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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Turismo, migração e linguagem: o que acontece ao cérebro quando cruzamos fronteiras


O fim das férias  traz consigo o ruído inconfundível das malas de viagem a arrastarem-se pelo asfalto e a nostalgia difusa de quem regressa. Contudo, ao fazer a digestão dos dias fora, há uma reflexão mais profunda que se impõe: o ato de viajar de poder cruzar fronteiras por mera escolha, desacelerar e habitar temporariamente o quotidiano de outro país - é um dos maiores privilégios financeiros e sociais do mundo contemporâneo.

Nos aeroportos e nas estações de comboio do final de verão, este privilégio cruza-se com realidades humanas profundamente distintas. Na mesma sala de embarque, o olhar do turista, que viaja para consumir paisagens e acumular memórias leves, cruza-se com o do emigrante, que regressa à pátria apenas no verão para matar a sede da sua língua materna, e com o do imigrante, para quem a travessia de fronteiras não foi uma pausa da rotina, mas um ato de sobrevivência que exigiu o desmantelamento da sua própria identidade para tentar recomeçar.

É nesse encontro de geografias e disponibilidades que nos confrontamos com a linguagem. Durante uns dias, ao tentar decifrar um menu, entender um sinal de trânsito ou arriscar meia dúzia de palavras num idioma estrangeiro, sentimos na pele a fragilidade de não ser compreendido. Percebemos que as línguas não são meras ferramentas neutras de comunicação, mas paredes, pontes e mapas mentais que revelam quem somos, de onde vimos e até onde a nossa vida nos permitiu ir.

O ensaio que se segue nasce precisamente dessa digestão de fim de férias: o reconhecimento de que aprender a ouvir o mundo e a aceitar a complexidade do outro é a forma mais humana de retribuir o privilégio de ter a liberdade de o percorrer.


A imagem representa a teia neural e cultural da linguagem - uma rede conceptual onde diferentes idiomas do mundo (Deutsch, Português, Mandarim, Árabe, Húngaro, Guugu Yimithirr, Tukano, Aymara, entre outros) aparecem como nós interligados.

O mapa da mente humana: uma viagem pelas geografias da fala 
O fenómeno do idioma real
Nas conversas habituais de regresso de férias surge frequentemente o desabafo: "Ai, o alemão é muito difícil". Contudo, até os próprios alemães utilizam recursos orais/escritos gramaticalmente mais acessíveis. Esta adaptação que os próprios nativos fazem para simplificar o idioma é um fenómeno fascinante e muito presente na cultura germânica. Quando a gramática padrão, o chamado Hochdeutsch, se torna pesada ou distante demais da realidade prática, a própria sociedade alemã recorre a estratégias que vão desde hábitos do quotidiano até linguagens adaptadas por lei para garantir que a mensagem seja compreendida sem rodeios.

No dia a dia, a linguagem coloquial, conhecida como Umgangssprache, é o principal refúgio dos nativos. É nela que o complexo caso genitivo é quase inteiramente abandonado e substituído pelo dativo com a preposição von, trocando estruturas sofisticadas por formas muito mais diretas. Além disso, os alemães cortam sistematicamente o passado simples na oralidade, preferindo o passado composto, e simplificam a pronúncia encurtando verbos e fundindo artigos. Trata-se de uma busca natural por economia verbal para tornar o fluxo da conversa mais leve.

Para além da informalidade, existem iniciativas formais para democratizar a informação. A Einfache Sprache, ou linguagem simples, é amplamente adotada por jornais, empresas e órgãos governamentais para comunicar ideias complexas ao público geral sem o peso da burocracia gramatical, priorizando frases curtas na ordem direta e evitando termos arcaicos ou a voz passiva. Já a Leichte Sprache, um formato ainda mais acessível e regulamentado por leis de acessibilidade, chega ao ponto de dividir as famosas e gigantescas palavras compostas alemãs com hífenes para facilitar a leitura de pessoas com deficiência intelectual ou imigrantes.

Perceber que os próprios alemães precisam destas estruturas e atalhos para tornar a comunicação viável é libertador. Mostra que o objetivo principal do idioma é conectar pessoas, e que não precisa de se exigir um domínio académico perfeito para conseguir expressar-se e ser compreendido no mundo real.

A relatividade da dificuldade e o panorama global
Não existe uma única língua considerada universalmente a mais difícil do mundo, pois a complexidade de um idioma é sempre relativa à língua materna de quem o aprende. Para um falante nativo de português, por exemplo, o espanhol ou o italiano são bastante acessíveis devido às suas origens românicas comuns, enquanto idiomas com lógicas totalmente distintas exigem uma reestruturação completa da forma de pensar.

Ainda assim, quando se analisa o tempo médio necessário para atingir a fluência e o nível de complexidade gramatical ou gráfica, o Mandarim surge quase sempre no topo da lista. O grande obstáculo não reside na sua gramática — que é até bastante simples e carece de conjugações verbais —, mas sim no seu sistema de escrita não alfabético, composto por milhares de carateres individuais que precisam de ser memorizados um a um, e no facto de ser uma língua tonal, onde a intonação de uma única sílaba muda completamente o significado de uma palavra.

Logo ao lado do Mandarim, o Árabe impõe grandes desafios devido ao seu alfabeto próprio escrito da direita para a esquerda, à omissão de vogais na escrita quotidiana e à enorme discrepância entre o árabe padrão formal e os dialetos falados em cada região. Da mesma forma, o Japonês exige o domínio de três sistemas de escrita em simultâneo - dois silabários e os carateres de origem chinesa - para além de uma gramática profundamente enraizada em níveis de cortesia e hierarquia social.

Por fim, idiomas como o Coreano, com a sua estrutura gramatical baseada no encaixe sucessivo de sufixos verbais, e o Basco, uma língua isolada na Europa sem qualquer parentesco com os restantes idiomas conhecidos, demonstram que a dificuldade pode surgir tanto da falta de referências conhecidas como do nível de detalhe gramatical. Em última análise, a língua mais difícil será sempre aquela que mais se afasta da estrutura lógica e cultural a que o seu cérebro já está habituado.

A ciência da distância linguística
A perceção de complexidade ao aprender uma nova língua não é uma questão de capacidade individual nem de características culturais, mas sim um reflexo direto da distância linguística — a medida científica de quão afastadas estão as estruturas de dois idiomas na sua árvore genealógica e sintática. Quando a mente humana é exposta a uma língua de uma família distante, a dificuldade surge do esforço cognitivo necessário para desaprender padrões automatizados e construir novos modelos mentais.

Para falantes de línguas românicas (como o português, o espanhol ou o italiano), idiomas germânicos como o alemão exigem a habituação a casos gramaticais e a uma ordem de frase rígida onde o verbo migra para o final. Por sua vez, para falantes de línguas semíticas (como o árabe), o desafio ao aprender idiomas europeus é bidirecional: exige a transição de um sistema de escrita abjad (focado em raízes consonânticas e lido da direita para a esquerda) para o alfabeto latino, além de reajustar uma sintaxe habituada a colocar o verbo no início da oração.

