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segunda-feira, 24 de abril de 2023

Petição: Fim das armadilhas para captura de espécies de fauna selvagem


Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República,

Todos os abaixo signatários vêm solicitar a proibição de captura de espécies de fauna selvagem com recurso a qualquer tipo de armadilha e regulamentação que garanta critérios claros e estritos para atribuição de licenças temporárias e excecionais, bem como respetivos mecanismos de controlo, reforçando por essa via a efetiva excecionalidade da sua utilização inscrita de forma genérica na atual lei nacional e diretivas europeias.

A diretiva 92/43/CEE relativa à preservação dos habitats naturais e da fauna e da flora selvagens estabelece a proibição do uso de armadilhas não seletivas nos seus princípios ou condições de utilização de métodos e meios de captura e abate.
De acordo com este princípio o Decreto de Lei (DL) n.º 38/2021, de 31 de Maio, que regulamenta a aplicação da convenção da vida selvagem e dos habitats naturais na Europa, proíbe a captura ou abate de espécimes listadas pelas Convenções de Berna e de Bona com recurso a armadilhas não seletivas, salvo licenciamento excecional a emitir pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF I.P.), obedecendo-se critérios cumulativos de falta de alternativa satisfatória, não prejudicar a manutenção das populações da espécie em causa e o ato ou atividade em causa vise atingir uma das finalidades admissíveis, entre as quais garantir a saúde e a segurança públicas, proteger a flora e a fauna selvagens, evitar graves prejuízos, nomeadamente às culturas, à criação de gado, à apicultura, às florestas, às zonas de pesca e às águas e outras formas de propriedade.

1. A lei da caça de 1967 inscrevia a proibição de “caçar com redes, ratoeiras, laços ou armadilhas de qualquer espécie”. A atual Lei de Bases Gerais da Caça, apesar não incluir a armadilha como possível meio de caça, é omissa relativamente à sua proibição.

2. O DL 38/2021 não descreve nem mensura os critérios para atribuição de licenças excecionais relativamente às referidas “alternativas satisfatórias”, possíveis impactos para “saúde e segurança pública” e “graves prejuízos, nomeadamente às culturas, à criação de gado, à apicultura, às florestas”.

3. É do conhecimento público a atribuição de licenças para efeitos de "correção de densidades populacionais" de espécies cinegéticas sem que seja garantido e atestado qualquer dos atuais critérios genéricos mencionados em lei.

Tendo em conta os ratificados princípios gerais de bem-estar e segurança animal, os signatários desta petição vêm assim requerer legislação que alargue a proibição de captura com recurso a armadilhas a todas as espécies de fauna selvagem e regulamente a atribuição excecional de licenças para controlo de espécies exóticas invasoras com comprovados impactos nos ecossistemas locais, que garanta o mínimo de dor e sofrimento dos animais capturados, estabeleça meios e métodos de abate, encaminhamento das carcaças, locais de colocação de armadilhas e identificação dos responsáveis por verificação e manuseamento da armadilha e animais capturados.

domingo, 1 de janeiro de 2023

1º de Janeiro 2023 - O nosso lugar no Cosmos e a necessidade de Restauro


Esta é uma foto do Observatório Espacial Herschel da Agência Espacial Europeia. Cada um destes pontos quase invisíveis é uma galáxia.

Se estiveres pleno(a) de Luz interior, tudo brilhará à tua volta. Num mundo onde resta pouco tempo às pessoas, procuro, dentro das minhas limitações, doar um pouco de mim, do meu tempo, da minha experiência, das minhas descobertas e do meu amor àqueles que, directa ou indirectamente cruzam o meu caminho (sejam humanos ou seres vivos) e acreditando que, mesmo com obstáculos a serem transpostos e dores que nos surgem ao longo do caminho, desejo Paz e Restauro dos ecossistemas.

E vamos caminhando a nova estrada...espero e desejo com o encantamento inteiro e primordial da criança interior que reprimimos imenso.

