Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens

sábado, 15 de agosto de 2026

A Genealogia do Sagrado: como o Mito, o Misticismo, a Religião e a Espiritualidade moldaram a mente humana

Ver mais detalhadamente aqui


A relação do ser humano com o desconhecido não é estática; possui uma história evolutiva e uma geografia conceptual precisa. Para compreender plenamente as diferenças entre mito, misticismo, religião e espiritualidade, torna-se fundamental traçar primeiro o mapa temporal da sua emergência ao longo da história da humanidade, para depois decompor a arquitetura conceptual que distingue cada uma destas dimensões.

I. A Cronologia Histórica da Emergência
Na alvorada da espécie humana, muito antes de existirem cidades, escritas ou dogmas, o Mito foi a primeira manifestação da inteligência abstrata e simbólica. No Paleolítico Inferior e Médio, à medida que o Homo sapiens desenvolvia a linguagem complexa, surgia a necessidade premente de ordenar o caos do mundo natural. O mito nasceu como a narrativa primordial: histórias sobre a origem do fogo, do sol, da caça e da morte que davam sentido e forma ao cosmos através de metáforas e personificações.

Com o amadurecimento das capacidades cognitivas e rituais no Paleolítico Superior, a humanidade não se limitou a narrar o invisível; procurou vivenciá-lo. Surge assim o Misticismo, cuja expressão mais antiga é o xamanismo primordial. Através de ritos de transe, pinturas rupestres profundas e estados alterados de consciência, determinados membros da tribo buscavam o contacto direto e imediato com o sagrado descrito pelas narrativas míticas. O misticismo antecede a instituição porque dependia de uma vivência intuitiva e interior, sem a mediação de livros sagrados ou hierarquias formais.

Com a Revolução Neolítica e o aparecimento das primeiras civilizações urbanas na Mesopotâmia, no Egito e no Vale do Indo, a escala das sociedades humanas alterou-se radicalmente. Milhares de indivíduos estranhos entre si precisavam agora de viver sob as mesmas regras e crenças. Nasce a Religião institucionalizada. O antigo mito transforma-se em texto sagrado oficial; a experiência mística individual é canalizada e regulada por castas sacerdotais; e os ritos tribais convertem-se em dogmas, leis morais e liturgias estatais. A religião surge, assim, como o grande instrumento de coesão social e ordenamento comunitário do mundo antigo.

Finalmente, a Espiritualidade, embora possua raízes na viragem filosófica da chamada Era Axial (surgimento do Budismo, do Taoísmo e da filosofia grega no século VI a.C.), consolida-se na sua acepção moderna com o advento do Iluminismo, da secularização e da modernidade ocidental. À medida que a ciência assumiu a explicação do mundo físico e as instituições religiosas perderam o monopólio da política e da moral, a busca pelo sentido da existência regressou ao indivíduo. A espiritualidade surge como uma categoria autónoma e pós-institucional - a reivindicação de uma orientação interior, ética e existencial, liberta da obrigação de adesão a dogmas ou a autoridades eclesiais.

II. As Distinções Conceptuais e Funcionais
Tendo compreendido a sua gestação no tempo, torna-se claro que estas quatro dimensões não concorrem entre si, mas operam em níveis distintos da experiência humana:
  1. O Mito é o domínio da narrativa e da linguagem: etimologicamente derivado do grego mythos ("palavra" ou "discurso"), o mito é a estrutura cognitiva que organiza o significado. Não se trata de uma "falsidade" ou de uma ilusão, mas de uma verdade ontológica expressa através do símbolo e da alegoria. O mito fornece os arquétipos e as histórias de origem que fundam o imaginário de uma cultura.
  2. O Misticismo é o domínio da experiência e da epistemologia: vindo de myein ("fechar os olhos" para ver o invisível), o misticismo é a busca da união direta com o Absoluto ou o Divino. Desafia a lógica racional e ultrapassa a linguagem, tratando de uma experiência essencialmente inefável onde a fronteira entre o sujeito que observa e o objeto observado se dissolve.
  3. A Religião é o domínio da instituição e da sociologia: assente na raiz latina religare ("re-ligar"), a religião é a codificação social do sagrado. Envolve uma comunidade moral (a Igreja, a Umma, o Sangha), um corpo de dogmas, um código de conduta prescritivo, uma hierarquia e um conjunto de rituais públicos. A religião garante a continuidade da tradição e a ordem social.
  4. A Espiritualidade é o domínio da subjetividade e da existência: derivada de spiritus ("hálito de vida"), a espiritualidade diz respeito à atitude e ao estado interior do indivíduo perante a vida, o sofrimento, a finitude e a totalidade. Pode viver dentro de uma religião formal, mas subsiste de forma perfeitamente autónoma no indivíduo secular, expressando-se na procura pessoal de propósito, compaixão e transcendência.
Concluindo, a evolução histórica do sagrado traçou um arco fascinante: começou na narrativa coletiva do mito, aprofundou-se na vivência direta do misticismo, ergueu-se na estrutura comunitária da religião e culminou na autonomia subjetiva da espiritualidade contemporânea.

Referências bibliográficas
  1. Cassirer, E. (1955). The Philosophy of Symbolic Forms, Volume 2: Mythical Thought (R. Manheim, Trans.). Yale University Press.
  2. Durkheim, É. (1995). The Elementary Forms of Religious Life (K. E. Fields, Trans.). The Free Press.
  3. Eliade, M. (1959). The Sacred and the Profane: The Nature of Religion (W. R. Trask, Trans.). Harcourt, Brace & World.
  4. Jaspers, K. (1953). The Origin and Goal of History (M. Bullock, Trans.). Yale University Press.
  5. Kołakowski, L. (1989). The Presence of Myth (A. Czerniawski, Trans.). University of Chicago Press.
  6. Otto, R. (1923). The Idea of the Holy: An Inquiry into the Non-rational Factor in the Idea of the Divine and its Relation to the Rational (J. W. Harvey, Trans.). Oxford University Press.
  7. Weber, M. (1978). Economy and Society: An Outline of Interpretive Sociology (G. Roth & C. Wittich, Eds.). University of California Press.

As Mulheres da Nova Direita em Portugal - Bases Teóricas e Ameaça Democrática

A emergência de uma nova militância de mulheres conservadoras no espaço público português, vai mais além do   revisionismo do Movimento Nacional Feminista, do Estado Novo e tem como teorização o  manifesto, que passou para o livro Identidade e Família. Este movimento já arquitetado em meados de 2021, junto como o Manifesto Identidade e Família são duas faces da mesma moeda. Trata-se da reorganização de um Novo Conservadorismo que está a moldar a direita em Portugal e na Europa, combinando a mobilização jovem nas redes sociais com o resgate de velhos dogmas morais. Esta aliança une a linha da frente de novas bancadas e ativistas a uma elite intelectual, médica e católica tradicional. Por trás de uma estética moderna e de discursos que apelam a uma suposta "verdadeira emancipação", esconde-se uma estratégia para desmantelar conquistas sociais e, sobretudo, para branquear e apagar a herança de figuras históricas incontornáveis como Maria de Lourdes Pintasilgo.

A ascensão de quadros femininos no campo da nova direita - com destaque para deputadas do Chega como Rita Matias, e em linha com fenómenos europeus protagonizados por figuras como Giorgia Meloni em Itália - veio reconfigurar a paisagem política. Ao contrário do conservadorismo tradicional, estas protagonistas não recusam a presença pública da mulher. Pelo contrário, ocupam o palco político e usam redes digitais como o TikTok e o Instagram para defender que a "verdadeira liberdade" passa pelo regresso ao essencialismo biológico, pelo culto da maternidade e pela defesa intransigente da "família natural". O objetivo passa por disputar a narrativa dos direitos das mulheres, catalogando o feminismo moderno como um "dogma ideológico" e posicionando-se como guardiãs dos valores cristãos perante a secularização e a mudança demográfica.

