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domingo, 27 de setembro de 2026

Por que Portugal é mais seguro que Espanha no Global Peace Index?


A diferença de posicionamento entre Portugal, em sexto lugar no ranking europeu e sétimo a nível mundial, e Espanha, em décimo nono lugar no ranking europeu e vigésimo quinto a nível mundial, no Global Peace Index deve-se principalmente à forma como os vinte e três indicadores do índice são calculados e ponderados. Embora ambos os países partilhem elevados padrões de segurança e qualidade de vida na Europa do Sul, Portugal supera Espanha no índice por três fatores estruturais.

O primeiro fator reside na instabilidade e tensão política interna. O Global Peace Index avalia fortemente a coesão e a estabilidade política de cada nação. Espanha perde pontos devido a tensões regionais históricas, como os movimentos separatistas na Catalunha e no País Basco, além de um ambiente de maior polarização partidária e manifestações políticas de grande dimensão. Em contrapartida, Portugal mantém indicadores de estabilidade política interna muito elevados, com ausência de movimentos separatistas e um clima de paz social contínuo.

O segundo fator prende-se com a militarização e os gastos com defesa. Sendo uma das maiores economias da União Europeia e um membro com capacidades militares significativas, Espanha apresenta gastos absolutos mais elevados em defesa, um maior volume de forças armadas e exportações de armamento e equipamento militar superiores às de Portugal. Já Portugal regista um perfil militar significativamente mais reduzido em termos absolutos e de exportação de equipamento de defesa, o que lhe permite pontuar substancialmente melhor nos indicadores do domínio de militarização do índice.

Por fim, o terceiro fator envolve a criminalidade percebida e os fatores de segurança societal. Apesar de Espanha ser um país muito seguro para o turismo e para o quotidiano, as suas cidades de grande dimensão registam taxas absolutas mais elevadas de furtos e pequenas infrações em pontos turísticos, além de uma perceção ligeiramente superior de risco em áreas urbanas de grande densidade. Por outro lado, Portugal apresenta taxas baixíssimas de crimes violentos, uma legislação sobre armas bastante rigorosa e níveis muito reduzidos de perceção de insegurança por parte da população no dia a dia.

A ausência da Noruega e da Suécia no Top 20 europeu explica-se pelos critérios específicos do Global Peace Index (GPI), um índice que mede o nível de paz global através de métricas amplas e não apenas com base na criminalidade do dia a dia.

No caso da Suécia, a queda no ranking deve-se ao crescimento da violência associada a gangues organizados, com um aumento notório de tiroteios e explosões, o que elevou a perceção de insegurança e o impacto do mercado ilegal de armas.

Já a Noruega, apesar de manter níveis altíssimos de segurança no quotidiano e taxas residuais de crimes violentos, acaba por ser penalizada no pilar da militarização. O país regista um volume considerável de exportação de material militar por habitante e assume despesas significativas em defesa e missões internacionais, fatores que influenciam negativamente a sua pontuação final no índice.

Fontes


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A próxima crise financeira global? O alerta do FMI sobre a dívida e as lições de 2008

Vamos deixar isto escrito agora, porque depois da próxima crise não faltarão especialistas a explicar, com a segurança que só o passado permite, por que razão ninguém poderia tê-la previsto: há sinais cada vez mais sérios de que a próxima grande crise financeira está a formar-se. Não sabemos quando chega, nem onde começa, e quem apresentar uma data está provavelmente a vender previsões ao quilo. Mas há uma diferença entre adivinhar e olhar para aquilo que está diante de nós. E aquilo que está diante de nós começa a ficar pouco recomendável.

A dívida pública mundial chegou a quase 94% do PIB em 2025 e o FMI prevê no Fiscal Monitor que atinja 100% já em 2029. O problema, porém, não é apenas haver muita dívida. Os Estados vivem há décadas a refinanciá-la: quando uma obrigação vence, emitem outra e seguem caminho. Durante os anos de juros próximos de zero, este mecanismo era extraordinariamente confortável. Agora deixou de ser. Em 2026, grande parte do dinheiro que os governos da OCDE vão buscar aos mercados destina-se simplesmente a refinanciar dívida já existente, como detalha a OCDE no seu Sovereign Borrowing Outlook. E estão a fazê-lo a taxas muito superiores às que pagavam quando boa parte dessa dívida foi emitida. É aqui que a brincadeira muda de natureza.

Nos Estados Unidos, a taxa das obrigações a 10 anos ultrapassou recentemente os 4,75% e a de 30 anos chegou aos 5,327%, o nível mais elevado desde 2007, segundo dados de mercado recolhidos pela U.S. Department of the Treasury. No Reino Unido, a dívida a dez anos chegou este ano aos 5,13%, máximo desde 2008. No Japão, onde durante uma geração praticamente se esqueceu que a dívida pública pagava juros, a taxa a dez anos ultrapassou os 3% pela primeira vez desde 1996, conforme registado pelo
Bank of Japan. Alemanha e França também estão a assistir a fortes subidas das taxas de longo prazo. Não estamos a falar da Grécia em 2011 ou de um qualquer país periférico a quem os mercados resolveram fechar a torneira. Estamos a falar dos mercados de dívida das maiores economias do mundo.

E isto interessa muito mais do que parece. Se um Estado tinha 100 mil milhões de euros de dívida financiada a 1% e passa progressivamente a refinanciá-la a 4% ou 5%, não precisa de pedir mais dinheiro para começar a ter um problema. Basta substituir dívida barata por dívida cara. A factura dos juros cresce, ocupa uma parcela maior das receitas e começa a disputar dinheiro com tudo o resto: saúde, educação, pensões, investimento público. É nesta altura que regressam palavras como “consolidação”, “ajustamento” e “responsabilidade”, geralmente pronunciadas por pessoas que nunca são objecto de nenhuma das três.

E há uma parte essencial desta equação que torna tudo isto bastante menos confortável: estas montanhas de dívida não estão a ser suportadas por economias a crescer 4% ou 5% ao ano. Estão a ser carregadas por algumas das maiores economias do mundo com crescimentos débeis ou praticamente estagnadas. O
Banco Mundial prevê no Global Economic Prospects apenas 2,5% de crescimento mundial em 2026. Na zona euro, o FMI aponta no World Economic Outlook para apenas 0,9%. Isto não é um pormenor: uma economia que cresce depressa consegue suportar uma dívida elevada com muito mais facilidade porque as receitas, os rendimentos e a própria base económica que sustenta essa dívida também crescem. Quando a economia quase não cresce e o Estado começa simultaneamente a refinanciar dívida a 4% ou 5%, o custo da dívida pode crescer muito mais depressa do que a economia que terá de a pagar. A partir daí, as soluções começam a ser aquelas velhas conhecidas que costumam aparecer com nomes tecnicamente tranquilizadores: mais impostos, menos despesa, inflação ou mais dívida.

E o mercado não está a pedir apenas dinheiro aos Estados. Governos e empresas deverão emitir este ano o equivalente a cerca de 25 biliões de euros em dívida. Ao mesmo tempo, a corrida à inteligência artificial está a exigir quantidades colossais de capital e algumas das maiores empresas tecnológicas começaram a financiar parte desse investimento através da emissão de obrigações. Há, portanto, cada vez mais dívida a disputar o mesmo dinheiro, justamente numa altura em que os investidores começaram a exigir melhor remuneração para o emprestar. A OCDE calcula que a dívida soberana em obrigações dos seus membros já atingiu o equivalente a cerca de 53 biliões de euros e que o peso da dívida dos governos centrais deverá chegar este ano a 85% do PIB, 39 pontos percentuais acima do nível de 2007.

