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segunda-feira, 30 de março de 2026

A infinita tristeza de Jason Molina

Melhor som aqui

Ainda há almas perdidas no vale da morte a aguardar por uma autópsia completa à psique. Com 39 anos, Jason Molina partiu demasiado tarde para encaixar no clube dos 27, cedo demais para ter vida além da decadência como Johnny Cash, e demasiado discreto para ter direito às placas Bowie, Cohen, Prince, Lou Reed ou Brian Wilson,. Operava sobre a mesma precariedade de meios e desarranjo emocional de Daniel Johnston, mas a catarse era revertida em maremotos intestinais, tímidos em excentricidade e teatralização. Faltava-lhe quase tudo, a começar pelo timbre angelical, para ser um ícone como Jeff Buckley, mas a biografia desgraçada e a morte afónica extraem analogias com o irmão de outra mãe Elliott Smith.

As antenas emitiam sinais interiores de nudez emocional e confidência, solenizados em cançōes estáticas, quase inertes, mas fulminantes no poder translúcido de narrar a história sem a justificar. Molina cedeu perante a dor para a poder sublimar. Custou-lhe a vida mas a partida sagrou-lhe a perenidade, e os borrōes autofágicos voltam como clarōes de uma América dessincronizada da incivilização mas não da legião de trovadores eléctricos, de MJ Lenderman a Kevin Morby, Waxahatchee, My Morning Jacket e Jim James a solo. I Will Swim to You: A Tribute to Jason Molina, um tributo organizado pela editora Run For Cover e assumido por contemporâneos como Lenderman, Trace Mountains, Sun June e Hand Habits, chega em setembro.

Entretanto, o há muito descatalogado Impala, assinado como Songs: Ohia, acaba de ser reeditado em vinil com a inédita Tess a extrapolar a (re)descoberta e a transmitir-lhe frescura de mar. As cançōes de Molina imitavam-lhe a vida. Eram perseguidas por fantasmas - reais ou metafóricos -, robustecidos pela insegurança e pavor grupal. Boa parte dos primeiros discos, assinados com o heterónimo geográfico, expōe a relação com o Ohio, onde cresceu na cidade industrial de Lorain a 25 milhas de Cleveland.

O ciclo de Songs: Ohia é de uma fertilidade irrefreada. O segundo álbum, agora com 27 anos de duração, reflecte o esplendor débil do lo-fi. Artesanal na manufactura, primário no instinto e brutalmente honesto - a verdade sempre se sobrepôs aos factores técnicos apesar de Molina se ter posteriormente aninhado num som mais compacto e burilado, já com largura de banda em Magnolia Electric Co.

O início de An Ace Unable To Change é sepulcral, como o obséquio para uma cerimónia fúnebre. Sete estáticos minutos condensadores de cataclismos fulminantes materializados em frases reditas como facas, e um final ruínoso. “Tonight i am damned to my soul”. Molina não contemplava o desprazer apenas pelo espelho. Soubera pelos pais a luta física e mental, em que acabaria por se encharcar, da classe operária. Uma questão de integridade em nome da luta pela sobrevivência digna. Morrer como as árvores.

A voz e guitarra de Molina iluminam o calvário com capacete de mineiro. Vinga a singeleza de fazer com pouco sobre a prosperidade da abundância. Quase tudo é dito na soberba Till Morning Reputations, gravura existencial de dois minutos sangrada pelo mesmo sangue de Mark Kozelek. Os 87 orgásmicos segundos da electrificada One Of Those Uncertain Hands são o turbo punk do álbum. A flexão de um homem e o seu vagar no ermo autodestrutivo da solidão.

Como tudo nele, Impala passa-se a dez mil metros de profundidade. E nem o ensaio hesitante de Separations tem o poder de o retirar com vida da caverna. “What a fine day to believe. What if I don't believe?”

sexta-feira, 20 de março de 2026

Cat Power - Cherokee


"Cherokee" é uma das músicas mais conhecidas de Cat Power, lançada como single do álbum Sun (2012). Embora seja norte-americana, ela possui ascendência Cherokee (por parte do seu avô materno), o que explica o título da canção e sua forte conexão com a cultura e a história dos povos nativos dos EUA.

Cherokee
Cat Power

It's my way
It's my way down...

