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quinta-feira, 16 de julho de 2026

Sobreturismo nas montanhas: o impacto ambiental que ninguém quer ver


A pressão humana sobre as montanhas está a atingir um ponto de rutura irreversível. Um mega-estudo que analisou quase 50 anos de investigação científica global sobre o turismo de montanha  ("Environmental and Economic Impacts of Mountain Tourism: A Critical Review") revela que, a partir de 2019, o alerta disparou: a urgência climática e o fenómeno do overtourism (sobreturismo) estão a sufocar os ecossistemas de altitude.

Para percebermos a gravidade real deste cenário, a ciência aponta para quatro grandes problemas silenciosos que estão a acontecer agora mesmo

1. Microplásticos no topo do mundo: o estudo do Everest
No que toca à poluição por plásticos, o estudo mais emblemático e surpreendente é o "Mount Everest's microplastics", publicado em 2020 na prestigiada revista One Earth pela investigadora Imogen Napper e a sua equipa. Os cientistas analisaram amostras de neve e de água de ribeiros recolhidas em vários pontos da montanha, incluindo no "Balcony" a 8.440 metros de altitude - praticamente no topo do monte Everest.
Os resultados foram alarmantes: encontraram microplásticos em absolutamente todas as amostras de neve analisadas. A análise laboratorial revelou que a esmagadora maioria destas partículas eram fibras de poliéster, acrílico, nylon e polipropileno. A conclusão dos investigadores é direta: a fonte desta poluição não é o lixo trazido pelo vento de cidades distantes, mas sim o próprio vestuário técnico de alta performance, as cordas e as tendas utilizadas pelos montanhistas de elite durante a sua subida.

2. O colapso da gestão de resíduos no Himalaia
Para compreender o impacto sistémico do lixo físico e da falta de infraestruturas em áreas remotas, o artigo de referência é o "Contemporary environmental issues in Sagarmatha (Everest) National Park", publicado pelo geógrafo Alton C. Byers na revista Mountain Research and Development.
Este estudo clássico mapeou no terreno como o crescimento descontrolado do turismo de aventura nas últimas décadas colapsou por completo a capacidade de carga da região. Byers documentou a proliferação de lixeiras informais a céu aberto ao longo dos trilhos de aproximação, onde toneladas de plástico, metal e dejetos humanos são depositados sem qualquer tratamento, contaminando diretamente os lençóis freáticos e os ribeiros que abastecem as populações locais que vivem no sopé das montanhas.

3. O impacto silencioso sobre a fauna selvagem
No que diz respeito à perturbação da vida selvagem, destaca-se uma enorme meta-análise publicada na revista PLOS ONE por Courtney L. Larson e os seus colaboradores, intitulada "Effects of recreation on animals in protected areas". Os investigadores analisaram sistematicamente 274 estudos científicos independentes para perceber como as atividades de lazer afetam os animais.
A grande conclusão é que mesmo atividades consideradas de "baixo impacto", como uma simples caminhada (hiking) ou corrida em trilhos de montanha, desencadeiam respostas fisiológicas de stress muito fortes na fauna local. A presença humana constante força os animais a abandonar áreas ricas em alimento, altera os seus padrões de sono e de caça e reduz significativamente as suas taxas de sucesso reprodutivo, empurrando espécies já ameaçadas para altitudes ainda mais extremas e inóspitas.

4. A destruição invisível do solo e da flora alpina
Por fim, para entender a degradação física dos trilhos, os investigadores Jeff Marion e Yu-Fai Leung publicaram o artigo "Trail environments and visitor impacts" no Journal of Environmental Management. Os autores explicam a mecânica por trás do pisoteio turístico.
As plantas que crescem em ambientes alpinos enfrentam condições meteorológicas extremas e, por isso, têm um crescimento incrivelmente lento - algumas demoram décadas a crescer escassos centímetros. O estudo demonstra que bastam algumas dezenas de passagens de caminhantes fora dos trilhos oficiais para compactar o solo de forma irreversível. Esta compactação impede que as sementes germinem, bloqueia a infiltração da água da chuva e destrói a microflora do solo. Sem vegetação para segurar a terra, a chuva e o vento iniciam um processo rápido de erosão que rasga a montanha e pode provocar derrocadas de terra severas.

Conclusão
Anda-se a querer matar aquilo que pode ser realmente a galinha dos ovos de ouro do futuro, apenas porque pensam unicamente no imediato, do que acham que agrada o povo, sobretudo o povo eleitor, que acreditando que este tipo de turismo vai dar dinheiro aos montes e toda a vida, apoiam iniciativas e ideias que lhes são vendidas como garantia de futuro.
Também é possível trazer mais valias para o território sem estragar e comprometer o futuro, tem é que se fazer como deve ser feito, com sustentabilidade, com visão e não da maneira mais fácil porque, assim, acabarão por matar a galinha. Muitos países já estão a pagar muito caro e nós continuamos a não aprender com os erros dos outros.
Na Tailândia fecharam das praias mais conhecidas, na Islândia reduziram o número de turistas e proibiram o acesso a uma série de locais, em alguns países, como aqui ao lado em Espanha, em algumas zonas naturais e protegidas, as visitas são condicionadas apenas em determinados dias da semana e quando entrara o número de pessoas autorizado fecham o acesso nesse dia
Na Costa Rica visitas em áreas protegidas só com guias autorizados e com limite diário, nos Estados Unidos, Nova Zelândia e Austrália, nos principais Parques Naturais é necessária reserva antecipada para visitas e têm que ser acompanhadas por guias. E há muitos mais exemplos, mas muitos mais.
E em todas estas áreas protegidas vive gente. Gente que precisa dos turistas e vivem do turismo, o que demonstra que não é preciso estragar e destruir para se ganhar com o turismo de natureza.
Por cá, neste país, quer-se viver um ano inteiro do que se trabalha em 4 ou 5 meses. No turismo de natureza sustentável tem que se trabalhar todo ano.
Mas esses estrangeiros devem ser burros, não percebem nada disto. Nós é que somos as sumidades, nós é que somos o exemplo.
Aqui cada vez se abre mais, cada vez se quer mais confusão, mais lixo, cada vez se levantam mais restrições. Vende-se ao povo a ideia que viver numa área protegida é uma desgraça que só é minimizada se massificarmos. Mesmo sabendo que estão a mentir ao povo. O imediato, o agora, é que conta para quem convence o povo desta forma.

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segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

ONU: Guterres anuncia cortes orçamentais de 500 milhões de euros e redução de 2.681 postos de trabalho


O secretário-geral da ONU, António Guterres, atualizou esta segunda-feira a proposta de orçamento regular da organização para 2026, prevendo agora cortes de 577 milhões de dólares (496,4 milhões de euros) e uma redução de 2.681 postos de trabalho.

Numa apresentação perante a Quinta Comissão da ONU, responsável por assuntos administrativos e orçamentais, Guterres propôs reduzir as necessidades de recursos das Nações Unidas para 3,238 biliões de dólares (2,79 mil milhões de euros), uma redução de 15,1% face a 2025.

A tabela de pessoal foi revista para 11.594 postos de trabalho – incluindo Missões Políticas Especiais –, uma redução de 2.681 postos, ou 18,8%, em comparação com a tabela de pessoal aprovada para 2025.

"Embora as reduções propostas sejam substanciais, foram cuidadosamente calibradas para preservar o equilíbrio entre os três pilares da organização: paz e segurança, desenvolvimento sustentável e direitos humanos", assegurou Guterres, num momento em que a ONU atravessa uma grave crise de liquidez.

