Mostrar mensagens com a etiqueta Turismo Espacial. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Turismo Espacial. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Quem detém mais satélites? Fica claro quem manda na órbita da Terra


O mundo mudou muito nesta última década. E as disputas pelo controlo da informação passaram para o fundo do mar, mas, sobretudo, para a órbita da Terra. Hoje, os satélites tornaram-se a espinha dorsal da moderna economia espacial. Desde a internet de banda larga à observação da Terra, a infraestrutura orbital suporta agora indústrias muito para além do setor aeroespacial. Então, quem tem mais satélites no espaço?

Não há dúvidas que os EUA lideram não só a corrida espacial, mas também o espaço em volta da Terra. Como tal, e na preparação do próximo grande comércio global, são empresas americanas que estão na liderança deste segmento.

Para percebermos, de forma mais concreta, quem domina a órbita do planeta, um gráfico, de autoria da Global X Canada, permite perceber quem detém mais satélites. A informação tira partido de dados da AEI Space Data Navigator.


Que operadores detêm mais satélites?
A SpaceX domina claramente a contagem global de satélites, com 10.262 satélites operacionais. Isso representa mais de 16 vezes os 632 satélites da OneWeb, o segundo maior operador identificado.

Posição Operador de satélites Número de satélitesSpaceX - 10.262 satélites
OneWeb - 632 satélites
National Reconnaissance Office - 285 satélites
Forças Armadas dos EUA - 244 satélites
Forças Armadas da China - 168 satélites
Planet Lab - 144 satélites
Forças Armadas da Rússia - 107 satélites
NASA - 90 satélites
Iridium - 80 satélites
Globalstar - 26 satélites
Outros - 3.409 satélites


O ranking mostra a rapidez com que as redes privadas cresceram desde o início da corrida espacial.

Organizações públicas como a NASA e forças militares nacionais operam agora apenas uma pequena parcela, com apenas 894 satélites entre os proprietários identificados na base de dados.

A vantagem de escala da Starlink

A SpaceX opera a Starlink, a maior frota de satélites alguma vez colocada em órbita. Só a sua dimensão representa cerca de dois terços dos 15.447 satélites apresentados na base de dados.

Em vez de lançar apenas alguns satélites de elevado valor, a Starlink aposta na escala. Como resultado, a rede tornou-se num exemplo marcante da infraestrutura orbital comercial.

Redes comerciais entram em órbita
A diferença entre a SpaceX e os operadores tradicionais assinala um importante ponto de viragem. As empresas passaram a deter e operar redes de satélites numa escala que anteriormente estava reservada aos governos.

Isto é relevante porque os satélites deixaram de ser apenas ativos de investigação governamental de nicho. Estão agora a tornar-se infraestrutura crítica para conectividade, dados e resiliência nacional.

A China já tem mais de 1.300 satélites ativos em órbita e continua a expandir rapidamente a sua presença espacial. Entre eles estão satélites militares, sistemas de navegação BeiDou, observação da Terra, comunicações e futuras redes de internet via satélite para competir com a Starlink. O objetivo de Pequim é claro: transformar o espaço numa infraestrutura estratégica para defesa, tecnologia e influência global.

Investir no espaço
À medida que as redes comerciais crescem, a infraestrutura orbital poderá tornar-se um tema de investimento cada vez mais relevante. Satélites, sistemas de lançamento e serviços espaciais fazem todos parte deste ecossistema em expansão.

A economia espacial já está a avançar para áreas como logística, agricultura, defesa e comunicações. Como resultado, os investidores poderão procurar cada vez mais exposição a empresas que impulsionam estas tendências.

domingo, 1 de junho de 2025

Elon Musk responde a acusações de consumo de drogas durante as eleições nos EUA


Elon Musk, o empreendedor bilionário conhecido pelos seus empreendimentos como a Tesla e a SpaceX, concluiu recentemente o seu mandato como chefe do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) durante a administração do presidente Donald Trump.

Embora o seu mandato tenha sido marcado por ambiciosas iniciativas de redução de custos, também gerou controvérsias significativas, especialmente em relação a alegações de consumo de drogas e comportamento errático. Este artigo analisa os aspetos multifacetados do envolvimento de Musk no governo, examinando as conquistas, as controvérsias e as implicações mais amplas das suas ações.

