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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

A ilusão do consumo e o silêncio da extinção: uma crítica da ecologia política ao poder corporativo

A ilustração contrapõe a marcha inevitável da fauna selvagem rumo à porta da extinção à apatia de uma multidão imersa no consumo frenético, nas redes sociais e na validação individual. A provocação estampada na base - "We didn’t notice them leaving" - expõe não um mero esquecimento coletivo acidental, mas o resultado de um projeto de alienação sistémica. Sob as lentes da ecologia política, da economia ecológica e do decrescimento, o cartaz denuncia como a captura democrática operada por corporações transnacionais desestrutura a resiliência comunitária, coloniza as subjetividades e cega a sociedade para o colapso biológico.

A economia ecológica e a farsa da separação
economia ecológica demonstra que o sistema económico capitalista é um subsistema aberto, limitado pelas leis da termodinâmica e pela capacidade de suporte da biosfera. O cartaz capta a rutura dessa lógica: a civilização consome como se o ecossistema fosse infinito. O letreiro "SALE" e o carrinho com o "LATEST MODEL" revelam a redução de toda a riqueza natural a valor de troca. A biodiversidade não possui precificação direta no mercado e, por isso, torna-se invisível ao cálculo capitalista até à sua liquidação total. O movimento dos animais simboliza a ultrapassagem dos limites planetários. Enquanto a produção industrial avança, a perda de habitats acelera sem que os indicadores macroeconómicos tradicionais registem essa perda de património biológico real.

Captura democrática, coaptação e ecologia política
ecologia política desfaz a ilusão de que a destruição ambiental é culpa de uma "natureza humana" gananciosa de forma genérica. Trata-se da ação de atores com poder assimétrico. Grandes multinacionais exercem uma captura direta do Estado e das instâncias decisórias através do fenómeno de regulatory capture. Por meio de lobbying, financiamento de campanhas e estratégias de greenwashing, as corporações bloqueiam legislações ambientais rígidas e desmontam coletivos locais de resistência que historicamente atuam como guardiões da biodiversidade.

Paralelamente, o conceito de Soluções Baseadas na Natureza (SBN), originalmente voltado à restauração ecossistémica integrando saberes comunitários, é frequentemente cooptado pelo poder corporativo para virar mecanismos de compensação que permitem a continuidade da poluição no Norte global enquanto mercantilizam territórios no Sul global. A sacola com a sátira "JUST BUY IT" e os balões de curtidas virtuais corporificam a transferência da culpa do colapso ecológico para o consumidor. O sistema ensina a sociedade a canalizar a sua agência política para escolhas de consumo "sustentáveis" individuais, desmobilizando a organização coletiva.

O decrescimento como ruptura e a redefinição da prevenção ecológica
Para conter a marcha representada no lado esquerdo da imagem, a literatura do decrescimento e da prevenção ecológica defende que ajustes tecnológicos marginais são insuficientes. O modelo que exige a compra constante do "modelo mais recente" é incompatível com a finitude planetária. O decrescimento propõe a redução planeada do consumo de energia e materiais, priorizando a sobriedade, a reparabilidade e o bem-estar social em vez do lucro privado. A prevenção ecológica exige desmantelar a máquina publicitária que associa a felicidade ao acúmulo de mercadorias. A multidão absorta em telemóveis exemplifica a "colonização da atenção", onde o espetáculo digital bloqueia a percepção da urgência ecológica concreta.

O limite da pedagogia, o ambientalismo coercivo e o estado de exceção ecológico
A eficácia da educação ambiental crítica revela-se manifestamente insuficiente perante a dimensão da crise. Apesar de as novas gerações serem expostas a conteúdos de consciencialização ecológica, observa-se a sua rápida absorção pela "mercantilização das mentes". O trabalho pedagógico é constantemente anulado por um ecossistema mediático e de consumo desenhado para converter o conhecimento em apatia funcional e as preocupações éticas em meras tendências de estilo de vida.

Perante o fracasso da pedagogia e a captura anarco-capitalista da democracia liberal, a resposta teórica e prática desloca-se da persuasão moral para a soberania coerciva. No ensaio Political Theory and Climate Change: The Case for Eco-Authoritarianism (2021), Ross Mittiga defende explicitamente que, se os regimes liberais continuarem incapazes de garantir a segurança básica dos seus cidadãos perante a emergência climática, a restrição de certos direitos políticos e o recurso ao estado de exceção ecológico tornam-se moralmente legítimos. Esta incapacidade estrutural já tinha sido diagnosticada por David Shearman e Joseph Wayne Smith em The Climate Change Challenge and the Failure of Democracy (2007). Para estes autores, a democracia liberal falhou no combate à degradação ambiental devido à sua vassalagem aos mercados e ao poder corporativo, o que exige a transição para uma "epistocracia verde" - um modelo de governação liderado por autoridades técnicas e peritos ecologistas capazes de tomar decisões imunes ao ciclo eleitoral.

Críticos ao Estado de Excepção Ecológica
No entanto, o risco de o estado de emergência ser cooptado pelo próprio capital é alertado por Joel Wainwright e Geoff Mann em Climate Leviathan: A Political Theory of Our Planetary Future (2018). Os teóricos mapeiam a emergência do "Leviatã Climático", uma forma de soberania global de exceção onde o capital transnacional e as forças estatais se fundem para gerir a escassez de recursos sob o pretexto da urgência biológica, preservando contudo as assimetrias da estrutura de classes. Em contrapartida, sob a perspetiva da implementação pragmática, Yifei Li e Judith Shapiro, em China Goes Green: Coercive Environmentalism for a Troubled Planet (2020), analisam o "ambientalismo coercivo". Os autores demonstram como o uso centralizado do poder estatal - contornando a morosidade e as negociações paralisantes do parlamentarismo liberal - consegue impor metas de restauração ecológica e racionamento de recursos a uma velocidade incompatível com a lentidão das democracias de mercado.

