie uma justificativa sólida para anular a constatação de 2009.

E porque isto é um problema? Por vários motivos, mas um dos mais importantes é que os EUA são o segundo maior emissor do mundo, pelo que andar para trás na regulamentação é colocar o planeta em maus lençóis.

Motivação política e expetativas legais
A política ambiental de Trump está inserida num plano estratégico amplo para resgatar a “dominância energética” dos EUA através dos combustíveis fósseis. Lee Zeldin foi nomeado para a EPA com o compromisso de acelerar desregulações e revitalizar a indústria automóvel e de combustíveis fósseis, diz o Diário de Notícias.

A administração afirma que o plano pouparia cerca de 52 mil milhões de dólares em custos (cerca de 47,84 mil milhões de euros) de conformidade regulatória. “No entanto, analistas legais e ambientais preveem batalhas judiciais intensas, por ferir decisões do Supremo Tribunal que sustentam a autoridade da EPA desde 2007”, lê-se no The Guardian.

Especialistas destacam ainda que empresas já investiram pesadamente em tecnologias limpas e transição energética — e que a instabilidade regulatória pode afastar investimentos duradouros, segundo a Reuters.

Para o The Guardian, se concretizadas, as medidas anunciadas representam um retrocesso sem precedentes na política climática dos Estados Unidos — com efeitos na saúde pública, na confiança institucional, no mercado global de energia limpa e na liderança internacional na emergência climática. Muitas destas medidas ainda estão sujeitas a consultas públicas (fase de 45 dias) e devem enfrentar desafios legais significativos nos tribunais federais.
Revogação das normas de emissões veiculares

Segundo noticiou a agência Reuters, em consequência da revogação da base legal, a EPA pretende também anular todas as normas federais de emissões de gases de veículos e motores, incluindo os limites para CO₂ emitido por escape. A revisão abrangerá também regras associadas, como eficiência de ar condicionado automóvel e monitorização de baterias. O impacto será particularmente grave no setor de transportes — o maior responsável pelas emissões nos EUA.

O relatório de "avaliação crítica" encomendado pelo regime de Trump para justificar este retrocesso na regulamentação climática dos EUA contém pelo menos 100 afirmações falsas ou enganosas, de acordo com um inquérito da Carbon Brief que envolveu dezenas de cientistas climáticos de renome.

Reversão das normas de emissões das centrais elétricas
Estas medidas já estavam a ser cozinhadas há muito. Desde junho de 2025, a administração Trump anunciou a intenção de reverter regulamentos que limitavam as emissões de dióxido de carbono e poluentes tóxicos, como o mercúrio, emitidos por centrais a carvão e gás natural. O argumento oficial é “que essas normas elevam os custos da eletricidade às famílias, enquanto Zeldin defende um “equilíbrio entre proteção ambiental e economia doméstica”, escreve o UOL Notícias.

Além disso, segundo noticiou o site da EuroNews, o governo de Trump considera que centrais elétricas não aumentam a poluição do ar, contudo, a mesma fonte afirma que 19 cientistas climáticos dizem que isso é um “absurdo” qualificando como factualmente incorreta a afirmação de que essas emissões “não contribuem significativamente para a poluição do ar”.

Retirada dos EUA do Acordo de Paris
Também não nos podemos esquecer que a 20 de janeiro de 2025, Donald Trump ordenou a segunda retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris, marcando o país como um dos poucos — como Irão, Líbia e Iémen — fora do pacto internacional de redução de emissões, mas 37 estados ainda estão comprometidos com o clima, representando 70% do PIB dos EUA por isso, ainda há esperança.

domingo, 17 de agosto de 2025

"Vamos embora", disse a ministra quando ia a ser confrontada com o que se está a passar nos incêndios


Decisão de não responder a perguntas surge no mesmo dia em que a Proteção Civil admitiu falhas num sistema crucial para os bombeiros (e não só). E há "muita coisa por explicar", está a ser "demasiado mau"
A declaração ao país da ministra da Administração Interna deste domingo durou menos de cinco minutos. Nela, Maria Lúcia Amaral comunicou que o Governo entendeu estender por mais 48 horas a situação de alerta face ao agravar dos incêndios - que já consumiram mais de 170 mil hectares e que, durante os últimos dias, levaram à morte de pelo menos duas pessoas, além de terem provocado destruição e consumido habitações e explorações agrícolas. No final, os jornalistas na sede da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil tentaram fazer perguntas à ministra, mas a Maria Lúcia Amaral recusou-se a responder. "Vamos embora", disse - e depois foi mesmo.

