Mostrar mensagens com a etiqueta Delgado Domingos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Delgado Domingos. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Gonçalo Ribeiro Telles: a homenagem de José Sá Fernandes



A luta que travou, logo no início da carreira, com a Câmara Municipal de Lisboa, por causa do projecto da Av. da Liberdade, é um exemplo bem ilustrativo da sua vontade indómita em querer fazer aquilo que considerava correcto e não por simples gosto ou capricho pessoal, mas sim pela prossecução de valores ecológicos essenciais. Aqui, queria que a lógica na intervenção fosse mais humanizada, com passeios mais largos junto das fachadas, com caminhos e árvores nos canteiros centrais, vegetação mais adequada, alinhamentos de árvores mais espaçados, tudo isto já a pensar no futuro, no crescimento vegetativo e na sombra que se adivinhava para uma caminhada mais prazenteira e tranquila.

Tudo isto começou por se fazer, mas logo a Câmara quis desfazer – e desfez – sem a sua concordância, e, por isso, demitiu-se. Ainda hoje sofremos pela má opção. Ao contrário, os pinheiros que Gonçalo Ribeiro Telles plantou no Castelo de S. Jorge cresceram e as suas copas, hoje, parece que sempre lá estiveram, o que o levava a dizer-me, por várias vezes, sempre que para lá olhávamos: “– oh Zé, acertei, não acertei?” 

A defesa dos logradouros privados, “quintais” como costumava chamar, foi outra das suas batalhas, quer no projecto, quer na sua valorização. Muitos se perderam, alguns logo no princípio, pois um certo tipo de homem da cidade preferiu as garagens e os armazéns ao solo vivo, às hortícolas frescas, aos aromáticos temperos, aos perfumes das flores e às árvores de fruto que aí nasciam, mas, apesar de tudo, outros sobreviveram, os da Av. João XXI, com carácter mais público e de lazer ou alguns em Alvalade que, com muita dificuldade, ainda resistem e que deviam ser, com afinco, preservados. 
Desde cedo, no seu pensamento subjaz a ideia de território, frágil e limitado, como uma entidade física e biológica.

Esta paisagem humanizada foi resultando sempre de um prévio olhar pela geomorfologia, pela sua história, ocupação e aproveitamento agrícola, aspectos e olhares que nestes tempos modernos muitas vezes são esquecidos quando se faz “supostamente” ordenamento do território. 

Aliás, foi com essa base que Ribeiro Telles fez dois dos documentos mais importantes em termos de ordenamento do território do país, a reserva agrícola e a reserva ecológica do país.

E, na sua perspectiva, a constante presença da árvore, elemento central da paisagem. No campo “devemos pedir às árvores o mesmo que deseja qualquer pessoa educada: não dar nas vistas”. 

Na paisagem rural deveríamos plantar as árvores que sempre aí cresceram, aliás, como junto aos rios e ribeiros. Já na paisagem florestal são de rejeitar as monoculturas intensivas e de exóticas, sem critério e em solos inadequados para o efeito. É que isso, insistia Ribeiro Telles, não é floresta, porque esta pressupõe, até etimologicamente, uma variedade de espécies. Aconselhava também mais clareiras, o aprofundamento do conceito da orla, formas de fazer paisagem e elementos contributivos para o menor desperdício da água, da erosão dos solos e para a prevenção de incêndios que naqueles outros povoamentos são mais incontroláveis, frequentes e agressivos.

