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sábado, 24 de outubro de 2026

Dia das Nações Unidas: Balanço e Evolução do Multilateralismo (2000–2026)




O Dia das Nações Unidas (celebrado anualmente a 24 de outubro) assinala a entrada em vigor da Carta da ONU em 1945. Fazer um balanço do papel da organização exige olhar para o seu impacto sob duas perspetivas fundamentais: as suas grandes conquistas e os profundos desafios estruturais que enfrenta no mundo contemporâneo.

Portugal só aderiu às Nações Unidas em 1955, dez anos após a criação da organização. A admissão foi adiada durante vários anos devido às tensões políticas entre as grandes potências. A 14 de dezembro de 1955, um acordo internacional permitiu a adesão de 16 novos países, incluindo Portugal.

A 3 de junho de 2026, Portugal foi eleito membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas para o biénio 2027–2028, garantindo assim o regresso a um dos principais órgãos da ONU responsável pela manutenção da paz e da segurança internacionais.

Deslize pelo carrossel e conheça a história da entrada de Portugal nas Nações Unidas.

O período entre o ano 2000 e meados da década de 2020 representa uma das fases mais intensas e contraditórias da história das Nações Unidas. Se por um lado a organização expandiu a sua atuação para novos domínios normativos e de desenvolvimento global, por outro enfrentou o ressurgimento da rivalidade entre grandes potências e um estrangulamento político sem precedentes.

Este balanço detalhado analisa as conquistas, as falhas operacionais/políticas e os desafios do futuro imediato.
1. As Grandes Conquistas e Inovações (2000–2026)
A. A Agenda de Desenvolvimento Global (ODM e ODS)
  1. Declaração do Milénio (2000) e ODS (2015): A ONU estabeleceu uma linguagem universal para o progresso humano. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (2000–2015) impulsionaram a maior redução da pobreza extrema e da mortalidade infantil da história global.
  2. Agenda 2030: Em 2015, foram adotados os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), alargando o foco para a desigualdade, transição energética e sustentabilidade ambiental.
B. Ação Climática e Multilateralismo Ambiental
  1. Acordo de Paris (2015): Sob os auspícios da UNFCCC, a ONU conseguiu um compromisso histórico para limitar o aquecimento global abaixo dos 2°C (com meta de 1,5°C) em relação aos níveis pré-industriais.
  2. Ciência do Clima: O painel científico da ONU (IPCC) consolidou a base científica indiscutível do aquecimento global antropogénico, moldando as políticas fiscais e energéticas globais.
C. Evolução Normativa e Direitos Humanos
  1. Responsabilidade de Proteger (R2P, 2005): Adotada na Cimeira Mundial de 2005, estabeleceu que a comunidade internacional tem o dever de intervir caso um Estado falhe em proteger a sua população de genocídio, crimes de guerra, limpeza étnica e crimes contra a humanidade.
  2. Criação do Conselho de Direitos Humanos (2006): Substituiu a antiga Comissão, introduzindo o Exame Periódico Universal (EPU), que avalia todos os Estados-Membros em igualdade de condições.
D. Saúde e Gestão de Crises Humanitárias
  1. Pandemia de COVID-19 e Iniciativa COVAX (2020–2022): A OMS liderou a resposta à maior emergência sanitária global do século XXI, enquanto o mecanismo COVAX distribuiu mais de 2 mil milhões de doses de vacinas a países em desenvolvimento.
  2. Iniciativa de Cereais do Mar Negro (2022–2023): A mediação da ONU e da Turquia permitiu a exportação de cereais ucranianos e fertilizantes russos, mitigando uma crise alimentar e de inflação em África e no Médio Oriente.
2. Dificuldades, Falhas e Impasses Geopolíticos
A. A Paralisia do Conselho de Segurança
  1. Guerra do Iraque (2003): a intervenção militar liderada pelos EUA sem autorização expressa do CSNU demonstrou a vulnerabilidade do direito internacional e abalou a autoridade da ONU.
  2. Guerra Civil na Síria (desde 2011) e Conflito na Ucrânia (desde 2022): A utilização sistemática do poder de veto por membros permanentes (especialmente a Rússia e a China) paralisou qualquer resposta decisiva para travar agressões militares territoriais ou crimes de guerra massivos.
  3. Guerra Israel-Hamas e crise em Gaza: Exerceu uma pressão tremenda sobre a coesão interna e legitimidade do sistema ONU, expondo divisões profundas entre países do Sul Global e potências ocidentais
B. Reveses na Manutenção da Paz (Peacekeeping)
  1. Comportamento Indevido e Choques de Mandato: Casos de exploração e abuso sexual por forças da ONU na África Central e a introdução acidental de Cólera no Haiti (2010) por capacetes-azuis feriram gravemente a credibilidade da instituição.
  2. Expulsão de Missões de Paz: O encerramento de missões na África Ocidental e do Sahel (ex.: MINUSMA no Mali em 2023) refletiu o descontentamento local e a ascensão de novas alianças de segurança privadas ou bilaterais.
C. Atraso na Agenda 2030
Recuo dos ODS: o impacto cumulativo da pandemia, de guerras regionais e de crises de dívida em países emergentes estagnou ou reverteu o progresso em cerca de 80% das metas estipuladas para 2030.

