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sexta-feira, 17 de abril de 2026

Nick Cave & The Dirty Three - Time Jesum Transeuntum et Non Riverentum


O título em latim, Time Jesum Transeuntum Et Non Riverentum, traduz-se aproximadamente como "Temei a Jesus que passa e não volta". A música carrega esse peso teológico e existencialista que é a marca registrada de Nick Cave, envolta no caos controlado e orgânico dos Dirty Three

Footages fom Movie: Frailty (2001)

O filme conta a história de um homem atormentado que chega a uma delegacia durante uma noite chuvosa, alegando conhecer a identidade do assassino conhecido como "A Mão de Deus". Em seu depoimento, ele volta à sua atribulada infância numa quinta de rosas no Texas, onde o seu pai acreditava ter recebido uma incumbência divina: matar os demónios que habitam a Terra, disfarçados de humanos. Enquanto ele cumpre essa terrível missão, o garoto e seu irmão precisam encontrar uma maneira de impedir o pai de continuar com os assassinatos.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

U2 - Easter Parade


A canção apresentada no vídeo é uma versão de "Easter Parade", um tema original da banda escocesa The Blue Nile, interpretado aqui pelos U2. No que toca ao estilo musical, esta peça afasta-se do rock de estádio mais convencional da banda irlandesa para mergulhar no Sophisti-pop e no Art Pop.

Trata-se de uma composição minimalista e atmosférica, onde impera uma sonoridade polida e elegante, muito característica da produção de finais dos anos 80 e início dos 90. A faixa assenta numa estrutura de Ambient Pop, privilegiando texturas suaves de piano e sintetizadores que criam uma envolvência etérea e quase hipnótica.

Do ponto de vista interpretativo, a música funciona como uma balada contemplativa. A voz de Bono assume um tom mais contido e vulnerável, focando-se na carga emocional e espiritual da letra. A presença de elementos litúrgicos, como a repetição da expressão grega "Kyrie Eleison" (Senhor, tende piedade) na secção final, reforça o carácter solene e devocional da obra, transformando-a numa espécie de hino moderno de cariz espiritual.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Sandrine Piau and Armand Amar : Vivaldi - "Nisi Dominus"




Cum dederit dilectis suis 
somnum; 
Ecce haereditas Domini, filii: 
Merces, fructus ventris. 

When he has given sleep
to those he loves,
Behold, children are an inheritance
of the Lord,
A reward, the fruit of the womb


Embora o "Nisi Dominus" (RV 608) de Antonio Vivaldi tenha passagens que soam profundamente melancólicas e introspectivas, ele não é uma música de luto (como um Requiem), mas sim um Salmo de louvor e confiança.

O Significado e o Texto
A obra é uma ambientação musical do Salmo 127 (ou 126 na Vulgata Latina). O tema central não é a morte, mas a dependência humana de Deus.

A Tradução do Título: "Nisi Dominus" significa "A menos que o Senhor...".

A Mensagem: O texto diz que, sem a bênção divina, o trabalho humano é inútil: "Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam".

Por que ela soa como luto?
A confusão é muito comum por causa de um movimento específico: o "Cum Dederit".

O "Cum Dederit": É o quarto movimento desta obra e um dos mais famosos de Vivaldi. Ele é lento (Largo), etéreo e possui uma linha vocal que parece flutuar sobre cordas em surdina.

O Tema do Sono: A letra deste movimento diz: "Pois ele dá o sono aos seus amados". Na música barroca, o "sono" era frequentemente uma metáfora para a morte ou para a paz espiritual absoluta.

Uso no Cinema: Essa faixa é constantemente usada em filmes para cenas de tragédia, introspecção ou luto (como no filme James Bond: Spectre ou Suburra), o que reforça essa associação emocional no nosso cérebro.

AspectoDescrição
GêneroMúsica Sacra (Vesperal)
VozEscrita originalmente para um Contralto (ou Contra-tenor)
SentimentoContemplação, serenidade e submissão divina

sábado, 27 de dezembro de 2025

Boston Baroque — "Glory to God" from Handel's Messiah


Ele está desde o início dos tempos. Muito antes de Buda, Ísis, Zeus, Jesus, Maomé, etc...Ele não condena, não critica, não espolia. Não massacra. Ele é o caminho, o bálsamo. É Luz, Perdão, Amor. 
Tema muito bonito. Vozes encantadoras.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Né Ladeiras - Beijai o menino

"Beijai o menino, beijai- o agora
Beijai o menino, de nossa senhora
Beijai o menino, beijai-no pé
Beijai o menino, que é de São José

Os filhos dos homens em berços dourados
E bós meu menino em palhas deitado
Em palhas deitado, em palhas querido
Filho de uma rosa dum cravo nascido

Os filhos dos homens em bós travesseiros
E bós meu menino preso a um madeiro

Sois um manso cordeiro que estais nessa cruz
Com os braços abertos perdoai-nos Jesus
Sois o Salvador do mundo que tudo salvais
Salvei nossas almas bendito sejais."

Este é o resultado de dois anos de pesquisa de material relacionado com a música e a cultura tradicional transmontana, nomeadamente as recolhas efectuadas por Michel Giacometti e por Jorge e Margot Dias. Foram assim redescobertos, cantares que remontam ao séc. XVI e outros cuja origem se perderam na bruma dos tempos e que aqui são reinterpretados á luz dos nossos dias.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Maria durch ein Dornwald ging e significa literalmente: “Maria caminhou por um bosque de espinhos.”


Esta frase é o primeiro verso de um cântico tradicional alemão de Advento/Natal, muito antigo (século XVI). A canção descreve Maria a caminho do nascimento de Jesus, atravessando um bosque seco e cheio de espinhos.
Significado simbólico:
1. O bosque de espinhos representa dificuldades, sofrimento e esterilidade.
2. Quando Maria passa por ele, o bosque floresce, simbolizando a esperança; o milagre do nascimento de Cristo e a vida que surge onde antes não havia.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Marc Antoine Charpentier - Musiques pour la Sainte Chapelle

Musiques pour la Sainte Chapelle, de Marc-Antoine Charpentier (1643–1704), é um conjunto de obras sacras escritas durante o período em que o compositor trabalhou na Sainte-Chapelle de Paris (c. 1698–1704). Não se trata de uma obra única, mas sim de um repertório composto para o serviço litúrgico daquele espaço, considerado um dos centros mais prestigiados de música sacra em França.

Depois de anos a trabalhar para patronos privados (como Mlle de Guise) e para o teatro (incluindo colaborações com Molière), Charpentier assumiu o cargo de maître de musique da Sainte-Chapelle em 1698. Ali compôs numerosas obras vocais religiosas, muitas das quais sobrevivem em manuscritos autógrafos. Biografia

A minha prenda Natal para os meus amigos. Para além da ritualização, sempre um pouco avesso ao consumismo e prendas, prefiro a presença, a celebração dos encontros durante o Advento (mais união e fortalecimento de vínculos)  e  uma escolha espiritual. Para mim o Natal são momentos de oração e da prática meditativa, acredito também na visão holística e na essência Zen manifestas nesta época especial. Compreender a vida a partir de um ponto de vista holístico, significa acolher preceitos de comunhão entre o divino e o material e viver no caminho do amor. Como disse Buda, sábia divindade, "Jamais, em todo o mundo, o ódio acabou com o ódio; o que acaba com o ódio é o amor".