O Diagnóstico de George Tsakraklides: nem reforma de esquerda, nem mercado de direita 

Finalmente temos uma corrente colapsista, ecologia profunda contemporânea e anarco-socialista proposta por George Tsakraklides. Como defende que o colapso da civilização industrial é inevitável por limites biofísicos e termodinâmicos, o seu pensamento não oferece "soluções de políticas públicas" viáveis para aparelhos de Estado ou corporações. Tsakraklides rejeita a viabilidade de reformar o sistema. Para ele, qualquer tentativa institucional de "salvar o sistema" não passa de uma maquilhagem do que ele chama de necrosistema.  George Tsakraklides desenvolve uma crítica incisiva à esquerda tradicional e aos movimentos ecologistas mainstream - como o Extinction Rebellion, a Greenpeace ou intelectuais como George Monbiot -, acusando-os de cobardia intelectual ao transformarem a sobrepopulação num tabu intocável. Na perspetiva do autor, o argumento comum da esquerda de que o problema reside exclusivamente no consumo excessivo do "1%" ou no capitalismo predatório assenta numa falácia estatística, pois ignora que o impacto ecológico absoluto é uma equação direta da pegada per capita multiplicada por biliões de indivíduos a exigir energia, tecnologia e alimentos. Como biólogo, Tsakraklides contesta a utopia ecologista de que é possível reeducar comportamentalmente oito mil milhões de pessoas para as tornar "ecologicamente neutras", sustentando que a espécie humana possui uma tendência biológica evolutiva para a expansão e ocupação de território que nenhuma propaganda ideológica conseguirá travar. O ensaísta defende que o receio de acusações de ecofascismo ou eugenia fez com que as organizações ambientais institucionais capitulassem diante da correção política para protegerem o seu financiamento e aceitação mediática. Além disso, Tsakraklides rejeita propostas como o Green New Deal ou a "transição energética" defendidas pelo ecologismo dominante, classificando-as como ilusões que apenas alimentam uma nova vaga de extrativismo mineral para sustentar uma escala demográfica insustentável, desculpabilizando a responsabilidade do próprio consumo de massa da população global.

A crítica de George Tsakraklides à direita política- abrangendo conservadores, liberais e o Partido Republicano nos EUA - é visceral e intransigente. Se o autor acusa a esquerda de ingenuidade e cobardia por alimentar uma «ilusão sustentável», enxerga a direita como o motor ideológico e o braço executivo do necrocapitalismo. Na sua perspetiva, a direita comete a heresia científica definitiva ao colocar o dogma do crescimento económico perpétuo, da desregulamentação e do mercado livre acima das leis invioláveis da termodinâmica e da biologia. Tsakraklides ridiculariza a crença de que a tecnologia, a inovação privada ou a "mão invisível" resolverão o esgotamento planetário, classificando o mercado livre como um algoritmo cego concebido para devorar matérias-primas e gerar lucro imediato. A acumulação de capital é descrita como uma força patológica que atua como um cancro, consumindo o hospedeiro ecossistémico até ao colapso inevitável.

Sendo a sobrepopulação um pilar central da sua reflexão, o ensaísta ataca frontalmente o natalismo conservador e a oposição aos direitos reprodutivos, sustentando que essas agendas servem unicamente para garantir mão de obra barata e expandingir a base de consumidores para as corporações. Ao alimentar o mito antropocêntrico de uma Terra com capacidade infinita, a direita recusa enfrentar a crise ambiental porque fazê-lo exigiria admitir o fracasso do capitalismo industrial. Em obras como Frankenpolitics, Tsakraklides evidencia como o setor empresarial privado e a direita fundiram o Estado e o capital, reduzindo a política a uma fachada destinada a proteger os lucros das indústrias extrativas enquanto a biosfera colapsa.

Esta transição ecológica desmantela a figura do político mercenário através de imperativos legais e fiscais draconianos: a proibição constitucional do lobbying corporativo, o racionamento severo de recursos primários, a taxação punitiva do sobreturismo e o encerramento forçado de indústrias ecocidas. Quando a deliberação democrática se torna refém da lógica do capital, a sobrevivência exige que a autoridade coerciva intervenha diretamente sobre as forças de mercado. A frase «We didn't notice them leaving» deixa, assim, de ser um lamento sobre o esquecimento passivo para se converter na certidão de óbito da ilusão liberal-democrática perante o ecocídio.

Bibliografia
  1. Agamben, G. (2004). Estado de Sítio. Edições 70.
  2. Carvalho, I. C. M. (2012). Educação Ambiental: a formação do sujeito ecológico. Cortez Editora.
  3. Daly, H. E. (1996). Beyond Growth: The Economics of Sustainable Development. Beacon Press.
  4. Escobar, A. (2011). Encountering Development: The Making and Unmaking of the Third World. Princeton University Press.
  5. Georgescu-Roegen, N. (1971). The Entropy Law and the Economic Process. Harvard University Press.
  6. Kallis, G. (2018). Degrowth. Handbooks in Health Economic Series, Resilience Press.
  7. Latouche, S. (2009). Farewell to Growth. Polity Press.
  8. Leff, E. (2001). Saber Ambiental: Sustentabilidade, Racionalidade, Complexidade, Poder. Vozes.
  9. Li, Y., & Shapiro, J. (2020). China Goes Green: Coercive Environmentalism for a Troubled Planet. Polity Press.
  10. Loureiro, C. F. B. (2004). Trajetória e Desafios da Educação Ambiental Crítica. Editora Cortez.
  11. Mann, G., & Wainwright, J. (2018). Climate Leviathan: A Political Theory of Our Planetary Future. Verso Books.
  12. Martínez-Alier, J. (2002). The Environmentalism of the Poor: A Study of Ecological Conflicts and Valuation. Edward Elgar Publishing.
  13. Mittiga, R. (2021). Political Theory and Climate Change: The Case for Eco-Authoritarianism. American Political Science Review, 116(3), 994-1008.
  14. Ophuls, W. (1977). Ecology and the Politics of Scarcity. W. H. Freeman and Company.
  15. Shearman, D., & Smith, J. W. (2007). The Climate Change Challenge and the Failure of Democracy. Praeger.
  16. Tsakraklides, G. (2019). The Nothing Manifesto: Building a zero-impact movement. Independently Published
  17. Tsakraklides, G. (2020). Frankenpolitics: How corporate power and technology created a monster. Independently Published.
  18. Tsakraklides, G. (2021). Biology Lessons in Degrowth. Independently Published.
  19. Tsakraklides, G. (2022). Necrocene: The psychology of human collapse. Independently Published.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Do Holoceno ao Antropoceno: por que razão a nossa civilização ficou desatualizada?