Hoje em dia, um pouco por todo o planeta, anunciam-se acções de restauro de florestas para fazer frente à perda de biodiversidade, às alterações climáticas e também a problemas de pobreza, mas são insuficientes, dizem os cientistas que assinam um artigo publicado na Global Change Biology. Estes cientistas aconselham 10 “regras de ouro” a serem seguidas em iniciativas de reflorestação. 

Ler mais: Wilder

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

Fernando Pessoa, ‘Poemas Completos de Alberto Caeiro’.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Cientistas alertam para os problemas das reflorestações em larga escala

Um grupo internacional de investigadores avisa que muitas acções de reflorestação estão a falhar os alvos pretendidos. E advoga 10 “regras de ouro” que devem ser seguidas.


Hoje em dia, um pouco por todo o planeta, anunciam-se acções de restauro de florestas para fazer frente à perda de biodiversidade, às alterações climáticas e também a problemas de pobreza, notam estes cientistas, que assinam um artigo publicado na Global Change Biology.

O Desafio de Bona, lançado em 2011, definiu por exemplo que até 2030 deverão ser restaurados 350 milhões de hectares de floresta. Envolve actualmente iniciativas em mais de 60 países, que abarcam 210 milhões de hectares de terras desflorestadas e degradadas. No entanto, muitas campanhas como esta têm maus resultados.

No âmbito do Desafio de Bona e de campanhas semelhantes, estima-se que “apenas um terço” das acções têm como objectivo o restauro de florestas naturais, exemplificam estes autores, liderados por cientistas dos Royal Botanic Gardens, Kew, no Reino Unido.

E sublinham que “há preocupações crescentes com o facto de várias iniciativas ambiciosas não conseguirem atingir os três objectivos chave de sequestro de carbono, recuperação da biodiversidade e formas de vida sustentáveis”. Tudo porque esses projectos “podem ter definido metas irrealistas e podem não ter percebido as consequências negativas”, avisam.

Mas que maus resultados são esses? Perda de espaço para espécies nativas, devido à destruição de ecossistemas não-florestais; aumento de espécies invasoras; redução de serviços de polinização; redução de colheitas e de produção de comida e também disrupção do ciclo da água, entre outros, enumera a equipa.

“Plantar as árvores certas nos lugares certos deve ser uma importante prioridade para todas as nações, num momento em que encaramos uma década crucial para assegurar o futuro do nosso planeta”, avisou Paul Smith, um dos investigadores autores deste artigo, em declarações à BBC.

Estes cientistas aconselham 10 “regras de ouro” a serem seguidas em iniciativas de reflorestação:

1. Proteger em primeiro lugar a floresta que já existe: “Florestas muito antigas e intactas são um importante sorvedouro de carbono devido à sua estrutura complexa, grandes árvores, solos acumulados e resiliência relativa face aos fogos e às secas”, avisam. Também valiosas são florestas degradadas ou mais recentes.

2. Envolver a população local: É importante envolver as comunidades locais em todas as fases do projecto, uma vez que são essas pessoas que mais benefícios podem obter no futuro.

3. Recuperar o máximo de biodiversidade possível tendo em vista vários objectivos: Restaurar a biodiversidade aumenta o sequestro de carbono e ajuda a obter outros ganhos sócio-económicos.

4. Escolher as áreas apropriadas para reflorestar: A plantação de árvores deve acontecer em zonas onde já houve floresta ou para expandir ou ligar florestas que já existem.

5. Recorrer à regeneração natural sempre que possível: Segundo os autores, se houver condições para isso, pode ser mais barato e eficiente do que plantar árvores. “Funciona melhor em locais ligeiramente degradados ou naqueles próximos de florestas.”

6. Plantar árvores que maximizam a biodiversidade: Plantar sempre uma mistura de árvores, usando o máximo possível de espécies nativas, incluindo aquelas que são raras, endémicas ou estão em risco de extinção. Promover interacções e evitar plantas invasoras.

7. Recorrer a árvores resistentes às alterações climáticas: Dar prioridade a espécies locais, que já estão adaptadas ao clima e às mudanças que poderá ter no futuro.

