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terça-feira, 7 de maio de 2024
Documentário: A Dark Web - O mercado negro, cibercrime, AlphaBay e pornografia infantil
Este documentário explora o submundo da Dark Web, o comércio no mercado negro, o cibercrime e os meandros de redes criminosas reais, focando-se em dois grandes casos: a ascensão e queda do mercado ilegal AlphaBay e a desmontagem de uma rede internacional de pornografia infantil na Indonésia, o grupo Lolly Candy.
Abaixo encontras o resumo detalhado de toda a narrativa e das explicações técnicas do documentário, traduzido para português de Portugal.
Parte 1: O Mercado Negro Digital e o Caso AlphaBay
O Conceito e o Tamanho do Mercado
O documentário abre com o anúncio, por parte do Departamento de Justiça dos EUA, do desmantelamento do AlphaBay, um mercado que faturava entre 300 a 500 milhões de dólares por ano. Especialistas em segurança informática explicam que a Dark Web preencheu uma lacuna de mercado: se alguém tem um produto ilegal para vender, não o pode listar numa plataforma de comércio eletrónico comum. A Dark Web tornou-se o local ideal devido ao anonimato.
O que se vendia no AlphaBay
A plataforma funcionava de forma idêntica ao eBay ou à Amazon, mas para produtos ilícitos. Através de categorias simples e avaliações de clientes, os utilizadores compravam:
Diplomas universitários falsificados;
Passaportes (como do Reino Unido ou Países Baixos) e cartas de condução europeias;
Estupefacientes (como cocaína colombiana pura);
Armas de fogo de alto calibre, incluindo espingardas AK-47.
Os vendedores partilhavam frequentemente avaliações sobre técnicas de envio camuflado (como esconder os produtos dentro de caixas de CDs). A grande inovação destes mercados foi elevar o pequeno traficante local a uma escala global, permitindo-lhe interagir com centenas de milhares de potenciais clientes em todo o mundo, sem a necessidade de encontros presenciais perigosos.
A Mente por trás do Império: Alexandre Cazes
A investigação policial determinou que o administrador principal utilizava o pseudónimo Alpha02. O homem por trás da conta era o canadiano Alexandre Cazes. Ele começou a sua carreira digital a vender credenciais roubadas na internet superficial (Clear Web). Com uma forte mentalidade de programador e empresário, Cazes construiu a plataforma e acabou por ignorar a gravidade dos crimes à medida que o dinheiro entrava em massa. O documentário refere que muitos destes administradores começam por motivos ideológicos (contra a regulação do Estado), mas acabam viciados no poder e na adrenalina de gerir um império ilegal.
O Erro Fatal e a Captura na Tailândia
Muitos cibercriminosos consideravam a Tailândia um "paraíso", porque o país não tinha leis robustas de interceção de dados para segurança nacional, ao contrário de países europeus ou de Singapura. Cazes estabeleceu-se em Banguecoque, ostentando uma vida de luxo com carros desportivos como Lamborghinis.
No entanto, o seu erro fatal ocorreu anos antes de fundar o AlphaBay: Cazes utilizou uma conta de e-mail antiga do Hotmail que continha o seu nome real nos cabeçalhos de mensagens de boas-vindas do fórum. Essa pegada digital permitiu ao FBI e às autoridades internacionais ligarem a sua identidade real ao pseudónimo Alpha02.
A polícia realizou uma operação tática e prendeu Cazes enquanto ele estava ativamente ligado à plataforma como administrador no seu portátil. Se ele tivesse fechado o computador, o disco encriptado tornar-se-ia inacessível; ao apanhá-lo em flagrante, a polícia obteve a prova definitiva. A polícia manteve o site online durante algum tempo, simulando uma fraude de saída (exit scam), para forçar os criminosos a migrarem para outras plataformas controladas pelas autoridades. O AlphaBay era cerca de dez vezes maior do que o histórico Silk Road.
Parte 2: A Tecnologia da Dark Web e das Criptomoedas
Como Funciona o Anonimato
Para que um mercado como o AlphaBay existisse, foi necessária a junção de duas tecnologias que criaram a "tempestade perfeita":
A Rede Tor: Em vez de uma ligação direta entre o utilizador e o site, a rede Tor faz a ligação passar por múltiplos intermediários (nós), mascarando a identidade e a localização. Os sites não usam domínios comuns (como .com ou .net), mas sim sequências aleatórias de caracteres que terminam em .onion. Originalmente, o Tor foi desenvolvido pelo Gabinete de Investigação Naval dos EUA para permitir comunicações anónimas de espiões, sendo hoje também usado por jornalistas em países com forte censura política.