Se ontem refletíamos sobre por que ter esperança é urgente e revolucionário perante a rutura ecológica, hoje precisamos de olhar de frente para o diagnóstico material que exige essa mesma ação transformadora. A nossa esperança não pode ser passiva, porque a civilização que herdámos foi construída para um planeta que, literalmente, já não existe.
Todas as civilizações humanas surgiram sobre condições climáticas e ecológicas que não criaram. No entanto, na escala de tempo geológico da Terra, toda a história da civilização ocupa pouco mais do que um piscar de olhos.

A Terra tem aproximadamente 4,5 mil milhões de anos, a vida existe há pelo menos 3,7 mil milhões de anos, o Homo sapiens há cerca de 300.000 anos, enquanto o Holoceno - o intervalo climático dentro do qual a agricultura, as cidades e as sociedades complexas se desenvolveram - começou há apenas cerca de 11.700 anos.

Quase toda a história da Terra - e quase toda a história da vida - precede por ordens de grandeza o mundo humano construído na relativa estabilidade do Holoceno. Vistas a partir do tempo profundo, as nossas cidades e infraestruturas já ostentam a aparência de futuras ruínas: monumentais, pesadas e extraordinariamente recentes, erguidas num intervalo climático estreito cuja estabilidade foi tratada como permanente.

Esta estabilidade climática formava uma condição material tácita da civilização humana. A recorrência das estações, a relativa previsibilidade da precipitação e do caudal dos rios, e a persistência de regimes de temperatura familiares tornaram o mundo físico suficientemente previsível para que a agricultura, os povoamentos e as infraestruturas fossem organizados em torno da expectativa de que as suas condições básicas permaneceriam amplamente reconhecíveis ao longo das gerações.

O Holoceno foi uma infraestrutura que nunca tivemos de construir


Ilustração conceptual da janela climática do Holoceno. Informado por Kaufman et al., Scientific Data (2020), e Osman et al., Nature (2021).

E como nenhuma sociedade teve de a construir, o capitalismo pôde tratá-la como se fosse gratuita. O capital herdou talvez a infraestrutura mais valiosa da história humana: um clima relativamente estável.

Não o produziu nem pagou pela sua reprodução. A estabilidade climática não constava de nenhum balanço; o capital simplesmente assumiu que ela continuaria lá amanhã.

Construímos cidades para temperaturas retiradas do passado. Sistemas de drenagem para padrões familiares de precipitação. Agricultura em torno de ciclos de estações relativamente previsíveis. Casas para amplitudes históricas de calor e frio. Portos e povoamentos costeiros em redor de linhas de costa que se assumia moverem-se devagar. Infraestruturas inteiras foram concebidas com base na expectativa de que o dia de ontem permaneceria um guia razoável para o dia de amanhã.

Essa expectativa já não se verifica.

A rutura climática é, portanto, mais radical do que uma sucessão de eventos extremos. Significa que as regularidades ecológicas silenciosamente incorporadas na organização da vida social se estão, elas próprias, a tornar instáveis.

Aquilo que surge como a desestabilização da "natureza" regressa, assim, ao interior da sociedade como a desestabilização das suas fundações materiais.
Esta é a contradição no centro da crise climática: o capital acumulou-se tratando a estabilidade planetária como uma condição gratuita de produção e, no decurso da acumulação, começou a destruir essa própria condição.

O mundo construído sobre esses pressupostos permanece de pé enquanto as condições sob ele se alteram. Neste sentido, o capitalismo assemelha-se cada vez mais ao Wile E. Coyote (Bip Bip e Coiote) depois de correr para além da borda do penhasco: as pernas continuam a mover-se, a maquinaria continua a funcionar e a acumulação prossegue - enquanto o solo que tornava o movimento possível está a desaparecer debaixo dos pés.

Exceto que o capitalismo também tem vindo a dinamitar o penhasco atrás de si.

O Peso de uma Civilização Morta
O planeta muda mais depressa do que a civilização material construída sobre ele.

Cidades, autoestradas, fábricas, portos, centrais elétricas e edifícios não podem simplesmente migrar inalterados para um clima diferente. São imensos depósitos de matéria, energia e trabalho passado, construídos para permanecer no mesmo lugar durante décadas ou séculos. Quanto mais depressa as condições planetárias mudam, mais esta herança material começa a parecer uma civilização construída para o dia de ontem.

Existe agora, literalmente, mais deste mundo construído do que matéria viva na Terra.



Fonte: Elhacham et al., “Global human-made mass exceeds all living biomass,” Nature 588, 442–444 (2020), Fig. 1.

No início do século XX, a massa total de objetos produzidos pelo ser humano correspondia a apenas cerca de três por cento da biomassa do planeta. Por volta de 2020, de acordo com um estudo publicado na Nature, a massa antropogénica - betão, agregados, asfalto, tijolos, metais, plásticos e tudo o mais que os humanos construíram - atingiu cerca de 1,1 biliões de toneladas e ultrapassou a massa seca de todos os organismos vivos na Terra. Tinha vindo a duplicar aproximadamente a cada vinte anos. A humanidade estava a adicionar mais do que o seu próprio peso corporal em massa manufaturada por pessoa, todas as semanas.

A esta escala, o mundo construído já não é apenas um artefacto social; tornou-se um facto planetário. Este é o Antropoceno: a humanidade tornou-se uma força geológica, capaz de alterar o próprio sistema terrestre. Contudo, dizer que a humanidade se tornou uma força geológica não é dizer que a humanidade agiu como um sujeito coletivo único.

Um bilião de toneladas de betão não é a expressão de algum "instinto humano" universal para construir. São o resultado material de relações de classe, hierarquias sociais e distribuições desiguais de poder - a história endurecida em matéria, embutida nas infraestruturas do capital fóssil.

O capitalismo industrial sedimentou as suas relações sociais no mundo físico.
Entre 1900 e 2010, o stock de materiais acumulados em edifícios, infraestruturas e maquinaria aumentou cerca de vinte e três vezes. Uma vez construídos, criam dependências do passado (path dependencies): os investimentos de ontem determinam a procura de energia e materiais de amanhã.