I never knew love like this
The wind, the moon, the earth, the sky (sky so high)
I never knew pain like this
When everything dies (...thing dies)
I never knew love like this
The sun, sea you and I (you and I)
I never knew pain, I never knew shame
And now I know why

Bury me, marry me to the sky (x4)

If I die before my time
Bury me upside down
Cherokee kissing me
When I’m on my way down (x2)

I never knew love like this
The wind, the moon, the earth, the sky (sky so high)
I never knew pain like this
When everything dies
I never knew love like this
The sun, sea you and I (you and I)
I never knew pain, I never knew shame
And now I know why

Bury me, marry me to the sky (x4)

If I die before my time
Bury me upside down
Cherokee kissing me
When I’m on my way down(x3)

It's my way down...

Em "Cherokee", Cat Power explora temas de transcendência e libertação face à mortalidade. O verso repetido “Bury me, marry me to the sky” (“Enterre-me, case-me com o céu”) expressa o desejo de ir além da morte física, procurando uma ligação espiritual com o universo. Elementos naturais como “the wind, the moon, the earth, the sky” (“o vento, a lua, a terra, o céu”) reforçam esta procura por algo maior, sugerindo que as emoções vividas são tão intensas como as forças da natureza.

O videoclipe, que mostra Cat Power como uma caçadora de zombies num cenário pós-apocalíptico, intensifica o sentimento de luta pela sobrevivência e o confronto com a morte. Isto transforma a música numa reflexão sobre a resiliência e a possibilidade de renascimento mesmo no meio da destruição. A frase “Cherokee kissing me when I’m on my way down” (“Cherokee beijando-me quando estou a cair”) pode ser vista como uma referência à cultura indígena norte-americana, evocando rituais de passagem e respeito pela terra, ou como um gesto de conforto em momentos de queda emocional. O pedido para ser enterrada de cabeça para baixo sugere uma inversão das tradições sobre a morte, talvez como protesto ou procura de uma nova perspectiva. A sonoridade eletrónica e atmosférica da faixa, marcada por uma mudança de estilo da artista, reforça o tom introspetivo e amplia o impacto emocional da canção.

Recepção e críticas do álbum Sun (2012)

segunda-feira, 16 de março de 2026

Low - Fly


A letra de "Fly" é minimalista e carregada de uma beleza triste, típica do álbum I Could Live in Hope (1994).

I can't take it
I can't take it
I can't take it
The way you want to fly

I can't take it
The way you want to fly

So fly
Fly
Fly
Fly

A letra de "Fly" é um exercício minimalista de resignação e desapego, funcionando como uma narrativa circular sobre a dor de deixar alguém partir. A repetição insistente da frase "I can't take it / The way you want to fly" estabelece um conflito emocional profundo: o narrador confessa a sua incapacidade de lidar com o desejo de liberdade ou de mudança da outra pessoa. O ato de "voar" surge aqui como uma metáfora para a independência, para o abandono ou até para uma transição espiritual, sugerindo que o outro já não pertence àquele espaço partilhado.

No entanto, a música atinge o seu ponto de viragem quando a resistência se transforma em aceitação. Ao mudar o discurso para um simples e repetido "So fly", o narrador liberta o peso da sua própria angústia e concede ao outro a permissão para ir. Esta transição reflete uma forma altruísta de amor, onde, apesar do sofrimento pessoal ("eu não aguento"), a vontade do outro é finalmente respeitada. No contexto do Slowcore, a lentidão extrema da melodia amplifica este sentimento, fazendo com que cada palavra pareça um suspiro de exaustão e, eventualmente, de paz.

Muitos fãs e críticos associam as letras do Low à fé Mórmon dos fundadores (Alan e Mimi). Nesse contexto, "Fly" pode ser interpretada como uma reflexão sobre a mortalidade ou a ascensão espiritual. O "voar" seria o deixar este mundo, e o "não conseguir aguentar" seria a dor humana de quem fica a assistir à partida de um ente querido para outro plano.

terça-feira, 3 de março de 2026

Galaxie 500 - When Will You Come Home

[Verse 1]
When, when will you come home?
Watchin' TV all alone
Watchin' Kojak on my own

[Chorus]
Staring at the wall
And waiting for your call
When, when will you come home?
Oh, oh-oh

[Verse 2]
Now, I'm crawlin' on the floor
Makin' noises like a dog
Makin' noises you can't hear

