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domingo, 9 de agosto de 2026

Filantrocapitalismo e Greenwashing: o que revela a parceria de Leonardo DiCaprio e Jeff Bezos

A imagem retrata o anúncio da iniciativa Protect Our Planet Challenge, lançada em parceria pela Re:wild de Leonardo DiCaprio, pelo Bezos Earth Fund de Jeff Bezos e outras organizações, visando criar um fundo de 200 milhões de dólares para a conservação da biodiversidade na Amazónia e noutros ecossistemas críticos. Poucochinho. De Bezzos, já sabia.

Estou pouco desiludido com DiCaprio e digo porquê. Enquanto professor, que promovi os seus excelentes documentários pensando que promovia educação ambiental de excelência, mudei de estratégia há cerca de 10 anos para cá. Esta notícia, oferece mais um caso prático perfeito para desenvolver o pensamento crítico, permitindo debater com os Alunos temas como greenwashing, filantrocapitalismo, a diferença entre responsabilidade individual e mudanças sistémicas e a forma como os grandes fundos operam na conservação global.

Por outro lado continuo a estimular a literacia mediática e a análise de financiamento, levando os Alunos a questionar quem financia a conservação global e quais as motivações por trás desses investimentos, o que ajuda a construir uma visão mais madura, pragmática e menos idealizada do ativismo ambiental contemporâneo.

Não invalidando o valor científico e o alerta ecológico presentes em documentários como Before the Flood ou Virunga, que continuam a ser factualmente válidos e urgentes, continuarei a denunciar a enorme pegada de carbono associada ao modelo de negócio da Amazon, da produtora de DiCaprio, aos voos em jatos privados e ao estilo de vida das elites globais.

Ao estruturar essa denúncia e debate com os alunos, sobressaem vários eixos críticos fundamentais.

O primeiro foca-se na tensão entre democracia e poder oligárquico, promovendo uma discussão sobre como super-ricos, como Jeff Bezos, Bill Gates, DiCaprio ou Elon Musk, usam fundações privadas para definir a agenda pública global na saúde, educação e ambiente sem prestação de contas, legitimidade democrática ou voto dos cidadãos.

O segundo eixo aborda as isenções fiscais e acumulação, expondo a contradição entre a evasão ou otimização fiscal praticada por grandes corporações - que retira receitas fiscais aos Estados para serviços públicos - e a subsequente "doação" de uma fração dessa riqueza sob a forma de caridade dedutível nos impostos.

O terceiro ponto centra-se nas operações de relações públicas e washing, analisando o uso da filantropia de alto perfil como escudo mediático para limpar a reputação de modelos de negócio baseados na exploração laboral, extração intensiva de recursos ou emissões massivas de carbono.

Por fim, debate-se a imposição de soluções de mercado para problemas do mercado, criticando a tendência de tentar resolver crises ecológicas e sociais usando as mesmas ferramentas e lógicas económicas que geraram essas crises, em vez de promover reformas estruturais ou regulatórias profundas.

Para fundamentar esta análise crítica em termos teóricos e jornalísticos, destaco as obras de referência como:
1. "Winners Take All: The Elite Charade of Changing the World", de Anand Giridharadas, que oferece uma das críticas mais diretas ao filantrocapitalismo contemporâneo
3 . "The Charitable-Industrial Complex", ensaio escrito por Peter Buffett (filho de Warren Buffett), no qual denuncia o "lavatório de consciência" promovido pelas elites globais.

Ler mais:
A ilusão verde de Hollywood: o paradoxal império de Leonardo DiCaprio

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Despejo dos hortelões no Porto - "Misericórdia" só de nome


O caso do despejo dos utentes da Horta Comunitária do Porto deixa-me triste e indignado. Contrariamente ao último relatório da SCMP (2025), que é totalmente positivo - destacando inclusive a atribuição de 62 novos talhões, em 2025, no âmbito do projeto Horta à Porta -, a realidade atual demonstra o oposto.

Uma instituição cujo foco histórico é a "Misericórdia" e o apoio social não pode extinguir um projeto com tanto impacto positivo na comunidade e na sustentabilidade urbana. Com esta decisão, a SCMP comporta-se como uma empresa privada de saúde mental, descurando o facto de que o contacto com o meio ambiente é parte fundamental da terapia e da recuperação dos utentes. Inúmeros estudos clínicos comprovam que tratar a saúde mental ignorando o meio ambiente e a natureza é uma abordagem clinicamente ineficaz. 

Isto traduz-se em pura lavagem verde (greenwashing), fazendo desaparecer, em pouco mais de três meses, uma das maiores hortas urbanas da Europa.

A polémica em torno do fim das hortas públicas da LIPOR no Porto (o programa "Horta à Porta") e o consequente despejo dos hortelãos é o reflexo perfeito de um trade-off político e social - aquele cenário clássico em que, para se ganhar de um lado, tem de se sacrificar o outro, sem que exista uma solução que agrade a todos. No centro da discussão, a postura do executivo liderado por Pedro Duarte ilustra bem esta balança de prioridades.

De um lado da balança, a autarquia e os proprietários dos terrenos, como a Santa Casa da Misericórdia do Porto (dona do espaço junto ao Hospital Conde Ferreira), justificam a desocupação com a necessidade de avançar com planos de reestruturação interna. No caso da Misericórdia, o argumento oficial não é a venda dos terrenos para a especulação imobiliária, mas sim a modernização e requalificação do complexo hospitalar, além da reorientação da horta para fins puramente terapêuticos e sociais da própria instituição. Sob o ponto de vista da gestão de ativos, trata-se de rentabilizar e ordenar o património para garantir a sustentabilidade das suas próprias obras de assistência.

Do outro lado da balança, o custo deste ganho institucional é inteiramente social e ambiental. O encerramento do projeto destrói uma das maiores redes de hortas comunitárias da Europa, retira o sustento e o passatempo de mais de duas centenas de famílias e elimina focos essenciais de biodiversidade e coesão social no meio do asfalto da cidade. É precisamente aqui que o trade-off se torna mais evidente para Pedro Duarte: ao focar-se na gestão rigorosa de ativos, na reavaliação de cedências antigas e na aplicação estrita da lei sobre a ocupação dos terrenos, o executivo municipal prioriza a eficiência e o ordenamento do património público. Contudo, assume o pesado custo reputacional e político de ser criticado pela oposição por falta de sensibilidade social e pela ausência de alternativas viáveis de realojamento para os produtores locais. 

Mesmo que o objetivo declarado não seja o lucro imediato através de imobiliário, a decisão mexe com feridas abertas na cidade. O receio da oposição e dos hortelãos de que a libertação destes espaços centrais acabe por abrir portas à pressão imobiliária a longo prazo é o que alimenta o conflito. A atuação do executivo neste caso não se resume a um acerto ou erro absoluto, mas sim à escolha consciente de um dos lados da balança; é uma escolha ideológica e de gestão. Optou-se pelo ordenamento e requalificação dos equipamentos, aceitando como "dano colateral" o desalojamento de uma comunidade que ali tinha criado raízes.

domingo, 5 de julho de 2026

Europe to redefine oil as “sustainable”


The Council's Sustainable Finance Disclosure Regulation (SFDR) revision drops the exclusion that kept fossil fuel expansion out of Europe's transition funds. The decision landed in the middle of the continent's most severe heatwave on record.

In the same week that France logged its hottest day since national records began in 1947, the European Union moved to loosen what the word “sustainable” is allowed to mean on a fund label.