Em termos marxianos, o trabalho passado confronta a sociedade viva sob a forma material - "trabalho morto que, como um vampiro, se alimenta do trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais dele suga" (O Capital, Vol. I, Cap. 15). Sob o capitalismo, máquinas, fábricas e infraestruturas adquirem um poder material de comando sobre o trabalho e a natureza.

Uma vez construída, a infraestrutura começa a exigir a sua continuação. Uma refinaria exige um fluxo contínuo de petróleo. Um sistema de autoestradas exige automóveis. Uma central elétrica a combustível fóssil construída para funcionar durante quarenta anos carrega dentro do seu betão e aço uma expectativa sobre o futuro.

O passado adquire um poder material sobre o futuro.
Esta é uma das razões pelas quais a transição ecológica é muito mais difícil do que "substituir uma fonte de energia por outra". O capitalismo acumulou um enorme mundo material cuja operação contínua reproduz o metabolismo social que, em primeiro lugar, desestabilizou o clima.

A contradição é cada vez mais gritante, uma vez que herdámos uma infraestrutura concebida para um conjunto de condições planetárias enquanto entramos noutro.

A infraestrutura pode permanecer de pé muito depois de o mundo para o qual foi construída ter começado a desaparecer.

Cidades de betão sem sombra, habitações expostas, redes de transporte fóssil e paisagens urbanas que retêm o calor assemelham-se cada vez mais aos vestígios de uma civilização industrial - ruínas futuras de um mundo cujas condições materiais já estão a desaparecer.

A Privatização da Sobrevivência
Se as condições materiais herdadas do Holoceno continuarem a deteriorar-se enquanto as relações de propriedade e riqueza existentes permanecerem intactas, a crise ecológica intensificará as desigualdades que acompanham o capitalismo industrial desde os seus primórdios. A classe social sempre moldou o acesso aos cuidados de saúde, à alimentação nutritiva, à habitação segura, a ambientes limpos e à possibilidade de viver uma vida mais longa e confortável. A rutura climática ameaça transformar estas diferenças de privilégio em diferenças na capacidade de sobreviver.

À medida que as condições básicas de vida se tornam menos fiáveis, a riqueza determinará cada vez mais quem pode comprar proteção contra o colapso ecológico. O que outrora era dado como garantido enquanto condição comum da vida tornar-se-á, cada vez mais, uma mercadoria. Os mais abastados poderão comprar distância em relação ao calor, à escassez e ao deslocamento forçado, enquanto as classes, comunidades e regiões mais pobres serão forçadas a absorver a crise em primeiro lugar e de forma mais violenta.

"Não há Planeta B" tornou-se, e bem, um dos slogans definidores do ambientalismo. No entanto, paradoxalmente, o Planeta B é precisamente o sonho dos tecno-oligarcas milionários: desde enclaves fortificados na Terra ao sonho de Elon Musk de colonizar Marte. A possibilidade de fuga torna-se mais fácil de imaginar do que a transformação das relações sociais que impulsionam o colapso ecológico no nosso planeta partilhado.

A obscenidade mais profunda desta trajetória é que a própria sobrevivência se pode tornar o privilégio supremo daqueles que mais beneficiaram do sistema que tornou o planeta cada vez mais difícil de habitar.

A adaptação climática sem transformação social é a privatização da sobrevivência.

Uma Civilização para o Planeta Que Existe
O problema, então, é como construir a vida social para condições planetárias que já não podem ser dadas como garantidas. Grande parte do mundo que herdámos foi concebida em torno de regularidades climáticas que já estão a escapar-nos.

A adaptação é inevitável, mas a sua direção é política. Prolongar a vida de uma civilização fóssil forçando corpos, cidades e ecossistemas a absorver um calor, instabilidade e perturbação cada vez maiores apenas preservaria a maquinaria do colapso.

Um planeta em mudança exige a transformação da organização material da vida social: a forma como construímos cidades e casas, produzimos e distribuímos energia, organizamos os transportes e a agricultura, gerimos a água, estruturamos o trabalho e reproduzimos a vida quotidiana. Um mundo mais quente força uma questão mais profunda: que tipo de sociedade pode permanecer compatível com as condições de vida?

Mas uma civilização fóssil não se pode tornar habitável simplesmente substituindo combustíveis fósseis por energias renováveis, plantando mais árvores ou adicionando espaços verdes enquanto se mantém intacta a sua organização material subjacente. Temos de repensar as divisões herdadas entre cidade e campo, sociedade e natureza, desenvolvimento humano e os limites biofísicos do planeta.

Nada disto é possível sem ir além do próprio capitalismo.

Este é o horizonte do ecossocialismo: não a gestão ecológica do mundo que herdámos, mas a reorganização democrática das suas fundações materiais em torno das necessidades coletivas, da prosperidade humana e da reprodução da vida na Terra.

O capitalismo passou séculos a adaptar a natureza aos requisitos da acumulação. Hoje, a crise ecológica confronta-nos com a tarefa inversa: reorganizar a vida social em torno dos requisitos materiais de um planeta habitável.

Construímos um mundo para um planeta que já não existe. Agora temos de construir um para o planeta que existe.

sábado, 11 de outubro de 2025

Política ecológica vs Ecologia política: entender para agir


Nos discursos sobre ambiente e sustentabilidade, termos como política ecológica e ecologia política aparecem com frequência — por vezes usados como sinónimos. Mas há diferenças importantes que convêm conhecer para pensar e agir de forma crítica e eficaz.

O que é política ecológica

A política ecológica é prática: refere-se às decisões, leis, regulamentos, políticas públicas ou privadas que visam incorporar preocupações ecológicas. Por exemplo:

  • Legislação para conservação de espécies ou de habitats;

  • Políticas de energias renováveis ou de eficiência energética;

  • Programas de redução de emissões de gases com efeito de estufa;

  • Políticas de gestão de resíduos e economia circular.

Ou seja, política ecológica lida com o que se faz para proteger ou restaurar o ambiente, com metas, instrumentos regulatórios, incentivos ou penalizações, e com a implementação prática.

O que é ecologia política

Ecologia política é reflexão e análise crítica: estuda como fatores como poder, desigualdade, economia ou cultura moldam as interações entre sociedade e natureza. Envolve perguntas como:

  • Quem decide sobre o uso da terra ou dos recursos naturais?