[Chorus]
Staring at the wall
And waiting for your call
When, when will you come home?
Oh, oh-oh-oh

[Instrumental Outro]

Lançada no álbum On Fire (1989), a canção apresenta uma letra minimalista, característica que se tornou uma marca registada da escrita de Dean Wareham. Como ocorre em muitas composições de Dream Pop, o seu significado é aberto à interpretação, mas geralmente gravita em torno da ansiedade da espera e da sensação de um tempo suspenso. A repetição constante da pergunta que dá título à faixa transmite o sentimento de estar "travado" no mesmo lugar enquanto se aguarda por alguém que partiu ou que se encontra emocionalmente distante.

Essa temática de solidão e inércia é reforçada pela menção a atividades mundanas, como assistir à televisão ou estar sentado na cozinha, elementos que destacam o vazio do quotidiano na ausência da outra pessoa. Não há traços de raiva na composição, apenas uma vulnerabilidade profunda e uma busca honesta por conexão. Além disso, a produção da música é famosa pelo uso estratégico do "espaço", onde o silêncio e as notas longas de guitarra tornam-se tão importantes quanto a própria letra para narrar a história da solidão do protagonista, culminando numa melodia crescente que sugere uma tensão emocional que as palavras simples não conseguem expressar sozinhas.

domingo, 19 de setembro de 2021

Música do BioTerrra: Galaxy 500- Strange


Why's everybody actin' funny?
Why's everybody look so strange?
Why's everybody look so nasty?
What do I want with all these things?

I went alone down to the drugstore
I went in back and took a Coke
I stood in line and ate my Twinkies
I stood in line, I had to wait

Why's everybody actin' funny?
Why's everybody look so strange?
Why's everybody look so pretty?
What do I want with all these things?

I went alone down to the drugstore
I went in back and took a Coke
I stood in line and ate my Twinkies
I stood in line, I had to wait

Sites

O nome da banda foi inspirado no carro Ford Galaxie 500, um clássico americano dos anos 60.
A canção integra o álbum On Fire, lançado em 1989
 

Jack Kerouac: King of the Beats 

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

sábado, 29 de março de 2014

Música do BioTerra: Evi Vine - In This Moment


Evi Vine- In This Moment

Tomorrow will come another day to survive
Into this we're thrown, feels the world has conspired
You say that you want more than anything to be hear by my side
Well you're not here now, that's when it counts.

[Refrão]
So when you've tasted honey, can it ever be sweet
When you've held a diamond in your hands and you've known such luxury
When you've kissed an angel and held her till she breaks
Tell me now what's more real than this moment.

To you I'm just a stranger, have your eyes grown so tired
You say than I'm the answer wen the truth is I'm on fire
So when will you come, when will you release me from this spell
How do I compare with everyone else.

[Refrão]

Oh restless heart, brought me to my knees,
Tear us apart, my love
Oh restless heart, come and rescue me
Not precious enough, this love...

sábado, 6 de abril de 2013

Encontros Improváveis- Paulo Neruda e House of Wolves- Floow Me



A minha luta é dura e regresso
por vezes com os olhos
cansados de terem visto
a terra que não muda,
mas quando o teu riso entra
sobe ao céu à minha procura
e abre-me todas as portas da vida.

[Pablo Neruda]

domingo, 20 de janeiro de 2013

Encontros Improváveis : Bernardo Soares e Sparklehorse and Radiohead - Wish You Were Here


“Tudo me cansa, mesmo o que não me cansa. A minha alegria é tão dolorosa como a minha dor.”~ Bernardo Soares

Por mais que mostre textos que elogiam as virtudes da paz, citações sobre Paz e Amor à minha volta no meu mural, o feed-back crescente e cada vez mais frequentes são de gritos, silêncios, prepotência, cinismo, hipocrisia, divisão e egocentrismos. Excepto o abrigo da família e alguns amigos. Já é bom, mas muito insuficiente. Aos meus amigos distantes apelo que sejam diplomatas da paz, apontem soluções aos derrotistas e transmitam exemplos de esperança aos pessimistas, os conservadores e os reacionários que não acreditam no sucesso de Portugal e que não aprofundam a consciência ecocêntrica.