The two events were not connected by design. They were connected by date. On June 24, as a heatwave that the World Weather Attribution group of scientists described as the most severe ever recorded in the region gripped Western Europe, the Council of the European Union adopted its negotiating position on a revision of the SFDR, the EU's rulebook for sustainable financial products. The same group of scientists concluded that June heat of this intensity would have been virtually impossible fifty years ago without human-caused warming. By the end of that week, the World Health Organization's director-general said more than 1,300 excess deaths had been recorded across Europe since June 21.

That was the backdrop against which Europe decided to make room for oil in its sustainable investment rules.
The Council removed the one line that kept oil expansion out of sustainable funds


SFDR was built in 2021 to do two things: steer capital toward the low-carbon transition, and make greenwashing harder. The current revision, often called SFDR 2.0, sorts products into three new categories: sustainable, transition, and ESG basics.

The European Commission's own proposal would have excluded companies expanding their fossil fuel activities from the transition category altogether. The Council deleted that exclusion. In its place, a company opening new oil and gas fields can still qualify for a transition label, provided that around 20% of its capital expenditure is aligned with the EU taxonomy of green activities, and that it adopts a time-bound plan to reduce its operational emissions.

Consider a company that pours the bulk of its capital into expanding oil production and a fifth into wind and solar. Under the Council's proposal, it could still carry a transition label. That label is not cosmetic. Transition and sustainable funds shape how pension funds, insurers, and asset managers allocate trillions of euros, so what the word certifies is not a technicality.

A 20% test on the wrong emissions cannot capture an oil company's real footprint
Here is the detail the headline number hides. The requirement to cut emissions covers a company's Scope 1 and Scope 2, the pollution from running its own operations. It does not touch Scope 3, the emissions released when customers burn the oil and gas the company sells. For a fossil fuel producer, Scope 3 is the overwhelming majority of the harm, by many estimates 80% to 95% of the total. The rule scores the small share and ignores the rest.

The scale of the mismatch is easy to miss. Global clean energy investment is on track to reach around $2.2 trillion in 2026, close to double the money flowing into fossil fuels, according to the International Energy Agency. Yet oil and gas companies account for less than 5% of that clean energy spending. A rule that rewards a 20% capex slice, while ignoring the product itself, measures the smallest part of the story.

A few billion invested in renewables does not cancel out billions spent locking in new fossil production for decades. One reduces future emissions; the other commits them. They are not equivalent, financially or scientifically.

The new definition mirrors the position of a company a court has already faulted
The Council did not invent these criteria in a vacuum. They closely resemble arguments long advanced by parts of the oil industry, which has pressed for a transition category broad enough to take in continued fossil production. TotalEnergies is the most visible example. Between January and June 2026, according to European Parliament transparency records, the company held around 35 meetings with members of the Parliament, several referencing SFDR directly, and its own strategy targets putting 20% of its portfolio into power and low-carbon energy by 2030, the same one-fifth threshold the Council settled on. That is not proof that one produced the other. It is a striking convergence between what an oil major asked for and what member states agreed.

There is a sharper irony in the timing. In October 2025, the Paris Judicial Tribunal found that TotalEnergies had misled consumers with claims about its ambition to reach carbon neutrality by 2050, made while it continued to expand oil and gas production, and ordered the offending statements removed. The company said it would not appeal, and the judgment became final. Less than a year later, the Council is proposing a definition of transition that would let a company doing what the court described, expanding fossil fuels while investing a minority share in cleaner energy, carry a transition label across Europe.

The court's reasoning lands on the same point the fund rule misses. What made the claim misleading was the gap between a transition image and continued fossil expansion. The Council's 20% test widens that gap and stamps it as compliant.

I put these questions to TotalEnergies before publication of this article. In response, a company spokesperson said:
“TotalEnergies' position on the SFDR is well known and has been publicly expressed by the Company in its response to the European Commission's consultation dated 6 April 2026. It is available on the European Commission's website.”
On the court ruling, the spokesperson referred me to a company clarification.

In that clarification, TotalEnergies stresses that the tribunal dismissed most of the claims against it, that the decision concerned three paragraphs about its carbon-neutrality ambition on a French affiliate's customer website rather than its advertising, and that no advertising by its French affiliates was condemned. The company rejects the charge of greenwashing and sets out its record at length: more than €20 billion invested in low-carbon energy worldwide since 2020, €4 billion of it in France; 32 gigawatts of installed renewable capacity producing 50 terawatt-hours of electricity in 2025, up from close to zero in 2020; selection to build France's largest ever renewables project, a €4.5 billion offshore wind farm; and cuts of 36% in emissions from its operated oil and gas facilities between 2015 and 2024, and 55% in methane between 2020 and 2024.

Those last figures, though, are reductions on the company's own operations, the Scope 1 and 2 the fund rule already counts, not on the far larger emissions released when the oil and gas it sells are burned.
The Council says fossil fuel companies still have a role to play

Asked about the greenwashing criticism, a Council spokesperson said companies active in the fossil fuel sector can still contribute to the transition, for example by developing low-carbon fuels or building electric vehicle charging infrastructure.

Campaigners see it differently. Reclaim Finance argued that governments had given in to lobbying from oil majors and opened the door to greenwashing of fossil fuel investment, framing the coming parliamentary vote as a choice between a fossil future and the wellbeing of European citizens.
A weaker label still has to point in the right direction

The Council's defenders make a real argument, and it deserves a fair hearing. The transition category was never meant to be the strictest tier. It exists to finance messy, real-world decarbonization rather than a handful of already-clean companies, and drawing the line too hard, they warn, would only push capital out of Europe into markets with weaker disclosure, or starve the hard-to-abate sectors that most need it.

The argument holds until you look at what the test actually rewards. A transition label, however lenient, has to certify one thing, that a company is moving away from fossil fuels. The Council's version does not require even that. A company can raise its oil output year after year and still qualify, as long as a fifth of its spending points elsewhere. That is not a permissive standard for transition. It is the absence of one, on the single variable that decides whether a transition is happening at all.

There is also a cleaner way to do the thing the rule claims to enable. An oil company that wants to raise money for a wind farm can already issue a green bond, where the proceeds are ring-fenced to that named project and reported on. The capital reaches the clean asset without the parent company's oil expansion borrowing the "sustainable" label. That is the honest instrument, and it exists. What the Council's change adds is not access to green finance but permission to badge the whole enterprise, oil growth included, as transition.

And the fear of capital fleeing Europe cuts the other way. A label that certifies expansion in order to keep money onshore has not kept the money honest. It has moved the greenwashing inside the rulebook.
The decision is not final, and that is where the leverage sits

The Council has agreed only its negotiating position. The European Parliament's economic affairs committee is due to vote on its amendments on July 15, with the full Parliament expected to adopt its position after the summer, before trilogue negotiations with the Council and the Commission later in the year. The direction can still change.

The exclusion the Council stripped out was the Commission’s own. Under the Commission’s proposal, companies expanding their fossil fuel activities are barred from the transition category outright. But the Commission is not a bystander here. It opened the SFDR up in the name of simplification, a drive to cut reporting burdens on the financial industry, and the Council followed that logic a step further. A revision the Commission sold as a remedy for greenwashing is turning into a license for it.

I asked the European Commission directly whether it stands by that exclusion and will defend it in the negotiations. Its full, on-the-record reply was this:

“The Commission remains fully committed to engaging constructively with the co-legislators to achieve a balanced and timely agreement on the proposal.”
A spokesperson also referred me to the Commission's published reasoning, which sets out the exclusion in its own text.

