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sexta-feira, 18 de abril de 2025

Documentário de Werner Herzog - Lessons of Darkness (German: Lektionen in Finsternis)


É um filme de 1992 do realizador Werner Herzog.
Filmado em estilo documental em película de 16 milímetros, a partir da perspectiva de um observador quase alienígena, o filme é uma exploração dos campos petrolíferos devastados do Kuwait pós-Guerra do Golfo, descontextualizados e caracterizados de forma a enfatizar a estranheza cataclísmica do terreno.

Um companheiro eficaz para o seu filme anterior Fata Morgana, Herzog volta a perceber o deserto como uma paisagem com uma voz própria.

Uma coprodução com Paul Berriff, o filme foi financiado pelos estúdios de televisão Canal+ e Première.
Toda a informação aqui

Lessons of Darkness (Lektionen in Finsternis, 1992) é um dos documentários mais marcantes e estilizados do diretor alemão Werner Herzog. Em vez de adotar o tom jornalístico ou político tradicional dos meios de comunicação, Herzog aborda a destruição devastadora do Kuwait pós-Guerra do Golfo sob a perspectiva de uma ficção científica apocalíptica e poética.

A obra retrata os cenários desolados do Kuwait logo após o fim da Guerra do Golfo, quando centenas de poços de petróleo foram incendiados pelas forças iraquianas em retirada. Dividido em 13 capítulos, o filme quase não possui diálogos informativos ou dados geopolíticos. A narração hipnótica do próprio Herzog descreve a Terra como um planeta alienígena que sofreu uma catástrofe desconhecida. Através de planos aéreos majestosos, trilha sonora erudita com composições de Mahler, Wagner, Verdi e Grieg, e imagens impressionantes de bombeiros tentando conter os incêndios gigantescos, o filme transforma um desastre ecológico real em uma meditação sobre a autodestruição humana.

A inspiração real para a produção veio diretamente das notícias e coberturas televisivas do conflito entre 1990 e 1991. Durante a Operação Tempestade no Deserto, as tropas de Saddam Hussein incendiaram cerca de 700 poços de petróleo como tática de terra arrasada. Herzog viajou ao Kuwait imediatamente após o encerramento dos combates para registrar o cenário antes que o fogo fosse extinguido. No entanto, recusou o formato dos telejornais da época, como a cobertura em tempo real da CNN, optando por desprovê-lo de dados contextuais imediatos para elevá-lo a uma dimensão mítica e universal.

Para moldar essa atmosfera, Herzog utilizou diversas referências literárias, bíblicas e poéticas. O filme abre com uma citação impactante atribuída ao filósofo francês Blaise Pascal: "O colapso dos universos estrelados ocorrerá suavemente, como a criação, na grandiosa desolação". No entanto, Herzog admitiu posteriormente ter inventado a frase, utilizando-a como um recurso para preparar o público para o tom do filme - um exemplo prático do que o diretor conceitua como "Verdade Extática", onde a estilização ou fabricação de fatos busca alcançar uma verdade poética mais profunda. A estrutura narrativa evoca o tom profético do livro do Apocalipse, enquanto a estética se aproxima da ficção científica distópica de autores como H.G. Wells e J.G. Ballard, retratando os bombeiros e trabalhadores não como técnicos contemporâneos, mas como seres de um mundo agonizante.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Adiaforização na modernidade líquida

A clássica obra de Zygmunt Bauman, filósofo e sociólogo polaco radicado em Inglaterra, aponta e analisa as mudanças vivenciadas pela sociedade atual que atravessa desde o individualismo nas relações de trabalho, de família e comunidade e, indica que o tempo e o espaço deixam de ser absolutos e concretos para serem sempre líquidos e relativos.

Zygmunt Bauman tinha formação marxista e era detentor de uma extensa produção académica dotada de intensas reflexões sobre a sociedade e o mundo contemporâneo. Nasceu numa família judia e, ainda criança, teve de fugir com a família devido ao nazismo, exilando-se na URSS. O filósofo polaco chegou mesmo a combater no Exército Soviético durante a Segunda Guerra Mundial, o que viria mais tarde a ser um dos seus principais campos de estudo.

A posteriori veio a ser expulso do Partido Comunista, num episódio notabilizado pelo antissemitismo. Inicialmente mudou-se para Tel Aviv e, mais tarde, para Inglaterra, onde em 1971 adquiriu a nacionalidade britânica e veio a lecionar na Universidade de Leeds, onde permaneceria durante a maior parte da sua carreira.