De forma análoga, para os falantes das centenas de línguas da família Níger-Congo em África (como o zulu, o yoruba ou o lingala), a aprendizagem de línguas europeias impõe o abandono de sistemas de classes nominais complexos e de elementos tonais em favor de declinações ou conjugações verbais abstratas. O mesmo acontece no sentido inverso: um falante europeu enfrenta uma barreira cognitiva equivalente ao tentar assimilar a lógica de tons ou a aglutinação destas línguas.

A linguística cognitiva e a sociolinguística demonstram, assim, que nenhuma língua é intrinsecamente superior, mais lógica ou mais difícil do que outra. O cérebro humano está biologicamente equipado para aprender qualquer idioma com a mesma facilidade durante a infância; na idade adulta, a "dificuldade" é simplesmente o mapa da distância entre onde a nossa mente habita e o novo território que tenta desbravar.

A reestruturação do raciocínio
As dificuldades de um português nas línguas germânicas, no húngaro e no turco manifestam-se através de arquiteturas gramaticais que desafiam a lógica sequencial a que o cérebro lusófono está habituado. Em vez de construir frases através de sequências de palavras curtas e independentes ligadas por preposições, estas línguas exigem que a informação seja empacotada, combinada sonoramente ou posicionada com precisão quase matemática.

No Turco e no Húngaro, o cérebro precisa de adotar a lógica da aglutinação, que funciona como um encaixe de peças de Lego. Em vez de usar várias palavras para expressar uma ideia complexa, como "nas nossas casas", estes idiomas tomam uma única raiz e vão-lhe anexando múltiplos sufixos de posse, plural ou localização, fundindo uma frase inteira numa única palavra. Para tornar esse processo fluido, ambas as línguas aplicam o princípio da harmonia vocálica: o falante categoriza mentalmente as vogais em grupos segundo o ponto de articulação na boca e altera automaticamente os sufixos para que todas as vogais da palavra ecoem a mesma sonoridade. No caso do húngaro, a complexidade aumenta com a existência de mais de 18 casos gramaticais, o que obriga a mente a mapear com precisão cirúrgica a relação espacial e funcional de cada substantivo na frase.

Por outro lado, nas Línguas Germânicas como o alemão e o holandês, a mudança mental é sobretudo estrutural e sintática. A célebre regra V2 (Verbo na Segunda Posição) exige uma disciplina rígida: o verbo principal tem de ocupar obrigatoriamente o segundo elemento da frase, forçando a inversão do sujeito sempre que a frase começa com um advérbio ou indicação de tempo. Mais desafiante ainda é a estrutura das orações subordinadas, onde o verbo conjugado é atirado para o final absoluto da frase. Esta arquitetura obriga o ouvinte a manter toda a informação em suspenso na memória de trabalho até ao último segundo, altura em que o verbo final finalmente revela e fecha o sentido de tudo o que foi dito.

A reestruturação completa da forma de pensar acontece quando um idioma nos obriga a processar o mundo através de categorias que simplesmente não existem no português.

Na língua indígena australiana Guugu Yimithirr, por exemplo, a orientação espacial abandona a referência egocêntrica do próprio corpo - como "esquerda" ou "direita" - em favor de uma navegação absoluta baseada nos pontos cardeais. Para pedir a alguém que passe a salada, o falante indica a direção geográfica exata, dizendo algo como "passa a salada para sudoeste". Esta exigência gramatical faz com que os seus falantes desenvolvam uma bússola interna permanente, mantendo a noção precisa do Norte mesmo no interior de uma sala sem janelas.

A origem da informação também pode ser um requisito gramatical estrito, como acontece nas línguas Tukano da Amazónia. Através da evidencialidade obrigatória, é impossível emitir uma afirmação vaga como "o cão comeu o bolo" sem alterar a conjugação do verbo para especificar como se obteve esse conhecimento: se o evento foi visto diretamente, se apenas se ouviu o barulho, se foi deduzido por vestígios, se foi contado por terceiros ou se se trata de uma mera suposição.

No Japonês, a reestruturação foca-se na percepção das relações interpessoais através do sistema Keigo. Em vez de apenas ajustar o tom de voz para soar educado, a posição social, a idade e a hierarquia entre os interlocutores alteram drasticamente todo o vocabulário e a flexão dos verbos. O cérebro é forçado a calcular instantaneamente a matriz de poder e respeito social antes de formular qualquer frase simples.

A própria percepção do tempo pode ser invertida, como demonstra o Aymara do Altiplano andino. Ao contrário do português, onde o futuro está "à frente" e o passado "atrás", para os Aymara o passado posiciona-se à frente (nayra), porque já é conhecido e pode ser "visto" pela mente, enquanto o futuro se localiza atrás (qhipa), por ser desconhecido e invisível. Essa lógica reflete-se até na linguagem gestual, com os falantes a gesticularem para a frente quando abordam acontecimentos passados.

Por fim, a língua Basca desafia a categorização da própria ação através da sua lógica ergativa. Enquanto as línguas românicas usam a mesma forma para o sujeito de uma frase intransitiva ("o João dormiu") e transitiva ("o João comeu a maçã"), o Basco distingue gramaticalmente o agente que provoca uma alteração no mundo daquele que apenas experimenta um estado. A mente do falante precisa de categorizar a natureza do impacto da ação antes de decidir como declinar o próprio nome do indivíduo.

As disciplinas que estudam a linguagem
Esta teia fascinante entre estrutura gramatical, cérebro e cultura é o objeto de estudo de várias áreas do saber científico:
  1. Linguística geral e aplicada: examina as regras, estruturas, evolução e os processos de aprendizagem dos idiomas.
  2. Sociolinguística: estuda a relação entre a língua e o contexto social, analisando fenómenos como a Umgangssprache, os dialetos urbanos e o uso de linguagens simplificadas para inclusão social.
  3. Psicolinguística e neurociência da linguagem: investigam como o cérebro processa, armazena e produz a fala, como a gestão da memória de trabalho na regra V2 do alemão ou os processos cognitivos da aglutinação.
  4. Antropologia linguística (e etnolinguística): explora a forma como a língua reflete e molda a visão do mundo, os rituais e as percepções culturais (como a orientação espacial dos Guugu Yimithirr ou a perceção temporal dos Aymara).
  5. Pragmática: analisa a linguagem em ação no contexto real, focando-se na intenção do falante e nas dinâmicas interpessoais (como o sistema Keigo no japonês).
Conclusão
Em última análise, compreender a diversidade linguística é aceitar que a realidade não é um dado absoluto, mas uma construção cultural. Cada idioma oferece-nos um novo mapa mental - com os seus próprios pontos cardeais, percepções do tempo e nuances emocionais.