The response leaves the Commission's position open to interpretation. While it does not say the Commission has abandoned its original proposal, it also does not explicitly reaffirm that it will defend this particular safeguard during the negotiations. The stronger rule still exists on paper. Whether it survives the legislative process will depend on the negotiations ahead, and particularly on the outcome in the European Parliament.

The problem was never the oil. It is the label.
Here the argument is easily misread, so it is worth stating plainly. The world will keep burning oil for years while it builds the alternatives. Reasonable people can debate whether Europe is better off pumping some of its own rather than importing every barrel, and amid a run of Middle East supply shocks, that energy-security case is not frivolous. But it is a different question from the one the Council has answered.

Nobody has to call a new oil field clean in order to keep the lights on. Oil can be produced, taxed, regulated, and wound down on a schedule, without being sold to a saver as a contribution to the energy transition. The decision in front of Europe is not whether the oil comes out of the ground. It is whether pulling it out counts as sustainable investment. That is the smaller question, and the far more dangerous one.

If oil is green, nothing is
A sustainable label is not a badge of virtue. It is a piece of information. Markets run on information. A pension fund, an insurer, or a saver moving money into a green product cannot audit a company's drilling plans. They trust the label to tell them what their capital is doing. Europe's sustainably labeled fund market, worth around €10 trillion, exists because that one word is assumed to mean something specific.

Stretch the word to cover a company opening new oil fields, and it stops carrying information. If the same label sits on a wind developer and on an oil major with a 20% side project, it no longer tells them apart. The investor who wanted the real thing can no longer find it. And the company doing the genuine, expensive work of transition loses the one advantage the label was meant to confer, cheaper capital and patient shareholders who believe the plan. Economists have a plain description for markets where buyers cannot separate quality from imitation. The honest product gets crowded out, and in time nobody pays a premium for the label at all.

The damage does not stop at oil. Once extraction qualifies as transition on a one-fifth capex test, every hard-to-abate sector arrives with the same claim, coal with a capture pilot, an airline with a fuel pledge, until the category describes almost everyone, which is another way of saying it describes no one. If oil extraction is green, the honest answer to what is not green becomes very little.

The timing sharpens the risk. Sustainable investing is already on the back foot, worn down by years of greenwashing scandals, funds quietly stripped of their green labels, and a political backlash that treats ESG as an insult. The SFDR move is not an isolated event. In the same days, under pressure from the Trump administration, the World Bank retired its headline target to steer 45% of lending toward projects with climate benefits, and the International Monetary Fund’s own watchdog reported a fading focus on climate, even as the underlying programs survived. That survival was not a gift: at the World Bank, a coalition of nearly 100 countries held the line and forced the plan to continue over Washington's objection, a reminder that the pressure runs both ways. Trust in the category is the scarce resource, and the SFDR revision was written to rebuild it with clearer and stricter definitions. On this one provision, it would do the reverse. It would take the reform meant to restore the meaning of sustainable finance and spend it dissolving the meaning of the word at its center.

Europe does not have to choose between energy security and climate credibility. It can pursue both. What it cannot do is tell investors that new oil production is sustainable without changing the meaning of the word itself. The July vote decides more than the fate of one regulation. It decides whether a green label still carries information an investor can trust, and with it the integrity of the market built on that single word.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O sistema Volta - puro Enshittification


Já tinha falado sobre isso aqui

A SDR Portugal, uma associação sem fins lucrativos, é apresentada como uma das grandes conquistas da nova economia circular. Uma solução moderna, sustentável e inevitável para aumentar as taxas de reciclagem e aproximar Portugal dos objectivos ambientais europeus. A narrativa pública é simples, eficaz e cuidadosamente construída: devolver embalagens para salvar o planeta.

Consumir continua perfeitamente aceitável. Desde que a culpa venha com código de barras e seja colocada na máquina correcta.

O presidente da SDR Portugal é Leonardo Bandeira de Melo Mathias, antigo Secretário de Estado Adjunto e da Economia no governo de Pedro Passos Coelho. Um dos vice-presidentes é António Augusto dos Santos Casanova Pinto, vice-presidente do Conselho de Administração da Sumol Compal Marcas e administrador executivo do grupo.

Segundo o Relatório e Contas de 2024 da própria SDR, os órgãos sociais não são remunerados. No entanto, os gastos com remunerações em 2024 ascenderam a €136.333,25 antes de impostos (Seg. Social + IRS). O número de pessoas ao serviço em 31 de Dezembro de 2024 era de apenas 3, sendo referido no relatório que existia um Director-Geral contratado desde Junho de 2022 e que apenas em Dezembro de 2024 foram contratados um Director de Operações e um Director de Tecnologias de Informação.

Ou seja, durante praticamente todo o exercício de 2024, o grosso dos encargos salariais esteve concentrado numa única pessoa e com um valor (€9.738 líquidos /mês) bastante interessante para uma estrutura ainda em fase inicial de operação. Afinal, até a reciclagem moderna exige a sua pequena aristocracia técnica.

O próprio Relatório e Contas revela ainda outro detalhe particularmente curioso: existe um conjunto de grandes empresas que realizaram empréstimos à SDR, os quais, segundo o Relatório de Gestão, serão pagos “quando a associação tiver meios financeiros para o fazer”.

Traduzindo do dialecto institucional para português corrente: o dinheiro há-de voltar. Ou seja, não se trata propriamente de capital a fundo perdido nem de um gesto puramente filantrópico. Trata-se de dinheiro que deverá regressar futuramente a quem o colocou no sistema.

Entre os credores encontram-se:
Auchan Retail Portugal, S.A.: €247.000
ITMP Alimentar, S.A.: €247.000
Super Bock Bebidas, S.A.: €247.000
Pingo Doce - Distribuição Alimentar, S.A.: €247.000
Lidl & Companhia: €247.000
Modelo Continente Hipermercados, S.A.: €247.000
Sumol Compal Marcas, S.A.: €247.000
Coca-Cola Europacific Partners Unipessoal, Lda: €247.000
SCC - Sociedade Central de Cervejas e Bebidas, S.A.: €247.000
Unilever Fima, Lda: €247.000
Total: €2.470.000

A pergunta verdadeiramente interessante não é se o sistema é ecológico. É perceber como, quando e através de que mecanismos financeiros estes valores serão recuperados. Porque num sistema financiado por depósitos, taxas, fluxos operacionais e receitas futuras associadas à reciclagem, alguém acabará inevitavelmente por pagar a factura final da virtude ambiental.

No entanto, quando se observa o modelo para além da superfície publicitária e das campanhas institucionais, percebe-se que talvez estejamos perante algo bastante mais complexo do que uma simples iniciativa ecológica.

O que está a ser criado não é apenas um sistema de reciclagem. É uma infraestrutura económica, logística e tecnológica de enorme dimensão, construída em torno da circulação permanente de embalagens, depósitos, dados e contratos.

A lógica do mecanismo parece inocente. O consumidor compra uma bebida, paga um valor adicional associado à embalagem e recupera esse montante caso a devolva num ponto autorizado. À primeira vista, trata-se apenas de um incentivo comportamental. Uma pequena penalização temporária destinada a ensinar adultos a colocar recipientes vazios no sítio correcto. Mas é precisamente aqui que o modelo se torna interessante. O sistema não vive apenas da reciclagem. Vive sobretudo da arquitectura financeira criada à volta da reciclagem.

Cada embalagem deixa de ser apenas um recipiente descartável e transforma-se numa unidade económica rastreável:
- alguém paga
- alguém recolhe
- alguém valida
- alguém transporta
- alguém processa
- alguém monitoriza
- alguém factura

A garrafa já não termina no lixo. Passa a circular dentro de uma cadeia económica cuidadosamente organizada, onde praticamente cada etapa gera actividade financeira.