As Criptomoedas: O Bitcoin e outras moedas focadas na privacidade (como o Monero) fornecem o anonimato financeiro. Tradicionalmente, os criminosos eram apanhados seguindo o rasto do dinheiro bancário. Com as criptomoedas, transações multimilionárias cruzam o globo sem intermediários financeiros tradicionais, tornando quase impossível associar uma carteira digital a uma pessoa real sem investigações cruzadas complexas.
Parte 3: O Caso Lolly Candy e o Combate à Exploração Infantil
A Descoberta da Rede Humana
A segunda metade do documentário foca-se num crime de natureza diferente e altamente sensível na Indonésia. Através de patrulhas cibernéticas e denúncias de grupos de mães civis, a polícia descobriu um grupo na rede social Facebook chamado Lolly Candy, dedicado à partilha de pornografia infantil.
O grupo começou camuflado como uma comunidade de entusiastas de anime e videojogos, mas rapidamente escalou para a partilha massiva de imagens e vídeos de abusos sexuais contra menores, desde bebés de 9 meses até crianças de 10 anos. Quando o Facebook aumentava a censura, os administradores migravam os membros para grupos fechados e encriptados no WhatsApp e Telegram, envolvendo redes que ligavam mais de 46 países.
O Perfil do Administrador Principal (Wawan)
O criador e administrador principal era um jovem indonésio chamado Wawan. Com uma infância marcada por dificuldades económicas e isolamento social (introversão), ele passava os dias em cibercafés, onde aprendeu informática e descobriu o submundo da internet.
Wawan confessou que o seu envolvimento inicial foi por curiosidade e que a gestão do grupo lhe dava um sentimento de orgulho, liderança e poder internacional que nunca teve na vida real. Ele tentava monetizar os cliques do grupo através de links com publicidade (AdsFly) para pagar os seus dados de internet, enquanto outros membros trocavam conteúdos por recompensas simples, como cartões de carregamento de telemóvel. Apesar de negar inicialmente os abusos em tribunal alegando falta de exames médicos, a investigação provou que Wawan não só distribuía os ficheiros, como também abusava diretamente de crianças na sua própria vizinhança.
O Perfil Psicológico dos Agressores e o Processo de Aliciamento
Especialistas e psicólogos detalham o perfil destes criminosos:
Grooming (Aliciamento): Apresentam-se geralmente de forma simpática, calorosa e eloquente. Não parecem ameaçadores, o que faz com que ganhem rapidamente a confiança das crianças e dos pais.
Fatores de Origem: A pedofilia pode derivar de desvios no desenvolvimento psicossexual ou de fatores ambientais, como o agressor ter sido ele próprio vítima de abusos na infância (um trauma psicológico não tratado que gera um ciclo de repetição). O próprio Wawan revelou ter sofrido abusos de um vizinho aos 7 anos.
O Perigo Oculto: O documentário alerta que este crime não escolhe género; embora a maioria dos agressores sejam homens, também existem mulheres envolvidas que procuram satisfação e controlo.
As Regras de Segurança dos Criminosos e a Operação Policial
Para evitar serem banidos pelos algoritmos das redes sociais, os membros do grupo usavam códigos (como a sigla "CP") e instruíam a colocação de símbolos (emojis) para tapar partes explícitas nas fotos públicas. Para os conteúdos sem censura, utilizavam servidores externos e técnicas para que os links não ficassem azuis (hiperligações ativas), contornando os filtros de segurança. Exigiam também que os membros provassem a autenticidade dos ficheiros escrevendo datas ou nomes específicos nos papéis antes de fotografar, garantindo que o material era real e recente.
A polícia de cibersegurança indonésia infiltrou-se no grupo fingindo ser um membro ativo. Para evitar que os criminosos apagassem as provas permanentemente através da encriptação ponto a ponto dos telemóveis, as autoridades planearam uma operação cirúrgica e simultânea.