Do outro lado temos mercados financeiros extraordinariamente valorizados. O estudo Global Balance Sheet, do McKinsey Global Institute, mostra que a riqueza das famílias aumentou o equivalente a cerca de 35 biliões de euros em 2025, atingindo aproximadamente 492 biliões de euros, mas apenas cerca de 20% desse aumento resultou de novo investimento líquido em activos reais. A maior parte veio da valorização dos activos e de outros ganhos financeiros. Não quer dizer que a riqueza seja imaginária. Quer dizer que uma parte enorme dela depende de casas, acções e outros activos continuarem a valer aquilo que os mercados decidiram que valem.

Mas há uma diferença importante em relação a 2008. Depois daquela crise, os bancos foram obrigados a reforçar capital, liquidez e financiamento mais estável. O risco, porém, não desapareceu por delicadeza. Uma parte considerável mudou simplesmente de sítio. Fundos de investimento, hedge funds, crédito privado e outros intermediários financeiros não bancários representam hoje o equivalente a cerca de 222 biliões de euros, 51% de todos os activos financeiros mundiais, e este sector cresceu ao dobro do ritmo da banca tradicional. O próprio Financial Stability Board (FSB) reconhece no seu Global Monitoring Report limitações sérias nos dados disponíveis sobre áreas como o crédito privado. E isto não significa que bancos e restante sistema financeiro vivam agora em apartamentos separados e tenham deixado de se falar. Pelo contrário. Os bancos financiam estes fundos, concedem-lhes linhas de crédito, fazem operações de repo, negoceiam derivados, fornecem alavancagem e serviços de margem e recebem deles financiamento. O Banco Central Europeu (BCE) no Financial Stability Review e o Comité de Basileia têm vindo precisamente a alertar para estas ligações e para a possibilidade de um choque nos mercados obrigar fundos alavancados a desfazer posições rapidamente, provocando vendas forçadas e transmitindo novamente as perdas à banca. O próprio BCE admite que existem falhas de informação que limitam a capacidade de perceber todas estas exposições.

É esta combinação que merece atenção: Estados muito mais endividados do que estavam antes de 2008, dívida antiga a ser refinanciada a juros bastante mais altos, necessidades recorde de financiamento, mercados financeiros muito valorizados e um sistema financeiro não bancário gigantesco, alavancado, profundamente ligado à banca e em partes importantes bastante menos transparente.

Separadamente, nenhuma destas coisas provoca necessariamente uma crise. O problema começa quando acontecem ao mesmo tempo e aparece um choque que obriga alguém a vender. Foi assim que funcionaram muitas das anteriores. Primeiro existe liquidez, crédito e valorização. Depois os preços sobem durante tempo suficiente para que a subida passe a ser considerada normal. A seguir vem a alavancagem, porque ganhar dinheiro com dinheiro emprestado parece uma ideia extraordinária enquanto os activos sobem. Finalmente aparece qualquer coisa que ninguém tinha colocado no modelo, os preços caem, alguém precisa de liquidez, começam as vendas forçadas e descobre-se que o sistema era muito mais interligado do que parecia.

Há ainda uma razão adicional para levar a próxima crise particularmente a sério. Em 2008, quando o sistema financeiro começou a cair, foram os Estados que apareceram para o segurar. Garantiram bancos, injectaram capital, aumentaram despesa, assumiram riscos privados e deixaram os bancos centrais baixar os juros para níveis próximos de zero. Na próxima grande crise, muitos desses Estados entrarão em campo já carregados com dívidas muito superiores às de 2008 e a pagar bastante mais para as financiar. A capacidade de salvar novamente o sistema sem apresentar depois a factura à economia real será, por isso, bastante menos confortável. O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) analisa no seu Annual Economic Report precisamente este paradoxo: os bancos estão hoje mais capitalizados e líquidos do que antes da grande crise financeira, mas as ligações entretanto criadas com o sector não bancário abriram novos canais indirectos através dos quais o risco soberano e financeiro pode regressar aos bancos. Em algumas economias, as exposições dos bancos à própria dívida soberana continuam também enormes relativamente ao seu capital.

É por isso que há razões para recear que a próxima grande crise possa ser mais difícil de conter do que a de 2008. Não apenas porque existe mais dívida, mas porque o sistema que terá de absorver o choque é maior, mais interligado e tem uma parcela muito superior dos seus activos fora da banca tradicional. Os fundos de investimento, por exemplo, passaram do equivalente a cerca de 18 biliões de euros em activos em 2008 para aproximadamente 45 biliões de euros em 2023. Mudámos algumas regras depois da última crise, reforçámos os bancos e deslocámos uma quantidade considerável de risco para outros lugares. O risco teve a gentileza de acompanhar a mudança.

Há anos que vamos escrevendo sobre isto. Não porque saibamos prever o futuro, mas porque ainda nos lembramos do passado. E se há uma coisa que a História financeira ensina é que as crises nunca parecem iminentes enquanto os mercados estão a subir. Quando finalmente parecem óbvias, já começaram.

Países europeus têm retirado ouro dos Estados Unidos. A Alemanha, que detém a segunda maior reserva de ouro do mundo, concluiu uma grande repatriação parcial em 2017 (tendo trazido ouro de Nova Iorque e Paris para Frankfurt), mas ainda mantém cerca de 37% (mais de 1.200 toneladas) nos cofres da Reserva Federal em Nova Iorque.  Embora existam debates políticos e apelos de economistas para retirar o restante devido a tensões transatlânticas e imprevisibilidade política, o governo alemão não avançou com uma retirada total recente.

A França concluiu a repatriação total das suas reservas que ainda estavam guardadas no estrangeiro. O banco central francês (Banque de France) finalizou a substituição e transferência das últimas 129 toneladas de ouro que mantinha nos cofres da Reserva Federal de Nova Iorque. Com este movimento estratégico de arbitragem e conformidade regulatória, a totalidade das cerca de 2437 toneladas de ouro que compõem o tesouro soberano francês encontra-se agora centralizada a cem metros de profundidade, no cofre subterrâneo conhecido como La Souterraine, localizado na sede do banco em Paris. A evolução histórica detalhada e os contornos políticos destas movimentações podem ser consultados no artigo sobre a Repatriação de Ouro na Wikipédia. 

Por sua vez, a Itália adota um modelo de custódia mista e mantém o seu stock intocável há décadas, resistindo a pressões de venda mesmo em períodos de crise. O país possui a terceira maior reserva mundial, com cerca de 2452 toneladas de ouro. Deste total, aproximadamente metade (cerca de 1100 toneladas) está guardada localmente nos cofres fortificados do Palazzo Koch, a sede institucional do Banca d'Italia em Roma. A outra metade da reserva italiana permanece dispersa no estrangeiro por razões logísticas e de liquidez de mercado, dividida maioritariamente entre a Reserva Federal de Nova Iorque, o Banco de Inglaterra em Londres e o próprio Bundesbank em Frankfurt. Mais pormenores sobre o enquadramento económico destas reservas estão disponíveis nas estatísticas atualizadas de mercado da Trading Economics. 

Finalmente, Portugal destaca-se internacionalmente pela elevada proporção de ouro face ao total das suas reservas financeiras globais. O país detém 383 toneladas de ouro e posiciona-se no topo dos países com maior quantidade de metal precioso por habitante. A gestão da custódia do ouro português pelo Banco de Portugal assenta historicamente numa forte componente externa para facilitar operações financeiras internacionais, embora uma parte relevante continue salvaguardada em território nacional, dividida entre os cofres da sede em Lisboa e o cofre-forte do Complexo do Carregado.