3. O Ponto de Situação e Novas Fronteiras (2024–2026)
A governação multilateral recente ficou marcada pelo combate ao estancamento e pelo esforço de reestruturação do sistema internacional:

DomínioAção / Evento MarcanteSignificado
Pacto para o Futuro (2024)Cimeira do Futuro da ONU (Nova Iorque)Adoção do Pacto Digital Global, visando criar regras mundiais de governação da Inteligência Artificial e dos dados.
Reforma Financeira Global"Bridgetown Initiative" e o Financiamento para o DesenvolvimentoFoco em reestruturar as arquiteturas do FMI e Banco Mundial para evitar as crises de dívida no Sul Global e custear a transição energética.
Governação da IACriação do Painel Científico da ONU para IAPrimeira tentativa formal de criar um equivalente ao IPCC para a regulação dos riscos e oportunidades da IA generativa e autónoma.
4. Síntese do Balanço
Neste primeiro quarto de século, a ONU provou ser insubstituível como rede operacional humanitária e científica, mas profundamente frágil como garantidora da paz e da segurança internacional.
  • O Diagnóstico: O sistema multilateral construído em 1945 já não reflete a demografia ou o equilíbrio geopolítico atual. O fosso entre as aspirações normativas e a realpolitik das grandes potências nunca foi tão visível.

  • A Conclusão: O fracasso em reformar o Conselho de Segurança e os mecanismos de financiamento internacional não invalida a instituição; pelo contrário, demonstra que um mundo fragmentado precisa de uma ONU revitalizada para evitar o colapso dos bens públicos globais (clima, saúde pública e regulação tecnológica).

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Fontaines D.C. - I Love You

Lançada em fevereiro de 2022 como o segundo single do aclamado álbum Skinty Fia, "I Love You" é uma das composições mais profundas, intensas e politicamente carregadas da banda irlandesa Fontaines D.C. Musicalmente, a faixa enquadra-se no Post-Punk moderno com marcantes nuances de Gothic Rock, Jangle Pop e influências estruturais de Krautrock. A sua sonoridade constrói-se sobre um contínuo e hipnótico crescendo impulsionado por um ritmo contínuo e obsessivo de inspiração Motorik - marca do rock experimental alemão -, no qual a linha de baixo melancólica, as guitarras atmosféricas e o pulso mecânico da bateria criam uma tensão progressiva. A partir desta base rítmica implacável, a instrumentação evolui para uma mancha sonora densa e caótica, acompanhando a transformação da voz do vocalista Grian Chatten de um tom suave e percetivo para uma entrega vocal febril, entre o spoken word e o grito desesperado.

Apesar de ostentar um título que sugere uma tradicional canção de amor, a letra é, na verdade, uma complexa, dolorosa e culpada carta de amor direcionada à Irlanda. Escrita num período em que os membros da banda se mudaram para o Reino Unido, a canção explora a culpa do artista que abandona o seu país de origem e lucra criativamente com a sua identidade, enquanto observa à distância a degradação social da sua terra natal. A lírica funciona como uma denúncia feroz contra a corrupção política, a crise imobiliária que assola a juventude e os traumas históricos do país, como o chocante escândalo das Mother and Baby Homes, onde os corpos de centenas de bebés foram descobertos em fossas sépticas na localidade de Tuam.

A dimensão visual da obra ganha força através do videoclipe oficial, realizado por Sam Taylor. Ambientado no interior de uma igreja gótica iluminada apenas pela luz de centenas de velas, o cenário evoca o peso sufocante da tradição, da religião e dos traumas históricos irlandeses. A presença ostensiva e esmagadora das velas carrega um simbolismo polifacetado: funciona simultaneamente como um memorial de vigília e luto pelas vítimas dos abusos históricos e pela juventude sem perspetivas, e como uma crítica à hipocrisia de uma santidade institucional que tentou encobrir crimes sob o manto do sagrado. Além disso, a vela surge como a metáfora de uma paixão que se consome a si própria - uma esperança e um amor pela pátria tão intensos que devoram quem os sente. Ao longo do vídeo, Chatten caminha inicialmente como um observador passivo por este cenário ritualístico, mas a meio da narrativa vira-se diretamente para a câmara, quebrando a quarta parede no mesmo instante em que a música explode em fúria e denúncia social. No clímax emocional da narrativa visual, o peito do vocalista aparece a sangrar, servindo como uma representação literal do custo de entregar a própria alma e o coração a uma pátria em desagregação.

