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terça-feira, 31 de março de 2026

Parlamento israelita aprova projeto de lei que prevê pena de morte para palestinianos


À esquerda, a deputada israelita, vice-presidente do Parlamento, que redigiu a lei da pena de morte para palestinianos aprovada ontem, e que elogiou um assassino (há vídeo) que queimou vivos um bebé palestiniano e seus pais enquanto os seus camaradas cantavam "Ali está na grelha". O nome dela é Limor Son-Har Melech e o dele é Amiram Ben-Uliel
Aqui está ela com uma corda de forca na mão direita e uma seringa na esquerda. Ao lado, o seu marido segura uma arma com a etiqueta "ocupação", um avião com a etiqueta "expulsão" e uma casa com a etiqueta "colonização".  Esta gente integra o poder e o governo de Israel.

Saiba mais:

domingo, 29 de março de 2026

Nesta semana a ONU aprovou, por larga maioria, uma resolução que declara o tráfico transatlântico de escravos "o crime mais grave contra a humanidade". O que isso significa?


A Assembleia Geral das Nações Unidas apoiou esta semana, por larga maioria, uma resolução que declara o tráfico transatlântico de escravos "o crime mais grave contra a humanidade".

A resolução histórica aprovada na quarta-feira foi apoiada pela União Africana (UA) e pela Comunidade das Caraíbas (Caricom). Tinha sido proposta pelo presidente do Gana, John Dramani Mahama, que disse: "Que fique registado que, quando a história chamou, fizemos o que era certo em memória de milhões que sofreram a indignidade da escravatura."

Ao saudar a votação, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, afirmou que a riqueza de muitas nações ocidentais foi "construída sobre vidas roubadas e trabalho forçado".

Assinalando os "castigos bárbaros que mantinham o controlo – desde grilhões e coleiras de ferro a açoites e violência sexual", disse que "não se tratava simplesmente de trabalho forçado".

"Era uma máquina de exploração em massa e de desumanização deliberada de homens, mulheres e crianças. As feridas são profundas e muitas vezes passam despercebidas."

A resolução, apoiada por países africanos e caribenhos, não é juridicamente vinculativa, mas os analistas afirmam que transmite uma mensagem poderosa.

"É já um passo enorme e significativo em termos políticos ter este debate na ONU, mesmo que tenha um valor mais simbólico", disse Almaz Teffera, investigadora sénior sobre racismo da Human Rights Watch, à BBC.

Ela afirma que isto poderia aumentar as hipóteses de progresso nas discussões sobre reparações ou alguma forma de compensação.

A resolução foi aprovada por 123 votos a três, com 52 abstenções, incluindo o Reino Unido e os Estados-membros da UE.

Os Estados Unidos, a Argentina e Israel votaram contra.
A Dra. Erieka Bennett, que lidera o Fórum Africano da Diáspora, sediado no Gana, disse à BBC que a votação teve um significado pessoal para os descendentes de pessoas escravizadas, como ela.

"Significa que sou reconhecida, significa que o meu antepassado finalmente descansa em paz". Para mim, pessoalmente, como afro-americano, é algo avassalador – até que se tenha vivido o que aconteceu, é muito difícil perceber o que isso realmente significa.

Os países afetados pela escravatura têm vindo a pedir reparações há mais de um século. Mas o debate intensificou-se nos últimos anos, sobretudo depois de algumas nações e empresas que historicamente lucraram com o trabalho escravo africano terem pedido formalmente desculpa e anunciado medidas de reparação.

Qual é o argumento a favor das reparações?
Dos séculos XV ao XIX, cerca de 12 a 15 milhões de homens, mulheres e crianças africanos foram capturados e traficados para as Américas para trabalharem como escravos.

Foram enviados para colónias controladas por países europeus, como Espanha, Portugal, França e Reino Unido. Acredita-se que dois milhões de pessoas morreram a bordo dos infames navios negreiros.

Os efeitos de séculos de exploração ainda se fazem sentir nos dias de hoje.

No Brasil, o maior recetor de africanos escravizados – 4,9 milhões, a maioria durante o período em que era colónia portuguesa – as pessoas negras têm o dobro da probabilidade de viver na pobreza. como brancos, de acordo com o órgão oficial de estatísticas do país (IBGE).

As reparações têm como objetivo funcionar como uma restituição – um pedido de desculpas e um pagamento às pessoas negras cujos antepassados ​​foram forçados à escravatura. A moção, proposta pelo Gana, insta os Estados-membros da ONU a considerarem pedir desculpa pelo tráfico de escravos e a contribuírem para um fundo de reparações.

A Dra. Esther Xosei, académica, ativista e figura de destaque no movimento global pelas reparações, saudou a votação, mas duvida que faça grande diferença por si só.

"É uma boa vitória [para o movimento pelas reparações], mas vamos recordar “Isto é apenas uma declaração de intenções”, disse ela à BBC.

Xosei acrescentou que, embora fosse “encorajador ver as nações africanas a assumir o protagonismo nestas discussões”, destacou a importância da ação popular.

“Corações e mentes não serão conquistados na ONU.”

“A verdadeira batalha será travada nas ruas, onde as pessoas ainda estão mal informadas sobre a história da escravatura e os seus efeitos duradouros na vida dos africanos e dos seus descendentes.”

Existe algum precedente histórico para as reparações?
Sim – o caso de reparações mais famoso envolve a Alemanha. Desde 1952, a nação europeia pagou mais de 80 mil milhões de dólares (60 mil milhões de reais) às vítimas judias do regime nazi, incluindo pagamentos a Israel.

Mas, até agora, nunca nenhum país pagou reparações aos descendentes de africanos escravizados ou às nações africanas, caribenhas e latino-americanas afetadas.

A maior parte das reparações pagas pelos governos veio sob a forma de indemnizações aos proprietários de escravos no século XIX, e não àqueles que foram escravizados.

Isto inclui o Reino Unido - na década de 1830, após a abolição da escravatura, o país pagou aos proprietários o equivalente a mais de 21 mil milhões de dólares (16 mil milhões de libras) em valores actuais.

Mesmo nações que pediram formalmente desculpas pelo seu papel na escravatura, como a Holanda em 2022, descartaram reparações financeiras diretas aos descendentes de pessoas escravizadas. O governo holandês criou, em vez disso, um fundo de 230 milhões de dólares para "iniciativas e projetos sociais para lidar com o legado da escravatura".

"O mais importante a compreender é que ninguém está a tentar mudar o passado, mas sim a lidar com as suas consequências no presente", explicou a Dra. Celeste Martinez, investigadora especializada em colonialismo espanhol em África.

"Os legados da escravatura ainda persistem hoje sob a forma de racismo e desigualdade. Reconhecer o passado é crucial se queremos sociedades mais justas e democráticas."

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

PJ desmantela grupo neonazi "Grupo 1143" responsável por crimes de ódio e detém 37 suspeitos


A Polícia Judiciária (PJ) desmantelou hoje uma associação criminosa que praticava crimes de ódio, tendo detido 37 suspeitos com “vastos antecedentes criminais” e “ligações a grupos de ódio internacionais”.

Em comunicado, a PJ adianta que, no âmbito da operação “Irmandade”, foram constituídos “mais 15 arguidos e realizadas 65 buscas domiciliárias e não domiciliárias”.

Os detidos, entre os 30 e os 54 anos, “adotavam e difundiam a ideologia nazi, inerente à cultura nacional-socialista e extrema-direita radical e violenta, agindo por motivos racistas e xenófobos, com o objetivo de intimidar, perseguir e coagir minorias étnicas, designadamente imigrantes”.