8. Planear as infra-estruturas com tempo: Usar ferramentas e redes de fornecimento já disponíveis localmente ou integrá-las no projecto, dar formação e recorrer ao conhecimento local.

9. Aprender fazendo: Adaptar os conhecimentos científicos aos conhecimentos obtidos a nível local. Começar de preferência por projectos mais pequenos antes de avançar com acções maiores.

10. Fazer com que dê dinheiro à população local: É importante assegurar que os benefícios económicos chegam a comunidades locais pobres e rurais e que o projecto tem viabilidade económica, advertem os cientistas. Há várias fontes de rendimento sugeridas: créditos de carbono, aposta em produtos que não estão ligados à indústria madeireira (conhecidos em inglês pela sigla NTFP), serviços culturais e serviços ligados à preservação de bacias hidrográficas.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Luxemburgo torna-se o primeiro país da UE a banir glifosato

Fonte: Wort. Lu

Os viticultores luxemburgueses foram os primeiros na União Europeia a renunciar voluntariamente ao uso de 100% de glifosato, no ano agrícola de 2019-2020. Em 2021 o Luxemburgo tornou-se o primeiro país europeu a proibir o glifosato, o herbicida mais utilizado em todo o mundo.

Em janeiro de 2020, o ministro da Agricultura, Viticultura e Desenvolvimento Rural (MAVDR), Romain Schneider, anunciou que a partir de 1 de janeiro de 2021, passaria a ser proibida a utilização de produtos fitofarmacêuticos à base de glifosato em solo luxemburguês. O Grão-Ducado assumir-se-ia, então, como pioneiro da não utilização de fitofarmacêuticos em toda a União Europeia, já que existe aprovação de utilização dos mesmos por todos os Estados Membros até 15 de dezembro de 2022. 

Até ao dia 13 de janeiro deste ano, os dados do ministério comunicados ao Contacto apontam para uma viticultura 100% livre de glifosato desde o ano agrícola de fevereiro de 2019. Os viticultores luxemburgueses foram os primeiros na União Europeia a renunciar voluntariamente ao uso de 100% de glifosato, começando no ano agrícola de 2019-2020. 

Em 2021, pretende-se que 100% dos agricultores (1313) não recorram ao uso de glifosato. Entre 2019 e 31 de dezembro de 2020, 60% dos 1313 agricultores já tinham desistido do glifosato antes da data estipulada para esse corte, incluindo 72 agricultores biológicos (prime bio) e 727 explorações agrícolas que participam no programa de prémios paisagísticos e paisagísticos. 



O acordo da coligação 2018-2023 prevê "o abandono da utilização do glifosato até 31 de dezembro de 2020, em conformidade com as disposições legais pertinentes". E o Governo, em resposta ao Contacto, considera a libertação da utilização de glifosato "um importante passo em frente no compromisso do governo de reduzir significativamente a utilização de produtos fitofarmacêuticos em geral". 

De facto, Plano de Acção Nacional para a Redução de Produtos Fitossanitários visa uma redução de 50% na utilização de produtos fitofarmacêuticos até 2030 e uma redução de 30% nos "grandes transportadores" (os produtos fitofarmacêuticos mais perigosos ou mais utilizados), dos quais os produtos à base de glifosato fazem parte, até 2025. 

Em resposta ao Contacto, o Ministro Romain Schneider congratula-se com o empenho da indústria e está convencido de que "a proibição da substância ativa glifosato é um passo decisivo para uma abordagem sustentável que vai ao encontro das ambições de uma utilização moderna e amiga do ambiente dos produtos fitofarmacêuticos". 

"Trabalhar sem glifosato, enquanto os seus concorrentes europeus e os dos principais países agrícolas fora da União Europeia ainda têm este instrumento, é de fato um verdadeiro desafio para os nossos produtores. Em particular, as técnicas de sementeira direta e de redução da lavoura estão a tornar-se mais difíceis de alcançar", explica. "O mesmo se aplica ao controlo de certas ervas daninhas. No entanto, o facto de 100% dos viticultores e mais de 60% dos agricultores terem renunciado voluntariamente ao glifosato antes do abandono definitivo da utilização do glifosato no Luxemburgo mostra que os nossos produtores estão preparados e prontos para aceitar este desafio", concluiu. 