Reconhece-se que Bauman foi a voz dos pobres, num mundo revoltado e aviltado pela globalização. No seu último livro intitulado "Viver com o tempo emprestado", publicado em 2009, analisou a situação e os desafios que o mundo globalizado enfrenta, em que tudo, da natureza ao ser humano, se converte em mercadoria.

Analisou a crise dos refugiados, a perda de direitos e a construção de muros nas fronteiras, em vez de pontes, tema que dominou o último ensaio de Bauman publicado no final de 2016, intitulado "Estranhos batendo à porta", no qual aborda o impacto das atuais ondas migratórias.

Ganhou o prémio Amalfi de Sociologia e Ciências Sociais em 1992, o prémio Theodor W. Adorno em 1998 e venceu ainda o prémio Príncipe das Astúrias de Comunicação em 2010.

Zygmunt Bauman é um sociólogo polaco nascido em 1925 e falecido a 09.01.2017 aos noventa e um anos, tendo-se mantido lúcido e atuante. Publicou mais de quarenta livros, entre os quais a "Modernidade Líquida".

Modernidade Líquida foi publicada no ano 2000, na famosa viragem do século, sendo efetivamente lançada em 2001. Nesta ocasião, o mundo estava em pânico, pois havia diversas previsões de falhas tecnológicas em programas de computador espalhados pelo mundo; esperava-se o tão propalado bug do milénio, ou seja, as máquinas e aplicações informáticas estavam apenas preparadas para executar até 1999, o que exigiria muitas adaptações para que não se instaurasse o caos tecnológico nos diversos setores da vida humana.

O bug do milénio foi um medo coletivo de que os computadores da época não compreendessem a mudança de milénio e passassem a apresentar uma paralisia geral dos sistemas e serviços em todo o mundo.

Desde 1960, os computadores usavam calendários internos com apenas dois dígitos. Depois do ano 99, viria o 00 que as máquinas entenderiam como 1900 ou como 19100, e não como 2000.

Porém, o medo tinha pouco fundamento, visto que muitos computadores já registavam datas em quatro dígitos. Mesmo assim, não se impediu que o pânico se espalhasse pelo mundo fora e que fossem gastos muitos milhares de milhões de dólares em todo o mundo em medidas preventivas.

Na contextualização, constata-se que, durante a década de 1990, existiram crises económicas creditadas à globalização crescente, além de guerras como a do Golfo e nos Balcãs. A internet disseminava um conceito de universo social, criando tribos virtuais que iam desde o consumismo desenfreado até à militância por causas ambientalistas.

O próprio título da obra já classificou a modernidade da sociedade que avança em diversos sentidos, embora seja questionável nas suas atitudes e no seu contexto enquanto sociedade. A liquidez proposta por Bauman advém do facto de os líquidos não terem uma forma, ou seja, são fluidos que se moldam conforme o recipiente no qual estão contidos, diferentemente dos sólidos que são rígidos e sofrem uma tensão de forças para se moldarem às novas formas.

Os fluidos movem-se e adaptam-se facilmente, escorrem entre os dedos, transbordam, vertem e preenchem vazios com leveza e fluidez. Muitas vezes, não são facilmente contidos, como ocorre, por exemplo, numa hídrica e num túnel de metro, lugar onde se podem observar goteiras, fissuras ou uma pequena gota numa fenda mínima. Os líquidos atingem e penetram os lugares, as pessoas, contornam o todo, vão e vêm ao sabor das ondas da conveniência do momento.

A obra traz a análise da liquidez existente em cinco tópicos básicos, a saber: a emancipação, a individualidade, o tempo e o espaço, o trabalho e a comunidade.

O filósofo apontou a questão sobre o conceito de liberdade, questionando se seria uma bênção ou uma maldição. Seria bênção, no sentido de que o indivíduo pode agir conforme os seus pensamentos e desejos, mas, em sentido contrário, cogita-se ser uma maldição, já que recai sobre o indivíduo toda a responsabilidade dos seus atos, ações e opções.

Na modernidade líquida, a hospitalidade dá lugar à crítica, onde se passa do estado de agente passivo para o de agente ativo que questiona e reflete sobre as ações e as razões das coisas e a ação do indivíduo sobre a sociedade e vice-versa.

A sociedade sólida, ou seja, a da modernidade clássica, sendo concreta, estava impregnada de um certo totalitarismo, visto ser rígida, sem resiliência, e não se adaptar às novas formas.