No dia 2 deste mês os Países Baixos transferiram 86 toneladas de ouro dos EUA e Canadá para o Reino Unido

Por isso deixamos o aviso agora. As dívidas são maiores, os custos de financiamento estão a aumentar, os mercados estão extraordinariamente valorizados e uma parte crescente do risco financeiro encontra-se em estruturas sobre as quais os próprios reguladores reconhecem não possuir toda a informação necessária. Não sabemos qual será o detonador nem quando alguém acenderá o fósforo. Mas já existe combustível suficiente para que não seja particularmente sensato discutir se há perigo de incêndio.

Mas não se preocupem demasiado. Enquanto isto se passa, haverá certamente um dérbi, uma polémica nas redes sociais, a final de um reality show ou qualquer assunto suficientemente importante para ocupar três dias de televisão.

Quando chegar a factura, então falamos de economia. Considerem-se avisados.
Baseado no texto de Rise Up Portugal, com alguns ajustes.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Dinheiro, gastos e benesses do Estado. Os segredos da vida financeira de Salazar


Há mitos que sobrevivem porque são confortáveis. O de D. Sebastião sobrevive porque alimenta a esperança. O de Robin dos Bosques porque consola os desfavorecidos. E o de António de Oliveira Salazar porque oferece aos seus admiradores uma espécie de superioridade moral retrospetiva: sim, foi ditador, dizem alguns, mas ao menos não roubou; sim, governou durante décadas sem eleições livres, mas morreu pobre; sim, concentrou um poder sem paralelo na história portuguesa contemporânea, mas nunca se aproveitou dele para enriquecer.

O problema dos mitos é a sua irritante tendência para se chocarem com os factos.

Um extenso trabalho de investigação do jornalista Marco Alves publicado na revista Sábado (n.º 1160, de 22 a 28 de julho de 2026) veio reunir um conjunto impressionante de informações sobre a situação patrimonial do antigo presidente do Conselho. E aquilo que emerge não é a figura de um milionário extravagante nem a de um cleptocrata à escala de outros ditadores europeus. Mas também não é a imagem do professor pobre, vestido de modéstia franciscana, que alguns continuam a apresentar.

Marco Alves já tinha, em 2023, publicado o livro Salazar Confidencial. Durante quatro décadas, António de Oliveira Salazar recebeu milhares de cartas de amigos, familiares, ministros, padres e figuras ilustres da elite do Estado Novo. Mendigavam ao presidente do Conselho favores, ajudas e cunhas para obterem um cargo, uma promoção, uma casa em Lisboa ou uma palavra de Salazar para intervir em todo o tipo de problemas, incluindo em processos judiciais e em casos de crime, violência e adultério envolvendo figuras notáveis da sociedade.

Importa recordar que essa imagem não foi construída apenas pelos admiradores que lhe sobreviveram. Foi também alimentada pelo próprio. Salazar ajudou a moldar cuidadosamente a perceção pública de uma vida austera e quase desapegada dos bens materiais. Ficou célebre a frase segundo a qual devia “à Providência a graça de ser pobre”. Décadas depois, essa frase permanece viva na memória coletiva e continua a funcionar como uma espécie de certificado moral póstumo.

A verdade, porém, como tantas vezes acontece, é mais incómoda.

Salazar cultivou durante toda a vida uma imagem de austeridade. Essa imagem tinha fundamento. Gostava pouco de ostentação, não se deixou seduzir pelo luxo exuberante e manteve hábitos relativamente sóbrios. Contudo, austeridade não é sinónimo de pobreza. Uma pessoa pode ser frugal sem ser pobre. E uma pessoa pode viver de forma simples sem deixar de acumular património.

Quando morreu, em 1970, Salazar possuía contas bancárias, propriedades rurais, terrenos, casas, objetos de prata, ouro, livros, manuscritos, coleções e diversos bens cujo valor, atualizado para os dias de hoje, atingiria montantes muito significativos. Só os depósitos bancários conhecidos correspondiam a cerca de 113 mil euros em valores atuais. A isso somavam-se casas, quintas, vinhas, olivais, pinhais e terrenos cujo valor acumulado, nos preços do mercado contemporâneo, atingiria facilmente valores de vários milhões de euros.

Nada disto faz dele um magnata. Mas também não permite continuar a repetir, sem qualificação, que "morreu pobre".

Aliás, a reportagem desmonta um dos aspetos mais curiosos da narrativa salazarista. O homem que passava a vida a falar de contenção financeira era simultaneamente proprietário de um património rural bastante respeitável. Herdou parte dele, adquiriu outra parte e valorizou alguns desses bens ao longo do tempo. Isso não constitui qualquer crime. O problema surge quando essa realidade desaparece da história e é substituída por uma imagem quase monástica.

Há ainda outro equívoco recorrente.

Os admiradores de Salazar costumam estabelecer uma comparação implícita entre o chefe do Estado Novo e alguns governantes contemporâneos. A mensagem é simples: os políticos de hoje entram pobres e saem ricos; Salazar entrou pobre e saiu pobre.

A primeira parte da frase pode ser objeto de discussão. A segunda torna-se mais difícil de sustentar.

Segundo os elementos revelados pela investigação, o antigo governante acumulou poupanças ao longo da vida, possuía património imobiliário e conservava um espólio de valor considerável. Não estamos perante alguém dependente da caridade alheia ou reduzido à indigência. Estamos perante um homem que viveu confortavelmente durante décadas e que morreu com uma situação financeira sólida.

Há ainda um dado curioso que raramente aparece nestas discussões. Atualizado para valores de hoje, o salário de Salazar como presidente do Conselho rondaria os 8.450 euros brutos mensais, valor que não difere dramaticamente daquele que aufere um primeiro-ministro contemporâneo. À primeira vista, isto parece reforçar a narrativa da modéstia. Mas só à primeira vista. É que Salazar passou cerca de 31 anos instalado no Palacete de São Bento sem suportar uma despesa que pesa fortemente no orçamento de qualquer cidadão comum: a habitação. A comparação só é justa quando se compara o pacote completo.

A questão torna-se ainda mais interessante quando se observa a fronteira entre o dinheiro privado e os recursos públicos.

Não surgem provas de enriquecimento ilícito no sentido clássico do termo. Mas aparecem numerosos exemplos de uma realidade típica dos regimes longos: a progressiva confusão entre o Estado e o governante.

Funcionários públicos trataram de assuntos privados relacionados com propriedades suas. Membros do Governo ocuparam-se de questões pessoais. Houve intervenções administrativas relativas a casas, terrenos, obras, jardins, abastecimento de água e diversos problemas da sua esfera particular. Tudo isto era frequentemente encarado com naturalidade.

E porquê?

Porque as ditaduras tendem a produzir esse efeito. Ao fim de décadas, deixa de ser evidente onde acaba o poder do Estado e onde começa a vida privada de quem governa. O aparelho público passa gradualmente a funcionar como extensão do governante.

Nem sequer é necessário existir corrupção para que essa promiscuidade aconteça.