A Génese do DOGE e a Nomeação de Musk
Numa atitude pouco convencional, o Presidente Trump nomeou Elon Musk para liderar o recém-criado Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), com o objectivo de optimizar as operações federais e reduzir as despesas desnecessárias. A reputação de Musk como inovador e disruptor no setor privado tornou-o uma escolha atraente para o cargo. Ao longo de 130 dias, Musk afirmou que o DOGE atingiu os 160 mil milhões de dólares em cortes de despesas, com projeções de mais de 200 mil milhões de dólares. No entanto, analistas independentes questionaram a precisão destes números, sugerindo que podem estar inflacionados.

A Polémica Despedida e a Aparição Pública
A 30 de maio de 2025, Musk apareceu ao lado do Presidente Trump no Salão Oval para anunciar a sua saída do DOGE. Notavelmente, Musk exibia um hematoma visível perto do olho, que atribuiu a uma brincadeira de mau gosto com o seu filho, X Æ A-12. Apesar da explicação despreocupada, a aparição gerou especulações generalizadas, especialmente à luz das recentes alegações sobre o consumo de drogas por parte de Musk.

Alegações de Consumo de Drogas: Uma Análise Mais Detalhada
Uma notícia do The New York Times afirmava que Musk estava a consumir substâncias como a cetamina — que alegadamente afetaram a sua bexiga —, bem como Adderall, ecstasy e cogumelos psicadélicos. Fontes afirmaram que Musk viajava com uma caixa de medicamentos diária contendo aproximadamente 20 comprimidos, incluindo os marcados como Adderall. Musk admitiu anteriormente o uso de cetamina por motivos de saúde mental, afirmando que tomava "uma pequena quantidade a cada duas semanas" para controlar o humor negativo.

Resposta de Musk e Percepção Pública
Durante a conferência de imprensa, Musk rejeitou as alegações sem mais explicações, criticando o The New York Times por sensacionalismo e traçando paralelos com as reportagens anteriores da publicação sobre o Russiagate. Enfatizou a sua constante presença pública, afirmando: "Sou fotografado constantemente", dando a entender que qualquer comportamento ilícito teria sido documentado. Apesar das suas refutações, as alegações levantaram preocupações sobre a sua conduta durante o seu mandato como conselheiro da administração Trump.

O Impacto nos Empreendimentos Comerciais de Musk
O alegado consumo de drogas por Musk não só atraiu escrutínio político, como também levantou questões sobre o seu impacto nos seus empreendimentos comerciais. Como CEO da Tesla e da SpaceX, empresas com contratos governamentais significativos, qualquer má conduta pode ter implicações graves. Embora Musk tenha afirmado submeter-se a testes regulares de drogas na SpaceX, os relatos sugerem que pode ter sido notificado com antecedência sobre estes testes, lançando dúvidas sobre a sua eficácia.

O Contexto Político Mais Amplo
A gestão de Musk no DOGE coincidiu com acontecimentos políticos significativos, incluindo o anúncio do Presidente Trump de duplicar as tarifas sobre o aço e o alumínio importados de 25% para 50%. Além disso, o governo criou um novo "Gabinete de Remigração" com o objectivo de repatriar os imigrantes indocumentados. Estas medidas, somadas à presença controversa de Musk, contribuíram para um cenário político complexo.

Reações Públicas e Políticas
As reações à saída de Musk foram mistas. O Presidente Trump elogiou as contribuições de Musk, considerando-o um inovador histórico e prometendo manter as reformas do DOGE. No entanto, democratas como o senador Cory Booker denunciaram a gestão de Musk como prejudicial e irresponsável. O evento misturou mensagens políticas com camaradagem pessoal, com Trump a presentear Musk com uma chave de ouro simbólica e a promover a redecoração do Salão Oval.

O Futuro da DOGE e o Papel de Musk
Apesar da sua demissão, Musk manifestou um apoio contínuo à DOGE, descrevendo-a como um "estilo de vida" e prometendo uma influência contínua. Enfatizou a disciplina fiscal e considerou a colonização de Marte apenas um pouco mais difícil do que reformar as finanças públicas. Musk anunciou planos para continuar a aconselhar Trump e o Serviço DOGE dos EUA, mesmo depois de deixar formalmente o governo, para se concentrar mais nas suas empresas.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