Bauman abordou que o principal objetivo da teoria crítica era a defesa da autonomia, da liberdade de escolha e da autoafirmação humana, do direito de ser e permanecer diferente. Noutros termos, essa hospitalidade à crítica é onde o indivíduo transita em liberdade e está aberto aos questionamentos e reflexões; o indivíduo flui então pela sociedade, pelo tempo e espaço, pode reclamar ao sentir-se prejudicado, reivindicar os direitos e exercer deveres, mas é também responsabilizado pelas ações e reações decorrentes dos seus atos.

A respeito da reflexão sobre a emancipação, Bauman traz a lume o pensamento de Max Weber, que discursava sobre a impossibilidade de se atingir a satisfação plena, porque o momento da autocongratulação e realização completa movia-se demasiado rápido, para mais e mais além, fazendo com que o indivíduo fosse impulsionado para a frente, perseguindo outros objetivos e anseios.

Para Bauman, há duas características que tornam a forma de modernidade nova e diferente: uma que relata o declínio da crença no fim do caminho em que andamos, ou seja, para ele a modernidade é um caminho infindável de oportunidades, desejos e realizações a serem perseguidos continuamente.

A segunda crença cogita sobre a mudança da desregulamentação e a privatização de tarefas e deveres modernizantes, ou seja, a tarefa apropriada ao coletivo, simbolizado na figura da sociedade, que sofreu uma fragmentação para o indivíduo.

Continuar a leitura em: Modernidade líquida, incertezas sólidas 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Kate Bush - Army Dreamers


Melhor som aqui
Letra

(B-F-P-O)
(Army dreamers)
(Mammy's hero)
(B-F-P-O)
(Mammy's hero)

Our little army boy
Is comin' home from B-F-P-O
We've a bunch of purple flowers
To decorate a mammy's hero

Mournin' in the aerodrome
The weather warmer, he is colder
Four men in uniform
To carry home my little soldier

[Refrão]
(What could he do? Should have been a rock star)
But he didn't have the money for a guitar
(What could he do? Should have been a politician)
But he never had a proper education
(What could he do? Should have been a father)
But he never even made it to his twenties

What a waste, army dreamers
Ooh, what a waste of army dreamers (army dreamers)

Tears over a tin box
Oh, Jesus Christ, he wasn't to know
Like a chicken with a fox
He couldn't win the war with ego

Give the kid the pick of pips
And give him all your stripes and ribbons
Now he's sittin' in his hole
He might as well have buttons and bows

[Refrão]

What a waste, army dreamers
Ooh, what a waste of army dreamers (army dreamers)
Ooh, what a waste of all them army dreamers (army dreamers)
Army dreamers (army dreamers), army dreamers (army dreamers)

(B-F-P-O)
(Army dreamers)
(Mammy's hero) 5X

Dor materna e crítica social em “Army Dreamers” de Kate Bush
Em “Army Dreamers”, Kate Bush utiliza um sotaque irlandês para dar mais vulnerabilidade e tradição à história de uma mãe que lamenta a perda do filho para a guerra. O refrão repetido, “What a waste, army dreamers” (“Que desperdício, sonhadores do exército”), reforça a sensação de vidas jovens desperdiçadas. Versos como “He never even made it to his twenties” (“Ele nem chegou aos vinte anos”) ressaltam a tragédia de futuros interrompidos. Termos como “B-F-P-O” (British Forces Post Office) e imagens como “four men in uniform to carry home my little soldier” (“quatro homens de uniforme para levar meu pequeno soldado para casa”) evocam o ritual militar de devolver corpos, tornando a dor da mãe ainda mais real e universal.

A letra aborda de forma direta as poucas opções disponíveis para jovens de classes menos favorecidas. Bush sugere que, se tivessem mais oportunidades — “should have been a rock star... but he didn't have the money for a guitar” (“deveria ter sido um astro do rock... mas não tinha dinheiro para um violão”) ou “should have been a politician... but he never had a proper education” (“deveria ter sido um político... mas nunca teve uma educação adequada”) — talvez pudessem evitar o destino militar. A metáfora “like a chicken with a fox, he couldn't win the war with ego” (“como uma galinha diante de uma raposa, ele não podia vencer a guerra só com orgulho”) mostra que esses jovens são colocados em situações impossíveis, sem preparo ou chance real de sobrevivência. Lançada num período de tensões militares e censurada durante a Guerra do Golfo, a música faz uma crítica clara à romantização do heroísmo militar. O recente ressurgimento da canção nas redes sociais mostra que a sua mensagem sobre o desperdício de vidas e a dor das famílias continua atual e impactante.