O mesmo se verifica nos últimos anos da sua vida. Após a queda da cadeira que o afastou do poder, o Estado suportou despesas significativas relacionadas com os seus cuidados médicos e com a sua situação pessoal. Segundo os elementos reunidos pela investigação, os encargos associados ao tratamento prolongado de Salazar ascenderiam, a valores atuais, a cerca de 1,9 milhões de euros. Além disso, foi-lhe atribuído um vencimento vitalício após deixar o exercício efetivo das funções governativas.

domingo, 21 de junho de 2026

O economista Abhijit Banerjee, Nobel da Economia, defende taxar água utilizada para IA

“O projeto da inteligência artificial gerou tanto entusiasmo, que não conseguimos pensar em todas as consequências”, disse em entrevista à agência Lusa, defendendo que “em algum ponto é preciso pensar em como taxar o gasto na IA”.

Neste sentido, considera que se deve pensar no preço da água, sendo que em alguns lugares usam muita água para a IA e até em locais muito secos, pelo que existe uma avaliação errada dos preços e “estão a aproveitar-se disso e a construir centros de dados em lugares um pouco inesperados”.

“Precisamos de uma política sobre preços para todos estes recursos que estão a utilizar”, defendeu, nomeadamente tendo em conta os impactos que esta tecnologia vai ter no mercado laboral e o que Estado vai ter de gastar em termos de compensar os trabalhadores que vão perder o trabalho.

Já existem taxas por exemplo direcionadas às emissões de gases de estufa, como a taxa de carbono, sendo que um modelo semelhante poderia ser utilizado para a água, sugeriu.

“Existem tantos recursos que estão a ser usados para IA”, que estão a provocar danos no resto do mundo, disse.

Os serviços de inteligência artificial (IA) implicam mais água do que outras aplicações, sendo que a geração de 10 a 50 respostas em texto de uma ferramenta de IA generativa requer cerca de meio litro de água, segundo um estudo da Universidade da Califórnia.

De acordo com uma nota informativa da plataforma espanhola Maldita, “os serviços de IA exigem mais água do que outras aplicações típicas de ‘data center’ (centros de dados, em português)”, sendo que a geração de imagens por ferramentas de IA implica também mais energia e, consequentemente, mais água.

Abhijit Banerjee recebeu o prémio Nobel da Economia de 2019, em conjunto com Esther Duflo e Michael Kremer. Os três economistas foram premiados pela “abordagem experimental para aliviar a pobreza global”, segundo a Real Academia de Ciências da Suécia. 

Os trabalhos conduzidos pelos laureados “introduziram uma nova abordagem para obter respostas fiáveis sobre a melhor maneira de reduzir a pobreza no mundo”, adiantou a Academia.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

IA, geopolítica e fraude marcam cibersegurança em 2026


A cibersegurança em 2026 está a evoluir num contexto marcado pela aceleração da Inteligência Artificial (IA), pelo aumento das tensões geopolíticas e por desigualdades crescentes no acesso a recursos e competências, segundo o Global Cybersecurity Outlook 2026. O relatório do Fórum Económico Mundial conclui que a colaboração continua a ser um fator determinante para reforçar a resiliência coletiva num ambiente cada vez mais fragmentado.

Uma das principais conclusões do estudo, que se baseia num inquérito global a mais de 800 líderes de cibersegurança, executivos de topo e decisores públicos de 92 países, complementado por workshops e entrevistas com especialistas do Fórum Económico Mundial, revela que a IA assume um papel central na chamada “corrida ao armamento” da cibersegurança. Cerca de 94% dos inquiridos identificam a IA como o principal motor de mudança na cibersegurança no próximo ano. Embora a tecnologia esteja a ser usada para melhorar a deteção e resposta a incidentes, 87% dos participantes consideram as vulnerabilidades associadas à IA o risco de cibersegurança com crescimento mais rápido em 2025. Em paralelo, a percentagem de organizações que avaliam a segurança das suas ferramentas de IA subiu de 37% em 2025 para 64% em 2026.

Geopolítica no centro do risco
O relatório indica que a geopolítica surge como outro fator estruturante, com 64% das organizações já a considerarem ataques motivados por fatores geopolíticos nas suas estratégias de mitigação de risco. Entre as maiores organizações, 91% ajustaram as suas estratégias de cibersegurança em resposta à volatilidade geopolítica. Apesar disso, a confiança na preparação nacional para responder a grandes incidentes continua a diminuir, com 31% dos inquiridos a manifestarem baixa confiança na capacidade dos seus países para lidar com ataques a infraestruturas críticas.

A fraude digital assume também um peso crescente, visto que cerca de 73% dos participantes afirmam que eles próprios ou alguém do seu círculo foi afetado por fraude digital em 2025. Para os CEO, este tipo de fraude tornou-se a principal preocupação, superando o ransomware, enquanto os responsáveis de segurança continuam a destacar o ransomware e os riscos na supply chain como ameaças prioritárias.

O relatório evidencia ainda um fosso persistente na resiliência entre organizações e regiões. Embora 64% das entidades indiquem cumprir os requisitos mínimos de resiliência, apenas 19% consideram ultrapassar esse patamar. A escassez de competências em cibersegurança continua a ser um dos principais fatores de desigualdade, afetando sobretudo pequenas organizações, o setor público e regiões como a América Latina, Caraíbas e África subsaariana.

Ao longo de cinco edições, o Global Cybersecurity Outlook tem documentado a crescente interligação entre cibersegurança, economia e geopolítica. A edição de 2026 reforça que a cibersegurança deixou de ser uma função exclusivamente técnica para se tornar uma prioridade estratégica e económica, com impacto direto na confiança, na inovação e na estabilidade social.

O estudo conclui que reforçar a resiliência exige uma abordagem que vá além do investimento tecnológico, assente numa governação eficaz, no desenvolvimento de competências, na partilha de informação e na cooperação entre os setores público e privado, considerados essenciais para enfrentar um cenário de ciberameaças cada vez mais complexo e global.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

18 dezembro - Dia Internacional dos Migrantes



Assinala-se hoje, dia 18 de Dezembro, o Dia Internacional dos Migrantes.

Fomos um país de emigrantes. Não podemos fingir que não sabemos o que isto significa. Nas últimas semanas Portugal indignou-se. E bem. Uma rede foi desmantelada por explorar imigrantes. Pessoas. Seres humanos. Gente que veio à procura do que tantos portugueses também procuraram durante décadas: uma vida melhor. 
Convém não termos memória curta.

Fomos um país de emigrantes. Milhões de portugueses sentiram frio em França, medo na Alemanha, solidão no Luxemburgo, saudades em Angola, no Brasil, na Suíça. Fugiam da pobreza, do regime do Estado Novo, da falta de futuro.
Não era escolha. Era sobrevivência.

Hoje o mapa mudou. Mas a dor não.

Os imigrantes que chegam a Portugal também sentem frio em Lamego, Paços de Ferreira, Anadia, Beja ou Alenquer. Também sentem medo. Também têm saudades da mãe. Também trazem a vida inteira numa mala e a esperança num contrato que muitas vezes não existe.

Ser migrante, com I ou com E, é um acto de coragem. E explorar essa coragem é uma vergonha colectiva. Este não é um tema de direita ou de esquerda.
Não é um debate de teclado fácil nem de likes rápidos.
É um teste à nossa humanidade, à nossa memória e aos nossos valores.

Se fomos emigrantes, não podemos aceitar ser exploradores.
Se exigimos dignidade lá fora, temos de garantir dignidade cá dentro.

Porque nenhum país é verdadeiramente desenvolvido enquanto fecha os olhos à desumanização dos mais frágeis.

E isto não é política. É consciência.