Movimento de mulheres conservadoras aproxima Chega da agenda evangélica brasileira e do Novo Conservadorismo
Em Julho, o grupo juntou-se em Sintra para um evento que reuniu “mulheres conservadoras”. O lançamento oficial do movimento está anunciado para Novembro.
O pré-lançamento realizou-se a 11 de Julho, no Palácio Valenças, em Sintra, num espaço pertencente à Câmara Municipal. O encontro contou com a presença de deputadas do Chega, entre as quais Rita Matias, Cláudia Estevão e Madalena Cordeiro, e da deputada federal brasileira Priscila Costa, avançou o Diário de Notícias Brasil.
Entre as oradoras estiveram Teresa Nogueira Pinto, que integra o governo-sombra do Chega com a pasta da Cultura; Catarina Nicolau Campos, jurista e chefe de gabinete do grupo parlamentar do CDS-PP; e Rute Sousa, uma das oito influenciadoras que esteve em Israel a convite da Embaixada israelita em Portugal e que soma mais de 108 mil seguidores apenas no Instagram. Destaca-se também no centro com a credencial "REBECA" a jovem Rebeca Batista, uma das fundadoras/embaixadoras do movimento e dirigente de uma fundação evangélica internacional (The Foursquare Church).
Na apresentação das participantes, a organização fez também referência à maternidade e ao número de filhos.
O Movimento Mulheres Conservadoras Portugal ainda tem pouca informação pública disponível, mas, desde Junho, tem vindo a publicar conteúdos nas redes sociais. Entre eles está um vídeo de uma reunião com deputadas do Chega, realizada no gabinete do partido, na Assembleia da República.

A aproximação à direita brasileira ganha particular relevância pelo papel que as igrejas evangélicas desempenham no Brasil como importante base de apoio da direita e do bolsonarismo. Em Portugal, o Chega tem mantido contactos com comunidades evangélicas, mas não tem assumido, até agora, uma estratégia política especificamente dirigida a este eleitorado.

De acordo com os Censos de 2021, entre a população com mais de 15 anos residente em Portugal, cerca de 186 mil pessoas identificaram-se como “protestantes evangélicos”.

Também este movimento está associado internacionalmente aos movimentos pentecostais ou Pentecostalismo, ressurgido com mais intensidade na era MAGA, de Donald Trump (consultar embaixo os textos) 

É no centro desta disputa cultural que o novo ativismo conservador promove o apagamento do legado de Maria de Lourdes Pintasilgo. Primeira e única mulher a chefiar um Governo em Portugal e figura cimeira do movimento O Graal, Pintasilgo provou que a fé católica e o compromisso ético não exigem a submissão ao patriarcado nem o confinamento ao lar. Enquanto Pintasilgo defendeu que a emancipação das mulheres e a igualdade eram exigências do próprio Evangelho, recusando a maternidade como um destino único ou uma gaiola social, o movimento atual tenta colar a defesa da igualdade de género a um "marxismo cultural". Ao fazê-lo, estas novas frentes conservadoras omitem que a maior pioneira do feminismo e da igualdade política em Portugal foi uma mulher de fé católica, cuja ação assentava na libertação e na justiça social - e não na preservação da autoridade masculina ou do papel da dona de casa.

Se este novo ativismo feminino garante o impacto nas redes e  na rua, o livro Identidade e Família - coordenado por António Bagão Félix, Paulo Otero, Pedro Afonso e Victor Gil - serve de pilar doutrinário. A obra compila ensaios que contestam a dita "ideologia de género", o aborto, a eutanásia e o construtivismo social nas escolas. A apresentação da obra na livraria Buchholz por Pedro Passos Coelho, a par da comparência de dirigentes do CDS-PP e do Chega, evidenciou a capacidade deste movimento para cruzar pontes entre o centro-direita católico e a nova extrema-direita parlamentar.

Este processo insere-se numa vaga documentada em toda a Europa, visível na afirmação de lideranças femininas sob o lema "Sou mulher, sou mãe, sou cristã", na reação articulada contra a agenda woke em países como Espanha através do Vox, em França e na Europa Central, e na ligação a movimentos pró-vida das Américas, como a influência do CPAC ou do PL Mulher no Brasil.

Conclusão
A articulação entre a militância de novas mulheres conservadoras e a sustentação teórica do livro Identidade e Família demonstra que o Novo Conservadorismo em Portugal está estruturado. Ao usarem as ferramentas da modernidade para defender o regresso a valores tradicionais, estas frentes procuram reescrever a história recente do país. Contudo, ao fazê-lo, esbarram na memória que tentam branquear: a praxis de Maria de Lourdes Pintasilgo, a prova histórica de que ter fé e combater pela emancipação das mulheres continua a ser uma das maiores forças de libertação da democracia portuguesa.

Ler mais:

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Mulheres conservadoras em Portugal: o contraponto ao legado de Maria de Lourdes Pintasilgo

Sobre o "movimento de mulheres conservadoras" é usar as conquistas  por exemplo - o voto, a candidatura e a voz pública - contra elas mesmas.

Esquece quem faz que não sabe (ou não se lembra) que, no Estado Novo, o máximo que faziam em público era benzer-se na missa e pedir autorização por escrito para ir às compras. E não, não estou a exagerar.

Antes do 25 de Abril, uma mulher casada precisava do consentimento do marido para trabalhar, viajar ou abrir uma conta bancária. Hoje, estas militantes "cheganas" aproveitam a autonomia conquistada para apoiar quem marcha ao lado de quem quer retirar-lhes direitos - de quem lhes quer enfiar o avental à força. Agora um pouquinho "mais a sério", dá-me repulsa, nojo, assistir a mulheres a lutar pela própria submissão - e ainda verem-se aplaudidas por quem devia defender o progresso social -;é tão absurdo como ver perus a manifestarem-se alegremente a favor do Natal todos os dias.

Não é novidade, e é triste e revoltante ver a "cheganice" aliar-se aos evangélicos e seus propósitos de ter mais votantes.

É isto que temos que nos indignar e criar repulsa e falar a verdade. Vejamos em contraponto o legado de Maria de Lourdes Pintasilgo, uma católica convicta e ativista e progressista.

O pensamento pioneiro de Maria de Lourdes Pintasilgo e o confronto com a Ditadura
Maria de Lourdes Pintasilgo (1930–2004) foi uma das figuras mais marcantes e singulares do século XX português, tendo-se tornado na primeira e até hoje única mulher a assumir o cargo de Primeira-Ministra de Portugal, em 1979, além de ser uma das mais destacadas pensadoras da igualdade de género no espaço lusófono e internacional. O seu pensamento estruturou-se em torno da ideia de que a emancipação das mulheres não devia significar uma mera assimilação do modelo masculino de poder, mas sim uma transformação profunda na própria forma de fazer política, introduzindo valores de cuidado, mediação, ecologia e justiça social. Como dirigente do Graal, um movimento internacional de mulheres católicas, e sendo ela própria uma católica convicta, Pintasilgo demonstrou que a fé e o progresso social não eram incompatíveis. Pelo contrário, defendia que o verdadeiro compromisso ético e humanista exigia a libertação das estruturas patriarcais e autoritárias que historicamente remetiam as mulheres ao silêncio.

Durante os últimos anos do Estado Novo, em pleno período da chamada "Primavera Marcelista", gerou-se uma ténue fresta de debate sobre a modernização e o desenvolvimento económico do país. Em 1970, o regime criou a Comissão para a Política Social Relativa à Mulher - a antecessora histórica da atual Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) -, convidando Maria de Lourdes Pintasilgo para a presidir. Foi nesse contexto que Pintasilgo conduziu um diálogo estratégico com o Presidente do Conselho, Marcello Caetano, usando a sua formação em Engenharia Química, o seu rigor técnico e a sua projeção internacional junto da Organização das Nações Unidas para confrontar o regime com a contradição da condição feminina em Portugal.