Assim como Cristo e Buda, seres que cumpriram os seus caminhos espalhando atitudes e palavras de sabedoria, que seguem-nos inspirando e nutrindo o espírito, também somos seres divinos e todos os dias traçamos passo a passo a nossa jornada espiritual na caminhada terrena. Possuindo a mágica possibilidade de escolher traçar trajetos amorosos, gentis e afetuosos, seguindo os preceitos de nossa essência interior.

Afeiçoado à práticas de amorosidade e generosidade, temos a divindade espiritual Jesus Cristo, que pregou atitudes de solidariedade e continua uma grande referência de liderança humanitária. Às vésperas do Natal, a comemoração de seu aniversário recebemos o convite interior em olhar as suas práticas de uma forma inspiradora, de nutrir as nossas relações e atitudes de uma forma mais pacifista.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Chega: sexo, mentiras e Deus


Numa pequena cidade dos EUA, um contabilista obeso morreu subitamente no seu cubículo de trabalho. No seu funeral estavam apenas a mulher e os filhos, que mal o conheciam. O homem vivia em frente ao computador e falava pouco. Nessa mesma noite, longe da família enlutada, houve outro funeral. “Ajax”, a personagem que o contabilista protagonizava num jogo de computador, foi homenageada por milhares de pessoas, no mundo inteiro, que nunca viram o contabilista solitário, não sabiam quem era ou onde morava. Esse funeral foi épico, com amigos, aliados, inimigos e adversários, que celebravam os feitos heróicos de Ajax naquele jogo. Afinal, qual era a “vida” realmente importante do homem que morreu? Na realidade ou no jogo?

Esta história é contada por Steve Bannon, o antigo conselheiro de Donald Trump, que dirigiu a sua campanha vitoriosa em 2016, no filme American Dharma, de Errol Morris (2018). Bannon argumenta que o “destino” (dharma) da vida de milhões de pessoas está vazio — e pronto a ser preenchido por quem o saiba compreender. “Vem aí uma revolução”, explica o guru de Trump a um céptico realizador que o tenta confrontar. Bannon e Morris não parecem discordar sobre as causas desse vazio: as classes médias sentem-se hoje como os servos russos do século XVIII, ou como hamsters numa gaiola, concede Bannon, enumerando as razões materialistas que levam muitas pessoas a refugiar-se nos jogos, nas teorias da conspiração e na ficção para encontrar um sentido para as suas vidas. Estão reféns do sector financeiro e entregaram a sua auto-determinação às plataformas digitais e à inteligência artificial — tudo isso é verdade, argumenta o estratega político. Mas para se entender a mobilização que alimenta esta corrente política que nem sequer tem um nome consensual — “direita radical”, “extrema-direita” ou “direita populista” — é preciso juntar à realidade os mecanismos da pura ficção. Aqueles que procuram um sentido são os combatentes da “guerra” que os políticos como Trump, Ventura ou Bolsonaro seduzem para travar.

Não será por acaso que Miguel Carvalho, jornalista que investigou o Chega nos últimos cinco anos, escolheu começar o seu livro (Por Dentro do Chega, com a chancela da Objectiva) por uma história que André Ventura criou. Ameaçado por uma suposta investigação judicial que pretendia prendê-lo — mas nunca existiu —, Ventura refugiou-se na luxuosa Quinta das Nespereiras, em Odiáxere (Lagos). O proprietário, Arlindo Fernandes, militante do Chega, conta que viu chegar, “borradinhos de medo”, o líder do partido e a sua mulher, mais um grupo restrito de dirigentes. Estávamos em 2020 e Ventura era deputado. O seu plano era passar à “clandestinidade”, numa lancha rápida com destino a Tânger, Marrocos. Um político como Ventura precisa de criar uma personagem, com um “destino”, um arco narrativo. É esse mecanismo que o liga aos votantes — mais de um milhão e 400 mil nas últimas legislativas.

Miguel Carvalho recolheu centenas de testemunhas, de dirigentes e militantes do Chega. Muitos, certamente sem conhecerem a teoria de Bannon, apontam essa explicação “Ajudei a nascer o Chega porque acreditei que era algo que Deus queria que eu fizesse. Entretanto, o André revelou-se um Saul e não um David. É um grande actor,” diz Lucinda Ribeiro, a mulher nascida em Meimoa, Penamacor, que organizou o crescimento do Chega nas redes sociais. A seu lado trabalhava outra mulher, de origem social bem diferente: Patrícia Sousa Uva gosta de se chamar a si própria de “dondoca”. O seu testemunho sobre Ventura também revela uma personagem construída: “É uma mistura de padre com chico-esperto do futebol de Mem Martins.”

O grupo que geria as redes sociais de Ventura incluía ainda Gerardo Pedro, de Santarém. “Via-o a ralhar na CMTV, no ‘Rua Segura’, e deixei-me ir naquela conversa, era música para os meus ouvidos…” Hoje, Lucinda, Patrícia e Gerardo deixaram de se rever na personagem. “Sinto vergonha de ter andado nisto. Não é o que quero, nem para a minha filha… Este homem não pode governar o país. Não pode”, diz Gerardo Pedro. Mas o seu trabalho (muitas vezes de sapa, com perfis falsos, montagens e difamações sobre outros políticos) permitiu a Ventura libertar-se da sua ajuda. O líder é a personagem, como revela o livro: 80% dos fundadores do Chega já saíram do enredo.

“O meio é a mensagem”, explica Bannon ao cineasta americano (e seu adversário político) Errol Morris. Não se trata de uma citação nova, nem original. Quando Marshall McLuhan a escreveu, em 1967, não havia X, nem TikTok, nem Facebook, nem Youtube, ou qualquer das “redes” onde a maioria das pessoas hoje forma as suas opiniões, e onde os políticos da direita radical “pescam” os seus apoiantes. Mas a ideia continua a fazer sentido, seja ali ou na televisão, que reproduz de maneira acrítica os vídeos — encenados ao detalhe — que Ventura diariamente protagoniza.

As redes substituíram os media e têm consequências — pessoais, políticas, económicas, estéticas, psicológicas, morais, éticas e sociais — que nenhuma força política tradicional, de esquerda ou de direita, parece compreender. A extrema-direita foi hábil a identificar esta mudança estrutural no debate político. As redes são a sua casa (e o dono do X, Elon Musk, faz saudações nazis para os acolher).

“Aqui a gente destrói os caras”, explica Silas Malafaia, mostrando o seu telemóvel. É um pastor evangélico, celebridade nas redes e na televisão brasileira. Ele é a personagem principal de Apocalipse nos Trópicos (Netflix, 2024), o mais recente documentário da brasileira Petra Costa.