O erro que tramou Wawan foi ter tirado uma fotografia a uma criança na rua onde, inadvertidamente, aparecia a matrícula de um veículo e um ângulo específico da fachada da sua casa. Com o apoio da equipa de analistas do Facebook e do FBI, a polícia localizou e prendeu simultaneamente os quatro administradores principais em localizações diferentes, apreendendo telemóveis e dispositivos de armazenamento com milhares de ficheiros criminosos.
Conclusão e Alerta Social
O documentário encerra com um apelo à vigilância digital por parte dos pais e das comunidades. Com a internet superficial a representar apenas cerca de 5% de toda a rede global, as plataformas anónimas e encriptadas continuam a ser um desafio constante para as forças policiais internacionais, exigindo uma evolução tecnológica contínua para combater o cibercrime organizada e proteger os mais vulneráveis.
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sexta-feira, 2 de outubro de 2020
China com Sun Tzu, na guerra dos chips
Indo direto ao ponto: com ou sem rolo compressor de sanções, a China simplesmente não será expulsa do mercado global de semicondutores.
Xi Jinping lendo o clássico de Sun Tzu A Arte da Guerra
Charge de Craig Stephens, South China Morning Post, Hong Kong
A quantidade real de chips que a Huawei tem em estoque para suprir o próprio negócio de smartphones talvez até seja questão em aberto.
Mas o ponto mais importante é que nos próximos anos – lembrem que Made in China 2025 continua em vigor – os chineses estarão fabricando o equipamento necessário para produzir chips de 5 nanômetros tão bons ou até melhores que os que vêm hoje de Taiwan, Coreia do Sul e Japão.
Conversas com especialistas em TI da Rússia, dos países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ing. ASEAN) e da Huawei revelam os contornos básicos do mapa do caminho à frente.
Esses especialistas explicam que o que poderia ser descrito como uma limitação da física quântica está impedindo a passagem consistente, de chips de 5 nanômetros para chips de 3 nanômetros. Significa dizer que as próximas descobertas podem vir de outros materiais e técnicas de semicondutores.
Portanto, quanto a esse aspecto, a China está praticamente no mesmo nível de pesquisa que Taiwan, Coréia do Sul e Japão.
Além disso, não há nenhuma lacuna de conhecimento – ou problema de comunicação – entre os engenheiros chineses e taiwaneses. E o modus operandi predominante ainda é a porta giratória.
Os avanços da China envolvem mudança crucial, do silício para o carbono. A pesquisa chinesa está totalmente investida nisso e está quase pronta para transpor o próprio trabalho de laboratório, para a produção industrial.
Em paralelo, os chineses estão atualizando o procedimento de fotolitografia, que os EUA privilegiam para obter chips nanométricos, para um novo procedimento de litografia não fotográfica, capaz de produzir chips menores e mais baratos.
Assim como as empresas chinesas, avançando, estarão comprando todas as etapas possíveis que apareçam no negócio de fabricação de chips, e custem o que custarem, também as principais empresas de semicondutores dos EUA farão o mesmo, como a Qualcomm, que não se sujeitará a sanções e continuará a fornecer chips para a Huawei. Esse já é o caso da Intel e da Advanced Micro Devices, Inc. (AMD).
O jogo de Huawei
A Huawei, por sua vez, está investindo em profundidade numa relação muito estreita de P&D com a Rússia, recrutando alguns dos melhores talentos tecnológicos da Rússia, notoriamente fortes em matemática, física e no trabalho de rigoroso projetamento. Exemplo disso é a compra pela Huawei da empresa russa de reconhecimento facial Vocord em 2019.
Alguns dos melhores cérebros tecnológicos da Coréia do Sul são russos.
A Huawei também estabeleceu – na Tailândia – um “centro de inovação de ecossistema 5G”, o primeiro de seu tipo em países da ASEAN [Indonésia, Malásia, Filipinas, Cingapura e Tailândia, desde 1967; Brunei, a partir de 1984; Vietnã desde 1985; Mianmar e Laos a partir de 1997 e Camboja desde 1999 (NTs)].
No médio prazo, a estratégia da Huawei para seus telefones inteligentes de alto padrão – que utilizam chips de 7nm – será entregar o negócio a outros atores chineses como Xiaomi, OPPO e VIVO, cobrar taxas de patente e esperar pelo inevitável chip chinês, enquanto mantém a produção de equipamentos 5G, para os quais tem chips suficientes.
Esses especialistas em TI consideram o sistema operacional Harmony da Huawei mais eficiente que o Android. E roda com chips menos exigentes.