O voo anti-feminista


Opinião de um grande amigo meu Nuno Gomes
"Se fosse eu a dizê-lo seria machista. Ainda bem que é uma mulher a afirmar que este voo feminino no pirilau voador de Jeff Bezos, que foi promovido pela sua mulher e que inclui Katy Perry, a tal que beijou o chão quando chegou e está a ser gozada por toda a gente, é um voo machista. 
O que diz a jornalista é que este episódio mostra o quanto o machismo está enraizado nestas mulheres. Lauren Sánchez não foi ao espaço porque é astronauta ou cientista mas sim porque tem o privilégio de ser companheira do dono da Amazon. Uma dona de casa, portanto, uma doméstica, como o nosso antigo regime cunhava nos BI's das nossas mães que não tinham emprego reconhecido apesar de cuidarem de toda a família, embora o chefe de família fosse o marido. Mas essas eram obrigadas, já estas, quando lhes convém, são propositadamente machistas. 
E o que estas mulheres foram fazer ao espaço? Defender a sua igualdade com os homens ricos? Lutar pelos direitos das mulheres oprimidas no Afeganistão? Fazer experiências científicas? Não, nada disso, apenas tirar umas selfies e mostrar como ficam jeitosas de fato azul no pirilau do Jeff. A jornalista tem razão, o que elas fizeram foi pôr uma pedra grande sobre o feminismo e assumir a sua leviandade, porque o dinheiro tudo desculpa. Ou um pirilau espacial, melhor dizendo!"

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

O naufrágio da economia verde


A pegada ecológica da extração e tratamento de metais raros é superior à dos combustíveis fósseis. O processo tem um grande consumo de água e de reagentes químicos altamente poluentes, destrói ecossistemas e polui o ar. Temos de encontrar tecnologias mais produtivas e soluções eficazes de reciclagem e reutilização destes metais

Os combustíveis fósseis fizeram a economia do século XX, tanto quanto os metais raros farão a economia do século XXI, por serem a matéria-prima chave das duas transformações deste século: a digital e a da sustentabilidade. Todos os nossos gadgets eletrónicos e de comunicação de uso quotidiano, assim como a geração de energia eólica ou solar, bem como a mobilidade elétrica, estão profundamente dependentes desse grupo de 17 elementos raros. Sem eles, o mundo parava e seria impossível alcançarmos o Acordo de Paris sobre o clima, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e o Pacto Ecológico Europeu.

Não é por acaso que se diz que os metais raros são o novo petróleo. A título de exemplo, só no primeiro trimestre deste ano, o irídio valorizou 131 por cento, superando de longe a valorização de 85 por cento da bitcoin, tendo atingido o valor de seis mil dólares a onça, mais do triplo da cotação do ouro. Já a procura de lítio espera-se que aumente 15 vezes nos próximos anos, sendo que o valor global dessa indústria já ascende a 45 mil milhões de dólares.

Obviamente, no domínio dos metais raros, a riqueza não está no Médio Oriente, mas sim na China, que detém as maiores reservas e atualmente assegura 75 por cento da produção global. Os Estados Unidos, por seu turno, dependem da China para 80 por cento das suas importações de metais raros – sendo que a China é bastante mais ambiciosa económica e geopoliticamente do que os países do Médio Oriente, procurando não vender apenas a matéria-prima, mas sim a tecnologia que a incorpora.

A descarbonização do planeta parece ser (e bem) consensual entre cientistas, políticos, jovens, idosos, ecologistas e, até, empreendedores de Silicon Valley. Porém, entre tanto consenso e entusiasmo, parecem ignorar-se os seus impactes, nomeadamente, que a pegada ecológica decorrente da extração e tratamento de metais raros é superior à dos combustíveis fósseis. Mais concretamente, o processo envolve um consumo de água brutal, reagentes químicos altamente poluentes, destrói paisagens e ecossistemas, e polui o ar. Para se ter uma noção da escala de destruição, são necessárias 16 toneladas de rocha para se obter um quilo de Cério, 50 toneladas para um quilo de Gálio, e 1200 toneladas para um quilo do metal mais raro: o Lutécio.

Mas o desafio não se coloca apenas ao nível dos metais raros. O exemplo do cobre é eloquente. Desde os primórdios da Humanidade, estima-se que tenham sido extraídas e transformadas cerca de mil milhões de toneladas de cobre. Ora, a manter-se a taxa atual de crescimento da procura, será necessária a mesma quantidade nos próximos 30 anos. E, quanto à sua pegada ecológica, a maior mina de cobre do mundo (no Chile) consome dois mil litros de água por segundo – ficando situada num deserto onde não chove há 500 anos.

A rápida transição para economias verdes e digitais, a par do aumento mundial da população e das classes médias, irá provocar um aumento exponencial do consumo de metais raros. Assim, é imperativo que, ao longo desta década, se encontrem materiais de substituição (renováveis), tecnologias mais produtivas e soluções eficazes de reciclagem e reutilização destes metais. Mas não basta. Será necessário, também, redistribuir melhor a riqueza e diminuir a pressão do consumo, por exemplo, incentivando soluções de economia da partilha no acesso aos bens.