Entrevistado ao longo dos últimos anos, em visitas pessoais a Bolsonaro no Palácio do Planalto, ou a viajar no seu avião privado que — gaba-se — custou mais de um milhão de dólares, Malafaia é um religioso que quer ser influente na política, depois de ter herdado uma igreja evangélica que há dez anos tinha 15 mil fiéis. “Tem 100 mil agora”, exclama. “Evangélicos e católicos somos a maioria absoluta do país! A democracia é a vontade da maioria absoluta”, teoriza o evangélico rico.

Essa via para um regime político de faceta teocrática não existe apenas no Brasil ou nos Estados Unidos. Já chegou a Portugal há algum tempo. Lucinda Ribeiro é não só uma eficaz “guerreira" nas redes sociais, mas abriu as portas do Chega a um grupo demográfico novo: o voto evangélico.

Só na região de Lisboa há mais de mil igrejas evangélicas. As mais pequenas têm menos de 100 pessoas, enquanto as maiores (como a IURD ou a Igreja Maná) organizam muitos milhares. Miguel Carvalho aponta alguns nomes curiosos de congregações: “Assembleia de Deus Fogo para a Europa”, “Igreja Baptista Cristo Vive em Células”, “Igreja do Avivamento em Portugal”, ou “Igreja Evangélica Bola de Neve”.

Estas igrejas são espaços comunitários, raros, nas nossas sociedades, quando quase todas as formas de organização (incluindo a Igreja Católica, os sindicatos, as associações culturais) estão em crise. No início deste século, os evangélicos representavam 5% da população brasileira, sendo agora quase um terço dos 212 milhões de habitantes do Brasil. Ricardo Marchi, observador (muitas vezes participante) do Chega é citado por Miguel Carvalho: “Muitos evangélicos comprometeram-se com o Chega desde o início, compartilhando vídeos e textos de fiéis brasileiros contrários à agenda da esquerda (principalmente política de género e mobilização LGBTQIA+).”

Ventura deixou nas redes o convite: “O Chega é a religião dos portugueses comuns”; “Nós somos como aquelas seitas religiosas: fortíssimos”; “Sou muito religioso e acredito que o que me aconteceu a mim e ao Chega na História de Portugal, desde o meu percurso de comentador até ao Parlamento, é um milagre”; “Quero todas as igrejas cristãs com o Chega. Todas. Sem medo nem preconceito”; “Deus no Comando!”

“Olham para Ventura como Messias político e testa de ferro dos seus interesses”, explica, no livro de Miguel Carvalho, João Viegas, pastor evangélico português. “Somos um partido de fanáticos religiosos”, acrescenta Luís Alves, ex-dirigente do Chega, em Sintra.

Poder, dinheiro e favores são a moeda de troca neste negócio político-religioso, detalha o livro.

Steve Bannon gosta de repetir uma frase estranhamente ameaçadora: "É melhor reinar no inferno do que servir no céu." (John Milton, Paraíso Perdido).

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Gabor Maté: “No Ocidente há um vazio profundo, que vem da falta de pertença, da perda de ligação”

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O corpo e a mente são inseparáveis e o modo de vida ocidental põe-nos doentes, diz este médico-pensador. Os seus livros são best-sellers. Um deles chama-se 'No Reino dos Fantasmas Famintos'.
Pedro Rios, Público, 2/05/2025

Ela tinha 27 anos. Era trabalhadora do sexo e tinha VIH. “A primeira vez que consumi heroína foi como um abraço quente e terno”, disse esta toxicodependente de Vancouver ao médico Gabor Maté, que então trabalhava com esta população.
No gueto das drogas de Vancouver, Maté ouviu muitas histórias idênticas. Como a de Nick, viciado em heroína e metanfetaminas, consumidor de drogas “para não sentir a porcaria dos sentimentos” que sentia quando não as consumia; a de Frank, “alma doce”, “solitário heroinómano”, que escreveu num poema que procurava “alívio para a dor”, mas só encontrou um “bilhete de ida num comboio para o inferno”; ou a de Serena, mulher indígena de pouco mais de 30 anos que encontrava nas drogas uma forma de esquecer os abusos sexuais que começou a sofrer aos 7 anos.
São histórias contadas por Gabor Maté em 'No Reino dos Fantasmas Famintos', finalmente publicado em Portugal. Disseram-lhe que o livro humaniza os toxicodependentes, um reconhecimento que “reflecte uma percepção errada fundamental e comum”, a de que os viciados em droga não são realmente humanos como os restantes. “O que impede tantas pessoas de verem isso?”
Com mestria de contador de histórias e apoiado por estudos e pela sua experiência como médico residente da Portland Hotel Society (uma organização sem fins lucrativos que apoia toxicodependentes, dando-lhes alojamento e cuidados médicos), Maté explica que as drogas são o fraco e sempre incompleto consolo de muitos humanos (como Nick, Frank e Serena), preenchendo vazios afectivos que remontam quase sempre à infância, tal como o trabalho, o jogo, a pornografia ou compras são respostas aos vazios de outros. “A nossa sociedade, com pessoas cada vez mais desesperadas para escapar ao isolamento e desânimo das suas vidas quotidianas, está repleta de todos os tipos de dependências, e cada vez surgem mais”, escreve o autor, que, em 2018, foi distinguido com a Ordem do Canadá.
Quando publicou este livro, em 2008, o húngaro-canadiano era já conhecido como especialista em temas como as dependências, o stress, o trauma, o desenvolvimento infantil e o défice de atenção. Os seus livros, as suas palestras e as suas entrevistas chegam a uma multidão de pessoas à procura de respostas num mundo agitado, nervoso, ansioso como elas. No livro que se seguiu, 'O Mito do Normal' (2022), interpreta várias epidemias no Ocidente (como a de obesidade ou de doenças mentais) como, em boa medida, manifestações de uma cultura “doente”, que negligencia que corpo e mente são indissociáveis, que varre para debaixo do tapete os traumas e o stress que carregamos nesse corpo-mente.
Ele que o diga. Conta com frequência que, aos 12 meses, foi temporariamente abandonado pela mãe. Na verdade, a mãe entregou o bebé Gabor a familiares para lhe salvar a vida (o episódio passou-se na Hungria sob o domínio nazi, em 1944, e os Maté são uma família judia). “Vivi aquele acontecimento da única forma como um bebé poderia viver: como abandono”, escreve no livro agora editado em Portugal. O “abandono” ficou como que inscrito nos circuitos cerebrais do médico. Encheu esse vácuo com o serviço a populações vulneráveis, mas também com uma compulsão de compras de CD de música clássica e um vício no trabalho, uma forma de mostrar o seu valor. Por isso, os toxicodependentes de Vancouver reconheciam nele outro “fantasma faminto”.
Trauma é a palavra grega para “ferida”. Escreve em 'O Mito do Normal': “As feridas psíquicas que sofremos são-nos frequentemente infligidas antes de o nosso cérebro ser capaz de formular qualquer tipo de narrativa verbal, como no meu próprio caso. Em segundo lugar, mesmo depois de nos tornarmos dotados de linguagem, algumas feridas são impressas em regiões do nosso sistema nervoso que não têm nada que ver com linguagem ou conceitos; isto inclui áreas do cérebro, claro, mas também o resto do corpo.”
“Por dentro, posso ser tão miserável, deprimido e com problemas como toda a gente, sabe?”, diz nesta entrevista ao Ípsilon por videochamada. “Mas tenho esta vocação. E tenho sorte: tenho 81 anos e posso viajar por todo o mundo a dizer a minha verdade. E as pessoas ouvem-me. É assim que eu me vejo.”