Segundo o ministério da Agricultura Viticultura e Desenvolvimento Rural, com vista a este abandono, os interessados, tais como agricultores, viticultores, horticultores e detentores de autorizações de cultivo foram informados antecipadamente em 2020 do calendário das medidas planeadas que incluía a retirada da autorização de introdução no mercado de produtos fitofarmacêuticos que contenham a substância ativa glifosato até 1 de fevereiro de 2020, bem como o prazo para o escoamento dos produtos existentes concedido até 30 de junho de 2020 e o "período de graça" para a utilização destes produtos por utilizadores profissionais e/ou privados até 31 de dezembro de 2020. 

Segundo o ministério da Agricultura, o governo apoiou os agricultores e viticultores que abandonaram voluntariamente o glifosato entre o outono de 2019 e o final de 2020. "Os agricultores que já renunciaram voluntariamente à utilização de produtos fitofarmacêuticos à base de glifosato no ano agrícola de 2019/20 serão compensados ao abrigo do prémio de conservação da paisagem e da natureza", lê-se. 

Assim, recebem uma compensação adicional de 30 euros por hectare para terras aráveis, 50 euros para terras vinícolas e 100 euros para árvores de fruto. 

Além disso, os viticultores que se comprometam a renunciar voluntariamente a qualquer utilização de outros herbicidas nas suas vinhas serão compensados entre 500 e 550 euros por hectare, dependendo da inclinação do terreno. 

Segundo resposta ao Contacto, o ministro pretende manter uma compensação económica em 2021 pela perda económica causada pelo abandono do glifosato, comparável à de 2020. Haverá ainda o desenvolvimento de projetos de investigação para o desenvolvimento de alternativas ao glifosato financiados pelo Ministério da Agricultura para a "Identificação e desenvolvimento de alternativas ao glifosato". 

Este projeto coordenado pela Câmara de Agricultura do Luxemburgo em colaboração com o Instituto de Ciência e Tecnologia do Luxemburgo (LIST) visa testar alternativas químicas e mecânicas ao controlo de ervas daninhas com o herbicida glifosato. Os métodos alternativos devem, por um lado, assegurar um controlo eficaz das ervas daninhas problemáticas e, por outro lado, não ter qualquer impacto negativo na segurança do rendimento ou no nível de qualidade da cultura. Além disso, será avaliado qual a influência que o abandono do glifosato terá nas práticas agrícolas.

Os efeitos indiretos da descontinuidade do glifosato nos custos de produção da operação serão também estimados.

O objetivo do projeto, proposto pela Câmara de Agricultura do Luxemburgo, é criar uma rede de explorações-piloto para a demonstração, avaliação e implementação de técnicas inovadoras e ajudas à tomada de decisões no domínio da protecção das plantas. 

Os resultados destes dois "importantes projetos de investigação" serão avaliados em 2022.
 
Como é controlada a não utilização do glifosato e qual é a penalização por incumprimento? 

Ao Contacto, o ministério explicou que a unidade de controlo do MAVDR controla as explorações agrícolas com base numa análise de risco, e também quando há um relatório de infracção. Este serviço verifica, entre outros, se os critérios eco-ambientais (incluindo a não utilização do glifosato) são respeitados, uma vez que estes critérios são uma condição para a concessão de ajuda direta. 

Estas verificações incluem, por exemplo, se ainda existem latas de glifosato nas áreas de armazenamento das empresas agrícolas e o estado dos campos e das vinhas, uma vez que a utilização do glifosato é facilmente reconhecível no campo. Se o agricultor ainda utilizar glifosato, é penalizado e 5% da ajuda direta por hectare é subtraído. Em caso de reincidência, a multa aumenta, podendo mesmo levar à exclusão total da ajuda (em caso de reincidência). 

Desafio para os agricultores 

Guy Reiland, professor e membro do conselho escolar do "Lycée Technique Agricole", no Luxemburgo, comenta que a nova geração de educadores e agricultores, tornaram-se recetivos e sensíveis a este assunto.