Pintasilgo conseguiu convencer Marcello Caetano da necessidade de mudar a política em relação às mulheres ao demonstrar, com diagnósticos sociológicos e económicos rigorosos, que a profunda discriminação jurídica, profissional e civil existente - como a obrigação de obter autorização do marido para trabalhar, viajar ou abrir uma conta bancária - representava um atraso civilizacional e um travão ao desenvolvimento do próprio país. Além disso, invocou a dimensão internacional para sublinhar o isolamento de Portugal face aos organismos mundiais. A sua atuação permitiu que o país integrasse a Comissão do Estatuto da Mulher da ONU e viabilizou os primeiros diplomas legais de proteção ao trabalho feminino e à maternidade ainda antes da Revolução. Ao utilizar as fissuras da ditadura para erguer as bases institucionais dos direitos das mulheres, Maria de Lourdes Pintasilgo abriu caminho para as transformações democráticas que se consolidariam após o 25 de Abril de 1974, reafirmando a voz e a autonomia feminina como conquistas irreversíveis da história portuguesa.

Ler mais:
Nota: No artigo o texto intitulado Para uma óptica revolucionária da condição feminina na Constituição, o link fornecido está errado. Podem lê-lo aqui 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Dia Internacional do Tigre - do Sandokan à realidade

Quando Emilio Salgari criou o Sandokan no final do século XIX, batizou-o de "Tigre da Malásia" por uma razão simples: na altura, o tigre era o símbolo supremo de uma natureza selvagem, perigosa e indomável, reinando sem rival nas selvas aparentemente infinitas do Sudeste Asiático.

Décadas mais tarde, em 1976, essa figura nobre e invencível ganhou nova vida com a chegada da minissérie da RAI à RTP. Eu tinha 10 anos e o impacto foi enorme. Para os adolescentes da minha geração, o fascínio por Sandokan era inevitável. Tinha tudo: o exotismo de Bornéu e da Malásia, o carisma inegável de Kabir Bedi, a beleza de Marianna - a "Pérola de Labuan" e filha do seu grande inimigo -, a presença marcante do português Yanez de Gomera (interpretado por Philippe Leroy), o sopro irreprimível de aventura e liberdade e, claro, aquela música do genérico que nos ficava a soar na cabeça durante dias.

Fiquei tão rendido que fui de propósito à biblioteca requisitar o livro. Li-o de fio a pavio.

A RTP voltou a transmitir a minissérie, já a cores, na década de 1980
O problema é que, enquanto a ficção vendia o tigre como uma fera imparável, a vida real encarregava-se de fazer o oposto.

Ao longo do século XX, o avanço humano destruiu quase tudo à sua passagem. A desflorestação para a exploração de madeira e para as plantações de palma de óleo cortou as florestas ao meio. A juntar a isto, a caça ilegal para o comércio clandestino de peles e ossos deu o golpe final. Em poucas décadas, o tigre perdeu mais de 90% do seu território original.

A ironia é trágica: no Camboja, no Laos e no Vietname, o tigre já desapareceu completamente da natureza. E na própria Malásia - a terra do herói da televisão -, restam  menos de 150 tigres selvagens a lutar para não se extinguirem de vez.

Hoje, os esforços de conservação em países como a Índia ou o Nepal mostram que nem tudo está perdido e que o número de tigres começou finalmente a subir. Mas o contraste entre a lenda e a realidade fica para a história: o animal que serviu de inspiração para um dos maiores símbolos de coragem e liberdade da televisão revelou-se, afinal, extremamente vulnerável às ações do homem.

Ler mais:

Páginas oficiais

terça-feira, 21 de julho de 2026

Do ADN às 2.100 Línguas: o que a genética e o Ethnologue revelam sobre África


Se a África decidisse desenhar as suas fronteiras com base nas identidades reais do seu povo - como a Europa fez ao longo de séculos -, o resultado seria um mapa com milhares de países. Só a África sozinha teria mais Estados soberanos do que todos os países do mundo atual juntos. [mapa interactivo: aqui]

E isto não é um exagero poético. Trata-se de uma realidade confirmada tanto pelos linguistas como pelos geneticistas.

Enquanto a base de dados do Ethnologue regista mais de 2.100 línguas vivas no continente, a genética da população humana diz-nos algo ainda mais fascinante: a África alberga a maior diversidade de ADN de todo o planeta. Como o Homo sapiens surgiu lá e ali permaneceu durante centenas de milhares de anos antes de pequenos grupos migrarem para o resto do mundo, a variação genética acumulada entre duas comunidades africanas vizinhas pode ser muito maior do que a diferença entre um europeu e um asiático.

Quando cruzamos a história das línguas com a história do ADN, este mosaico humano organiza-se em cinco grandes grupos:

1. Níger-Congo
É o maior gigante demográfico e linguístico do continente, reunindo cerca de 1.650 grupos. Inclui as grandes populações da África Ocidental — como os Yorubá, Igbo, Akan e Fulas — e toda a família de povos Bantu (como os Zulus, Xhosas e Kikuyus). O seu ADN reflete a maior expansão agrícola e demográfica da história africana, que se espalhou do oeste para todo o centro e sul do continente ao longo dos últimos três milénios.

2. Afro-Asiática
Ocupando o Sahara, o Norte de África e o Chifre da África, este grupo (que junta Bérberes, Hausas, Amharas e Somalis) soma entre 200 e 300 etnias. Os seus genes e idiomas contam a história de pontes milenares e trocas constantes entre o continente africano e o Médio Oriente.

3. Nilo-Saariana
Distribuídos ao longo do Vale do Nilo e da faixa do Sahel, povos como os Dinka, Maasai e Nuer mantêm linhagens genéticas profundamente antigas. São populações históricas de pastores e guerreiros adaptados aos ecossistemas de savana, com características físicas e linguísticas muito próprias.

4. Khoisan
Os povos San (os chamados Bosquímanos) e Nama do sul da África representam um dos capítulos mais antigos do ser humano. Famosos pelas suas línguas compostas por sons de "cliques", o seu ADN revela um ramo que se separou do tronco principal da humanidade há mais de 100.000 anos. São, literalmente, uma janela viva para a história genética mais remota da nossa espécie.

5. Austronésia
Localizado exclusivamente na ilha de Madagáscar, o povo Malgaxe é um caso fascinante. Embora a ilha faça parte da geografia africana, a sua população nasceu de uma fusão extraordinária: navegadores vindos do Sudeste Asiático há 1.500 anos cruzaram-se com as populações Bantu vindas do continente.

No fundo, os mapas políticos que estudamos na escola apenas cobrem a superfície. Por trás de linhas desenhadas à régua em conferências coloniais no século XIX, a África continua a ser o maior reservatório de diversidade biológica e cultural que a humanidade tem para oferecer.

Fonte

Os rostos por trás do mapeamento humano e linguístico de África
A compreensão do mosaico humano africano resultou do trabalho complementar de antropólogos, linguistas e geneticistas de renome ao longo do último século. No campo da antropologia e da cartografia étnica, um dos primeiros grandes marcos foi estabelecido pelo antropólogo norte-americano George Murdock que, na sua obra de 1959, Africa: Its Peoples and Their Culture History, delineou e catalogou territorialmente mais de 800 regiões étnicas no continente. Esta base histórica de Murdock abriu caminho para iniciativas de catalogação sistemática como o compêndio Ethnologue, impulsionado inicialmente por Richard S. Pittman na década de 1950 e posteriormente expandido por Barbara Grimes, transformando-se na maior referência científica mundial para a identificação e classificação de mais de 2.100 línguas vivas africanas.