São suspeitos de terem fundado a organização criminosa, com uma estrutura hierárquica e distribuição de funções, “com o exclusivo propósito de desenvolver atividades que incitavam à discriminação, ao ódio e à violência racial”.

A organização é “responsável pela prática de crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência, ameaça e coação agravadas, ofensas à integridade física qualificada e detenção de armas proibidas”.

Na operação, conduzida pela Unidade Nacional de Contraterrorismo, participaram cerca de 300 elementos da PJ.

Segundo a CNN Portugal, o líder do grupo é Mário Machado, conhecido neonazi que está a cumprir pena por crimes da mesma natureza e que dava as instruções a partir da cadeia, e as vítimas eram imigrantes de países islâmicos.

Fonte próxima do processo disse entretanto à Lusa que a cela de Mário Machado foi alvo de buscas hoje de manhã.

Os detidos têm marcado o primeiro interrogatório judicial, para aplicação das medidas de coação, na quarta-feira no Tribunal Central de Instrução Criminal de Lisboa.

Há dois elementos "não civis" entre os 37 detidos do Grupo 1143 durante a Operação Irmandade, esta terça-feira. A PJ não quis explicitar se se tratam de elementos das forças e serviços de segurança, na conferência de imprensa realizada poucas horas após as buscas. Mas o Expresso apurou que um destes dois elementos é um militar e o outro polícia.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Porque votas chega?

Não há nada de revolucionário em votar no Chega.
Há desespero, há raiva, há frustração acumulada. E isso é compreensível, o que não é compreensível é confundir raiva com lucidez.
Durante décadas, Portugal foi governado pelos mesmos blocos políticos. Muitos de vós votaram neles. Outros abstiveram-se. Outros desligaram.
Agora, de repente, apresentam-se como “os que sempre viram a verdade”, como se tivessem acabado de acordar para um país que sempre existiu.
Não acordaram para a verdade!

Acordaram para um discurso simplista que vos disse exactamente aquilo que queriam ouvir!
Há algo que convém não esquecer: uma parte significativa das figuras do Chega vem precisamente desses blocos políticos que dizem combater. Vieram do PSD, do CDS, do sistema que hoje acusam de todos os males.

Durante anos, enquanto lá estiveram, o país não lhes parecia assim tão intolerável. A indignação só apareceu quando perderam espaço, influência ou a possibilidade de subir na hierarquia.

Para alguns, a ruptura não foi moral nem política. Foi uma derrota interna. E a conversão súbita em “anti-sistema” raramente é sinal de virtude tardia. É, muitas vezes, apenas ressentimento reciclado.
É confortável acreditar que existe um culpado único para tudo. É confortável apontar o dedo a “eles”: os imigrantes, os pobres, os dependentes de subsídios, os professores, os jornalistas, os “esquerdistas”, seja lá o que isso signifique esta semana.

É muito mais difícil aceitar que os problemas de um país são estruturais, antigos, complexos, e que não se resolvem com slogans nem com gritos.

Pergunta simples: sabem definir, sem caricaturas, o que é direita e esquerda em política? Sabem distinguir liberalismo económico de conservadorismo moral?

Sabem explicar por que razão o mesmo líder um dia é carne e noutro é peixe? Num dia é liberal e noutro "Esquerdalha"? Num dia é um malfeitor e noutro "respeitador da lei"? Num dia é um racista psicopata e noutro anda a rezar à virgem santíssima?

Não é coerência. É oportunismo.
Não é coragem. É teatro.
O discurso muda conforme a oportunidade. Num dia é lei e ordem, no outro é vitimização. Num dia é liberal selvagem, no outro é sindicalista.

Não há visão de país. Há apenas estímulos emocionais dirigidos a quem está cansado demais para pensar. E pensar dá trabalho.

Pensar obriga a admitir que a corrupção não nasce apenas nos partidos. Nasce na pequena fraude aceite, no jeitinho, na cunha, no “não faz mal”, no “todos fazem”.

Nasce na falta de cultura cívica, na ausência de leitura, na recusa do contraditório, no desprezo pelo conhecimento.

Não é um problema de ideologia. É um problema de carácter colectivo!

Dizem que “andaram a roubar-nos”. Onde estavam vocês enquanto isso acontecia? A participar? A fiscalizar? A informar-se? Ou simplesmente a viver, desligados, até alguém vos apontar um bode expiatório conveniente?

A raiva pode ser compreensível. Mas não é um projecto político. Nunca foi. E quando a raiva governa, não cai sobre os poderosos. Cai sempre sobre os mais fracos. Sobre quem tem menos voz, menos recursos, menos defesa.

Falam muito de crianças e de futuro. Então pensem nisto: que exemplo é ensinar um filho a resolver problemas com ódio, com humilhação, com desprezo pelo outro?

Que futuro se constrói quando se troca pensamento crítico por frases feitas?

Quando foi a última vez que leram um livro? Um qualquer. Quando foi a última vez que ficaram meia hora em silêncio, sem televisão, sem tablet, sem telemóvel, apenas a pensar? Não a reagir. A pensar.
Talvez descubram algo desconfortável: que muitas das palavras que repetem não são vossas. Que a indignação foi cultivada. Que a realidade é mais complexa do que vos disseram. E que ninguém vos está a salvar.

Esse momento dói. Mas liberta.

Porque perceber que o mundo não se conserta esmagando outros é o primeiro passo para deixar de ser manipulado.

Porque perceber que a democracia exige mais do que raiva é o primeiro passo para a levar a sério.

Figura nacional do ano 2025 - Os imigrantes


Raquel Moleiro, Expresso, 26/12/2025
Como é tradição no Expresso, a redação escolheu as figuras nacionais e internacionais do ano. 
O imigrante nunca deixou de marcar a atualidade. Escolhido como urgência política, serviu de moeda de troca ao Governo para ganhar o apoio do Chega e atrair o seu eleitorado. São 1,5 milhões, a viver entre o discurso anti-imigração e o suporte da economia e da natalidade. 
O ano quase no fim e em dois dias o mar matou mais pescadores do que em todo o 2025. Primeiro naufragou o “Vila de Caminha”, a 14 de dezembro. O barco de pesca costeira avariou quando regressava da faina e um golpe de mar virou-o entre a barra de Caminha e a ilha de Ínsua. Levava cinco homens, três morreram. Dois dias depois, foi o “Carlos Cunha”, 21 metros dedicados à pesca do espadarte, a ir ao fundo a 370 quilómetros ao largo de Aveiro. Dos sete pescadores, apenas dois sobreviveram. Entre as duas embarcações só havia um português. Os oito que morreram eram todos imigrantes. Dos 14 pescadores que faleceram este ano, dez eram estrangeiros, da Indonésia. Mais do que números de uma tragédia repetida, estas são cifras que revelam a dependência do sector pesqueiro da mão de obra imigrante. 

São 75% de todos os tripulantes. Fazem parte de uma espinha dorsal estrangeira, mais ou menos invisível, que suporta em cada vez maior percentagem vários sectores da economia nacional: agricultura, construção, turismo, hotelaria, restauração, limpezas, apoio social.

Em 2025 reforçou-se.Dos 1.543.697 imigrantes residentes em Portugal — números da AIMA, ainda em revisão pelo INE —, 71% estão inscritos na Segurança Social, e representam 24% da população ativa do país. Em 2025, até 17 de outubro, tinham contribuído com €3,1 mil milhões, cinco vezes mais do que o valor recebido em subsídios e prestações sociais.