A escala da árvore, dos seus alinhamentos e o seu relacionamento com os edifícios, é decisiva para o urbanismo e para o bom desenho do espaço público, como o Mestre sempre defendeu. Acrescentando que na cidade podemos adaptar umas e adoptar outras, às vezes até por uma questão estética, pois a importância das árvores prende-se com muitas outras funções, que, imagine-se, alguns julgam que foram descobertas hoje: umas ligadas à saúde pública (sumidouros de poluição), outras porque permitem mais sombra e frescura para combater o calor, outras para nos proteger dos ventos e, todas, para nos darem mais cor e para humanizar mais as nossas vidas, quase como se fosse obrigatório sentir as estações do ano, também na nossa rua. 
Nas suas primeiras obras já aparece a ideia de continuidade (Bairro das Estacas), de recreio (vazios da rua D. Rodrigo da Cunha, que eu bem aproveitei, quando lá saltava à fogueira, pela altura do Santo António), de apropriação ecológica do espaço para as pessoas, para o passeio à sombra, para a merenda, para o refúgio e jogo das escondidas, como tantas vezes fiz na Mata de Alvalade, hoje Parque José Gomes Ferreira, de paisagem, com a respectiva relação visual entre sítios, vislumbre de vistas – repentino entre árvores ou em caminhos mais densos de arbustos e sebes, ou mais vastos em campo aberto – como acontece simultânea e propositadamente com a intervenção à volta da Capela de S. Jerónimo, com o rio Tejo e a Torre de Belém como pano de fundo, que dali tantas vezes contemplo ou espreito.

O conjunto destes conceitos percebe-se no jardim da Gulbenkian que concebeu com o seu colega Viana Barreto. Aí fez a “sua ilha dos amores”, modelando pormenorizadamente o terreno e acrescentando cantos e recantos, a água, os sons, as cortinas de árvores, a variedade arbustiva e de cores, diferentes perspectivas, enfim, o paraíso. Era bom que o Professor ainda pudesse ver o jardim alargado para o terreno adjacente em direcção à Marquês da Fronteira ou até à Praça de Espanha que irá finalmente ficar ligada ao corredor verde de Monsanto, como sempre defendeu.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Relatório Charney - texto


Podes fazer o download aqui
O Relatório Charney é um documento científico publicado em 1979 que estudou o efeito sobre a temperatura e o clima global do aumento da concentração de gás carbónico na atmosfera. Seu título original é Carbon Dioxide and Climate: A Scientific Assessment (Dióxido de Carbono e Clima: Uma Avaliação Científica), mas tornou-se mais conhecido como Relatório Charney em função do principal pesquisador envolvido, Jule Gregory Charney.

Quando Jimmy Carter assumiu o governo dos Estados Unidos em 1977, o Conselho Presidencial para a Qualidade do Ambiente encomendou um grande estudo sobre as possíveis mudanças na população e no ambiente até o fim do século XX. Durante a pesquisa foram analisados trabalhos indicando que um aumento na concentração atmosférica de gás carbônico, emitido pelas atividades humanas, provavelmente causaria um significativo aumento da temperatura global. Quando os resultados foram levados ao conhecimento do presidente em 1979, a Academia Nacional de Ciências foi chamada para avaliar essa perspectiva, porque Carter tencionava usar o carvão mineral como uma saída para a crise do petróleo, e quando ocorre a queima do carvão é libertada grande quantidade de gás carbônico.[1]

Um grupo de pesquisadores, liderados por Charney, foi incumbido da tarefa. Suas conclusões principais:[2][3]
  • Se as emissões de gás carbónico continuassem nos níveis da época, a concentração na atmosfera duplicaria em algum momento da primeira metade do século XXI;
  • Isso levaria a um aumento de 1,5 a 4,5 ºC na temperatura média do globo, com um equilíbrio em torno de 3 ºC;
  • Todos os modelos climáticos utilizados previram um aumento significativo na temperatura;
  • Latitudes mais altas (mais perto dos polos) teriam aumentos maiores na temperatura;
  • Mudanças regionais no clima acompanhariam o aquecimento;
  • Não há nenhum mecanismo natural conhecido que possa minimizar ou reverter esse processo, mas provavelmente a captura de calor pelo oceano retardaria o efeito final por algumas décadas.
Embora os autores tenham reconhecido que ainda havia muitas incertezas devido aos poucos dados observacionais, ao entendimento fragmentário da ciência do clima e aos primitivos modelos climáticos usados, as previsões do relatório ficaram dentro das estimativas e observações mais atuais.[3]

