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terça-feira, 28 de julho de 2026

Cientistas conseguem transformar plásticos em combustível: o sistema que os converte em energia

Este novo processo alcança três resultados de uma só vez: transforma o plástico mais comum em hidrogénio de alta pureza e, ao mesmo tempo, solidifica o CO2, evitando assim a sua libertação na atmosfera.

Quanto plástico existe realmente no planeta? É uma pergunta para a qual, quase certamente, nunca teremos uma resposta. Independentemente das estimativas que possamos fazer, a preocupação com a situação cresce — ainda que lentamente — em contraste com a rápida escalada do problema em si; a realidade é que, a cada minuto que passa, há mais plástico no planeta.

No meio de diversas iniciativas e campanhas voltadas para mitigar a questão, cientistas de todo o mundo continuam a procurar soluções eficazes para erradicar o problema rapidamente, sem causar mais danos ao planeta e às suas esferas (ou seja, sem criar novas fontes de poluição da água, do ar ou do solo).

Das profundezas dos oceanos às nuvens - e até mesmo no nosso sangue -, o plástico alcançou todos os espaços no nosso redor, persistindo no meio ambiente e permanecendo com as futuras gerações por séculos.

Um dos projetos de investigação mais interessantes a apresentar resultados promissores recentemente - em julho deste ano - foi publicado pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA), e pela Ewha Womans University, na Coreia do Sul.

Este estudo não apenas desenvolveu com sucesso um processo capaz de transformar a reciclagem de plásticos no futuro sem gerar poluição adicional, mas também oferece uma via nova e altamente eficiente para a geração de energia limpa.

Do plástico ao hidrogénio: uma transformação sem emissões
Misturar plásticos para transformá-los? O resultado desta nova proposta é nada menos que hidrogénio de alta pureza, obtido pela combinação de três tipos comuns de plástico: PET, polietileno e polipropileno.

Isto é alcançado através de um novo processo chamado tratamento térmico alcalino, que utiliza temperaturas até 400 °C mais baixas do que as empregadas em processos convencionais de gaseificação, permitindo que o dióxido de carbono libertado durante o processo seja capturado e transformado na sua forma sólida.

Ao utilizar hidróxido de sódio e uma diferença de temperatura tão significativa (este processo geralmente opera em temperaturas entre 700 °C e 1300 °C), esta técnica requer menos energia e, ao mesmo tempo, produz hidrogénio com pureza superior a 90% - um nível muito próximo do padrão exigido para aplicação em tecnologias de energia limpa.

Além disso, a capacidade de capturar o dióxido de carbono emitido durante o processo evita que o gás seja libertado na atmosfera e a polua, criando também a oportunidade de aproveitar o material sólido resultante; uma vez transformado, este material pode ser utilizado em setores como manufatura e construção civil, entre outros.

Segundo dados da UCLA, menos de 10% do plástico descartado é reciclado, quase 80% acaba em aterros sanitários e nos oceanos, enquanto cerca de 10% é incinerado, libertando gases poluentes na atmosfera durante o processo.

Embora este projeto ainda esteja em fase experimental e precise de passar por um processo de implementação industrial fora do laboratório, os resultados são promissores no que diz respeito à redução de custos na triagem e separação de materiais plásticos, à produção de hidrogénio de alta pureza e à gestão e aproveitamento dos resíduos remanescentes.

Um problema que tem uma janela de oportunidade
Desde 2020, diversas iniciativas de investigação e projetos surgiram na tentativa de mitigar este problema crescente, visto que a maioria dos bens essenciais atuais contém, infelizmente, algum tipo de plástico.

Em 2025, investigadores japoneses publicaram uma descoberta sobre o desenvolvimento de um plástico à base de celulose altamente durável, que se degrada completamente em água salgada; e, no início de 2026, foi anunciado um projeto que decompõe o plástico utilizando enzimas, degradando com sucesso até 90% das garrafas PET.

É importante realçar que a adoção de bioplásticos no quotidiano e a implementação de novas estratégias para mitigar o impacto deste material ainda podem levar muito tempo; portanto, a melhor oportunidade de promover mudanças nessa questão está na decisão de cada um de nós de gerar a menor quantidade possível de resíduos plásticos no nosso dia a dia.

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terça-feira, 2 de junho de 2026

Curva de Keeling: o gráfico que tirou a "pressão arterial" à Terra

Se pudéssemos tirar a pressão arterial à Terra para avaliar a sua saúde climática, o gráfico resultante seria, sem dúvida, a Curva de Keeling. Este registo gráfico, considerado um dos documentos científicos mais importantes da era moderna, mostra a acumulação contínua de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera terrestre desde o final da década de 1950. Mais do que um simples conjunto de dados estatísticos, a curva funciona como o espelho do impacto da atividade humana no planeta e um aviso claro sobre o futuro do nosso clima.
Até meados do século passado, a comunidade científica sabia que a queima de combustíveis fósseis libertava gases, mas não havia certezas se esse dióxido de carbono se acumulava na atmosfera ou se era totalmente absorvido pelos oceanos e pelas florestas. Tudo mudou quando o cientista americano Charles David Keeling desenvolveu um método de alta precisão para medir o CO2 e, em 1958, começou a recolher amostras de ar no topo do vulcão Mauna Loa, no Havai. A escolha do local foi estratégica: isolado no meio do Oceano Pacífico e a grande altitude, o observatório ficava longe da poluição direta das grandes indústrias, oferecendo uma amostra limpa e global da atmosfera terrestre.
Ao olhar para a Curva de Keeling, saltam imediatamente à vista duas características principais: um padrão anual em forma de ziguezague e uma subida vertical implacável ao longo das décadas. O ziguezague regular representa aquilo a que os cientistas chamam a "respiração" da Terra. Durante a primavera e o verão do Hemisfério Norte - onde se concentra a maior parte da vegetação do planeta -, as florestas crescem e absorvem grandes quantidades de CO2 através da fotossíntese, fazendo os níveis atmosféricos descerem. No outono e no inverno, o processo inverte-se; a vegetação entra em dormência e decompõe-se, libertando o gás de volta para o ar.
No entanto, embora o planeta expire e inspire todos os anos, o topo de cada ziguezague é sucessivamente mais alto do que o do ano anterior. Esta tendência de subida contínua a longo prazo é o resultado direto da atividade humana, impulsionada pela queima de carvão, petróleo e gás natural, além da desflorestação global. 
Quando Keeling fez a sua primeira medição em 1958, a concentração de $CO_2$ era de 315 partes por milhão (ppm). Hoje, esse valor já ultrapassou a barreira dos 420 ppm. Através do estudo de bolhas de ar presas no gelo profundo da Antártida, sabemos que, nos últimos 800 mil anos, estes níveis nunca tinham ultrapassado os 300 ppm. Em menos de um século, a humanidade alterou a composição química do ar de uma forma sem precedentes na história da evolução humana.
O dióxido de carbono atua como um manto térmico em redor do planeta, retendo o calor do Sol que, de outra forma, escaparia para o espaço. À medida que a Curva de Keeling continua a subir, esse cobertor torna-se cada vez mais espesso, alimentando o aquecimento global, o degelo dos glaciares, a subida do nível do mar e a multiplicação de fenómenos meteorológicos extremos. 
No fundo, a Curva de Keeling deixou de ser apenas uma monitorização laboratorial no Havai para se tornar no diagnóstico mais urgente da nossa civilização, lembrando-nos diariamente de que a estabilidade do clima do futuro depende da rapidez com que conseguirmos travar esta subida.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Novo estudo revela que as culturas de subsistência contribuem também para a desflorestação e para as emissões de gases de efeito de estufa