Diz a OCDE que é graças ao imigrante que a força de trabalho em Portugal continua a crescer. Diz o INE que um terço dos bebés que nascem no país tem mãe estrangeira, número que mais do que duplicou na última década, alimentando o aumento da natalidade há dois anos consecutivos. E que é também a imigração que tem garantido o crescimento da população ao manter o saldo migratório positivo. Mas este é um retrato pouco propagado da população estrangeira em Portugal. É positivo e só a custo entra no discurso político ou norteia as decisões do Governo e, em consequência, molda as perceções populares. 

Em 2025, a imigração foi o assunto que tudo dominou, mas encarada como um problema a resolver. O imigrante viu na restrição aos seus direitos de entrada, permanência, legalização, reagrupamento e obtenção de nacionalidade uma prioridade política do executivo de Luís Montenegro. Conseguiu, aliás, o feito notável de ultrapassar em importância a crise da habitação, que mantém os jovens em casa dos pais para todo o sempre, amassa famílias em quartos e repõe barracas. 

Ou o caos do SNS, que só conseguiu romper a hegemonia dos holofotes migrantes quando o número de bebés a nascer em ambulâncias começou a atingir proporções alarmantes. A Educação lá teve o seu curto período de estrelato com a falta crónica de professores — no final do 1º período, havia 13.446 horários por preencher. Mas a cada nova lei criada, votada, vetada, mudada, aprovada, o estrangeiro voltou sempre à ribalta.

Durante este ano, o Governo — pela mão do ministro Leitão Amaro — quis alterar todos os diplomas da imigração, numa transposição legal do fim da ‘política de portas escancaradas’. No Parlamento, o imigrante serviu de moeda de troca ao voto favorável do Chega, com leis a incluir artigos de uma Direita mais inclinada, só travados pelo Tribunal Constitucional (TC).Além de permitir a criação da Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras (UNEF), a nova Lei de Estrangeiros, em vigor desde outubro, veio dificultar o processo de reagrupamento familiar, obrigando um imigrante a esperar dois anos após receber a autorização de residência para iniciar o pedido.

O TC, que chumbou a primeira versão do diploma, forçou a inclusão de um prazo menor para cônjuges e filhos menores. Esta nova lei acabou também com o visto de procura de trabalho, mantendo-se como exceção o uso por profissionais altamente qualificados, e extinguiu o privilégio de legalização com isenção de visto para cidadãos CPLP.

A entrada de trabalhadores estrangeiros passa a fazer-se quase exclusivamente através de visto laboral, dependente da celeridade (demorada) dos consulados ou da ‘via verde’ criada pelo Governo para a contratação de mão de obra por grandes empresas. As confederações esperavam receber por aí 100 mil trabalhadores por ano, mas desde abril só passaram 1305. Por agora, a “porta escancarada” tem aberta uma nesga.
A Lei da Nacionalidade foi o segundo diploma temático aprovado. Igualmente polémica, seguiu o caminho da primeira e foi chumbada a semana passada pelos juízes do Palácio Ratton, vetada por Marcelo Rebelo de Sousa e devolvida ao Parlamento. Em traços gerais, aumenta de cinco para dez anos — sete para países lusófonos — o tempo de residência legal no país para um imigrante iniciar um pedido, o que coloca Portugal entre os mais restritivos da UE. A inclusão de uma pena acessória de perda de nacionalidade não passou no TC. Já em dezembro, o Conselho de Ministros aprovou as linhas gerais do último diploma da tríade migratória, a Lei do Retorno, que regula o afastamento dos ‘ilegais’ de Portugal e mexe igualmente na Lei do Asilo. Encontra-se em consulta pública. Entre as medidas está o aumento do tempo de detenção no Centro de Instalação Temporária dos atuais 60 dias para um ano e meio, e o fim das Notificações para Abandono Voluntário, que acelera a expulsão lá fora, o medo 

Fora da bolha política do Parlamento, no mundo real do imigrante, a vida piorou. O diagnóstico é comum às várias comunidades: entre os 485 mil brasileiros que são 31% dos estrangeiros; os indianos que não chegam aos 100 mil, quase os mesmos que os angolanos; os 79 mil ucranianos; ou entre os cabo-verdianos que se ficam pelos 66 mil. É esse o top cinco das principais nacionalidades em Portugal.Se se ligasse apenas às perceções e cartazes políticos, o Bangladesh estaria em primeiro lugar com os seus 55 mil nacionais, só mais 7 mil que os britânicos. 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Freedom of the Press Worldwide 2025


The ongoing wave of media shutdowns
  1. According to data collected by RSF for the 2025 World Press Freedom Index, in 160 out of the 180 countries assessed, media outlets achieve financial stability “with difficulty” — or “not at all.”
  2. Worse, news outlets are shutting down due to economic hardship in nearly a third of countries globally. This is the case in the United States (57th, down 2 places) Tunisia (129th, down 11 places) and Argentina (87th, down 21 places).
  3. The situation in Palestine (163rd) is disastrous. In Gaza, the Israeli army has destroyed newsrooms, killed nearly 200 journalists and imposed a total blockade on the strip for over 18 months. In Haiti (112th, down 18 places), the lack of political stability has also plunged the media economy into chaos.
  4. Even relatively well-ranked countries such as South Africa (27th) and New Zealand (16th) are not immune to such challenges.
  5. Thirty-four countries stand out for the mass closures of their media outlets, which has led to the exile of journalists in recent years. This is especially true in Nicaragua (172nd, down 9 places), Belarus (166th), Iran (176th), Myanmar (169th), Sudan (156th), Azerbaijan (167th) and Afghanistan (175th), where economic difficulties compound the effects of political pressure.

The United States: leader of the economic depression
In the United States (57th, down 2 places), where the economic indicator has dropped by more than 14 points in two years, vast regions are turning into news deserts. Local journalism is bearing the brunt of the economic downturn: over 60 per cent of journalists and media experts surveyed by RSF in Arizona, Florida, Nevada and Pennsylvania agree that it is “difficult to earn a living wage as a journalist,” and 75 per cent believe that “the average media outlet struggles for economic viability.” The country’s 28-place drop in the social indicator reveals that the press operates in an increasingly hostile environment.

President Donald Trump’s second term has already intensified this trend as false economic pretexts are used to bring the press into line. This led to the abrupt end to funding for the US Agency for Global Media (USAGM), which affected several newsrooms — including Voice of America and Radio Free Europe/Radio Liberty — and, as a result, over 400 million citizens worldwide were suddenly deprived of access to reliable information. Similarly, the freeze on funding for the US Agency for International Development (USAID) halted US international aid, throwing hundreds of news outlets into a critical state of economic instability and forcing some to shut down — particularly in Ukraine (62nd).

Media concentration and the dominance of online platforms
These serious funding cuts are an additional blow to a media economy already weakened by the dominance that tech giants such as Google, Apple, Facebook, Amazon and Microsoft have over the dissemination of information. These largely unregulated platforms are absorbing an ever-growing share of advertising revenues that would usually support journalism. Total spending on advertising through social media reached 247.3 billion USD in 2024, a 14 per cent increase compared to 2023. These online platforms further hamper the information space by contributing to the spread of manipulated and misleading content, amplifying disinformation.

