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quarta-feira, 13 de maio de 2026

Estudo científico revela que as cidades europeias podem produzir quase 30% das hortícolas que necessitam


O estudo recentemente publicado na revista Sustainable Cities and Society analisou 840 cidades europeias e concluiu que os espaços urbanos poderão produzir milhões de toneladas de hortícolas por ano.

Coberturas planas, quintais, terrenos abandonados, faixas verdes pouco utilizadas e outros espaços urbanos poderiam contribuir para alimentar cerca de 190 milhões de pessoas, chegando em alguns cenários a cobrir perto de 30% das necessidades de hortícolas frescos dessas cidades.

O mais interessante é que os investigadores não basearam as suas conclusões em tecnologias futuristas, agricultura vertical muito dispendiosa ou sistemas altamente industrializados.

Pelo contrário, o estudo focou-se sobretudo em soluções relativamente simples, acessíveis e de baixa tecnologia, baseadas em hortas no solo ao ar livre, em telhados planos e em terrenos baldios, muito próximas daquilo que muitos agricultores urbanos já fazem há décadas.

Na verdade, as cidades sempre produziram alimento. Durante séculos, Lisboa, Porto, Coimbra, Braga ou Évora viveram rodeadas de hortas, vinhas, olivais, pomares e pequenos campos agrícolas integrados no tecido urbano e periurbano.

O século XX alterou profundamente essa relação. Impermeabilizámos solos férteis, enterrámos linhas de água, destruímos quintas históricas e afastámos progressivamente a produção alimentar dos centros urbanos. Hoje começamos finalmente a compreender a fragilidade estrutural deste modelo.

As alterações climáticas, os eventos extremos, as crises energéticas e a inflação alimentar estão a obrigar cidades e governos a repensar a segurança alimentar. A agricultura urbana deixa assim de ser apenas uma ferramenta educativa ou recreativa. Passa a ser uma estratégia de resiliência territorial.

Depois de mais de vinte anos ligado à agricultura regenerativa urbana, continuo profundamente convencido de que uma cidade capaz de produzir parte do que come é uma cidade mais saudável, mais justa e mais resiliente.

Este estudo vem apenas confirmar aquilo que muitos agricultores urbanos conhecem há décadas. Por baixo do betão continua a existir território fértil, e dentro das cidades continua a existir uma profunda necessidade humana de cultivar alimento.

Já em 2013, um relatório da UNCTAD afirmava que o modelo de agricultura industrial era insustentável e que os modelos agroecológicos locais/ regionais diminuiriam a desigualdade entre Norte Global e Sul Global, entregando às populações de países ditos menos desenvolvidos ferramentas e educação para poderem obter os seus próprios alimentos.

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terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Cidades esponjas e telhados verdes: as cidades incorporam a natureza para mitigar e criar empregos

Cidade de Medellín (Colômbia) criou um corredor verde de 1,3 Km 

As cidades abrigam mais de metade da população mundial e são responsáveis ​​por mais de 70% das emissões de gases com efeito de estufa . Portanto, têm um papel fundamental a desempenhar na travagem e na adaptação à dupla crise da perda de biodiversidade e das alterações climáticas. Chegamos a tempo de atingir as metas do Acordo de Paris, mas isso só será possível se reduzirmos as nossas emissões atmosféricas em 43% nos próximos sete anos. Caso contrário, enfrentaremos as consequências das inundações e das secas, que são cada vez mais frequentes e fazem-se sentir em todo o mundo.

Uma forma de tornar as cidades mais sustentáveis ​​e resilientes é incorporar a natureza na sua gestão e design. Estas soluções protegem, restauram e gerem o ecossistema de forma sustentável, garantindo a biodiversidade, melhorando a qualidade do ar e garantindo maior segurança alimentar e hídrica. As soluções baseadas na natureza são diversas e vão desde a ecologização das cidades até à restauração de zonas húmidas e recifes e à melhoria da gestão das águas pluviais. Não são apenas positivos para o ambiente, mas também para o bem-estar e a economia. Na verdade, têm potencial para gerar mais de 59 milhões de empregos em todo o mundo .

Um grande número de cidades está a adotar soluções inovadoras baseadas na natureza. Por exemplo, Guangzhou (China) embarcou numa viagem em 2017 para se tornar uma cidade esponja com o objetivo de combater a degradação ambiental. Ao aplicar este conceito, Guangzhou e muitas outras metrópoles chinesas reduziram o risco de inundações e melhoraram a gestão da água. Outras cidades, como Toronto (Canadá), implantaram uma política que exige que os novos edifícios tenham telhados verdes, o que pode reduzir a temperatura e o consumo energético dos edifícios, além disso, de proporcionar um habitat para a fauna urbana e melhorar a qualidade do ar. Por sua vez, Medellín (Colômbia) criou um corredor verde de 1,3 quilómetros que oferece ao bairro fácil acesso a áreas verdes.

As soluções baseadas na natureza podem proporcionar mais de um terço da mitigação climática necessária até 2030 . No entanto, apenas 0,3% dos gastos em infra-estruturas urbanas são atribuídos a isto.

Este ano, o Dia Mundial do Metropolitano , comemorado todo dia 7 de outubro, focou no “poder da natureza”. Com este tema, foi feito um apelo aos governos para que trabalhem para além dos limites administrativos das suas cidades e coloquem a natureza no centro da ação local. Mais de 240 pessoas, incluindo representantes políticos, reuniram-se em Istambul (Turquia) para trocar experiências sobre como melhorar a resiliência das suas áreas metropolitanas. Este evento global , organizado pela MARUF, Metropolis e ONU-Habitat, foi seguido por eventos noutras cidades como Kinshasa, Austin, Barcelona, ​​​​Vale de Aburrá e Cidade do México.

Uma das grandes conclusões dos debates é que os desafios que as cidades enfrentam não podem ser resolvidos apenas a nível municipal. Os limites de uma cidade já não reflectem a realidade quotidiana dos seus habitantes, pelo que os governos precisam de olhar para além das divisões geográficas e institucionais tradicionais. A vida é construída em escala metropolitana. Consequentemente, deve ser governado na mesma escala em que é vivido: é um exercício de corresponsabilidade que permite reduzir a desigualdade territorial, superando assim a narrativa binária de ganhar e perder territórios.