No 'Reino dos Fantasmas Famintos' foi publicado originalmente em 2008 e chega agora a Portugal. O que o levou a escrever este livro e como o vê hoje, 17 anos depois?
Pensei que seria interessante escrever sobre a experiência de trabalhar em Vancouver, numa zona de grande consumo de droga. Ao pesquisar, espantei-me: não havia um único livro que reunisse histórias de vida das pessoas, a ciência do trauma, a ciência do desenvolvimento do cérebro e da psicologia, e que olhasse para a sociedade. Toda a ciência e a experiência acumulada desde então só validam o que escrevi.
Muitas pessoas disseram-me que este livro lhes salvou a vida. Houve até pais cujos filhos morreram de overdose que vieram ter comigo para me agradecer. E isso também me surpreendeu porque digo no livro que os traumas de infância estão na base da toxicodependência. Esses pais agradecem-me porque compreendem que não os estou a culpar: [o trauma] é multigeracional.
Há vários cépticos da valorização que faz dos traumas infantis para comportamentos como as dependências. Dizem que exagera, que pode haver outras causas.
Em 'O Mito do Normal', voltei a olhar para a literatura [científica] mais recente e aconteceu a mesma coisa: mais provas, mais provas, mais provas. Os cépticos não têm em conta a forma como o cérebro é verdadeiramente programado ou influenciado no seu desenvolvimento pelas experiências emocionais das pessoas — até no útero. Não invento estas coisas. Para mim, nem sequer é controverso.

É muito interessante a forma subtil como passa das histórias de toxicodependentes de Vancouver para a sua própria história de viciado — em trabalho e em compras de CD de música clássica. Escreve que chegou a gastar dois mil dólares em apenas um mês e meio.
Outras pessoas pensam: como é que se pode comparar aos toxicodependentes? Eu respondo que as diferenças entre mim e eles são óbvias, mas as semelhanças é que são interessantes: o impulso, a impotência perante o impulso, a mentira, a batota, a desonestidade, o ignorar de outros aspectos da vida. E os circuitos cerebrais são os mesmos.
Quando contei aos meus pacientes toxicodependentes os meus hábitos, eles não disseram “Como é que te podes comparar?”, mas antes “És igual a todos nós, não és?”.
Onde quer que eu fale, digo às pessoas que as dependências podem ser de drogas, mas também de sexo, jogo, alimentação, compras, trabalho, pornografia, bulimia ou automutilação. Quando perante 8000 pessoas, como aconteceu em Sydney, em Fevereiro, peço que quem tem uma dependência que levante a mão, 7999 levantam. É muito importante que as pessoas percebam que os toxicodependentes não são assim tão diferentes. Apenas sofreram mais, só isso.

As dependências são respostas aos vazios que carregamos?
Quando perguntamos às pessoas não o que está errado com a dependência, mas o que está certo, o que é que ela faz por elas a curto prazo, dizem: “entorpece a minha dor”, “diminui o meu stress”, “faz-me sentir mais vivo”, “dá-me prazer”, “relaxa-me”. São coisas boas. A dependência não é o problema principal, o problema principal é o sofrimento e a dor emocionais, a falta de tranquilidade e paz, o isolamento, a perda de vitalidade. É esse o vazio de que estou a falar. Ele vem primeiro e as dependências vêm depois. E isso remonta sempre à infância.

Nesta edição de 'No Reino dos Fantasmas Famintos', dá Portugal, onde a posse de drogas para uso pessoal foi despenalizada, como raro bom exemplo nesta matéria. A tendência vai em que sentido?
O que vejo a nível internacional são países a caminhar na direcção oposta. São duros perante o crime e as drogas — como na Hungria, o meu país natal, onde acabaram de aprovar uma série de leis duras [contra a droga], sem estratégia de redução de danos. Nos Estados Unidos e no Canadá, há uma pressão no mesmo sentido.

Do trabalho aos smartphones, porque é que parece haver tantas dependências no Ocidente?
Para sermos justos, temos de dizer que as dependências já existem há muito tempo, muito antes do surgimento da sociedade ocidental. Mas pioraram. É uma questão de necessidades das pessoas. Quando as necessidades de amor, aceitação e pertença são satisfeitas, as pessoas não precisam de se viciar. Nos Estados Unidos, morrem de overdose o dobro das pessoas que morreram nas guerras do Vietname, do Afeganistão e do Iraque juntas, todos os anos. O dobro! O que aconteceu? Nos centros industriais dos Estados Unidos, os empregos foram deslocados para o estrangeiro. Sem empregos, as pessoas perderam um sentido, especialmente os homens da classe trabalhadora, e o seu sentimento de pertença e de propósito. Esta sociedade diz-nos que o nosso significado, o nosso propósito e o nosso valor dependem da nossa contribuição económica ou das nossas posses.
Se olharmos para as culturas indígenas, percebemos que a forma como evoluímos ao longo de centenas de milhares de anos prevê um sentimento de pertença, de comunidade, de carinho, de ligação. Já a sociedade ocidental diz que os seres humanos são individualistas, egoístas, agressivos e interessados em bens materiais. Numa cultura assim, as necessidades das pessoas não são satisfeitas e há um vazio profundo e real, que vem do sentimento de falta de pertença, da perda de ligação.
Isso remonta à infância. As crianças deviam estar com os pais durante anos e anos e anos. [Em sociedades antigas] ficavam com os pais até à adolescência — não apenas com os pais, mas também com a tribo ou o clã. Hoje em dia, os pais têm de abandonar os filhos para ir trabalhar, deixando-os com estranhos. Há uma sensação geral de isolamento, solidão e desconexão, e as crianças não têm o ambiente propício para um desenvolvimento saudável.
E não é só isso. Há indústrias inteiras que se baseiam em dizer-nos que não somos suficientemente bons ou felizes a menos que compremos alguma coisa. Continuam a fomentar este vazio em nós para poderem vender os seus produtos.
Sou pai. Ouvi com frequência que devemos deixar os bebés dormir sozinhos, mesmo que chorem, porque isso dá-lhes “independência”, “maturidade”.
Diga a uma mãe macaca para ignorar o seu bebé. Nesta sociedade, os peritos dizem-lhe para ignorar os seus instintos. Qual é o seu instinto quando o seu bebé está a chorar?