In addition to the loss of advertising revenue, which has severely disrupted and constrained the media economy, media ownership concentration is another key factor in the deterioration of the Index’s economic indicator and poses a serious threat to media plurality. Data from the Index shows that media ownership is highly concentrated in 46 countries and, in some cases, entirely controlled by the state.

This is evident in Russia (171st, down 9 places), where the press is dominated by the state or Kremlin-linked oligarchs, and in Hungary (68th), where the government stifles outlets critical of its policies through the unequal distribution of state advertising. It is also apparent in countries where “foreign influence” laws are used to repress independent journalism, such as Georgia (114th, down 11 places). In Tunisia (129th, down 11 places), Peru (130th) and Hong Kong (140th), where public subsidies are now directed toward pro-government media.

Even in highly ranked countries like Australia (29th), Canada (21st) and Czechia (10th), media concentration is cause for concern. In France (25th, down 4 places), a significant share of the national press is controlled by a few wealthy owners. This growing concentration restricts editorial diversity, increases the risk of self-censorship and raises serious concerns about newsrooms’ independence from the economic and political interests of their shareholders.

The Index’s survey shows that editorial interference is indeed compounding the problem. In over half of the countries and territories evaluated by the Index (92 out of 180), a majority of respondents reported that media owners “always” or “often” limited their outlet’s editorial independence. In Lebanon (132nd), India (151st), Armenia (34th) and Bulgaria (70th, down 11 places), many outlets owe their survival to conditional financing from individuals close to the political or business worlds. The majority of respondents in 21 countries, including Rwanda (146th), the United Arab Emirates (164th) and Vietnam (173rd), said media owners “always” interfered editorially.

Global state of press freedom is "difficult," a historical first
For over ten years, the Index’s results have warned of a worldwide decline in press freedom. In 2025, a new low point emerged: the average score of all assessed countries fell below 55 points, falling into the category of a “difficult situation.” More than six out of ten countries (112 in total) saw their overall scores decline in the Index.

For the first time in the history of the Index, the conditions for practising journalism are “difficult” or “very serious” in over half of the world’s countries and satisfactory in fewer than one in four.

An increasingly red map
In 42 countries — harbouring over half of the world’s population — the situation is classified as “very serious.” In these zones, press freedom is entirely absent and practising journalism is particularly dangerous. This is the case in Palestine (163rd), where the Israeli army has been annihilating journalism for over 18 months, killing nearly 200 media professionals — including at least 43 murdered while working — and imposing a blackout on the besieged strip. Israel (112th) continued its decline in the Index, dropping 11 places.

Three East African countries — Uganda (143rd), Ethiopia (145th), and Rwanda (146th) — entered the “very serious” category this year. Hong Kong (140th) also moved into the red zone for the first time, and is now the same colour as China (178th, down 6 places), which has joined the bottom three countries, alongside North Korea (179th) and Eritrea (180th). In Central Asia, Kyrgyzstan (144th) and Kazakhstan (141st) have darkened the region. In the Middle East, Jordan (147th) plummeted 15 places, largely due to repressive legislation used against the press.

The Index by region: the gap widens between the European Union and other zones
The Middle East-North Africa region remains the most dangerous in the world for journalists, harbouring the mass destruction of journalism in Gaza by the Israeli army. Every country in the region is in a “difficult” or “very serious” press freedom situation, except Qatar (79th). The press is caught between crackdowns from authoritarian regimes and persistent economic precariousness. Tunisia (129th, down 11 places), the only North African country to fall this year, recorded the sharpest drop in the region’s economic indicator (down 7.97 points, down 30 places), due to a political crisis where independent outlets are under direct threat. Iran (176th), where journalists are gagged and all critical viewpoints are suppressed, remains near the bottom of the Index, alongside Syria (177th), which is still awaiting a profound transformation of its media landscape post-Bachar al-Assad.

Out of the 32 countries and territories in the Asia-Pacific region, 20 have seen their economic score decline in the 2025 World Press Freedom Index. The systemic media control in authoritarian regimes is often inspired by China’s propaganda model. China (178th) remains the world’s largest jail for journalists and reentered the bottom trio of the Index, coming just ahead of North Korea (179th). Meanwhile, the concentration of media ownership in the hands of influential groups linked to those in power — as seen in India (151st) — combined with growing economic pressures even in established democracies, means that press freedom in the region faces mounting repression and increasing uncertainty.

In Sub-Saharan Africa, press freedom is experiencing a worrying decline. Eritrea (180th) retained its position as the worst-ranking country in the Index. The economic score deteriorated in 80 per cent of the region’s countries. In the Democratic Republic of the Congo (133rd, down 10 places), where the economic indicator plummeted, the media landscape is hampered by persistent polarisation and repression in the east of the country. Similar patterns appeared in other conflict zones, such as Burkina Faso (105th, down 19 places), Sudan (156th, down 7 places), and Mali (199th, down 5 places). In these situations, newsrooms are forced to self-censor, close or go into exile. The hyper-concentration of media ownership in the hands of political figures or business elites without safeguards for editorial independence remains a recurring problem, as seen in Cameroon (131st), Nigeria (122nd, down 10) and Rwanda (146th). By contrast, Senegal (74th) moved up 20 places as its authorities launched economic reform initiatives, which still need to be implemented and carried out in a consultative manner.

In the Americas, the vast majority of countries (22 out of 28) have seen their economic indicators decline. In the United States (57th), Donald Trump’s second term as president has brought a troubling deterioration in press freedom. In Argentina (87th), President Javier Milei has stigmatised journalists and dismantled public media. Press freedom has been weakened in Peru (130th) and El Salvador (135th), undermined by propaganda and attacks on outlets critical of those in power. Mexico (124th), the most dangerous country for journalists in the region, has also seen a sharp decline in its economic score. Nicaragua (172nd) comes in last in the region and sits at the bottom of the Index, as the Ortega-Murillo regime has dismantled the independent media. In contrast, Brazil (63rd) has continued its recovery after the Bolsonaro era.

Europe still leads the regional rankings but is increasingly divided. 
The Eastern Europe- Central Asia (EEAC) region has experienced the steepest overall decline worldwide, while the European Union (EU)-Balkans zone has the highest overall score globally, and its gap with the rest of the world continues to grow. However, even the EU-Balkans zone is hurt by the media’s economic crisis, as seven in 10 countries (28 out of 40) have seen their economic score decline. What’s more, the implementation of the European Media Freedom Act (EMFA) — which could benefit the media economy — is still pending. The situation is worsening in Portugal (8th), Croatia (60th), and Kosovo (99th). Norway (1st) remains the only country in the world to enjoy a “good” rating across all five indicators of the Index. It held on to its top spot for the ninth consecutive year, increasing its lead over other countries. Estonia (2nd) moved up to second place, closely followed by the Netherlands (3rd), which overtook Sweden (4th) in the world’s top three.

Relatório completo aqui

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

André Ventura, mentiroso e racista

André Ventura, mentiroso e racista. Criou um vídeo da IA, dizendo que ocorreu maus-tratos de um cavalo em Portugal, por parte dos ciganos. É falso!