Além disso, a perspectiva metropolitana reconhece que as cidades não são fundamentalmente diferentes dos seus arredores. Nem são contrários à natureza. As grandes cidades dependem do seu entorno para aceder a recursos naturais como água, energia ou alimentos e, ao mesmo tempo, têm um grande impacto no seu ecossistema. No cenário global, as cidades são atores-chave nos assuntos mundiais devido ao seu âmbito, tamanho e importância cultural.

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segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Experiências de vida e genética influenciam a forma como vemos a Natureza

Para alguns de nós, a Natureza pode estar refletida em espaços verdes bem mantidos e cuidados (à direita), ao passo que para outros ela está em lugares ‘selvagens’, em que o toque e presença humanos é residual ou praticamente inexistente (à esquerda). 

A Natureza é definida por muitos como um ‘universo’ além dos espaços humanos, ao qual estão confinados os animais e as plantas selvagens, lugares intocados, ou ligeiramente alterados, embora as paisagens agrícolas possam também caber nessa categoria.

Apesar de o conceito de Natureza, como algo destacado da experiência e vivência humanas, tenha as suas raízes no pensamento ocidental, que pressupõe uma linha divisória entre os mundos social, ou humano, e natural, continua a ser a base da tradição científica dominante. Como tal, e numa altura em que se mobilizam muitos esforços, vontades e fundos para atenuar os impactos humanos sobre o planeta, saber como as pessoas veem a Natureza é fundamental para que se possa perceber onde estará o epicentro dos problemas.

Cada pessoa tem uma forma diferente de percecionar a Natureza – umas adoram-na, outras olham para ela como um conjunto de recursos a explorar, e outras são indiferentes –, mas investigadores suíços acreditam que essas perceções são influenciadas quer pela nossa genética, quer pelas experiências e aprendizagens ao longo das nossas vidas.

Num artigo publicado na revista ‘Trends in Ecology & Evolution’, os cientistas da Universidade de Gotemburgo e da Universidade Sueca de Ciências Agrárias defendem que a hereditariedade e o ambiente em que crescemos são ambos fatores que determinam as nossas atitudes para com a Natureza.

Através da revisão de múltiplos estudos sobre como os humanos percecionam o mundo natural, os investigadores concluíram que essas perceções são construídas por “uma interação entre a hereditariedade e a influência ambiental”, salientando que cada um de nós reage de forma diferente perante a Natureza.

Um dos trabalhos revistos foi um estudo realizado no Japão que comparou os batimentos cardíacos de pessoas enquanto passeavam na floresta e na cidade, e revelou que 65% dos sujeitos experienciou uma redução do ritmo cardíaco enquanto caminhava por entre as árvores. Os investigadores consideram que esta é uma prova de que nem todas as pessoas reagem da mesma forma à Natureza.

Outro estudo apontava que as pessoas cujas infâncias tiveram uma forte componente de contacto com o mundo natural eram mais atraídas pela Natureza do que as demais.

Isto, relativamente ao peso das experiências de vida na forma como vemos a Natureza. No que toca à influência genética, Bengt Gunnarsson, um dos autores do artigo, recorda que um outro trabalho sobre gémeos idênticos e ‘falsos’ mostrava que “uma componente genética influencia a relação positiva ou negativa de um indivíduo com a Natureza”, acrescentando que esse trabalho “também salientava a importância do ambiente”.

A dupla de cientistas suecos diz, no entanto, que devemos evitar generalizações sobre como as pessoas veem a Natureza e sobre o que entendem que ela seja. Para uns, a Natureza pode ser vista em jardins urbanos bem mantidos, com relva aparada, ao passo que para outros pode significar florestas repletas de animais e plantas selvagens.

E acreditam que mesmo essa distinção pode ser influenciada quer pela genética, quer pelas experiências que essas pessoas tiveram aos longo das suas vidas.

Apesar das conclusões desta investigação, Bengt Gunnarsson afirma que futuros estudos que aprofundem a compreensão “das interações entre os fatores de hereditariedade e ambientais são essenciais se quisermos compreender o que molda as relações dos indivíduos com a Natureza”.

Diversos são os planos implementados e em marcha para tornar mais verdes as cidades em que vivemos. Mas a diversidade de visões sobre o que é, ou o que deveria ser, a Natureza, poderá ter efeitos muito diferentes sobre cada uma das pessoas. Por isso, o cientista sublinha que “temos de nos recordar que somos todos diferentes” e que os planos para aumentar os espaços verdes em contextos urbanos devem ter em conta as diversas perceções e não assumir que existem ‘soluções de tamanho único’.

A consciência dessa diversidade de perceções, na ótica destes autores, será fundamental para que todas as pessoas possam encontrar nas suas cidades espaços verdes que correspondam à sua ideia de Natureza e nos quais possam experienciar os benefícios que têm sido associados a esses lugares.

segunda-feira, 29 de maio de 2023

Problemas modernos requerem perspetivas antigas


Por João Abegão
Aqueles que buscam uma educação ecológica olham para as vozes do passado e não desprezam as suas perceções da realidade, por mais deslocadas que estas estejam das inclinações sociopolíticas da época. Se as ignorarmos acabaremos seguramente mais sós, num mundo repleto de cicatrizes, cravadas justamente pelas nossas próprias mãos.

“Uma das consequências de uma educação ecológica é que se vive sozinho num mundo de cicatrizes.”

Um ano após a sua morte em 1948, estas palavras viriam a fazer parte do grande êxito póstumo de Aldo Leopold, ‘A Sand County Almanac and Sketches Here and There’ (1949).

Para um homem que começou carreira como responsável pela gestão de predadores que ameaçavam o gado (eufemismo para “diminuição ou extermínio de populações locais”), a epifania de Leopold continua a proporcionar um caso dramático de redenção.

Leopold reconheceu o papel fundamental das espécies de predadores, que deveria caçar, desempenhavam nas comunidades bióticas, o que o levou a desafiar a ortodoxia da época. Um dos exemplos mais célebres é a aniquilação de carnívoros, como o lobo ou o urso, o que levou ao aumento do número de herbívoros que, por sua vez, alterou a vegetação, através do sobrepastoreio.