Esta viagem ganha o seu sentido mais visceral na figura de quem cruza fronteiras. Seja na pele do turista que busca o encanto da comunicação imediata, na do emigrante que precisa de reestruturar a sua própria mente para habitar uma nova realidade, ou na do imigrante que procura no novo país um lugar de pertença, a língua revela-se no seu estado mais puro. Ver que os próprios nativos simplificam o seu idioma para acolher e comunicar é o maior gesto de empatia cultural.

Aprender uma língua não é acumular regras num livro nem exigir um domínio académico perfeito; é construir uma ponte. Ao desarmarmo-nos perante a complexidade do outro, descobrimos que, por mais distantes que sejam as nossas gramáticas, a necessidade humana de nos conectarmos e pertencermos é exatamente a mesma.

Sugestões de Aprofundamento
Para quem desejar continuar a explorar a forma como a linguagem molda o pensamento e a sociedade, sugerem-se os seguintes eixos de leitura e reflexão:
  • Relativismo linguístico (a versão moderada da Hipótese de Sapir-Whorf): investigar até que ponto a estrutura de uma língua limita ou determina a forma como os seus falantes pensam e percepcionam o mundo.
  • Design universal e acessibilidade linguística: analisar o impacto da Leichte Sprache e da Einfache Sprache nas políticas públicas de inclusão de imigrantes e pessoas com neurodivergências na Europa.
  • Neuroplasticidade e bilinguismo no adulto: explorar como o cérebro adulto reorganiza as suas redes neurais ao aprender idiomas com lógicas não-românicas (como línguas aglutinantes ou tonais).

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Apagar Portugal da Língua Portuguesa: a nova utopia ideológica


A Língua Portuguesa não necessita de pedir licença para existir, nem de ser rebaptizada ao sabor das modas ideológicas contemporâneas. É uma das grandes línguas de cultura da Humanidade, formada ao longo de séculos de História, literatura, diplomacia, ciência e expansão civilizacional. Muito antes de certas tertúlias “descoloniais” descobrirem o prazer semântico da autoflagelação civilizacional, já o Português era veículo de pensamento, administração, poesia, comércio e universalidade.
Recentemente, José Eduardo Agualusa, no lançamento do livro “Tudo sobre Deus”, durante o festival Remexe Rio, resolveu brindar o público com uma reflexão sobre “As aventuras das Línguas Portuguesas”, no plural. Estava dado o mote para mais um exercício contemporâneo de revisionismo linguístico, esse desporto intelectual tão apreciado por sectores que parecem sentir vergonha da própria matriz civilizacional que lhes permite, precisamente, publicar livros, viajar pelo mundo e discursar em festivais internacionais.
Com uma prosa sentimental e algo piegas, o escritor propôs que a Língua Portuguesa deixasse de ser Portuguesa para passar a chamar-se “Língua Geral”, por considerar que o idioma teria deixado de ser “colonial, de opressão, de exploração e de domínio”, tornando-se antes um “território de encontros e afectos”. Curiosa formulação. Sobretudo porque a esmagadora maioria das línguas globais nasceu, expandiu-se ou consolidou-se através de impérios, migrações, guerras, alianças comerciais e influências culturais. O Inglês não se disseminou pelo mundo graças a festivais de poesia pacifista, o Castelhano não chegou à América por intercâmbio académico, e o Francês não adquiriu estatuto diplomático universal por mera simpatia gastronómica.
Percebe-se perfeitamente que o gigantesco mercado editorial Brasileiro constitua, na imaginação do escritor, um palco particularmente apetecível para este tipo de discurso ideologicamente alinhado com as tendências culturais da actualidade, podendo daí colher apreciáveis dividendos mediáticos e editoriais. Todavia, uma coisa parece garantida: tal estratégia dificilmente assegurará o respeito intelectual das pessoas verdadeiramente sérias, sobretudo das que conhecem minimamente a História, a formação e a projecção universal da Língua Portuguesa.
Mais curioso ainda é verificar que o próprio Agualusa beneficiou amplamente do espaço cultural Português e europeu. Estudou no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa, recebeu bolsas literárias em Portugal, além de apoios de instituições Holandesas e Alemãs. Nada de escandaloso nisso — pelo contrário. O problema surge quando se tenta transformar a língua que proporcionou essa projecção internacional numa espécie de entidade abstracta, órfã da sua origem histórica e civilizacional. Como se o Português tivesse nascido espontaneamente numa assembleia multicultural sob os auspícios da ONU de Guterres.
Aliás, se a lógica defendida por Agualusa fosse levada às últimas consequências, talvez o próprio escritor devesse dar o exemplo pessoal da ruptura identitária que propõe para a Língua Portuguesa. Poderia começar por abandonar o nome “José Eduardo”, de matriz claramente Ibérica e Cristã, substituindo-o por algo considerado culturalmente mais “descolonizado”. Talvez “Malungo”, em referência Angolana; “Omar”, de influência Árabe; ou “Caíque”, de origem Guarani. Quanto ao apelido “Agualusa”, igualmente integrado na tradição onomástica de expressão Portuguesa, poderia igualmente ser adaptado a uma fórmula mais consentânea com essa nova utopia linguística sem raízes nem origem definida. O problema destas teorias não reside no reconhecimento legítimo das influências culturais múltiplas — isso sempre existiu e constitui riqueza civilizacional —, mas na tentativa algo caricatural de apagar deliberadamente a matriz histórica fundadora da Língua Portuguesa, como se reconhecer a origem de uma língua fosse automaticamente um acto de opressão. Curiosamente, ninguém exige ao Inglês que deixe de se chamar Inglês por possuir vocábulos Normandos, Latinos, Germânicos ou Hindustânicos. Só ao Português parece exigir-se o estranho ritual contemporâneo da autoflagelação identitária permanente.
Importa, pois, recordar alguns factos elementares que parecem causar incómodo a certos pregadores da nova ortodoxia linguística. O Português deriva do Latim vulgar há cerca de dois mil anos e possui um substrato Céltico-Lusitano ligado aos Galaicos, Lusitanos, Célticos e Cónios. Com o colapso do Império Romano e a presença de povos Germânicos e Iranianos ou Eslavos — Suevos, Vândalos, Búrios, Alanos e Visigodos — consolidou-se o Proto-Galego-Português. Ou seja, o Português não nasceu em Luanda, no Rio de Janeiro ou numa conferência pós-colonial; nasceu na faixa ocidental da Península Ibérica, desenvolveu-se historicamente em Portugal e daí irradiou para o mundo.
E irradiou de forma extraordinária. Nos séculos XV e XVI, Portugal construiu um império marítimo e comercial que levou o Português a África, à Ásia e à América. O idioma tornou-se língua diplomática, comercial e administrativa em vastíssimas regiões do globo. Foi língua franca no Oriente, serviu de meio de comunicação entre povos asiáticos, africanos e europeus, e chegou a ser idioma dominante no Sri Lanka durante séculos. Dessa expansão nasceram crioulos, variantes regionais e influências recíprocas. Exactamente como aconteceu com todas as grandes línguas universais da História.
Mas há um detalhe frequentemente omitido pelos entusiastas da desconstrução identitária: a Língua Portuguesa continua, ainda hoje, a desempenhar uma função civilizacional indispensável, sobretudo em África. Em numerosos países africanos coexistem centenas de dialectos e línguas locais sem intercompreensão mútua. Sem o Português, a comunicação administrativa, jurídica, educativa e até nacional tornar-se-ia caótica. O Português funciona como elemento agregador, instrumento de unidade nacional e ponte internacional. Ironia das ironias: a língua tantas vezes denunciada como “opressora” é precisamente a que permite a comunicação entre comunidades que, de outro modo, permaneceriam linguisticamente fragmentadas.
Também em Timor-Leste o Português teve um papel político fundamental. Durante a ocupação da Indonésia, a preservação da Língua Portuguesa tornou-se símbolo de resistência nacional e afirmação identitária. O idioma funcionou como elo diplomático com o exterior e como marca distintiva face ao ocupante. Estranho instrumento de “opressão colonial”, este, que serviu de bandeira cultural na luta pela independência.
A relevância literária da Língua Portuguesa é igualmente incontestável. Obras como “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, elevaram o idioma ao patamar das grandes línguas clássicas europeias. Mais tarde, autores como Fernando Pessoa, José Saramago, Machado de Assis ou Mia Couto demonstraram a extraordinária capacidade do Português para exprimir pensamento filosófico, ironia, lirismo, crítica social e universalidade humana.
No plano diplomático e político, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa constitui hoje um espaço estratégico de cooperação internacional. O Português é uma das línguas mais faladas do mundo e possui crescente relevância geopolítica. Não obstante isso, há sempre quem considere mais urgente problematizar o nome da língua do que promover efectivamente o seu ensino, a sua difusão científica ou a sua valorização cultural.
No domínio científico, o Português continua a ser instrumento de produção e transmissão de conhecimento em universidades, centros de investigação e instituições académicas espalhadas por vários continentes. Apesar do predomínio internacional do inglês, o Português mantém uma função essencial na democratização do acesso ao saber e na formação de milhões de pessoas.
A verdade é simples, embora aparentemente incómoda para certos círculos intelectuais: o Português não precisa de ser desculpado pela História para justificar a sua existência. Nenhuma grande língua do mundo possui um passado asséptico, neutro ou angelical. As línguas são produtos da História da Humanidade — e a História da Humanidade raramente se escreveu com pétalas de rosa e declarações de boas intenções.
Assim, a Língua Portuguesa permanece aquilo que sempre foi: uma língua de cultura, de civilização, de universalidade e de futuro. Uma língua viva, plural e global, suficientemente forte para acolher influências externas sem perder identidade própria. E talvez seja precisamente essa solidez histórica que incomoda aqueles que gostariam de transformar tudo quanto herdámos numa vaga amálgama sem memória, sem origem e, de preferência, sem maiúsculas.
Sem Portugal não existiria Língua Portuguesa — apenas silêncio histórico!