Verdade dos Factos
O vídeo é antigo e passa-se no Egipto
2º  Uma imagem desse vídeo (captura de ecrã) é mostrado num crowdfunding de uma cidadão belga, que registou o mesmo problema em Marrocos
O cavalo em questão é Montana, um magnífico garanhão árabe berbere puro-sangue! Nasceu em Marrocos há 12 anos e passou a maior parte da sua vida como cavalo de charrete.
Sabe como é a vida de um cavalo de charrete lá?
Bem, é simples: uma vida de sofrimento! Dia após dia, puxam cargas extremamente pesadas, transportando muitas vezes turistas inocentes que desconhecem o seu sofrimento! Do amanhecer ao anoitecer, puxam sob o calor intenso, sem comida nem água, porque os seus donos muitas vezes não têm condições para os alimentar! Um veterinário? Muito caro ou indisponível! Um ferrador? Qual a vantagem quando "sabe" como fazer você mesmo! Desparasitação, vacinas, osteopatia, etc. Longe de ser uma prioridade! Depois sofrem com os ferimentos causados ​​pelo atrito do arreio, pelas chicotadas e pelos golpes que recebem por já não se conseguirem mover para a frente…
Muitas vezes, desmaiam de exaustão, desidratação, fome e dor… Depois ou morrem, ou são vendidos nos souks. Montana teve a sorte de ser muitos outros... Caiu nas mãos de Manon e Brahim e foi parar ao estábulo Amazir Cheval, onde cuidaram dele como merecia.
Trataram-lhe das feridas, alimentaram-no, prestaram-lhe todos os cuidados necessários (veterinário, osteopata, dentista, nutricionista, ferrador, etc.) e, acima de tudo, muito amor!
E uma cidadã belga Céline Trullemans  recorreu ao crowdfunding para que Montana ficasse na Bélgica.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Zohran Mamdani - um marco histórico


Depois da Holanda e Irlanda mais uma luz ao fundo do túnel. Que boas notícias para todos nós.

Uma vitória histórica. Os meios de comunicação dominantes não o levaram a sério. Trump e os republicanos passaram o tempo a ameaça-lo. Grande parte dos democratas virou-lhe as costas. As elites económicas combateram-no.

Chamaram-lhe inexperiente, antissemita, comunista e os estigmas islamafóbicos foram uma constante. Mas Zohran Mamdani, 34 anos, muçulmano, de raízes africanas e indianas, pró-Palestina, defensor dos imigrantes, com politicas sociais claras, foi mesmo eleito esta madrugada para dirigir os destinos de Nova Iorque.

Os que se lhe opuseram vão agora diminui-lo e tudo fazer para que não vingue. É importante que o imaginário progressista não se difunda. Vão desvalorizar a vitória. Dizer que Nova Iorque é apenas simbolismo, com pouco significado político. Ou que foi só a especificidade do cosmopolitismo nova-iorquino a razão do triunfo.

Vão também dizer que é uma espécie de estrela pop que sabe comunicar nas redes, ou que é apenas sorriso e performance sem conteúdo, até porque aquilo que propõe será impossível de cumprir e outras coisas que tais. Propagar o medo. Não deixar que o acreditar ponha a cabeça de fora.

O mundo não vai mudar por artes mágicas por causa dele. Não tem nada de providencial. O seu feito foi ter gerado uma onda coletiva, transgeracional e multiétnica, à sua volta – simbolizada por dois dos seus maiores apoiantes, Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez.

Fê-lo em total contraciclo com o neoliberalismo desenfreado e o populismo musculado, discorrendo sobre habitação acessível, desigualdade, salários, saúde ou comércio local, e propondo medidas como a taxação dos super-ricos, alguns transportes gratuitos, creche universal ou congelamento de rendas.

A sua vitória significa uma ferida aberta na oligarquia financeira e na governação de Trump e o recuperar da esperança na política, independentemente do lugar. Passam o tempo a querer-nos convencer que nada pode mudar e vem ele com comprometimento e ideias claras, repescadas no socialismo e na social-democracia que a esquerda quando chega ao poder tende a esquecer, dizendo: sim, é possível.

Esta madrugada a “cidade que nunca dorme” despertou e, por ressonância, o mundo descrente lembra-se que o futuro não está escrito de antemão. Agora Mamdani terá à sua frente outros desafios. Mas já fez algo que parecia difícil neste ciclo, projetar um imaginário de mudança com mais democracia, equidade e justiça social. Não chega. Mas não é pouco. E é inspirador.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O Chega e o Ódio - "Ódio é muitas vezes demasiada importância ao que é somente desprezível"


Já li o livro excelente de Miguel Carvalho- "𝐏𝐨𝐫 𝐃𝐞𝐧𝐭𝐫𝐨 𝐝𝐨 𝐂𝐡𝐞𝐠𝐚 -𝐀 𝐟𝐚𝐜𝐞 𝐨𝐜𝐮𝐥𝐭𝐚 𝐝𝐚 𝐞𝐱𝐭𝐫𝐞𝐦𝐚-𝐝𝐢𝐫𝐞𝐢𝐭𝐚 𝐞𝐦 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥".
A narrativa inflamada, os epítetos boçais, a opacidade das contas (afinal cai o pano de "Limpar Portugal" e financiamento deste "partido" (corrupto, quando acabamos de ler o livro) é também racista, fascista e xenófobo.
Outro aspecto que André Ventura e sua comandita proclamam é o candidato “do povo” contra as “elites. Nada mais falso. É alimentado por uma elite económica nacional e internacional que depois, caso chegue ao poder, vai cobrar e os portugueses ficam mais pobres e haverá austeridade.

Em junho de 2020 a Revista Visão já havia publicado extensa matéria sobre um banquete na luxuosa Quinta do Barruncho, nos arredores de Lisboa. O centro das atenções era André Ventura, que recém havia lançado o Chega (2019). Entre os convidados estava João Maria Bravo, dono da Sodarca, empresa com contratos milionários de fornecimento de armas às forças de segurança e ao exército.

Outro grande empresário presente era Miguel Félix da Costa, cuja família representou durante 75 anos a marca de lubrificantes Castrol em Portugal, atual homem forte da Slil, uma sociedade gestora de participações nas áreas do imobiliário e turismo, e que conta ainda com interesses na agricultura e na criação de cavalos. A eles se juntou Humberto Pedrosa, dono do grupo Barraqueiro, então administrador acionista da TAP, e João Pedro Gomes, do grande escritório de advogados BSGG.

Também comensal da Quinta do Barruncho foi Francisco Cruz Martins, que administra as imobiliárias Mocaja e Xaroco, ambas pertencentes à Breteuil Strategies, sediada no Chipre, um dos mais importantes paraísos fiscais europeus. O nome do advogado foi amplamente citado no escândalo dos “Papéis do Panamá”, por causa das ligações a sociedades offshore.

𝗤𝘂𝗲𝗺 𝗽𝗮𝗴𝗮 𝗼 𝗯𝗮𝗻𝗾𝘂𝗲𝘁𝗲 𝗲𝘀𝗰𝗼𝗹𝗵𝗲 𝗼 𝗽𝗿𝗮𝘁𝗼
Além deles, outros 70 grandes empresários de diversos ramos económicos portugueses, como representantes do antigo Grupo Espírito Santo. Carlos Barbot, dono do império empresarial das Tintas Barbot, e Paulo Mirpuri, ex-dono da falida operadora de aviação Air Luxor, CEO da Mirpuri Investments e da Hi-Fly, também estiveram nos almoços do Chega.
Entre os doadores do Chega já foram detectados membros da família Champalimaud, que figuram como maiores acionistas da CTT (Correios e banco) e do hotel de luxo The Oitavos, em Cascais, onde o partido organiza encontros com financiadores, dentre outros ramos de negócios.
O episódio recente da CNN foi mais um acto de vitimização, próprio dos ditadores. Recordo que André Ventura num debate para as Legislativas de 2024 disse "𝗘𝘂 𝗶𝗻𝘁𝗲𝗿𝗿𝗼𝗺𝗽𝗼 𝘀𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲 𝗾𝘂𝗲 𝗾𝘂𝗶𝘀𝗲𝗿”. Lembram-se? Um total de 1.661 interrupções e cerca de 30% das interrupções foram feitas pelo líder do Chega.

