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terça-feira, 17 de março de 2026

Rede social X, de Elon Musk, é o principal canal de desinformação contra a União Europeia e os políticos são o principal alvo


A rede social X é o principal canal utilizado para atividades de desinformação contra a União Europeia e os políticos são o principal alvo, refere um relatório hoje divulgado pelo serviço diplomático europeu.

Num relatório intitulado “Ameaças de ingerência externa e de manipulação de informação”, o Serviço Europeu de Ação Externa (SEAE) indica que, dos cerca de 43 mil conteúdos relacionados com desinformação que analisou em 2025, 88% passaram pela rede social X, detida pelo magnata norte-americano Elon Musk, muito acima da aplicação de mensagens Telegram (3%) ou do Facebook (2%).

“A presença de redes de comportamento inautêntico coordenado, a facilidade de criação de contas falsas, mas também o acesso mais fácil a dados explica esta concentração. A maioria das grandes plataformas de redes sociais restringe o acesso a dados que permitiriam avaliar a dimensão da manipulação de informação”, explica o SEAE.

Apesar da preponderância do X, o relatório refere que, na maioria das campanhas de desinformação, os protagonistas tendem a procurar operar ao mesmo tempo em várias plataformas, com diferentes contas, combinando publicações nas redes sociais e mensagens em aplicações como o WhatsApp ou Telegram.

“O objetivo é infiltrar-se no espaço de informação para aumentar a visibilidade e credibilidade do conteúdo, ao mesmo tempo que se visam públicos específicos com base em fatores sociodemográficos e geográficos”, refere-se.

De acordo com o relatório, o recurso à inteligência artificial (IA) está a tornar-se cada vez mais premente nas campanhas de desinformação dirigidas contra a UE, verificando-se um aumento de 259% quando comparado com 2024.

“Os atores russos e chineses implementaram totalmente ferramentas de IA para acelerar a produção de conteúdos e aumentar as atividades de ingerência com menos recursos”, lê-se no relatório, em linha com a análise de um responsável europeu que indicou que a IA está a tornar estas operações muito mais baratas.

Na análise que fez a estas campanhas, o SEAE que a maioria dos ataques (66%) é dirigido contra políticos, com destaque particular para os presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e de França, Emmanuel Macron, o chanceler alemão, Friedrich Merz, ou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

O SEAE aponta que, na maioria dos casos, as campanhas contra estas personalidades são sobretudo “ataques àquilo que um indivíduo representa (como valores democráticos ou princípios)” e uma tentativa de “instrumentalizar a plataforma que têm para alcançar públicos específicos”.

A nível de organizações visadas por estas campanhas, as entidades políticas voltam a estar em primeira linha, com 36% dos ataques, seguidas pelos órgãos de comunicação social (23%) e organizações militares ou de segurança (22%).

“Os setores políticos e de segurança foram especialmente visados, com o objetivo de minar a confiança nas capacidades de Defesa. Da mesma maneira, os protagonistas destas ameaças identificaram o setor dos media como sendo crucial para a democracia e, por isso, dirigiram-lhe narrativas depreciativas, tentativas de personificação e campanhas diretas de difamação”, explica-se no relatório.

Os períodos eleitorais são os contextos mais utilizados para campanhas de desinformação, assim como manifestações populares ou distúrbios, que são explorados para “alimentar perceções de caos, medo e desordem, geralmente contra administrações locais”.

“Momentos de elevada tensão e carga emocional são vistos pelos atores destas ameaças como vulnerabilidades que lhes permitem atingir os seus públicos-alvo, influenciar o seu raciocínio e amplificar preconceitos cognitivos existentes”, refere-se.