Aquilo que era naturalmente ‘selvagem’ deveria permanecer intacto
Palavras como as que abrem este artigo ecoavam uma narrativa recalcada pelo silêncio, na sequência da perda de outras espécies, e de uma pegada humana cada vez mais dominante. Leopold percebeu que aquilo que era naturalmente ‘selvagem’ deveria permanecer intacto de forma a desempenhar o seu papel num todo interligado e complexo.

O problema agravava-se com o cerco perene que a humanidade mantinha numa biosfera que, manifestamente, estava a fracassar na sua resistência contra esta força em contínua expansão. Porém, através das suas observações (e do trabalho de outros cientistas da época), uma nova ética ambiental, bem como um movimento de conservação do meio selvagem, emergiram, influenciando profundamente ambientalistas da época e de gerações futuras.

Considero-me entre aqueles que foram não só influenciados por Leopold, mas por outros nomes da velha guarda conservacionista, como John Muir, Henry David Thoreau ou George Perkins Marsh. Todos eles, em alguma altura da sua vida, se pronunciaram contra a narrativa antropocentrista e do avanço implacável da civilização humana sob a égide do progresso, em detrimento daquilo que é natural e selvagem. As suas visões vieram a moldar a insurreição ambientalista do pós-guerra, que contava agora com outros contributos teóricos como os de Rachel Carson, Paul R. Ehrlich, William Vogt, Garrett Hardin, Herman Daly, Kenneth Bouding e o Clube de Roma.

Entre eles, estes autores chamaram à atenção para um manancial de questões. A fragilidade do meio natural face à atividade humana crescente, o efeito multiplicativo de todos os problemas ambientais subjacentes a uma população em crescimento e o dilema de providenciar um estilo de vida mais abastado a toda a população, que por sua vez gera maior impacto ambiental per-capita. Também foi destacado o movimento de populações de países com economias em desenvolvimento para outras sobre desenvolvidas, tendendo a adquirir os seus padrões de consumo mais elevados, e os limites intrínsecos dos sistemas planetários, que serão ultrapassados enquanto se mantiver o crescimento tanto da economia como da população.

O movimento ambiental nas décadas de 70 e 80
Em poucas palavras, nas décadas de 70 e 80, era perfeitamente normal para o movimento ambiental advogar a contração da população mundial, restrições migratórias para países sobre desenvolvidos, a necessidade de um novo sistema económico baseado num modelo estacionário e a consciência que não poderia existir tal coisa como crescimento perpétuo num sistema finito e interligado como o nosso planeta.


Uma das equações que sustentava este movimento ambiental era a avançada por Ehrlich & Holdren, em 1971. Esta descrevia, claramente, que o Impacto ambiental (I) era o resultado do tamanho de uma População (P), que teria um certo nível de consumo ou Afluência (A), que por sua vez era determinado pela intensidade de produção aliada à Tecnologia (T), ou I = PAT.

Quando o impacto ultrapassasse a capacidade de carga (‘carrying capacity’, outro tema popularizado por Leopold) dar-se-ia uma sobrecarga (overshoot), um estado de degradação ecológica que não só leva a um reequilíbrio no tamanho da população, mas também a uma redução da capacidade de carga total, para um nível inferior ao inicial.

A questão que se coloca aqui é: quando é que foi a última vez que o movimento ambiental moderno se pronunciou relativamente a estes pilares da ecologia e sustentabilidade? É sabido que o Sierra Club - uma das primeiras organizações não governamentais dedicadas ao ambiente e fundada por John Muir no final do século XIX – manteve uma posição de restrição migratória para os Estados Unidos, em prol da conservação, durante a maior parte da sua história. Em 1980 a organização defendia:

“É óbvio que o número de imigrantes que os Estados Unidos aceitam afeta o tamanho da sua população e rapidez de crescimento. É possivelmente menos conhecido que uma política migratória, ainda mais que o número de crianças por família, é determinante para o número futuro de americanos.”

Esta posição manteve-se até 1996, quando pressões por parte de ativistas e disputas internas levaram a uma reforma total e ao abandono da mesma, a favor de convicções que geravam menos reprovação e repúdio por parte de membros e da sociedade em geral (o que também principiou um fenómeno de aumento de doações, que veio a determinar que tipo de projetos estas organizações estavam dispostas a manter).

O discurso ambiental sofreu uma metamorfose profunda e vincada nas alterações climáticas
O que se está a verificar com o Sierra Club é apenas um exemplo de um problema mais disseminado. São raros os casos em que organizações não governamentais ligadas ao ambiente se pronunciam sobre os temas acima descritos, preferindo, em alternativa, outros mais paroquiais e, aparentemente exequíveis, como a responsabilidade ambiental através da conservação de água, da triagem de resíduos domésticos ou a mobilidade responsável - tudo em nome das alterações climáticas.

De facto, o discurso ambiental sofreu uma metamorfose tão profunda e vincada nas alterações climáticas que, já em 2018, uma investigação reportava que por cada 20 notícias sobre a crise climática, somente uma era sobre a perda de biodiversidade. Da minha perspetiva, estes resultados são demasiado conservadores, e a realidade deverá ser um ratio muito mais divergente, visto que os ativistas dos nossos dias que continuam o legado de Leopold ou Muir, parecem ser uma espécie em vias de extinção.

É visível que o movimento ambiental aparenta ter-se reinventado, tendo tornado a luta climática como a sua missão cardinal. Se considerarmos as prioridades deste ativismo moderno, percebemos que este se transformou numa série de exigências destinadas a ‘resolver’ (em inglês usa-se o termo ‘fix’) o clima, convertendo-o num desafio de engenho e inovação.

Os exemplos mais familiares incluem a descarbonização das economias através da eletrificação das frotas automóveis, a integração de sistemas energéticos alimentados por fontes renováveis e a eficiência energética das habitações e eletrodomésticos. Contudo, existem muitas outras propostas tecnológicas como o vertical farming, o sequestro de carbono, uso de inteligência artificial e data centres para criar smart cities, ou mesmo a geoengenharia, que têm vindo progressivamente a ser acomodadas por fações mais tecno-otimistas.