Os cortes integram a "Iniciativa ONU80", um projeto anunciado por Guterres que visa mudanças estruturais na própria organização, como a fusão de unidades, eliminação de duplicações funcionais e estruturais, e cortes em funções que são desempenhadas noutras partes do sistema, incluindo nas Missões de Paz.

Isenta de cortes ficou a agência das Nações Unidas para os refugiados palestinianos (UNRWA), com Guterres a justificar que quaisquer reduções poderiam ter "consequências drásticas na espinha dorsal de toda a resposta humanitária a Gaza".

"A Conta de Desenvolvimento e a defesa do desenvolvimento de África também foram isentas de cortes que inevitavelmente teriam impacto direto no nosso apoio aos Estados-membros, dificultando os esforços para a Agenda 2030, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e a Agenda 2063 da União Africana", argumentou Guterres.

Para as missões políticas especiais, o orçamento revisto ascende a 543,6 milhões de dólares (467,6 milhões de euros), uma redução de 96,3 milhões de dólares (82,8 milhões de euros) ou 15% em comparação com o orçamento inicialmente proposto para 2026, e uma redução de 21,6% face a este ano.

Segundo o líder da ONU, estes ajustes refletem os apelos para um secretariado da organização internacional "mais eficaz, ágil e resiliente" e contém propostas para "alinhar os recursos com as prioridades organizacionais, modernizar as operações internas e refletir uma resposta pragmática ao contexto fiscal em constante evolução".

Porém, reduções desta magnitude "terão inevitavelmente impactos programáticos e operacionais em todas as entidades e acarretarão ajustes na forma como o secretariado executa as atividades que lhe estão atribuídas", alertou o antigo primeiro-ministro português.

"Estas medidas constituem reduções orçamentais substanciais que afetam as pessoas reais, as famílias e os futuros – e nunca devemos perder de vista esta dimensão humana", acrescentou.

As propostas incluem também a criação de centros administrativos em Nova Iorque e Banguecoque (Tailândia), a unificação do processamento de salários numa equipa global distribuída entre Nova Iorque, Entebbe (Uganda) e Nairobi (Quénia), e a transferência de funções desde as sedes mais caras - como Nova Iorque e Genebra - para locais de menor custo.

Desde 2017, o secretariado da ONU poupou 126 milhões de dólares (108,4 milhões de euros) com o fim de contratos de arrendamento comercial em Nova Iorque, especificou ainda Guterres.

Além disso, a ONU planeia desocupar dois edifícios alugados em Nova Iorque até 2027, gerando poupanças de milhões de dólares anuais a partir de 2028.

Apesar da carga de trabalho da ONU aumentar de ano para ano, os recursos estão a diminuir em todos os setores, contribuindo para isso o facto de que nem todos os Estados-membros pagam na totalidade as obrigações anuais e muitos também não pagam a tempo.  

Sobre o pagamento das obrigações anuais, Guterres criticou o "volume inaceitável de atrasos", frisando que a ONU terminou 2024 com um débito de 760 milhões de dólares (653,8 milhões de euros), dos quais 709 milhões de dólares (610 milhões de euros) ainda estão pendentes.

Além disso, Guterres assinalou que a ONU também não recebeu 877 milhões de dólares (754,2 milhões de euros) referentes às contribuições de 2025.

Assim, o débito é atualmente superior a 1,3 mil milhões de euros.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Gen Z are demanding schools and hospitals, not superyachts and helicopters



A wave of youth-led “Gen Z” protests is sweeping the world. A recurring slogan during the recent protests in Morocco was “We want hospitals, not stadiums”, reflecting how publicly funded services such as health and education are being sidelined. Electricity and water outages triggered the protests in Madagascar that toppled the government. Rooted in high levels of inequality, deficits in public services, and generational frustration, these protests reflect the fracturing of the social contract between governments and young citizens

This week will see the World Summit for Social Development in Qatar. This is the first such summit in 30 years to focus the world’s attention on the pressing need to provide health, education, social protection and other vital services for all. Such public services are the most powerful and proven way to build more equal, fairer societies. This summit offers a critical opportunity to radically improve public service delivery, something that is at the heart of the rebuilding of a new social contract between angry citizens and their governments.

Sadly, the trend is firmly in the wrong direction. In 2024, Oxfam highlighted that 84 percent of countries have cut investment in education, health and social protection. Nine out of ten countries have backtracked in one or more areas. The United Nations’ Sustainable Development Goals in all these areas are way off track. Cuts to aid from rich countries are also making things worse for the Global South. US foreign assistance cuts alone could cause more than 14 million additional deaths by 2030.

Yet the world is not short of wealth: total global wealth is immense. The vast majority is in the hands of rich individuals and is barely taxed. Global private wealth grew by $342 trillion since 1995 – eight times more than global public wealth. The case for taxing this wealth – to fund health, education and other public services – is overwhelming, and thanks to the leadership of Spain and Brazil, is also gaining momentum that is long overdue.

Over the next 10 years, $70 trillion is going to be handed by the rich to their children, cementing inequality into the next generation, in what has been described as an “inheritocracy”. Meanwhile, good education and health are increasingly only available to those who have enough money. This is squandering the talent of a generation. How many potential climate scientists or engineers will never get to even go to high school? In many countries, children from rich families are hundreds of times more likely to get to go to university than those from poorer backgrounds. For girls from poorer families, the chances are lower still. It is no wonder this spills over into anger and resentment.

The concept of a welfare state is being eroded before our eyes in the face of an ideological commitment to austerity and a shrinking state. This is tragic given the clear evidence that robust welfare systems are key for reducing inequality, redressing social disadvantage, and rebuilding trust. In contrast, failure to deliver these risks unrest. Improvements in service delivery lead to higher satisfaction and trust in government, while poor or corrupt service delivery erodes trust.

The Gen Z protests have shown that the next generation is no longer willing to patiently wait for traditional party politics to address these concerns. They are organising digitally and acting outside established institutional channels. If governments do not respond to people’s aspirations with improvement in public services and stronger social protection and fail to act on inequality, they risk further resistance and protests. In this sense, the Gen Z uprisings are the canary in the coalmine for inequality and public-service deficits.

The good news is that none of this is inevitable. There are many examples of countries that have bucked the trend. Take, for example, Thailand with its world-class public healthcare system available to all citizens. Or the hundreds of millions of children who have benefited from primary education being made free across Africa. Good public services are within the reach of every government.

To do this, governments should focus on building national public wealth and not private wealth. They should reject the snake oil solutions that propose “private finance first” policies and that promote as a panacea privatisation, commercialisation and financialisation of essential public services, like health, education, water, care and social protection. This is a dangerous dead end.

Over the last year, we saw the creation of 49 new billionaires in the field of health and pharmaceuticals. Yet half the world’s population is still not covered by essential health services, with 1.3 billion people impoverished by out-of-pocket health spending. The only beneficiaries from privatised healthcare are the richest, at huge human cost.

The Gen Z movements inject urgency into the World Summit for Social Development agenda – governments ignore the provision of public services at their peril. They must respond not with bullets and batons, but with classrooms and clinics.

domingo, 12 de janeiro de 2025

Amizade eterna: cadela espera por seu dono falecido todos os dias


The story of a Thai dog is similar to that of the famous dog Hachiko. Since the death of her homeless owner, Moo Deng has spent every day in the same spot in front of a supermarket. The dog Hachiko became famous for his loyalty in the 1930s after the dog waited for ten years in front of Shibuya station in Tokyo for his deceased owner to return.