O SEAE ressalva que o relatório não deve ser “interpretado como exaustivo” em termos de ameaças de desinformação, uma vez que deriva de uma monitorização que não cobre “todas as regiões e línguas” e “só representa uma porção pequena das atividades destes atores”.

domingo, 10 de agosto de 2025

Vergonha


Miguel Sousa Tavares in "Expresso" de 07/08/2025

Numa jogada de mau gosto, o Hamas decidiu publicar fotografias de dois reféns israelitas em seu poder, famélicos e abatidos, acompanhadas da legenda “eles comem o mesmo que nós”, numa referência à estratégia de fome adoptada pelo Governo de Israel em Gaza. Netanyahu, como era de esperar, saltou logo sobre a oportunidade, acusando o Hamas de barbárie e anunciando a total ocupação de Gaza: esperava, talvez, que a fome que ele inflige a três milhões de pessoas (proibindo-as inclusivamente de pescar no seu mar!) não afectasse a alimentação dos reféns israelitas. E, em Bruxelas, Kaja Kallas, a responsável pela política externa da UE e que jamais teve uma palavra a condenar o genocídio em Gaza, acompanhou Netanyahu na sua indignação e exigiu a imediata libertação dos reféns, sem pedir nada em troca da parte de Israel. Num momento em que finalmente se levantam vozes dentro de Israel a condenar a ofensiva em Gaza — vozes de antigos chefes militares e de segurança, de organizações humanitárias ou do escritor David Grossman, falando também em genocídio —, a UE, enquanto organização, continua a fingir que não estamos a assistir em Gaza à mais sinistra limpeza étnica levada a cabo por um Governo dito democrático. Mas, como disse Yuli Novak, da organização israelita B’Tselem, “isto não poderia acontecer sem o apoio do mundo ocidental”.

Dentro da UE e escudado na sua inércia, Portugal tem sido um caso notável de hipocrisia e cobardia. Eu chego a ter vontade de rir ao assistir aos contorcionismos explicativos do ministro Paulo Rangel para tentar não ter posição sobre o assunto, fingindo que a tem, numa patética estratégia de “agarrem-nos senão reconhecemos o Estado da Palestina”. Primeiro, confiante na inércia de toda a União, Rangel afirmava que o reconhecimento, a existir, deveria ser uma decisão conjunta dos 27. Os reconhecimentos unilaterais feitos por Espanha e Irlanda não o abalaram, mas ficou claramente sem chão quando Macron anunciou que a França ia reconhecer o Estado palestiniano e a Inglaterra fez o mesmo. Aí, Rangel fez uma inolvidável intervenção na ONU, em que garantiu à assembleia mundial que Portugal tinha detectado uma alteração histórica na posição palestiniana, a qual abria caminho a um possível reconhecimento. Em suma, enquanto o PM inglês colocava exigências a Israel sob a ameaça de reconhecer a Palestina independente, o nosso ministro partia do princípio oposto para sustentar, sem se desmanchar, que a Autoridade Palestiniana aceitara as exigências de Luís Montenegro para poder ser reconhecida por Portugal como Estado. Note-se: a Autoridade Palestiniana na Cisjordânia e não o Hamas em Gaza. Entre essas exigências de Montenegro, Rangel destacou a reforma das instituições palestinianas e a realização de eleições: patéticas demandas para quem acabava de regressar de uma cimeira da inútil CPLP realizada na Guiné-Bissau — um país cujo Presidente amordaçou a democracia no seu país e governa sem ir a eleições — e antes de a chefia da mesma CPLP ser transmitida à Guiné Equatorial — onde jamais houve eleições e persiste há décadas uma ditadura familiar, brutal e corrupta como nenhuma outra. Sim, Portugal é hoje um exemplo eloquente da podridão moral em que vegeta a União Europeia, governada por políticos sem respeito pelo passado e pelos valores europeus.

Esta União Europeia envergonha hoje qualquer europeu que antes se orgulhava de pertencer a um espaço político onde a ética e a coerência de princípios contavam. Na cimeira da NATO, a União, com a honrosa excepção da Espanha, ajoelhou-se aos pés de Trump, aceitando gastar 5% do PIB em armas — e americanas, de preferência. Fica como símbolo dessa capitulação o português Luís Montenegro tentando dar “uma palavrinha” particular a Trump, dizendo-lhe que éramos velhos amigos dos Estados Unidos e sugerindo alguma misericórdia para connosco na rajada das tarifas, e o português António Costa, presidente do Conselho Europeu, acalmando as indignações surdas com a previsão de que o que a União cedera nas armas pouparia nas tarifas.