João Micael
Presidente
Matriz Portuguesa – Associação para o Desenvolvimento da Cultura e do Conhecimento

domingo, 17 de maio de 2026

UNYOKE - Falling


Letra
Is there an ending?
My body is aching
I feel it coming and it′s taking all i've owned
It′s you i'm seeking
Sometimes i'm falling
And if you′d know that it is you
I want your love

I feel it coming
My time is ending
The love is gone and never coming back my way
I want to know
Someone could help me?
Cause this feelings are the reasons i′m alone

If I fall
What can I do?
What's happening
I′m on my own
Oh if I fall
Somebody help me
My body is aching and I'm on my own

You′ve taken all I've owened
All I′ve owened

Oh baby can't you see?
That I'm dripping of a high hill and my body
Is taking over
There′s nobody
Here to help me
It′s taking over me
Taking over me
Oh baby can't you see?

Lost my behaviour
Cause you′ve taken it all
I want to save her
But you've broke my world

Uh uh
If I fall
What can I do?
What′s happening
I'm on my own

A canção "Falling", da banda Unyoke, é uma fusão magnética de indie rock e post-punk revival, caracterizada por uma atmosfera densa, fria e melancólica. Embora o quarteto esteja radicado em Bruxelas, na Bélgica, o projeto carrega uma forte ligação a Portugal através da sua vocalista e guitarrista, Mia, que partilha raízes luso-moldavas. A restante formação da banda reflete o espírito multicultural da capital belga, contando com o baterista parisiense Fabrice, a baixista marfinense Aicha e o guitarrista belga Manu. Juntos, constroem uma sonoridade que evoca o dramatismo do darkwave e o balanço do rock alternativo dos anos 2000.

Liricamente, "Falling" funciona como um mergulho visceral na vulnerabilidade humana, na solidão e no desespero emocional. A letra retrata um estado de queda livre interior ("Sometimes I'm falling"), onde o eu lírico expressa uma dor física e psicológica profunda provocada por uma perda ou rutura amorosa que desmoronou o seu mundo ("But you broke my world"). Existe um apelo constante por salvação e afeto ("somebody help me", "I want your love"), que ilustra a linha ténue entre o isolamento sufocante e a necessidade urgente de conexão com o outro. Visual e conceptualmente, a música reflete o processo doloroso da criação e da autodestruição, transformando o sofrimento e a ausência numa performance artística intensa e catártica.

Curiosidade
Unyoke is a verb that means to free an animal from a harness or yoke. Metaphorically, it refers to disconnecting, liberating oneself from oppression, or taking a much-needed break from labor. [1, 2]
The term is often used in several specific contexts:

1. Linguistic Meaning
Literal: To remove the wooden crosspiece (yoke) connecting two draft animals (like oxen) so they can rest.
Figurative: To separate or break a connection. For example, "to unyoke political power from religious authority." [1, 2, 3]
Adjective: Old form(s): vnyoak'd. unbridled, unrestrained, rampant [4]

2. The Unyoke Foundation
It is the name of an international organization dedicated to running reflective retreats and peacebuilding processes for international change-makers and activists. It functions as a "creative pause" for those working in intense, conflict-heavy environments. [1]

4.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

A História Milenar da Civilização Palestina

O termo Palestina não é uma invenção moderna nem uma criação arbitrária do Império Romano, mas sim o resultado de uma evolução linguística e geográfica que se estende por mais de três milénios. As suas raízes mais remotas encontram-se nos hieróglifos egípcios do século XII a.C., onde se menciona o povo Peleset, um dos "Povos do Mar" que se estabeleceu na costa sul do Levante. Esta denominação persistiu nos registos assírios do século VIII a.C. sob as formas Palashtu ou Pilistu, referindo-se inicialmente à região costeira da Filisteia. No entanto, foi a influência grega que começou a expandir o alcance do nome; no século V a.C., o historiador Heródoto utilizava o termo Palaistine não apenas para a costa, mas para descrever todo o distrito que se estendia para o interior, até ao vale do Jordão e à fronteira com o Egito.
Quando o imperador romano Adriano reorganizou a província após a revolta de Bar Kokhba em 135 d.C., renomeando-a como Syria Palaestina, não estava a cunhar um vocábulo novo, mas sim a oficializar uma terminologia que já era padrão no mundo helenístico e académico da época. O que começou como um marcador étnico para um grupo específico de colonos costeiros (os filisteus) acabou por se tornar, através dos séculos, numa designação administrativa e geográfica abrangente. Este processo reflete como as potências imperiais da antiguidade frequentemente adotavam e adaptavam nomes preexistentes para consolidar os seus próprios quadros territoriais, integrando tradições locais, gregas e romanas numa identidade cartográfica que perduraria no tempo.
Após séculos de domínio romano e otomano, passou pelo Mandato Britânico e culminou na partilha da ONU em 1947, resultando na criação de Israel e nos atuais conflitos pela soberania e reconhecimento estatal.