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Um novo estudo, publicado na revista Nature Food em 23 de fevereiro de 2026, apresenta uma análise sem precedentes sobre a relação entre a produção global de mercadorias, a desflorestação e as respetivas emissões de carbono. 

Através da criação do modelo DeDuCE, os investigadores Chandrakant Singh e Martin Persson conseguiram mapear o impacto de 184 produtos em 179 países, cobrindo o período entre 2001 e 2022. A grande revelação do estudo é que as políticas ambientais atuais podem estar a sofrer de uma "visão em túnel", ao focarem-se excessivamente em produtos de exportação mediáticos, como a carne bovina, a soja e o óleo de palma, enquanto negligenciam o peso das culturas de subsistência e de base alimentar.

Nomeadamente as commodities como óleo de palma e soja têm um impacto concentrado (Sudeste Asiático e América do Sul, respectivamente). Por outro lado, a desflorestação causada por culturas básicas (arroz e milho) está globalmente distribuída, o que torna o seu controlo mais complexo para as cadeias de abastecimento internacionais.

Os dados revelam que a expansão de pastagens para o gado continua a ser a principal culpada, sendo responsável por 42% da desflorestação global e mais de metade das emissões de carbono associadas. No entanto, o estudo destaca que o arroz, o milho e a mandioca — frequentemente ignorados em regulamentações internacionais como as da União Europeia — representam já 11% da perda de florestas no mundo. 

Este fenómeno é particularmente desafiante porque estas culturas básicas estão dispersas globalmente e são destinadas, em grande parte, ao consumo interno dos países produtores, o que as torna menos suscetíveis a pressões comerciais externas.

Ao longo das duas décadas analisadas, a desflorestação para fins comerciais resultou na perda de quase 122 milhões de hectares de floresta e na emissão de 41,2 gigatoneladas de CO2. Os autores sublinham que, se o objetivo internacional for atingir a neutralidade carbónica e travar a perda de biodiversidade, é urgente alargar o âmbito da monitorização. 

O artigo conclui que não basta focar as atenções nas cadeias de abastecimento de luxo ou de exportação; é imperativo integrar as culturas agrícolas de base nas estratégias de conservação, equilibrando a necessidade crítica de segurança alimentar com a proteção dos ecossistemas florestais.

domingo, 1 de março de 2026

O esverdeamento global (global greening) está a deslocar-se para Nordeste

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Um novo estudo liderado pelo Centro Alemão de Investigação Biológica Integrativa (iDiv), pelo Centro Helmholtz de Investigação Ambiental e pela Universidade de Leipzig revelou que a "onda verde" da Terra — o indicador da saúde e atividade da vegetação — está a deslocar-se gradualmente para nordeste. 
Através de um método inovador que calcula o centro de massa da vegetação global, os cientistas conseguiram monitorizar como a densidade das folhas verdes se move pelo planeta ao longo das décadas. Para ilustrar o conceito, o autor principal, Miguel Mahecha, sugere imaginar um globo com pequenos pesos aplicados em cada ponto onde existe vegetação; ao colocar esse globo na água, o centro de massa apontaria sempre para baixo, permitindo seguir a sua oscilação.
Utilizando observações de satélite e modelos de dados, a equipa descobriu que este "centro verde" oscila anualmente entre a Islândia, em meados de julho, e a costa da Libéria, em março, seguindo o ritmo das estações. 
No entanto, a análise de longo prazo revelou uma tendência preocupante e inesperada: um desvio consistente para norte em todas as estações do ano. Ao contrário do que previam, os investigadores não observaram um desvio compensatório para sul durante o verão do Hemisfério Sul. Esta mudança parece ser impulsionada por invernos mais amenos e épocas de crescimento mais longas no Hemisfério Norte, que permitem que a vegetação permaneça verde por períodos mais extensos.
Além do movimento para norte, o estudo identificou uma deslocação nítida para leste, fenómeno que os especialistas associam a focos de esverdeamento intenso em regiões como a Índia, a China e a Rússia. Este processo de "esverdeamento global" é amplamente influenciado pela atividade humana, uma vez que o aumento do CO2 atmosférico funciona como um fertilizante que potencia a fotossíntese, enquanto a subida das temperaturas altera os ciclos biológicos. Este novo método de monitorização oferece agora uma ferramenta crucial para compreender como a superfície viva do planeta se está a reorganizar face ao aquecimento global, ligando fatores como a migração animal, a dinâmica de incêndios e as interações entre a biosfera e o clima.
Este novo método de monitorização funciona como um termómetro visual da saúde do planeta, mostrando que a Terra não está apenas a aquecer, está a transformar-se fisicamente.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Tribunal suíço vai julgar caso histórico contra gigante do cimento Holcim



A Swiss court is set to hear a climate case against cement giant Holcim after admitting a complaint filed by four residents of the low-lying Indonesian island of Pari.

The residents say rising sea levels are swallowing their home and accuse Holcim of failing to cut carbon emissions.

The Cantonal Court of Zug admitted the complaint in full, marking the first time climate litigation against a corporation will proceed in Switzerland, according to Swiss Church Aid (HEKS/EPER), one of the NGOs assisting the islanders.

The case is part of a global effort to hold major companies accountable for climate damage that threatens millions, especially in poorer countries.