Viu-se. Na Escócia, Ursula von der Leyen começou por ser ainda mais humilhada por Trump do que o fora por Erdogan. Na Turquia, não tinha cadeira para se sentar, no clube de golfe privado de Donald Trump, na Escócia, para onde foi convocada, teve uma cadeira para se sentar enquanto esperava longamente que o Presidente americano acabasse um jogo de golfe com o filho e tivesse disponibilidade para a receber. Assim tratada como serventuária — ela e a Europa que representa —, não admira que depois tivesse sido sujeita a uma capitulação total e humilhante pelo abusador profissional americano. Von der Leyen aceitou um aumento das tarifas sobre as exportações europeias para os Estados Unidos de 15%, quase mil vezes o que vigorava e em troca de tarifas de 0% para as exportações americanas dirigidas à Europa. Desistiu de taxar as tecnológicas americanas ou de minimamente controlar os seus abusos. Aceitou comprar 750 mil milhões de dólares de energia aos Estados Unidos, assim interrompendo a estratégia de descarbonização em que a UE estava a ser pioneira e substituindo-a por uma total dependência energética de um só país — muito para lá daquilo que se criticava aos países europeus que compravam energia à Rússia. Agora, os EUA passam a determinar a política energética da Europa, aumentam livremente os preços, e Trump e os seus amigos do petróleo, negacionistas das alterações climáticas, encontram um mercado garantido à medida das suas ambições. Mas a senhora foi ainda mais longe, comprometendo-se a investir 600 mil milhões de dólares nos Estados Unidos e a gastar em armas americanas o grosso do investimento a ser levado a cabo para atingir os tais 5% do PIB em armamento. Se tudo isto fosse exequível e executado, acabava a Europa que conhecemos: livre, próspera, orgulhosa do seu sistema social. Mas, mesmo sem o podermos ainda dizer, Von der Leyen, que já enxovalhara a União e os valores europeus com o seu silêncio cúmplice perante o genocídio em Gaza, rematou agora a sua prestação prostrando-se aos pé de um fora-da-lei internacional e dando-lhe tudo o que ele queria, na esperança de o conseguir apaziguar. Mas até nisso esta funesta alemã que nos calhou em sorte está errada: quando se cede uma vez perante a intimidação e a chantagem, está escrito que se terá de ceder mais vezes. Trump é um vampiro que precisa de se alimentar todos os dias do sangue dos fracos, dos indefesos, dos que se ajoelham e dos que ele inveja.

Os tempos vão maus e mesmo incompreensíveis para quem gostaria de se orgulhar de ser português e europeu. Resta-nos ter vergonha: pode ser que eles reparem.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

A União Europeia perdeu a alma e o rumo


Na segunda década deste século tentei compreender se a UE poderia sobreviver às consequências da consistente oposição, liderada pela Alemanha da chanceler Merkel, à indispensável reforma da união monetária do euro.

A minha aposta consistia em defender a relação entre a criação de um verdadeiro orçamento federal e a edificação de uma união política, capaz de gerar um governo europeu, com pelo menos o mesmo grau de legitimidade democrática e constitucional que existe nos governos dos Estados-membros. Infelizmente, a realidade, que deve ser sempre a pedra de toque do conhecimento objetivo, mostrou-me que a eventual bondade das minhas propostas – apoiadas na coerência da doutrina e nas lições históricas de sucesso – não colhiam junto dos decisores e atores europeus, individuais e coletivos.

Em 2014 e 2019 publiquei dois livros sobre o declínio do projeto da unificação europeia (1). A UE estaria condenada a perder relevância e coesão interna. A recusa do federalismo iria conduzir a um precário “sistema internacional europeu”, uma “nova balança da Europa”, na qual a zona euro, em vez de cola para uma união política posterior, se tornaria, progressivamente, num fator de conflito e desagregação cada vez mais ameaçador.