  • Quem lucra e quem sofre com os impactos ambientais?

  • Como formas de conhecimento e cultura (saberes locais, indígenas, campesinos) são valorizadas ou rejeitadas?

  • Que narrativas legitimam certas políticas ecológicas, enquanto marginalizam outras?

  • Como as estruturas globais (capitalismo, colonialismo, sistema internacional) influenciam crises ecológicas? 

A ecologia política procura revelar as relações de poder que estão por baixo das políticas ecológicas, ajudar a diagnosticar injustiças ambientais e indicar caminhos para transformações mais radicais e justas.

Por que a distinção importa

  • Políticas ecológicas bem-intencionadas podem falhar ou gerar injustiças se ignorarem quem é afetado: por exemplo projetos de conservação que deslocam populações locais, ou medidas climáticas que penalizam os mais pobres sem alternativas de adaptação.

  • Entender ecologia política ajuda a construir políticas que não só cuidam da natureza, mas promovem justiça ambiental e equidade social.

  • Serve também de base para a participação democrática, valorização de saberes diversos, e para que os agentes menos poderosos (comunidades, movimentos sociais) sejam parte da mudança — não apenas objeto dela.

Principais eixos de diferença

AspectoPolítica ecológicaEcologia política
Objetivo principalregulação, proteção, mitigação, implementação práticaanálise crítica, compreensão das estruturas de poder, justiça ambiental
Atores focadosgovernos, organismos internacionais, ONG, políticas públicascomunidades locais, movimentos sociais, académicos, grupos marginalizados, etc.
Questões centraislegislação ambiental, conservação, emissões, energia limpa, biodiversidadedesigualdade no acesso aos recursos, quem decide o uso da terra, imperialismo ecológico, narrativas dominantes, justiça ambiental, conflitos ecológicos


Autores e pensadores importantes da Ecologia Política

AutorContributo principal
Piers BlaikieUm dos fundadores da ecologia política. No livro The Political Economy of Soil Erosion in Developing Countries (1985), argumenta que a erosão do solo não é só resultado da má gestão ou população, mas está ligada a desigualdades sociais, estruturas políticas, poder. Wikipedia
Harold BrookfieldTrabalhou com Blaikie em Land Degradation and Society; focou nas interações entre uso da terra, práticas agrícolas, colonialismo e desenvolvimento; acrescentou dimensão histórica e de escala nas análises. Wikipedia
James C. ScottNão se define como ecólogo político, mas suas obras influenciam fortemente o campo: Seeing Like a State, The Art of Not Being Governed, etc. Ele analisa como o Estado, burocracias e práticas de poder simplificam e moldam a natureza e sociedades; sua atenção à resistência local, ao conhecimento prático (metis) é muito relevante para ecologia política. read.dukeupress.edu
Murray BookchinCriou a “ecologia social” (social ecology), uma filosofia política que vê os problemas ecológicos como inseparáveis dos problemas sociais: hierarquias, dominação, desigualdade. Propõe uma reestruturação social para uma democracia direta, comunitária, descentralizada. Wikipedia
Enrique LeffTrabalha com ecologia política, epistemologia ambiental, e conflituosidade socioambiental; por exemplo no livro Political Ecology: Deconstructing Capital and Territorializing Life. Ele aprofunda como saberes, poder e território se entrecruzam. SpringerLink
Tor A. Benjaminsen & Hanne Svarstad
No livro Political Ecology: A Critical Engagement with Global Environmental Issues (2021). Trabalham com estudos de caso, poder, justiça ambiental, conflitos em uso da terra, mitigação climática, Norte‐Sul. SpringerLink



Raymond L. BryantUm geógrafo-chave no campo, autor de Third World Political Ecology com Sinéad Bailey, entre outros, mostrando como mudanças ambientais distribuem benefícios e custos desigualmente. Wikipedia
Giorgos KallisEmbora mais ligado à economia ecológica, é importante para debates de degrowth, crítica do crescimento infinito, alternativas de desenvolvimento mais sustentáveis. Wikipedia


Outros autores relevantes: Nancy Lee Peluso, Michael Watts, Arturo Escobar, Richard Peet, , que tratam de colonialismo, direito à terra, práticas de resistência, justiça ambiental.
Artigos de revista como Journal of Political Ecology Wikipedia
 

Exemplos de articulação

Para tornar concreto, alguns casos ou estudos-que-se podem usar:

  • Em Portugal, artigos comparativos que relacionam ecologia política e justiça ambiental, p.ex. o artigo “Justiça Ambiental e Ecologia Política: Entre sinergias e Benefícios Mútuos…” da UTAD que examina como os debates de justiça ambiental se interligam com ecologia política. periodicos.unievangelica.edu.br

  • Na América Latina, Enrique Leff escreveu sobre “Political Ecology in Latin America: A field in construction”, apontando que a ecologia política emergiu como uma resposta aos conflitos pelo uso da natureza, à desigualdade territorial, e à necessidade de repensar as relações entre natureza, cultura e política. revistaschilenas.uchile.cl

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Dia Global do Decrescimento

O decrescimento sustentável desafia a centralidade do PIB como um objetivo de política abrangente e propõe um quadro de transformação para um nível mais baixo e sustentável de produção e consumo, um encolhimento do sistema econômico para deixar mais espaço para a cooperação e os ecossistemas.

O Dia Global do Decrescimento (DGD) é uma iniciativa anual que ocorre no primeiro sábado de junho, promovendo a reflexão e a ação sobre o decrescimento como alternativa ao crescimento económico. A celebração visa destacar o trabalho de cuidado, a justiça social e climática, e a importância de um modo de vida mais sustentável e consciente.

Data:
O DGD ocorre anualmente no primeiro sábado de junho. Em 2024, por exemplo, foi no dia 15 de junho.

Objetivo:
O principal objetivo é promover a reflexão e a ação sobre o decrescimento, um conceito que defende a necessidade de repensar o modelo de crescimento económico e adotar um estilo de vida mais sustentável e consciente.

Temas:
O tema de 2021 foi o "Cuidado", destacando a importância do trabalho de cuidado, tanto doméstico como comunitário e ecológico. Em 2024, por exemplo, o tema foi o tema da "Suficiência".