Climate change could submerge Pari by 2050
The case was brought in 2023 by four residents of Pari Island, Ibu Asmania, Pak Arif, Pak Edi, and Pak Bobby, to the court in Zug, where Holcim is headquartered. Rising waters linked to climate change could submerge most of the island by 2050. Pari sits just 1.5 meters (5 feet) above sea level.

The plaintiffs, supported by international NGOs including Swiss Church Aid (HEKS/EPER), the European Center for Constitutional and Human Rights, and The Indonesian Forum for Living Environment (WALHI), say Holcim is one of the world's largest emitters of greenhouse gases. They are demanding rapid cuts in CO2 emissions — 43% by 2030 and 69% by 2040 — as well as compensation for damage and funding for flood protection.

Ibu Asmania said he and the other plaintiffs were "very pleased" by the court's decision.

"This decision gives us the strength to continue our fight," he said. "This is good news for us and our families."

Cement giant plans to appeal
Holcim, which has not operated cement plants in Indonesia since 2019, plans to appeal the court's decision to allow the case to move ahead. The company has repeatedly stressed it is committed to reaching net zero by 2050 but argues lawmakers should decide how those goals are met.

"Holcim remains convinced that the courtroom is not the appropriate forum to address the global challenge of climate change," the company said.

Cement production accounts for about 9% of global carbon dioxide (CO2) emissions, according to the Global Cement and Concrete Association.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Solos superficiais guardam 45% mais carbono do que o estimado


A camada superior dos solos armazena 45% mais carbono do que se estimava, conclui um relatório da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) que apela à proteção jurídica do solo, à semelhança da atmosfera e dos oceanos.

As camadas mais finas do topo do solo são uma solução climática mais eficaz do que se pensava mas continuam excluídas das políticas climáticas globais, alerta o relatório da Comissão Mundial de Direito Ambiental da IUCN (WCEL), da Aroura e do movimento Save Soil, divulgado no Dia Mundial do Solo, que hoje se celebra.

Os dados das organizações indicam que os solos armazenam 2.822 gigatoneladas de carbono no metro superior e que isso significa que os solos superficiais retêm 45% mais carbono do que as estimativas anteriores.

O relatório denuncia uma persistente marginalização dos solos, da terra e dos sistemas agrícolas no financiamento climático e nas políticas climáticas, lembrando que 40% da terra do planeta está degradada, valor que vai subir para 90% até 2050, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

“Restaurar a saúde do solo pode ser uma solução imensa para a mitigação climática e uma ferramenta de sequestro de carbono, mas até que estabeleçamos caminhos claros e acessíveis para investimentos em grande escala, os solos permanecerão estruturalmente excluídos das soluções climáticas”, afirmou Praveena Sridhar do Movimento Save Soil, citada em comunicado.

A organização defende que, para manter o limite de 1,5 °C, o sistema climático deve reconhecer a restauração do solo e da terra como um dos pilares centrais da estabilidade climática global.

Cerca de 27% das emissões necessárias para manter o aquecimento abaixo de 2°C podem ser sequestradas em solos saudáveis, segundo o estudo, no entanto 70% dos países não incluíram a restauração do solo como solução de mitigação das alterações climáticas nas suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (CNDs), da cimeira do clima COP30.

One EU project seeks to address this. ⁠A Soil Deal for Europe has an estimated investment of around 1 billion euros (US$1.15 billion) up to 2028, which involves establishing 100 Living Labs, research, innovation, and developing the monitoring framework, includes mapping. ⁠While other EU funding, like the Common Agricultural Policy (CAP), also contributes to soil management, the 1 billion euros is the most direct figure associated with the Soil Mission that underpins the new EU-wide soil health monitoring framework. Its ⁠goal is to develop a robust, harmonized EU-wide soil monitoring framework, which will contribute to assessing and achieving healthy soils by 2030 in line with the EU Green Deal’s long-term vision of healthy soils by 2050.

Unlike the UN Convention on the Law of the Sea (UNCLOS) for oceans and the Paris Agreement for the climate, soil lacks a global legal protection framework. However, the EU, the Pan-African Parliament and the International Union for Conservation of Nature (IUCN) last month took steps mandating the development of a Global Legal Instrument for Soil Security.

At a COP30 High-Level Ministerial Event on Wednesday, Brazil’s Minister of Agriculture and Livestock Carlos Fávaro launched the Resilient Agriculture Investment for Net-Zero Land Degradation as a legacy effort to restore degraded farmland and promote sustainable agriculture.

The report introduces the Soil Security Framework, a practical model for protecting and restoring the world’s soils across five dimensions: capacity, condition, connectivity (how people value soil), capital, and codification (legal protection). This approach reframes soil from an agricultural variable to a strategic resource underpinning food, water security, climate resilience and economic stability.

Soil health is fundamental not only as a carbon sink, but also for climate adaptation. “Living soils are fundamental to agriculture,” said Sridhar. “They support you when you go through climate shocks. Healthy, living soils can absorb flood waters, and in drought they hold water like sponges. The crops are not successful because of the inputs you put on top like chemicals and pesticides – the security lies below the surface.”

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Superfície global do oceano atingiu a temperatura recorde de 21 graus em 2024

Extensão do gelo no Ártico e na Antártida está a atingir mínimos históricos, de acordo com outros dados recolhidos no relatório do Serviço de Monitorização Marinha do programa europeu Copernicus.

Superfície global do oceano atingiu a temperatura recorde de 21 graus em 2024© Daniele Semeraro

O ritmo do aquecimento do oceano está a "acelerar" e a temperatura global à superfície bateu um recorde na primavera de 2024, atingindo 21 graus Celsius (ºC), segundo um relatório do Serviço de Monitorização Marinha do programa europeu Copernicus.

"Todo o oceano é afetado pela tripla crise planetária: alterações climáticas, perda de biodiversidade e poluição", é referido no nono relatório sobre o estado dos mares do Serviço de Monitorização Marinha do programa da União Europeia de observação da Terra publicado esta terça-feira.

O nível do oceano está a subir a um ritmo sem precedentes de 40,8 milímetros (mm) por década, e a extensão do gelo no Ártico e na Antártida está a atingir mínimos históricos, de acordo com outros dados recolhidos no relatório.

"Reduzir as emissões, embora essencial, já não é suficiente por si só para salvar o planeta", conclui o relatório, sublinhando que "os governos devem restaurar os ecossistemas e reforçar as políticas oceânicas para proteger uma economia azul global que vale milhares de milhões".

De acordo com os dados apresentados, analisados por mais de 70 cientistas, o aquecimento da superfície do oceano é "particularmente rápido" e três vezes superior à média no Mar Negro, praticamente o mesmo que no Báltico, e mais do dobro da média no Mediterrâneo, onde o aumento é de 0,41ºC por década e as ondas de calor marinhas ocorrem entre 16 e 23 dias a mais a cada 10 anos.