Análise do famoso historiador Escocês 
William Dalrymple tem sido crítico das ações de Israel durante a guerra em Gaza e do apoio do Reino Unido a Israel. Numa entrevista de 2024 ao The Times, fez uma analogia entre a resposta de Israel aos ataques de 7 de outubro e a resposta da Grã-Bretanha à Revolta dos Sipaios de 1857, dizendo: "A Revolta tem ecos contemporâneos. O mesmo sentimento de que mulheres e crianças inocentes foram atacadas e que, portanto, isso forneceu carta branca para vingança e represálias." Em maio de 2025, Dalrymple assinou uma carta aberta chamando a guerra em Gaza de genocídio. Num artigo de Setembro de 2025 para o New Statesman, Dalrymple argumentou que a Grã-Bretanha tinha uma responsabilidade histórica de ajudar a estabelecer um Estado palestiniano.

Saber mais:
A Place of Many Beginnings: Three Paths into the History of Palestine (Um Lugar de Muitos Começos: Três Caminhos para a História da Palestina) é um projecto interactivo de história da Palestina desenvolvido por Visualizing Palestine que foi apresentado no passado fim-de-semana no Festival de Literatura Palestine Writes, na Universidade da Pensilvânia e está disponível para o público interessado.


A história da Palestina... tem múltiplos 'começos' e a ideia da Palestina evoluiu ao longo do tempo a partir destes múltiplos 'começos' para um conceito geopolítico e uma política territorial distinta
Nur Masalha, Palestine: A Four Thousand Year History (pág. 8)

A Place of Many Beginnings foi apresentado no sábado, 23 de Setembro, durante um painel com os académicos palestinos Nur Masalha e Salman Abu Sitta, moderado pela autora e activista palestina Susan Abulhawa.


Com um visual muito apelativo e um conteúdo rico e inovador, esta apresentação aponta caminhos para conhecer a verdadeira história da Palestina.

Na secção Many Beginnings (Muitos Começos) pode conhecer a forma como a revolução agrícola, os berços de civilização, o comércio e o trânsito e a religião moldaram a Palestina e saber mais sobre a posição central da Palestina nas rotas comerciais antigas mais importantes.

Na secção Material Culture (Cultura Material) fala-se da arquitectura vernacular, da arquitectura monumental e muito mais.

Na secção Naming Palestine (Nomear a Palestina) ficamos a saber como os nomes palestinos dos lugares em árabe transmitiram a memória social e a história.

Com este ambicioso projecto, a Visualizing Palestine diz pretender lançar um debate sobre a forma como a história palestina tem sido obscurecida e distorcida por centenas de anos de abordagens e prioridades coloniais, incorporadas por estudos bíblicos e pela historiografia sionista.

«Os palestinos estão numa viagem intelectual inspiradora, rigorosa e de afirmação da vida, juntamente com outras comunidades indígenas que estão a escrever e a recuperar as suas histórias no meio de mitos dominantes e sancionados pelo Estado», diz Visualizing Palestine na apresentação do projecto. «Esperamos que o lançamento de hoje seja apenas um "começo" e que a plataforma evolua à medida que o diálogo progride.

domingo, 1 de março de 2026

Invasão do Irão


Esta guerra desencadeada contra o Irão não é um desvio táctico nem uma reacção nervosa a uma ameaça iminente, é a manifestação crua de um projecto de poder que perdeu qualquer pudor moral e que actua com a convicção de que a força substitui o direito. O governo de Israel não age como um actor sitiado que responde no limite da sobrevivência, age como uma potência militar convencida de que pode redesenhar o mapa humano da região à custa de quem estiver no seu caminho. O governo dos Estados Unidos, por sua vez, não é um aliado constrangido, é o garante estrutural dessa audácia, o fiador armado de uma política que já mostrou, na Palestina, até onde está disposto a ir.
Em Gaza não houve uma tragédia inevitável, houve um método. Não houve apenas o confronto com o Hamas, houve uma devastação sistemática de um território densamente povoado onde se sabia, com precisão estatística, que morreriam milhares de mulheres e crianças que nada tinham a ver com decisões militares. Quando hospitais são bombardeados, quando bairros inteiros são apagados do mapa, quando a fome e a ausência de cuidados médicos se tornam instrumentos de pressão, não se está perante um erro operacional, está-se perante uma escolha, e essa escolha foi repetida até se tornar uma rotina.
Genocídio é a palavra exacta. Não como um grito emocional, mas como uma descrição política de um processo que destrói deliberadamente as condições de existência de um povo enquanto tal. A morte massiva de civis deixou de ser uma consequência indesejada para se tornar uma variável integrada no cálculo estratégico. 
A indignação internacional é gerida como um ruído de fundo, tolerável enquanto não comprometer as alianças nem os contratos militares.
A ofensiva contra o Irão amplia esta lógica. 
A ameaça futura é convertida numa licença para a destruição presente. Invoca-se o perigo nuclear para justificar ataques, que se sabe de antemão, não ficarão confinados a instalações militares. 
A mensagem é clara e brutal. Quem desafia a arquitectura de poder imposta por Israel e garantida pelos Estados Unidos torna-se um alvo legítimo, e as populações civis tornam-se simplesmente danos previsíveis.
Os Estados Unidos desempenham aqui o papel de motor geopolítico. Financiam, armam, vetam resoluções, moldam narrativas e apresentam como defesa da ordem internacional aquilo que é, na prática, a sua corrosão selectiva. A sua superioridade militar e diplomática funciona como um escudo de impunidade. Israel executa no terreno com a confiança de quem sabe que não será travado por sanções sérias nem por um isolamento efectivo.
Esta convergência transforma ambos numa força motriz de instabilidade que ameaça não apenas uma região, mas o próprio princípio de que a vida civil deve estar protegida em qualquer conflito. Quando dois Estados com tal poder normalizam a destruição de populações inteiras em nome da segurança, enviam ao mundo um sinal devastador: a lei é opcional para quem tem força suficiente para a ignorar.
Não se trata de uma retórica exaltada, trata-se de constatar que esta aliança tem agido como um catalisador de guerras sucessivas, ampliando conflitos e reduzindo o espaço para soluções políticas. Ao escolher reiteradamente a via militar, ao aceitar como custo assumido a morte de inocentes, ao expandir o teatro de operações para além da Palestina até ao Irão, assumem-se como agentes centrais de uma lógica que corrói a própria ideia de uma humanidade partilhada.
A História acabará por registar esta fase não como uma defesa heróica de valores, mas como um período em que duas potências decidiram que a sua segurança e a sua indisfarçável ganância justificava tudo. 
E quando tudo é justificável, nada fica de pé. 
Nem cidades, nem direitos, nem a confiança mínima que sustenta a coexistência entre povos.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Dia Internacional da Língua Materna


Celebrado anualmente em 21 de fevereiro, o Dia Mundial da Língua Materna é muito mais do que uma data no calendário; é um lembrete de que o idioma que aprendemos no colo dos nossos pais é a base da nossa identidade, cultura e forma de ver o mundo.