Iniciativas:
A Rede para o Decrescimento e núcleos locais organizam diversos eventos, atividades e ações locais para celebrar o DGD, como caminhadas, encontros, workshops e tertúlias.

Relevância:
O DGD visa sensibilizar para a necessidade de reduzir o consumo, mudar a relação com o dinheiro e promover um modo de vida mais equilibrado e em harmonia com a natureza.

Podes ver a nossa actividade no mapa internacional dos eventos comemorativos previstos para o dia.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Michal Swider


Biografia

Só me ocorre palavras mais profundas e que desapareceram: ética ambiental, consciência animal e ecologia profunda. O economês e a alquimia que isso provoca é sedutora e ecocida.
Resta-me a arte e literaturae e o activismo.

terça-feira, 4 de julho de 2023

Livro de Giorgos Kallis- O erro de Malthus (revisão)

Limits: Why Malthus Was Wrong and Why Environmentalists Should Care

Um dos conceitos básicos em Ecologia é o dos limites: qualquer população de seres vivos tem o potencial de crescer exponencialmente. Num modelo simples há uma altura que que começa a não haver recursos suficientes (alimento, espaço) para suportar este crescimento populacional. Num cenário otimista a taxa de reprodução diminui e a taxa de mortalidade aumenta, fazendo com que a população estabilize naquilo que se designa por “capacidade de sustento”. No cenário pessimista a taxa de crescimento mantém-se, a população excede a capacidade de sustento, os recursos esgotam-se ou degradam-se e os efetivos colapsam, para eventualmente retomar o ciclo mais tarde. No primeiro cenário colocam-se espécies como as baleias ou os elefantes (que se autolimitam), no segundo ratos, moscas ou baratas (que são limitadas catastroficamente pelos fatores externos).
Para alguém com um conhecimento básico de Ecologia, portanto, a existência de limites é um dado de partida, assim como o são os mecanismos que resultam desses mesmos limites. Deste ponto de vista, a insistência dos economistas num crescimento exponencial contínuo só pode ser entendida como irrealista, e o apoio político que ela recebe como irracional. Neste contexto as ideias de Thomas Malthus são muitas vezes citadas. Na interpretação vulgar existem limites maltusianos porque a população humana cresce muito mais depressa do que a produção de alimentos. O que acontece a seguir é menos claro, mas o adjetivo “malthusiano” continua a aplicar-se à perspetiva (e realidade) de guerras e fomes alegadamente causadas pelo excesso populacional.
É aqui que entra o último livro de Giorgos Kallis. O autor começa por clarificar que Malthus não fala de limites. A sua teoria da diferença entre os ritmos de crescimento da população humana e da capacidade de produção de alimento foi utilizada não só para justificar a existência da pobreza (os recursos não chegam para todos) mas também para justificar a eliminação da assistência aos pobres (o impulso de sair da pobreza cria o espírito empreendedor necessário para o progresso). De facto, Malthus advoga o crescimento contínuo quer da população quer da tecnologia.
GK parte desta incompreensão generalizada dos conceitos de Malthus para chamar a atenção do movimento ambiental para o problema de basear uma linha de ação política em limites externos, como os 2ºC do Acordo de Paris. O argumento não é intuitivo, mas o esforço de o compreender compensa, pela nova perspetiva que proporciona e pelas orientações políticas que dela emanam.
O argumento de GK é que os limites não são impostos pela natureza, são definidos por nós. Um limite implica um objetivo, um propósito. Queremos limitar o aquecimento global a 1,5ºC porque a ciência nos diz que acima disso o clima mudará de tal forma que o tipo de civilização que temos agora poderá deixar de ser possível. Mas não vai acontecer nada de particular no dia em que o planeta ultrapassar esse limite. Se o ultrapassarmos (quando o ultrapassarmos) teremos um clima diferente e uma civilização diferente porque foi essa a escolha que, coletivamente, fizemos ou deixámos que fizessem por nós.
Não há limites, a não ser os que nós colocamos. E é esse o segundo argumento de GK- que os ambientalistas e as forças políticas progressistas deviam intervir defendendo limites internos positivos em substituição das atuais bandeiras negativas, que os colocam como profetas da desgraça. GK constrói um argumento poderosíssimo em torno da auto-limitação, concebida em função dos objetivos que queremos atingir. A mensagem passa assim a ser positiva: isto é o que queremos e para isso estas são as medidas que precisamos de ser implementadas e estes os limites (agora sim!) que não podem ser excedidos.
Esta é uma chamada de atenção muito importante: chega de dissecar o que está mal, chega de gastar energias a criticar o crescimento ou o capitalismo. É difícil entusiasmar-se com o decrescimento, e a mobilização contra o capitalismo é impossível sem uma ideia clara de como o queremos substituir. Todas as forças progressistas deviam analisar esta mensagem e procurar nela os pontos de união que lhes conferirão o poder de mudar o mundo.

Saber mais:
Book review - Limits: Why Malthus Was Wrong and Why Environmentalists Should Care

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Degrowth: A dangerous idea or the answer to the world’s biggest crisis?

Claro que Bill Gates & Ca apelidam os decrescimentistas de irrealistas. Paulo Como pode este sistema sobreviver às enormes rupturas que ele mesmo está a provocar? Podemos salvá-lo? Queremos salvá-lo? Queremos mais construção civil ou o restauro dos centros e das urbes? O que dá mais emprego: a economia regenerativa ou mais do mesmo- B2B? Pelo menos a CNN avança com algumas respostas. É um artigo interessante. Sabemos que o PIB é uma medida falível. Precisamos de defender os baldios, reduzir os impactos das alterações climáticas, restaurar a biodiversidade. No fundo precisamos de defender o decrescimento: uma proposta contra a narrativa que nos dizem "inevitável" o crescimento infinito.


Conventional economic logic hinges on a core assumption: Bigger economies are better, and finding ways to maintain or boost growth is paramount to improving society.

But what if growth is at best doing little to fix the world’s problems, and at worst fostering the destruction of the planet and jeopardizing its future?