Paralelamente ao desenvolvimento das bases de dados, a organização estrutural deste vasto universo de idiomas deve-se ao trabalho do linguista Joseph Greenberg. A sua obra seminal de 1966, The Languages of Africa, revolucionou a linguística ao classificar a totalidade dos idiomas do continente nas quatro grandes macrofamílias tradicionais: Níger-Congo, Afro-Asiática, Nilo-Saariana e Khoisan. A rigorosa taxonomia desenvolvida por Greenberg permitiu aos cientistas rastrear não apenas a evolução dos idiomas, mas também os padrões de expansão e migração dos povos ao longo dos milénios.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Os muçulmanos eram historicamente menos tolerantes do que os cristãos?

A resposta curta é: não. E também não é verdade o contrário.

A História raramente cabe em slogans.

Se olharmos para o território que hoje é Portugal, entre os séculos VIII e XIII, encontramos uma realidade bem mais complexa. Durante o domínio islâmico, cristãos e judeus podiam manter a sua religião mediante o pagamento de impostos específicos e com algumas limitações legais. Não tinham igualdade de direitos, mas também não eram automaticamente expulsos ou obrigados à conversão. Houve discriminação, sim; mas também houve séculos de convivência, comércio e intercâmbio cultural.

Depois da Reconquista cristã, a situação inverteu-se. Os muçulmanos que permaneceram em território português (os mudéjares) continuaram inicialmente a existir em comunidades próprias, mas a sua liberdade foi sendo progressivamente restringida. Muitas mesquitas foram transformadas em igrejas, surgiram mourarias segregadas e, com o passar dos séculos, aumentaram as pressões para a conversão. No final do século XV e início do XVI, Portugal deixou praticamente de admitir a existência pública do Islão e do Judaísmo.

Ou seja: houve períodos de maior tolerância e períodos de maior intolerância dos dois lados.

Também é importante lembrar que o conceito moderno de liberdade religiosa simplesmente não existia. Tanto reinos cristãos como Estados muçulmanos entendiam a religião como parte da ordem política. A tolerância, quando existia, era normalmente pragmática e limitada, não baseada na igualdade entre cidadãos.

A História de Portugal mostra precisamente isso: nem um paraíso de convivência, nem uma guerra permanente de civilizações. Houve guerras, massacres, discriminações, mas também séculos de coexistência, acordos e influência mútua.

Outro exemplo que mostra como a História é mais complexa do que slogans é a Palestina.

Antes da criação de Israel, em 1948, a Palestina sob o Mandato Britânico tinha comunidades muçulmanas, cristãs e judaicas. Havia tensões e episódios de violência entre elas, mas também coexistência em muitas cidades. A liberdade religiosa existia, embora condicionada pelo contexto político e pelos conflitos crescentes entre comunidades.

Depois de 1948, e sobretudo após 1967, a situação tornou-se muito mais complexa. A ocupação israelita da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental trouxe restrições de circulação que afetam o acesso de muçulmanos e cristãos aos seus locais sagrados em determinados períodos. Ao mesmo tempo, Israel garante liberdade de culto dentro das suas fronteiras reconhecidas, embora organizações internacionais tenham documentado restrições relacionadas com segurança, discriminação e acesso aos locais santos.

Quem procura provar que "uma religião foi sempre mais tolerante do que a outra" está normalmente a usar o passado para alimentar debates do presente (e não a fazer História).

Fontes:

Haaland versus Ronaldo


Haaland compra o livro mais caro da história da Noruega para doar a biblioteca pública

O avançado do Manchester City adquiriu uma obra rara de 1594 sobre as sagas dos reis nórdicos por cerca de 116 mil euros (1,3 milhões de coroas norueguesas). O jogador impôs apenas uma condição: que o livro fique exposto ao público.

Muita gente imaginou que Erling Haaland compraria um artigo histórico tão raro para o manter na sua coleção privada. Mas o jogador fez exatamente o oposto. Ao lado do pai, Alf-Inge Haaland, o avançado adquiriu a única cópia conhecida da edição de 1594 de "Heimskringla", uma das obras mais importantes da história da Noruega.

O livro reúne as famosas sagas dos reis noruegueses, escritas originalmente pelo historiador islandês Snorri Sturluson no século XIII. A obra foi arrematada num leilão por cerca de 1,3 milhões de coroas norueguesas — aproximadamente 116 mil euros —, tornando-se o livro mais caro alguma vez vendido na história do país.

Em vez de o guardar, Haaland decidiu doá-lo à biblioteca pública de Bryne, a cidade onde cresceu. A exigência foi apenas uma: que o livro permaneça exposto ao público para que qualquer pessoa possa conhecer essa parte da história da nação.

"Nunca fui um grande leitor, mas quero que o livro esteja sempre disponível para que as pessoas possam ler sobre aqueles que vieram da minha terra, de Bryne e Jæren. É mais fácil sentirmos atração pela leitura quando nos conseguimos rever nas pessoas e nos lugares sobre os quais se escreve", afirmou Haaland em comunicado.

Além da doação, a fundação do jogador criou um projeto de incentivo à leitura direcionado para as escolas do município. A partir do ano letivo de 2026/2027, os estudantes da região participarão numa competição de leitura, e as turmas vencedoras ganharão uma viagem a Oslo para assistir a um jogo da seleção da Noruega no estádio Ullevaal, com a oportunidade de conhecer o próprio Haaland.

O avançado explicou ainda a sua motivação por trás da iniciativa: "Tive a sorte de realizar o meu sonho através do futebol, e sei que nem todos têm essa oportunidade. Os livros dão a muito mais pessoas a oportunidade de sonhar em grande, ver novas possibilidades e encontrar o seu próprio caminho."

A iniciativa foi amplamente elogiada na Noruega por unir desporto, educação e preservação da história nacional, transformando um objeto de valor milionário num património acessível a toda a comunidade.

Notícia original

Um pouco sobre a  história do livro

sexta-feira, 3 de julho de 2026

A Rússia já perdeu mais soldados na Ucrânia do que os EUA em TODAS as guerras desde 1945. Multiplicado por quatro

O estudo é do CSIS (Center for Strategic and International Studies) , um dos centros de investigação de defesa mais respeitados do mundo. Os números batem certo com as estimativas de outros governos um pouco por todo o mundo.
A conta total: 2 milhões de baixas, somando mortos, feridos e desaparecidos de ambos os lados.
Só a Rússia perdeu 1,4 milhões de soldados: 1% da população inteira do país. Destes, 450 mil morreram. Tudo por decisão de um homem só.
Para perceber a dimensão disto:
A Rússia já perdeu 4 vezes mais soldados na Ucrânia do que os EUA perderam em TODAS as guerras desde a Segunda Guerra Mundial. Coreia, Vietname, Iraque, Afeganistão. Tudo somado.
E o fardo não é dividido de forma igual. Regiões pobres e minorias étnicas morrem muito mais. Nos meios de comunicação da oposição russa acumulam-se relatos de aldeias onde a população masculina simplesmente deixou de existir.
E a guerra está a ficar pior para Moscovo.
Durante anos, morriam 2 ou 3 russos por cada ucraniano fora de combate. No primeiro semestre deste ano, a proporção saltou para 8 por 1.
O motivo tem nome: drones. A Ucrânia alargou tanto o alcance deles que criou uma "zona de morte" ao redor da linha da frente. Uma faixa tão saturada de drones que um soldado russo praticamente não consegue sair dela vivo.
Mas o drone é apenas metade da explicação.
A outra metade é a própria Rússia: uma estratégia de desgaste que atira soldados em massa contra linhas defendidas, mau treino, corrupção, moral no chão. O exército trata as pessoas como munição descartável.
Resultado: pela primeira vez na guerra, a Rússia já não consegue recrutar soldados ao mesmo ritmo em que os perde. A conta deixou de fechar.
Mais assustador do que a razão destas mortes, é o tempo que elas demoram. Os soldados russos estão literalmente a viver menos do que as moscas.
As moscas vivem entre 15 e 30 dias. Já um militar russo, desde o momento em que chega ao campo de treino até à sua morte no campo de batalha, demora cerca de 10 a 21 dias.
Quando chega à linha da frente, a sua esperança de vida ronda os 20 a 35 minutos.
A Ucrânia também sangra: até 625 mil baixas, com até 150 mil mortos.
2 milhões de baixas somadas é mais do que em Estalinegrado, considerada até hoje a batalha mais sangrenta da história. Claro, Estalinegrado durou apenas 6 meses. A guerra na Ucrânia já dura há mais de 4 anos, mas ainda não tem data para acabar.
Fica a pergunta: Estalinegrado tornou-se o símbolo eterno do horror da guerra. Como é que a história se vai lembrar da Ucrânia?

quarta-feira, 17 de junho de 2026

The Theory of the Vulgar Class


On Sunday Donald Trump celebrated his 80th birthday with a cage match on the White House lawn. The match and the events that surrounded it — especially the press conference with UFC fighters, shown above, held on the steps of the Lincoln Memorial — were a desecration of America’s capital, whose monuments and buildings have always endeavored to represent small-r republican virtues. The whole affair was an affront to the values on which this nation was founded and also unspeakably vulgar.