Confortá-lo, abraçá-lo.
Exactamente. Não espanta que as pessoas tenham problemas.

Pais e filhos, corpo e mente e “a destruição das relações tradicionais, da família alargada, do clã, da tribo e da aldeia” (No 'Reino dos Fantasmas Famintos') devido às mudanças económicas e sociais. O seu pensamento denuncia um mundo que promove, de várias formas, a separação. Um neurocientista português, António Damásio, que o Gabor costuma citar, falou no “erro de Descartes”, a separação do corpo e da mente. Ainda estamos nesse mundo cartesiano?
Estamos. Todos os meus livros são sobre isso. Há toda uma ciência que mostra a unidade corpo-mente, ela é evidente, mas nas faculdades de Medicina ensinam-nos que o corpo e a mente são coisas separadas. O médico médio não recebe uma única palestra sobre trauma, apesar de o trauma ser uma influência tão grande na vida e no desenvolvimento das pessoas. Há um fosso entre a ciência e a prática. A prática ainda está presa a essa divisão cartesiana.
E há razões para isso. Se reconhecêssemos, como sociedade, que as emoções das pessoas e a sua fisiologia são inseparáveis, trataríamos as pessoas da mesma forma? Iríamos controlá-las, oprimi-las e manipulá-las? O capitalismo olha para o corpo como uma unidade de produção ou como uma unidade de consumo: está interessado em nós enquanto estivermos a produzir ou a consumir.

Em "O Mito do Normal" dá vários exemplos de atitudes e realidades consideradas normais nas sociedades ocidentais, mas que, segundo diz, criam doenças e disfunções. Pode dar exemplos?
Há certos limites fisiológicos que são normais. Se a sua tensão arterial estiver num intervalo normal, está saudável. “Normal” significa saudável e natural, mas tem outro significado, que é o que quer que seja que costumamos fazer. Numa determinada altura, era normal bater nas crianças — e em muitos países ainda é assim, lá é normal porque muita gente o faz. Mas será que é saudável e natural? Não. É traumatizante para a criança, em todos os casos. É normal nas sociedades ocidentais deixar os bebés chorar e não pegar neles. É normal porque toda a gente o faz. É saudável e natural? Pelo contrário. É normal nas sociedades ocidentais que se diga às pessoas que os seres humanos são egoístas e agressivos. Isso é saudável e natural? Não, não é. É normal ter de fazer um trabalho de que não se gosta? É alienante. É normal no sentido em que se espera que as pessoas o façam. É saudável e natural? Não, é mau para a saúde.

A série televisiva 'Adolescência' levou para o mainstream fenómenos como a cultura incel (“celibatários involuntários” que não conseguem ter relações amorosas com mulheres e que, muitas vezes, as culpam por isso ou as odeiam). Ficou surpreendido com o conteúdo de Adolescência?
É uma série muito poderosa, incrivelmente bem feita. Esses miúdos estão totalmente perdidos no seu próprio mundo e estão desligados dos adultos. E os resultados são desastrosos. Foi por isso que escrevemos este livro [mostra Hold On To Your Kids, co-escrito com o psicólogo Gordon Neufeld], há 20 anos. Faz parte da “normalidade” do mundo moderno o facto de as crianças estarem desligadas dos adultos. Para o desenvolvimento infantil, é um desastre.

Vivemos numa era de “homens fortes” e que desvalorizam ou desprezam a empatia: Donald Trump, Viktor Orbán, Elon Musk… A sua teoria da dependência aplica-se a eles?
Um académico [Robert Hare] que estudou personalidades psicopáticas disse [em 2002]: “Nem todos os psicopatas estão na prisão, alguns estão na sala de reuniões.” Olhemos para algo como o clima. Desde 1970 que tem havido todo o tipo de provas científicas sobre o que estamos a fazer ao clima e as suas consequências. As companhias petrolíferas sabiam-no. Ignoraram a ciência, contrataram cientistas falsos para a negar e políticos para lhes permitirem continuar a destruir a Terra. Bem, isso é sociopatia. [A crise climática] já matou dezenas de milhares de pessoas.
Trump foi uma criança muito traumatizada. Uma vez, ele disse que o mundo é um lugar horrível, onde todos estão contra nós, salve-se quem puder; os teus amigos querem a tua casa, a tua riqueza, a tua mulher. Bem, se é nisso em que acreditamos, quem é que temos de ser? Temos de ser grandiosos, agressivos, manipuladores e egoístas só para nos protegermos. Esta foi a defesa [de Trump].
Nesta sociedade louca, essas pessoas são recompensadas com sucesso. E as pessoas pensam que são fortes e que, por isso, são bons líderes. Mas não são fortes, são apenas agressivos.

Vê vias de fuga para este quadro global?
A história do mundo, incluindo a de Portugal, passa por ciclos. Portugal teve a sua história de repressão e ditadura.
Os judeus, o meu povo, sofreram terrivelmente em vários momentos da História, sobretudo na Europa dos anos 30 e 40. O que é que eles estão a fazer agora? A assassinar os palestinianos! Assassinam-nos! Crianças! É a pior coisa que já vi em toda a minha vida.
A história funciona por ciclos. Penso que estamos a passar por um desses ciclos. O sistema está em dissolução, está em apuros, é cada vez menos capaz de satisfazer as necessidades das pessoas, e, por isso, elas estão desesperadas por algum tipo de solução, por alguém forte. Projectam as suas necessidades nesses líderes, que são viciados em poder.
Estamos longe dos “fantasmas famintos”, mas é a mesma coisa. O sistema está sempre com fome. Nunca tem o suficiente. Tem de continuar a crescer, a crescer e a crescer. E não importa qual seja o custo. Se precisarmos destruir a Terra, destruiremos a Terra.

Porque é que conta tantas vezes, nos seus livros e nas suas palestras e entrevistas, a história de como foi temporariamente entregue pela sua mãe a alguém que para si, então um bebé de 12 meses, era uma perfeita desconhecida? Isto no contexto da Hungria sob o jugo nazi.
Conto essa história porque é muito comum algum tipo de abandono, talvez não tão dramático como o que me aconteceu. Tantas crianças experimentam a perda de ligação, a perda de carinho, a perda de serem vistas, também de serem compreendidas, a perda de serem abraçadas emocionalmente. Conto a minha história porque quero que as pessoas se sintam normais. Quero que compreendam que somos todos iguais e que o que aconteceu há 80 anos ainda pode aparecer na minha vida. Utilizo essa história para ilustrar o poder ou o impacto da experiência precoce.
É visto como o oposto de Jordan Peterson — curiosamente, também canadiano. Ele vê as coisas de forma diferente. Advoga que castigar crianças é benéfico para elas. Sublinha a importância da ordem e da disciplina férrea. O pensamento de Peterson é hoje particularmente sedutor para homens adolescentes ou adultos.
Peterson fala da raiva que as pessoas têm — e as pessoas estão mesmo zangadas. As pessoas estão zangadas quando estão frustradas — e estão frustradas quando as suas necessidades não estão satisfeitas. Há uma escassez de empregos e de amor neste mundo. E Jordan Peterson aparece a dizer “tens todo o direito de estar zangado porque o problema são estas mulheres que não te amam” ou “o problema são estas pessoas trans que estão a tentar destruir a tua masculinidade”. Ele identifica a raiva — e, quando o ouvimos, notamos que ele está cheio de raiva, a sufocar de raiva — e dá aos seus seguidores um alvo para a raiva. Isso valida-os. Ele não é um psicólogo. É um propagandista político e a direita adora-o.