Se antes do começo da guerra na Ucrânia, a UE já tinha perdido a alma, isto é, um sentido de propósito com um valor maior do que a simples rotina do business as usual, hoje, mais de três anos de sangrento conflito revelam-nos que a desorientação reinante nas três capitais europeias principais (Bruxelas, Berlim, Paris, acicatadas por Londres, que com o cheiro a pólvora parece regressado ao período anterior ao Brexit), está a degenerar num tóxico delírio de impotência e belicismo que nos ameaça arrastar para a autodestruição física.

A UE oscilou ao longo dos trinta anos que precederam a guerra da Ucrânia, entre ser um mero figurante, ou um cúmplice de segunda linha da continuada determinação dos EUA para usar a Ucrânia como bastião da sua hegemonia militar na Europa. Os documentos dizem-no sem equívocos, desde o livro de Zbigniew Brzezinski (The Grand Chessboard, 1997) até ao relatório RAND, contendo uma estratégia de aceleração da provocação a Moscovo em torno da Ucrânia (Extending Russia, 2019): com a anuência dos Estados europeus membros da NATO, os EUA prosseguiram com a expansão da Aliança Atlântica, e com a tentativa permanente de nela integrar Kiev, com vista a uma política de mudança de regime e fragmentação da Rússia, como etapa preliminar à contenção e enfrentamento da China.

Quando a Rússia passou da diplomacia ao uso da força militar para defender o seu interesse nacional, a UE não só seguiu incondicionalmente a resposta dos EUA, como foi num crescendo de agressividade, sem se preocupar com os danos económicos e sociais imediatos e as consequências estratégicas negativas de longo prazo de transformar a Rússia num inimigo. Seguiram-se três anos de escalada, com a subida de degraus que nos aproximaram de um conflito direto da NATO com a Rússia.

A vitória de Trump mudou as regras do jogo. Washington parece querer parar a guerra na Europa o mais depressa possível. Percebeu que continuar a escalada, seria um convite à III Guerra Mundial. Trump, por outro lado, mostrou sem máscaras as cartas do jogo geopolítico e militar americano: o que moveu os EUA não foram valores altruístas, mas interesses materiais grosseiros (acesso a matérias-primas estratégicas, encomendas para a indústria de armamento, ocupação do vazio deixado pelas sanções à Rússia na venda de combustíveis fósseis norte-americanos à Europa).

Contudo, aquilo que irritou os dirigentes europeus não foi isso, nem sequer as ameaças de Trump à integridade territorial da Dinamarca, ou do Canadá, mas sim o desejo norte-americano de acabar com uma guerra na Ucrânia, que, a continuar, transbordará para a totalidade do território europeu.

A guerra submete sempre as lideranças políticas a uma prova de fogo. O conflito que devasta a Ucrânia e partes da Rússia, mostrou a perigosa combinação de ignorância e arrogância – nas questões de estratégia militar e relações internacionais – de figuras como Ursula von der Leyen, Macron, Starmer, para não falar de Mark Rutte, Kaja Kallas ou António Costa. Num artigo recente no Público (14.03. 2025), Ana Cristina Leonardo recorda a total impreparação de von der Leyen: em abril de 2022 afirmava que “a falência do Estado russo é apenas uma questão de tempo”; em setembro desse ano declarava, com um sorriso de troça: “os militares russos estão a tirar fichas dos seus frigoríficos para os seus equipamentos militares, porque ficaram sem semicondutores”; em fevereiro de 2024 chegou ao ridículo de afirmar que a guerra com a Rússia tinha sido boa para a ecologia europeia, auxiliando a transição energética!

O panorama nas capitais nacionais, com escassas exceções não é melhor. Alguém consegue imaginar Luís Montenegro a dizer qualquer coisa, com a densidade de um pensamento, sobre o que significa para o futuro de Portugal a continuação desta guerra?