That last criticism may strike some readers as elitist and trivial. Yet the vulgarity that is the hallmark of Trump and his surrounding circle of oligarchs is a symptom of something not at all trivial: The collapse of social norms. As I argued yesterday, these norms historically played a key role in mitigating abuses of power and privilege during the Gilded Age, the last time America suffered from extreme income and wealth inequality (though not nearly as extreme as what we have now).

Norms matter. In his classic book The Theory of the Leisure Class — published in 1899, at the apogee of the Gilded Age — Thorstein Veblen famously argued that much of the behavior of his era’s elite was driven not by the desire to enjoy life but by the desire to impress others. Partly they did this through conspicuous consumption. Thus they built lavish mansions staffed by legions of servants.

However, members of the Gilded Age elite didn’t solely aim to display their wealth. They also tried to appear respectable. There were surely many private affairs and betrayals we will never know about. But the important point is that the super-wealthy of that era presented to the American public an image of being responsible members of society:

John D. Rockefeller and family

The contrast with the public behavior of Trump’s band of uber-wealthy is startling:


In addition to modeling upstanding behavior, the extremely rich of the Gilded Age were expected to have, or pretend to have, some virtues that were part of the aristocratic ideal, including a sense of noblesse oblige displayed by good works. Veblen was quite cynical about philanthropy, yet even he didn’t dismiss it completely, stating that:
The fact itself that distinction or a decent good fame is sought by this method [such as the endowment of a university, public library or museum] is evidence of a prevalent sense of the legitimacy, and of the presumptive effectual presence, of a non-emulative, non-invidious interest, as a consistent factor in the habits of thought of modern communities.
(Veblen’s lasting intellectual influence did not come from his sparkling prose style.)

Today’s oligarchs, by contrast, have largely given up on the old norms of social and individual responsibility. They give very little money to good causes and their vulgar taste reflects their in-your-face attitude towards the public. In our current hyper-Gilded Age, extreme vulgarity and the decline of philanthropy are really different aspects of the same phenomenon: the rise of an elite so disconnected from ordinary Americans that it feels no need to even appear to be honorable.

So in a real sense we are living in the midst of a reenactment of the decline and fall of the Roman Republic, not a second American Gilded Age. No, I’m not one of those men who thinks about ancient Rome all the time. But there are some obvious parallels.

While the causes of the decline of republican government and Rome’s eventual transition to one-man rule were doubtless complex, there is broad consensus among historians that a key factor was the emergence of extreme inequality. A handful of men became incredibly wealthy from the spoils of Rome’s eastern conquests, and their wealth and power eventually became too great for the rules of constitutional, republican government to contain. Sound uncomfortably familiar?

The death throes of the Republic went on for many years. Politicians declared their rivals enemies of the state, deployed violent gangs to disrupt the rule of law, established temporary dictatorships, and more. The installation of Augustus as emperor in 27 BC was just the final act.

And during this long twilight of constitutional government, one of the ways the extremely wealthy and powerful sought both to demonstrate their wealth and to curry favor with the mob was by sponsoring gladiatorial games.

The vulgarity of the Trumpian elite isn’t in itself that important. But it’s a symptom of a collapse in values and norms that, unless confronted and reversed, may herald the end of the American experiment. We should heed the words of the Stoic philosopher Seneca about the rise and fall of the Roman Republic: “Increases are of sluggish growth, but the way to ruin is rapid.”

segunda-feira, 1 de junho de 2026

História do naturismo na Alemanha: origens e evolução da Freikörperkultur (FKK)


O naturismo na Alemanha - historicamente designado por Freikörperkultur (FKK) ou "cultura do corpo livre" - não nasceu como uma mera preferência de lazer, mas sim como um movimento social, ético e terapêutico de rejeição aos efeitos colaterais da industrialização acelerada do século XIX.

Integrado no movimento amplo da Lebensreform (Reforma da Vida), o naturismo alemão combateu o sedentarismo urbano, o vestuário vitoriano constritivo e a alienação social, promovendo a regeneração do indivíduo através da luz solar, do ar livre e do desportivismo higienista.

Ensaio histórico: a evolução da Freikörperkultur
1. As origens e a Lebensreform (Finais do Século XIX a 1914)
Na viragem do século XIX para o século XX, a Alemanha viveu uma urbanização fulgurante. Em resposta ao crescimento das metrópoles poluídas e densas, surgiram correntes de medicina natural e higienismo que defendiam a helioterapia (cura pelo sol) e os banhos de ar. A prática da nudez coletiva ao ar livre afirmava-se como uma forma de "des-erotizar" o corpo humano, devolvendo-lhe a pureza natural em harmonia com os elementos da natureza.

Em 1898, fundou-se em Essen o primeiro clube formal de naturismo. Poucos anos depois, a expressão Freikörperkultur tornava-se o estandarte de uma filosofia que unia o vegetarianismo, o exercício físico e o desapego das convenções burguesas.

2. A idade de ouro na República de Weimar (1918–1933)
Foi no período intermédio entre as duas guerras mundiais que a FKK se transformou num movimento de massas. A República de Weimar proporcionou a abertura social necessária para o florescimento de escolas de cultura corporal e parques de ar livre (Freilichtparks).

Nesta época, a FKK dividiu-se em duas grandes correntes sociopolíticas:
  • Corrente Proletária / Socialista- ligada aos movimentos operários e ao Sozialdemokratische Partei Deutschlands (SPD), defendia o naturismo como uma ferramenta de igualdade de classes (sem roupas, desapareciam as marcas de estatuto social) e de emancipação dos trabalhadores.
  • Corrente Völkisch / Conservadora: Assente numa visão romântica da raça e da pureza física, encarava a nudez como um meio de fortalecer a "vitalidade germânica".
3. O Regime Nacional-Socialista (1933–1945)
Com a subida do regime nazi ao poder, a atitude em relação ao naturismo foi ambígua e contraditória. Inicialmente, as organizações de naturismo operário e de esquerda foram banidas e perseguidas. Em contrapartida, certas fações do regime assimilaram a estética do corpo nu e atlético como símbolo da escultura ariana. Em 1942, o regime acabou por regulamentar os banhos nus, permitindo-os desde que isolados do olhar público.

4. A Pós-Guerra: As Duas Alemanhas e a Era Contemporânea
Após 1945, o naturismo seguiu caminhos distintos:
  • Na Alemanha Oriental (RDA): o naturismo teve uma enorme adesão popular, em especial nas praias do Mar Báltico. O regime comunista, após reservas iniciais, acabou por tolerar a FKK, que funcionava para os cidadãos como uma válvula de escape de liberdade individual fora do controlo estatal.
  • Na Alemanha Ocidental (RFA): o movimento reorganizou-se formalmente em 1949 com a criação da Deutscher Verband für Freikörperkultur (DFK)
Hoje, a Freikörperkultur está plenamente integrada na identidade cultural alemã, visível em parques urbanos (como o Englischer Garten em Munique), saunas mistas sem fato de banho e praias dedicadas em todo o país.