Tanto 2023 como 2024 registaram ondas de calor "excecionalmente intensas e persistentes", que levaram a temperaturas da superfície do oceano 0,25ºC superiores aos recordes anteriores, superando os recordes de 2015 e 2016.

Houve zonas do Atlântico que, em 2023, experimentaram mais de 300 dias em condições de ondas de calor marinhas.

No verão desse ano, a onda de calor mais longa alguma vez registada no Mediterrâneo fez com que as temperaturas à superfície subissem 4,3 graus acima do normal naquele mar, ou seja, 40,8 mm de subida do nível do mar por década.

A subida global do nível do mar está também a "acelerar a um ritmo sem precedentes": 31,4 mm por década entre 1999 e 2006, 39,3 mm por década entre 2007 e 2015 e 40,8 mm por década entre 2016 e 2024.

O aumento cumulativo entre 1901 e 2024 é de 228 mm, sendo o risco resultante de inundações e erosão em zonas costeiras que albergam cerca de 200 milhões de pessoas.

Todos os países europeus com densidades populacionais costeiras acima das 200 pessoas por quilómetro quadrado estão a registar uma subida do nível do mar acima da média.

Em relação à perda de gelo marinho, o Ártico registou quatro mínimos históricos entre dezembro de 2024 e março de 2025, mês em que se registaram menos 1,94 milhões de quilómetros quadrados do que a média de inverno de longo prazo, uma área quase seis vezes superior à Polónia.

Na Antártida, 2025 marca o terceiro ano consecutivo de baixa extensão de gelo marinho. Em fevereiro, havia menos 1,6 milhões de quilómetros quadrados do que a média de longo prazo, uma área quase três vezes superior à de França.

O aquecimento e a acidificação afetam 16% dos corais ameaçados e 30% dos severamente ameaçados.

Os resíduos plásticos poluem todas as bacias oceânicas e, entre os países que emitem mais de 10.000 toneladas por ano, 75% fazem fronteira com os recifes de coral.

O Serviço de Monitorização Marinha é um dos seis que compõem o programa de observação da Terra Copernicus, financiado pela União Europeia.

terça-feira, 15 de abril de 2025

Taxa recorde de aumento de CO2 atmosférico


Dados do satélite Copernicus: recorde de CO2 atmosférico a aumentar taxa recorde, salto de 2022. Sem resposta - portanto, a taxa de aumento recorde continuará até à catástrofe planetária.
Consultar IPCC

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Travessas de plástico reciclado poderão tornar os caminhos-de-ferro ainda mais ecológicos


Parte das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) dos caminhos-de-ferro reside na energia utilizada para produzir e manter as infraestruturas necessárias. Investigadores finlandeses demonstraram a viabilidade da utilização de travessas de comboio mais ecológicas a partir de dois tipos de plástico reciclado, o cartão para embalagem de líquidos e o acrilonitrilo butadieno estireno. As emissões de carbono poupadas anualmente com a eliminação progressiva das travessas de betão e a sua substituição por este tipo de plástico reciclado poderiam equivaler ao aquecimento de 1200 habitações finlandesas.

Os caminhos-de-ferro, o meio de transporte mais amigo do ambiente a seguir aos autocarros de longo curso, vão desempenhar um papel importante na luta pelo zero líquido. Atualmente, as emissões totais do transporte ferroviário são de 31 gramas de equivalente de CO2 (CO2e) por passageiro-quilómetro, metade do valor dos veículos elétricos mais económicos.

Mas as emissões de carbono do tráfego ferroviário podem ser ainda mais reduzidas, revela um novo estudo publicado na revista Frontiers in Sustainability por autores finlandeses. Isto porque os materiais de construção típicos, como o aço e o betão, são energeticamente dispendiosos de produzir, transportar, manusear e manter. Mesmo nas linhas de comboio mais movimentadas, estes custos ascendem a 30% das emissões totais e esta percentagem aumenta acentuadamente à medida que o volume de tráfego diminui.

“Mostramos aqui que os plásticos reciclados podem ser utilizados como material para as travessas de caminho de ferro e que as emissões globais seriam reduzidas. A pegada de carbono é menor quando os fluxos de resíduos atualmente incinerados são utilizados como material”, afirma Heikki Luomala, primeiro autor do estudo e gestor de projeto na Universidade de Tampere.

“Estimamos que a redução de CO2 através da repulsão do fluxo de resíduos disponível na Finlândia poderia corresponder às emissões de aquecimento de 1200 casas, ou seja, 3 610 tCO2e (toneladas de equivalente de CO2) por ano”, acrescenta.

Dois tipos de plástico testados
Luomala e colegas estudaram a viabilidade e a redução das emissões de gases com efeito de estufa resultantes da eliminação gradual das travessas de madeira e de betão na Finlândia e da sua substituição por plástico reciclado. A vida útil de uma travessa é de 10 a 60 anos e diminui com o aumento da intensidade do tráfego, devido a danos mecânicos.

Uma importante fonte de resíduos de plástico é o sector das embalagens, que consome cerca de 40% da produção total de plástico. Neste sector, o chamado cartão para embalagem de líquidos (LPB) – uma mistura de polietileno, polipropileno, álcool vinílico de etileno e tereftalato de polietileno – é o produto que regista o crescimento mais rápido. Outra fonte importante de resíduos de plástico é o equipamento eletrónico e elétrico, que representa aproximadamente 6% da utilização total de plástico. O seu principal componente plástico é o acrilonitrilo butadieno estireno (ABS).

No passado, os resíduos de plástico eram frequentemente exportados da Finlândia para o Extremo Oriente, mas nos últimos anos foi lançada a iniciativa “ALL-IN for Plastics Recycling” (PLASTin) para tornar a Finlândia um líder na reciclagem de plásticos.

Luomala et al. produziram amostras de travessas de comboio (0,15 m de espessura, 0,25 m de largura e 2,6 m de comprimento) feitas de LPB e ABS e submeteram-nas a uma bateria de testes mecânicos. A sua intenção era testar se os protótipos confirmavam as normas internacionais para as indústrias de plásticos e ferroviárias.

A implementação no mundo real está a decorrer
Os espécimes feitos com ambos os tipos de plástico passaram nos testes de resistência e de flexão. Mas apenas o ABS reciclado foi capaz de suportar a temperatura máxima testada de 55°C sem amolecimento significativo durante os verões quentes.