Os trabalhadores estrangeiros representam um importante contributo para a Segurança Social em Portugal.
Em 2023, as contribuições sociais dos imigrantes representaram mais de 2,6 mil milhões de euros.
No ano passado, em 2024, esse contributo foi de 3,6 mil milhões de euros, um valor recorde (os brasileiros representam 36,7% desse total, seguindo-se os indianos com 6,6%, os nepaleses com 4,3%, os cabo-verdianos com 3,9% e os angolanos com 3,5%).
A quantia que os imigrantes colocam nos cofres da Segurança Social é cinco vezes superior ao que lhes é pago em prestações sociais. Fonte

A mobilidade humana acompanha a história da humanidade como um caminho de superação, adaptação e procura de novas oportunidades. Num contexto global marcado pela interligação entre países e culturas, a migração continua a desempenhar um papel determinante na transformação social, económica e cultural das sociedades.

Ainda assim, muitas pessoas migrantes vivem em contextos de vulnerabilidade, enfrentando discriminação, exclusão e obstáculos no acesso a direitos fundamentais como a saúde, a habitação, a educação, a justiça e a participação cívica.

Este ano, sob o tema “A minha grande história: culturas e desenvolvimento”, somos convidados a reconhecer cada experiência migratória como parte essencial do desenvolvimento coletivo. Valorizar estas histórias é também um apelo à promoção de políticas mais equitativas, ao reforço da cooperação e à criação de respostas especializadas que assegurem proteção, dignidade e igualdade de oportunidades para todas as pessoas.

Em 2005, compreendendo que as pessoas migrantes vítimas de crime apresentam necessidades específicas que exigem um apoio especializado, a APAV criou a Unidade de Apoio à Vítima Migrante e de Discriminação (UAVMD) em Lisboa.

A partir de 2024, este serviço passou a designar-se APAV SAFE — Apoio a Vítimas Estrangeiras, de Crimes de Ódio, de Tráfico e Exploração de Pessoas, sendo concebido para responder às necessidades específicas de pessoas de nacionalidade não portuguesa, incluindo imigrantes, refugiados, requerentes de asilo, turistas ou pessoas temporariamente no país, que tenham sido vítimas de crime ou violência, independentemente da sua situação legal ou administrativa.

É ainda uma resposta especializada na intervenção com vítimas de tráfico de seres humanos, diferentes formas de exploração, crimes de ódio e discriminação, bem como práticas tradicionais nefastas, como a mutilação genital feminina, o casamento forçado ou crimes de honra.

Sediada nos Serviços de Apoio à Vítima de Lisboa, a APAV SAFE consolidou-se como unidade central de referência, assegurando apoio direto às vítimas e suporte técnico aos restantes serviços da Associação.

Ao longo de 20 anos, o trabalho desenvolvido tem contribuído para uma intervenção mais ajustada, informada e digna, reforçando o acesso das vítimas aos seus direitos e a proteção de pessoas em situação de especial vulnerabilidade.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Portugal engana-se. Diverge, empobrece e finge crescer



Nenhum país se renova enquanto continuar a expulsar os competentes, os íntegros e a promover quem vive das conveniências e das redes de interesse, escreve o economista Óscar Afonso.

⚡ECO Fast
Portugal tem registado uma frágil convergência em relação à média da União Europeia, mas enfrenta uma divergência estrutural que se agrava.
Os dados da Comissão Europeia revelam que, entre 1999 e 2024, Portugal perdeu 5,2 pontos percentuais no nível de vida relativo, contrastando com o progresso de várias economias de leste.
Sem reformas estruturais profundas, o país continuará a descer no ranking europeu, com previsões de empobrecimento relativo e emigração de talentos qualificados.

Portugal tem registado, nos últimos anos, alguma convergência de nível de vida em relação à média da União Europeia (UE) nos dados oficiais da Comissão Europeia (CE). Contudo, esse progresso revela-se muito frágil — porque assenta em fatores conjunturais que mascaram fragilidades estruturais: Programa de Recuperação e Resiliência (PRR), turismo e a vaga de imigração descontrolada, além da imagem de destino seguro para turismo e investimento face à guerra na Ucrânia — e insuficiente para compensar a trajetória de divergência desde o início do milénio (entre 1999 e 2024), o foco da análise desta crónica. A divergência é ainda maior quando se corrigem os dados para refletir números mais atualizados da população residente, refletindo a vaga de imigração recente.

O contraste torna-se particularmente evidente quando comparado com o percurso das economias de leste, que protagonizaram um notável processo de aproximação ao nível de vida europeu, ultrapassando vários países que, em 1999, se situavam claramente à sua frente, incluindo Portugal. Acresce que estes países entraram bastante mais tarde na UE, tendo por isso recebido muito menos fundos — que, ao contrário de Portugal, souberam transformar em produtividade, rendimento e progresso para a generalidade da população.

Enquanto no leste europeu os apoios comunitários foram canalizados para modernizar economias inteiras, por cá serviram demasiadas vezes — para usar uma expressão suave — para alimentar interesses instalados, reproduzir privilégios e fortalecer uma elite facilitadora. E o mais triste é que nada disto é novo: Está, infelizmente, nos nossos “genes institucionais”. É um padrão antigo e persistentemente português, amplamente documentado por Antero de Quental, Eça, Garrett, Ramalho Ortigão, Fernando Pessoa, Saramago, Sophia ou Vergílio Ferreira — todos eles descrevendo, ao longo de séculos, a mesma teia de favoritismos, patrimonialismo e captura do Estado por minorias privilegiadas.

Uns investiram para criar futuro, nós desperdiçámos para preservar um sistema. Em suma, enquanto as economias de leste aproveitaram os fundos para convergir, Portugal continua a avançar aos solavancos, preso a um modelo que favorece a esperteza oportunista em detrimento do mérito, do trabalho sério e da inteligência criadora.

Somos um país onde demasiadas portas se abrem não pelo que se sabe ou pelo que se faz, mas por quem se conhece — um padrão que os nossos maiores escritores denunciaram, com uma precisão quase profética, muito antes de existir UE. E assim, geração após geração, mantemo-nos reféns dos mesmos bloqueios estruturais, enquanto outros que começaram muito atrás já vão muito à frente.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

No Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, Francisco Louçã explica: "Para que servem os milionários?"



Um bilionário serve para jogar ao monopólio com a vida de milhares ou milhões de pessoas e com o planeta. E serve para alimentar a ganância destes em subir no ranking dos milionários.

Esta sexta-feira assinala-se o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Apesar da taxa de risco de pobreza ou exclusão social ter diminuído no país, este continua a ser um "problema estrutural", refere a EAPN Portugal.

A taxa de risco de pobreza ou exclusão social em Portugal é a mais baixa desde 2015. Ainda assim, cerca de 1,8 milhões de portugueses vivem em famílias com um rendimento mensal inferior a 632 euros, segundo um relatório da Pordata divulgado esta sexta-feira, Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza.

A mesma fonte, na qual constam dados até 2023, indica que os idosos são o grupo etário em que a taxa de risco de pobreza mais tem aumentado, tendo passado de 17,1%, em 2022, para 21,1%, em 2023. Verifica-se que um em cada cinco idosos em Portugal vive sozinho com um rendimento bruto inferior a 632 euros, ou faz parte de um agregado familiar em situação de pobreza.

Depois das famílias monoparentais com crianças, que continuam a ser “as que revelam maior vulnerabilidade”, destaca a Pordata, seguem-se as pessoas que vivem sozinhas - estas registam um agravamento da taxa de risco de pobreza que passou de 24,9%, em 2022, para 28,6%, em 2023.