Principais Promotores do Naturismo Alemão
  1. Karl Wilhelm Diefenbach (1851–1913): Pintor e reformador social. É considerado o pioneiro espiritual da FKK. Defendeu a nudez, o vegetarianismo e a vida em comunidade ao ar livre na sua comunidade de artistas em Höllriegelskreuth.
  2. Heinrich Pudor (1865–1943): Escritor que cunhou o termo Freikörperkultur em 1902. Publicou a obra seminal de três volumes Nacktkultur (1906), articulando a nudez com a higiene e a reforma social.
  3. Richard Ungewitter (1869–1958): Um dos organizadores e propagandistas mais influentes da fase inicial. Autor da obra Nacktheit (1906), vendeu dezenas de milhares de exemplares promovendo o naturismo como solução para a saúde pública e a regeneração moral.
  4. Adolf Koch (1896–1980): Pedagogista e líder do naturismo socialista durante a República de Weimar. Fundou escolas de cultura física em Berlim onde promovia a ginástica em nudez mista para a classe trabalhadora como forma de higiene corporal e mental.
  5. Alice Bloch (1883–1971) e Bess Mensendieck (1864–1957): Pioneiras na articulação entre o naturismo, a ginástica feminina e a postura física, promovendo o corpo livre de espartilhos e de peias morais.
  6. Hans Surén (1885–1972): Antigo oficial militar que popularizou o naturismo nas décadas de 1920 e 1930 com o livro Mensch und Sonne (1924), vendendo mais de 250 mil exemplares e enfatizando a vertente atlética e ao ar livre.
Referências Bibliográficas
  1. Hau, Michael (2003). The Cult of Health and Beauty in Germany: A Social History, 1890–1930. Chicago: University of Chicago Press.
  2. Jefferies, Matthew (2007).Turning to Nature in Germany: Hiking, Nudism, and Conservation, 1900–1940. Stanford: Stanford University Press.
  3. Ross, Chad (2005).Naked Germany: Health, Race and the Nation. Oxford: Berg Publishers.
  4. Toepfer, Karl Eric (1997). Empire of Ecstasy: Nudity and Movement in German Body Culture, 1910–1935. Berkeley: University of California Press.
  5. Ungewitter, Richard (1906). Nacktheit. Stuttgart: Selbstverlag.
  6. Williams, John Alexander (2007). "The Chaste Yawn of the Nudist: Body Culture and Left-Wing Politics in Weimar Germany". Journal of the History of Sexuality, 16(2), 241-274.

Melancolia foi um movimento cultural Europeu atingindo sobretudo a elite Inglesa dos séc. XVI e VII: John Eccles - The Mad Lover


Melancolia (do grego antigo: μελαγχολία, romanizado: melancholía; de μέλαινα χολή, mélaina cholḗ, 'bile negra') é um conceito encontrado ao longo da medicina antiga, medieval e pré-moderna na Europa que descreve uma condição caracterizada por um humor marcadamente deprimido, queixas físicas e, por vezes, alucinações e delírios. Além de uma condição patológica, a melancolia também se podia referir a um estado de espírito ou temperamento e, por vezes, era até usada como uma descrição da condição humana em geral.

A melancolia (ou mais precisamente a 'bile negra', da qual a melancolia deriva o seu nome) era considerada um dos quatro temperamentos que correspondiam aos quatro humores. Até ao século XVIII, os médicos e outros estudiosos classificavam as condições melancólicas como tal devido à sua causa comum percebida – um excesso de um fluido nocional conhecido como "bile negra", que estava comummente ligado ao baço. Hipócrates e outros médicos antigos descreveram a melancolia como uma doença distinta com sintomas mentais e físicos, incluindo medos e desalentos persistentes, falta de apetite, abulia, insónia, irritabilidade e agitação. Mais tarde, os delírios fixos foram adicionados à lista de sintomas por Galeno e outros médicos. Na Idade Média, a compreensão da melancolia mudou para uma perspetiva religiosa, com a tristeza a ser vista como um vício e a possessão demoníaca, em vez de causas somáticas, como uma potencial causa da doença.

Durante o final do século XVI e o início do século XVII, surgiu em Inglaterra um culto cultural e literário da melancolia, associado à transformação da melancolia, por parte do neoplatonista e humanista Marsilio Ficino, de um sinal de vício numa marca de génio. Esta melancolia da moda tornou-se um tema proeminente na literatura, na arte e na música da época.

Movimento cultural inglês

Durante o final do século XVI e o início do século XVII, surgiu em Inglaterra um curioso culto cultural e literário da melancolia. Num influente ensaio de 1964 na revista Apollo, o historiador de arte Roy Strong traçou as origens desta melancolia da moda até ao pensamento do popular neoplatonista e humanista Marsilio Ficino (1433–1499), que substituiu a noção medieval de melancolia por algo novo:

"Ficino transformou o que até então tinha sido considerado o mais calamitoso de todos os humores na marca do génio. Não admira que, eventualmente, as atitudes de melancolia se tenham tornado logo um complemento indispensável para todos aqueles com pretensões artísticas ou intelectuais."


The Anatomy of Melancholy (A Anatomia da Melancolia, ou na sua versão completa: O Que Ela É: Com Todos os Seus Tipos, Causas, Sintomas, Prognósticos e Várias Curas... Filosoficamente, Medicinalmente, Historicamente, Aberta e Dissecada) de Robert Burton, foi publicada pela primeira vez em 1621 e continua a ser um monumento literário definidor dessa moda. Outro grande autor inglês que se expressou extensamente sobre o facto de ter uma disposição melancólica foi Sir Thomas Browne na sua obra Religio Medici (1643).

Night-Thoughts (Queixume: ou, Pensamentos Noturnos sobre a Vida, a Morte e a Imortalidade), um longo poema em verso livre de Edward Young, foi publicado em nove partes (ou "noites") entre 1742 e 1745, tornando-se enormemente popular em várias línguas. Teve uma influência considerável nos primeiros românticos em Inglaterra, França e Alemanha. William Blake foi mais tarde contratado para ilustrar uma edição posterior.

Nas artes visuais, esta melancolia intelectual da moda surge frequentemente na retratística da época, com os modelos posados sob a forma de "o amante, com os braços cruzados e o chapéu desabado sobre os olhos, e o erudito, sentado com a cabeça apoiada na mão" – descrições retiradas do frontispício da edição de 1638 da Anatomia de Burton, que mostra exatamente essas personagens que, por essa altura, já se tinham tornado clichés. Estes retratos eram frequentemente ambientados ao ar livre, onde a Natureza oferecia "o cenário mais adequado para a contemplação espiritual", ou num interior sombrio.

Na música, o culto pós-elisabetano da melancolia está associado a John Dowland, cujo mote era Semper Dowland, semper dolens ("Sempre Dowland, sempre em pranto"). O homem melancólico, conhecido pelos contemporâneos como um "malcontente", é personificado pelo Príncipe Hamlet de Shakespeare, o "Melancólico Dinamarquês".

Um fenómeno semelhante, embora não sob o mesmo nome, ocorreu durante o movimento alemão Sturm und Drang, com obras como As Dores do Jovem Werther de Goethe, ou no Romantismo com obras como Ode sobre a Melancolia de John Keats, ou ainda no Simbolismo com obras como A Ilha dos Mortos de Arnold Böcklin. No século XX, grande parte da contracultura do modernismo foi alimentada por uma alienação comparável e por um sentimento de falta de propósito chamado "anomia"; a preocupação artística anterior com a morte passou a ser designada sob a rubrica de memento mori. A condição medieval de acedia (acédia em português) e o Weltschmerz romântico eram conceitos semelhantes, com maior probabilidade de afetar o intelectual.