A faithful dog that mourned its late owner to the point of being “severely depressed” has found a new home after being adopted by a Thai princess.

Images of the brown and white dog, named Moo Daeng (Thai for “red pork”), sleeping in front of a convenience store went viral on social media in January, reported The Nation

The Mari-Mo Photography Facebook page, which has been posting photos of Moo Daeng since its owner’s death in November 2024, said in various posts that the dog had been living in front of a 7-Eleven outlet in Yamo Market, in the Mueang district of Nakhon Ratchasima province.

Moo Daeng’s photos were reposted by another more popular Facebook page, KoratForumSkyscrapercity, and eventually went viral on social media.

When Moo Daeng’s owner, a homeless man, was alive, he took his pet begging in the vicinity of the market for food and money during the day. They would regularly rest in front of the 7-Eleven store when night fell, according to The Nation.

However, Moo Daeng’s owner, whose name is not known, fell ill and died in November 2024.

terça-feira, 21 de maio de 2024

Como conter enchentes, segundo criador das 'cidades-esponja': 'Barragens estão fadadas ao fracasso'

Eventos atmosféricos extremos com períodos prolongados de fortes chuvas e inundações, como as ocorridas no Rio Grande do Sul nas últimas semanas, se tornarão cada vez mais comuns e intensos, segundo os cientistas.

Mas o que as cidades podem fazer para evitar ou mitigar esse tipo de tragédia?

Para o criador do conceito de cidades-esponja, o arquiteto chinês Kongjian Yu, a resposta está em parar de "lutar contra a água" e investir em soluções duradouras e baseadas na natureza.

"Temos uma escolha a fazer: investir em grandes barragens e diques que estão fadados a fracassar ou apostar em algo que é duradouro, sustentável e ainda bonito e produtivo", questionou o decano da faculdade de Arquitetura e Paisagismo da Universidade de Pequim em entrevista à BBC News Brasil.

Para Yu, as soluções tradicionais baseadas em barragens de cimento e tubulações impermeáveis já se mostraram incapazes de acompanhar os efeitos das mudanças climáticas, já que as chuvas são cada vez mais intensas e o nível da água de rios e mares não para de subir.

Como alternativa, o arquiteto propõe adotar uma infraestrutura verde, baseada em um balanço hídrico artificial que seja o mais parecido possível com o natural e dê espaço e tempo para que a água seja absorvida pelo solo.

Em outras palavras, criar espaços e infraestruturas capazes de absorver, reter e liberar a chuva de forma que ela retorne ao ciclo natural da água sem causar estragos.

O conceito já foi aplicado pela equipe de Yu em diversas cidades na China e também na Tailândia, Indonésia e Rússia — e por outros arquitetos em todo o mundo.

Segundo o chinês, ele pode ser reproduzido em qualquer lugar, inclusive no Brasil.

"Funciona em qualquer lugar. As cidades-esponja são uma solução para climas extremos, onde quer que eles estejam", diz.

"E o Brasil pode se dar muito bem com elas, porque tem muitas áreas naturais, o que dá mais espaço para a água escoar."

De acordo com o arquiteto, além de impedir inundações, o modelo também pode ser útil durante os períodos de seca, já que a água armazenada pode ser utilizada para irrigação e para manter as árvores e plantas da cidade em boas condições.

Além das fortes chuvas, períodos mais prolongados de seca também são efeitos das mudanças climáticas.

Antes de sofrerem com as inundações, muitos produtores gaúchos já haviam sido castigados pela falta de água no ano safra de 2021/22.

Mas para que o conceito das cidades-esponja funcione, ele deve se basear em três grandes estratégias, segundo Kongjian Yu.

1. Contenção da água
O primeiro princípio adotado nos projetos do chinês é reter a água assim que ela toca o solo. Segundo Yu, isso pode ser alcançado por meio de grandes áreas permeáveis e porosas, não pavimentadas.

Da mesma forma que uma esponja com muitos orifícios, a cidade deve conter a chuva com lagos artificiais e áreas de açude alimentados naturalmente ou por canos que ajudam a escoar a água de rios e represas.

Telhados e fachadas verdes, assim como valas com áreas verdes com camadas de solo permeáveis ​​por baixo também são usadas para esse propósito.

Kongjian Yu explica que, em áreas cultiváveis, reservar 20% do terreno para operar como um sistema de açude é suficiente para impedir que o restante do lote seja inundado. Essa área pode ainda ser adaptada para colheitas resistentes à umidade e para posteriormente abastecer o restante das plantações em épocas de seca.

Apesar de ser algo recente, a base teórica na qual as cidades-esponja resgata as antigas tradições chinesas da agricultura e da gestão da água.

"Temos que aprender com a aquacultura como fazer essa terra fértil, quais culturas podem sobreviver e usar essas áreas para isso", diz. "O arroz é um exemplo de uma plantação que pode funcionar."

2. Redução da velocidade
Em seguida, o arquiteto aconselha pensar no manejo da água coletada. Isto é, desacelerar o fluxo d'água.

Em vez de tentar canalizar a água rapidamente para longe em linhas retas, rios tortuosos com vegetação ou várzeas reduzem a velocidade da água.

Eles oferecem mais um benefício, que é a criação de áreas verdes, parques e habitats para animais, purificando a água escoada na superfície com plantas que removem toxinas poluentes e nutrientes.

Yu conta que se interessou pelo tema da urbanização e da contenção das águas após vivenciar uma experiência com inundações durante a infância.

Na época com apenas 10 anos, o chinês vivia em uma fazenda na Província de Zhejiang, perto de Hangzhou. Durante um período de fortes chuvas, o córrego da região inundou os campos de arroz da comunidade agrícola e Yu foi pego pelas águas, carregado pela enchente.

Mas as plantas, troncos e salgueiros ao longo do córrego reduziram a velocidade do fluxo do rio, permitindo que ele se agarrasse à vegetação e saísse das águas.

"Se o rio fosse como muitos são hoje, nivelados com paredes de concreto, certamente eu teria me afogado", contou Yu à BBC.

As técnicas usadas pelo arquiteto em seus projetos atuam da mesma forma que a vegetação no córrego na fazenda de Yu, desacelerando a água.

3. Escoamento e absorção
A terceira estratégia é adaptar as cidades para que elas tenham áreas alagáveis, para onde a água possa escorrer sem causar destruição.

"Em vez de construir barragens e ir acumulando a água em áreas de cimento, precisamos nos adaptar à água, deixa a cidade lidar com a água de forma saudável", diz Yu.

A principal forma de fazer isso é criar grandes estruturas naturais alagáveis para que a água possa ser contida por um tempo e, depois, absorvida pelo lençol freático.

Yu defende que essas áreas alagáveis permaneçam desocupadas, evitando-se construções nas áreas baixas.

Nos casos de infiltração, podem ser feitas caixas infiltrantes, que facilitam a entrada da água no solo.

Algumas cidades usam "jardins de chuva" que armazenam o excesso de chuva em tanques subterrâneos e túneis. A água só é descartada nos rios depois que os níveis diminuem.

Plantas que absorvem água também podem ser usadas para dar conta do alto volume de chuvas.

"A natureza se adapta. O conceito de cidade-esponja é baseado no princípio de que a natureza regula a água", diz o arquiteto. "Não é apenas a natureza em si. Sistemas feitos pelo homem devem ser certamente usados, mas a natureza deve ser dominante."

Yu afirma ainda que, para conter as grandes inundações previstas para os próximos anos, é preciso expandir essa estratégia por várias regiões e criar um "planeta-esponja" onde a força das águas possa ser dissipada e desacelerada aos poucos.