That’s the radical message from the “degrowth” movement, which has spent decades on the political fringes with its warning that limitless growth needs to end. Now, after the pandemic gave people in some parts of the world a chance to rethink what makes them happy, and as the scale of change necessary to address the climate crisis becomes clearer, its ideas are gaining more mainstream recognition — even as anxiety builds over what could be a painful global recession.

For economists and politicians of all stripes, growth has long served as a North Star. It’s a vehicle for creating jobs and generating taxes for public services, increasing prosperity in rich countries and reducing poverty and hunger in poorer ones.

But degrowthers argue that an endless desire for more — bigger national economies, greater consumption, heftier corporate profits — is myopic, misguided and ultimately harmful. Gross domestic product, or GDP, is a poor metric for social wellbeing, they stress.

Plus, they see expanding a global economy that’s already doubled in size since 2005 — and, at 2% growth annually, would be more than seven times bigger in a century — putting the emissions goals necessary to save the world out of reach.

“An innocent 2 or 3% per year, it’s an enormous amount of growth — cumulative growth, compound growth — over time,” said Giorgos Kallis, a top degrowth scholar based at the Universitat Autònoma de Barcelona. “I don’t see it being compatible with the physical reality of the planet.”  

The solution, according to the degrowth movement, is to limit the production of unnecessary goods, and to try to reduce demand for items that aren’t needed.

This unorthodox school of thought has no shortage of critics. Bill Gates has called degrowthers unrealistic, emphasizing that asking people to consume less for the sake of the climate is a losing battle. And even believers acknowledge their framework can be a political nonstarter, given how difficult it is to imagine what weaning off growth would look like in practice.

“The fact that it’s an uncomfortable concept, it’s both a strength and a weakness,” said Gabriela Cabaña, a degrowth advocate from Chile and doctoral candidate at the London School of Economics.

Yet in some corners, it’s becoming less taboo, especially as governments and industry fall behind in their efforts to stop the planet from warming beyond 1.5 ºC after which some effects of climate change will become irreversible.

The UN’s Intergovernmental Panel on Climate Change recently cited degrowth in a major report. The European Research Council just allocated roughly $10 million to Kallis and two peers to explore practical “post-growth” policies. And the European Parliament is planning a conference called “Beyond Growth” next spring. European Commission President Ursula von der Leyen is expected to attend.

Even some on Wall Street are beginning to pay closer attention. Investment bank Jefferies said investors should consider what happens if degrowth gathers steam, noting “climate-anxious” younger generations have different consumer values.

Diagnosing a problem

In the debate over how to avoid climate catastrophe, there’s a key point of consensus: If the worst effects of global warming are to be averted, the world needs to slash annual carbon emissions by 45% by 2030. After that, they need to decline steeply, and fast.

Most roadmaps laying out a plan to achieve this involve a dramatic reconfiguration of economies around clean energy and other emissions-reducing solutions, while promoting new technologies and market innovations that make them more affordable. This would allow the global economy to keep growing, but in a way that’s “green.”

Yet proponents of degrowth are skeptical that the world can reduce emissions in time — and protect delicate, interconnected ecological systems — while pursuing infinite economic expansion, which they argue will inevitably require the use of more energy.

“More growth means more energy use, and more energy use makes it more difficult to decarbonize the energy system in the short time we have left,” said Jason Hickel, a degrowth expert who is part of the team that received funding from the European Research Council. “It’s like trying to run down an escalator that is accelerating upward against you.”

Even if energy can become green, growth also requires natural resources like water, minerals and timber.

It’s a concern that’s been echoed by Greta Thunberg, arguably the most famous climate activist. She’s criticized “fairy tales about non-existent technological solutions” and “eternal economic growth.” And she’s touched on another point degrowthers raise: Is our current system, which has produced rampant inequality, even working for us?

This question resonates in the Global South, where there are fears the green energy revolution could simply replicate existing patterns of exploitation and excessive resource extraction, but with minerals like nickel or cobalt — key components of batteries — instead of oil.

The “love for growth,” said Felipe Milanez, a professor and degrowth advocate based in the Brazilian state of Bahia, is “extremely violent and racist, and it’s just been reproducing local forms of colonialism.”

The end of growth?

Degrowth can be hard to talk about, especially as fears grow about a global recession, with all the pain of lost jobs and shattered businesses that implies.

But advocates, which often speak about recessions as symptoms of a broken system, make clear they aren’t promoting austerity, or telling developing countries that are eager to raise living standards they shouldn’t reap the benefits of economic development.

Instead, they talk about sharing more goods, reducing food waste, moving away from privatized transportation or health care and making products last longer, so they don’t need to be purchased at such regular intervals. It’s about “thinking in terms of sufficiency,” Cabaña put it.

Adopting degrowth would require a dramatic rethink of the market capitalism that has been embraced by just about every society on the planet in recent decades.

Yet some proposals could exist within the current system. A universal basic income — in which everyone receives a lump sum payment regardless of employment status, allowing the economy to reduce its reliance on polluting industries — is often mentioned. So is a four-day work week.

“When people have more economic security and have more economic freedoms, they make better decisions,” Cabaña said.

High-profile critics

The latest report from the IPCC — the UN authority on global warming — noted that “addressing inequality and many forms of status consumption and focusing on wellbeing supports climate change mitigation efforts,” a nod to one of degrowth’s biggest objectives. The movement was name-checked, too.

But degrowth is also the subject of significant opposition, even from climate scholars and activists with similar goals.

“The degrowth people are living a fantasy where they assume that if you bake a smaller cake, then for some reason, the poorest will get a bigger share of it,” said Per Espen Stoknes, director of the Center for Green Growth at the BI Norwegian Business School. “That has never happened in history.”

Backers of green growth are convinced their strategy can work. They cite promising examples of decoupling GDP gains from emissions, from the United Kingdom to Romania, and to the rapid rise in the affordability of renewable energy.

Gates, the Microsoft co-founder who’s prioritized investing in climate innovations, admits that overhauling global energy systems is a Herculean task. But he thinks boosting the accessibility of the right technologies can still get us there.

Degrowthers know their critiques are controversial, though in some ways, that’s the intent. They think a starker, more revolutionary approach is necessary given the UN estimate that global warming is due to rise to between 2.1 and 2.9 º C, based on the world’s current climate pledges.

“The less time [that] is left now, the more radical change is needed,” said Kohei Saito, a professor at the University of Tokyo.