O primeiro aspecto raramente explicado de forma transparente é a importância dos depósitos não reclamados. Nem todas as pessoas irão devolver embalagens. Nem todas terão tempo. Nem todas terão máquinas próximas. Nem todas guardarão garrafas em casa. Nem todas considerarão justificável deslocar-se por alguns cêntimos. Nem todas transformarão a cozinha numa extensão informal do centro de triagem nacional.

E é precisamente aí que surge uma das peças mais relevantes do sistema. Os depósitos pagos e nunca recuperados permanecem dentro do circuito financeiro da estrutura. Ou seja, uma parte significativa da sustentabilidade económica do modelo assenta não apenas na reciclagem, mas também na inevitável imperfeição humana.

E aqui vale a pena pegar nas próprias palavras do presidente da SDR Portugal:
“Só para lhe dar um enquadramento, são consumidas em Portugal 2,1 mil milhões de garrafas de plástico (PET) até três litros. E as latas de aço e de alumínio, portanto, são 2,1 mil milhões de unidades por ano. Agora imagine…”
Sim, vamos então imaginar.
Com optimismo ambiental, admitamos que 70% das embalagens são devolvidas. Isso significa que 30% ficam fora do circuito de retorno.
2,1 mil milhões × 30% = 630 milhões de embalagens não devolvidas.
Multiplicando por um depósito de 10 cêntimos:
630 milhões × €0,10 = €63 milhões.

Ou seja, mesmo num cenário bastante optimista, estariam potencialmente 63 milhões de euros anuais a permanecer dentro do sistema apenas através de depósitos não reclamados.

Agora abandonemos por momentos o optimismo institucional e ambiental. Se a taxa de retorno fosse de 50%, então metade das embalagens não regressaria:
2,1 mil milhões × 50% = 1.050 milhões de embalagens.
Multiplicando novamente pelos 10 cêntimos:
1.050 milhões × €0,10 = €105 milhões.
Cento e cinco milhões de euros.

Naturalmente, estes valores não representam lucro directo líquido nem podem ser analisados isoladamente dos custos operacionais do sistema. Mas ajudam a perceber a dimensão financeira potencial criada por um mecanismo que depende precisamente de uma percentagem significativa de embalagens nunca ser devolvida.

Há aqui uma ironia difícil de ignorar. O sistema apresenta-se como solução para mudar comportamentos, mas beneficia financeiramente do facto de esses comportamentos nunca mudarem completamente. Se os consumidores devolvessem rigorosamente todas as embalagens, uma das maiores almofadas financeiras do mecanismo desapareceria. Isso obrigaria inevitavelmente a:
- aumentar taxas
- reforçar contribuições da indústria
- procurar mais financiamento público
- ou criar novas formas de receita

Por outras palavras, o sucesso ambiental absoluto poderia transformar-se num problema económico bastante menos sustentável do que os folhetos institucionais sugerem. Naturalmente, esta parte raramente aparece nos vídeos promocionais acompanhados por folhas verdes ao vento, crianças sorridentes e música suficientemente inspiradora para absolver moralmente uma garrafa de plástico. Mas os depósitos não reclamados são apenas uma componente do ecossistema.

Outra dimensão do modelo surge quando se observa a infraestrutura criada à sua volta.
Para operacionalizar a devolução de milhões de embalagens, torna-se necessário construir uma rede nacional composta por:
- máquinas automáticas de recolha
- software de reconhecimento e validação
- sistemas antifraude
- logística reversa
- transporte especializado
- centros de triagem
- compactação industrial
- plataformas digitais
- manutenção técnica
- monitorização estatística
- auditorias
- certificações ambientais
- contratos operacionais

Ou seja, cria-se um novo sector económico completo em torno de algo que, até aqui, cabia essencialmente num ecoponto. E como acontece frequentemente na economia contemporânea, o discurso público concentra-se na moralidade ambiental, enquanto os fluxos financeiros reais se distribuem silenciosamente pelos bastidores tecnológicos e logísticos.

Porque alguém fabrica as máquinas. Alguém fornece o software. Alguém gere os dados. Alguém assegura manutenção. Alguém opera a logística. Alguém ganha contratos. Alguém presta consultoria. Alguém vende a solução para o problema que o próprio sistema ajudou a transformar numa nova necessidade estrutural. O operador central pode apresentar-se como entidade sem fins lucrativos, o que é tecnicamente verdadeiro. Mas isso pouco diz sobre o volume de actividade económica gerada à volta da estrutura.

Aliás, um dos traços mais sofisticados dos modelos contemporâneos é precisamente este: o núcleo institucional mantém uma aparência neutra e moralmente virtuosa, enquanto a rentabilidade se espalha discretamente pelas camadas periféricas do sistema.

Existe ainda uma dimensão menos visível, mas potencialmente mais valiosa a longo prazo: os dados.
Cada devolução gera informação. Cada máquina recolhe padrões de utilização. Cada localização produz métricas comportamentais. Cada embalagem contribui para mapear hábitos de consumo. Num contexto onde indicadores ambientais, métricas ESG* e monitorização de comportamento possuem valor económico crescente, o controlo de uma infraestrutura nacional deste tipo representa muito mais do que reciclagem. Representa capacidade de observação, recolha, análise e venda de dados. (*Indicadores quantitativos e qualitativos que medem o desempenho de uma empresa nas áreas Ambiental, Social e de Gestão)

Quem gere um sistema desta escala passa a ter acesso a:
- padrões de consumo
- volumes regionais
- sazonalidade de vendas
- participação dos consumidores
- fluxos logísticos
-métricas ambientais
- indicadores de conformidade regulatória
O lixo deixa de ser apenas lixo.Torna-se informação.

Outro aspecto particularmente curioso é a transferência parcial de trabalho da indústria para o cidadão. Antes, o consumidor colocava a embalagem no ecoponto e encerrava aí a sua participação. Agora, espera-se que:
- guarde embalagens em casa sem as danificar 
- organize resíduos
- transporte recipientes
- procure máquinas disponíveis
- aguarde validação
- execute parte da logística operacional

Tudo isto naturalmente apresentado como exercício de cidadania ambiental. Na prática, parte do trabalho anteriormente absorvido pelo sistema tradicional de resíduos é silenciosamente transferido para o próprio consumidor, que continua simultaneamente a financiar o processo através dos depósitos pagos.

Entretanto, os grandes produtores de embalagens conseguem algo ainda mais relevante: legitimidade. As empresas responsáveis pela colocação de milhões de embalagens descartáveis no mercado passam a operar dentro de uma arquitectura verde certificada, compatível com exigências regulatórias europeias e extremamente útil para relatórios ESG, reputação corporativa e marketing institucional.

A questão deixa então de ser: “como reduzir embalagens descartáveis?” E passa subtilmente a ser:“como integrar embalagens descartáveis num circuito economicamente rentável e ambientalmente legitimado?”

É uma diferença conceptual importante.
O sistema não elimina o consumo massivo de recipientes descartáveis. Pelo contrário: reorganiza-o, profissionaliza-o e transforma-o numa cadeia económica ainda mais sofisticada.

No fundo, o que está a emergir não é apenas um mecanismo de reciclagem. É a monetização integral da embalagem desde o momento da compra até ao momento da devolução.