A data foi proclamada pela UNESCO em 1999 e oficializada pela ONU em 2002.

Sabia que? O idioma Ubykh (Turquia), extinto em 1992, tinha um dos sistemas sonoros mais complexos do mundo. Com a sua morte, sons que o ser humano era capaz de produzir perderam-se para sempre na prática quotidiana.

O desaparecimento acelerado de idiomas no século XXI representa uma das maiores crises de património imaterial da humanidade. Segundo o relatório Ethnologue (2025/2026), aproximadamente 40% das 7.168 línguas catalogadas no mundo estão em risco de extinção, um fenómeno impulsionado pela globalização económica e pela hegemonia de idiomas transnacionais. O World Atlas of Languages da UNESCO (2025) reforça que esta perda não é meramente vocabular, mas sim a erosão de sistemas de conhecimento ecológico, histórico e espiritual únicos. No contexto da Década Internacional das Línguas Indígenas (2022-2032), o foco global deslocou-se da simples documentação passiva para a revitalização ativa, onde o uso da língua materna na educação básica é apontado como o fator determinante para a sobrevivência de uma cultura.
A tecnologia tem desempenhado um papel ambivalente neste cenário. Se, por um lado, o mundo digital exclui línguas sem representação escrita ou técnica, por outro, surgem ferramentas inovadoras de salvaguarda. Projetos como o Woolaroo, do Google Arts & Culture, utilizam inteligência artificial para identificar objetos através da câmara e traduzi-los instantaneamente para idiomas ameaçados, como o Ibibio ou o Maia, criando uma ponte visual para as novas gerações. Outras plataformas, como o Indigenous Languages Digital Archive (ILDA) e a aplicação FirstVoices, permitem que comunidades isoladas criem os seus próprios dicionários de áudio e jogos educativos, garantindo que a fonética correta seja preservada mesmo quando o número de falantes nativos é reduzido.
A nível bibliográfico, os estudos de Crystal (2000) em Language Death continuam a ser a base teórica para compreender porque é que as línguas morrem, mas são os relatórios anuais da UNESCO (2024, 2025) que traçam o mapa atualizado da urgência. Estes documentos sublinham que a "morte" de uma língua ocorre habitualmente em três gerações: quando os avós a falam, os pais a entendem mas não a praticam, e os filhos a desconhecem por completo. Portanto, as ferramentas de gamificação e os arquivos digitais de livre acesso tornam-se, em 2026, as principais armas contra o silenciamento cultural, transformando dispositivos móveis em veículos de resistência linguística.

Referências e Relatórios Consultados:
Crystal, D. (2000). Language Death. Cambridge University Press.
Eberhard, D. M., Simons, G. F., & Robinson, A. J. (Eds.). (2026). Ethnologue: Languages of the World (29th ed.). 
UNESCO (2025). World Atlas of Languages: Global Status Report on Linguistic Diversity. 
United Nations (2022). Global Action Plan of the International Decade of Indigenous Languages (2022–2032).

Como estamos em Portugal, a análise do nosso território revela um contraste fascinante e preocupante entre a homogeneidade do português padrão e a resistência de pequenos enclaves linguísticos que lutam pela sobrevivência em 2026.

O Caso do Noroeste e Nordeste de Portugal
No interior de Portugal, a erosão linguística está diretamente ligada à desertificação humana. O Mirandês, a única língua regional oficialmente reconhecida (Lei n.º 7/99), entrou num período crítico. Segundo os relatórios mais recentes de monitorização da Associação de Língua e Cultura Mirandesa (ALCM) e estudos da Universidade de Coimbra (2025), o número de falantes nativos fluentes desceu para menos de 5.000 pessoas. Embora o Mirandês seja ensinado nas escolas de Miranda do Douro, o desafio em 2026 é a "interrupção da transmissão geracional": os avós falam, mas os jovens, embora o entendam, optam pelo português no ambiente digital e social.

Mais a sul, na zona de Castelo Branco e Alentejo, temos casos de micro-línguas ou dialetos em estado terminal:

Minderico (Minde): Originalmente uma gíria de comerciantes (piação), evoluiu para uma língua complexa. Hoje, é classificada pela UNESCO como "criticamente em perigo", restando apenas algumas dezenas de falantes que dominam o léxico completo.

Barranquenho (Barrancos): Situado na fronteira, este idioma funde elementos do português e do espanhol (extremenho e andaluz). Em 2021, foi reconhecido como património cultural, mas a pressão dos meios de comunicação de massa em português padrão continua a diluir a sua pureza fonética.

O Contraste com a Amazónia (Brasil)
Se em Portugal o risco é a assimilação cultural, na Amazónia o risco é a extinção física e territorial. O Brasil abriga cerca de 180 línguas indígenas, mas o relatório "Línguas em Trânsito" (2025) indica que a maioria delas possui menos de 1.000 falantes.

Línguas Isoladas: Grupos como os Pirahã mantêm uma língua única, sem números ou cores abstratas, que desafia as teorias linguísticas de Noam Chomsky. Contudo, a pressão do garimpo ilegal e a desflorestação forçam o contacto, o que historicamente leva à rápida substituição da língua nativa pelo português por necessidade de sobrevivência.

Resistência Digital: Em 2026, assistimos a um fenómeno inverso: o uso de redes sociais (TikTok e Instagram) por jovens indígenas (como os das etnias Guajajara ou Puyanawa) para criar conteúdos nos seus idiomas originais. Esta "re-gramatização" digital está a despertar o interesse dos adolescentes pela língua dos avós, transformando o telemóvel numa ferramenta de orgulho identitário.


Bibliografia e Documentação Específica:
Ferreira, M. B. (2024). O Mirandês no Século XXI: Entre a Escola e a Rua. Coimbra: Almedina.
Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional - IPHAN (2025). Inventário Nacional da Diversidade Linguística: Foco Amazónia.
Relatório ALCM (2026). Estado da Língua Mirandesa: Censo e Vitalidade. 
UNESCO (2025). Interactive Atlas of the World's Languages in Danger (Edição Digital 2026).
Relatório ALCM (2026). Estado da Língua Mirandesa: Censo e Vitalidade.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Carnaval - Sobre o Riso, o Ridículo e o Sagrado


Os Evangelhos referem mais de uma vez que Jesus chorou: nomeadamente, pela morte do seu amigo Lázaro e sobre Jerusalém e a sua ruína. Nunca se diz explicitamente que sorriu ou riu. Mas está escrito que se alegrou e exultou.