"O objetivo da nossa escola é transferir conhecimentos de agricultura integrada (durável) bem como de agricultura biológica para os nossos estudantes e agricultores no Luxemburgo. De acordo com as nossas crenças, para toda a sociedade, incluindo os nossos agricultores, esta mudança é positiva", escreve.

A agricultura integrada é definida como um sistema biologicamente integrado, que integra os recursos naturais num mecanismo regulado nas atividades agrícolas para conseguir a máxima substituição dos factores de produção fora da exploração e sustentar o rendimento agrícola.

Segundo o professor, a escola e as novas gerações de agricultores têm uma mentalidade mais ecológica para a agricultura. "Contudo, não devemos esquecer que os agricultores não são realmente pagos pela soma dos seus serviços ecológicos prestados, mas apenas pelos produtos que vendem", alerta. 

O grande desafio para a família de um agricultor é gerar rendimentos suficientes para viver decentemente com a sua família no seio de uma sociedade de elevado rendimento como o Luxemburgo. "Infelizmente, os nossos agricultores têm de vender os seus produtos nos mercados comuns e os preços são bastante idênticos no Luxemburgo aos dos países com baixos rendimentos. Este é o principal obstáculo quando se trata de introduzir e convencer os agricultores para abordagens mais ecológicas na agricultura", explica. 

Para Guy Reiland "há certamente força de vontade suficiente, mas não temos condições como a Suíça, por exemplo, no que diz respeito ao pagamento de preços mais elevados nos mercados pelos seus compromissos com os agricultores locais".

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Glifosato: Assine agora ou nunca (ou espere pelo menos 10 anos)

PARA ASSINAR CLIQUE AQUI

A Comissão Europeia deu indicações há menos de um mês de que pretende autorizar o herbicida glifosato por mais dez anos. O glifosato (mais conhecido por Roundup, ou Spasor) é o herbicida mais vendido no mundo e em Portugal, para além de uma enorme fonte de lucro para a Monsanto e outras empresas.

Embora a Organização Mundial de Saúde afirme desde 2015 que o glifosato causa cancro em animais de laboratório, a ECHA e a EFSA (autoridades europeias da química e da segurança alimentar) deram luz verde à sua reaprovação. Esses pareceres só foram possíveis porque se basearam em estudos secretos realizados pela própria indústria (!) e em artigos científicos públicos, aparentemente independentes, em que os autores tinham sido discretamente contratados pela Monsanto para chegar à conclusão de que o glifosato era totalmente inócuo. A existência destas ligações perigosas só em 2017 começou a vir a público, graças a numerosas ações judiciais em curso nos Estados Unicos ondedocumentos confidenciais foram tornados públicos por ordem do tribunal.

Neste momento já estão em curso diversas medidas oficiais para restringir o glifosato: a Bélgica pretende proibir o uso por não profissionais, a França já proibiu a aplicação de glifosato em espaços públicos e até em Portugal foram tomadas algumas medidas para proteger zonas urbanas mais sensíveis.

A contaminação do ambiente e dos alimentos - e portanto das próprias pessoas - pelo glifosato é bem conhecida. No caso português, num pequeno conjunto de análises realizadas a voluntários, verificou-se que 100% das pessoas apresentava glifosato na urina e que a concentração média dessa contaminação estava cerca de vinte vezes acima dos valores alemães.

Neste momento já não basta restringir o glifosato: é preciso proibi-lo. Há evidências suficientes para justificar medidas que efetivamente protejam a saúde de todos. E o que não se sabe - por exemplo se o glifosato causa ou não desregulação hormonal nas pessoas - também justifica essas medidas. A Comissão Europeia não tem legitimidade para reautorizar um herbicida sem primeiro ter sequer definido o método que irá avaliar se essa desregulação hormonal existe... e no entanto é exatamente isso que se avizinha.