“O ABS reciclado é muito mais adequado como material para travessas de caminho de ferro do que o LPB reciclado: as propriedades de resistência e rigidez do ABS são aproximadamente três vezes superiores e mais próximas das das travessas de madeira”, afirma Luomala.

As travessas de plástico para caminhos-de-ferro oferecem várias vantagens, por exemplo, fácil conformação, baixo custo, peso reduzido e resistência às condições ambientais. A utilização de plástico reciclado também permite uma maior flexibilidade na conceção da forma das travessas.

A Agência Finlandesa de Infraestruturas de Transportes já demonstrou interesse nas conclusões do estudo.

“Quando se trata da implementação de ABS reciclado para utilização como travessas de caminho de ferro, devem primeiro ser realizados mais testes à escala real. O seu comportamento a longo prazo, por exemplo, em termos de resistência aos raios UV, também deve ser testado”, adverte Luomala.

sábado, 23 de novembro de 2024

COP do Clima na reta final em Baku ou como navegar à vista entre as ausências, o “greenwashing” e as taxas solidárias



Na 29.ª Cimeira do Clima, quase a terminar no Azerbaijão com um sabor amargo, o financiamento da ação climática voltou a ser “o tema” em debate. Existem sectores da economia que são largamente sub-tributados, mas que poluem enormemente o planeta, daí que a task force “Global Solidarity Levies: For People and the Planet” tenha esta semana divulgado o seu segundo relatório, no qual propõe taxas solidárias a cobrar aos maiores vilões ambientais, entre os quais se encontram os produtores de combustíveis fósseis, a aviação, o transporte marítimo internacional, as criptomoedas ou a indústria dos plásticos. Sem esquecer, com o pontapé dado há dias pelo Brasil no G20, e já antes no âmbito do Quadro Inclusivo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), os super-ricos ou, para usar o eufemismo da Declaração do Rio de Janeiro, os “indivíduos com um património líquido ultra-elevado”.

E porque a justiça climática anda de mãos dadas com a justiça fiscal, aquele grupo de trabalho, presidido pela ex-diplomata francesa Laurence Tubiana, uma das arquitectas do Acordo de Paris, já anunciou, em parceria com o Banco Mundial, a OCDE, académicos reputados e peritos das Nações Unidas, as contas feitas se os maiores poluidores forem tributados: 216,2 mil milhões USD/ ano (taxa sobre a extração de combustíveis fósseis, com base na tributação de 5 dólares por tonelada de CO2); 200-250 mil milhões USD/ ano (taxa de 2% sobre o património líquido dos bilionários); 173,4 mil milhões USD/ ano (imposto de 50% sobre os lucros excepcionais das 14 maiores empresas de combustíveis fósseis por capitalização bolsista, entre julho de 2021 e julho de 2023); 133 a 274 mil milhões USD/ ano (imposto sobre as transacções financeiras, com base numa taxa nominal de 0,3 ou 0,5%); 127 mil milhões USD/ ano (taxa de transporte marítimo, calculando entre 150-300 USD por tonelada de CO2); 121 mil milhões USD/ ano (taxa de passageiro frequente: 9 dólares/ passageiro em cada segundo voo do ano e 177 dólares no vigésimo voo no mesmo ano); 104 mil milhões USD/ ano (valor da taxa de carbono aplicada em 2023); 25 a 25 mil milhões USD/ ano (taxa sobre a produção de polímeros primários, cobrando entre 60 a 90 dólares por tonelada); 18 mil milhões de USD/ ano (taxa sobre o consumo de querosene nos voos internacionais, a 0,33 dólares/ litro); e, por último, 5 mil milhões de dólares/ ano (taxa sobre a mineração das bitcoin, com base na cobrança de 0,045 dólares por kWh de energia consumida).

Esta solução permitiria obter o bilião de dólares anuais necessários para reverter a crise climática bem como o encolher de ombros dos países mais ricos e com maiores responsabilidades históricas nas emissões de gases com efeito de estufa (GEE). Até ao momento, a generosidade Norte-Sul resume-se a 700 milhões de dólares, isto é “aproximadamente ao salário anual dos dez jogadores de futebol mais bem pagos do mundo", como disse António Guterres, frisando a necessidade de “passar de biliões a triliões”.

Conforme afirmou recentemente Nadia Calviño, presidente do Banco Europeu de Investimento (BEI), “um dólar investido em adaptação e resiliência poupa cinco a sete dólares em reparações e indemnizações por danos.” Numa Conferência marcada pela ausência de muitos chefes de Estado e de Governo e pelo abandono da delegação argentina, o porta-voz da Aliança dos Pequenos Estados Insulares (AOSIS), particularmente ameaçados pelo aquecimento global, pôs o dedo na ferida ao dizer que se sentem “abandonados”.

No estertor da era dos combustíveis fósseis, o monstro continua a estrebuchar e a perspetiva de ter nos EUA uma Administração liderada por Donald Trump torna mais real atingirmos um aumento médio da temperatura de 3,1°C até 2100, na senda do alerta dado há um mês pela agência das Nações Unidas para o ambiente (UNEP) ao lançar o relatório Emissions Gap Report 2024. A dura realidade é que, nove anos após a assinatura do Acordo de Paris, em 2015, as emissões GEE aumentaram 8%. Também o desempenho climático de Portugal piorou, tendo o país descido duas posições no Índice de Desempenho das Alterações Climáticas (CCPI) apresentado na COP29.

Greenwashing files
Ao mesmo tempo que as ONG e o ativismo indígena têm mostrado crescente dificuldade em fazer ouvir a sua voz nas COP, os lobistas voltam a integrar as delegações nacionais em grande número. Após analisar as listas de participantes, a plataforma Kick Big Polluters Out revelou que “mais de 200 lobistas da agricultura industrial, representando as maiores empresas agro-alimentares do mundo”, além de 1770 lobistas das companhias fósseis, tiveram acesso às negociações oficiais da COP29.

A verdade é que as empresas de combustíveis fósseis não querem deixar no solo o petróleo, o gás e o carvão que nos matam. Pelo contrário, querem extrair mais e mais, enquanto der lucro, e os Governos continuam a dar uma mãozinha ao negócio, financiando com dinheiro dos contribuintes uma atividade que devia caminhar a passos largos para a extinção. Mas não, caminha apenas para nos extinguir a todos!