A CNN Portugal questionou a razão por trás desta decisão, mas não obteve resposta. 

A decisão do Ministério da Administração Interna de não responder às perguntas dos jornalistas surge no mesmo dia em que a Proteção Civil admitiu falhas no sistema SIRESP, a rede de comunicações do Estado para comando e coordenação de comunicações em situações de emergência. Um problema que tem sido recorrente de cada vez que o país enfrenta uma crise - aconteceu, por exemplo durante o apagão geral de abril deste ano - e que levou o comandante dos bombeiros Luís Martins a descrever o assunto desta forma à CNN Portugal: "A rede de SIRESP muitas vezes falha e todos os anos falamos disto. É mais do mesmo, é de lamentar que uma das ferramentas importantes dos bombeiros não esteja disponível para o combate." 

Não houve, no entanto, qualquer referência da parte da ministra ao SIRESP, sistema o Governo pretende substituir - depois de em julho ter anunciado uma prorrogação de um estudo técnico com "o objetivo de encontrar uma solução que assegure um sistema de comunicações robusto, fiável, resiliente, tecnologicamente adequado e plenamente interoperável". De resto, as explicações dadas pela ministra abordaram também os fatores naturais que têm prejudicado o combate operacional aos incêndios, como o "agravamento dos ventos" e o "fumo intenso". 

O comandante Jorge Mendes refere à CNN Portugal que há "muita coisa ainda por explicar". "Sabemos neste momento que há bombeiros parados à espera de indicações para combater incêndios. Há zonas de combate que estão sem rede de comunicação. Há um certo desnorte em algumas zonas. Depois de isto tudo ter terminado, espero que as pessoas responsáveis façam uma avaliação e retirem consequências. Isto é demasiado mau, temos Sabugal completamente rodeado de chamas, temos Seia com o mesmo problema. Alguém terá de tirar as suas consequências."

A comunicação da ministra foi feita ao país num momento particularmente difícil no combate às chamas no Sabugal, onde quatro aviões Canadair deram este domingo apoio no incêndio que afeta o concelho raiano da Guarda desde sexta-feira, o que acabou por evitar que as chamas atingissem a aldeia de Rapoula do Côa, que esteve cercada. Os fogos, no entanto, continuam em polos opostos - o que tem dificultado a resposta das autoridades.

Também em Seia, a frente que nasceu em Teixeira passou as Pedras Lavradas, no Parque Natural da Serra da Estrela, e progride “com grande violência” na direção da freguesia da Erada, na Covilhã. Foi também neste município que foi registada a segunda vítima mortal desta vaga de incêndios: tratou-se de um bombeiro que morreu num acidente de viação enquanto se deslocava para um incêndio no Fundão. Em comunicado, a Proteção Civil indicou que o acidente ocorreu pelas 19:10 e que existiram ainda “quatro bombeiros feridos, que estavam a ser resgatados/assistidos pelas equipas de emergência no local”.

Já em Pampilhosa da Serra, a situação tornou-se mais dramática nas últimas horas, com o presidente do município a explicar que o vento "mudou", avançou a "grande velocidade" e que o fogo ficou "completamente descontrolado". “Neste momento a dimensão está de tal maneira... está de tal maneira descontrolado que já não há carros suficientes até para proteger as povoações”, avisou o autarca. 

A situação mantém-se portanto "desfavorável" - nas palavras do Ministério da Administração Interna - dois dias depois de Portugal ter pedido ajuda europeia para responder aos incêndios. O Governo acionou o Mecanismo Europeu de Proteção Civil na sexta-feira após ter rejeitado, num primeiro momento, essa possibilidade. A 7 de agosto, o MAI justificava que o país não precisava de ajuda externa por ter meios suficientes para responder ao avançar dos fogos. "Ainda não chegámos, felizmente, e esperamos e contamos não ter de chegar, à verificação de que já não somos capazes de debelar um problema com os nossos próprios meios", referia, na altura, a ministra. 