O belicismo irracional da UE é um sinal do seu colapso moral e intelectual. Significa também que na Europa o voluntarismo e o decisionismo arbitrários substituíram o respeito pelas leis, mesmo das leis constitucionais. Vejamos dois exemplos.

Apesar de o Parlamento Europeu (PE) ter sido afastado pela Comissão Europeia da discussão do plano de rearmamento de 800 mil milhões de euros, através do truque de usar o artigo 122º do Tratado de Funcionamento da União Europeia (equiparando, com esse ardil, a corrida aos armamentos à resposta a um “desastre natural”), o PE não deixou de aprovar uma resolução que constituiria uma autêntica declaração de guerra à Rússia, caso Moscovo ainda considerasse a UE como uma entidade credível (2).

De salientar que desde o começo da guerra, a CE atua em matéria de segurança e defesa em constante transgressão das suas competências (artigo 24º do TFUE).

Outro exemplo do desrespeito pelo quadro legal ocorreu na Alemanha. A 18 de março, o Parlamento alemão efetuou uma revisão rápida da Constituição federal, para permitir que os artigos limitando as dívidas do governo federal e dos governos estaduais (introduzidos em maio de 2009), fossem suspensos para permitir a criação de um fundo especial, num horizonte de 12 anos, ascendendo a 500 mil milhões de euros, a obter nos mercados da dívida, destinados essencialmente a revitalizar a indústria de armamento, as forças armadas e infraestruturas. Para além de juntar a uma economia em declínio um aumento exponencial da dívida pública germânica, a urgência na aprovação desta revisão, antes da entrada em funcionamento do novo Bundestag eleito em fevereiro, ficou a dever-se a mais um motivo de baixa política: com o novo parlamento, esta proposta não teria sido aprovada, pois a nova composição do Bundestag impediria a revisão de obter os dois terços dos votos necessários para uma alteração constitucional...

Os focos de tensão mundial são imensos. Israel quebrou o cessar-fogo com o Hamas e prossegue o massacre de civis desarmados. Há fumos de uma agressão dos EUA e de Israel contra o Irão. A matança de combatentes prossegue na Ucrânia. E a União Europeia, em vez de contrariar estas tendências disruptivas, junta-se a elas trocando a sua alma original de força promotora da paz e dos direitos humanos à escala global, pela pulsão de morte, enraizada numa russofobia fanática que nos ameaça devorar a todos.

Por Viriato Soromenho Marques

(Publicado no Jornal de Letras, edição de 2 de abril de 2025)

Referências:

  1. Os meus livros, publicados na editora Temas & Debates/Círculo de Leitores, foram os seguintes: Portugal na Queda da Europa (2014) e Depois da Queda. A União Europeia entre o Reerguer e a Fragmentação (2019).
  2. European Parliament resolution of 12 March 2025 on the white paper on the future of European defence (2025/2565(RSP).

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Portugal é o único país a alcançar presidência da Comissão Europeia, Conselho e ONU


Com a eleição do ex-primeiro-ministro António Costa pelos chefes de Estado e de Governo da União Europeia, Portugal torna-se o único país a ter alcançado a liderança do Conselho Europeu, da Comissão Europeia e das Nações Unidas.

O ex-primeiro-ministro português, o socialista António Costa, foi ontem eleito pelos chefes de Estado e de Governo da União Europeia como presidente do Conselho Europeu para um mandato de dois anos e meio, foi anunciado em Bruxelas.

De acordo com fontes diplomáticas, a decisão foi adotada numa reunião do Conselho Europeu, em Bruxelas, na qual os líderes da União Europeia (UE) propuseram também o nome de Ursula von der Leyen para um segundo mandato à frente da Comissão Europeia, que depende porém do aval final do Parlamento Europeu, e nomearam a primeira-ministra da Estónia, Kaja Kallas, para Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, sujeita à eleição pelos eurodeputados de todo o colégio de comissários.

Um feito que o primeiro-ministro, Luís Montenegro, atribuiu esta semana a uma “capacidade extraordinária de Portugal”, que alcançou “apoio e reconhecimento suficientes para o desempenho de altas funções em organizações internacionais variadas e de reputada importância”.