𝗢 𝗴𝗿𝘂𝗽𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗹𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗮𝗿 𝗱𝗼 𝗖𝗵𝗲𝗴𝗮 𝗱𝗶𝘀𝘀𝗲𝗺𝗶𝗻𝗮 𝗺𝗲𝗻𝘁𝗶𝗿𝗮𝘀
Obriga frequentemente ao uso de fact-checking. Agora aprimoraram-se na deepfake recorrendo à Inteligência Artificial.
A camada principal do Chega é polarizar a nossa sociedade e instrumentalizar e promover o ódio e a intolerância.
Já dizia Camilo Castelo Branco, um grande escritor e por vezes muito esquecido entre nós, tal como p.ex. Aquilino Ribeiro escreveu o seguinte - "Ó𝐝𝐢𝐨 é 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐚𝐬 𝐯𝐞𝐳𝐞𝐬 𝐝𝐞𝐦𝐚𝐬𝐢𝐚𝐝𝐚 𝐢𝐦𝐩𝐨𝐫𝐭â𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐚𝐨 𝐪𝐮𝐞 é 𝐬𝐨𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐝𝐞𝐬𝐩𝐫𝐞𝐳í𝐯𝐞𝐥"  (Trecho retirado do seu romance "A Neta do Arcediago")
"Somente desprezível" significa que algo ou alguém é digno de desprezo e nada mais. Refere-se a algo ou alguém que não merece consideração, que é vil, abjeto ou sem valor, não apresentando qualquer outra qualidade.
Que merece ser desprezado: A expressão destaca a falta de valor e a indignidade.
Que não merece respeito: Implica que a pessoa ou coisa em questão é de baixo caráter, abjeta ou sórdida.
Sem outras qualidades: Sugere que, além de desprezível, não há nada de positivo a ser dito sobre o assunto.
Uma situação e efeito do ódio é a nível psicológico e de abalos de valores pessoais e colectivos. Ver estudo académico "Why we hate". 
Porém o aspecto perigoso do ódio é quando ele está na política, num partido, num agregado social. O ódio deriva de uma mentalidade “nós contra eles”, ao mesmo tempo que é um método simplificado para a difícil tarefa de gerir a diferença.

𝐏𝐨𝐥𝐚𝐫𝐢𝐳𝐚𝐫 𝐧ã𝐨 𝐬𝐢𝐠𝐧𝐢𝐟𝐢𝐜𝐚 𝐚𝐥𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐫 𝐨 𝐜𝐨𝐧𝐟𝐥𝐢𝐭𝐨 𝐠𝐫𝐚𝐭𝐮𝐢𝐭𝐨 — 𝐬𝐢𝐠𝐧𝐢𝐟𝐢𝐜𝐚 𝐭𝐨𝐦𝐚𝐫 𝐩𝐨𝐬𝐢çã𝐨.
A política não se esgota no consenso, pelo que também é confronto quando o que está em jogo a dignidade de vidas inteiras. Polarizar não é rejeitar o diálogo, mas sim recusar a normalização da violência arbitrária. É traçar uma linha ética, mas não moralista, que diga que daqui não se ultrapassa. 

Afinal, existem momentos em que a empatia exige a tomada de posições e a capacidade de ouvir o outro cede lugar à resistência.

Contudo, o exercício da empatia não se restringe apenas aos opositores de opinião. Dentro dos nossos próprios espaços políticos, deve imperar a capacidade de ouvir o outro e de respeitar a sua humanidade, independentemente das diferenças. Na luta por um mundo mais justo, a empatia deve ser o alicerce de todas as nossas relações, não apenas com aqueles que pensam de forma diferente, mas também dentro dos espaços que ocupamos.

Em conclusão, é preciso mais do que nunca, resgatar a política como exercício de cuidado, como espaço de construção comum. Porque sem empatia, sem estratégia de educação ambiental e relações de proximidade a política perde o seu sentido.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Os cartazes abjectos do Chega - como denunciar



Não partilho as fotos dos cartazes abjectos.
Partilho que já mandei queixa para CNE, PGR, Internet Segura e outros órgãos de soberania. Qualquer cidadão pode fazer. Não é preciso ser especialista em direito para perceber a violação do artigo 240 do código penal.
Aproveitem agora, porque se continuarmos muito por este caminho e voltarem novos salazares, piar é verbo que pode deixar de existir no dicionário.

"Venho por este meio denunciar e solicitar a atuação da Comissão Nacional de Eleições, Ministério Público e demais órgãos de soberania perante os cartazes colocados em locais públicos associados à candidatura presidencial de André Ventura.
Cartazes que têm por objetivo difamar e acicatar o ódio relativamente a comunidades imigrantes e à comunidade cigana. Tais mensagens, além de chocantes do ponto de vista social e humanitário, além de causarem alarme público e social, violam claramente a Constituição e em específico o Artigo 240 do Código Penal português, "Discriminação e incitamento ao ódio e à violência".
Para mim, enquanto cidadão, é inconcebível que num estado de Direito como é Portugal, cartazes daquele teor sejam expostos e mantidos no espaço público sem serem rapidamente retirados. Tal como não é compreensível que os continuados promotores destas mensagens, contrárias aos princípios da democracia, continuem impunes, apesar de o Artigo 240 prever até penas de prisão em diferentes alíneas."

Seguro diz que cartazes do Chega são inaceitáveis e violam valores constitucionais

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Ecologia e Democracia: antídotos contra o extremismo


Vivemos um tempo de incerteza, ansiedade e fragmentação. As crises ecológicas, sociais e políticas cruzam-se e alimentam-se mutuamente. A destruição ambiental gera desigualdades, as desigualdades corroem a confiança, e a falta de confiança abre espaço ao medo — o terreno fértil onde a extrema-direita e a extrema-esquerda florescerem.

O extremismo cresce sempre que as pessoas se sentem ameaçadas ou abandonadas. Oferece respostas simples a problemas complexos, alimenta-se de desinformação e promete segurança através da exclusão. Mas o que realmente sustenta uma sociedade saudável não é o medo — é a empatia, a solidariedade e a participação democrática.

A ecologia como cultura da interdependência
A ecologia ensina-nos que tudo está ligado: solo, água, ar, plantas, animais e seres humanos formam uma teia viva. Quando um elo é destruído, todo o sistema sofre. Essa visão interdependente é, também, uma lição política. Numa sociedade fragmentada, o pensamento ecológico recorda-nos que não há bem-estar individual possível sem bem comum.

Adoptar uma ética ecológica é, portanto, adoptar uma ética democrática. Significa ouvir, cuidar e cooperar. É aprender com os ritmos da natureza, com a diversidade e com a ideia de limite — algo que o extremismo rejeita, ao avançar para acções terroristas.

A democracia como espaço de cuidado
A democracia não é apenas um regime político; é uma prática quotidiana de diálogo e responsabilidade. Exige cidadãos informados, críticos e solidários. A sua força reside na capacidade de incluir e de equilibrar diferenças.