A raiva é poderosa. Dá-nos uma gratificação, mesmo que temporária. Como as dependências de que fala em No 'Reino dos Fantasmas Famintos'?
Absolutamente. Quando estamos zangados, estamos a gerar poder. É um substituto para a falta de poder que temos na nossa vida. Há uma coisa que ele diz que é verdade: as pessoas devem assumir responsabilidade por si próprias. Mas só se pode assumir responsabilidade quando se compreende realmente o que se está a passar. É isso que tento transmitir.

Foi sionista, mas hoje é um sonoro crítico da política seguida por Israel, antes e depois do 7 de Outubro de 2023, o dia do ataque do Hamas. Haverá poucos sítios mais traumatizados no mundo do que a Palestina. Onde já esteve…
Foi em 1992. Chorei todos os dias. Também estive lá em 2023, seis meses antes do 7 de Outubro, na Cisjordânia, para trabalhar com mulheres que tinham sido torturadas em prisões israelitas.

Que imagens, impressões, sentimentos trouxe de lá?
As pessoas no Ocidente não fazem ideia da crueldade, da opressão, da escuridão, da agressão e da brutalidade da ocupação israelita. Estou a falar de antes do 7 de Outubro. Já dura há décadas e piora todos os anos. É inacreditável! É a pior situação em todo o mundo — há muitas situações más no mundo, de Myanmar [Birmânia] ao Sudão, mas esta está a acontecer com o apoio e a cumplicidade do mundo “civilizado” e “democrático”. E as mentiras, a hipocrisia e a incapacidade de dizer a verdade ou de informar sobre o que se está a passar.

Vê uma saída?
Como se chama o vosso grande escritor? José Saramago?

Sim.
Li o seu livro sobre Jesus [O Evangelho segundo Jesus Cristo], um belo livro, no ano passado. Portugal pode produzir um Salazar, mas pode também produzir um Saramago, cheio de humanidade e justiça social. E o ser humano é assim. Portanto, eu acredito. Tenho uma certa confiança na verdade. Eu não fazia ideia do impacto que 'Fantasmas Famintos' ia ter, mas ando por todo o mundo e as pessoas dizem-me que o livro salvou as suas vidas. É ensinado nas universidades. Há algo de muito poderoso em dizer as coisas como elas são, em dizer a verdade tal como a entendemos.
Penso que as pessoas têm capacidade para se curar. Penso que as sociedades têm capacidade para se curar. Envolve muito trabalho, muito desânimo, muito sofrimento, mas acho que, no final, é possível. É isso que me faz continuar. Não é uma fé religiosa. É apenas uma espécie de confiança…

É uma fé não religiosa.
É uma fé não religiosa.

Dá entrevistas e palestras, escreve livros. Parece incansável. Dizer o que pensa sobre desenvolvimento infantil, dependências, saúde, a forma como vivemos é uma missão?
[Pega num conjunto de papéis] Isto é um livro de memórias dactilografado que a minha prima escreveu. Ela era psicóloga. E cuidou de mim quando me separei da minha mãe. Foi a família dela que cuidou de mim durante seis semanas. Eu estava muito doente.
Encontrei as memórias dela recentemente, vou traduzi-las do húngaro para si. Quando isto estava a acontecer, em 1944, ela tinha 11 ou 12 anos. E tomou conta de mim com a sua família. E ela diz: “A tosse do Gabor não passava, estava a ficar mais espasmódica e ele com mais cãibras. (...) Não conseguia respirar. Por isso, o meu pai teve de procurar um médico que estivesse disposto a pôr em risco a sua vida.” Porque os médicos estavam proibidos de tratar judeus na Hungria sob o jugo nazi. Isto passa-se em 1944, Janeiro. E ela encontrou um jovem médico, um pediatra. Como é possível que este médico cristão tenha ido ver um bebé judeu? No final, acariciou o meu corpo e disse-me: “Não te preocupes, meu querido. Mais tarde vais pagar-lhes.”
Não conhecia essa história até há pouco tempo. Mas é isso que tenho estado a fazer toda a minha vida: tenho estado a pagar ao mundo. Porque, apesar de toda a tragédia que está nessa história, apesar de toda a tristeza, veja todo o amor que há nela. Imagine a minha mãe a passar-me a um estranho. Quanto amor foi necessário! Imagine uma mulher cristã desconhecida a acolher este bebé judeu. Imagine os meus familiares. Imagine este médico.
A dependência não é o problema principal, é o sofrimento e a dor, a falta de tranquilidade e paz, o isolamento. É esse o vazio.
Tenho de ser como toda a gente. Acontece que eu sou articulado. E consigo ver coisas e ligações, e isso é bom. Mas, por dentro, posso ser tão miserável, deprimido e com problemas como toda a gente, sabe? Mas tenho esta vocação. E tenho sorte: tenho 81 anos e posso viajar por todo o mundo a dizer a minha verdade. E as pessoas ouvem-me. É assim que eu me vejo.
Suspeito que veja a natureza humana como intrinsecamente positiva. Mais Rousseau do que Hobbes.
Se pegarmos numa semente de qualquer planta e não lhe dermos sol, nutrição ou irrigação suficientes, como é que a planta vai ficar?

Frágil, como morta.
Pode dizer que é a sua natureza ser assim, mas não é. E se a puser num chão fértil com muitos minerais, luz do sol, água? Eu prefiro não falar da natureza humana, mas de potencial humano e sobre que condições são favoráveis a esse potencial. Sabemos que quando as crianças são bem tratadas, amadas, nutridas, vão ficar bem. Deixe-me fazer-lhe uma pergunta: já foi invejoso ou agressivo?

Sim.
E como se sentiu?
Como se estivesse em piloto automático, sem pensar no que estava a fazer.
E depois disso, o que sentiu?
Uma espécie de ressaca. Remorsos.
E já foi generoso e gentil?
Sim.
E como se sentiu?
Bem.