Como escreveu Paul Valéry, para aprender a ser marinheiro é preciso já ter sido náufrago. Para que esta década seja mesmo a da transição para a sustentabilidade, há que começar por reconhecer a nossa condição de náufragos. Só assim teremos o olhar holístico, realista e determinado que o futuro nos exige.

João Wengorovius Meneses

Secretário-geral do BCSD Portugal

terça-feira, 13 de julho de 2021

Milionários no espaço, e nós explorados cá na terra

Se milionários têm dinheiro para ir ao espaço é porque não os estamos a taxar convenientemente.



Há uns anos, o jornalista Carlos Santos Pereira explicava como a multiplicação dos canais de informação e a concorrência entre televisões e, sobretudo agora, nos media digitais, tem um efeito de afunilamento. «Nunca a informação foi tão uniforme, tão igual. A resposta à concorrência não é tentar fazer diferente do vizinho. É garantir que eu não deixei de dar aquilo que ele também deu», disse em 2016.

Toda a informação se tornou igual: a agenda é a mesma para todas as redacções, condicionada pelas agências e, depois, reflectida pelas redacções no osso, sem pessoal, dependentes de takes da Lusa ou de jornais internacionais. Jornais esses que os jornalistas (em Portugal também) lêem e citam com regularidade: o The Guardian, a BBC, o The New York Times, o Washington Post, o El País e, para os que ainda lêem francês, o Le Monde. E as agências AP e Reuters. Uma leitura atenta dos mesmos, todos os dias, revela que também eles se lêem e se citam entre si, afunilando ainda mais aquilo que poderia ser a cobertura do espaço mediático.

O exclusivo transformou-se num «quem dá primeiro a notícia», abrindo a porta à falta de precisão, de mínimos de investigação, ausência de contraditório, disseminação de informação incompleta, errónea e fake news. Isto quando esse exclusivo de «última hora» ou «ao minuto» não se transforma, enfim, numa massa uniforme e acrítica de notícias iguais reproduzidas, mais ou menos à letra, traduzidas para variadíssimas línguas no mundo inteiro. Basta procurar no Google News e perceber como um qualquer assunto é coberto em todo o país ou todo o mundo: uma imensidão de copy-paste que não nos permite saber mais ou para além daquilo que o take de uma agência nos proporcionou. O problema não é a agência em si: ela existe para reportar factualmente, e, quase sempre, ao minuto (ou de acordo com a sua agenda). O problema é que há, nas redacções, cada vez mais pouquíssima iniciativa, e a que resta é quase sempre olhada com desconfiança por um «quem mais está a falar sobre este ponto de vista?».

«O exclusivo transformou-se num “quem dá primeiro a notícia”, abrindo a porta à falta de precisão, de mínimos de investigação, ausência de contraditório, disseminação de informação incompleta, errónea e fake news. Isto quando esse exclusivo de “última hora” ou “ao minuto” não se transforma, enfim, numa massa uniforme e acrítica de notícias iguais reproduzidas, mais ou menos à letra, traduzidas para variadíssimas línguas no mundo inteiro»

Só isso pode explicar que o Público e o Observador tenham, por exemplo, acompanhado em directo, ao minuto, a viagem do multimilionário Richard Branson ao espaço no passado domingo. Não se pense que por estarmos a falar de Branson, de Elon Musk, Jeff Bezos, ou dos milionários que os media gostam de vender como os últimos Steve Jobs do deserto, os que «começaram do nada» e, a pulso, com muitos sacrifícios, chegaram às estrelas (à custa de muita exploração laboral e inúmeras ajudas dos estados em que operam) – não se pense que essa cobertura, afinal, seja muito diferente da cobertura mediática da prisão de Luís Filipe Vieira pela CMTV.

Enquanto redacções acompanham em directo aquilo que podemos simplesmente ver na internet (aliás, o próprio Branson transmitiu ao vivo), ou no The Guardian e na BBC (que, na verdade, têm o «seu» milionário de serviço coberto mediaticamente), há inúmeras histórias por contar e para as quais nunca há «espaço» ou «dinheiro» (nos media, espaço é dinheiro). Até a análise do momento fica por fazer com profundidade e relevância – e não, não é o Nuno Rogeiro na SIC que vai explicar como isto «é bom para economia».