Essa decisão criticada pela oposição. No início do mês, o Chega disse que iria questionar o Governo sobre o atraso na ativação do mecanismo e o PS garantiu na altura que o apoio deveria ter sido pedido antes de forma a pré-posicionar meios aéreos para o combate aos incêndios. "O tempo deu-me razão", disse este domingo José Luís Carneiro à CNN Portugal, acrescentando que "há falhas graves de coordenação e essa coordenação precisa urgentemente de um comando político".

Spark & Valer Sabadus - Seemann


A canção “Seemann” (em alemão, Marinheiro) é originalmente de 1960, interpretada por Lolita, um grande êxito da época.

O Rammstein fez uma versão em 1996 no álbum Herzeleid.
No contexto da banda, a letra mantém a essência melancólica da original: fala de solidão, despedida e a ideia de um marinheiro que parte para longe, deixando alguém para trás.

Komm in mein Bootein Sturm kommt aufund es wird Nacht
Wo willst du hinSo ganz alleintreibst du davon
Wer hält deine Handwenn es dichnach unten zieht
Wo willst du hinSo uferlosdie kalte See
Komm in mein BootDer Herbstwind hältdie Segel straff
Jetzt stehst du da an der Laternemit Tränen im GesichtDas Tageslicht fällt auf die Seiteder Herbstwind fegt die Straße leer
Jetzt stehst du da an der Laternehast Tränen im GesichtDas Abendlicht verjagt die Schattendie Zeit steht still und es wird Herbst
Komm in mein BootDie Sehnsucht wirdder Steuermann
Komm in mein BootDer beste Seemannwar doch ich
Jetzt stehst du da an der Laternehast Tränen im GesichtDas Feuer nimmst du von der Kerzedie Zeit steht still und es wird Herbst
Sie sprachen nur von deiner MutterSo gnadenlos ist nur die NachtAm Ende bleib ich doch alleineDie Zeit steht stillund mir ist kalt, kalt, kalt, kalt

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Cigarettes After Sex - Sunsetz


Sun sets, we wander through a foreign town
Strangely, there's nobody else around
See you open your dress and show me your tits
On the swing set at the old playground

And when you go away, I still see you
With sunlight on your face in my rear-view

Sun sets, I wanna hear your voice
A love that nobody could destroy
Took photographs like Brautigan's
Book covers that we both adored

And when you go away, I still see you
With sunlight on your face in my rear-view
This always happens to me this way
Recurring visions of such sweet days

And when you go away, I still see you
With sunlight on your face in my rear-view
When you go away, I still see you
With sunlight on your face in my rear-view

Há pessoas incríveis. Este youtuber transformou uma música dos CAS, colocando imagens do excelente filme de François Truffaut "Jules et Jim" de 1962. Um filme a rever. Paris, início do século XX. Jules (Oskar Werner), um judeu-alemão tímido, e Jim (Henri Serre), um francês extrovertido,  tornam-se grandes amigos. Eles têm muitos dos mesmos interesses, entretanto procuram alcançá-los de forma bastante diferenciada. Em uma viagem para uma ilha um pouco distante da Grécia, eles vêem uma estátua com um sorriso sem igual e quando voltam à Paris conhecem Catherine (Jeanne Moreau), que se parece com a escultura. Logo os três boémios se tornam um trio inseparável e eles têm muitos momentos agradáveis em passeios de bicicletas ou idas à praia. Enquanto o cenário político mundial estremece com a possibilidade da Primeira Grande Guerra, eles estão determinados em aproveitar a vida ao máximo e viver para o momento. Jules se apaixona por Catherine e implora a Jim que a deixe cortejá-la e não interfira. Jim concorda, então o trio vai para o sul da França, onde eles tem primorosas férias. Jules propõe casamento a Catherine, que aceita. Um pouco depois de retornarem a Paris eclode a Primeira Guerra Mundial. Assim Catherine e Jules vão para à Alemanha e os dois homens combatem em lados opostos da guerra. Após o armistício, Jules encontra Jim e pede para ele ir visitá-los em sua casa, um chalé no Rhineland. Jules e Catherine têm uma filha de cinco anos, Sabine (Sabine Haudepin). Jim pode ver imediatamente que o matrimónio está em crise. Catherine fala de todos os seus amantes para Jim, mas Jules quer manter o casamento a todo o custo, apesar do caso dela com Albert (Boris Bassiak), um outro amigo. Quando Jules decide que se ele não pode ter Catherine o melhor amigo dele deve tê-la, ele dá a sua aprovação para eles terem uma ligação. Jules divorcia-se de Catherine e assim ela e Jim podem casar, mas após algum tempo Jules quer vê-la imediatamente. Jim tem que voltar a Paris para um negócio e acaba se reencontrando com Gilberte (Vanna Urbino), uma antiga amante. Isto afeta de forma profunda a sua relação com Catherine, mas muitas coisas mais iriam acontecer.