Apesar de ter sido escrita no contexto de 2022, a canção permanece incrivelmente atual por traduzir sentimentos universais e contemporâneos. Ela dá voz à desilusão da geração jovem perante a crise socioeconómica global, a impossibilidade de acesso à habitação e o sentimento de falta de perspetivas de futuro. Além disso, retrata com precisão o fenómeno da emigração forçada e o desencanto com a classe política, questões que continuam a ressoar profundamente em vários países do mundo.

Por fim, a densidade de "I Love You" nutre-se de ricas influências literárias e filosóficas. A lírica dialoga diretamente com a tradição poética irlandesa de W.B. Yeats e o seu conceito de "terrible beauty" - a beleza trágica que nasce do conflito -, bem como com a paralisia social retratada por James Joyce. No plano filosófico, a faixa é atravessada por um profundo existencialismo sartreano e camusiano, focado no sentimento de alienação, na culpa da diáspora e na angústia do indivíduo perante o absurdo moral e a responsabilidade individual. Ressoa também com a crítica da Teoria Crítica à mercantificação da identidade e ao desespero de classe, além de se aproximar da filosofia da história de Walter Benjamin, ao encarar os traumas do passado não como eventos mortos, mas como feridas não cicatrizadas que assombram o presente. Por sua vez, a métrica acelerada do spoken word bebe na fonte da Beat Generation e de poetas como Allen Ginsberg, utilizando a palavra falada como uma poderosa ferramenta de contestação e apelo moral.. Por sua vez, a métrica acelerada do spoken word bebe na fonte da Beat Generation e de poetas como Allen Ginsberg, utilizando a palavra falada como uma poderosa ferramenta de contestação e apelo moral.

Toda a história da Mother and Baby Home

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Zanias - Through This Collapse


Zanias é o projeto a solo da artista, produtora e DJ australiana Alison Lewis. Nascida em Melbourne e com uma infância passada entre a Indonésia, a Malásia e a Austrália, estabeleceu-se mais tarde no coração da cena eletrónica e underground de Berlim, após ter deixado a sua marca em Londres à frente de projetos como os Linea Aspera.

A sua sonoridade transita harmoniosamente entre o Darkwave, o Ethereal Wave, a Minimal Wave e a música eletrónica industrial ou EBM. A comparação com os Dead Can Dance é extremamente precisa e recorrente. Tal como Lisa Gerrard, Zanias aborda a voz como um instrumento sacro e vocalização de foro ritualístico sobre fundos eletrónicos densos e pulsantes. Faz um uso abundante e expressivo de melismas - a técnica de cantar várias notas musicais encadeadas sobre uma única sílaba -, o que confere às suas canções uma tonalidade ancestral, xamânica e quase mística, criando um contraste fascinante com a austeridade dos sintetizadores.

Na faixa Through This Collapse, a artista explora a transformação interior através da adversidade, da dor e do desapego. O colapso aqui evocado não representa um fim trágico ou uma destruição passiva, mas antes uma rutura necessária: a dissolução do ego, das ilusões e de velhas estruturas da vida para dar lugar ao renascimento. É uma viagem de catarse onde a dor é atravessada consciente e corajosamente para alcançar a libertação e uma nova forma de perceção.

A escolha da dupla artística OUROBOROS (constituída por Jeremy Carne e Nikolas Kasinos) para a realização, produção e edição do videoclipe de «Through This Collapse» revela uma cumplicidade concetual perfeita com a faixa. O próprio nome da dupla remete para o símbolo mitológico da serpente que devora a sua própria cauda - uma alegoria clássica dos ciclos de destruição, renovação e renascimento. Esta simbiose visual reflete de forma magistral o tema do colapso e da metamorfose espiritual abordado por Zanias. Através de paisagens austeras, jogos marcantes de luz e sombra e uma corporalidade expressiva, o vídeo desenrola-se como um ritual de passagem: a figura central atravessa ambientes de densidade e isolamento até emergir num estado de aceitação e transcendência, espelhando com precisão a travessia do caos interior rumo à clareza.