O antigo chefe do Governo socialista António Guterres desempenha atualmente o segundo mandato como secretário-geral das Nações Unidas, cargo que iniciou em janeiro de 2017.

José Manuel Durão Barroso, antigo primeiro-ministro social-democrata, liderou a Comissão Europeia durante dois mandatos, entre 2004 e 2014.

“E houve outras alturas em que tivemos lugares importantes”, salientou Montenegro, dando os exemplos do antigo comissário europeu António Vitorino (PS) à frente da Organização Internacional das Migrações (2018-2023), da presidência do Eurogrupo exercida pelo antigo ministro das Finanças do PS Mário Centeno (2018-2020), ou, atualmente, do antigo ministro social-democrata Jorge Moreira da Silva, que dirige a UNOPS (agência da ONU para as infraestruturas e gestão de projetos).

“É o reconhecimento da qualidade dos nossos cidadãos que se disponibilizam para o exercício de funções políticas, e obviamente de todos os serviços e acompanhamento de retaguarda, incluindo a nossa rede diplomática e todos os funcionários que temos em várias instituições”, referiu o primeiro-ministro esta quarta-feira, no parlamento, durante o debate preparatório do Conselho Europeu.

“O facto de termos um país com uma grande história, termos demonstrado ao longo dos séculos a nossa capacidade, termos uma das línguas mais faladas do mundo - tudo isso tem sido reconhecido”, comentou Luís Montenegro.

Para o chefe do Governo, estas nomeações de portugueses para cargos de topo são uma “oportunidade de não sermos aquilo que às vezes somos, demasiado pessimistas sobre nós próprios”.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

UE classifica ataques russos à Ucrânia como crimes de guerra


As autoridades ucranianas atualizaram para pelo menos 11 mortos e 60 feridos o número de vítimas nos ataques russos da manhã desta segunda-feira (10/10) em Kiev, Lviv, Dnipro, Kharkiv e Zaporíjia. Segundo o primeiro-ministro Denis Chmygal, 11 grandes infraestruturas foram danificadas em oito regiões. Os bombardeios foram condenados veementemente pela União Europeia (UE), que garantiu o envio de mais armas a Kiev. 

O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, garantiu no Twitter que o apoio militar adicional "está a caminho" da Ucrânia: "Estou profundamente chocado com os ataques da Rússia a civis em Kiev e em outras cidades da Ucrânia. Tais atos não têm lugar no século 21. Condeno-os com a maior veemência possível."

Numa coletiva de imprensa, o porta-voz de Borrell, Peter Stano, disse que os ataques russos à infraestrutura civil são "contra o direito internacional humanitário" e que "atacar indiscriminadamente civis equivale a um crime de guerra".

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, se disse "chocada e horrorizada" com os ataques: "A Rússia mais uma vez mostrou ao mundo o que representa: terror e brutalidade", disse von der Leyen na cidade estoniana de Narva, perto da fronteira russa, ao lado da primeira-ministra da Estónia, Kaja Kallas.

A presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, afirmou que "o que está acontecendo agora em Kiev é repugnante": tal situação "mostra ao mundo, mais uma vez, o regime com que somos confrontados, um regime que ataca indiscriminadamente, que semeia terror e morte até sobre crianças. Isso é criminoso. Eles serão responsabilizados e a Ucrânia vencerá. A Europa não desviará o olhar", afirmou Metsola.

Reunião do G7
O secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, condenou os "ataques horríveis e indiscriminados" lançados pela Rússia, prometendo que sua aliança militar "continuará apoiando o corajoso povo ucraniano na luta contra a agressão do Kremlin, por tanto tempo quanto necessário". 

Os bombardeios russos também foram condenados por vários aliados da Ucrânia, e serão discutidos pelos líderes do G7 nesta terça-feira, numa videoconferência da qual participará o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski.