Gonçalo Ribeiro Telles: “A limpeza das florestas é um mito”

O País está de novo a arder, como acontece todos os verões. O acontecimento é previsível mas não prevenido e os temas são sempre os mesmos: a floresta de eucaliptos e pinheiros, as falhas da proteção civil, a falta de condições de trabalho dos nossos bombeiros. Acrescentamos agora as alterações climáticas, que não merecem alguma atenção pot parte dos poderes políticos. Passaram 22 anos desde que fizemos esta entrevista a Gonçalo Ribeiro Telles, arquiteto paisagista e “pai” do ecologismo português. Não perdeu um pingo de atualidade. Vale a pena voltar a ler as suas palavras e perceber como nada aprendemos com a História, nenhuma lição retiramos dos nossos erros, continuando ano após ano na permissividade da celebração do eucaliptal.

Quais são as causas desta calamidade?

A grande causa é um mau ordenamento do território, ou seja, a florestação extensiva com pinheiros e eucaliptos, de madeira para as celuloses e para a construção civil. O problema foi uma má ideia para o País, a de que Portugal é um país florestal. Lançou-se a ideia de que, tirando 12% de solos férteis, tudo o resto só tem possibilidades económicas em termos de povoamentos florestais industriais.

De onde vem essa ideia?

É uma ideia antiga que começou nos anos 30 com a destruição, também por uma floresta extensiva, das comunidades de montanha do Norte de Portugal, que tinham a sua economia baseada na pecuária. As dificuldades por que passava a agricultura deram origem a que se quisesse transformar grandes áreas do País já são 36% em florestas industriais. Esta campanha transformou a silvicultura, que era a profissão básica, numa profissão de florestal, para dar resposta aos grandes interesses económicos. Houve ainda outra campanha, a do trigo, em que se organizou o País em função desta cultura, que tinha por base o mito da independência de Portugal em pão. Além das terras para o trigo, tudo o resto, num sistema de agricultura economicista, tem que ser floresta, produção de madeira. O resultado está à vista.

Passámos então a ser um País florestal.

Os romanos dividiam o território em três áreas, além da urbe: o ager, que era o campo cultivado intensamente; o saltus, a pastagem, a agricultura menos intensiva; e a silva, a mata de produção de madeira e de protecção. Todo esse ordenamento foi transformado, acabou-se com a silvicultura e começou o culto da floresta, que não temos. Se formos ao campo perguntar onde fica a floresta, eles só conhecem a do Capuchinho Vermelho, porque o que têm na sua terra são matas, matos, etc. No século XIX, o pinheiro bravo veio para responder às necessidades do caminho-de-ferro que estava em lançamento. Mais tarde é que vem a resina, a indústria da madeira e a celulose. O pior é que se transformou o País num território despovoado e que, dadas as características mediterrânicas, arde com as trovoadas secas.

Como deve ser reordenado o território?

O País está completamente desordenado. Por um lado, uma política agrícola que não considera o mosaico mediterrânico, com agricultura, pecuária, regadio e horticultura, os matos, as matas, todo um mosaico interligado e ordenado. Em Mação, por exemplo, aquela população vivia tradicionalmente da agricultura que fazia nos vales e nas naves.