Já 44% dos desempregados residentes em Portugal encontram-se em agregados familiares com rendimentos abaixo do limiar de pobreza.

Oeiras lidera no rendimento médio mensal
A região metropolitana de Lisboa lidera a tabela dos residentes em Portugal com rendimentos médios mensais mais elevados (1.375 euros), com o munícipio de Oeiras a registar o maior rendimento médio (1.637 euros). Por outro lado, a região do Tâmega e Sousa regista o valor mais baixo (883 euros).

Segundo dados do relatório "Pobreza e Exclusão Social 2025", no âmbito do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, o arquipélago dos Açores é outra das regiões mais vulneráveis do país com 28,4% da população em risco de pobreza ou exclusão social. Também a península de Setúbal se destaca como a região mais vulnerável no Continente (21,8%).

A EAPN Portugal "sublinha que o número absoluto de pessoas em risco [de pobreza] se mantém, de forma persistente, acima dos dois milhões" e que tal reforça que "a pobreza continua a ser um problema estrutural do país". Refere, ainda, que as mulheres continuam a representar a maioria das pessoas em situação de pobreza (56%).

A nível da União Europeia, Portugal ocupa a 19º posição entre os 27 países do bloco no rendimento mediano mensal das famílias, tendo sido ultrapassado pela Letónia. Este ranking é liderado pelo Luxemburgo e pela Dinamarca, países com os rendimentos mais elevados.

domingo, 16 de novembro de 2025

Dia Mundial dos Pobres — e dos culpados

"Hoje celebra-se o dia mundial dos pobres.
Curioso: nunca celebramos o dia mundial
dos que produzem pobreza.
Erguem-se palcos, discursos, fotografias.
Fala-se de “apoio”, “solidariedade”, “valores”.
Mas ninguém pronuncia os nomes
dos que lucram com a miséria,
dos que apertam orçamentos
para que sobrem dividendos,
dos que tratam gente colada ao chão.

A pobreza não cai do céu —
é fabricada.
Tem autores, assinaturas, logótipos,
programas eleitorais,
conivências silenciosas.

E corporações que, ano após ano,
garantem que os mesmos continuem pobres
e os bilionários continuem a decidir.

Hoje, os poderosos dirão
que “ninguém fica para trás”.
Mentira: alguém fica para trás
porque alguém está sempre a empurrar.

É mais fácil decorar a palavra “equidade”
do que taxar fortunas;
mais fácil erguer campanhas
do que erguer salários;
mais fácil proclamar "caridade"
do que enfrentar interesses.

Pobreza não é tragédia humana —
é estratégia populista e ódio aos pobres
É o resultado frio
de permitir que o lucro vença o direito,
que o mercado vença a vida,
que a indiferença vença a vergonha.

Um dia mundial não chega.
O que falta é romper o silêncio cúmplice
e enfrentar e denunciar todos os dias
os que fazem da pobreza
uma máquina de produção contínua,
uma estratégia calculada,
um rendimento garantido.

Se é para lembrar os pobres,
então que nos lembrem também dos culpados.
E que se lhes retire — finalmente —
o privilégio de continuar a produzi-los."

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Presidente do Fórum Económico Mundial alerta: bolha de IA pode ameaçar empregos


O presidente do Fórum Económico Mundial, Børge Brende, fez um alerta nesta quarta-feira (05): o mundo deve ficar atento a três possíveis bolhas nos mercados financeiros, incluindo a bolha de IA. A fala aconteceu durante visita do executivo a São Paulo.

Brende também alertou que, apesar de aumentar a produtividade, a tecnologia pode ameaçar empregos de escritório.

Bolha de IA preocupa
Conforme reportado pelo Olhar Digital, ações de empresas de tecnologia tiveram uma queda expressiva nas bolsas ao redor do mundo. Altos investimentos em IA e a supervalorização de big techs deixaram investidores com um pé atrás.

Diante desse cenário, Brende alertou que o mundo deve ficar atento a três possíveis bolhas de mercado: a de inteligência artificial, a de criptomoedas e a de dívidas.

Ele também afirmou que governos não estavam endividados como estão agora desde 1945. As expectativas com a IA e os altos investimentos ignoraram preocupações com taxas de juros, inflações e turbulências, o que também balançou o mercado esta semana.

Durante encontro com jornalistas, o presidente do Fórum Económico Mundial ainda afirmou que a tecnologia traz possibilidades de ganhos de produtividade, mas alertou que “trabalhadores de escritórios podem ser mais facilmente substituídos por essa IA”.

Segundo a agência de notícias Reuters, ele citou cortes recentes em empresas como Amazon e Nestlé.

Brende ainda destacou que as mudanças tecnológicas levam ao aumento da produtividade. E que a produtividade “é a única maneira de aumentar a prosperidade ao longo do tempo”.

Assim, você poderá pagar salários melhores às pessoas e terá mais prosperidade na sociedade. Børge Brende, presidente do Fórum Econômico Mundial, à agência Reuters

A reviravolta veio depois que as big techs divulgaram resultados positivos e com expectativa de mais investimentos em IA, mas especialistas voltaram a alertar sobre a “bolha de IA”.
Segundo o The Guardian, sete big techs tiveram queda na bolsa no mesmo dia: Nvidia, Amazon, Apple, Microsoft, Tesla, Alphabet (proprietária do Google) e Meta.

Chefes de bancos e analistas destacaram uma possível correção no mercado de ações e a “bolha de IA”, num cenário que os grandes investimentos no setor ainda não deram o retorno esperado.

Confira os detalhes aqui

terça-feira, 28 de outubro de 2025

O carvalhal


«Nos cumes mais elevados encontram-se, nos lugares húmidos, os bosques de vidoeiros e sobre os rochedos as sorveiras. Nos lugares mais baixos atingem-se no norte de Portugal os bosques de carvalhos, em que as árvores estão suficientemente próximas para darem sombra aos caminhos e suficientemente afastadas para permitirem a passagem.
Os vales do Minho estão cobertos de bosques de carvalhos contínuos. Em seguida surge a região dos bosques de castanheiros, os verdadeiros bosques deste país, cujas árvores se tocam pela folhagem. Ornam as encostas da Serra do Marão, da Serra da Estrela, na direcção do Fundão, da Serra de Portalegre e de Monchique. No sopé das grandes montanhas encontram-se os pomares, onde a cultura dos frutos é sinal de região fria. Mais abaixo surgem a árvore da cortiça, o carrasco, o pinheiro-marítimo, em seguida o limoeiro e finalmente a laranjeira. A oliveira está ainda mais espalhada, encontra-se perto dos vidoeiros do Gerês e ao lado das laranjeiras, perto de Lisboa.»
baseado nas viagens de Hoffmansegg e Link

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Dia Mundial da Economia de Energia - A energia mais limpa é a que não se consome


O Dia Mundial da Economia de Energia foi criado em 21 de outubro de 1973, logo após a crise mundial do petróleo que começou nesse mesmo ano. O aumento repentino do preço e a escassez deste recurso essencial despertaram a consciência global sobre a dependência energética e a necessidade urgente de racionalizar o consumo.

Esta data convida-nos a repensar a forma como usamos a energia — em casa, no trabalho e nas cidades — e a adotar hábitos mais eficientes e sustentáveis. Economizar energia não significa apenas gastar menos; significa usar melhor, reduzir desperdícios e proteger o planeta.