Do ponto de vista percetivo, a criação de Zanias é profundamente influenciada pela sua formação académica em Arqueologia e Antropologia, assim como por correntes filosóficas e literárias marcantes. Nota-se uma forte ressonância com o Existencialismo e o Niilismo de perspetiva afirmativa, remetendo para Nietzsche e Camus na ideia do Amor Fati - a aceitação plena da dor e da mudança para a construção do próprio sentido vital a partir do caos. Paralelamente, a obra dialoga com a Psicologia Junguiana na exploração da "Sombra" e no processo de individuação, bem como com o estudo dos ritos de passagem, do transe e do fascínio antropológico pela ligação entre o ser humano, o ritual e o cosmos.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Fontaines D.C. - Japan

A Máscara do Quotidiano: Realismo Urbano e Alienação Existencial em "Japan" dos Fontaines D.C.
Originários de Dublin, os irlandeses Fontaines D.C. afirmam-se como uma das vozes mais densas e poéticas do rock alternativo e do post-punk contemporâneo. Em "Japan", a banda preserva a sua matriz urbana e melancólica, mas renova o seu vocabulário musical ao abraçar uma sonoridade mais intimista, acústica e envolvente. O tema centra-se numa crónica amarga sobre o tédio das rotinas, a desconexão emocional e a falsidade inerente às relações modernas. A letra acompanha a figura de uma mulher descrita como "mímica" - uma metáfora para a representação performativa e desprovida de sentimento -, que sustenta financeiramente um parceiro ausente, supostamente situado "no Japão". Essa barreira geográfica não passa de um símbolo para o abismo emocional que os separa, expondo a vacuidade de uma relação mantida por conveniência e habituada ao disfarce.

No plano concetual e filosófico, a obra bebe intensamente do realismo sujo (dirty realism) e da rica tradição literária da observação urbana. Esta herança, profundamente enraizada em autores irlandeses como James Joyce (em Dubliners), revela-se no olhar minucioso e quase clínico sobre o quotidiano cinzento de personagens comuns e nas suas pequenas tragédias silenciosas. Ao mesmo tempo, a canção dialoga diretamente com o existencialismo e com a filosofia da inautenticidade. A alcunha da "mímica" e o verso em que se sugere que ela se afasta do próprio corpo durante a intimidade espelham o conceito de "má fé" e dissociação emocional: a tendência humana para desempenhar papéis sociais rígidos, anestesiando os sentidos para evitar a dor do confronto com a realidade.

Esta carga lírica ganha corpo na narrativa do videoclipe, que recusa qualquer romantização ou exotismo sobre o Japão e prefere situar a ação em cenários suburbanos banais, centros comerciais genéricos e rotinas sufocantes. As personagens movem-se de forma mecânica e automatizada, simbolizando a alienação da vida contemporânea. A tensão atinge o seu ponto de rutura com a constante pergunta do refrão - "Why'd you go and make it real?" -, uma súplica desesperada que expõe o custo de rasgar a ilusão: a transição dolorosa entre o conforto anestesiante de uma farsa mantida em piloto automático e a brutalidade de ter de encarar a verdade sobre quem realmente somos.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

LORN - Anvil


"Anvil" de LORN: O Eco Eletrónico da Extinção e o Mito Transumanista
Nascido em Normal, Illinois, e radicado em Milwaukee, o produtor norte-americano Marcos Ortega, conhecido no meio musical como LORN, consolidou-se como uma das figuras mais singulares e influentes da música eletrónica experimental contemporânea. Enquadrado em géneros como o IDM, o Dark Wave, o Industrial e o Leftfield Bass, o trabalho de LORN distingue-se por uma estética sonora sombria, visceral e melancólica, em que sintetizadores analógicos pesados e ritmos hipnóticos constroem atmosferas densas e inquietantes. A faixa "Anvil", pertencente ao seu álbum Vessel de 2015, exemplifica perfeitamente essa identidade: a canção evoca a ideia de um esmagamento inevitável - como sugere o próprio termo "bigorna"-, servindo de metáfora para o peso da mortalidade, o isolamento na era tecnológica e a transição para o desconhecido.

A dimensão conceptual da música atingiu o seu cume em 2016 com o lançamento do seu aclamado videoclipe, concebido e realizado pela dupla artística franco-belga GERIKO, composta por Hélène Jeudy e Antoine Caëcke. Situada num ano de 2100 assolado pela sobrepopulação extrema e pela rutura de recursos do planeta, a curta-metragem de animação apresenta uma solução estatal distópica: a criação da Anvil, uma rede social pós-morte onde a consciência dos cidadãos é digitalizada e armazenada num servidor público, exigindo contudo a eutanásia e desmaterialização do seu corpo físico. A narrativa acompanha os instantes finais de uma jovem mulher na Terra antes da sua transição para a rede digital, confrontando o espectador com a fronteira entre o alívio de uma imortalidade virtual e a tragédia do aniquilamento da condição humana tangível.