E na serra existiam os matos pastados pelas cabras, pelos bovinos. Dos matos retirava-se o mel, a aguardente de medronho, a caça e as aromáticas. A França, nas zonas de mato, tem uma política de aromáticas de abastecimento da indústria de perfumes. A questão, hoje, é criar uma mata que produza madeira, mas que se integre nos agro-sistemas, uma paisagem sustentada, polivalente e nunca repetir, como já querem, a plantação de eucaliptos e de pinhal. As populações estão fartas disso e devem ser chamadas a depor. E tem que haver duas intenções ecológicas fundamentais: a circulação da água e a circulação de matéria orgânica, aproveitando-a para melhorar as capacidades de retenção da água do solo.

A excessiva divisão do território (em meio milhão de proprietários) dificulta as limpezas florestais?

A limpeza da floresta é um mito. O que se limpa na floresta, a matéria orgânica? E o que se faz à matéria orgânica, deita-se fora, queima-se? Dantes era com essa matéria que se ia mantendo a agricultura em boas condições e melhorando a qualidade dos solos. E, ao mesmo tempo, era mantida a quantidade suficiente na mata para que houvesse uma maior capacidade de retenção da água.

Com a limpeza exaustiva transformámos a mata num espelho e a água corre mais velozmente e menos se retém na mata, portanto mais seco fica o ambiente.

Se as matas estivessem bem limpas ardiam na mesma?

Ardiam na mesma e a capacidade de retenção da água não se dava, passava a haver um sistema torrencial. A limpeza tem que ser entendida como uma operação agrícola. Mas esta floresta monocultural de resinosas e eucaliptos, limpa ou não limpa, não serve para mais nada senão para arder. Aquela floresta vive para não ter gente. Se houvesse lá mais gente aquilo não ardia assim.

Defende uma mata com que tipo de madeiras?

Madeiras para celulose é difícil porque temos agora uma forte concorrência no resto do mundo. Os eucaliptais, para serem mais rentáveis, só poderiam sê-lo no Minho que é onde chove mais de 800 ml ao ano. O eucalipto precisa de muita água e Portugal não pode concorrer com o Brasil e a África em termos de custo. Só se transformarmos o Minho num eucaliptal. Pode-se optar pelas madeiras de qualidade da cultura mediterrânica como todos os carvalhos, o sobreiro, a azinheira e pinhais criteriosamente distribuídos.

Não são tão rentáveis…

O carvalho, por exemplo, acompanha toda uma panóplia de rendimento como a cortiça, a pecuária, a produção do mel, das aromáticas, a caça.

Há uma visão limitada do que pode ser rentável na floresta?

É muito bom para as celuloses e muito mau para as populações e para o País, que está devastado. O mundo rural foi considerado obsoleto, como qualquer coisa que vai desaparecer. Veja-se o disparate que foi a política de diminuição dos ativos na agricultura. Contribuiu para o aumento dos subúrbios, dos bairros de lata, da emigração. Trouxe alguma coisa melhor para a província? Não. Apenas um grande negócio para as celuloses e para os madeireiros.

As populações estão alertadas para essa multiplicidade de culturas?

Completamente alertadas; quem parece que não está são os políticos e os técnicos. Porque se perderam numa floresta de «números». Quem conhece as estatísticas diz que somos o terceiro país da Europa em número absoluto de tratores, só ultrapassados pela Alemanha e pela França. Somos um país de tracto res porque os subsídios dão para isso, porque interessa à importação dessa maquinaria toda. As pessoas foram levadas a investimentos, em nome do progresso, que não tinham qualquer racionalidade.

No caso de se aumentarem as áreas agrícolas, temos agricultores para tratar delas?

Temos. Estão desviados, foram convencidos de que eram uns labregos. Houve toda uma política de desprestígio do mundo rural tendo por base a ideia de que era inferior ao mundo urbano. Despovoámos os campos e essa gente toda veio para a cidade. Hoje, enfrenta o desemprego. Esqueceram-se que o homem do futuro vai ser cada vez mais o homem das duas culturas, da urbana e da rural. Hoje, 30% das pessoas que praticam a agricultura económica na Europa não são agricultores. É gente que vive na cidade, tem lá o seu escritório e tem uma herdade no campo onde vai aos fins-de-semana. A expansão urbana aumenta e não podemos viver sem a agricultura senão morremos à fome.