Ainda na visão do chinês, além de parques adaptados e áreas cultiváveis capazes de absorver mais água, lagoas e pântanos podem coexistir com rodovias e arranha-céus.

terça-feira, 7 de maio de 2024

Documentário: A Dark Web - O mercado negro, cibercrime, AlphaBay e pornografia infantil

Data de estreia: 10 de julho de 2019 (Singapura)

Este documentário explora o submundo da Dark Web, o comércio no mercado negro, o cibercrime e os meandros de redes criminosas reais, focando-se em dois grandes casos: a ascensão e queda do mercado ilegal AlphaBay e a desmontagem de uma rede internacional de pornografia infantil na Indonésia, o grupo Lolly Candy.

Abaixo encontras o resumo detalhado de toda a narrativa e das explicações técnicas do documentário, traduzido para português de Portugal.

Parte 1: O Mercado Negro Digital e o Caso AlphaBay

O Conceito e o Tamanho do Mercado

O documentário abre com o anúncio, por parte do Departamento de Justiça dos EUA, do desmantelamento do AlphaBay, um mercado que faturava entre 300 a 500 milhões de dólares por ano. Especialistas em segurança informática explicam que a Dark Web preencheu uma lacuna de mercado: se alguém tem um produto ilegal para vender, não o pode listar numa plataforma de comércio eletrónico comum. A Dark Web tornou-se o local ideal devido ao anonimato.

O que se vendia no AlphaBay

A plataforma funcionava de forma idêntica ao eBay ou à Amazon, mas para produtos ilícitos. Através de categorias simples e avaliações de clientes, os utilizadores compravam:

  • Diplomas universitários falsificados;

  • Passaportes (como do Reino Unido ou Países Baixos) e cartas de condução europeias;

  • Estupefacientes (como cocaína colombiana pura);

  • Armas de fogo de alto calibre, incluindo espingardas AK-47.

Os vendedores partilhavam frequentemente avaliações sobre técnicas de envio camuflado (como esconder os produtos dentro de caixas de CDs). A grande inovação destes mercados foi elevar o pequeno traficante local a uma escala global, permitindo-lhe interagir com centenas de milhares de potenciais clientes em todo o mundo, sem a necessidade de encontros presenciais perigosos.

A Mente por trás do Império: Alexandre Cazes

A investigação policial determinou que o administrador principal utilizava o pseudónimo Alpha02. O homem por trás da conta era o canadiano Alexandre Cazes. Ele começou a sua carreira digital a vender credenciais roubadas na internet superficial (Clear Web). Com uma forte mentalidade de programador e empresário, Cazes construiu a plataforma e acabou por ignorar a gravidade dos crimes à medida que o dinheiro entrava em massa. O documentário refere que muitos destes administradores começam por motivos ideológicos (contra a regulação do Estado), mas acabam viciados no poder e na adrenalina de gerir um império ilegal.

O Erro Fatal e a Captura na Tailândia

Muitos cibercriminosos consideravam a Tailândia um "paraíso", porque o país não tinha leis robustas de interceção de dados para segurança nacional, ao contrário de países europeus ou de Singapura. Cazes estabeleceu-se em Banguecoque, ostentando uma vida de luxo com carros desportivos como Lamborghinis.

No entanto, o seu erro fatal ocorreu anos antes de fundar o AlphaBay: Cazes utilizou uma conta de e-mail antiga do Hotmail que continha o seu nome real nos cabeçalhos de mensagens de boas-vindas do fórum. Essa pegada digital permitiu ao FBI e às autoridades internacionais ligarem a sua identidade real ao pseudónimo Alpha02.

A polícia realizou uma operação tática e prendeu Cazes enquanto ele estava ativamente ligado à plataforma como administrador no seu portátil. Se ele tivesse fechado o computador, o disco encriptado tornar-se-ia inacessível; ao apanhá-lo em flagrante, a polícia obteve a prova definitiva. A polícia manteve o site online durante algum tempo, simulando uma fraude de saída (exit scam), para forçar os criminosos a migrarem para outras plataformas controladas pelas autoridades. O AlphaBay era cerca de dez vezes maior do que o histórico Silk Road.

Parte 2: A Tecnologia da Dark Web e das Criptomoedas

Como Funciona o Anonimato

Para que um mercado como o AlphaBay existisse, foi necessária a junção de duas tecnologias que criaram a "tempestade perfeita":

  1. A Rede Tor: Em vez de uma ligação direta entre o utilizador e o site, a rede Tor faz a ligação passar por múltiplos intermediários (nós), mascarando a identidade e a localização. Os sites não usam domínios comuns (como .com ou .net), mas sim sequências aleatórias de caracteres que terminam em .onion. Originalmente, o Tor foi desenvolvido pelo Gabinete de Investigação Naval dos EUA para permitir comunicações anónimas de espiões, sendo hoje também usado por jornalistas em países com forte censura política.

  2. As Criptomoedas: O Bitcoin e outras moedas focadas na privacidade (como o Monero) fornecem o anonimato financeiro. Tradicionalmente, os criminosos eram apanhados seguindo o rasto do dinheiro bancário. Com as criptomoedas, transações multimilionárias cruzam o globo sem intermediários financeiros tradicionais, tornando quase impossível associar uma carteira digital a uma pessoa real sem investigações cruzadas complexas.

Parte 3: O Caso Lolly Candy e o Combate à Exploração Infantil

A Descoberta da Rede Humana

A segunda metade do documentário foca-se num crime de natureza diferente e altamente sensível na Indonésia. Através de patrulhas cibernéticas e denúncias de grupos de mães civis, a polícia descobriu um grupo na rede social Facebook chamado Lolly Candy, dedicado à partilha de pornografia infantil.

O grupo começou camuflado como uma comunidade de entusiastas de anime e videojogos, mas rapidamente escalou para a partilha massiva de imagens e vídeos de abusos sexuais contra menores, desde bebés de 9 meses até crianças de 10 anos. Quando o Facebook aumentava a censura, os administradores migravam os membros para grupos fechados e encriptados no WhatsApp e Telegram, envolvendo redes que ligavam mais de 46 países.

O Perfil do Administrador Principal (Wawan)

O criador e administrador principal era um jovem indonésio chamado Wawan. Com uma infância marcada por dificuldades económicas e isolamento social (introversão), ele passava os dias em cibercafés, onde aprendeu informática e descobriu o submundo da internet.

Wawan confessou que o seu envolvimento inicial foi por curiosidade e que a gestão do grupo lhe dava um sentimento de orgulho, liderança e poder internacional que nunca teve na vida real. Ele tentava monetizar os cliques do grupo através de links com publicidade (AdsFly) para pagar os seus dados de internet, enquanto outros membros trocavam conteúdos por recompensas simples, como cartões de carregamento de telemóvel. Apesar de negar inicialmente os abusos em tribunal alegando falta de exames médicos, a investigação provou que Wawan não só distribuía os ficheiros, como também abusava diretamente de crianças na sua própria vizinhança.

O Perfil Psicológico dos Agressores e o Processo de Aliciamento

Especialistas e psicólogos detalham o perfil destes criminosos:

  • Grooming (Aliciamento): Apresentam-se geralmente de forma simpática, calorosa e eloquente. Não parecem ameaçadores, o que faz com que ganhem rapidamente a confiança das crianças e dos pais.

  • Fatores de Origem: A pedofilia pode derivar de desvios no desenvolvimento psicossexual ou de fatores ambientais, como o agressor ter sido ele próprio vítima de abusos na infância (um trauma psicológico não tratado que gera um ciclo de repetição). O próprio Wawan revelou ter sofrido abusos de um vizinho aos 7 anos.