As companhias sabem há décadas dos perigos de queimar combustíveis fósseis. Por isso, tal como aconteceu com as tabaqueiras no passado, que esconderam os malefícios para a saúde e enfatizaram o glamour de fumar, fizeram tudo o que puderam para que o assunto se mantivesse fora do radar, financiando campanhas massivas de desinformação, comprando cientistas e governos. Agora que já não conseguem mentir mais, avançaram com técnicas mais sofisticadas, o chamado marketing verde ou greenwashing. A ONG ClientEarth, sediada em Londres, desmontou magistralmente esta nova forma de enganar os incautos nos seus greenwashing files.

As campanhas da Aramco, Chevron, Drax, Equinor, ExxonMobil, INEOS, RWE, Shell e Total mostram que cumprir as metas do Acordo de Paris, ou seja, manter o aumento da temperatura da Terra em 1,5°C, face aos níveis pré-industriais, não é uma preocupação para estas empresas. A sua principal preocupação é parecerem preocupadas. E continuarem a faturar.

“Os estudos mostram que existem planos para produzir 120% mais combustíveis fósseis até 2030 do que o necessário para nos mantermos abaixo deste limiar. Não podemos simplesmente queimar todo o stock mundial de carvão, petróleo e gás e esperar evitar uma catástrofe climática”, refere a ClientEarth.

A Aramco é detida pelo Governo da Arábia Saudita e considerada a empresa de petróleo e gás que mais emite no mundo inteiro. É responsável, desde 1965, por mais de 4% de todas as emissões globais. Detém reservas fósseis, até pelo menos 2077, que ultrapassam as reservas combinadas da Exxon, Chevron, Shell, BP e Total. Em 2020, anunciou que iria aumentar a sua produção de 12 para 13 milhões de barris de petróleo por dia. Em 2023, na sequência do aumento dos preços da gasolina após a pandemia, a companhia anunciou lucros recordes de 161 biliões de dólares (154,5 biliões de euros), valores superiores aos resultados publicados pela ExxonMobil e pela Shell (55,7 e 39,9 biliões de dólares de lucro - €53,5 biliões e €38,3 biliões - respetivamente). A Aramco recusa revelar as suas emissões GEE. Também não divulga os montantes que investe em inovação e em tecnologias de baixo carbono.

A Coligação para os impostos solidários, que nasceu da iniciativa conjunta dos Barbados, França e Quénia, reúne hoje infelizmente apenas 17 Estados! Seria bom que Portugal, além da conversão da dívida em apoio às iniciativas de mitigação e adaptação dos países de expressão portuguesa, seguisse o exemplo francês e integrasse esta frente, contribuindo com a sua quota-parte para o esforço global de ajuda aos países mais vulneráveis. O Governo de Montenegro prometeu dar para esse fim 11 milhões de euros anuais até ao final da década. Uma quantia manifestamente insuficiente. Tal como o ambíguo X inscrito como valor na proposta inicial de texto final apresentado pela presidência azeri. Fonte

terça-feira, 29 de outubro de 2024

Novo relatório da Oxfam alerta que cinquenta dos bilionários mais ricos do mundo produzem mais poluição por carbono em 90 minutos do que a pessoa média em toda a sua vida



BREAKING: Fifty of the world’s richest billionaires produce more carbon pollution in 90 minutes than the average person does in their entire
lifetime. Oxfam’s new report exposes the luxury-driven lifestyles of the super-rich as a key driver of the climate crisis. Private jets, superyachts, and fossil fuel investments are pushing us closer to a global catastrophe. This isn’t just about lavish living—it’s about the future of our planet.

terça-feira, 3 de setembro de 2024

Captura de gases libertados por inaladores exige plantar 1,3 milhões de árvores em Portugal


Um artigo hoje divulgado estima que seria necessário plantar anualmente em Portugal mais de 1,3 milhões de árvores para capturar os gases libertados na atmosfera pelos inaladores pressurizados, usados no tratamento de doenças respiratórias como a asma.

O artigo, com coassinatura do Conselho Português para a Saúde e Ambiente, é divulgado na Acta Médica Portuguesa, publicação da Ordem dos Médicos, e refere que "com o aumento do volume de vendas dos inaladores pressurizados tradicionais", que utilizam gases fluorados com efeito de estufa, responsáveis pelo aquecimento global, "aumenta também o seu impacto ambiental".

Segundo o artigo, que tem como referência dados de 2022, a pegada carbónica dos inaladores pressurizados tradicionais prescritos em Portugal foi estimada em 30.236 toneladas de dióxido de carbono (CO2), o equivalente a cerca de 0,84% das emissões totais do setor da saúde no país e a aproximadamente 95% do total de emissões dos inaladores.

"O impacto carbónico destes dispositivos equivale à pegada de 150 viagens transatlânticas entre Londres e Nova Iorque, e seria necessário plantar anualmente mais de 1,3 milhões de árvores para capturar estes gases da atmosfera", salienta o texto.

Por definição, a pegada carbónica corresponde ao volume total de gases com efeito estufa gerado pelas atividades económicas e quotidianas, sendo expressa em toneladas de CO2 emitidas para a atmosfera.

No artigo, o Conselho Português para a Saúde e Ambiente e várias sociedades médicas listam uma série de recomendações para reduzir o impacto ambiental dos inaladores em Portugal, incluindo a prescrição de inaladores de pó seco, a aplicação de estratégias de incentivo à devolução de dispositivos usados nas farmácias e ao seu reaproveitamento e a introdução nas plataformas de prescrição de um mecanismo de alerta sobre a pegada ecológica de cada inalador, com um sistema de cores.
A lista de recomendações engloba também a promoção da literacia ecológica de doentes e público em geral, a divulgação de boas práticas de sustentabilidade ambiental na saúde e a aplicação de critérios de emissões líquidas de gases com efeito de estufa tendencialmente nulas nas compras, contratações e adjudicações públicas.

Um inquérito realizado para este artigo a 348 médicos revelou que mais de 70% não têm em conta os aspetos ambientais no ato da prescrição de inaladores, embora metade assuma conhecer a pegada ambiental dos dispositivos.

O texto sublinha, a este propósito, que "os profissionais de saúde têm o dever ético de participar ativamente na luta contra as alterações climáticas e a degradação ambiental, e pela redução da pegada ecológica do setor da saúde, não só como cuidadores, mas também como 'defensores' dos doentes".

O artigo teve o contributo da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica, da Sociedade Portuguesa de Pediatria, da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar e da associação de doentes Respira.

Criado em 2022, o Conselho Português para a Saúde e Ambiente é uma organização não-governamental que visa, nomeadamente, "defender a necessidade do setor da saúde de reduzir a sua pegada ecológica".