Adicionalmente, uma grande parte do ativismo climático/ambiental tem vindo a adotar questões de índole social como a criação de empregos climáticos, transições justas e desenvolvimento sustentável. Muitas vezes, em simultâneo com questões de afirmação pessoal e sexual, e políticas identitárias e raciais.

Independentemente do valor intrínseco destas e outras causas, teremos certamente de admitir que as mesmas são, no mínimo, distintas, e no máximo, contraditórias à mensagem que acompanhou o advento do movimento ambiental de há meio século - a necessidade de contração de tudo o que era associado com o projeto humano, devido a limites biofísicos do planeta.

Ficaremos reféns de abordagens que têm de explorar e monopolizar o mundo natural
Não será aqui que se fará um escrutínio dos prós e contras destas ‘soluções’. Irei unicamente frisar que aquelas que estão dependentes de desenvolvimento económico e tecnológico, ou que se baseiam em melhorias de eficiência, não poderão resolver crise climática nenhuma enquanto o paradigma de crescimento da economia e da população não for desafiado. Caso contrário, ficaremos reféns de abordagens que têm de explorar e monopolizar o mundo natural de forma a providenciarem as necessidades de uma população em crescimento, que deseja subir na hierarquia de consumo e riqueza material.

A título de exemplo, as energias renováveis estão profundamente dependentes de processos industriais que não operam sem combustíveis fósseis, com cadeias de produção globais, e extração de recursos e ocupação/destruição do meio natural para sua instalação, levando a uma perda gradual do estado íntegro que Leopold favorecia.

Como o ambientalista Max Wilbert comenta num artigo recente do New York Times:
“Explodir uma montanha não é ‘verde’, por mais marketing que lhe tentem dar”.

Por outro lado, parecemos ignorar o facto que qualquer redução de custos provenientes de aumentos de eficiência não resulta em ganhos para o ambiente. A verdade é que quando as pessoas adquirem um eletrodoméstico ou umas lâmpadas mais eficientes, o dinheiro resultante dessas poupanças é investido ou gasto noutro lado, invariavelmente contribuindo para o crescimento económico e como tal, para a emissão de mais gases de efeito de estufa.

Outro processo semelhante, e que é descrito pelo Paradoxo de Jevons, revela que, quando, por exemplo, o preço da eletricidade baixa, as pessoas não tendem a reduzir o seu uso, mas sim a ser menos diligentes com a sua poupança – o que aumenta o consumo num todo.

O projeto civilizacional que a humanidade conheceu nos últimos 70 anos tem de ser abandonado
É notório que as temáticas defendidas nos primórdios do movimento ambiental, e que continuam a ser pilares da sustentabilidade, encontram-se excessivamente em falta nos nossos dias. É preciso dizer que as mesmas caíram fora de moda porque o movimento ambiental deixou de querer apregoar teses profundamente politizadas, e a deixar claro que existem sempre trade-offs em todas as nossas escolhas.

É obviamente mais fácil transmitir uma mensagem que tudo ficará bem se eliminarmos os subsídios aos combustíveis fósseis, se fizermos as maiores empresas responsáveis pagarem por uma transição “verde”, e se todos começarmos a conduzir um Tesla e a obter a nossa eletricidade de fontes renováveis. Tudo isso é mais fácil do que é dizer às pessoas que o projeto civilizacional que a humanidade ergueu e que conheceu nos últimos 70 anos, é não só prejudicial para o meio natural, como é totalmente insustentável, pelo que tem de ser abandonado (seguramente de forma involuntária).

Concisamente, os ambientalistas modernos assimilaram uma narrativa de mudança, que está profundamente dependente de tecnologias que requerem a invasão e monopolização do meio natural para que possam ser proporcionadas a uma população que não para de aumentar, e que busca, naturalmente, um estilo de vida mais confortável e abastado. De forma a distanciar-se de verdades inconvenientes, este movimento moderno pactua com ficções de desenvolvimento e progresso intermináveis, menosprezando a realidade de que habitamos um astro circunscrito por limites biofísicos.

Porém, para aqueles que decretam que a sua lealdade está para com o meio natural, este caminho só poderá resultar num cerco que não será levantado, independentemente de quantos painéis solares e eólicas forem instaladas. Aqueles que buscam uma educação ecológica olham para as vozes do passado e não desprezam as suas perceções da realidade, por mais deslocadas que estas estejam das inclinações sociopolíticas da época. Se as ignorarmos acabaremos seguramente mais sós, num mundo repleto de cicatrizes, cravadas justamente pelas nossas próprias mãos.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Cidades-esponja. O que são e como podem ser resposta às cheias e secas em meio urbano

Parque Urbano da Várzea, Setúbal

Enquanto ainda se fazem contas ao prejuízo causado pelas duas vagas de cheias que afetaram várias zonas do país, com a Área Metropolitana de Lisboa à cabeça, há uma certeza de que ninguém duvida: o cenário de catástrofe provocado por fenómenos climáticos extremos vai repetir-se. E, apontam os especialistas, com uma intensidade e frequência cada vez maiores. Importa, por isso, alterar o comportamento reativo para uma atitude progressivamente mais preventiva. "Estamos num processo de perdas pós-enchentes, somos reativos. Há uma crise e reagimos, não fazemos planeamento", lamenta José Carlos Ferreira, doutorado em Ambiente e Sustentabilidade.

Ultrapassadas as dificuldades do momento, o professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-Nova) afirma que facilmente "nos esquecemos que estes fenómenos existem e que se estão a intensificar".

Responsável pela coordenação dos temas relacionados com a água na Associação Natureza Portugal (ANP/WWF), Ruben Rocha concorda com a ideia de que, ao nível da sociedade e dos decisores políticos, falta "capacidade de resposta a longo prazo", o que alimenta a continuação de um ciclo de eventos climáticos extremos, como os incêndios, a seca ou as chuvas intensas. "Falaremos novamente de seca quando começarmos a chegar a níveis muito baixos de água nas barragens", critica, enquanto pede uma mudança de paradigma no que à prevenção diz respeito.

Situações de inundações como as vividas nas últimas duas semanas "não são completamente novas", diz Pedro Nunes, que defende que "não podemos justificar tudo com base nas alterações climáticas". O ambientalista da Associação ZERO fala na necessidade de adotar uma visão holística dos desafios climáticos, que obrigam à implementação de políticas públicas desde o ordenamento do território à adaptação das infraestruturas urbanas para que se tornem mais resilientes.