  • O Perigo Oculto: O documentário alerta que este crime não escolhe género; embora a maioria dos agressores sejam homens, também existem mulheres envolvidas que procuram satisfação e controlo.

As Regras de Segurança dos Criminosos e a Operação Policial

Para evitar serem banidos pelos algoritmos das redes sociais, os membros do grupo usavam códigos (como a sigla "CP") e instruíam a colocação de símbolos (emojis) para tapar partes explícitas nas fotos públicas. Para os conteúdos sem censura, utilizavam servidores externos e técnicas para que os links não ficassem azuis (hiperligações ativas), contornando os filtros de segurança. Exigiam também que os membros provassem a autenticidade dos ficheiros escrevendo datas ou nomes específicos nos papéis antes de fotografar, garantindo que o material era real e recente.

A polícia de cibersegurança indonésia infiltrou-se no grupo fingindo ser um membro ativo. Para evitar que os criminosos apagassem as provas permanentemente através da encriptação ponto a ponto dos telemóveis, as autoridades planearam uma operação cirúrgica e simultânea.

O erro que tramou Wawan foi ter tirado uma fotografia a uma criança na rua onde, inadvertidamente, aparecia a matrícula de um veículo e um ângulo específico da fachada da sua casa. Com o apoio da equipa de analistas do Facebook e do FBI, a polícia localizou e prendeu simultaneamente os quatro administradores principais em localizações diferentes, apreendendo telemóveis e dispositivos de armazenamento com milhares de ficheiros criminosos.

Conclusão e Alerta Social

O documentário encerra com um apelo à vigilância digital por parte dos pais e das comunidades. Com a internet superficial a representar apenas cerca de 5% de toda a rede global, as plataformas anónimas e encriptadas continuam a ser um desafio constante para as forças policiais internacionais, exigindo uma evolução tecnológica contínua para combater o cibercrime organizada e proteger os mais vulneráveis.

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Paisagista Kongjian Yu, pioneiro do conceito de "cidade esponja", recebe o Prémio Oberlander 2023


O arquiteto paisagista de Pequim, Kongjian Yu, foi anunciado pela Cultural Landscape Foundation como o vencedor do Prêmio Internacional de Arquitetura Paisagística Cornelia Hahn Oberlander Cornelia Hahn Oberlander 2023 (Prêmio Oberlander). Kongjian Yu ganhou reconhecimento internacional por seu conceito de "cidades esponja", uma medida para lidar e prevenir inundações urbanas no contexto das mudanças climáticas aceleradas. O conceito foi adotado como política nacional na China em 2013, priorizando infraestruturas de grande escala baseadas na natureza, como zonas úmidas, corredores verdes, parques, proteção de árvores e bosques, jardins de chuva, telhados verdes, pavimentos permeáveis e biovaletas.

Yu foi selecionado pelo júri internacional do Prêmio Oberlander, que o reconheceu como "uma força para mudanças progressivas na arquitetura paisagística ao redor do mundo". Organizado bienalmente, o prêmio tem como objetivo reconhecer e dar visibilidade à arquitetura paisagística e às formas como ela pode abordar questões relacionadas às mudanças climáticas e à sustentabilidade.

Yu fundou e continua liderando a Escola de Pós-Graduação em Arquitetura Paisagística e a Faculdade de Arquitetura e Paisagismo da Universidade de Pequim. Ele também é o fundador e diretor do escritório de arquitetura paisagística Turenscape, fundado com base no princípio de criar "harmonia entre a terra e as pessoas e ambientes sustentáveis para o futuro". Yu possui doutorado pela Escola de Pós-Graduação em Arquitetura de Harvard e é autor de mais de vinte livros, tendo também estabelecido a premiada revista Landscape Architecture Frontier.

Apesar do reconhecimento internacional, Yu se descreve como "filho de camponês", nascido em 1963 em uma pequena vila na Província de Zhejiang. A vida na vila e o ambiente natural foram influências importantes para Yu, posteriormente prejudicados pela poluição e desmatamento. De acordo com William Saunders, autor do livro "Designed Ecologies: The Landscape Architecture of Kongjian Yu", isso nos ajuda a entender o compromisso de Yu em recriar e proteger a abundância natural. Também enfatiza a repulsa de Yu por paisagens "ornamentais" em favor de parques produtivos e de baixa manutenção.

Há mais de 25 anos, Kongjian Yu tem usado sua carreira para lutar contra a deterioração das ecologias urbanas. Sua pesquisa sobre Padrões de Segurança Ecológica (1995) e Infraestrutura Ecológica, Planejamento Negativo e Cidades-Esponja (2003) lançou as bases para a política da China liderar iniciativas nacionais de proteção e campanhas de restauração ecológica. A empresa de Yu, Turenscape, tem contribuído para essa abordagem com mais de 600 projetos construídos em mais de 200 cidades, principalmente na China, mas também na França, Indonésia, Rússia, Singapura, Tailândia e Estados Unidos. Projetos notáveis incluem o Red Ribbon Park na Província de Hebei, Shanghai Houtan Park, Qunli Stormwater Wetland Park na Província de Heilongjiang, China, o Benjakitti Forest Park na Tailândia e o Hing Hay Park em Seattle, Estados Unidos.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Música do BioTerra: Helen Ganya - Little Match Girl


Little Match Girl foi escrita para a instituição de caridade de mudança climática de Brian Eno, Earth Percent, como parte de sua recente campanha do Dia da Terra 2023. A Terra também é creditada como co-autora da faixa, que faz parte de outra campanha para centralizar e (literalmente) incluir a Terra na música que fazemos, com fundos destinados a organizações lideradas pelo clima.

Uma reviravolta no conto sombrio, LMG é reinterpretado para incluir a urgência do agora sem desespero total.

sexta-feira, 31 de março de 2023

O mais longo tronco petrificado de uma árvore


O mais longo tronco petrificado de uma árvore mede 72,2 m, sugerindo que a árvore original se elevou a mais de 100 m de altura, numa floresta tropical húmida, há cerca de 800 mil anos.

Mais informações:

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Fundamentalismo Budista




1. O Budismo Nacionalista
O fundamentalismo budista moderno raramente foca em "interpretação literal de escrituras" (como ocorre em vertentes de outras fés). Em vez disso, ele foca na proteção da nação e da cultura. A ideia central é que o país é o "guardião" do budismo puro e que outras religiões ou minorias étnicas representam uma ameaça a essa pureza.

Myanmar (Birmânia): O movimento 969 e a associação Ma Ba Tha, liderados por monges como Ashin Wirathu, têm sido figuras centrais na retórica contra a minoria muçulmana Rohingya. O argumento usado é que o budismo está sob "cerco" e que medidas violentas seriam formas de "autodefesa" da fé.

Sri Lanka: Grupos como o Bodu Bala Sena (BBS) — ou Força de Poder Budista — promovem uma agenda nacionalista cingalesa. Eles frequentemente entram em conflito com minorias muçulmanas e cristãs, alegando que o Sri Lanka deve ser um Estado exclusivamente budista.

Tailândia: Embora menos centralizado, há facções de monges que pedem que o budismo seja declarado a religião oficial do Estado na constituição e que defendem uma postura agressiva contra insurgências no sul do país.