Que pode fazer o Estado, uma vez que 84% da nossa floresta está nas mãos dos proprietários?

Pode fazer planos integrados de ordenamento da paisagem. O Estado não domina totalmente a expansão urbana quando quer, não faz planos gerais de urbanização? Não se devia poder plantar o que se quer porque também não se pode construir o que se quer. Constrói-se mal porque, às vezes, o Estado adormece. Faltam planos gerais de ordenamento de paisagem, que a actual legislação não contempla, apesar de já ter instituído a Estrutura Ecológica Municipal através do Decreto-Lei 380/99. A Lei de Bases do Ambiente tem os conceitos e os princípios para um plano de ordenamento de paisagem, está lá tudo escrito, mas nunca foram regulamentados.

A actual legislação favorece as monoculturas?

Favorece porque a chamada «modernização» da agricultura é um escândalo de incompetência. As universidades de Agronomia em Portugal tiveram um período de grande pujança intelectual no fim do século XIX e no princípio do século XX. Agora, parece terem-se rendido ao economicismo.

Deve o Estado apoiar com subsídios e benefícios fiscais?

Com certeza. O proprietário está com a corda na garganta, faz aquilo que lhe der dinheiro já para o ano. Por isso, têm que se estabelecer limites e normas a sistemas, não a culturas, mas sem tirar às pessoas a liberdade de correr riscos.

E promover o associativismo florestal, como em Espanha, por exemplo?

Abrimos um bom caminho com as «comunidades urbanas» que estão na forja, pequenas áreas metropolitanas de freguesias e aldeias, acho muito bem. Estamos numa cultura mediterrânica e não se pode traduzir o desenvolvimento em unidades economicistas de produção em grande volume de dois ou três produtos. É da polivalência, da multiplicidade de produtos e da harmonia da paisagem que resulta a possibilidade de ter uma população instalada em condições de dignidade.

Essas comunidades é que deverão fazer a síntese de todos os interesses. Porque quando começamos a destacar os interesses por sector, a visão sistémica desaparece e os interesses da comunidade passam para empresas que ultrapassam as suas fronteiras comprometendo a sustentabilidade da região.

Não defendo que haja um sector agrícola e um sector florestal, para mim é exactamente o mesmo: a agricultura completa a floresta e a floresta completa a agricultura.

O Partido Socialista voltou a falar da regionalização como forma mais eficaz de ordenar o território. Concorda?

Defendi uma regionalização há muito tempo, que deu origem a um documento de que os grandes partidos fizeram muita troça. Dividia o País em cerca de 30 regiões naturais, áreas de paisagem ordenada, que estavam já organizadas histórica e geograficamente.
São as terras de Basto, as terras de Santa Maria, as terras de Sousa, a Bord’água do Tejo, etc. O País é isso e não é outra coisa. Esta regionalização podia contribuir para a efectivação dos planos de ordenação da paisagem, com uma participação democrática das respectivas populações.

O Governo acordou tarde para a calamidade dos incêndios?

Que podia o Governo fazer? O mal vem de longe. Mas não estou seguro de que se vá enveredar agora pelo caminho certo. Já estão a dizer que querem reflorestar tudo como estava. Fico horrorizado quando ouço isso. Significa que querem voltar aos pinheiros e aos eucaliptos. Perguntem às vítimas dos incêndios que ficaram sem as casas se querem outra vez pinheiros à porta. Destruíram as hortas… Porque ardem as casas? Porque o pinheiro está no quintal.

Olhando para o futuro, os incêndios podem constituir uma oportunidade para se reorganizar o território?

Também o terramoto permitiu que o Manuel da Maia, a mando do Marquês de Pombal, fizesse a Baixa lisboeta. Não desejo um terramoto, mas não percam esta oportunidade. O futuro do País e da sua identidade cultural e independência está em causa.

(Entrevista publicada na VISÃO 545, de 14 de Agosto de 2003)