Do ponto de vista filosófico e literário, a obra mergulha profundamente nas correntes do transumanismo e do pós-humanismo, questionando os limites do mind uploading e a mercantilização da própria existência. A narrativa reflete as teorias socio-filosóficas sobre biopolítica e controlo estatal dos corpos, bem como as noções de hiperrealidade e simulação formuladas por pensadores como Jean Baudrillard. No plano literário e estético, "Anvil" bebe do universo cyberpunk de autores fundamentais como William Gibson e Philip K. Dick, combinando-o com uma linguagem visual marcante inspirada no traço arquitetónico de François Schuiten (As Cidades Obscuras) e na estética do manga e anime de culto japonês, nomeadamente as obras de Katsuhiro Otomo (Akira) e Masamune Shirow (Ghost in the Shell)

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Ana Moura - Andorinhas


A canção "Andorinhas" (2021), single de avanço do álbum Casa Guilhermina (2022), afirma-se como o manifesto estético e concetual onde Ana Moura refunda a sua identidade artística. Ao cruzar a matriz do fado tradicional com a ancestralidade do adufe ibérico, ritmos afro-lusófonos e texturas eletrónicas urbanas, o tema transforma a figura da andorinha num símbolo de liberdade, nomadismo e regresso às origens.

Musicalmente, "Andorinhas" estabelece uma clara rotura com o fado purista, inaugurando uma sonoridade que pode definir-se como folclore afro-fadista e urbano. A letra reflete sobre a necessidade de voar, quebrar amarras e recusar as gaiolas das expectativas alheias, utilizando o comportamento migratório das andorinhas como metáfora para a capacidade de expandir horizontes sem nunca perder a raiz territorial. A estrutura sonora assenta no diálogo entre o melisma dramático da voz de Ana Moura, a cadência orgânica da percussão tradicional e os ritmos contemporâneos de afrobeats. A própria guitarra portuguesa surge aqui desconstruída, abandonando o mero papel de acompanhamento melancólico para integrar um balanço dançável e vibrante.

O videoclipe, realizado por Marta de Rocha e filmado no Bairro da Bairrosa, no Barreiro, traduz visualmente este conceito através de uma cuidada simbiose estética. Ana Moura apresenta-se com trajes que reinterpretam elementos da indumentária tradicional do Sul de Portugal - como o bioco açoriano ou os lenços e xailes das mulheres do meio rural - através de um corte de moda urbana e contemporânea. O vídeo contrapõe a arquitetura caiada de branco com a vivacidade comunitária da Margem Sul, celebrando a convivência de rua e a diversidade étnica. A coreografia coletiva assume um papel central, convertendo o bater de asas das andorinhas numa dança de libertação que transforma a tristeza histórica associada ao fado numa afirmação de pertença e celebração coletiva.

O motor rítmico e espiritual de toda a composição é o adufe, um pandeiro quadrado de membrana dupla com sementes ou soalhas no interior, introduzido na Península Ibérica durante o período de Al-Andalus. Historicamente preservado pelas adufeiras da Beira Baixa (em localidades como Monsanto e Idanha-a-Nova), o instrumento carrega uma forte dimensão matriarcal, ligado a rituais agrícolas, celebrações pagãs e cantos religiosos. Em "Andorinhas", a sonoridade seca e telúrica do adufe substitui as baterias ocidentais convencionais, conferindo à faixa um pulso de terra e memória ancestral.

Esta escolha percussiva e estética fundamenta também a aproximação de Ana Moura ao Iberismo e ao multiculturalismo. Por um lado, o uso do adufe evoca diretamente o pandeiro quadrado utilizado nas tradições folclóricas da Galiza, Astúrias e Leão, enquanto o cenário de casas brancas e luz mediterrânica resgata a paisagem cultural partilhada entre o Alentejo, o Algarve e a Andaluzia, invocando a matriz histórica comum de Al-Andalus. Por outro lado, a canção afirma um multiculturalismo urbano e atlântico ao fundir o fado com o semba e a kizomba - homenageando a herança angolana da avó da artista, Guilhermina. A Área Metropolitana de Lisboa retratada no vídeo surge, assim, como uma verdadeira encruzilhada de culturas europeia, africana e cigana, onde o fado deixa de ser uma peça de museu para se tornar uma linguagem viva, inclusiva e em constante renovação.

As maiores empresas do mundo causaram 28 biliões de dólares em danos climáticos, estima um novo estudo

The Chevron Richmond Refinery in this view from Point Richmond, Calif.

A empresa de investigação Zero Carbon Analytics contabiliza 68 ações judiciais intentadas a nível mundial sobre danos causados pelas alterações climáticas, com mais de metade a decorrer nos Estados Unidos.

WASHINGTON (AP) — As maiores corporações do mundo causaram 28 biliões de dólares (28 trillion USD) em danos climáticos, estima um novo estudo integrado num esforço para facilitar que cidadãos e governos responsabilizem financeiramente estas empresas, tal como aconteceu com as gigantes do tabaco.