Could a growing cohort agree? In 2020, his book on degrowth from a Marxist perspective became a surprise hit in Japan, where concerns about the consequences of stagnant growth has inflected the country’s politics for decades. “Capital in the Anthropocene” has sold nearly 500,000 copies.

Fonte: CNN

domingo, 12 de junho de 2022

Entrevista com Alberto Garzón e Eva García sobre a evolução da Izquierda Unida rumo ao Decrescimento


Neste sábado, 14 de maio, Izquierda Unida realizará em Madri um encontro que suscitou grande expectativa entre os setores ativistas mais próximos do Decrescimento. Precedido de uma carta pública e de um manifesto intitulado Diminuição de vida promovido por diversos militantes do setor decrecentista da formação, contou com o apoio do seu coordenador geral através de um extenso artigo de tom didático mas também ideológico, publicado no órgão oficial de IU , onde defende e justifica a necessidade biofísica de pôr fim ao crescimento económico. Na revista 15/15\15 queríamos falar com um dos promotores deste encontro, o coordenador da área de meio ambiente e ex-parlamentar Eva García Sempre , e com o coordenador geral e Ministro do Consumo, Alberto Garzón Espinosa .


diminuir para viver15/15\15: O encontro que você convocou por meio de sua carta e manifesto pode surpreendê-lo de fora, mas imagino que seja na verdade o resultado de debates e reflexões que você vem mantendo internamente na IU há algum tempo sobre o problema dos limites ao crescimento , não é assim?

Eva García: De fato, não é um debate novo dentro da organização. Que temos que viver dentro dos limites do planeta já estava claro; agora damos um passo adiante e propomos que o decrescimento é uma realidade e que temos que traçar, juntos, um roteiro político para que esse decrescimento não recaia, como sempre, nos mais vulneráveis.

15/15\15: Algumas coisas que se destacam no encontro é que não só os movimentos sociais foram convocados expressamente, o que pode ser algo mais ou menos comum nas formações de esquerda, mas também outros partidos políticos. Que resposta você teve tanto de um quanto de outro? Que outros partidos do Estado espanhol conhece que estão nesta evolução rumo ao Decrescimento?

EG: A resposta foi, sem dúvida, muito interessante. Independentemente de considerarem ou não oportuno participar como organização neste primeiro encontro, a recepção tem sido positiva e expectante por parte das organizações contactadas. E em relação às forças políticas, principalmente aquelas que também estão tendo esses debates, é muito positivo. De qualquer forma, e já que ainda estamos delineando, saberemos os nomes no sábado, dia 14. E sobre outras forças políticas, acredito que em maior ou menor medida esse debate está ocorrendo em quase toda a esquerda. Uma questão separada é como ela é abordada e se essa posição é a maioria dentro dela. Mas sim, existem forças políticas que o levantaram e esperamos que nos encontremos em algum momento para trabalhar.

15/15\15: Outro aspecto que chama bastante a atenção é o objetivo de desenhar conjuntamente um programa para o país em chave de decrescimento. Parece que o debate interno realmente parece bastante claro e você quer começar a trabalhar para transformar a consciência do fim do crescimento em linhas programáticas em um sentido político prático. É assim?

EG : Não somos ingénuos. O debate não será fácil em nenhuma organização ou força política (nem a nossa) porque, quando você pousar no concreto, há muita vertigem: será compreendido pela sociedade? O que acontecerá com este ou aquele setor produtivo que é chave na minha zona? Precisamente por isso queremos promover o espaço amplo, com todas as vistas possíveis. Esclarecer dúvidas e medos entre todos costuma ser mais fácil. Mas sim, acho que desde o início nossa posição é bastante sólida internamente.

Alberto Garzón: Nossa força política nasceu em 1986 com o objetivo político-social, entre outros, de incorporar as demandas ambientais e feministas surgidas naqueles anos, especialmente dos movimentos sociais. Desde então, o componente ecológico tem sido forte dentro da organização, apesar de a matriz ideológica da IU sempre ter sido uma orientação clássica (de conflito capital-trabalho). Nos últimos anos temos feito um esforço significativo com a militância para definir um perímetro ideológico coerente onde todas essas dimensões possam se complementar. Nas próximas semanas apresentaremos os principais resultados de uma pesquisa sobre a crise ecossocial que nos permitiu mensurar essas transformações ideológicas dentro de nossa organização. Mas posso adiantar algumas informações. Hoje, por exemplo, praticamente 50% da nossa militância se define como ambientalista, 60% como feminista e 70% como comunista; ou seja, há um alto grau de interseccionalidade. Além disso, entre a militância, 39% se identificam com o projeto de decrescimento. Acredito que a situação está muito madura para abordar determinados debates, sem que isso signifique que eles deixem de ser problemáticos.

15/15\15: O texto “ Os limites do crescimento: ecossocialismo ou barbárie ” foi publicado em inglês e recebeu elogios de notáveis ​​pensadores do Decrescimento como Jason Hickel e até mesmo alguém mais situado no ecoanarquismo como Ted Trainer. Que outras reações você teve no exterior? Haverá participação internacional no encontro?

AG : O documento tem a ambição de ser uma abordagem rigorosa, embora não académica per semas também informativo. Sabíamos que o fato de ter sido elaborado por um ministro aumentava seu impacto, e isso precisava ser aproveitado. Mas na realidade já avançamos bastante com o trabalho do Ministério do Consumo, que se expressa muito bem com as polêmicas da redução do consumo de carne e a questão das macro-fazendas. Mas sem dúvida minha intenção foi levar o debate para novos espaços, como os da nossa militância ou das pessoas que se referem a nós e não conhecem muitos dos elementos que apareceram no texto. A ideia era garantir que a questão ecológica não se reduzisse ao problema das alterações climáticas, pelo que se abriu um debate sobre as medidas que teríamos de tomar enquanto sociedade perante um desafio muito mais complexo e ameaçador do que aquilo que as pessoas tendem a pensar. Traduzimos o texto para o inglês . Queremos continuar tecendo redes nacionais e internacionais que vão além dos partidos, porque entendemos que é a única forma de construir alternativas políticas reais. Na verdade, o artigo pretende ser um ponto de partida que explicará muitas das próximas ações e eventos.