A embalagem gera receita quando é vendida. Gera receita quando circula. Gera receita quando não é devolvida. Gera receita quando é devolvida. Gera receita quando é processada. Gera receita enquanto dado estatístico. E gera legitimidade política e ambiental durante todo o percurso. Chama-se a isso enshittification (merdificação)

Nada disto significa que reciclar seja inútil ou que a reutilização de materiais não tenha benefícios reais. O problema não está na reciclagem. Está na forma quase religiosa como certos modelos económicos são apresentados como altruísmo ambiental puro, quando na realidade envolvem estruturas financeiras altamente sofisticadas e interesses económicos evidentes.

Porque quando uma solução ecológica cria uma indústria multimilionária sustentada por depósitos, contratos, dados, logística, tecnologia e falhas previsíveis do comportamento humano, talvez seja legítimo perguntar se o principal objectivo é proteger o ambiente ou descobrir como transformar até o lixo numa fonte permanente de rentabilidade.
E nesse aspecto, convenhamos, o modelo é brilhante.

O ecoponto de rua - esse herói anónimo da reciclagem portuguesa — continua a ser mais eficiente, mais inclusivo e com menor pegada carbónica. Pode não dar vales de desconto, mas pelo menos não exige carregar lixo no porta-bagagens. Faz apenas aquilo que deve: recolher para reciclar. Por isso, continuo fiel a ele. Pode não ser bonito nem moderno, mas funciona - e não precisa de marketing para provar isso.
E mais: 
Aqui em casa uso água da torneira. É o mais ecológico e simples. Quando vou a restaurantes, se bebo água devolvo o talão à menina(o). 

Saber mais:
3. Sistema Volta, as contas da DECO e o peso da tua “preguiça” forçada

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Live Nation, dona da Meo Arena Condenada: O Escândalo de Monopólio e o Crime Ambiental que a Indústria da Música Tenta Esconder


A Live Nation, a maior promotora de espetáculos do mundo e detentora da maior empresa de venda de bilhetes, a Ticketmaster, foi condenada por um júri norte-americano por ter estabelecido um monopólio ilegal no mercado da música ao vivo. Poderá ter de pagar uma multa avultada ou separar-se mesmo da empresa de bilhética. A empresa vai recorrer.

A Live Nation, a maior promotora de música do mundo e em Portugal dona da Meo Arena, em Lisboa, foi formalmente condenada por um júri norte-americano por ter estabelecido um monopólio ilegal no mercado dos eventos ao vivo.

A Live Nation e a Ticketmaster, gigante da bilhética adquirida pela Live Nation em 2010, foram levadas a tribunal por mais de trinta estados norte-americanos, que conseguiram demonstrar ao júri do caso de que a empresa violou leis de direito à concorrência.

De acordo com esses mesmos estados, a Live Nation - que em Portugal assumiu também o controlo da promotora Ritmos e Blues - recorreu a ameaças contra artistas e salas de espetáculos para que recorressem aos seus serviços, retaliando quando não o faziam - excluindo, por exemplo, certas salas de algumas das digressões mais lucrativas que promoveu.

Multa ou separação
Segundo noticia a imprensa norte-americana, a Live Nation poderá, agora, ser condenada a pagar uma multa avultada ou, em último caso, a separar-se da Ticketmaster. Em comunicado citado pela “Rolling Stone”, a promotora afirmou que o veredicto do júri não constitui “a última palavra neste caso”, prometendo recorrer da decisão. O caso poderá vir a arrastar-se, nos tribunais, durante anos.

Já Stephen Parker, diretor executivo da National Independent Venue Association, que representa salas de espetáculos independentes nos Estados Unidos, exigiu a separação da Live Nation e da Ticketmaster. “Não deviam ser responsáveis por mais de 50% das digressões”, afirmou à revista norte-americana. “As indemnizações pagas aos estados devem ser entregues às salas de espetáculos, promotoras, festivais independentes e aos fãs, que há 15 anos que sofrem com este monopólio”.

Sem acordo
No início de março, uma semana após o início do julgamento, a Live Nation anunciou ter chegado a acordo com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, comprometendo-se a pagar uma indemnização no valor de 200 milhões de dólares e a permitir que a Ticketmaster passe a poder ser utilizada por plataformas concorrentes.

Porém, apenas sete desses estados aceitaram o acordo oferecido pelo Departamento de Justiça, com os restantes a decidir continuar com o caso.


O julgamento também ganhou contornos políticos, com a Live Nation a pedir à administração Trump para que interviesse no caso. O “Wall Street Journal” escreveu que o presidente tomou parte em algumas discussões pré-acordo.

Em Portugal, a Live Nation é promotora de alguns dos maiores espetáculos do ano, como os dois concertos de Bad Bunny no Estádio da Luz, em maio, ou os recentes espetáculos de Rosalía na Meo Arena.

Impacto Ambiental
A Live Nation é frequentemente criticada pelo impacto ecológico das digressões globais ("Stadium Tours"), que geram emissões massivas de CO2 devido ao transporte de toneladas de equipamento e deslocações aéreas.

Greenwashing vs. Ação 
A empresa lançou a plataforma Green Nation,  prometendo reduzir emissões em 50% até 2030 e eliminar plásticos de uso único. 
Charter de Sustentabilidade da Live Nation para veres as promessas oficiais (como a redução de 50% nas emissões até 2030).
No entanto, críticos argumentam que estas medidas são insuficientes face à escala do desperdício gerado em festivais e à logística global que a empresa incentiva para manter o seu domínio.

Por outras palavras, enquanto a empresa instala painéis solares nalguns recintos, o seu modelo de negócio baseado na exclusividade e em "mega-festivais" aumenta a pegada carbónica per capita comparado com concertos locais menores.

1. O Estudo do MIT (Janeiro de 2026)
Recentemente, o MIT (Climate Machine) publicou aquela que é considerada a primeira avaliação abrangente das emissões da música ao vivo nos EUA e no Reino Unido, com o apoio da própria Live Nation e de bandas como os Coldplay.

O que diz: o estudo revela que as emissões não vêm apenas do palco, mas de decisões logísticas.
Dados: as viagens dos fãs representam entre 62% (EUA) e 77% (Reino Unido) das emissões totais de um evento.

2. O Peso do "Scope 3" (Emissões Indiretas)
A Live Nation foca-se muito no "Scope 1 e 2" (emissões diretas dos seus recintos), mas especialistas em sustentabilidade apontam que o verdadeiro impacto está no Scope 3:
Logística Global: a promoção de mega-digressões mundiais exige o transporte de centenas de toneladas de aço, luzes e ecrãs em aviões de carga e dezenas de camiões.
Resíduos Sólidos: estudos citados pela Greenly indicam que a indústria de eventos gera cerca de 1.2 mil milhões de toneladas de CO₂ anualmente. Festivais de grande escala (como os geridos pela Live Nation) produzem, em média, 100 toneladas de resíduos por dia.

3. O Impacto da Tecnologia (NFTs e Streaming)
Embora menos visível, a Live Nation explorou o mercado de bilhetes NFT e colecionáveis digitais. Estudos da Digiconomist mostram que a infraestrutura de blockchain para estes ativos (dependendo da rede utilizada) pode ter um consumo energético equivalente ao de pequenas cidades, algo que colide com as metas ambientais da empresa.

Links e Recursos Sugeridos para Aprofundar:
Estudo MIT Climate Machine:
Relatório sobre Emissões da Música ao Vivo (Análise do impacto real).
Carbonmark:
Análise da pegada de carbono da indústria de eventos.
The Guardian: Frequentemente publicam investigações sobre o lixo deixado em festivais geridos por grandes promotoras [como este sobre progressos ecológicos destes eventos na Austrália]

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Gigantes globais da carne são forçados a reduzir as alegações enganosas sobre o clima



No final de 2025, um acordo judicial histórico nos EUA colocou a gigante da carne Tyson Foods e as suas alegações climáticas exageradas sob um escrutínio sem precedentes.