Uma equipa de investigação do Dartmouth College estimou a poluição causada por 111 empresas, sendo que mais de metade do valor total provém de 10 fornecedores de combustíveis fósseis: Saudi Aramco, Gazprom, Chevron, ExxonMobil, BP, Shell, National Iranian Oil Co., Pemex, Coal India e a British Coal Corporation.

Para efeitos de comparação, 28 biliões de dólares é um valor ligeiramente inferior à soma de todos os bens e serviços produzidos nos Estados Unidos no ano passado.

No topo da lista, a Saudi Aramco e a Gazprom causaram, cada uma, um pouco mais de 2 biliões de dólares em danos associados ao calor ao longo das décadas, calculou a equipa num estudo publicado esta quarta-feira na revista Nature. Os investigadores concluíram que cada 1% de gases com efeito de estufa lançado para a atmosfera desde 1990 causou 502 mil milhões de dólares em danos resultantes apenas do calor - o que não inclui os custos decorrentes de outros eventos meteorológicos extremos, como furacões, secas e inundações.

Fala-se frequentemente em fazer com que os poluidores paguem, existindo ocasiões em que são levados a tribunal ou em que são aprovadas leis para tentar conter a sua atividade.

O estudo é uma tentativa de determinar «as ligações causais que servem de base a muitas destas teorias de responsabilização», afirmou o autor principal, Christopher Callahan, que realizou o trabalho em Dartmouth e é agora cientista de sistemas terrestres na Universidade de Stanford. A empresa de investigação Zero Carbon Analytics contabiliza 68 ações judiciais intentadas a nível mundial sobre danos causados pelas alterações climáticas, com mais de metade a decorrer nos Estados Unidos.

«Todos estão a fazer a mesma pergunta: O que podemos nós realmente alegar relativamente a quem causou isto?», disse o cientista climático de Dartmouth e coautor do estudo, Justin Mankin. «E isso resume-se verdadeiramente a uma questão termodinâmica: conseguimos rastrear os perigos climáticos e/ou os seus danos até emissores específicos?»

A resposta é sim, afirmaram Callahan e Mankin.

Os investigadores começaram pelas emissões finais conhecidas dos produtos — como a gasolina ou a eletricidade proveniente de centrais a carvão - produzidos pelas 111 maiores empresas do setor do carbono, recuando até 137 anos, uma vez que esse é o limite histórico dos dados de emissões disponíveis para qualquer uma destas empresas e o dióxido de carbono permanece no ar durante muito mais tempo. Utilizaram 1000 simulações computacionais diferentes para traduzir essas emissões em alterações na temperatura média global da superfície da Terra, comparando-a com um mundo sem as emissões de cada empresa.

Utilizando esta abordagem, determinaram que a poluição provocada pela Chevron, por exemplo, aumentou a temperatura da Terra em 0,045 graus Fahrenheit (0,025 graus Celsius).

Os investigadores também calcularam quanto é que a poluição de cada empresa contribuiu para os cinco dias mais quentes do ano, utilizando mais 80 simulações computacionais e aplicando depois uma fórmula que relaciona a intensidade do calor extremo com alterações na produção económica.

Este sistema é modelado com base nas técnicas consolidadas que os cientistas utilizam há mais de uma década para atribuir eventos meteorológicos extremos - como a vaga de calor de 2021 no Noroeste do Pacífico - às alterações climáticas.

Mankin afirmou que, no passado, existia o argumento de: «Quem garante que foi a minha molécula de CO₂ que contribuiu para estes danos, em vez de outra qualquer?». O investigador acrescentou que o seu estudo «deixou muito claro como o véu da plausível negação já não existe do ponto de vista científico. Conseguimos efetivamente rastrear os danos até aos grandes emissores».

A Shell recusou-se a fazer comentários. Aramco, Gazprom, Chevron, Exxon Mobil e BP não responderam aos pedidos de comentário.

«Todos os métodos utilizados são bastante robustos», afirmou a cientista climática Friederike Otto, do Imperial College London, que lidera o World Weather Attribution — um coletivo de cientistas que realiza estudos rápidos de atribuição para verificar se determinados eventos meteorológicos extremos são agravados pelas alterações climáticas e, em caso afirmativo, em que medida. A investigadora não participou no estudo.

«Na minha opinião, seria positivo se esta abordagem fosse adotada por mais grupos. Tal como acontece na atribuição de eventos, quanto mais grupos a utilizarem, melhor se torna a ciência e melhor compreendemos o que faz ou não a diferença», declarou Otto. Até ao momento, nenhuma ação judicial de responsabilidade climática contra um grande emissor de carbono teve sucesso, mas demonstrar «quão esmagadoramente forte é a evidência científica» poderá mudar essa realidade, acrescentou.

No passado, os danos causados por empresas individuais perdiam-se no meio da dispersão dos dados, impossibilitando o seu cálculo, explicou Callahan.