É a sua natureza, de facto. A questão é que condições a podem fazer florescer.
As primeiras palavras de 'O Mito do Normal': “Na sociedade mais obcecada pela saúde de sempre, nem tudo está bem. A saúde e o bem-estar tornaram-se uma fixação moderna.” Descreve o “dilúvio diário” de notícias ou conteúdos virais a promover modos de “auto-aperfeiçoamento”. “Tomamos suplementos, inscrevemo-nos em estúdios de ioga, mudamos de dieta em série, pagamos testes genéticos, estratégias para prevenir o cancro ou a demência, e procuramos aconselhamento médico ou terapias alternativas para doenças do corpo, da psique e da alma. E, no entanto, a nossa saúde colectiva está a deteriorar-se.” A que se deve este aparente paradoxo?
Quanto mais doente for uma sociedade, quanto mais desesperadas estiverem as pessoas, mais elas querem ser saudáveis. 70% dos adultos americanos tomam um medicamento. Comem lixo! A cultura vende-lhes lixo para comer! E o stress aumenta por causa dessa comida. Claro que as pessoas estão desesperadas por serem saudáveis. Mas não estão à procura das causas, estão só a ver os efeitos.
O mesmo sistema que promove produtos prejudiciais vende produtos para contrariar os seus efeitos?
É um sistema brilhante.

Disse há instantes que o “sistema está em dissolução”, “em apuros”. Mas ele parece particularmente resistente.
É extraordinariamente resistente — mas a que custo? À custa do ambiente, pondo em perigo a existência humana. À custa do sofrimento que impõe em todo o mundo, à custa de deixar o povo doente. O sistema só quer sobreviver, como uma fera. A razão pela qual não só os meus livros, mas outros livros sobre trauma e outros temas, são tão lidos hoje em dia é precisamente porque as pessoas estão à procura de respostas."

quarta-feira, 7 de maio de 2025

O genocídio democrático


Tempos houve, retrógrados, ideologicamente remetidos para o caixote do lixo da História, nada liberais e progressistas em que o conceito de genocídio era uma coisa feia, revoltante, sanguinária. Tempos em que os seres humanos, mesmo os mais avançados na caminhada civilizadora, tinham ainda o seu quê de selvagens.

Práticas como as da Santa Inquisição, a barbárie nazi contendo o seu estarrecedor Holocausto, até o episódio dos Hutus no Burundi e os massacres na antiga Jugoslávia, desde que os supostos autores fossem os sérvios, provocaram grande comoção entre nós. Quem mais se indignou perante estes acontecimentos foi, pela ordem natural das coisas e porque assim deve ser, por definição, a «nossa civilização», a ungida «civilização ocidental», depositária sem mácula dos conceitos básicos humanistas como a democracia, a liberdade, os direitos humanos, a lei, a justiça e, por último mas não menos importante, o mercado – motor infalível de tudo o resto.

Parece inquestionável, contudo, que em relação ao passado a «nossa civilização cristã e ocidental» não tinha as mãos completamente limpas na chacina purificadora da Santa Inquisição, da mesma maneira que existem suspeitas sobre o longo período de alheamento em relação às actividades de Hitler antes e durante o Holocausto, ou até sobre o seu papel decisivo na criação de condições para que essas tragédias tivessem acontecido.

Porém, práticas assim desaconselháveis aconteceram há séculos, ou décadas distantes, quando o nosso estádio civilizacional não tinha amadurecido aos níveis de hoje, nos quais a cultura é pujante, o humanismo esfuziante, cultivámos um edénico jardim protegido por um muro inviolável que nos defende da barbárie ainda avassaladora e invejosa da nossa evidente superioridade. Deve recordar-se, e que não haja qualquer equívoco xenófobo e inquisitorial ao fazê-lo – indignidades com as quais a nossa sociedade avançada não pactua – que os alvos frequentes destas sevícias foram quase sempre os judeus, esses hereges e assassinos de Nosso Senhor Jesus Cristo, crimes pelos quais foram condenados a quase dois mil anos de necessária marginalização.

Agora tudo passou, tudo acabou, estamos nos píncaros da democracia neoliberal. Aos que dizem representar os judeus mas têm zero vírgula zero de raízes na Palestina histórica é permitido finalmente vingar-se e descarregar no povo nativo palestiniano uma raiva acumulada durante séculos de perseguições – mas não aos judeus étnicos que permaneceram no seu território pátrio. É uma espécie de princípio de vasos comunicantes da civilização em que os mais fracos e desprotegidos estão sempre ao nível inferior no ramo em ascensão: os que dizem representar os judeus já subiram para um patamar de equilíbrio seguro; aos palestinianos cabe agora esperar pela sua vez durante o tempo que tiverem de esperar. Se lá chegarem, o que pode não acontecer porque o genocídio finalmente democratizou-se, caminha ao compasso da nossa civilização e, uma vez que o Direito Internacional é coisa retrógrada e reaccionária, a vigente e moderníssima «ordem internacional baseada em regras» pode definir como ultrapassado, caduco até, aquele princípio da Física aplicado aos domínios sociais. O povo palestiniano sofrerá assim uma espécie de dores do progresso em direcção à civilização, enfim alguém teria de passar por isso.

Uma chacina lógica e inevitável
Israel, como define o seu actual primeiro ministro, Benjamin Netanyahu, indivíduo que tem um mandado de captura emitido por essas retrógradas instituições como o Tribunal Internacional de Justiça e o Tribunal Penal Internacional, é «o garante da presença da civilização ocidental no Médio Oriente».

O homem tem toda a razão: nenhum dos países ocidentais contesta esse dogma; pelo contrário, reforçam-no jurando que «Israel é a única democracia do Médio Oriente».

Ora, se a «única democracia do Médio Oriente» realiza há cerca de 80 anos o genocídio do povo palestiniano, combinando duas acções democráticas e liberais, como são a limpeza étnica e o extermínio das populações, então não pode estar a infringir qualquer lei em vigor. Recorda-se que os países ocidentais, com o seu farol, os Estados Unidos da América, à cabeça têm uma relação perfeitamente justa com a justiça porque em relação aos tribunais atrás citados podem julgar e ser inquisidores, mas não admitem ser julgados. Israel pertence a esta casta de eleitos, assim lhe permite a condição parcela de Ocidente incrustada no selvático Oriente.

Que mal tem afinal o genocídio? Qual o problema de assassinar mais de 60 mil pessoas, maioritariamente mulheres e crianças, na Faixa de Gaza desde 7 de Outubro de 2023? Há muitos terramotos que provocam mais vítimas; além disso, que são 60 mil seres humanos no meio de mais de dois milhões de habitantes naquele enclave, ou será campo de concentração?

Existe ainda uma outra justificação essencial para se compreender a matança. Nunca esqueçamos o apelo lancinante de Daniella Weiss, uma das chefes dos colonos sionistas importados por Israel: «Os colonos querem ver o mar, o que é um desejo lógico e romântico. Gaza deve ser esvaziada de todos os árabes para que os colonos possam ver o mar construindo colonatos em toda a Faixa de Gaza». Qualquer dirigente ocidental compreenderá muito bem os direitos humanos defendidos pela angustiada Daniella. Estou certo de que um deles é esse exemplo de democrata chamado Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros do impoluto Montenegro, que ainda recentemente foi saudar Netanyahu e os seus colaboradores mesmo no auge da operação de extermínio.