O processo, interposto pelo Environmental Working Group (EWG) , representado pelo Animal Legal Defense Fund , Earthjustice, Edelson PC e FarmSTAND, questionou a promessa da Tyson de atingir emissões líquidas zero de gases com efeito de estufa até 2050 e o seu marketing de "carne de bovino climaticamente inteligente", incluindo a linha Brazen Beef, agora descontinuada, anunciada como "a primeira carne de bovino amiga do clima com uma redução de 10% nas emissões de gases com efeito de estufa". O cientista ambiental Matthew Hayek, da Universidade de Nova Iorque, questionou a credibilidade científica de alegações tão precisas sobre as emissões e se os consumidores poderiam realmente ter a certeza de que os seus bifes teriam emissões mais baixas em comparação com os produtos de carne de bovino convencionais. Como parte do acordo, a Tyson concordou em deixar de descrever a sua carne de bovino como "emissões líquidas zero" ou "climaticamente inteligente" durante cinco anos, a menos que estas alegações sejam comprovadas por provas verificadas por especialistas, embora a empresa ainda insista que a decisão "não representa qualquer admissão de culpa".

Os dados destacados pelo EWG pintam um quadro negro das prioridades dentro da corporação: segundo o relatório, a Tyson gasta menos de 0,1% da sua receita anual em esforços de redução de emissões, principalmente em investigação, o que equivale a cerca de 50 milhões de dólares de um total aproximado de 53 mil milhões de dólares, enquanto gasta cerca de três vezes mais em publicidade . Durante este período, o EWG estima que as emissões de gases com efeito de estufa da Tyson superam as de países inteiros como a Áustria ou a Grécia, sendo que a produção de carne de bovino é, por si só, responsável por 85% da sua pegada de carbono.

O setor da criação de animais em geral continua a ser um dos maiores poluidores climáticos, com uma estimativa de 12% a 19% de todos os gases com efeito de estufa causados ​​pela atividade humana ligados aos animais explorados para alimentação, sendo a carne de bovino apontada como particularmente prejudicial. Outras corporações têm-se apoiado na marca “carbono neutro”, frequentemente sustentada por compensações em vez de cortes profundos na produção, enquanto a JBS, outro gigante global da carne, foi recentemente pressionada pelo procurador-geral do estado de Nova Iorque a baixar a sua mensagem de “Emissões Líquidas Zero até 2040” para uma mera “meta” ou “ambição” e a investir 1,1 milhões de dólares em programas de agricultura climática inteligente. Matthew Hayek, da Universidade de Nova Iorque, que há muito critica as chamadas narrativas sobre carne amiga do clima, acolheu bem o escrutínio, dizendo à Corporate Knights : "10% parece uma redução de emissões tão pequena que está bem dentro da margem de erro.
Duvido que alguém tenha informações que possam 'provar' que, quando um consumidor vai ao supermercado, está realmente a consumir menos 10% de emissões do que o bife que está ao lado." 

sexta-feira, 27 de março de 2026

Criado site gratuito que ajuda PME a cumprirem diretiva europeia contra “greenwashing”



O Pacto Climático Europeu lançou uma nova ferramenta digital gratuita destinada a apoiar as pequenas e médias empresas (PME) portuguesas no cumprimento das exigências da mais recente diretiva europeia contra o “greenwashing”. A iniciativa surge num momento crítico: a Diretiva 2024/825 deverá ser transposta para a legislação nacional até 27 de março, entrando plenamente em vigor a 27 de setembro, altura a partir da qual as empresas poderão ver as peças publicitárias suspensas e enfrentar coimas significativas por práticas consideradas desleais.

Diogo Abrantes da Silva, embaixador do Pacto Climático Europeu, e o projeto #Pub, para uma comunicação nas empresas mais transparente, criaram uma ferramenta digital gratuita para apoiar as pequenas e médias empresas (PME) em Portugal a cumprirem a nova diretiva da União Europeia que as obriga a ser transparentes quanto à sustentabilidade dos seus produtos e as impede de usar alegações ambientais não comprovadas.

O site “diretivas.eu” pretende funcionar como um guia prático para empresários e gestores. A plataforma permite verificar se as imagens ou páginas de produtos, a sua comunicação institucional ou os seus rótulos estão de acordo com as novas regras europeias. E clarifica também os pontos mais técnicos e intrincados do texto da diretiva.

“A Diretiva 2024/825 é muito positiva, porque reforça a proteção dos consumidores contra práticas comerciais desleais, especialmente o “greenwashing”, e melhora a informação sobre sustentabilidade, durabilidade e reparabilidade dos produtos”, afirma Diogo Abrantes da Silva, gestor de marketing para ONGs, ativista ambiental e embaixador do Pacto Climático Europeu. “A diretiva cria, no entanto, muitos riscos às empresas que desconhecem as suas exigências, expondo-as, a partir de setembro, à vigilância e às sanções da ASAE ou de outras organizações regulatórias”.

A nova diretiva europeia visa reforçar a proteção dos consumidores, proibindo alegações ambientais vagas ou não comprovadas. Termos como “eco-friendly”, “verde” ou “neutro em carbono” deixam de poder ser utilizados sem evidência verificável. A legislação impõe ainda restrições a comparações ambientais enganosas, certificações pouco credíveis e estratégias que reduzam artificialmente a durabilidade dos produtos.

De acordo com uma análise realizada pelo projeto, entre os 286 websites analisados, 119 contêm menções sobre a sustentabilidade dos seus produtos que poderão ser classificadas como genéricas. Neste trabalho foram extraídos dados de websites de empresas deste setor, utilizando diretórios online de referência, como o Peggada. A ferramenta extraiu o texto da página inicial de cada um dos sites presentes na base de dados para verificar a existência de palavras-chave genéricas.

No caso do volume total de menções genéricas por categoria, o comércio online surge no topo da tabela com 197 menções, seguindo-se marcas ligadas à moda, sustentabilidade e ética com 48 menções. O terceiro lugar é ocupado por empresas de cosmética e higiene pessoal com um total de 29 menções.

Entre as restrições incluem-se mencionar que um produto é “neutro em carbono” apenas com base na compensação de emissões fora da cadeia de valor: não basta dizer que a marca planta árvores, ela terá de demonstrar que usa processos que resultam na redução real das emissões do próprio produto. Elementos visuais como folhas verdes ou gotas de água também podem ser interpretados como alegações ambientais implícitas: se a apresentação induzir o consumidor em erro sobre os benefícios do produto, será considerada prática desleal.

“É natural que sejam as empresas que têm a sustentabilidade no centro dos seus negócios as mais expostas às exigências da Diretiva”, afirma Diogo Abrantes da Silva. “Estas empresas têm um bom intuito, não devem ser elas as mais prejudicadas pela nova lei de proteção aos consumidores: o site ‘diretivas.eu’ é sobretudo útil para ajudar as empresas que já estão a trabalhar na transição climática”.

A ferramenta disponibilizada no site inclui um “scanner” capaz de analisar até 500 páginas de um website, detetando linguagem potencialmente proibida. Adicionalmente, um sistema de inteligência artificial avalia imagens e anúncios, identificando elementos visuais que possam induzir em erro — como o uso de símbolos associados à natureza sem base factual.