Um dos fatores a considerar passa por incentivar uma ocupação mais equilibrada do país, revertendo os números anunciados pelo Censos 2021. De acordo com os dados definitivos divulgados em novembro, 20% da população portuguesa concentra-se em apenas 1,1% do território, sobretudo na zona litoral. "Isso acaba por ser um fator que contribui para que estas situações sejam mais graves, porque são, normalmente, zonas urbanas mais impermeabilizadas", justifica Pedro Nunes.

Os efeitos das alterações climáticas, que vêm agravar a intensidade e frequência de eventos extremos, não são facilmente reversíveis. Esses impactos podem ser mitigados através da descarbonização, mas os resultados só serão visíveis a longo prazo. "Mesmo que transformássemos a nossa vida de um dia para o outro, os efeitos continuariam cá. Mais do que mitigar, é preciso adaptar. Porque ou nos adaptamos ou sofremos", reforça João Carlos Ferreira.

O coordenador do mestrado em Urbanismo Sustentável e Ordenamento do Território da FCT-Nova acredita que a resposta está na alteração do modelo de desenvolvimento das cidades e na concretização de soluções que "transformem o território, ocupando-o de forma ecológica". Este caminho passa, sobretudo, pela alteração dos planos diretores municipais (PDM), para que evitem a construção em zonas de perigo, como em leito de cheias, mas também que integrem estratégias relacionadas com o conceito de cidade-esponja.

O termo foi cunhado pelo arquiteto paisagista e urbanista chinês Kongjian Yu e refere-se, essencialmente, a cidades ambientalmente adaptáveis que apostam em planos de gestão integrada da água. As soluções adotadas variam consoante a realidade hidrográfica das zonas urbanas e a sua configuração, mas podem incluir pavimentos permeáveis, jardins biodiversos e edifícios com coberturas verdes. É uma forma de "incorporar, de forma plena e holística, o ciclo da água no ordenamento dos espaços urbanos", explica Rafael Marques Santos.

O professor e investigador da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa detalha que o urbanismo sustentável permite "intervenções cirúrgicas" em áreas com "grandes erros estruturais", sempre com o objetivo de reduzir os impactos, por exemplo, em cheias. Umas são mais fáceis, outras mais complexas e dispendiosas, como demolições pontuais em zonas particularmente perigosas.

"Não vamos conseguir retirar toda a urbanização de Alcântara ou de Algés", aponta. Mas a criação de elementos de contenção é uma opção, desde logo com bacias de retenção nos pontos mais altos das cidades que "atrasem" a chegada da água, a grande velocidade, às partes baixas. O essencial, esclarece, é "olhar de forma muito atenta para a água numa perspetiva de todo o ciclo" e implementar medidas que cumpram dois objetivos de uma só vez - prevenir os riscos de momentos em que existe água em excesso, assim como atenuar situações de seca.

"Os edifícios podem ter espaços de cisterna para acumulação de água que podem ser úteis", afiança. Se em tempo de chuva intensa os edifícios conseguem guardar alguma dessa água e evitar que seja escoada para a rua, noutros momentos esse recurso pode ser usado para regas, lavagens e outros fins.

O mesmo poderá ser feito em estruturas municipais e há bons exemplos de como isso pode ser feito. Em Roterdão, nos Países Baixos, a Waterplein Benthemplein Waterplein Benthemplein é uma praça de betão usada durante todo o ano para atividades de lazer dos habitantes, mas é pensada para que em época de chuva intensa possa inundar e evitar a sobrecarga dos sistemas de escoamento da cidade.

Outra ferramenta complementar é a criação de jardins alagáveis, biodiversos e compostos por plantas com capacidade de absorção da água. Estes locais podem inundar e continuar a servir como espaço de recreio, bem como ajudar a refrescar as cidades durante o verão - exemplo disso são cidades como Taizhou, na China, ou Nova Iorque, nos EUA.

Em Setúbal, refere João Carlos Ferreira, o Parque Urbano da Várzea foi "muito eficaz nestas cheias", apesar de aquela cidade piscatória ter tido 30% mais chuva do que Lisboa. "Foi todo redesenhado para ser uma grande bacia de retenção e não inundar a Baixa de Setúbal. Esteve no limite, mas está a funcionar e a cumprir o seu propósito", atesta.

Ambientalistas, arquitetos e urbanistas concordam ser preciso agir, revendo os planos de ordenamento, criando estruturas verdes e multiusos nas cidades, mas, acima de tudo, implementando estratégias de longo prazo diversas e adaptadas à realidade de cada local. "Estes momentos de crise também servem para as adaptações necessárias", remata Rafael Marques Santos.

domingo, 9 de outubro de 2022

As incríveis cidades-esponja previnem cheias, mas “não são uma panaceia”


A China está a fazer uma forte aposta nas cidades-esponjas para evitar inundações, mas há um limite para a capacidade de absorção de fortes chuvas que, com a crise climática, tendem a ficar mais intensas. Um artigo publicado quarta-feira, na revista científica WIREs Water, argumenta que não basta tornar as zonas urbanas mais porosas e verdes – é preciso também envolver as pessoas.

As cidades-esponja constituem um modelo alternativo de concepção urbanística que recorre a soluções naturais para prevenir, ou mitigar, os efeitos adversos de chuvas intensas. São zonas urbanas com pavimentos permeáveis, edifícios com fachadas e tectos ajardinados e, por fim, muitos espaços verdes, preferencialmente interligados, com capacidade de absorver, armazenar e purificar água em lagos e reservatórios.

“Existem limites para a quantidade de precipitação uma cidade-esponja pode absorver, portanto, é improvável que sejam uma panaceia para os problemas de inundação nas zonas urbanas. Nós argumentamos que medidas que envolvam a comunidade, de baixo para cima, constituem uma parte essencial da intervenção necessária para transformar cidades-esponja em cidades com resiliência à inundação”, lê-se no artigo.