Os cidadãos portugueses e europeus não podem, sozinhos, proibir o glifosato, mas podem contribuir para que isso aconteça. Está em curso uma Iniciativa de Cidadania Europeia que obriga formalmente a Comissão Europeia a propor legislação que ponha fim ao glifosato na União. Para a Iniciativa ser válida tem de reunir pelo menos um milhão de assinaturas (neste momento já há mais de 700 mil) e atingir um mínimo de adesões em pelo menos 7 dos 28 Estados Membros.
Portugal precisa de um mínimo de 16 mil assinaturas... e ainda faltam 12 mil. Embora a recolha possa decorrer legalmente até ao final de 2017, na prática ela tem de terminar em meados de junho, visto que nessa altura a Comissão deverá tomar a sua decisão final. O tempo urge!

Por favor assine aqui para juntar a sua voz ao protesto. Vale a pena! Também pode colaborar divulgando esta postagem e partilhando o apelo nas redes sociais. Se preferir, pode a Plataforma Transgénicos Fora: contacto@stopogm.net pedindo o formulário de adesão em papel e, depois de preenchido, enviar para a morada indicada no mesmo.

E NÃO SE ESQUEÇA DE ASSINAR

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Frente do Algarve Livre de Transgénicos - Abelhas estão a Morrer


Abelhas estão a morrer

Texto publicado na Revista O Apicultor Jul/Set 07

Recentemente a União Europeia e Portugal autorizam a instalação de culturas agrícolas transgénicas, nomeadamente o milho, que se juntou à colza transgénica já anteriormente cultivada em França.

Muito embora os benefícios económicos da sementeira do milho transgénico em território nacional sejam ainda questionáveis, na realidade o interesse por parte dos agricultores Portugueses tem aumentado como se verifica pelo aumento dos pedidos de licenças de sementeira.

O genoma do milho transgénico foi artificialmente modificado de modo a sintetizar proteínas com acção pesticida idênticas às presentes na bactéria Bacillus thuringiensis, usado desde há vários anos no combate a diversas lagartas, não só do milho mas de outras culturas. Este pesticida, que é especifico só para lepidópteros (borboletas e as suas lagartas), não produz , aparentemente, qualquer efeito prejudicial nos restantes insectos de outras famílias, nomeadamente himenópteros (abelhas).

Pela aparente segurança que o milho transgénico garante os ambientalistas não têm conseguido convencer totalmente os governantes a restringir o seu cultivo. As abelhas em particular não mostram grande interesse pelos campos de milho quando existem outras plantas boas fontes de pólen próximas e que garantem a sua subsistência. Porém, as abelhas chegam a alimentar-se quase exclusivamente de pólen de milho quando em caso de carência alimentar ou quando os apiários se situam em áreas de grandes plantações deste cereal, como provou Louveaux nos celebres trabalhos da década de 60. Este investigador encontrou apiários na zona de Landes, em França, a satisfazer cerca de 90% das suas necessidades em pólen com as flores milho, prolongando-se esta situação durante quase um mês até ao inicio da floração da Caluna vulgaris no final de Agosto.

Num estudo das cargas polinicas das abelhas que conduzimos, durante um período de 3 anos (2002-2004), verificou-se, na freguesia de Cesar (distrito de Aveiro, concelho de Oliveira de Azeméis), que o pólen de milho chegou a satisfazer, em algumas semanas, 17% das necessidades das abelhas(figura 1) o que representou nas colónias estudadas aproximadamente 0,5 kg. Actualmente, graças ao recurso a modernas tecnologias, concluiu-se que as abelhas podem fazer colheitas até 10km e forragear em média num raio de 6km (e não 3 como se acreditava), o que significa que a area util de uma colmeia anda em torno de cerca de 113km2.

Quanto à dispersão pelo vento o alcance do fluxo de pólen de milho tem vindo a ser subestimado pois algumas entidades oficiais, embora reforçadas por trabalhos científicos consideram que uma distancia de 300 a 1000m em relação a outras culturas não transgénicas é suficiente para evitar o cruzamento entre plantas porém, como foi observado no nosso trabalho, mesmo numa zona onde a área cultivada com milho disponível, mesmo transgénico, este será colhido pelas abelhas em grandes quantidades, muito superiores ás distancias de segurança geralmente estabelecidas, sendo, por consequência, possível que seja transportado até longas distancias.