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Lavagem verde da multinacional Dentsu


A empresa de publicidade Dentsu mostrou uma solução para limpar o ar. Para tal instalou um mural na Euston Road, um dos pontos mais poluídos de Londres. O mural mostrava uma mulher cor-de-rosa e roxa a apanhar os fumos numa rede. O molho secreto: uma tinta supostamente capaz de converter os poluentes do ar em "sais inofensivos". Acontece que, nos últimos cinco anos, a holding multinacional japonesa e as suas subsidiárias, celebraram pelo menos 27 contratos de relações públicas, publicidade e campanhas de marketing para 25 produtores de combustíveis fósseis diferentes, incluindo a Shell, a ExxonMobil e a BP. Em maio, os ativistas da Clean Creatives atribuíram à Dentsu um prémio satírico de "Excelência em Ficção Científica" pelo seu trabalho de promoção de projetos controversos de captura de carbono em nome da Chevron. Fonte.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Calor de até 40 graus coloca mais de 73 milhões de pessoas em alerta nos EUA


Várias cidades do nordeste dos Estados Unidos foram colocadas esta quarta-feira em alerta devido à onda de calor que, segundo as previsões oficiais, será longa, com temperaturas perto dos 40 graus e afetando mais de 73 milhões de pessoas.

Na sua última atualização, citada pela agência espanhola de notícias, a Efe, o Serviço Nacional de Meteorologia (NWS) afirmou que "são prováveis recordes diários generalizados de calor durante o dia, com a possibilidade de alguns recordes mensais".

O NWS advertiu também que "a chegada antecipada do calor, a sua persistência durante vários dias e os ventos fracos aumentarão o perigo para além do que os valores exatos das temperatura sugerem", e acrescentou que as temperaturas máximas deverão situar-se entre os 37,8 e os 40,5 graus Celsius.

As regiões mais afetadas pela onda de calor a partir de hoje e durante os próximos dias serão os Grandes Lagos, o vale do rio Ohio e a Nova Inglaterra.

A cidade de Chicago está no nível 4 de risco, o mais elevado, e considerado extremo, segundo o NWS.

Outras cidades na mesma categoria são Cincinnati ou Toledo, em Ohio; Grand Rapids, em Michigan; Louisville, em Kentucky; ou Cedar Rapids, em Iowa.

Nos próximos dias, outras grandes cidades como Washington, Detroit (Michigan), Cleveland ou Columbus (Ohio), Pittsburgh (Pensilvânia), Indianapolis (Indiana) ou Nashville (Tennessee) também atingirão esse nível.

A governadora de Nova Iorque, Kathy Hochul, aconselhou as pessoas a "manterem-se hidratadas, evitarem atividades físicas excessivas ao ar livre e, se necessário, visitarem um abrigo meteorológico próximo".
Prevê-se que a vaga de calor tenha efeitos não só na saúde pública, mas também na produção industrial e até nas infraestruturas.

O NWS advertiu que "este nível de calor extremo invulgar e/ou prolongado, com pouco ou nenhum alívio durante a noite, afeta qualquer pessoa sem arrefecimento eficaz e/ou hidratação adequada".

quinta-feira, 13 de junho de 2024

Invasão russa lançou mais 175 milhões de toneladas de CO2 para atmosfera


Bruxelas, 13 jun 2024 (Lusa) - Dois anos de conflito na Ucrânia devido à invasão pela Rússia lançaram mais 175 milhões de toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera, o equivalente às emissões anuais de 90 milhões de automóveis, segundo um relatório divulgado hoje.

De acordo com o relatório, divulgado por uma iniciativa para a contabilização das emissões de gases com efeito estufa em guerra, com o patrocínio do Ministério da Proteção Ambiental e Recursos Naturais da Ucrânia, para a emissão adicional de 175 milhões de toneladas de dióxido de carbono contribuíram “milhares de milhões de litros de combustível utilizados pelos veículos militares, aproximadamente um milhão de hectares de terrenos e florestas incendiados, centenas de estruturas de petróleo e gás destruídas e grandes quantidades de ferro e betão utilizados para fortificar as linhas defensivas ao longo de centenas de quilómetros".

O documento dá conta de que de que estas emissões, comparáveis às produzidas por 90 milhões de automóveis em apenas um ano, aumentam em 32 mil milhões de euros as reparações que estão a ser imputadas a Moscovo para reconstruir a Ucrânia depois da guerra.

Os dados foram recolhidos em grande parte com recurso a informações de satélite do Governo da Ucrânia e outros publicamente disponíveis, já que a verificação no terreno está dificultada e em alguns casos impossibilitada pelas operações militares.

“As imagens de satélite demonstram que houve pelo menos 27.000 incêndios” desde o início da invasão russa e 150 milhões de metros cúbicos de gás desapareceram por causa da ofensiva russa no território ucraniano.

O relatório também dá conta das consequências de desviar voos que atravessavam o território ucraniano e russo desde 24 de fevereiro de 2022, que terão contribuído para mais horas de voo e mais consumo de combustível.

Os investigadores que participaram no estudo alertam também que o aumento do investimento em defesa acarreta consequências ambientais, assim como o transporte de armamento.

domingo, 2 de junho de 2024

Florestas marinhas transportam cerca de 56 milhões de toneladas de carbono para sumidouros no oceano profundo


Um estudo realizado por uma equipa internacional de investigadores, que integrou investigadores do Centro de Investigação Marinha e Ambiental, Laboratório Associado (CIMAR-LA), revelou que as florestas marinhas de algas transportam cerca de 56 milhões de toneladas de carbono para sumidouros no oceano profundo, contribuindo significativamente para regular a quantidade de CO2 na atmosfera e, consequentemente, o clima na Terra.

Segundo a mesma fonte, esta descoberta, agora publicada na prestigiada revista Nature Geoscience, “abre novas oportunidades para a mitigação das mudanças climáticas através da preservação e restauração das florestas marinhas de algas”.

As florestas de algas, compostas principalmente por algas castanhas gigantes como as famosas kelp, são o ecossistema costeiro vegetado “mais extenso e produtivo do planeta”. Estas florestas podem crescer tão rapidamente quanto as florestas terrestres, sendo, portanto, “altamente eficientes na captura e armazenamento de carbono”.

O estudo internacional “Carbon export from seaweed forests to deep ocean sinks” que foi liderado por Karen Filbee-Dexter do Instituto Norueguês de Investigação Marinha e da Universidade da Austrália Ocidental, revela que, todos os anos, as florestas marinhas exportam cerca de 15% do seu carbono para as águas profundas do oceano, onde este pode permanecer retido durante centenas ou milhares de anos. Estas estimativas foram efetuadas com base em modelos oceânicos globais de última geração, que permitiram rastrear o destino do carbono das algas marinhas desde a costa até ao oceano profundo.