Fonte: Público


quarta-feira, 14 de setembro de 2022

It’s Time to Make Cities More Rural

Fonte: Wired
Jennifer Busselot has had one hell of a summer harvest. On a 576-square-foot plot of land, she’s pulled up over 200 pounds of produce—cucumbers, peppers, tomatoes, and basil, among other goodies—and the growing season isn’t anywhere close to done. Despite that resounding success, Bousselot is no farmer; she’s a horticulturist at Colorado State University, and that plot of land is actually up in the sky. The garden, atop a building near the Denver Coliseum, was purpose-built for Bousselot’s brand of research in an up-and-coming scientific field: rooftop farming.

As more people pour into metropolises—urban populations are projected to double in the next three decades, according to the World Bank—scientists like Bousselot are investigating how designers and planners can ruralize cities, greening roofs, and empty lots. The concept is known as “rurbanization,” and it could have all kinds of knock-on benefits for ballooning populations, from beautifying blocks to producing food more locally. It dispenses with the “city versus country” binary and instead blends the two in deliberate, meaningful ways. “You don’t have to set this up as a dichotomy between urban and rural, really,” says Bousselot. “What we should probably focus on is resilience overall.”

“The rurbanization idea is: OK, if we mix this up a bit, maybe we can create benefits on both sides,” adds Jessica Davies, principal investigator of Lancaster University’s Rurban Revolution project, a scientific investigation of the concept. “So if we bring some of what we grow nearer to where we live, can we enhance our connection with food? Can we make food more accessible? Can we improve local ecosystems?”

Recent research has begun to provide data on how well urban agriculture actually works if you’re planning to, you know, eat. A review paper published last month by researchers working on the Rurban Revolution project surveyed previous studies and determined that on average, urban agricultural yields (including both outdoor and indoor growing operations) were on par or higher than those of typical farms. But certain crops, like lettuces, tubers, and cucumbers, had yields up to four times higher when grown in cities. A separate team of scientists in Australia looked at 13 urban community farms for a year and found their yields to be twice that of typical commercial vegetable farms.

The caveat, though, is that this productivity comes in part from intensive human labor. On a commercial farm, crops are usually grown one at a time and tended with specialized equipment—you can’t plant wheat and carrots in the same field because they’re harvested in totally different ways. Crops also have to be spaced out to make room for where the equipment drives, reducing the amount of land that’s actually producing food.

An urban farm, by contrast, can grow all kinds of crops packed closely together because they’re harvested by hand. That’s part of the reason why Bousselot’s tiny rooftop garden in Denver is so productive. That crop diversity also means you can harvest different plants at different times—tomatoes in August, pumpkins in October—so the supply of food is more broadly distributed. Even though Bousselot has already harvested over 200 pounds of food, she still has two months left to go.

That requires human labor instead of a machine. So while urban farming can have a higher yield than traditional agriculture, it’s not necessarily as efficient. “But that inefficiency could easily change,” says Robert McDougall, an agricultural scientist at the independent research company Cesar Australia, who led the Australia study. “The people I studied were people who carried out urban farming mostly for recreational purposes, and so weren’t really interested in working as efficiently as possible. And they weren’t necessarily using the most efficient sources of materials.”

Take water, for example. Cities are currently designed to be impervious to rain, quickly draining it off streets to keep roads and buildings from flooding. But some urban areas are now transitioning into “sponge cities,” designed to safely soak up rain and store it for later use. In Los Angeles, for instance, officials are experimenting with roadside green spaces, where water seeps underground and into storage tanks. Rurbanized cities of the future could tap into that water source to grow food, and the gardens themselves could act like sponges, collecting rainwater to prevent local flooding.

Better municipal composting programs could also provide urban farmers with mulch so they don’t have to rely on synthetic fertilizers, which are terrible for the environment. “Were the gardeners I studied more tapped into these various sources of materials that were available within the environment around them,” says McDougall, “they could have easily carried out their farming in a much more sustainable fashion.”

Urban farms attract a host of pollinators like bees, McDougall has found. These insects, along with other pollinators like birds, could help boost biodiversity.

Cities also need all the green spaces they can get to counter the “urban heat island effect,” or the tendency for the built environment to absorb more of the sun’s energy than parks and forests do. Temperatures in urban areas can be 20 degrees Fahrenheit hotter than surrounding rural ones, where the plentiful vegetation releases water vapor—cooling the area as the plants essentially sweat. Bringing more plant life into cities will help cool things off and save lives during extreme heat events.

Urban agriculture can help insulate individual cities against food shocks, like if a particular mass-produced crop fails—which is increasingly likely as climate change spawns longer, more intense droughts. “You depend less on globalized supply chains,” says environmental scientist Florian Payen, who authored that review paper on yields. (He’s now at Scotland’s Rural College, but did the research while at Lancaster University.) “And so you are maybe less vulnerable to all of the different things like we’ve seen with Covid, or with climate change, that can impact the supply chain.”

Urban agriculture should also, in theory, reduce some of the emissions associated with conventional farming, which uses carbon-spewing machinery and requires shipping food vast distances to customers. But there isn’t much data to back that up yet, Payen says.

“The evidence so far is not really conclusive as to whether producing in urban areas for urban dwellers actually is associated with a lower carbon footprint than rural production,” says Payen. “And that is really based on the fact that there are lots of different ways of producing the food, and lots of different modes of transportation.” Wheat production, for example, is highly mechanized and relies on massive harvesting vehicles. And different crops travel different distances to get to market.

Those calculations focus primarily on the emissions from heavy machinery and long-distance trucking and shipping. But Elizabeth Sawin, founder and director of the Multisolving Institute, which promotes interventions that fix multiple problems at once, sees adding farms as a way to subtract a different source of emissions: cars. “Don't underestimate how much of the square footage of our cities is devoted to the automobile, like highways or parking,” she says. “As we open up more space for living with things like public transportation and dense housing, that could become space for growing food.” Obliterating asphalt and planting seeds would transform cities from car-centric to people-centric systems.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Entenda como uma cidade-esponja é construída e como ela é capaz prevenir as enchentes decorrentes de eventos climáticos


Uma cidade-esponja é uma solução natural que usa a paisagem para reter a água da chuva, evitando enchentes e outros problemas resultantes da precipitação. Elas são comumente construídas em áreas urbanas com áreas naturais abundantes, como árvores, lagos e parques, que auxiliam na absorção da água.