Mais detalhado aqui

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Apagar Portugal da Língua Portuguesa: a nova utopia ideológica


A Língua Portuguesa não necessita de pedir licença para existir, nem de ser rebaptizada ao sabor das modas ideológicas contemporâneas. É uma das grandes línguas de cultura da Humanidade, formada ao longo de séculos de História, literatura, diplomacia, ciência e expansão civilizacional. Muito antes de certas tertúlias “descoloniais” descobrirem o prazer semântico da autoflagelação civilizacional, já o Português era veículo de pensamento, administração, poesia, comércio e universalidade.
Recentemente, José Eduardo Agualusa, no lançamento do livro “Tudo sobre Deus”, durante o festival Remexe Rio, resolveu brindar o público com uma reflexão sobre “As aventuras das Línguas Portuguesas”, no plural. Estava dado o mote para mais um exercício contemporâneo de revisionismo linguístico, esse desporto intelectual tão apreciado por sectores que parecem sentir vergonha da própria matriz civilizacional que lhes permite, precisamente, publicar livros, viajar pelo mundo e discursar em festivais internacionais.
Com uma prosa sentimental e algo piegas, o escritor propôs que a Língua Portuguesa deixasse de ser Portuguesa para passar a chamar-se “Língua Geral”, por considerar que o idioma teria deixado de ser “colonial, de opressão, de exploração e de domínio”, tornando-se antes um “território de encontros e afectos”. Curiosa formulação. Sobretudo porque a esmagadora maioria das línguas globais nasceu, expandiu-se ou consolidou-se através de impérios, migrações, guerras, alianças comerciais e influências culturais. O Inglês não se disseminou pelo mundo graças a festivais de poesia pacifista, o Castelhano não chegou à América por intercâmbio académico, e o Francês não adquiriu estatuto diplomático universal por mera simpatia gastronómica.
Percebe-se perfeitamente que o gigantesco mercado editorial Brasileiro constitua, na imaginação do escritor, um palco particularmente apetecível para este tipo de discurso ideologicamente alinhado com as tendências culturais da actualidade, podendo daí colher apreciáveis dividendos mediáticos e editoriais. Todavia, uma coisa parece garantida: tal estratégia dificilmente assegurará o respeito intelectual das pessoas verdadeiramente sérias, sobretudo das que conhecem minimamente a História, a formação e a projecção universal da Língua Portuguesa.
Mais curioso ainda é verificar que o próprio Agualusa beneficiou amplamente do espaço cultural Português e europeu. Estudou no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa, recebeu bolsas literárias em Portugal, além de apoios de instituições Holandesas e Alemãs. Nada de escandaloso nisso — pelo contrário. O problema surge quando se tenta transformar a língua que proporcionou essa projecção internacional numa espécie de entidade abstracta, órfã da sua origem histórica e civilizacional. Como se o Português tivesse nascido espontaneamente numa assembleia multicultural sob os auspícios da ONU de Guterres.
Aliás, se a lógica defendida por Agualusa fosse levada às últimas consequências, talvez o próprio escritor devesse dar o exemplo pessoal da ruptura identitária que propõe para a Língua Portuguesa. Poderia começar por abandonar o nome “José Eduardo”, de matriz claramente Ibérica e Cristã, substituindo-o por algo considerado culturalmente mais “descolonizado”. Talvez “Malungo”, em referência Angolana; “Omar”, de influência Árabe; ou “Caíque”, de origem Guarani. Quanto ao apelido “Agualusa”, igualmente integrado na tradição onomástica de expressão Portuguesa, poderia igualmente ser adaptado a uma fórmula mais consentânea com essa nova utopia linguística sem raízes nem origem definida. O problema destas teorias não reside no reconhecimento legítimo das influências culturais múltiplas — isso sempre existiu e constitui riqueza civilizacional —, mas na tentativa algo caricatural de apagar deliberadamente a matriz histórica fundadora da Língua Portuguesa, como se reconhecer a origem de uma língua fosse automaticamente um acto de opressão. Curiosamente, ninguém exige ao Inglês que deixe de se chamar Inglês por possuir vocábulos Normandos, Latinos, Germânicos ou Hindustânicos. Só ao Português parece exigir-se o estranho ritual contemporâneo da autoflagelação identitária permanente.
Importa, pois, recordar alguns factos elementares que parecem causar incómodo a certos pregadores da nova ortodoxia linguística. O Português deriva do Latim vulgar há cerca de dois mil anos e possui um substrato Céltico-Lusitano ligado aos Galaicos, Lusitanos, Célticos e Cónios. Com o colapso do Império Romano e a presença de povos Germânicos e Iranianos ou Eslavos — Suevos, Vândalos, Búrios, Alanos e Visigodos — consolidou-se o Proto-Galego-Português. Ou seja, o Português não nasceu em Luanda, no Rio de Janeiro ou numa conferência pós-colonial; nasceu na faixa ocidental da Península Ibérica, desenvolveu-se historicamente em Portugal e daí irradiou para o mundo.
E irradiou de forma extraordinária. Nos séculos XV e XVI, Portugal construiu um império marítimo e comercial que levou o Português a África, à Ásia e à América. O idioma tornou-se língua diplomática, comercial e administrativa em vastíssimas regiões do globo. Foi língua franca no Oriente, serviu de meio de comunicação entre povos asiáticos, africanos e europeus, e chegou a ser idioma dominante no Sri Lanka durante séculos. Dessa expansão nasceram crioulos, variantes regionais e influências recíprocas. Exactamente como aconteceu com todas as grandes línguas universais da História.
Mas há um detalhe frequentemente omitido pelos entusiastas da desconstrução identitária: a Língua Portuguesa continua, ainda hoje, a desempenhar uma função civilizacional indispensável, sobretudo em África. Em numerosos países africanos coexistem centenas de dialectos e línguas locais sem intercompreensão mútua. Sem o Português, a comunicação administrativa, jurídica, educativa e até nacional tornar-se-ia caótica. O Português funciona como elemento agregador, instrumento de unidade nacional e ponte internacional. Ironia das ironias: a língua tantas vezes denunciada como “opressora” é precisamente a que permite a comunicação entre comunidades que, de outro modo, permaneceriam linguisticamente fragmentadas.
Também em Timor-Leste o Português teve um papel político fundamental. Durante a ocupação da Indonésia, a preservação da Língua Portuguesa tornou-se símbolo de resistência nacional e afirmação identitária. O idioma funcionou como elo diplomático com o exterior e como marca distintiva face ao ocupante. Estranho instrumento de “opressão colonial”, este, que serviu de bandeira cultural na luta pela independência.
A relevância literária da Língua Portuguesa é igualmente incontestável. Obras como “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, elevaram o idioma ao patamar das grandes línguas clássicas europeias. Mais tarde, autores como Fernando Pessoa, José Saramago, Machado de Assis ou Mia Couto demonstraram a extraordinária capacidade do Português para exprimir pensamento filosófico, ironia, lirismo, crítica social e universalidade humana.
No plano diplomático e político, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa constitui hoje um espaço estratégico de cooperação internacional. O Português é uma das línguas mais faladas do mundo e possui crescente relevância geopolítica. Não obstante isso, há sempre quem considere mais urgente problematizar o nome da língua do que promover efectivamente o seu ensino, a sua difusão científica ou a sua valorização cultural.
No domínio científico, o Português continua a ser instrumento de produção e transmissão de conhecimento em universidades, centros de investigação e instituições académicas espalhadas por vários continentes. Apesar do predomínio internacional do inglês, o Português mantém uma função essencial na democratização do acesso ao saber e na formação de milhões de pessoas.
A verdade é simples, embora aparentemente incómoda para certos círculos intelectuais: o Português não precisa de ser desculpado pela História para justificar a sua existência. Nenhuma grande língua do mundo possui um passado asséptico, neutro ou angelical. As línguas são produtos da História da Humanidade — e a História da Humanidade raramente se escreveu com pétalas de rosa e declarações de boas intenções.
Assim, a Língua Portuguesa permanece aquilo que sempre foi: uma língua de cultura, de civilização, de universalidade e de futuro. Uma língua viva, plural e global, suficientemente forte para acolher influências externas sem perder identidade própria. E talvez seja precisamente essa solidez histórica que incomoda aqueles que gostariam de transformar tudo quanto herdámos numa vaga amálgama sem memória, sem origem e, de preferência, sem maiúsculas.
Sem Portugal não existiria Língua Portuguesa — apenas silêncio histórico!