O relatório fez parte de um grupo de estudos empreendidos na mesma época por diferentes equipes científicas, que trouxeram pela primeira vez a questão do gás carbônico e suas implicações para o aquecimento global para dentro da arena política.[2] Desses estudos, o Relatório Charney tornou-se provavelmente o mais famoso e influente, e é considerado um trabalho notável pela precisão das suas principais previsões, tendo surgido num período em que os recursos de pesquisa e os dados disponíveis eram ainda muito limitados.[2][4][3]

Saber mais:
Alterações Climáticas - Delgado Domingos

Referências
1 Schoolman, Ethan. "Carter Administration". In: Philander, S. George (ed.). Encyclopedia of Global Warming and Climate Change, vol. 1. SAGE, 2012, 2ª ed., pp. 210-211
2.↑ a b c Nierenberg, Nicolas; Tschinkel, Walter R. & Tschinkel, Victoria J. "Early Climate Change Consensus at the National Academy: The Origins and Making of Changing Climate" . In: Historical Studies in the Natural Sciences, 2010; 40 (3):318–349
3.↑ a b c Bony, Sandrine et al. "Carbon Dioxide and Climate: Perspective on a Cientific Assessment". In: Asrar, Ghassem R. & Hurrell, James W. (eds.). Climate Science for Serving Society: Research, Modeling and Prediction Priorities. Springer, 2013, pp. 391-413
4 Perry, J. S. "The Charney Report — Creation and Consequences". In: American Geophysical Union Fall Meeting Abstracts, 2009

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Alterações Climáticas: a visão de José J.Delgado Domingos