«Atingimos agora um ponto na crise climática em que os danos totais são tão imensos que as contribuições dos produtos de uma única empresa podem ascender a dezenas de milhar de milhões de dólares por ano», afirmou Chris Field, cientista climático da Universidade de Stanford que não esteve envolvido na investigação.

Trata-se de um bom exercício e de uma prova de conceito, mas existem tantas outras variáveis climáticas que os números apurados por Callahan e Mankin representam, muito provavelmente, uma grande subestimativa dos danos reais que estas empresas causaram, concluiu Michael Mann, cientista climático da Universidade da Pensilvânia que também não participou no estudo.

sábado, 26 de setembro de 2026

Murder By Death - Lost River

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A banda americana Murder By Death, criada em Bloomington (Indiana), move-se entre o rock independente, o folk sombrio e a chamada gothic americana. O som do grupo destaca-se pelo uso do violoncelo e pela voz grave de Adam Turla. Lançada em 2012 no álbum Bitter Drink, Bitter Moon, a canção "Lost River" explora a culpa, o luto e a passagem do tempo. A imagem do "rio perdido" não nasce de um caso real, mas surge como uma invenção poética de Turla para representar a morte, o apagamento das memórias e o peso dos erros que cada pessoa carrega ao longo da vida.

O videoclipe, realizado por Gabe Darling (músico da banda nova-iorquina O'Death), acompanha essa atmosfera visualmente. Através de uma estética poética e desolada, com a banda a tocar em cenários despojados e envoltos numa atmosfera quase intemporal, o teledisco reforça os sentimentos de isolamento, a pequenez do indivíduo perante a força da natureza e o peso do destino.
 
A nível de influências, a música inspira-se no imaginário da literatura do Gótico Sulista de autores como Cormac McCarthy, William Faulkner e Flannery O'Connor, onde o pecado, a desolação rural e a decadência moral são temas recorrentes. Nota-se também uma clara alusão ao mito grego do rio Estige - a água como a última fronteira entre os vivos e os mortos. 

No fundo, "Lost River" confronta-nos com a ideia de que o tempo passa, as pessoas partem e o mundo simplesmente continua a girar, tenhamos nós deixado as nossas contas prestadas ou não.

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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Eivør - Spøkilsir - Revenants


Eivør (Eivør Pálsdóttir), uma das artistas mais emblemáticas das Ilhas Faroé — território autónomo do Reino da Dinamarca -, construiu uma identidade artística singular ao fundir as raízes do folk nórdico com dark folktronica, art pop e música ambiente. A canção "Spøkilsir", originalmente lançada em faroês no álbum Slør (2015) e mais tarde adaptada para o inglês sob o título "Revenants" (2017), exemplifica perfeitamente esta estética ao combinar técnicas vocais tradicionais escandinavas, como o kveding e o galdr, com sintetizadores industriais e paisagens sonoras cinemáticas.

Tematicamente, a composição explora o peso do passado e a forma como memórias, traumas e emoções mal resolvidas continuam a assombrar o presente. O termo revenant - referente a um espírito que regressa dos mortos - serve de metáfora para estas presenças internas que habitam o subconsciente, convidando o ouvinte a refletir sobre a aceitação da dor e a coexistência com as próprias sombras em vez da sua negação. No teledisco, esta mensagem ganha vida através das paisagens dramáticas, austeras e enevoadas das Ilhas Faroé, onde a natureza funciona como um espelho da psique humana. A performance de Eivør adquire contornos quase xamânicos e rituais, encenando um confronto poético com figuras veladas que simbolizam o limiar entre o visível e o invisível, a vida e a memória.

Esta abordagem carrega fortes influências literárias e filosóficas. Por um lado, bebe do folclore nórdico e nas sagas medievais, evocando a figura do draugr - o morto que regressa por deixar algo inacabado na terra. Por outro, dialoga diretamente com o conceito de "Sombra" da psicologia analítica de Carl Jung, sugerindo que o crescimento pessoal exige integrar as partes reprimidas da mente, bem como com a angústia existencial da temporalidade abordada por filósofos como Søren Kierkegaard. A obra filia-se ainda no Romantismo Escuro, onde o sublime e o aterrador se entrelaçam para encontrar beleza na melancolia e na impermanência.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Then Comes Silence - Remaker Redeemer

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A canção "Remaker Redeemer" explora temas recorrentes na discografia da banda, nomeadamente a mortalidade, a metamorfose pessoal e a procura de salvação ou reconstrução interior num mundo em decadência. O título contrapõe as ideias de recriação ("Remaker") e de redenção ("Redeemer"), abordando a dor do processo de autodestruição seguido do renascimento emocional. A letra retrata a luta interior contra os próprios demónios e a urgência de encontrar um propósito espiritual ou existencial que traga libertação.