A gravação tem uma textura sonora única porque, reza a lenda, Thom Yorke não estava num estúdio convencional; ele gravou sua parte por uma linha telefónica ou um rádio, o que deu à voz aquele efeito abafado e distante que combina perfeitamente com a letra da música.


domingo, 28 de agosto de 2011

Música do BioTerra: Sun Kil Moon - Gentle Moon

Gentle Moon
A Lua, astro gentil.
Apetece ouvir esta música uma e mais uma e sempre mais vezes.



Sun Kil Moon foi formada em 2002 pelo ex-líder dos Red House Painters Mark Kozelek. O grupo é composto pelo baterista e pintor Anthony Koutsos, o baterista Tim Mooney (da famosa American Music Club) e pelo baixista Geoff Stanfield (dos Black Lab), além de um trio de cordas do Conservatório de São Francisco.

Esta faixa, Gentle Moon, é do seu álbum "Ghost Of The Great Highway". Um álbum de tal beleza folk que é de tirar o fôlego do início ao fim e realmente destaca os incríveis vocais de Mark e a guitarra.


Gentle Moon
smile down on us sun, show your rays
when things come undone
all animals lead, us to light
when we can't see
stars, saturn and moon, glow for those
who cannot get through
rain fall and voice sound for those of whom
still are not found

gentle moon, find them soon
gentle moon, find them

black sky and black sea, lighten up
when we can't breathe
all dreams escape fire, over worlds
fly but won't tire
slow down on us wind, hold us still
when everything spins
all secrets and lies, let them out

dreams escape fire, they won't tire

gentle moon, find them soon

all calendars pass, days die off
and hope cannot last
but if love was like stone, then yours was mine
through to my bones
but how can we give back to those
with whom we can't live
when will the flame break
and spare the good people it takes

souls escape fire, they rise higher

sábado, 19 de abril de 2008

Música do BioTerra: Coceteau Twins - Aikea Guinea



When he pushes away
Like he's gonna have to make me
He gladdens
(X2)

Oh, please
Please
When he pushes away
Like he's gonna have to make me
He he he he he he

It's so good to have a man
It's so good to have him check him out
Saliva peeks from his trail
I gained a lot of advice from him

It's so good to have a man
It's so good to have him check him out
Saliva peeks from his trail
I gained a lot of advice from him

Oh, please
Please
It's so good to have a man
It's so good to have him check him out
At night
Oh, please
Please
It's so good to have a man
It's so good to have him check him out

When he pushes her back
Like he's gonna have to make me
Saliva peeks from his trail
I gained a lot of advice from him
It's so good to have a man
It's so good to have him check him out
Saliva peeks from his trail
I gained a lot of advice from him [2X]

Oh, please
Please
When he pushes her back
Like he's gonna have to make me
Please
Please
It's so good to have a man
It's so good to have him check him out
My love


sábado, 21 de agosto de 2004

Kesang Marstrand: Carry On Crickets

Letra
Carry on crickets
Sing your song
The sun has set
And the day is gone

Sing to the night
Sing to the moon
And Ill listen too
From here in my room

Carry on
Carry on

Carry on breeze
Whisper and sigh
The night has come
And the moon is high

Whisper to the hills
Whisper to the trees
Whisper to the fields
Carry on breeze


Carry on
Carry on

Kesang Marstrand é uma cantora e compositora norte-americana, nascida em Woodstock, Nova Iorque, filha de mãe dinamarquesa e pai tibetano. A sua música é uma fusão delicada de folk indie, acústico e dream pop, caracterizada por arranjos minimalistas e pela sua voz etérea e cristalina.

A canção "Carry On Crickets" funciona como um abraço sonoro. É construída sobre uma melodia suave e repetitiva de guitarra que imita o canto constante e rítmico dos grilos à noite. A letra é um mantra de aceitação e presença, incitando o mundo natural a continuar a sua canção como forma de ancorar o ouvinte no "agora". Transforma a potencial solidão da noite numa experiência partilhada com o universo.

A experiência visual do vídeo intensifica isso com imagens suaves e nebulosas que remetem para um sonho em transição para a realidade. O texto flui pelo ecrã com uma graciosidade deliberada em câmara lenta, garantindo que cada palavra carrega o peso de um segredo sussurrado. Esta sinergia entre o "texto em movimento" e os sons orgânicos da natureza cria uma atmosfera meditativa que encoraja o espectador a respirar mais profundamente e a encontrar a quietude no meio do movimento do mundo.