Fonte de imagem: Quercus 
De acordo com os principais autores do IPCC, não há nada que possamos fazer para reduzir os efeitos das emissões antropogénicas nos próximos 20 ou 30 anos 69 (porque tais efeitos resultarão dos GEE que já se encontram na atmosfera) pelo que o mais urgente é a adaptação às alterações climáticas. Tal não significa descurar a emissão de GEE, mas sim colocar essa redução no contexto das alterações provocadas por um conjunto alargado de actividades humanas que afectam o clima, nomeadamente à escala regional e local, tanto directamente pelas alterações do uso do solo, como indirectamente através dos efeitos no ecossistema. É aí que devem concentrar-se os sempre escassos recursos disponíveis O contrário seria atacar sintomas sem cuidar das causas 70. E as causas são o uso. irracional e desregrado de energia, em particular dos combustíveis fósseis, e um ordenamento do território que ignora princípios básicos da Ecologia, das Ciências Físicas e das Ciências da Saúde. Esta ignorância paga-se com consumos evitáveis de energia e de cuidados médicos. Tornar prioritário o combate às emissões de CO2 , invocando catástrofes climáticas sem fundamento científico convincente, é esquecer o contexto mais global. Uma das mais graves consequências deste reducionismo é a promoção de soluções altamente centralizadoras e perversas, de que são exemplo a captura e sequestro do carbono (CCS) 71 e a energia nuclear, qualquer delas defendida em nome das gerações vindouras mas às quais apenas poderia vir a deixar ameaças sob a forma de resíduos 72. Actualmente, nenhuma das bases de dados de referência mostra aumento global da temperatura terrestre desde 1998, ou da camada superior dos oceanos 73. Tal não significa que podemos estar tranquilos, mas sim que é urgente combater as miragens tecnológicas e os desvios perversos que originam, de modo a concentrar esforços e recursos nas tarefas urgentes que a Ciência e a racionalidade económica nos apontam e que são: a) Uma politica energética centrada nos recursos naturais renováveis e na eficiência energética, encarada como estruturante do ordenamento do território e em particular do planeamento urbano 74. b) Uma adaptação à já bem conhecida variabilidade climática, que todos os anos se manifesta sob a forma de cheias e tempestades, provocando mortos e biliões de euros em prejuízos materiais 75. Tendo em conta que (segundo os autores principais do próprio IPCC) não há nada que possamos fazer para reduzir os efeitos das emissões antropogénicas nos próximos 20 ou 30 anos, impõe-se concluir que de nada valerá o custo social e económico desse esforço de redução motivado pelos seus presumidos efeitos a mais de 50 anos de distancia se o mundo que até lá construirmos não for mais justo e habitável à escala global do que hoje o conhecemos. É por isso que se impõe: Dar prioridade aos investimentos que são simultaneamente recomendados pela política energética e pelo combate à degradação do ambiente, e prevenir as consequências da variabilidade climática. Ou seja, enfrentar desde já as certezas sem descurar a eventualidade das incertezas climáticas se virem a manifestar.[Ler todo o artigo, em pdf] 
69 WMO, 2008, Future Climate Change Research and Observations: GCOS, WCRP and IGBP Learning from the IPCC Fourth Assessment Report, Workshop and Survey Report, GCOS-117, WCRP-127, IGBP Report No. 58, World Meteorological Organization, (WMO/TD No. 1418), January 2008, Geneva, 68pp , p.7 
70 Os exemplos mais flagrantes desta atitude são a captura e sequestro do carbono (CCS) e a promoção da energia nuclear. 
71 A queima de carvão é uma das fontes mais importantes de gravíssimas emissões de mercúrio e outros metais pesados, de poeiras e ainda causadora das chuvas ácidas entre muitos outros efeitos nocivos. Todavia, o CCS apenas se preocupa com o CO2 ( que não é um poluente), consumindo de 15 a 40% da energia produzida só para o separar e liquefazer. 
72 O CCS (mesmo se fosse solução economicamente viável), exigiria que os biliões de toneladas que ficariam armazenados nunca se libertassem para a atmosfera nas próximas centenas de anos. 
73 Ver Pielke Sr., R.A., 2008: A broader view of the role of humans in the climate system. Physics Today, 61, Vol. 11,54-55., disponivel em http://climatesci.org/ . 
74 Tal politica conduzirá, automaticamente, a uma redução decisiva das emissões de CO2 acompanhada de substancial melhoria da qualidade do ar, para além de contribuir significativamente para a criação de emprego qualificado e maior independência energética. 
75 Tal adaptação traduz-se, em inúmeros casos, na mera racionalidade de não construir em leitos de cheia, em arribas e zonas instáveis, tanto mais que sabemos da sua enorme vulnerabilidade muito antes de se falar em alterações climáticas.
Reúnem-se neste sítio textos pedagógicos e de intervenção pública do Professor José Delgado Domingos

sexta-feira, 30 de junho de 2006

Sobre a página da Plataforma Portuguesa Não ao Nuclear - Vibrações Positivas (Positive Vibrations)


Bob Marley- ouça a música Positive Vibrations (Créditos fotográficos e artísticos-Dennis Morris)


Positive vibes lusos

A página da Plataforma Não ao Nuclear PORTUGUESA está online!!
Uma realização importante! Muito versátil, com textos muito rigorosos e actuais.Com possiblidade de impressão e envio por correio electrónico. Enfatiza os princípios elementares de quaisquer medidas de intervenção humana no planeta Terra, que são os princípios da precaução e eficiência.Cada página apresenta conselhos de redução e consumo de energia.Do excelente grupo de ligações , destaco os trabalhos do Prof. Delgado Domingos .
Boas leituras.
Torne-se membro da Plataforma Não ao Nuclear!

Saliento também o bom trabalho da equipa do Portal da Energias Renováveis na área da Educação Ambiental: visite e leve os seus (ex-)alunos e crianças nestas férias à Cidade Renovável


Boas práticas energéticas e mais eficientes.