Para Diogo Abrantes da Silva, o objetivo não é penalizar empresas que já procuram adotar práticas mais sustentáveis, mas sim ajudá-las a comunicar de forma transparente e alinhada com a nova legislação. “Há muitas organizações com boas intenções que podem ser prejudicadas por desconhecimento. Esta ferramenta serve para esclarecer e prevenir riscos”, afirma.

Além da componente de diagnóstico, o site também orienta as empresas no acesso a certificações reconhecidas, como o Rótulo Ecológico da União Europeia, que valida produtos com menor impacto ambiental.

Integrado no âmbito do Pacto Climático Europeu — uma das iniciativas do Pacto Ecológico Europeu — o projeto reforça o esforço comunitário para promover práticas empresariais mais responsáveis e uma transição efetiva para uma economia de baixo carbono.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Eastgate Center: uma história de bioinspiração não muito verdadeira


No campo da biomimética, existem certas críticas sobre projetos baseados em visões superficiais da natureza e numa economia pretensamente verde, como aqui já foi referido.

Um desses projetos é um dos exemplos arquitetónicos mais famosos da biomimética: o edifício Eastgate Centre, localizado em Harare, Zimbabué, inaugurado em 1996.

O arquiteto Mick Pearce e a empresa Arup ter-se-ão inspirado parcialmente na estrutura das termiteiras locais para construir um edifício adequado a um clima tropical. Na África tropical, as térmitas da subfamília Macrotermitinae constroem ninhos enormes (até 9 metros) onde cultivam fungos em câmaras dentro do ninho.

No entanto, o projeto do edifício não se baseou totalmente no funcionamento real das termiteiras, como veremos adiante.

Modelos de regulação térmica das termiteiras
Na época em que Pearce projetou o edifício, existiam dois modelos propostos e aceitos para explicar a regulação térmica dentro das termiteiras: o modelo de fluxo termossifão e o modelo de fluxo induzido.

Fluxo termossifão: A ventilação é acionada pelo calor; o ar quente gerado pelo ninho sobe até ao topo da térmiteira onde, ao arrefecer, fica mais denso e é forçado para a região abaixo do ninho, repetindo o ciclo.

Fluxo induzido: Aplica-se às termiteiras que têm uma chaminé no topo, exposta a velocidades de vento mais elevadas do que as entradas ao nível do solo. Assim, o fluxo unidirecional atrai ar fresco junto ao solo para o ninho, passando pela chaminé e saindo para o exterior.

Projeto do edifício Eastgate Centre
Os arquitetos que projetaram o Eastgate Centre tentaram incorporar os princípios destes dois modelos. O edifício possui um extenso sistema de condutas dentro das paredes e pisos que movem o ar através da estrutura.

O calor gerado dentro do edifício, juntamente com o calor armazenado na estrutura, cria um efeito de termossifão que atrai o ar para cima. No telhado, localizam-se grandes chaminés, essenciais para criar o fluxo induzido.

No entanto, as histórias populares sobre o Eastgate Centre ignoram um detalhe importante: o edifício utiliza ventiladores de baixa capacidade durante o dia e de alta capacidade durante a noite para evitar a estagnação do ar. Assim, o ar quente acumulado durante o dia é substituído pelo ar fresco da noite. Isto funciona bem e evita o uso de ar condicionado caro, mas, escusado será dizer, nenhuma termiteira utiliza ventiladores.

Críticas ao projeto
O sistema de refrigeração permitiu uma poupança de 10% nos custos iniciais (ao não comprar sistemas de ar condicionado) e uma redução de 20% no preço dos alugueres em comparação com edifícios vizinhos.

Embora o objetivo prático tenha sido atingido, em termos de biomimética o projeto falhou, pois as térmiteiras não ventilam da forma que Mick Pearce pensava. Como escreveu a entomologista Marianne Alleyne:

“Se a biomimética e a bioinspiração desejam ser reconhecidas como áreas de estudo legítimas, é essencial que a ciência em que o campo se baseia seja sólida.”

Como as termiteiras realmente funcionam
Desde 1996, as suposições de Pearce foram refutadas pelos investigadores J. Scott Turner e Rupert C. Soar. Eles verificaram que, embora a temperatura interna varie menos que a externa, ela segue de perto a temperatura do solo circundante ao longo do ano.

O solo tem uma grande capacidade térmica, atuando como um "amortecedor" contra as variações diárias. A arquitetura e a ventilação têm pouco a ver com a temperatura interna, mas sim com a troca de gases. Ao fazerem moldes de gesso dos túneis, os investigadores descobriram que há pouca mistura entre o ar da superfície e o do ninho subterrâneo, propondo que a termiteira é, na verdade, um análogo funcional de um pulmão.

Metamateriais inspirados nas térmitas
Em 2023, David Andréen e Rupert Soar demonstraram que a geometria dos túneis pode otimizar o fluxo de ar e o controlo de humidade. Com base em digitalizações e experiências, criaram estruturas que podem ser integradas nas paredes de futuros edifícios, permitindo: circulação de ar otimizada por sensores; controlo térmico sem componentes mecânicos e consumo mínimo de energia.

Conclusão
As térmitas constroem paredes que interagem com o ambiente, trocando gases e energia em vez de criarem barreiras impenetráveis. Estas descobertas abrem caminho para edifícios com paredes porosas e sistemas de revestimento vivos, que farão parte da nossa "fisiologia estendida", tal como o ninho faz parte da colónia.

Referências:
  1. Termite-inspired metamaterials for flow-active building envelopes.
  2. Beyond biomimicry: What termites can tell us about realizing the living building.
  3. The termite mound: A not-quite-true popular bioinspiration story.
  4. How is the Eastgate Building NOT like a Termite Mound?

Além do erro biológico o Eastgate Centre levanta problemas de transição justa
O Eastgate Centre, em Harare, no  Zimbabwe, apontado como ícone arquitectónico de "inspiração na natureza" serviu apenas como um verniz ecológico para um edifício construído com materiais de elevado impacto ambiental, como o betão e o aço, e destinado a escritórios de luxo e comércio de elite. Enquanto o marketing celebrava a "sabedoria das térmitas", o projeto ignorou a justiça social: a energia que o edifício ainda consome provém de centrais a carvão poluentes e a tecnologia biomimética não é aplicada para melhorar a vida das populações mais pobres na periferia de Harare. Assim, o Eastgate torna-se um caso de estudo sobre como a biomimética pode ser cooptada para validar modelos de negócio tradicionais, focando-se na eficiência técnica para o capital em vez de numa regeneração ecológica e social profunda.

domingo, 15 de março de 2026

Biomimética - uma ciência amiga da sustentabilidade?



O pensamento base da biomimética é o Ecologically Sustainable Design (ESD)

"Does it run on sunlight? 
Does it use only the energy it needs? 
Does it fit form to function? 
Does it recycle everything? 
Does it reward cooperation? 
Does it bank on diversity? 
Does it utilize local expertise? 
Does it curb excess from within? 
Does it tap the power of limits? 
Is it beautiful?" 
(Benyus 1997:291)

Porém, com os avanços e progressos obtidos pela biomimética, ela ainda apresenta problemas em termos de economia circular e casos de lavagem verde.


O risco de Greenwashing ou Lavagem Verde
Muitas vezes, empresas utilizam a biomimética apenas para melhorar a performance (vender mais ou ser mais rápido) sem olhar para o impacto ambiental do ciclo de vida do produto. Se o objetivo for apenas lucro e extração, a biomimética torna-se apenas uma ferramenta de engenharia avançada ("genialidade da natureza") como uma estratégia de marketing para esconder um ciclo de produção poluente, extrativista ou socialmente injusto.