Comover-se, chorar, é próprio do ser humano. Como é próprio do ser humano sorrir e rir. Por isso, lá está Santo Tomás de Aquino a argumentar que, se era humano, é claro que também riu e sorriu. O animal não chora, nem ri. O rosto de um ser humano que ri às gargalhadas pode ser do mais bonito que há. Sorrir e rir é sinal da transcendência humana: o ser humano está para lá do dado e do facto e, por isso, sempre também para lá de si mesmo. Ai do homem incapaz de rir-se de si próprio.

Evidentemente, há muitas formas de sorriso e riso, e as suas causas são múltiplas. O riso exultante não se identifica com o riso do desdém. O sorriso saltitante do acolhimento e da ternura nada tem a ver com o sorriso da ironia sardónica, e, muito menos, com o sorriso sobranceiro do desprezo. Em situações-limite, o riso estoira em lágrimas e a dor explode em riso. Tive uma vez uma jovem estudante que me pediu para escrever um “trabalho” precisamente sobre o riso, pois aconteceu-lhe que a mãe ao entrar na igreja e ao ver o cadáver da sua própria mãe (avó da jovem) começou a rir. Cá está: foi tal a dor, a angústia pela morte da mãe, que começou a rir-se - é isso: rimos até às lágrimas, choramos até ao riso.

Sintomaticamente, parte substancial das nossas piadas e anedotas não versam propriamente sobre o jocoso, em si mesmo, mas sobre realidades tremendamente sérias: o sexo, a morte, o Além. Talvez por isso mesmo: por serem terrivelmente sérias. Talvez também por isso, o poder, em princípio, não tem boas relações com o humor e o riso e as ditaduras não o toleram. É que o humor e o riso podem transportar consigo doses maciças de subversão corrosiva do poder no seu exercício, sobretudo no seu ridículo - não provém ridículo de ridere, precisamente rir?

Estas más relações são notórias concretamente quando consideramos o poder eclesiástico. Ainda não há muitos, muitos anos que os seminaristas nos seminários e as freiras nos conventos passavam os dias e as noites de Carnaval em adoração ao Santíssimo Sacramento, desagravando-o pelos pecados cometidos nesses dias e nessas noites. Não sei se alguém sabia ou saberá exactamente onde é que estava ou está a diferença entre os pecados do Carnaval e os pecados das outras épocas do ano.

Foi tardiamente que os cristãos aceitaram os festejos carnavalescos às portas dos rigores da Quaresma. Apesar das tentativas da Igreja oficial para travá-los, eles continuaram e impuseram-se. Seja como for, havia na Idade Média uma festa, que era a Festa dos Loucos. Nessa festa, chegava-se ao cúmulo de paramentar um burro, que entrava, portanto, na igreja com as vestes litúrgicas.

Realizava-se a Festa dos Loucos, uma crítica brutal ao poder eclesiástico. Arranjava-se um subdiácono, o grau mais baixo da hierarquia, era vestido de “bispo”, colocado em cima de um burro, entrava na igreja com a face voltada para a cauda, de costas para o altar. Em momentos fundamentais da liturgia, o celebrante e o povo zurravam. Na transmissão simbólica do báculo episcopal, rezava-se o Magnificat naquele passo: “E Deus derrubou os poderosos e exaltou os humildes.”

Há um texto da Faculdade de Teologia de Paris, que, em 1444, assim quer justificar a Festa dos Loucos: “Os nossos eminentes antepassados permitiram esta festa. Porque haveria ela de ser-nos interdita? Os tonéis do vinho rebentariam, se de vez em quando não se abrisse o batoque para arejá-los. Ora, nós somos velhos tonéis mal ajustados, que o vinho da sabedoria rebentaria se o deixássemos ferver numa devoção contínua ao serviço divino. É por isso que dedicamos alguns dias aos jogos e à palhaçada, a fim de voltarmos em seguida com mais alegria e fervor ao estudo e aos exercícios da religião.” Pelo menos, nessa altura, era permitido pôr a ridículo o poder clerical.

No meio de todo aquele aparato do Vaticano, não há uma contradição entre a pompa e a cruz? E há aquele texto do filósofo Sören Kierkegaard, que diz mais ou menos assim: vai Sua Excelência Reverendíssima o Bispo de Copenhaga, revestido de paramentos com filamentos de ouro e um báculo e uma mitra debruados de pedras preciosas, com todo o seu séquito em esplendor, senta-se num cadeirão de prata e dá início à sua homilia sobre a pobreza. E ninguém se ri!

A alguém que se sentisse irritado com estas perguntas lembro um texto de Joseph Ratzinger, mais tarde Bento XVI, no qual escreveu que, se hoje se critica menos a Igreja do que na Idade Média, não é porque se tem mais amor à Igreja, mas a si e à carreira.

É, para mim, evidente que não deve, não pode ser permitido ridicularizar de modo boçal o Sagrado, o Divino. Se isso fosse permitido, era a hecatombe. Mas a questão é outra: pôr a nu, pelo riso, a diferença entre o Sagrado e aquilo que nós, seres humanos finitos, fazemos dele é saudável. Porque o Divino e o Sagrado não se identificam com o que fazemos deles. Quem pode imaginar e admitir o ridículo de certas imagens de Deus na inteligência e no coração de alguns crentes? Assim, rir-se do modo como nós falamos do Mistério e do modo como o tratamos pode ser uma maneira sã de nos darmos conta da Transcendência do Mistério e do Divino. Que ao mesmo tempo se revelam e se ocultam.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Ego Eris - Tempo Implacável


Curiosidade sobre o nome
O nome vem da frase em latim "Tu fui, ego eris", que significa "O que tu és, eu fui; o que eu sou, tu serás". É uma expressão clássica encontrada em epitáfios e mementos mori, lembrando a todos sobre a inevitabilidade da morte — um tema central na estética da banda.

Letra
Se abraçando à fúria que sufoca 
Pra tentar esquecer
Se agarrando à fuga que lhe trás a paz
Sem ter que adormecer

Aprisionado em tristes e simples ilusões 
Não há mais nada para ver
Feliz enquanto voa em seus sonhos
Antes do anoitecer

Encontraria a chave que lhe prende
Libertaria todo aquele mal
Sem pensar

Como podemos ter tempo se é o tempo que nos tem?
Não conhecemos o nosso fim, mas o nosso fim nos conhece [2X]

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Dia Internacional da Língua Materna



A língua materna, também conhecida como idioma materno, língua nativa ou primeira língua, é a língua que cada pessoa começa a adquirir logo que nasce e cria o vínculo afetivo-linguístico.