2. A "Doutrina" da Defesa da Fé
Diferente do fundamentalismo cristão ou islâmico, que pode focar em leis morais (como criação versus evolução ou a Sharia), o fundamentalismo budista costuma criar uma distorção do conceito de Karma e Dharma:

Violência Justificada: Alguns líderes extremistas argumentam que matar para proteger o Budismo não gera o mesmo karma negativo que um assassinato comum.

Identidade vs. Espiritualidade: O foco muda do desapego do "eu" (uma base do budismo) para o apego à "identidade nacional".

Por que isso acontece?
O budismo, como qualquer instituição humana, está sujeito a pressões políticas e sociológicas. O fundamentalismo surge geralmente em contextos de:
  1. Insegurança económica.
  2. Legado colonial (sentimento de que a cultura nativa foi suprimida).
  3. Uso político da religião por governos que buscam uma base de apoio sólida e emocional.
Nota: É importante distinguir a prática espiritual de milhões de budistas — que seguem os preceitos de não-violência — desses movimentos políticos radicais que utilizam a simbologia da religião para fins de exclusão.

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Só um país cumpre as metas do Acordo de Paris


Somente um país, a Gâmbia, cumpre o acordo de Paris sobre redução de emissões. A União Europeia, analisada em bloco, encontra-se na "lista laranja".

                            

A poucos dias da cimeira do clima de Glasgow, onde é esperado que os países anunciem cortes nas emissões de gases com efeito de estufa, apenas um, a Gâmbia, cumpre o acordo de Paris sobre redução de emissões.

De acordo com estimativas independentes e científicas, referentes a este mês, das organizações que elaboram o índice Climate Action Tracker (CAT), só o pequeno país africano está no caminho de cumprir as metas definidas no Acordo de Paris, alcançado em 2015, para evitar um aquecimento do planeta superior a 1,5 graus celsius (ºC) acima dos valores da era pré-industrial.

Há dois anos a Gâmbia já estava na linha da frente da luta contra as alterações climáticas, a par de Marrocos, que está agora no grupo de países com metas quase suficientes para cumprir o acordo de Paris, a par da Costa Rica, Etiópia, Quénia, Nepal, Nigéria e Reino Unido.

A União Europeia – na escala de cores do CAT em que a verde aparece apenas a Gâmbia e os “quase lá” estão a amarelo – aparece no grupo dos países cor de laranja, com metas insuficientes e no mesmo grupo de países como o Chile, o Japão, o Peru, a África do Sul ou os Estados Unidos, entre outros. Os Estados Unidos estavam há dois anos na lista negra, que representa os piores países do mundo em termos de metas para evitar um aquecimento global que os cientistas consideram catastrófico para a humanidade.

O CAT é produzido por duas organizações, a Climate Analytics e o New Climate Institute, e rastreia as promessas e políticas climáticas de 37 países/regiões, cobrindo cerca de 80% das emissões globais de gases com efeito de estufa.

O Acordo de Paris, assinado por praticamente todos os países do mundo em 12 de dezembro de 2015, pretende ser um plano de ação, assente em compromissos concretos dos países, para limitar o aquecimento global a menos de 2ºC, de preferência menos de 1,5ºC, acima dos valores médios da era pré-industrial.

Segundo o CAT, as medidas da União Europeia são insuficientes, permitem um aumento de temperatura que ultrapassa os 2ºC, mas ainda assim o bloco está no bom caminho.

A vermelho, com medidas altamente insuficientes, estão 15 países, entre eles grandes economias e grandes emissores de gases com efeito de estufa, como a Argentina, Austrália, Brasil, Canada, China, Índia, Indonésia, México ou Ucrânia estão neste grupo, cujos compromissos de redução de emissões resultam num aumento do aquecimento global que ultrapassa os 3ºC.

Em situação crítica, na lista negra do CAT, estão seis países, praticamente sem medidas para conter as emissões de gases com efeito de estufa. A Federação Russa, a Arábia Saudita, o Irão, Singapura, Tailândia e Turquia estão neste grupo, e pelas suas políticas diz o CAT que a temperatura global aumentaria 4ºC.

O CAT foi atualizado há menos de duas semanas, mas a Climate Analytics e o New Climate Institute dizem que desde maio, quando foi feita a ultima atualização, quase nada mudou em relação às promessas de redução de emissões de gases com efeito de estufa. Desde novembro do ano passado um reduzido número de países concluiu as suas propostas de redução de emissões para 2030.

Por isso as duas organizações consideram ser “absolutamente necessário” que mais governos aumentem as chamadas “contribuições nacionalmente determinadas” (NDC na sigla original) de redução de gases com efeito de estufa. “Há demasiados, especialmente entre os grandes emissores e países desenvolvidos, que ainda não o fizeram. Cerca de 70 países não atualizaram de todo as suas NDC”, segundo a organização.

O esquema de classificação do CAT foi alterado e tornado mais abrangente, juntando as políticas, a ação e as metas de cada país/região, classificando agora 37 países/regiões, mais quatro do que anteriormente: Nigéria, Irão, Tailândia e Colômbia.

Dos 37, apenas a Gâmbia tem uma ação climática global compatível com o Acordo de Paris, em sete píses a ação climática global é quase suficiente, o que significa que ainda não são compatíveis com o limite de 1,5ºC, mas podem alcançar esse patamar com pequenas melhorias, e os restantes três quartos dos países analisados têm “lacunas significativas” na ação climática. Portugal não é analisado individualmente, apenas a União Europeia em bloco.

No CAT a União Europeia deu “grandes passos” na mitigação das alterações climáticas em 2020, como o chamado “Green Deal”, ou a aprovação já este ano da Lei Europeia do Clima.

No entanto, a ação climática da União Europeia, segundo as organizações que compilam o índice, ainda pode melhorar, “especialmente em torno da aceleração da eliminação gradual do carvão, aumentando o financiamento da ação climática no estrangeiro, e indo além do atual objetivo de redução das emissões” de gases com efeito de estufa em 55% até 2030.

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Compromissos de redução de gases com efeito de estufa estão estagnados



Os compromissos dos governos mundiais para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa pouco mudaram nos últimos seis meses e estão muito longe das metas para 2030, indica a última análise da organização “Climate Action Tracker”.

A “Climate Action Tracker” (CAT) faz uma análise científica independente sobre as ações dos governos para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) e manter o aquecimento global abaixo dos 2°C (dois graus celsius) e de preferência limitar esse aquecimento a 1,5°C acima dos níveis da era pré-industrial, como ficou definido no Acordo de Paris, em 2015.

A análise da CAT abrange os maiores emissores de GEE e uma amostra de pequenos países, cobrindo cerca de 80% das emissões globais e 70% da população mundial.

Na última revisão da ação dos governos, hoje divulgada, a CAT diz que a evolução não é grande e salienta que é absolutamente necessário que mais países aumentem as suas contribuições de redução, conhecidas como Contribuições Nacionalmente Determinadas (CND).

Diz a organização que há demasiados países, especialmente entre os maiores emissores de gases e países desenvolvidos, que ainda não aumentaram as suas contribuições. E que há cerca de 70 países que não fizeram qualquer atualização ainda.

A CAT apresenta agora um novo sistema de classificação dos países, mais completo. A nova classificação abrange 37 países, mas desses apenas um, a Gâmbia, é classificado como tendo uma ação climática global compatível com o Acordo de Paris de não superar os 1,5°C de aquecimento global.

Depois há outros sete países cuja ação climática é quase suficiente, bastando algumas melhorias para chegar à meta dos 1,5°C, que são a Costa Rica, Marrocos, Nigéria, Etiópia, Reino Unido, Quénia e Nepal.