Exemplos:
1. A Pintura "Sharklet" da Airbus
A Airbus desenvolveu extremidades de asas (winglets) inspiradas na forma das barbatanas de tubarão para reduzir o arrasto e poupar combustível. Chamaram-lhes, apropriadamente, "Sharklets".
O marketing: a empresa promoveu estes dispositivos como uma "revolução verde" na aviação, destacando a redução de 4% nas emissões de CO2
O greenwashing: embora a melhoria técnica seja real, usar a imagem do tubarão e da natureza para vender aviões é contraditório. O setor da aviação continua a ser um dos maiores emissores globais e o crescimento do número de voos anula completamente o ganho de 4%. 

2. A Sapatilha "Biosteel" da Adidas
Em 2016, a Adidas apresentou o protótipo Futurecraft Biofabric, uma sapatilha feita de Biosteel, uma fibra que imita a seda da aranha, desenvolvida pela empresa AMSilk.
O marketing: foi vendida como "100% biodegradável" e um exemplo de como a biotecnologia biomimética iria acabar com os resíduos têxteis.
O greenwashing: a sapatilha nunca chegou a ser produzida em massa de forma acessível. Funcionou como um objeto de relações públicas para posicionar a Adidas como líder em sustentabilidade, enquanto a marca continuava a inundar o mercado com milhões de toneladas de plástico virgem e sapatilhas de difícil reciclagem produzidas em cadeias de montagem globais com pegadas de carbono gigantescas.

3. O Edifício "The Gherkin" em Londres (Foster + Partners)
Este icónico arranha-céus foi desenhado com um sistema de ventilação inspirado na estrutura das esponjas-do-mar e das anémonas, que filtram a água para se alimentar e respirar.
O marketing: foi apresentado como o "primeiro arranha-céus ecológico de Londres", prometendo poupanças de energia de até 50% através da ventilação natural inspirada na biologia.
O greenwashing: na prática, o sistema de ventilação natural raramente é usado devido a restrições de segurança e conforto dos escritórios de luxo (os inquilinos preferem o ar condicionado controlado). Além disso, a construção de um gigante de vidro e aço no centro financeiro de Londres tem uma energia incorporada (custo de fabrico dos materiais) imensa. Usar a biologia marinha como metáfora para um centro do capitalismo financeiro é visto como um uso puramente estético e ideológico da natureza.

Outros casos e reflexões 

Conclusão
A biomimética é um caminho para a sustentabilidade porque nos ensina a produzir "como a vida produz". Mas, para ser sustentável na prática, a tecnologia inspirada na natureza tem de ser acompanhada por uma mudança no modelo económico: passar da extração para a regeneração. Isto é, todo o ciclo de produção integrado nos princípios da economia circular. 

Referências bibliográficas

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Gigantes tecnológicas mentem sobre os benefícios climáticos da inteligência artificial


Um relatório divulgado esta terça-feira por uma coligação de organizações não governamentais (ONG) de defesa do ambiente diz que 74% das afirmações sobre os alegados benefícios climáticos da inteligência artificial (IA) generativa carecem de bases sólidas.

Estas afirmações "servem os interesses das indústrias de tecnologia e dos combustíveis fósseis", resume um comunicado conjunto de várias ONG, incluindo a Beyond Fossil Fuels, a Green Web Foundation e a Friends of Earth US.

Por outro lado, "minimizam os danos climáticos significativos causados pela IA generativa" alertaram organizações como a Climate Action Against Disinformation, Stand.Earth e Green Screen Coalition.

As plataformas analisaram 154 declarações "afirmando que a IA terá um benefício climático líquido, incluindo as de empresas como a Google e a Microsoft e instituições como a Agência Internacional de Energia [AIE]".

Segundo as ONG, esta é a primeira vez que o argumento de que a IA poderá compensar o aumento da procura de combustíveis fósseis gerada pelos centros de dados é analisado de forma crítica.


O relatório critica a Google por afirmar em documentos oficiais que a IA poderia mitigar entre 5% e 10% das emissões globais, uma estimativa baseada em dados extrapolados, sem fundamento científico, de uma consultora privada.

A análise, divulgada durante a AI Impact Summit, em Nova Deli, esta semana, defende que a indústria tecnológica apresentou, de forma enganadora, as soluções climáticas e a poluição de carbono como um pacote único, ao "confundir" diferentes tipos de IA.

Sasha Luccioni, líder de IA e clima da Hugging Face, uma plataforma e comunidade de IA de código aberto, que não participou no relatório, afirmou que este acrescenta nuances a um debate que frequentemente agrupava aplicações muito diferentes.

"Quando falamos de IA que é relativamente má para o planeta, geralmente referimo-nos à IA generativa e a grandes modelos de linguagem", disse Luccioni, que tem pressionado a indústria para ser mais transparente sobre a sua pegada de carbono.

"Quando falamos de IA que é 'boa' para o planeta, geralmente referimo-nos a modelos preditivos, modelos extrativos ou modelos de IA tradicionais."

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Carbofascismo, Transição Verde e o ICNF

No discurso final de Davos, os principais actores mundiais (Donald Trump,Mark Carney,Emmanuel Macron,Friedrich Merz,Ursula Leyen,Volodymyr Zelensky) não disseram uma palavra sequer sobre a crise climática.

Quanto a Portugal não me escapa comentar o recente episódio das declarações do Ministro da Agricultura, enviadas via vídeo aos dirigentes do ICNF. Quando a tutela sugere um caminho de maior agilidade que resvala no facilitismo, o que está em causa não é apenas um deslize comunicacional, mas um sinal político perigoso que ameaça a autonomia da conservação da natureza em Portugal.

𝐎 𝐅𝐚𝐜𝐢𝐥𝐢𝐭𝐢𝐬𝐦𝐨 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐑𝐢𝐬𝐜𝐨: 𝐚 m𝐢𝐬𝐬𝐚̃𝐨 𝐝𝐨 𝐈𝐂𝐍𝐅 𝐧𝐚̃𝐨 𝐞́ 𝐝𝐞𝐬𝐩𝐚𝐜𝐡𝐚𝐫 𝐏𝐫𝐨𝐜𝐞𝐬𝐬𝐨𝐬
A Integridade do "Não"
É urgente reafirmar o óbvio: o ICNF não é uma agência de promoção de investimentos. A sua função primordial é o escrutínio rigoroso. No equilíbrio ecológico, a reprovação de um projeto não representa um bloqueio ou uma falha de sistema; pelo contrário, é frequentemente o maior indicador de que as salvaguardas ambientais estão a funcionar.

O ICNF existe para: avaliar, monitorizar e garantir o cumprimento da lei.
O ICNF não existe para: "acelerar" processos à custa da fundamentação técnica ou "facilitar" licenciamentos em nome do crescimento económico imediato.

A erosão da Autoridade Técnica
Pressionar, ainda que de forma implícita, para que se aprove mais ou se decida mais rápido, desvirtua a missão institucional e fragiliza a autoridade científica dos técnicos que estão no terreno. Quando a política tenta ditar o ritmo à biologia e ao direito ambiental, quem perde é o património natural do país. A missão do ICNF é proteger o território, e essa proteção exige o tempo e o rigor que a lei impõe — sem atalhos.

Não podemos nem devemos aceitar os apelos nacionalistas e de eugenia. O tempo dos recuos nacionalistas esgotou-se perante a emergência climática. Em 2026, a soberania reside na capacidade de tecer alianças transfronteiriças. A nossa única saída é a construção de uma ecologia política comum, fundamentada na transparência e numa economia que respeite, finalmente, os limites planetários.