Para resistir à extrema-direita e à extrema-esquerda , precisamos de reforçar a literacia mediática e o pensamento crítico, especialmente entre os mais jovens. Ensinar a reconhecer manipulações, questionar fontes e compreender os contextos históricos é uma forma de empoderamento colectivo.

Ao mesmo tempo, é urgente reconstruir a confiança nas instituições e valorizar o trabalho comunitário, as cooperativas, as associações locais e todos os espaços onde as pessoas se sentem úteis e ouvidas. Quando a democracia se aproxima das pessoas, o extremismo perde terreno.

Comunicação e cultura contra o ódio
Combater o extremismo também passa por mudar a forma como comunicamos. A resposta não deve ser o silêncio nem o insulto, mas a firmeza com empatia. É preciso desmontar a mentira sem amplificar o ódio.

A cultura — arte, literatura, música, educação ambiental — tem aqui um papel essencial. É através da imaginação que se constroem alternativas, que se amplia o horizonte e se recupera a esperança. A cultura ecológica é, por natureza, inclusiva e criativa: mostra que o mundo pode ser regenerado, não apenas explorado.

Uma aliança necessária
Ecologia e democracia são irmãs na mesma luta: ambas defendem a vida, a diversidade e o equilíbrio. Onde há democracia, há espaço para cuidar da Terra; onde há ecologia, há espaço para cuidar das pessoas.

Num tempo em que a desinformação e o ódio se espalham com a velocidade das redes sociais, é vital semear consciência, diálogo e solidariedade. Cada gesto de participação — uma aula, uma horta comunitária, um projeto artístico, um texto — é um acto de resistência e reconstrução.
O futuro depende da nossa capacidade de unir justiça social e justiça ecológica.
Defender a Terra é defender a Democracia.

domingo, 26 de outubro de 2025

A facharia não é uma inevitabilidade vitalícia. Mas quantas vidas vamos ter de perder por causa disso?


"Enquanto uma parte significativa da população (em todo o espectro político) vota, defende, ignora, minimiza, sente um medo paralizante, duvida do perigo ou amplifica o discurso da extrema-direita.
Enquanto os partidos (sobretudo de direita) continuam a pactuar, a normalizar e a aplicar as ideias e propostas da extrema-direita, desrespeitando totalmente o legado de Abril e todas as pessoas que deram a vida para que hoje tivéssemos uma democracia.

Enquanto as esquerdas continuam divididas, presas a querelas internas e a jogos de poder, a considerar os partidos como um fim e não como um meio, incapazes de ver que já não se trata de ganhar eleições ou de lutar pela própria sobrevivência, mas de lutar pela própria existência da democracia.

A extrema-direita, em Portugal (mas também em França, e no mundo), avança. Avança sem freio, sem resistência, sem vergonha, incitando ao ódio e desafiando o Estado de direito. Diz, com todos os dentes, números e letras, ao que vem, o que faz e o que vai fazer. Ninguém pode dizer que não sabia.
A expressão dos "3 salazares" não foi utilizada de forma espontânea, mas de forma propositada e ensaiada. Os recentes cartazes absolutamente infames, racistas e ilegais contra as pessoas ciganas fazem parte da estratégia de testar os limites do "regime", de normalizar o inaceitável, de fazer prova de força através da impunidade.

Enquanto isso, nos coletivos das pessoas que já são atacadas, ciganas, negras, muçulmanas, mulheres, queer, imigrantes, não se debate se a extrema-direita é ou não fascista, nem como fazer para que não ganhem eleições, mas sim como nos vamos organizar e resistir enquanto “inimigos do interior”, a nível local, nacional e internacional. Não temos o privilégio nem da perplexidade, nem do desespero, nem da inação.

Não tenhamos dúvidas: quando a extrema-direita estiver no poder supremo, ninguém estará a salvo. Quanto mais o tempo passa, mais difícil será a luta, apesar de nunca ser impossível. A facharia não é uma inevitabilidade vitalícia. Mas quantas vidas vamos ter de perder por causa disso?" - Luísa Semedo

Estou de acordo. E o insucesso é global. Vejamos a entrevista assustadora de Steve Bannon E mais. A direita radical e terrorista já existe. Já não poderemos chamar extrema-direita. Vai ser um luta armada. E mais. O conceito de seita existe. Uma espécie de clã, de um primitivismo atroz, quase teológico. Que abala todos os nossos valores de humanismo, de ajuda mútua, valores democráticos e extinção da mesma. Realmente esta corja, com intentos irracionais e antidemocráticos, vai chegar o apelo à força, ao armamentismo. Esta mensagem está ganhar terreno desde inícios de Janeiro por fulanos como Elon Musk (o homem mais rico do mundo), que já chegou a dizer que empatia ameaça a civilização. Ele está errado. Ele é essa ameaça.

sábado, 18 de outubro de 2025

As burcas e o nicabe - um não assunto, apenas mais uma vez o discurso de ódio do partido fascista Chega


As burcas, a islamofobia, o ataque ao "estrangeiro". 
1º - Não é permitido em Portugal, andar com a cara tapada. Esta lei do Chega, é apenas apontar dedos a muçulmanos.
2º -Em Portugal a Lei da Sharia não é reconhecida, logo o uso destas indumentárias não se admite, pois os nossos costumes assim não o obrigam.
3º-Não tem havido multas, nos casos de motards com lenços a ver-se só os olhos, ou gorros encapuzados (se calhar para fins de assalto, ou diversão, apenas)
4º - Ainda nos anos 60, do séc. XX, as mulheres portuguesas cobriam-se de véus: coca, capelo  e biocos. Enfim.
Sejamos claros e honestos!
Esta crise do ódio é insana e entramos em insegurança e medo do outro. 
Um livro muito bom que acabei de ler e aconselho.

A Primeira Biblioteca da Humanidade
Quando arqueólogos victorianos escavaram uma colina no Iraque, fizeram uma descoberta extraordinária: uma das mais antigas coleções de conhecimento alguma vez vistas — a biblioteca do rei assírio Assurbanípal, governante do império mesopotâmico no século VII a.C. Após a sua morte, rivais vingativos reduziram a biblioteca a cinzas; no entanto, os textos, gravados em tabuinhas de argila, foram cozidos e preservados pelo calor das chamas. Enterradas durante milénios, estas tabuinhas estavam cinzeladas em cuneiforme: a primeira linguagem escrita do mundo.
Mais de metade da História da Humanidade está redigida em cuneiforme, mas, actualmente, apenas algumas centenas de pessoas conseguem lê-lo. Neste livro fascinante, a assirióloga Selena Wisnom conduz-nos numa viagem por esta extraordinária biblioteca, dando vida à antiga Mesopotâmia e ao seu povo. Através dela, descobrimos a primeira grande civilização da Humanidade — o berço da matemática, da astronomia e dos primeiros sistemas bancários, do direito e da literatura. Foi uma cultura que influenciou os antigos gregos e cujos mitos foram precursores de histórias bíblicas — em suma, uma civilização sem a qual a nossa vida actual seria irreconhecível.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

White Supremacy. White Right: Meeting the Enemy


Deeyah Khan, uma cineasta britânica-norueguesa de origem paquistanesa, conhecida pelos seus trabalhos sobre direitos humanos e extremismo, decidiu encontrar e conversar pessoalmente com membros e líderes de grupos supremacistas brancos nos Estados Unidos.

Documentário pungente.