Segundo o Ministério da Defesa em Kiev, o Exército russo lançou 83 mísseis sobre a Ucrânia, dos quais 43 de cruzeiro, tendo 52 sido interceptados pela defesa aérea. A polícia ucraniana informou que agentes, investigadores e criminalistas estão reunindo "provas das atrocidades russas".

De acordo com o prefeito de Kiev, Vitali Klitschko, cinco cidadãos morreram e outros 51 ficaram feridos na capital ucraniana. "A ameaça de novos ataques continua", escreveu no Twitter, pedindo à população que se refugie em caso de alerta antiaéreo.

Apoio da Alemanha
A ministra da Defesa da Alemanha, Christine Lambrecht, prometeu que seu país entregará à Ucrânia  em poucos dias o primeiro de quatro sistemas antiaéreos Iris-T SLM. Segundo o chanceler federal da Alemanha, Olaf Scholz, o sistema permite proteger "uma grande cidade inteira dos ataques aéreos russos".

"O novo disparo de mísseis em Kiev e em muitas outras cidades mostra como é importante fornecer rapidamente à Ucrânia sistemas de defesa aérea", afirmou Lambrecht em comunicado. "Os ataques da Rússia com mísseis e drones aterrorizam a população civil."

A ministra alemã do Exterior, Annalena Baerbock, anunciou que o país fará "tudo o que puder" para ajudar a reforçar rapidamente as defesas aéreas da Ucrânia. "É desprezível e injustificável Putin bombardear grandes cidades e civis com mísseis", escreveu no Twitter.

Putin confirma retaliação
O presidente russo, Vladimir Putin, confirmou nesta segunda-feira que ordenou os bombardeios contra a Ucrânia, em retaliação à destruição parcial da ponte de Kerch, a única que liga o território russo à península da Crimeia, anexada ilegalmente por Moscou em 2014, e reforçou suas ameaças em caso de novas ofensivas.

"Se as tentativas de ataques terroristas no nosso território continuarem, as respostas da Rússia serão severas", disse numa reunião do Conselho de Segurança russo, transmitida pela televisão. "Ninguém deve ter qualquer dúvida."

No domingo, Putin culpou os "serviços secretos ucranianos" pela explosão da ponte. Para Putin, ao destruir a ponte na Crimeia, Ucrânia se colocou "no mesmo nível que os terroristas mais hediondos". "Não foi possível não responder", afirmou aos membros do Conselho. Kiev não assumiu a autoria.

Ao descrever os ataques desta segunda-feira, Putin disse que o exército russo usou "armas de longo alcance de alta precisão" contra a "infraestrutura energética, militar e de comunicações da Ucrânia".

O número dois do Conselho de Segurança da Rússia, Dmitri Medvedev, garantiu na plataforma de mensagens Telegram que os recentes ataques maciços contra a Ucrânia são apenas um começo, e exigiu o "desmantelamento total" do poder político ucraniano: "O primeiro episódio foi exibido, outros se seguirão:"

No domingo, pelo menos 12 pessoas morreram após um bombardeio na cidade de Zaporíjia, e 50 foram hospitalizadas, entre as quais seis crianças, disseram autoridades ucranianas.

Um prédio de nove andares foi parcialmente destruído pelo ataque, cinco outros edifícios residenciais foram totalmente destruídos e muitos outros foram danificados por 12 ataques com mísseis russos, segundo Oleksandr Starukh, governador da região de Zaporíjia, localizada no sudeste da Ucrânia.

Bulgária investiga explosão
Os serviços de informações da Bulgária abriram uma investigação após Moscovo assegurar que o caminhão responsável pela explosão na ponte da Crimeia saiu do país balcânico, membro da União Europeia e da Otan.

"A investigação começou imediatamente após ser divulgada essa informação e por ordem do primeiro-ministro interino, Galab Donev", informou a Agência Estatal de Segurança Nacional búlgara, responsável pela contraespionagem. 

Segundo Alexandr Bastrikin, presidente do Comitê de Investigação da Rússia, o caminhão saiu da Bulgária e atravessou Geórgia e a Armênia antes de entrar na Rússia.  

Sequência de fotografias e fonte aqui