Para estar ao lado das matanças cometidas por Israel, o Ocidente não ignora o facto de o fundador do sionismo, Theodor Herzl, ter garantido que a Palestina era uma terra sem povo para um povo sem terra. É certo que o mesmo Herzl admitiu depois a necessidade de «incitar a população desfavorecida a sair da Palestina, privando-a de trabalhar na nossa Pátria», mas isso terá sido, digamos, uma figura de estilo.

A primeira-ministra israelita Golda Meir, a «dama de ferro» antecessora de Margaret Thatcher, repôs a verdade de Herzl ao garantir, algumas décadas depois, que os «palestinianos não existem», por isso, «não viemos expulsar ninguém». Moshe Dayan, general e herói nacional da Guerra dos Seis Dias, ousou desmenti-la: «Não há um único lugar neste país que não tenha tido uma população árabe». Talvez o general percebesse de tudo o que era militar mas fosse uma nulidade em geografia e demografia. E, como não custa especular, não escapou a uma dura reprimenda da sua chefe do governo.

segunda-feira, 24 de junho de 2024

S. João- Figurado de Estremoz


São João Baptista, que terá nascido sensivelmente na mesma época que Jesus Cristo, diz a tradição cristã que foi a 24 de Junho que baptizou Jesus.
Um eremita profeta muito apreciado pelo povo há mais de 2.000 anos, por pregar a necessidade do arrependimento e converter os gentios. 
Foi morto num célebre episódio descrito na Bíblia (Marcos 6:14-29), no qual Herodes, seduzido pela dança da sobrinha Salomé, filha de sua mulher Herodíades, acede ao pedido desta para lhe dar a cabeça do profeta numa bandeja de prata.
A Produção de Figurado em Barro de Estremoz integra o Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, desde 2014, sendo desde  2017 Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.
O S. João de Estremoz apresenta-se com peles de animais (pele de camelo atada com rude cinto de couro) e um cordeiro apoiado nas patas traseiras (evocação que foi este que anunciou a chegada do Cordeiro de Deus), junto da sua perna direita. Apoia-se num bastão com bandeira. Há peças que apresentam plantas muito altas detrás do Santo, representação da sua condição de Eremita.

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Livro - Cervantes Libertário


Este livro de Emilio Sola redescobre um Cervantes crítico do sistema social vigente à época, e amante da liberdade. Uma razão bastante para encontrarmos um Cervantes libertário que explica porque é que os anarquistas amam Cervantes

«A liberdade, Sancho, é um dos dons mais preciosos, que aos homens deram os céus: não se lhe podem igualar os tesouros que há na terra, nem os que o mar encobre; pela liberdade, da mesma forma que pela honra, se deve arriscar a vida, e, pelo contrário, o cativeiro é o maior mal que pode acudir aos homens.»

Cervantes, M. D. Quixote de La Mancha

“Alcançar a liberdade nesta vida” é um verso de Cervantes que contém em si todo um programa de vida e de ação para uma pessoa do seu tempo e de todos os tempos. Porque a riqueza de Cervantes reside precisamente na descoberta que cada geração dele faz à medida que evoluem novas sensibilidades, para além da mera erudição crítica dos Cervantes, sempre transbordando delas. Quatro dias antes de morrer, o próprio Cervantes disse: “os tempos não são os mesmos”, e que chegará um tempo em que as pessoas, amarrando os fios soltos e quebrados de suas histórias, verão o que ele quis dizer e, mais ainda, o que ele quis dizer, o que era apropriado dizer.

Este livro de Emilio Sola – historiador com obras fundamentais sobre questões fronteiriças e de informação na época de Cervantes, tanto no Mediterrâneo como no Extremo Oriente – é um convite precisamente a essa interpretação mais livre das obras de Cervantes, a uma leitura libertária. ou libertar que no seu tempo histórico - “os tempos não são os mesmos” - era inviável.

Para horror do sistema, dos casticistas, dos bem pensantes e politicamente corretos, a suspeita de um Cervantes anti-sistema, um cortesão impossível, caluniador de “trocas injustas e de lidar com emaranhados” (a mais básica corrupção econômica) , um Cervantes não-denominacional e até uma feminista de quem não se fala na pompa dos centenários, e cuja mensagem principal ele se esforçou conscientemente para construir ao longo de sua vida. Por esta razão, Cervantes, o libertário são ou lúcido, tem que inventar Dom Quixote, o libertário louco, para dizer o que queria dizer, uma pura busca pela liberdade de expressão para “alcançar a liberdade nesta vida”.

Inúmeras e sempre novas leituras de Cervantes, renováveis ​​mesmo com a mudança dos tempos, fundamentais para compreender, por exemplo, Cervantes quando diz que não é adequado como cortesão porque não sabe lisonjear, e cujas queixas sobre a justiça são radicais, sem costura, claramente antissistémica., como aparece no primeiro discurso da Idade de Ouro, pela boca de Quixote; ou o Cervantes que, numa análise magistral da modernidade que se aproximava, compara a empresa económica moderna com a galera corsária, e lamenta que o novo deus dos novos tempos seja o “juros”, o dinheiro, para que “as mudanças injustas e tratamento emaranhado" seja a nova lei desses novos tempos bárbaros; ou a feminista Cervantes que numa sociedade patriarcal e machista faz Marcela dizer que nasceu livre e o que acontece é que seu amante não correspondido, Crisóstomo, suicidou-se, porque era um perseguidor; ou o Cervantes que, numa sociedade confessional fundamentalista como a monarquia católica, faz despedir-se um mouro e um cristão numa peça teatral como esta: “O teu Cristo vai contigo”, diz o mouro Ali; “Seu Muhammad, Ali, fique com você”, diz o cristão; formulação sem paralelo na literatura europeia de então e quase hoje, no curso das coisas.

Esse é o Cervantes que as elites culturais e os especialistas não parecem ter interesse em encobrir para que todos o compreendam. Aquele que não consegue digerir uma sociedade formal que, no fundo, não entra plenamente nele porque, como lhe aconteceu na vida, a despreza e esconde, a confunde ou a ignora, e só consegue rir dela graças ao louco que fala besteiras, e que inventou por pura necessidade de liberdade de expressão, num artifício literário que cria o romance moderno.

Esse é, sem dúvida, o personagem histórico de Cervantes que deslumbra os anarquistas, os libertários, e por isso são radicalmente Cervantes, mais que quixotistas, porque apaixonados por Dom Quixote, centram seu interesse naquele homem que está por trás do a própria obra literária., que lhe dá vida, que a torna possível.

Que Dom Quixote de Alcalá de Henares, como José María Puyol Albéniz, puro emblema, resume no título de um livro que publicou em 1947 e que simplesmente assina Puyol: um exilado libertário que chegou à Argélia no navio Stanbrook fugindo da repressão de Franco, cuja paixão por Cervantes também é narrada em "Por que os anarquistas amam Cervantes". O livro termina com uma revisão das afinidades do movimento libertário com Dom Quixote e seu autor.