As florestas marinhas e o carbono azul
Historicamente, as florestas de algas marinhas foram excluídas do “carbono azul”, dado a incertezas sobre a sua capacidade de remover efetivamente carbono a longo prazo. Este estudo “fecha esta lacuna de conhecimento e abre novas oportunidades para a mitigação das alterações climáticas em zonas polares e temperadas, onde as opções de remoção de carbono por ecossistemas costeiros são atualmente limitadas”.

Jorge Assis e Isabel Sousa Pinto, investigadores do CIMAR – LA e co-autores deste estudo de caracter internacional, indicam que estes resultados “são de grande importância para a conservação marinha, uma vez que a perda ou a degradação destas populações de florestas marinhas leva à interrupção da absorção e transporte de carbono atmosférico para o mar profundo, onde fica potencialmente retido durante séculos ou mesmo milénios”.

O estudo sublinha a necessidade urgente de proteger, gerir e restaurar as florestas marinhas de algas, que estão atualmente a ser perdidas em muitas regiões do mundo devido a uma variedade de pressões, que incluem as alterações climáticas, tipicamente traduzidas em ondas de calor extremo, mas também a poluição e a pesca.

Isabel Sousa Pinto, investigadora do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto (CIIMAR-UP) e do CIMAR-LA, reforça a importância da conservação e restauro das florestas de algas, “não só pelo seu papel na remoção de carbono, mas especialmente pelo papel que têm de berçário e refúgio para muitas espécies de animais, muitas delas importantes para a pesca”. Jorge Assis investigador do Centro de Ciências do Mar do Algarve (CCMAR) e do CIMAR-LA, acrescenta que “as florestas marinhas são um recurso para combater as mudanças climáticas e para preservar a biodiversidade nos nossos oceanos, devendo ser uma prioridade para o nosso país”.

terça-feira, 14 de maio de 2024

Cientistas descobrem a chave para a criação de plantas “devoradoras de carbono” com grande apetite

As cianobactérias apresentam diversos formatos e podem realizar fotossíntese


A descoberta do funcionamento de uma enzima crítica “escondida na planta da natureza” lança uma nova luz sobre a forma como as células controlam os processos-chave na fixação do carbono, um processo fundamental para a vida na Terra.

A descoberta, feita por cientistas da Universidade Nacional Australiana (ANU) e da Universidade de Newcastle (UoN), poderá ajudar a conceber culturas resistentes ao clima, capazes de sugar o dióxido de carbono da atmosfera de forma mais eficiente, ajudando a produzir mais alimentos no processo.

A investigação, publicada na revista Science Advances, demonstra uma função anteriormente desconhecida de uma enzima chamada anidrase carboxissomal carbónica (CsoSCA), que se encontra nas cianobactérias – também chamadas algas azuis-verdes – para maximizar a capacidade dos microrganismos de extrair dióxido de carbono da atmosfera.

As cianobactérias são vulgarmente conhecidas pelas suas florescências tóxicas em lagos e rios. Mas estes pequenos insetos azul-esverdeados estão espalhados por todo o mundo, vivendo também nos oceanos.

Embora possam constituir um perigo para o ambiente, os investigadores descrevem-nas como “pequenos super-heróis do carbono”. Através do processo de fotossíntese, desempenham um papel importante na captura de cerca de 12% do dióxido de carbono do mundo todos os anos.

O primeiro autor e investigador de doutoramento Sacha Pulsford, da ANU, descreve a eficiência notável destes microrganismos na captura de carbono.

“Ao contrário das plantas, as cianobactérias têm um sistema chamado mecanismo de concentração de dióxido de carbono (CCM), que lhes permite fixar o carbono da atmosfera e transformá-lo em açúcares a um ritmo significativamente mais rápido do que as plantas normais e as espécies cultivadas”, diz Pulsford.

No centro do CCM estão grandes compartimentos proteicos chamados carboxissomas. Estas estruturas são responsáveis pelo sequestro de dióxido de carbono, abrigando a CsoSCA e outra enzima chamada Rubisco.

As enzimas CsoSCA e Rubisco trabalham em uníssono, demonstrando a natureza altamente eficiente da CCM. A CsoSCA trabalha para criar uma elevada concentração local de dióxido de carbono no interior do carboxissoma, que a Rubisco pode depois engolir e transformar em açúcares para a célula comer.

O autor principal, Ben Long, da UoN, afirmou: “Até agora, os cientistas não tinham a certeza de como a enzima CsoSCA é controlada. O nosso estudo centrou-se em desvendar este mistério, particularmente num grupo importante de cianobactérias que se encontram em todo o mundo. O que encontrámos foi completamente inesperado”.

“A enzima CsoSCA dança ao som de uma outra molécula chamada RuBP, que a ativa como um interrutor”, acrescentou.

“Pense na fotossíntese como se estivesse a fazer uma sanduíche. O dióxido de carbono do ar é o recheio, mas uma célula fotossintética precisa de fornecer o pão. Essa é a RuBP”, revela, sublinhando que, “tal como é necessário pão para fazer uma sandes, a taxa de transformação do dióxido de carbono em açúcar depende da rapidez com que a RuBP é fornecida”.

O autor explica ainda que “a rapidez com que a enzima CsoSCA fornece dióxido de carbono à Rubisco depende da quantidade de RuBP presente. Quando há suficiente, a enzima é ativada. Mas se a célula ficar sem RuBP, a enzima desliga-se, tornando o sistema altamente sintonizado e eficiente”.

“Surpreendentemente, a enzima CsoSCA tem estado sempre incorporada no projeto da natureza, à espera de ser descoberta”, acrescenta.

Os cientistas afirmam que a engenharia de culturas mais eficientes na captura e utilização de dióxido de carbono daria um enorme impulso à indústria agrícola, melhorando consideravelmente o rendimento das culturas e reduzindo a procura de fertilizantes azotados e de sistemas de irrigação.

Asseguraria também que os sistemas alimentares mundiais fossem mais resistentes às alterações climáticas.

Pulsford afirmou: “Compreender como funciona a CCM não só enriquece o nosso conhecimento dos processos naturais fundamentais para a biogeoquímica da Terra, como também nos pode orientar na criação de soluções sustentáveis para alguns dos maiores desafios ambientais que o mundo enfrenta”.