Há nove países, incluindo a União Europeia como um todo, os Estados Unidos ou a África do Sul, cujas medidas são insuficientes, e 15 com medidas altamente insuficientes. Estão neste último caso países como o Canadá, a Austrália, a China, a Índia ou o Brasil. E finalmente em cinco países - Rússia, Singapura, Irão, Arábia Saudita e Tailândia - a situação nesta matéria é classificada como crítica, com lacunas profundas na ação climática.

Sobre a União Europeia a CAT reconhece que foram dados “grandes passos” na mitigação dos efeitos climáticos, com a aprovação do “Acordo Verde” e da Lei do Clima, ou com o reforço do objetivo de redução de emissões (55% até 2030).

Mas a organização avisa que é preciso acelerar a eliminação gradual do carvão, aumentar o financiamento da ação climática no estrangeiro, e ir além da redução de 55% aumentando, por exemplo, as energias renováveis e a eficiência energética.

“A UE também precisa de assegurar que as medidas de política climática adotadas em Bruxelas sejam aplicadas pelos Estados membros. Até agora, a ação em cada Estado membro tende a variar, e muitos deles ainda não aplicaram medidas suficientes para cumprir os objetivos a nível da UE”, diz a organização.

terça-feira, 13 de julho de 2021

O seu protetor solar está a afetar os oceanos? Evite marcas com estas substâncias

Todos os anos, milhares de toneladas de cremes solares vão parar ao mar. E muitos têm químicos nocivos para a vida marinha. Alguns estudos identificaram os piores

Os protetores solares são imprescindíveis para nos defender da radiação ultravioleta. Mas o que nos protege a nós não protege necessariamente outros seres vivos. Ao longo dos últimos anos, tem sido estudado o efeito em organismos marinhos de diferentes substâncias presentes nos cremes, e as notícias não são boas: vários destes químicos têm impactos destrutivos.

A Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (dos EUA, mais conhecida pela sua sigla, NOAA), uma das entidades que mais se tem debruçado sobre estes efeitos, tem uma lista “oficial” de químicos com potencial para afetar a vida marinha: 3-benzilideno cânfora, 4-metilbenzilideno cânfora, octocryleno, benzofenona-1, 2 e 8, oxibenzona (também chamada benzofenona-3 ou BP-3), p-aminobenzoato de octilo dimetilo (OD-PABA), dióxido de nano-titânio, óxido de nano-zinco e octinoxato. Se se preocupa com os impactos ambientais das suas escolhas, leia a lista de ingredientes e evite estas substâncias.

Os efeitos mais negativos destes químicos são variados. Podem provocar uma redução de fertilidade nos peixes fêmeas, danificar os sistemas reprodutores e imunológicos dos ouriços-do-mar adultos e causar deformações nos juvenis (o que também acontece nos mexilhões), prejudicar o processo de fotossíntese das algas e acumularem-se nos tecidos dos golfinhos (e transmitirem-se para as crias). Os piores impactos, no entanto, são nos corais. As substâncias acumulam-se nos tecidos destes organismos e conseguem alterar o seu ADN, provocando deformidades e branqueamento (a principal causa de morte dos corais).

Algumas estão já interditas na União Europeia (o 3-benzilideno cânfora, por exemplo não pode ser usado em qualquer produto cosmético desde 2016). Mas outras continuam a ser usadas. Entre essas, as que levantam mais preocupações são a benzofenona-2, a oxibenzona e o octinoxato, ingredientes comuns nos protetores solares.

A primeiro, a benzofenona-2, presente em muitos tipos de cremes e sabonetes, mata jovens corais rapidamente e mesmo em baixas concentrações, de acordo com um estudo publicado em 2013 na revista científica Ecotoxicology. Além disso, provocada branqueamento e mutações nos organismos maduros. A oxibenzona tem os mesmos efeitos, a que se juntam deformidades no crescimento dos corais, segundo um estudo publicado na Archives of Environmental Contamination and Toxicology, em 2015. Outra investigação, publicada em 2008 na Environmental Health Perspectives, reportou que tanto a oxibenzona como o octinoxato eram responsáveis por fenómenos de branqueamento em recifes de coral nos três oceanos onde existem, o Atlântico, o Índico e o Pacífico.

Os protetores minerais podem ser uma forma de proteger a pele sem passar ingredientes nocivos para o mar (desde que tenham dióxido de titânio ou óxido de zinco não-nanotizados, ou seja, com pelo menos 100 nanómetros). Mas vários testes realizados pela organização de consumidores americana Consumer Reports concluíram que estes não são tão eficazes a proteger dos raios ultravioleta como os outros.

A alternativa é minimizar a quantidade de protetor que aplicamos. A NOAA sugere que, na praia, usemos camisolas com fator de proteção ultravioleta e que procuremos sempre a sombra, sobretudo nas horas mais críticas. Mesmo usar uma simples tshirt pode ser uma solução, já que deixa menos pele exposta ao sol.

E atenção – em alguns protetores solares, a lista de ingredientes surge em inglês. Nesse caso, procure por estes nomes, para (tentar) evitá-los: oxybenzone, octinoxate, octocrylene, benzophenone-1, 2, e 8, OD-PABA, 4-methylbenzylidene camphor, 3-benzylidene camphor, nano-titanium dioxide e nano-zinc oxide.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Covid-19: Um ano depois, o consumo de vida selvagem diminuiu 30%


Já passou um ano desde que a Organização Mundial da Saúde declarou a situação de pandemia devido à propagação em grande escala da Covid-19. Desde então que os hábitos dos consumidores sofreram alterações, especialmente no que toca ao consumo de animais selvagens, dado que uma das ideias iniciais é que a doença tenha origem num mercado em Wuhan, na China.

O novo relatório da WWF “Covid-19 One year later”, revela as perceções e mudanças por parte das populações de Mianmar, Tailândia e Vietname, China e Estados Unidos. De acordo com os resultados, 30% dos inquiridos reduziram ou pararam o consumo de animais selvagens.

Em paralelo, mais de 80% acredita que o fecho dos mercados de animais selvagens é necessário para prevenir a propagação de doenças pandémicas no futuro, e admitem apoiar o Governo e os Ministérios da Saúde no fecho dos mesmos.

Relativamente às compras de espécies selvagens nos mercados nos últimos 12 meses, 14% dos inquiridos afirmam tê-lo feito no Vietname, 11% na Tailândia e 10% na China. As espécies mais compradas correspondem, por ordem decrescente, a pássaros vivos, cobras, tartarugas, morcegos, civetas e pangolins.

Por outro lado, mais de 90% – e apenas 68% dos inquiridos dos Estados Unidos – apoiam fortemente os esforços para preservar as florestas e para travar a desflorestação no seu próprio país ou em outros, como meio de prevenir futuras pandemias.

Carter Roberts, CEO da WWF dos Estados Unidos, afirma: “O mundo teve um curso intensivo sobre pandemias no ano passado. Prevenir o futuro exige que reparemos o nosso relacionamento estragado com a natureza, e isso começa com o fim do comércio e do consumo de vida selvagem de alto risco e o fim da desflorestação. Esta nova investigação mostra que o público apoia essas mudanças. Na WWF, o nosso próximo passo será trabalhar com governos, empresas e consumidores para converter essas atitudes em ações e garantir que sejam cumpridas”.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

China com Sun Tzu, na guerra dos chips

Indo direto ao ponto: com ou sem rolo compressor de sanções, a China simplesmente não será expulsa do mercado global de semicondutores.