João Micael
Presidente
Matriz Portuguesa – Associação para o Desenvolvimento da Cultura e do Conhecimento

sexta-feira, 15 de maio de 2026

A História Milenar da Civilização Palestina

O termo Palestina não é uma invenção moderna nem uma criação arbitrária do Império Romano, mas sim o resultado de uma evolução linguística e geográfica que se estende por mais de três milénios. As suas raízes mais remotas encontram-se nos hieróglifos egípcios do século XII a.C., onde se menciona o povo Peleset, um dos "Povos do Mar" que se estabeleceu na costa sul do Levante. Esta denominação persistiu nos registos assírios do século VIII a.C. sob as formas Palashtu ou Pilistu, referindo-se inicialmente à região costeira da Filisteia. No entanto, foi a influência grega que começou a expandir o alcance do nome; no século V a.C., o historiador Heródoto utilizava o termo Palaistine não apenas para a costa, mas para descrever todo o distrito que se estendia para o interior, até ao vale do Jordão e à fronteira com o Egito.
Quando o imperador romano Adriano reorganizou a província após a revolta de Bar Kokhba em 135 d.C., renomeando-a como Syria Palaestina, não estava a cunhar um vocábulo novo, mas sim a oficializar uma terminologia que já era padrão no mundo helenístico e académico da época. O que começou como um marcador étnico para um grupo específico de colonos costeiros (os filisteus) acabou por se tornar, através dos séculos, numa designação administrativa e geográfica abrangente. Este processo reflete como as potências imperiais da antiguidade frequentemente adotavam e adaptavam nomes preexistentes para consolidar os seus próprios quadros territoriais, integrando tradições locais, gregas e romanas numa identidade cartográfica que perduraria no tempo.
Após séculos de domínio romano e otomano, passou pelo Mandato Britânico e culminou na partilha da ONU em 1947, resultando na criação de Israel e nos atuais conflitos pela soberania e reconhecimento estatal.

Análise do famoso historiador Escocês 
William Dalrymple tem sido crítico das ações de Israel durante a guerra em Gaza e do apoio do Reino Unido a Israel. Numa entrevista de 2024 ao The Times, fez uma analogia entre a resposta de Israel aos ataques de 7 de outubro e a resposta da Grã-Bretanha à Revolta dos Sipaios de 1857, dizendo: "A Revolta tem ecos contemporâneos. O mesmo sentimento de que mulheres e crianças inocentes foram atacadas e que, portanto, isso forneceu carta branca para vingança e represálias." Em maio de 2025, Dalrymple assinou uma carta aberta chamando a guerra em Gaza de genocídio. Num artigo de Setembro de 2025 para o New Statesman, Dalrymple argumentou que a Grã-Bretanha tinha uma responsabilidade histórica de ajudar a estabelecer um Estado palestiniano.

Saber mais:
A Place of Many Beginnings: Three Paths into the History of Palestine (Um Lugar de Muitos Começos: Três Caminhos para a História da Palestina) é um projecto interactivo de história da Palestina desenvolvido por Visualizing Palestine que foi apresentado no passado fim-de-semana no Festival de Literatura Palestine Writes, na Universidade da Pensilvânia e está disponível para o público interessado.


A história da Palestina... tem múltiplos 'começos' e a ideia da Palestina evoluiu ao longo do tempo a partir destes múltiplos 'começos' para um conceito geopolítico e uma política territorial distinta
Nur Masalha, Palestine: A Four Thousand Year History (pág. 8)

A Place of Many Beginnings foi apresentado no sábado, 23 de Setembro, durante um painel com os académicos palestinos Nur Masalha e Salman Abu Sitta, moderado pela autora e activista palestina Susan Abulhawa.


Com um visual muito apelativo e um conteúdo rico e inovador, esta apresentação aponta caminhos para conhecer a verdadeira história da Palestina.

Na secção Many Beginnings (Muitos Começos) pode conhecer a forma como a revolução agrícola, os berços de civilização, o comércio e o trânsito e a religião moldaram a Palestina e saber mais sobre a posição central da Palestina nas rotas comerciais antigas mais importantes.

Na secção Material Culture (Cultura Material) fala-se da arquitectura vernacular, da arquitectura monumental e muito mais.

Na secção Naming Palestine (Nomear a Palestina) ficamos a saber como os nomes palestinos dos lugares em árabe transmitiram a memória social e a história.

Com este ambicioso projecto, a Visualizing Palestine diz pretender lançar um debate sobre a forma como a história palestina tem sido obscurecida e distorcida por centenas de anos de abordagens e prioridades coloniais, incorporadas por estudos bíblicos e pela historiografia sionista.

«Os palestinos estão numa viagem intelectual inspiradora, rigorosa e de afirmação da vida, juntamente com outras comunidades indígenas que estão a escrever e a recuperar as suas histórias no meio de mitos dominantes e sancionados pelo Estado», diz Visualizing Palestine na apresentação do projecto. «Esperamos que o lançamento de hoje seja apenas um "começo" e que a plataforma evolua à medida que o diálogo progride.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Nikolai Gogol - sobre a corrupção de uma classe decadente que domina o povo ignorante e escravo do Estado


Há momentos em que é impossível encaminhar a sociedade, ou mesmo uma geração inteira, para o belo sem revelar toda a profundidade da sua verdadeira abominação.

Esta frase de Nikolai Gogol carrega o peso do realismo fantástico e da sátira social que definiram a sua obra. Gogol não era apenas um contador de histórias; era um observador clínico das falhas humanas. Para compreender o que ele pretende dizer, precisamos de olhar para a ideia de choque de realidade.

Em primeiro lugar, surge a necessidade do espelho cruel. Gogol sugere que a sociedade vive frequentemente num estado de negação ou hipocrisia e, para ele, falar sobre beleza, virtude ou progresso moral é inútil se os alicerces da sociedade estiverem podres. O conceito é simples: não se pode curar uma doença se o paciente se recusa a admitir que está doente. Assim, a acção da arte ou da história deve ser a de actuar como um espelho que não embeleza, revelando a abominação — as injustiças, a corrupção e a mediocridade — para que o horror da própria imagem force a mudança.

Esta abordagem liga-se à catarse pelo grotesco, estilo pelo qual Gogol é famoso. Em obras como O Inspector Geral ou Almas Mortas, o autor retrata burocratas corruptos e proprietários de terras absurdos, não apenas para fazer rir, mas para causar um desconforto profundo. Ele acredita que a beleza não pode florescer em solo contaminado por mentiras não reveladas e que a sociedade só se sentirá motivada a procurar a beleza e a ordem moral quando o peso do seu próprio vazio se tornar insuportável. É a ideia de que é preciso chegar ao fundo do poço para, finalmente, olhar para cima.

Desta forma, o papel do artista é o de um revelador. Para Gogol, o escritor não deve apenas entreter, mas sim realizar uma espécie de exorcismo social. Ele afirma que é impossível conduzir uma geração pela lógica ou pelo incentivo gentil porque as pessoas estão anestesiadas. O choque provocado pela revelação da profundidade da verdadeira abominação é o que possui a energia cinética necessária para retirar uma sociedade da sua inércia moral.

Em resumo, Gogol defende que a regeneração moral exige honestidade brutal. Ele acredita que a luz só será valorizada e procurada quando todos compreenderem plenamente a extensão das trevas em que estão mergulhados. É uma visão pessimista no diagnóstico, mas esperançosa no objectivo final: a transformação através da verdade.