O documentário mostra encontros reais com:
  1. Jeff Schoep, então líder do National Socialist Movement (movimento neonazi norte-americano);
  2. Ken Parker, ex-membro da Ku Klux Klan e neonazi;
  3. Outros militantes e manifestantes de extrema-direita, incluindo participantes do violento protesto em Charlottesville (2017).
Deeyah Khan, sendo mulher muçulmana e não branca, aproxima-se deles com uma postura calma, empática e curiosa — não para os confrontar com ódio, mas para tentar entender a raiz da intolerância, do medo e da raiva racial.

💬 Mensagem central
O documentário mostra que a ideologia supremacista branca nasce de medo, frustração e alienação, não apenas de ódio puro.
Khan demonstra como a empatia e o diálogo podem levar alguns extremistas a questionar as suas crenças.
De facto, alguns dos entrevistados, como Ken Parker, acabaram por renunciar ao extremismo após o encontro com ela — algo que o filme documenta parcialmente.

⚖️ Significado e impacto
“White Right: Meeting the Enemy” é uma reflexão sobre o poder do diálogo humano em tempos de polarização extrema.
O documentário foi vencedor de um BAFTA (British Academy Film Award) em 2018.

Ler mais: 
Brands can’t choose their customers. So what happens when extremists wear their clothes?

quinta-feira, 24 de julho de 2025

Portugal sobe uma posição (7º lugar em 163) e ultrapassa a Dinamarca na lista de países mais seguros do mundo


O GPI é elaborado pelo Institute for Economics & Peace. E cruzando outros dados como a OCDE, Numbeo e Ministério da Coesão Territorial/Interior de ambos os países, obtemos os seguintes resultados:

1º Taxas de homicídio 
Dinamarca: Cerca de 0,8 a 1,0 caso por 100.000 habitantes.
Portugal: Cerca de 0,6 a 0,8 casos por 100.000 habitantes.
→ Ambas as taxas são consideradas muito baixas e estão entre as mínimas históricas da Europa Ocidental. A diferença entre elas é, normalmente, inferior a 0,3 pontos percentuais.

2.º Furto (crimes contra a propriedade, especialmente roubos reportados por 100.000 habitantes):
Dinamarca: Tende a ter uma taxa moderadamente mais elevada de pequenos furtos (por exemplo, furto de bolsa ou furto de carteira), embora isto varie de acordo com a cidade.
Portugal: Apresenta também taxas baixas, ligeiramente inferiores às da Dinamarca em geral.

No geral, Portugal tem taxas de homicídio e de roubo ligeiramente mais baixas do que a Dinamarca, mas a diferença não é drástica.
Consultar relatório do GPI completo aqui

No ranking FIFA a nossa selecção é 7ª e no ranking UEFA os nossos clubes seguem em 5° (Porto) e 7º (Benfica) 



Conclusão: Estamos melhor em segurança do que em futebol contudo, em ambas, quase lideramos o mundo


sábado, 5 de julho de 2025

O partido Chega que rasga as vestes a berrar para salvarem as nossas crianças é o mesmo partido que usa menores para “fazer propaganda” de ódio


Apesar da imunidade parlamentar, este depoimento da deputada Rita Matias configura um crime, previsto no Código Penal, com pena de prisão de seis meses a cinco anos visto ser clara a incitação ao ódio motivada por racismo, xenofobia, entre outras formas de discriminação (nomes estrangeiros).

Aliás o o nome completo da deputada é Rita Maria Cid Matias. Cid é um nome de origem muçulmana.
Basta procurar no Google para perceber que a origem deste apelido é marroquino, uma etnia de esmagadora maioria muçulmana. Derivado de "seid" ou "sayyid", que significa "chefe" ou "senhor".


Além disso depois de usar crianças para estimular o ódio, eis o jogo preferido do Chega: fomentar a divisão entre trabalhadores enquanto lhes negam direitos (creches públicas + vagas; reforço da proteção na maternidade). Nem a lama em que gostam de chafurdar consegue esconder a vossa hipocrisia.


sexta-feira, 13 de junho de 2025

Entre os 30 neofascistas que agrediram Adérito Lopes, um escreveu para o Observador - João Augusto Henriques Gomes Martins


Quem é o novo líder nacionalista português: discreto, paciente e metódico
Discreto, paciente, metódico, estudioso, licenciado, com o dom da palavra - são algumas das capacidades que lhe são apontadas por analistas das autoridades que acompanham a evolução da extrema-direita em Portugal.

João Martins, 44 anos, condenado a 17 anos de prisão pelo homicídio de Alcindo Monteiro, é apontado pela Polícia Judiciária (PJ), PSP e Serviço de Informações de Segurança (SIS) como o novo líder em ascensão nos designados "grupos identitários", ou "fascistas do terceiro milénio" - como os caracteriza o investigador José Pedro Zúquete, num livro que escreveu sobre o tema - em crescimento na Europa.

Desde Mário Machado - ex-líder dos cabeças-rapadas hammerskins e atual dirigente do movimento nacionalista que quer ser partido, Nova Ordem Social - que não havia uma figura a concorrer para uma nova liderança dos nacionalistas. "João Martins tem sabido gerir muito bem o seu terreno de apoio, fora dos holofotes mediáticos e, nos últimos anos, sob os radares das autoridades, ao contrário de Machado", sinaliza fonte policial.

Apesar de usar as redes sociais como plataforma de divulgação dos seus ideais, não é fácil encontrar João Martins numa simples pesquisa no Google. O seu perfil só aparece no VK, um equivalente russo ao Facebook, onde partilha fotografias que mostram a sua atividade desde, pelo menos, 2012, data de uma foto de grupo em que está ao lado (e abraçado) de Gianluca Iannone, dirigente do CasaPound, um partido italiano neofascista.

Noutra foto, de dezembro de 2015, destaca-se à frente de um grupo, Misanthropic Division, em que alguns dos elementos fazem saudação nazi. Partilhou também, em outubro de 2016, a foto de um encontro em Portugal com nacionalistas de sete países.

Em 2017, foi o tradutor para português da bíblia dos identitários - Geração Identitária, do austríaco Markus Willinger, que assume a obra como "uma declaração de guerra". Para o autor, "imigração em massa" e uma "propaganda seletiva e vilipendiante" contribuem para "a transformação da Europa numa não entidade".

No acórdão do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) sobre o caso de Alcindo é descrita a sua participação em diversas agressões a negros nessa mesma noite e, particularmente, na do cabo-verdiano. "Já no final, e com a vítima prostrada no solo em decúbito ventral, inanimada, o arguido João Martins colocou um pé sobre a cabeça da vítima, levantando os braços em atitude de triunfo", é escrito.

O STJ recorda que João Augusto de Henriques Martins, nascido a 23 de novembro de 1974, "não mostrou sinais de arrependimento" no seu depoimento em tribunal. Nesta altura, tinha 21 anos e fazia parte do grupo de Machado - também condenado neste processo - e era já tido como o "ideólogo" dos neonazis. A defesa salientou o seu "gosto pelo estudo da filosofia política" dizendo que era "possuidor de extensa literatura acerca de tal matéria".

A preocupação das autoridades com a extrema-direita é extensível a todos os grupos, mas é no movimento identitário que notam mais adesões: uma faixa etária mais jovem (muitos recrutados nas universidades), intelectualmente elevada, com solidez ideológica e normalmente sem violência - e participam em várias atividades com skins, neonazis e motards. [Diário de Notícias, 10 Fev 2019]

Saber mais aqui e aqui