É fácil chamar Luís Filipe Vieira de ladrão e depois aplaudir a «conquista do espaço» pelo Richard Branson. Lembro-me sempre dos dois mil milhões de compensação pela gestão ruinosa da linha de comboio Edimburgo-Londres ao fim de míseros três anos de concessão à Virgin Trains (que teve de ser renacionalizada em 2018). Ou dos processos de falência da companhia Virgin Atlantic, sediada nos EUA, que precisou de ajuda pública para pagar uma dívida de 93 milhões de dólares e estabelecer um plano de reestruturação, vendendo dois aviões Boeing 787 da sua frota. A Sky News reportava em Novembro que a venda dos aviões serviria para pagar parte da dívida de 170 milhões que a Virgin tinha ao fundo de investimento norte-americano Davidson Kempner Capital Management. A Virgin Australia também foi reestruturada. E no Reino Unido, o Supremo Tribunal permitiu um bail-out de 1.2 mil milhões de libras (de fundos privados, vá lá) para salvar o império de Richard Branson, que pediu ajuda ao governo logo no início da pandemia.

«Aquilo que nos foi vendido como um passo na “investigação científica” não foi mais do que um devaneio exótico pago (no meu caso, que vivo no Reino Unido) com os nossos impostos. Dizer que uma viagem onde nem sequer iam cientistas foi um passo para a “inovação aeroespacial” é atirar areia para os olhos dos que ficámos cá em baixo a ser explorados na terra»

Que isto não se leia, de todo, como uma defesa de Vieira; pelo contrário, apenas a análise da proporção entre a cobertura glamourosa das «excentricidades» de multimilionários estrangeiros, comparada ao sensacionalismo bacoco do «sultão dos pneus». Ao contrário de Vieira, nem casa para palheiro Branson ofereceu como hipoteca. Nem as suas inúmeras propriedades. Nem os balões. Nem os jets privados. Nem a sua companhia de telefone-internet-televisão por cabo. Nem a produtora de cinema e audiovisual. Nem a empresa de comboios. Nem a sua ilha no Caribe. Esta «burguesia do teletrabalho» na ilha privada das Caraíbas é que o(s) governo(s) não foram taxar.

Aquilo que nos foi vendido como um passo na «investigação científica» não foi mais do que um devaneio exótico pago (no meu caso, que vivo no Reino Unido) com os nossos impostos. Dizer que uma viagem onde nem sequer iam cientistas foi um passo para a «inovação aeroespacial» é atirar areia para os olhos dos que ficámos cá em baixo a ser explorados na terra. Aliás, tudo pode ser resumido na frase do próprio Branson: «Estamos aqui para tornar o espaço mais acessível a todos». Todos quem? Centenas de passageiros já compraram os bilhetes para o(s) próximo(s) voo(s) (não se lhes pode propriamente chamar «expedições»). E quem são? Ler jornais que não sejam do arco noticioso, ajuda. Por exemplo, a revista Semana, da Colômbia, revelava que o primeiro colombiano a ir ao espaço será provavelmente David Mendal, empresário bogotano em Miami, chairman de uma empresa de aviões privados e férias de luxo para executivos. Aqueles que conseguiram acumular riqueza e para quem 250 mil dólares por um bilhete «ao espaço», num ano de contracção económica em plena pandemia, é um valor insignificante.

Jacobin Brasil trazia um interessante artigo sobre a colonização e privatização do espaço por Bezos, Musk e Branson, entre outros, dizendo «sim à exploração espacial e não ao capitalismo espacial». E na Salon, a escritora de ficção científica Sim Kern, que conhece por experiência própria o trabalho na NASA, explicava que a «corrida ao espaço» dos milionários é apenas um concurso de egos. «Branson e Bezos não estão a investir dinheiro para inovar na ciência ou expandir os limites da possibilidade humana. Estão a fazê-lo para serem o primeiro homem rico a brincar no espaço, por oposição aos astronautas da NASA que fazem ciência. E depois de brincarem por ali inutilmente, esperam convidar os seus amigos obscenamente milionários para fazerem o mesmo.» O turismo espacial é pago pelos milhões de trabalhadores que têm dificuldade em sobreviver aqui na terra. Se Bezos, Branson e Musk têm dinheiro para ir ao espaço é, talvez, porque não os estamos a taxar convenientemente.

Nada disto é discutido na cobertura mediática, bastante medíocre, até, deslumbrada por carros eléctricos (Tesla) ou comboios/aviões/telecomunicações (Virgin) que, como sabemos, serão sempre mais glamourosos do que o saloio rei dos pneus.