O conceito de “cidade-esponja” foi popularizado em 2013 através da proposta do professor da Universidade de Arquitetura de Pequim e arquiteto chinês Kongjian Yu. A inspiração por trás do desenvolvimento dessas áreas deriva de estratégias internacionais de gestão integrada de águas urbanas, incluindo sistemas de drenagem sustentáveis e desenvolvimentos de baixo impacto.

Em 2015, o governo chinês lançou o The National Sponge City Pilot Program, apoiando 30 cidades chinesas e contribuindo para a redução dos riscos de inundação no país. Em todas as cidades, aproximadamente 56 mil quilómetros de vias verdes e cerca de 72 mil quilómetros quadrados de áreas verdes e parques foram construídos.

Segundo um relatório do Asian Development Bank, a implementação dessa solução resolveria os maiores problemas relacionados à água enfrentados em regiões urbanas do país: a escassez e excesso de água, a poluição e a água barrenta.

Por que as cidades-esponjas foram inventadas?

De acordo com um relatório do IPCC, cerca de 700 milhões de pessoas vivem em áreas de extrema precipitação. Assim, estima-se que a implementação de cidades-esponjas pode contribuir para o urbanismo sustentável, promovendo a resiliência e melhoria da habitabilidade dessas regiões.

Existem quatro problemas principais que as cidades-esponjas podem resolver: 
  • Menos água disponível nas áreas urbanas e periurbanas: através do desenvolvimento urbano, a maioria das cidades foi pavimentada — o que impediu a absorção natural de água do solo. A dificuldade de absorção dessas áreas impossibilita o abastecimento de aquedutos, criando a escassez da água.
  • Água poluída despejada em rios ou no mar: quando chove, muitas vezes as estações de tratamento de águas residuais não conseguem acomodar toda a água que os sistemas de drenagem transportam. Dessa forma, parte da água da chuva misturada com o esgoto é despejada sem tratamento nos rios, contribuindo para a poluição de corpos d’água.
  • Degradação de ecossistemas urbanos e áreas verdes: em decorrência da poluição, parte dos ecossistemas urbanos são afetados, contribuindo para a perda da biodiversidade.
  • Aumento da intensidade e frequência das inundações urbanas: uma das consequências das mudanças climáticas é o aumento de eventos climáticos extremos. À medida que a capacidade de absorção da superfície urbana diminui, o risco de inundações provocadas por tempestades aumenta.

Como são construídas?
Uma cidade-esponja possui espaços que promovem a absorção de água, diferentemente de áreas asfaltadas. Portanto, ela necessita de:
  • Espaços verdes abertos, como cursos de água, canais e lagoas;
  • Telhados verdes que podem reter água naturalmente;
  • Intervenções de design poroso, como a construção de “biovalas” e sistemas de biorretenção para deter o escoamento e permitir a infiltração de águas subterrâneas;
  • Poupança e reciclagem de água, incluindo a extensão da reciclagem de água.
No entanto, a adição de espaços verdes, implementação de parques urbanos, plantações de árvores e outras soluções naturais também podem contribuir para o poder de absorção das cidades. Ou seja, existe a possibilidade da adaptação de cidades já existentes à cidades-esponjas.

De fato, dados da Arup comprovaram que as formas naturais de absorver a água urbana são cerca de 50% mais acessíveis do que as soluções artificiais e 28% mais eficazes.

“Normalmente, em ambientes urbanos, você tem telhados, áreas pavimentadas e tudo isso cobre sujeira e vegetação que costumavam agir como uma esponja. Telhados verdes, jardins de chuva e outras intervenções podem ajudar a desacelerar a água e começar a desfazer esta alteração em grande escala no ciclo hidrológico”, disse Michael Kiparsky, diretor do Wheeler Water Institute da Universidade da Califórnia, Berkeley.

Características
As principais características de uma cidade-esponja incluem:
  • Ambientalmente adaptável
  • Sistemático e abrangente
  • Ambientalmente amigável
“Mais do que nunca, enfrentando as mudanças climáticas globais e as tecnologias industriais destrutivas, temos de repensar a forma como construímos as nossas cidades, a forma como tratamos a água e a natureza, e até mesmo a forma como definimos a civilização.”

“As cidades-esponjas são inspiradas na antiga sabedoria da agricultura e da gestão da água que utiliza ferramentas simples para transformar a superfície global em grande escala e de forma sustentável”, disse Yu ao portal Euronews.


Desafios da implementação de cidades-esponjas
Especialistas do Asian Development Bank identificaram três desafios principais para a implementação de cidades-esponjas. São eles: Baixa prioridade

Embora a agravação da crise climática e do aquecimento global, a prioridade dos governos locais se desvia do urbanismo sustentável cada vez mais. Em vez disso, boa parte dos investimentos na luta contra as mudanças climáticas é desviado para outras áreas.

Investimentos fragmentados e falta de sistematização em toda a cidade e implementação sistêmica

Uma cidade-esponja não pode ser a única arma na luta contra as enchentes decorrentes dos eventos climáticos. Isso é evidenciado através de algumas cidades pilotos do projeto, em que as inundações ocorreram como antes ou pioraram, deixando a percepção de que o conceito falhou.

Assim, é importante considerar que a cobertura da infraestrutura da cidade-esponja está longe de ser suficiente para reduzir significativamente o risco de inundações urbanas em uma cidade, destacando a necessidade de mais planejamentos sistemáticos. Falta de integração entre setores e departamentos:

O programa de implantação de cidades-esponjas não é capaz de superar a departamentalização de responsabilidades dos governos locais. Desse modo, a coordenação entre os departamentos de administração e especialistas é essencial para que o projeto funcione.

Fontes


segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Edifícios verdes modificam a paisagem urbana e melhoram a qualidade de vida

Adoção de medidas como redução no consumo de água e energia e instalação de áreas verdes contribuem para o bem-estar nas metrópoles

Texto e imagem aqui

Já parou para pensar que você passa boa parte do dia dentro de um lugar construído? Casa, trabalho, academia, restaurante, mercado. E, se mora nas cidades — como é o caso de 84,4% da população brasileira, segundo o IBGE — o espaço ao ar livre também é marcado pelos prédios, característica tradicional da paisagem urbana.