Deste modo o pólen de culturas transgénicas, como o milho, algodão e colza, pode chegar a polinizar plantações bastante afastadas ou ser armazenado nos favos das abelhas. No ano 2000 a opinião pública dos Estados Unidos da América foi abalada por uma serie de trabalhos científicos afirmando que as lagartas da borboleta monarca (Danaus plexippus), uma da “bandeiras dos ecologistas norte americanos, podiam ser afectadas indirectamente se ingerissem, mesmo em pequenas quantidades, o pólen oriundo de milho transgénico depositado em ervas daninhas nas borboletas dos campos.

De facto, o impacto desta noticia abalou, embora momentaneamente, a credibilidade da alegada segurança das plantas modificadas geneticamente. O argumento utilizado para defender a plantação de milho transgénico foi de que quando o milho se encontrava em floração a maioria das lagartas já se tinham transformado em borboletas e por conseguinte o risco para esta população seria muito baixo.

A abelha (Apis mellifera) e outros polinizadores trabalham activamente esta planta, usando-a como fonte de pólen, apesar do seu conteúdo em proteína (cerca de 15%) ser considerado relativamente baixo. Como o milho é uma das últimas plantas a florir antes do período invernal o seu pólen poderá ficar na colmeia por vários meses até ser totalmente consumido.

Nas colmeias é frequente existirem, em autentica simbiose com as abelhas, pequenas borboletas a que chamamos traças da cera, geralmente das espécies Achroia grisella e Galeria mellonella. Como é sabido as traças só são encontradas nas colmeias quando as colónias estão fracas e em circunstância alguma são directamente prejudiciais às abelhas.

Embora sejam geralmente consideradas como pragas dos favos armazenados a sua presença na colmeia torna-se benéfica uma vez que não só favos velhos e inutilizados (principalmente em colónias selvagens) como, em caso de morte, destroem toda a cera restante que tenha contido larvas e pólen. Deste modo desempenham um papel importante no controlo de diversas doenças microbianas que afectam as abelhas e outros insectos.

Caso assim não fosse, se os favos ficassem por períodos muito longos no ambiente, seriam inexoravelmente um foco de doenças, pelo que as traças da cera são, sem dúvida, insectos úteis para as abelhas e por conseguinte para o homem.

Muitas vezes as epidemias de podridão loque americana e europeia poderiam ser evitadas caso os apicultores não insistissem em usar a cera das colónias mortas quer misturando com cera novas quer reutilizando os seus quadros. Deste modo a doença em vez de se restringir à colónia afectada, como sucede na natureza alastrará às demais colónias pois a acção limpadora das traças foi impedida.

Com a introdução de culturas transgénicas, e sem estarmos conscientes disso, estamos a desequilibrar o sistema ecológico ainda existente entre os polinizadores e particularmente as abelhas e as traças da cera.

As traças da cera são sensíveis, como os demais insectos da sua família, ao pólen de milho transgénico, chegando a 100% de mortalidade quando o ingerem, mesmo em pequena quantidade.

Surge portanto como natural que sempre que houver pólen de milho transgénico armazenado na colmeia as traças da cera sejam incapazes de a decompor e deste modo ficará por longos períodos no ambiente representado, assim, além de um distúrbio ecológico, um problema para a apicultura e para as populações de insectos polinizadores em geral.

O futuro o dirá!

Os nossos agradecimentos pelo apoio da Estação Experimental de Hortofloricultura da DRAEM, em particular ao Srº Eng.º Henrique Arteiro e à Fundação para a Ciência e Tecnologia (bolsa BD/7049).

O presente texto constitui uma adaptação do artigo Bt transgenic maize pollen and the silent poisoning of the hive publicado pelos mesmos autores no Journal of Apicultural Research 46: 57 – 58 (2007).

Frente do Algarve Livre de Transgénicos Telf. e Fax 282 459 242