Todos sabemos que economizar energia é bom para o planeta. Mas, e para o negócio? Neste Dia Mundial da Economia de Energia, vale a pena lembrar que cada kWh poupado é mais um passo dado para empresas se tornarem mais eficientes, competitivas e até mais inovadoras. Porque inovar também é repensar processos, otimizar recursos, fazer mais com menos. A energia mais limpa é, afinal, a que não se consome.

A verdade é que a eficiência energética deixou de ser apenas uma exigência legal: tornou-se uma alavanca estratégica. Não se trata apenas de instalar tecnologia verde ou de cumprir regulamentos; trata-se de criar uma cultura de consumo consciente. É perceber que cada processo, cada equipamento e cada decisão de investimento podem gerar impacto direto nos resultados da empresa. E essa transformação começa dentro de casa: ao mapear processos, identificar desperdícios e agir de forma proativa, as empresas conseguem produzir mais com menos, reduzir emissões e aumentar a competitividade.

Um exemplo claro desta abordagem é a monitorização em tempo real. Quando conseguimos acompanhar, minuto a minuto, como a energia é consumida, deixamos de reagir a problemas e começamos a preveni-los. Os dados deixam de ser números isolados e transformam-se em decisões inteligentes, traduzindo-se em ação e, consequentemente, em resultados. É aqui que se esconde o verdadeiro valor da eficiência: na capacidade de transformar informação em vantagem concreta.

Outro vetor estratégico é a eletrificação da indústria. Portugal tem dado passos importantes, mas ainda há muito a fazer. A eletrificação só é eficaz se estiver integrada com soluções digitais, energias renováveis e armazenamento. Esta transformação exige visão de longo prazo e um trabalho contínuo de melhoria, um processo incremental, mas consistente, capaz de gerar valor real e sustentável.

Depois, a economia de energia também é um exercício de liderança. Empresas que olham para a eficiência como uma prioridade estratégica não estão apenas a cortar custos: estão a construir resiliência, a reforçar a reputação e a abrir portas para novos investimentos.

No fundo, a mensagem é simples: criar hábitos, investir em soluções inteligentes e integrar a eficiência energética na estratégia do dia a dia não é apenas bom para o planeta, é essencial para as empresas que querem liderar o futuro.

⚡ Algumas ações simples que fazem diferença:
  • Substituir lâmpadas incandescentes por LED.
  • Desligar aparelhos e carregadores da tomada quando não estão em uso.
  • Aproveitar a luz natural e melhorar o isolamento térmico das casas.
  • Optar por transportes sustentáveis.
  • Escolher equipamentos com selo de eficiência energética.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Ranked: The World’s Most Sustainable Economies in 2025



Alguns priorizam infraestruturas robustas e mercados abertos, enquanto outros se concentram no reforço da protecção laboral, no combate à desigualdade de rendimentos ou no investimento em salvaguardas ambientais. Nesta perspetiva, o Índice fornece informações valiosas sobre o amplo espectro de abordagens e compensações que definem a procura de um comércio sustentável.

Estudo completo aqui

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Iniquidade insustentável - mostra relatório recente no Reino-Unido



O trabalhador médio do Reino Unido levaria 52 anos de rendimento para se juntar aos 10% mais ricos. Um aumento em relação aos 38 anos em 2006-08. Os ricos compram influência política. Os governos ajudam os ricos. Os 20% mais pobres contribuem com uma maior proporção do rendimento do que os 20% mais ricos. As desigualdades obstruem o crescimento económico e alimentam a agitação social. [Fonte]

Isto vai chegar a nós.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Novo estudo mostra que a expansão das plantações de eucalipto no País Basco levantou preocupações em relação à biodiversidade, particularmente, aos efeitos adversos sobre as comunidades aviárias


A expansão das plantações de eucalipto no País Basco levantou preocupações em relação à biodiversidade, particularmente, aos efeitos adversos sobre as comunidades aviárias. Este estudo examinou as diferenças na diversidade de espécies de aves em três grandes ecossistemas florestais (florestas nativas, plantações de pinheiros e plantações de eucalipto) e avaliou os fatores que influenciam estas variações, incluindo a vegetação, a paisagem circundante, a estrutura da floresta, a localização e a madeira morta. 
Os nossos resultados indicaram que as plantações de eucalipto suportam uma menor riqueza e abundância de espécies de aves em comparação com as florestas nativas e as plantações de pinheiros, e que a composição de espécies de aves nas plantações de eucalipto era distinta dos outros dois ecossistemas florestais, especialmente em comparação com as florestas nativas. Embora as plantações de pinheiros acolhessem algumas espécies de aves florestais, as comunidades aviárias permaneceram distintas das das florestas nativas, enfatizando o papel insubstituível das florestas nativas como habitat das aves. 
Além disso, uma análise das interações entre aves e plantas sugeriu que a maioria das interações entre plantas e aves eram com plantas nativas, uma vez que as espécies de plantas e a diversidade estrutural das florestas nativas fornecem um conjunto mais amplo de nichos para as aves, em comparação com comunidades mais simplificadas de plantações florestais. 
Além disso, estas interações ocorreram principalmente com plantas de frutos silvestres em comparação com espécies arbóreas. 
O nosso estudo destaca a necessidade urgente de conservação e restauro das florestas nativas para manter a diversidade aviária e sublinha a importância de estratégias de gestão florestal sustentável que priorizem a conservação da biodiversidade.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

A Demagogia da Direita - usar o exemplo da Irlanda para defender que Portugal seria um país rico caso cobrasse impostos mais baixos sobre os lucros das empresas

É desconcertante como grande parte da direita portuguesa continua a usar o exemplo da Irlanda para defender que Portugal seria um país rico caso cobrasse impostos mais baixos sobre os lucros das empresas.
Como se a única diferença entre Portugal e a Irlanda fossem as taxas de imposto:
- como se os níveis de escolaridade na Irlanda não fossem há décadas superiores aos portugueses 
- e ainda são: 83,5% dos irlandeses adultos têm pelo menos o 12º ano, enquanto em Portugal são 61,3%, a taxa mais baixa da UE (ver gráfico);
- como se os irlandeses não falassem inglês nativo (a mesma língua que falam os chefes das empresas de sectores sofisticados que lá investem desde há décadas);
- como se o Estado irlandês não tivesse seguido, desde 1958, uma estratégia persistente de atracção de investidores americanos em sectores específicos de alta tecnologia (enquanto nós insistimos na ideia de disparar para todo o lado a ver se chove).

Mais desconcertante ainda é insistirem em usar números que não passam de uma ficção. Não são só os cépticos que o dizem: é o próprio Instituto Nacional de Estatística irlandês (o CSO). A questão é fácil de perceber: o facto de a Irlanda funcionar como uma espécie de paraíso fiscal leva muitas empresas a registar no país activos que rendem lucros, mas que não deixam nenhuma actividade no país.

Por exemplo, grandes multinacionais, sobretudo nos sectores das tecnologias digitais (Google, Apple, Meta) e farmacêutico (Pfizer, Johnson & Johnson) registam na Irlanda os lucros associados à propriedade intelectual, inflacionando as contas nacionais sem corresponder a actividade produtiva real no território.

Por isso, o governo e o CSO (o instituto nacional de estatística lá do sítio) passaram a dar destaque a medidas alternativas, como o Rendimento Nacional Bruto Modificado (RNB*), que exclui os efeitos artificiais da transferência de activos e lucros de multinacionais.