Com a expansão do 5G, a maior parte do trabalho em telefones inteligentes pode ser feito por servidores em nuvem. Até o final de 2020, pelo menos 300 cidades em toda a China estarão cobertas pela 5G.
A Huawei se concentrará em produzir computadores desktop e displays digitais. Estes desktops virão com processador chinês, o Kunpeng 920, e serão executados por um Sistema Operacional Unificado (ing. Unified Operating System, UOS) chinês.
O UOS é um sistema Linux desenvolvido pela Union Tech chinesa e encomendado por Pequim – aqui está o busílis –para substituir o Microsoft Windows. Estes desktops não serão vendidos ao público em geral: equiparão a administração pública nacional e provinciais da China.
Não é de admirar o persistente rumor que se ouve nos círculos de TI, segundo o qual é hora de pôr dinheiro num Fundo de Investimento em Chip Chinês – para embolsar gordos ganhos quando acontecerem grandes avanços tecnológicos, antes de 2025.
O centro tech da Ásia Oriental
Quaisquer que sejam as provações e tribulações da guerra dos chips, a tendência inevitável é a China posicionada como centro tecnológico indispensável da Ásia Oriental – abrangendo países da ASEAN, o nordeste asiático e a Sibéria Oriental ligada às duas Coreias.
Este é o nodo duro da já próxima Parceria Econômica Regional Abrangente, PERA (Regional Comprehensive Economic Partnership, RCEP) – o mais abrangente acordo de livre comércio no mundo – a ser assinado até 2021.
A Índia optou por se autoexcluir da PERA –, com o que se autocondenou a ter papel periférico, como potência econômica e em termos geoeconômicos. Basta compará-la à Coréia do Sul, que está impulsionando sua integração com a ASEAN e o nordeste asiático.
O núcleo tecnológico do Leste Asiático estará no coração de uma cadeia global de produção que integra o melhor da concepção científica e tecnológica e os melhores especialistas em produção espalhados por todos os nodos da cadeia de suprimento global.
Essa é consequência natural, dentre outros fatores, de o número de patentes requeridas no Leste Asiático já ter chegado a 3,46 vezes o número dos EUA.
E isso nos leva ao caso muito especial da Samsung. A empresa Samsung está aumentando seu esforço de P&D para, de fato, deixar para trás, o mais rapidamente possível, as tecnologias de marca norte-americana.
Quando o presidente Moon da Coréia do Sul superturbina seu apelo pelo fim oficial da Guerra da Coréia, o movimento deve ser visto em conjunto com a Samsung em vias de alcançar amplo acordo de cooperação tecnológica com Huawei.
Este movimento de pinça ilustra com perfeita clareza a independência da Coréia do Sul em relação ao abraço de urso dos EUA.
Não escapa à atenção da liderança em Pequim que a emergência da Coréia do Sul como ator geopolítico e geoeconômico cada vez mais forte na Ásia Oriental deve estar inextricavelmente ligada ao acesso da China à próxima geração de chips.
Portanto, um processo geopolítico e geoeconômico crucial a ser observado nos próximos anos é como Pequim progressivamente atrai Seul para sua área de influência, como espécie de potência tributária de alta tecnologia, enquanto aposta no futuro do que seria uma Federação Coreana.
A ideia tem sido discutida ano após ano, no mais alto nível, no Fórum Econômico Oriental em Vladivostok.
Wang Huiyao, presidente do Centro para a China e a Globalização, sediado em Pequim, observa que China e Coréia do Sul, que já têm um acordo de livre comércio, “iniciarão a segunda fase de negociações para estabelecer novo mecanismo para a cooperação econômica China-Coreia do Sul, que se desenvolve rapidamente”.
O próximo passo – imensamente difícil – será criar-se um mecanismo de livre comércio China-Coreia do Sul. E depois, um mecanismo China-Japão-Coreia do Sul, mais próximo e interligado. A Parceria Econômica Regional Abrangente é apenas o primeiro passo. Até 2049 a viagem será longa. Mas todos sabem para que lado sopra o vento.
Muito obrigado a Tlaxcala
Fonte: https://asiatimes.com/2020/09/china-deploys-sun-tzu-to-win-the-chip-war/
Data de publicação do artigo original: 29/09/2020
URL deste artigo: http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=29720