No videoclipe de "Remaker Redeemer", essa narrativa é traduzida através de uma estética fortemente noir e minimalista, saturada de contrastes de luz e sombra (claroscuro). O simbolismo do vídeo apoia-se em rituais de passagem, no isolamento do indivíduo e em metáforas visuais sobre o fim de um ciclo para o início de outro. A imagética soturna e a iluminação dramática sublinham a sensação de claustrofobia emocional e a transição da escuridão para uma iluminação interior.

Sob o ponto de vista literário e filosófico, a obra remete diretamente para o existencialismo de pensadores como Friedrich Nietzsche e Jean-Paul Sartre, focando-se na responsabilidade individual de criar o seu próprio significado diante do absurdo da vida. Há igualmente ecos marcantes da literatura gótica e do romantismo sombrio do século XIX, evocando noções do subliminar, do mortal e do trágico, bem como alusões a figuras mitológicas ou religiosas do redenção e transformação espiritual revisitadas a partir de uma perspetiva secular e melancólica.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

IAMTHESHADOW - Embracing The Fall

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A canção "Embracing The Fall" aborda temas existenciais sobre a aceitação da ruína e a rendição ao inevitável. O significado da composição reside na ideia de que a queda não deve ser encarada com pavor, mas sim como uma transição libertadora e uma oportunidade de redenção através da vulnerabilidade. Trata-se de abraçar o colapso interno ou a decadência das certezas humanas para encontrar paz no silêncio que se segue ao fim de um ciclo.

Esteticamente, o videoclipe reforça esta narrativa através de uma linguagem visual minimalistamente sombria, marcada por fortes contrastes de luz e sombra, jogos de chiaroscuro e sequências contemplativas que simulam uma descida ao inconsciente. A vertigem e o movimento constante de descida no vídeo simbolizam a perda de controlo e o abandono de resistências do indivíduo perante o destino, espelhando visualmente o ato de se deixar cair na escuridão.

No plano das influências literárias e filosóficas, a obra dos IAMTHESHADOW bebe diretamente do Existencialismo de pensadores como Jean-Paul Sartre e Friedrich Nietzsche, explorando a vertigem da liberdade individual e a perda de sentido no mundo moderno. Há igualmente ressonâncias do Romantismo gótico e do Simbolismo de autores como Edgar Allan Poe e Charles Baudelaire, visíveis no fascínio pela beleza do declínio, na introspeção melancólica e na busca por uma catarse espiritual no seio da penumbra.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Johan Agebjörn - Nightbows (feat. R. Missing)


A canção "Nightbows" é uma colaboração entre o produtor sueco Johan Agebjörn (famoso por seu trabalho no duo Sally Shapiro e por influências que vão do Italo disco ao ambient) e o duo norte-americano de synthpop e darkwave R. Missing, baseado em Nova Iorque e liderado pela vocalista Sharon Shy. Do ponto de vista estilístico, a faixa se consolida na interseção entre o Synthwave, a Darkwave e o Dream Pop, fundindo as texturas eletrônicas cintilantes e melancólicas de Agebjörn com os vocais etéreos, frios e soturnos característicos do R. Missing.

O significado da música gravita em torno do próprio conceito que dá título à obra: os nightbows ou moonbows, que são raros arco-íris noturnos formados pela refração da luz da lua. Conceitualmente, a composição explora a ideia de encontrar uma beleza fugidia, rara e quase invisível no ápice da escuridão. As letras abordam o isolamento, a transitoriedade dos sentimentos e a busca por lampejos de significado quando o mundo diurno está adormecido, retratando o estado mental de quem se sente desfasado da realidade comum.

O videoclipe oficial reforça essa atmosfera através de uma estética cinematográfica, lo-fi e minimalista. Utilizando tons escuros, luzes néon difusas, névoa e sombras de cenários urbanos e desérticos, o vídeo simboliza a solidão contemporânea e o abismo entre o espaço físico e a psique dos personagens. A narrativa visual não busca contar uma história linear, mas sim evocar um estado de transe que reflete a caminhada de uma alma errante pela penumbra à procura de algo inacessível.

Em termos de influências literárias e filosóficas, a faixa e a identidade dos artistas dialogam profundamente com o Existencialismo de filósofos como Albert Camus e Jean-Paul Sartre, expressando a sensação de absurdo, o vazio interior e a alienação do indivíduo. Há também forte inspiração no Romanticismo Sombrio e no Decadentismo, lembrando a Poesia Noturna de Charles Baudelaire ou Edgar Allan Poe, onde a melancolia e o lado sombrio da existência são elevados a uma categoria estética superior. Por fim, nota-se uma dimensão fenomenológica inspirada por pensadores como Gaston Bachelard, em que a noite deixa de ser apenas a ausência de luz e passa a ser um espaço poético para a imaginação e a introspecção profunda.