Trata-se do primeiro idioma que uma pessoa aprende, aquele que se domina melhor. Sendo, também, a língua que se fala num determinado país ou região, é relativa a quem é natural desse espaço e que se adquire, portanto, de forma natural, através da interação com o meio envolvente e está relacionada com as primeiras lembranças que a pessoa possui da sua infância.

Assim, a língua não é um mero veículo de comunicação. Encerra em si uma carga afetiva e é, para cada pessoa, estruturante da sua identidade e pertença. A língua, a par da bandeira, da constituição e de outros símbolos identifica, também, as nações e os povos.

Por outro lado, as palavras de uma língua, além de serem elementos centrais da nossa comunicação, são uma ferramenta de poder, capazes de moldar pensamentos, atitudes e comportamentos.

As palavras que escolhemos têm um impacto significativo na sociedade, podendo ser utilizadas para enaltecer, dignificar e valorizar, mas também para oprimir, acentuar injustiças e promover desigualdades.

Comunicar usando linguagem inclusiva permite combater estereótipos, contribuindo, desta forma, para afirmar o princípio constitucional da igualdade.

Esta forma de comunicação é um meio de reconhecimento de todos os membros da sociedade, legitimando, assim, a sua presença no meio linguístico.

O uso do masculino genérico, ou “falso neutro”, contribui para a perpetuação de estereótipos de género e para a invisibilizar pessoas e grupos de pessoas.

Usar uma linguagem inclusiva, que respeita o direito de todas as pessoas, é mais fácil do que pensa.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Música do BioTerra: Fields Of The Nephilim - She


Closer we serve her
Further we stay
Lost in the winter
Ghosts of today

Keep calling
Keep crying her name
Keep calling
Keep walking that way

When the rain has gone
Gonna wipe those tears away
Play that game withgone
It'll wash those years away

Tears have turned to ice
(turned to ice)
Feel you by my side
(hear you cry)
Want to hear you cry
(not alone tonight)
Not alone tonight
(by my side)
Where is she?

Will I know if you hear? (possibly "Will I know if you're here")
We are waiting for the rain again
And the rain will come
(gonna wipe those tears away)
Rain wash away your fear
When I lay you down
(gonna wash those years away)
Wake you in a thousand years
And when the rain has gone
(gonna wipe those tears away)
Washed away all your tears
And they will fall
(gonna wash those years away)
You and I would never hear

Tears have turned to ice
(tears from your eyes)
No one here but I
(only a dream survived)
Nothing can survive
(but it never died)
Want to hear you cry
(it'll never die)
Tears have turned to ice
(tears from your eyes)
Be the butterfly
(be the butterfly)
Never close your eyes
(close your eyes)
Want to hear you cry
(echoes through the ice)
(tears from your eyes)
(searching all my life)
(to only say goodbye)
(now I hear you cry)
Tears return to life
(She returns to light)
Only a dream survived
(only a dream survived)
Echoes through the ice
(echoes through the ice)
Can you hear me... cry?
(can you hear me cry)
Cry...
Cry!

{I'll be watching over you now}
{?????}
{I'll be watching over you now}

sábado, 5 de novembro de 2022

O "galego das Astúrias" também está a morrer; há uma sangria de oradores



Galego-asturiano. Eo-Navegação. Fala. Astur-galego. Inclusive, de forma depreciativa, "chapurriao" . Os múltiplos nomes que foram dados à língua falada no oeste de Astúrias mostram a controvérsia que existe em torno da língua . Uma polémica que, entende o coletivo Axuntar , é superada pela linguística. A associação apresentou um relatório com o qual pretende reivindicar o galego das Astúrias para dignificar o seu uso e evitar em primeiro lugar uma perda de oradores, que nos últimos 30 anos atingiu 29% .

A área de uso do galego-asturiano abrange cerca de 4.200 quilómetros quadrados e 18 municípios, um território em que vivem cerca de 37.000 pessoas. No entanto, o mais recente Inquérito Sociolinguístico de Navia-Eo, promovido pela Academia da Língua Asturiana, constatou que os falantes desta língua no primeiro mandato eram 75% há três décadas, em 46% no ano de 2021.

Num momento decisivo para o estatuto oficial das línguas minoritárias nas Astúrias, Axuntar exige que o Principado aceite a "pluralidade linguística" da comunidade e que a língua falada no território Eo-Navia seja o galego, "nem asturiano nem asturiano" .-Leonês, muito menos castelhano». Em seu relatório, realizado por Javier Barcia e Natalia Jardón , o grupo destaca que já em 1162, na Cartularia de Oscos, há um documento em galego-português que comprova a venda de duas fazendas pelo preço de um boi e cem remunerações.

Axuntar enumera no seu relatório 46 investigadores que comprovam a raiz galego-portuguesa da língua falada nas Astúrias Ocidentais, incluindo Menéndez Pidal, Dámaso Alonso, García de Diego, Lázaro Carreter ou Carvalho Calero . Que a língua de Eo-Navia seja galega com as nuances dialetais típicas da região é tratada assim, destaca o grupo no dossiê, de "uma verdade científica admitida pelos linguistas".

Axuntar rejeita a tese de que o galego-asturiano deva ser considerado uma nova língua românica, pois "separar uma língua de sua raiz linguística é condená-la ao desaparecimento".

A referida pesquisa da Academia de la Llingua Asturiana mostra a diversidade de percepções em torno do galego-asturiano, foco de um intenso debate. 64% acreditam que a língua das Astúrias Ocidentais "é uma mistura de galego e asturiano"; 13% pensam que é uma variante do galego; 8% consideram que vem das Astúrias; e mesmo uma pequena porcentagem, 3%, pensa que vem apenas do espanhol.

Esta situação responde, acredita Axuntar, à atitude do Principado, que na sua opinião quer separar os asturianos do Ocidente da sua própria língua. O grupo entende que essa “ política de confusão ” de “separar uma língua de seu corpus linguístico” só pode levar à perda de falantes.

«Na pesquisa, a Academia perguntou em primeiro lugar sobre identidade: se os participantes se sentiam asturianos ou não . Isso vai além da sociolinguística, que deveria estudar em que áreas a língua é falada, que presença ela tem na escola... Pressionar a saúde da língua. Mas a abordagem é tendenciosa: o que se busca é estimular esse sentimento de identidade asturiana para eliminar a palavra galego”, diz Quique Roxíos , de Axuntar.

“ Um bem cultural torna-se objeto de conflito político ”, aprofunda. «O cidadão comum não tem que saber das questões dialetológicas, e se assim se orienta, interpreta a questão como um dilema de identidade. E é absurdo e irreal, porque a fronteira ocidental das Astúrias tem quase 1.000 anos sem que haja na Eo-Navia qualquer aspiração de pertencer à Galiza », expõe Roxios.

Assim, Axuntar exige “que os asturianos de língua galega sejam reconhecidos e que não sejam privados de sua herança cultural”.