Xi Jinping lendo o clássico de Sun Tzu A Arte da Guerra
Charge de Craig Stephens, South China Morning Post, Hong Kong

A quantidade real de chips que a Huawei tem em estoque para suprir o próprio negócio de smartphones talvez até seja questão em aberto.

Mas o ponto mais importante é que nos próximos anos – lembrem que Made in China 2025 continua em vigor – os chineses estarão fabricando o equipamento necessário para produzir chips de 5 nanômetros tão bons ou até melhores que os que vêm hoje de Taiwan, Coreia do Sul e Japão.

Conversas com especialistas em TI da Rússia, dos países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ing. ASEAN) e da Huawei revelam os contornos básicos do mapa do caminho à frente.

Esses especialistas explicam que o que poderia ser descrito como uma limitação da física quântica está impedindo a passagem consistente, de chips de 5 nanômetros para chips de 3 nanômetros. Significa dizer que as próximas descobertas podem vir de outros materiais e técnicas de semicondutores.

Portanto, quanto a esse aspecto, a China está praticamente no mesmo nível de pesquisa que Taiwan, Coréia do Sul e Japão.

Além disso, não há nenhuma lacuna de conhecimento – ou problema de comunicação – entre os engenheiros chineses e taiwaneses. E o modus operandi predominante ainda é a porta giratória.

Os avanços da China envolvem mudança crucial, do silício para o carbono. A pesquisa chinesa está totalmente investida nisso e está quase pronta para transpor o próprio trabalho de laboratório, para a produção industrial.

Em paralelo, os chineses estão atualizando o procedimento de fotolitografia, que os EUA privilegiam para obter chips nanométricos, para um novo procedimento de litografia não fotográfica, capaz de produzir chips menores e mais baratos.

Assim como as empresas chinesas, avançando, estarão comprando todas as etapas possíveis que apareçam no negócio de fabricação de chips, e custem o que custarem, também as principais empresas de semicondutores dos EUA farão o mesmo, como a Qualcomm, que não se sujeitará a sanções e continuará a fornecer chips para a Huawei. Esse já é o caso da Intel e da Advanced Micro Devices, Inc. (AMD).


O jogo de Huawei

A Huawei, por sua vez, está investindo em profundidade numa relação muito estreita de P&D com a Rússia, recrutando alguns dos melhores talentos tecnológicos da Rússia, notoriamente fortes em matemática, física e no trabalho de rigoroso projetamento. Exemplo disso é a compra pela Huawei da empresa russa de reconhecimento facial Vocord em 2019.

Alguns dos melhores cérebros tecnológicos da Coréia do Sul são russos.

A Huawei também estabeleceu – na Tailândia – um “centro de inovação de ecossistema 5G”, o primeiro de seu tipo em países da ASEAN [Indonésia, Malásia, Filipinas, Cingapura e Tailândia, desde 1967; Brunei, a partir de 1984; Vietnã desde 1985; Mianmar e Laos a partir de 1997 e Camboja desde 1999 (NTs)].

No médio prazo, a estratégia da Huawei para seus telefones inteligentes de alto padrão – que utilizam chips de 7nm – será entregar o negócio a outros atores chineses como Xiaomi, OPPO e VIVO, cobrar taxas de patente e esperar pelo inevitável chip chinês, enquanto mantém a produção de equipamentos 5G, para os quais tem chips suficientes.

Esses especialistas em TI consideram o sistema operacional Harmony da Huawei mais eficiente que o Android. E roda com chips menos exigentes.

Com a expansão do 5G, a maior parte do trabalho em telefones inteligentes pode ser feito por servidores em nuvem. Até o final de 2020, pelo menos 300 cidades em toda a China estarão cobertas pela 5G.

A Huawei se concentrará em produzir computadores desktop e displays digitais. Estes desktops virão com processador chinês, o Kunpeng 920, e serão executados por um Sistema Operacional Unificado (ing. Unified Operating System, UOS) chinês.

O UOS é um sistema Linux desenvolvido pela Union Tech chinesa e encomendado por Pequim – aqui está o busílis –para substituir o Microsoft Windows. Estes desktops não serão vendidos ao público em geral: equiparão a administração pública nacional e provinciais da China.

Não é de admirar o persistente rumor que se ouve nos círculos de TI, segundo o qual é hora de pôr dinheiro num Fundo de Investimento em Chip Chinês – para embolsar gordos ganhos quando acontecerem grandes avanços tecnológicos, antes de 2025.

O centro tech da Ásia Oriental

Quaisquer que sejam as provações e tribulações da guerra dos chips, a tendência inevitável é a China posicionada como centro tecnológico indispensável da Ásia Oriental – abrangendo países da ASEAN, o nordeste asiático e a Sibéria Oriental ligada às duas Coreias.

Este é o nodo duro da já próxima Parceria Econômica Regional Abrangente, PERA (Regional Comprehensive Economic Partnership, RCEP) – o mais abrangente acordo de livre comércio no mundo – a ser assinado até 2021.

A Índia optou por se autoexcluir da PERA –, com o que se autocondenou a ter papel periférico, como potência econômica e em termos geoeconômicos. Basta compará-la à Coréia do Sul, que está impulsionando sua integração com a ASEAN e o nordeste asiático.

O núcleo tecnológico do Leste Asiático estará no coração de uma cadeia global de produção que integra o melhor da concepção científica e tecnológica e os melhores especialistas em produção espalhados por todos os nodos da cadeia de suprimento global.

Essa é consequência natural, dentre outros fatores, de o número de patentes requeridas no Leste Asiático já ter chegado a 3,46 vezes o número dos EUA.

E isso nos leva ao caso muito especial da Samsung. A empresa Samsung está aumentando seu esforço de P&D para, de fato, deixar para trás, o mais rapidamente possível, as tecnologias de marca norte-americana.

Quando o presidente Moon da Coréia do Sul superturbina seu apelo pelo fim oficial da Guerra da Coréia, o movimento deve ser visto em conjunto com a Samsung em vias de alcançar amplo acordo de cooperação tecnológica com Huawei.

Este movimento de pinça ilustra com perfeita clareza a independência da Coréia do Sul em relação ao abraço de urso dos EUA.

Não escapa à atenção da liderança em Pequim que a emergência da Coréia do Sul como ator geopolítico e geoeconômico cada vez mais forte na Ásia Oriental deve estar inextricavelmente ligada ao acesso da China à próxima geração de chips.

Portanto, um processo geopolítico e geoeconômico crucial a ser observado nos próximos anos é como Pequim progressivamente atrai Seul para sua área de influência, como espécie de potência tributária de alta tecnologia, enquanto aposta no futuro do que seria uma Federação Coreana.

A ideia tem sido discutida ano após ano, no mais alto nível, no Fórum Econômico Oriental em Vladivostok.

Wang Huiyao, presidente do Centro para a China e a Globalização, sediado em Pequim, observa que China e Coréia do Sul, que já têm um acordo de livre comércio, “iniciarão a segunda fase de negociações para estabelecer novo mecanismo para a cooperação econômica China-Coreia do Sul, que se desenvolve rapidamente”.

O próximo passo – imensamente difícil – será criar-se um mecanismo de livre comércio China-Coreia do Sul. E depois, um mecanismo China-Japão-Coreia do Sul, mais próximo e interligado. A Parceria Econômica Regional Abrangente é apenas o primeiro passo. Até 2049 a viagem será longa. Mas todos sabem para que lado sopra o vento.



Muito obrigado a Tlaxcala
Fonte: https://asiatimes.com/2020/09/china-deploys-sun-tzu-to-win-the-chip-war/
Data de publicação do artigo original: 29/09/2020
URL deste artigo: http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=29720