Segundo o CSO, o valor do RNB* da Irlanda em 2024 era pouco mais de metade (57%) do valor do PIB nesse ano (ver aqui). Estão a ver o efeito que isto tem na análise dos níveis relativos de riqueza, dos níveis de endividamento do país, ou do peso das despesas públicas na economia - tudo variáveis cujos indicadores usam o PIB no seu cálculo?

Podemos ter uma conversa séria sobre a relação entre competitividade e fiscalidade, claro, assumindo sempre que há diferentes desenhos possíveis para um sistema fiscal que se quer eficiente e justo. Mas já paravam com tanta demagogia, não era?

Além disso, A emigração irlandesa ainda é elevada e isso é demonstrativo de que a riqueza não é devidamente distribuída.

Entretanto, os irlandeses que trabalham em Inglaterra mesmo os altamente qualificados são discriminados. São vistos como os indostânicos em Portugal. Mão-de-obra barata, sem acesso a cargos de topo nas empresas. Sei bem do que falo pois trabalhei durante anos em várias empresas britânicas onde testemunhei sempre o mesmo padrão ( Carlos Vargas) . Os irlandeses são imigrantes e tratados dentro do padrão de discriminação "natural".

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Cartel da banca: bancos não têm de pagar nada pelas infrações cometidas em 11 anos



O Tribunal Constitucional rejeitou uma segunda tentativa da Autoridade da Concorrência (AdC) no caso conhecido como 'cartel da banca' para reverter a anulação das coimas de 225 milhões de euros aos bancos.

Num acórdão de 25 de agosto, a que a Lusa teve acesso, a conferência do Tribunal Constitucional (TC) indefere a reclamação do regulador da concorrência contra o facto de, em junho, o juiz-conselheiro Afonso Patrão ter rejeitado admitir o recurso que a AdC submeteu para apreciar a constitucionalidade do processo.

Com esta segunda decisão, o TC recusa de forma definitiva apreciar se o acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa (TRL) que declarou o processo prescrito é, ou não, conforme com a Constituição da República Portuguesa e com o direito da União Europeia (UE).

O litígio chega agora ao fim com este acórdão, fazendo transitar em julgado a decisão do TRL que declarou a prescrição e que anulou as coimas aos 11 bancos condenados pelo Tribunal da Concorrência.

Para o TC, a questão de inconstitucionalidade colocada pela AdC "não tem natureza normativa, sendo, por isso, inidónea a fiscalização concreta da constitucionalidade".

Segundo o acórdão, o tribunal entende que a AdC não lhe solicitou "que interprete a Constituição em consonância com o direito da União Europeia", antes que analisasse "a alegada desconformidade da interpretação seguida pelo tribunal a quo [Relação de Lisboa] com o direito da União Europeia num problema de inconstitucionalidade com referência, por um lado, ao valor que a Constituição atribui ao direito da UE e, por outro, à eficácia jurisdicional do direito da UE". Por isso, entendeu rejeitar analisar a decisão tomada pelo TRL.

A 20 de setembro de 2024, o Tribunal da Concorrência deu como provado que, de 2002 a 2013, os principais bancos do mercado português agiram em "conluio" para falsear a concorrência e confirmou as coimas aplicadas pela AdC em 2019.

Nessa instância ficou provado que as instituições trocavam informação de forma regular por telefone e por email para enviar dados aos concorrentes sobre os 'spreads' que iam praticar e sobre os volumes de crédito já concedidos.

Os bancos recorreram da decisão da primeira instância para o TRL, onde um coletivo de juízes declarou a contraordenação prescrita, por considerar que no período em que o processo esteve a ser analisado no Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) o processo não ficava suspenso para efeitos de contagem da prescrição.

A decisão no TRL foi tomada sem unanimidade, com um dos três juízes do coletivo a discordar que o processo estivesse prescrito.

A AdC e o Ministério Público recorreram para o TC para tentarem travar a anulação das coimas, mas logo num primeiro momento o tribunal rejeitou o pedido.

Foi contra essa decisão que a AdC apresentou a reclamação agora rejeitada.

Tal como o TC, o TRL também não analisou se a conduta dos bancos infringiu, ou não, a concorrência, porque, no ponto de partida, considerou os autos prescritos.

À Lusa, fonte oficial da AdC reagiu à decisão do TC afirmando que "fez tudo o que pôde para que esta infração à lei da concorrência fosse punida, até porque foi confirmada" por duas instâncias judiciais (o Tribunal da Concorrência e o TJUE).

"Esta decisão da conferência do TC não retira razão à AdC", afirma a instituição liderada por Nuno Cunha Rodrigues, lembrando que o TCRS "confirmou os factos" e que o TJUE confirmou que se tratava de "uma infração por objeto (expressão do direito da concorrência que qualifica as infrações como tão graves que dispensam a prova de efeitos nos consumidores)".

Os bancos que veem as coimas anuladas são a CGD (82 milhões de euros), BCP (60 milhões), Santander (35,65 milhões), BPI (30 milhões) Banco Montepio (13 milhões de euros), BBVA (2,5 milhões), BES (700 mil), BIC (500 mil), Crédito Agrícola (350 mil), UCI (150 mil). O Barclays também foi condenado, mas sem ter de pagar coima por ter denunciado o caso à AdC.

A Autoridade da Concorrência (AdC) afirmou ter feito todos os esforços para que os bancos envolvidos no ‘cartel da banca’ fossem sancionados pelas infrações cometidas entre 2002 e 2013.

sábado, 19 de julho de 2025

Jeffrey Sachs: Eu avisei que algo estava chegando e agora está aqui


Contexto e mensagens principais

  1. Advertências anteriores
    Sachs já vinha alertando que tensões geopolíticas (como a expansão da NATO e rivalidades entre EUA, China e Rússia) estavam criando uma conjuntura de risco. Ele diz agora que “isso já está aqui” — possivelmente referindo-se a crises económicas, conflitos regionais, ou tensões globais mais agudas.

  2. Papel crítico da NATO e dos EUA
    Em declarações recentes (até fevereiro de 2025), ele criticou a ampliação da NATO como um catalisador para a guerra na Ucrânia e tensão com a Rússia. Ele defende que foi um erro estratégico e um dos fatores centrais do conflito Visão multipolar

  3. Nos últimos meses, Sachs defendeu uma ordem mundial menos centrada nos EUA, pedindo que a Europa e outros países adotem independência nas suas políticas — buscando mediação como China, e falando de uma “Europa livre” da influência norte-americana 

  4. Críticas específicas
    Ele chegou a sugerir que o Nord Stream poderia ter sido sabotado pelos EUA, e acusou Washington de planejar ações em áreas como Irão, Israel e outros pontos sensíveis — chegando a falar sobre um "plot" (conspiração) envolvendo EUA e Israel e avisando sobre risco de uma guerra com o Irão


🧭 E agora? O que significa “está aqui”?

Na minha interpretação, com base no que Sachs disse:

  • Crise nas grandes potências – Tensões entre EUA, China e Rússia intensificadas em domínios militares, económicos e diplomáticos.

  • Escalada económica – Guerra económica, disrupções energéticas, instabilidade financeira global — efeitos que Sachs vinha prevendo.

  • Possibilidade de conflitos regionais – Com foco em Irão, Oriente Médio, Taiwan, Ucrânia.


✅ Conclusão

Sim — Sachs estava alertando há meses para crises profundas, e agora afirma que já as estamos sentindo. O seu alerta conjunto é sobre:

  • Ampliação da NATO e tensão Rússia‑Ocidente

  • Competição acelerada entre grandes potências

  • Escalada económica e conflitos por energia e influência