Investir na construção de edifícios verdes, ou na adequação de prédios antigos a novas práticas sustentáveis, é um dos caminhos para a criação de cidades que ofereçam mais bem-estar.

“Todo prédio vai trazer algum impacto. A questão é: como fazer isso de maneira não destrutiva, que traga valor para a cidade, crie espaços urbanos interessantes, e estimule o convívio?”, observa Milene Abla, vice-presidente e coordenadora do Grupo de Trabalho de Sustentabilidade da Asbea (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura).

Edificações verdes seguem parâmetros que variam conforme características dos projetos: podem ser para interiores, para novos edifícios, para reformas de prédios antigos. Padrões estabelecidos por órgãos do setor ou pelo poder público ajudam a organizar os critérios que definem um “edifício verde”. Entram aí itens como eficiência do uso da água e de energia, qualidade dos materiais utilizados na construção (como madeiras certificadas), qualidade interna do ar, conforto térmico, e localização e transporte próximo, por exemplo.

Uma construção verde pode ter ou não uma certificação. O processo é voluntário, isto é, a pessoa ou empresa responsável pelo prédio deve solicitar o selo e se adequar às diretrizes que ele estabelece. “Na prática, as certificações facilitam abordar a questão da sustentabilidade, porque estipulam padrões, criam um processo, e também são uma validação dessas práticas para o prédio que as adota”, explica Milene.

Brasil: no ranking mundial dos prédios sustentáveis
No Brasil, uma das principais certificações para prédios verdes é a LEED (Leadership in Energy and Environmental Design, em português “Liderança em Energia e Design Ambiental”). O selo é conferido pela organização norte-americana Green Building Council (GBC), que tem uma representante aqui no país, a GBC Brasil.

Atualmente, o Brasil é o 4º país no ranking mundial de edificações certificadas com a LEED, presente em 167 países. Há no Brasil 1.302 projetos registados. Destes, 489 certificados como construções verdes. O restante ainda passa pelas etapas de verificação para obter o selo.

Um dos exemplos é o prédio do Banco Central em Salvador. A nova sede buscou seguir os padrões da certificação internacional LEED. Foram adotadas medidas como utilização de energia solar, captação e uso de água pluvial em jardins e banheiros (vasos e mictórios), uso exclusivo de lâmpadas fluorescentes de alto rendimento, e sistema de refrigeração eficiente. “Com essas ações, espera-se que o custo de energia seja reduzido em 26,5%, e o consumo de água em 79,2%”, observa a arquiteta e engenheira civil Patricia Vasconcellos, do Creato, escritório responsável pelo processo de certificação.

O impacto positivo das construções sustentáveis pode ser observado pela capacidade do prédio de influenciar parte do seu entorno. Uma das possibilidades é o controle da quantidade de água da chuva que cai no terreno. Ao investir em áreas verdes permeáveis, por exemplo, com gramados, o prédio auxilia a rede pública de escoamento, e ajuda a evitar enchentes na região. Um segundo impacto é a redução na poluição luminosa. Ao iluminar a fachada de maneira planejada, o prédio pode evitar o desconforto visual dos vizinhos, por exemplo.

Além disso, há redução no consumo de água e energia. Segundo a GBC Brasil, isso representa de 20% a 25% no uso de energia e cerca de 40% quando se trata da água. “Se você pensar nas dificuldades causadas pela crise hídrica, por exemplo, a gente vê o quanto as edificações podem colaborar com o conjunto do espaço urbano. Você consegue fazer reduções de gastos que fazem sentido para a cidade”, observa o diretor-executivo do GBC Brasil, Felipe Faria.

Áreas verdes
Além de ajudar a escoar a água da chuva, a presença de vegetação também cria espaços de respiro nas construções e nas cidades. São alternativas para evitar o efeito “ilha de calor”, comum nas grandes cidades. Nas áreas construídas, há um aumento do calor provocado pelo concreto. “Incentivar a implementação de áreas verdes de diferentes formas, seja em tetos verdes ou em paredes verdes, diminui essa retenção de calor”, explica Milene Abla.

Outro ponto importante é a recuperação de uma biodiversidade natural. Utilizar plantas nativas, adaptadas ao local, ajuda a retomar o ecosssistema da região. Uma planta exótica não tem o mesmo efeito. “Uma planta exótica pode se tornar um jardim morto, porque nenhum pássaro da região vai pousar ali, por exemplo. Se uma ave que está cruzando São Paulo para ir até a Serra da Cantareira percebe uma planta nativa, ela para. Então temos a retomada do bioma”, observa Felipe Faria.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Assim têm de ser as escolas no século XXI


A educação dos nossos filhos deve ser uma componente importante do seu desenvolvimento que temos de valorizar. No momento de pensar no modelo de educação mais apropriado há que ter em conta a influência da zona envolvente que o rodeia. Há escolas que romperam com o ensino tradicional e exploraram também a alteração do design dos espaços educativos.

Como são as escolas do século XXI? Esta é uma pergunta de resposta difícil, mas numa era em que a educação “navega” por lugares nunca antes explorados, e sabendo que muitas crianças podem aceder pela primeira vez ao ensino escolar, há a ideia de que se está a tentar acabar com o sistema clássico de um ensino rígido e unidirecional. Isto para dizer que a arquitetura também ajuda ao desenvolvimento da educação com a criação de projetos com design de novas escolas.

Nesta reportagem mostramos alguns exemplos de como podem vir a ser as escolas do século XXI; amplas, arejadas, alunos não abrigados em salas de aula e luminosas… com muito espaço para que os jovens estudantes expressem as suas emoções e estimulem o seu desejo de aprender.

sábado, 4 de março de 2017

TED- TALKS - Edifícios que harmonizam a natureza com a Cidade


Um arranha-céus que canaliza a brisa... um edifício que cria comunidade à volta da lareira... Jeanne Gang usa a arquitetura para construir relações. Neste comprometida viagem pelo seu trabalho, Gang convida-nos a entrar em grandes e pequenos edifícios, desde um surpreendente centro comunitário local a um emblemático arranha-céus de Chicago. "Através da arquitetura, podemos fazer muito mais do que criar edifícios", diz ela. "Podemos ajudar a estabilizar este planeta que todos partilhamos."


Architect
With an eye for nature’s forms and lessons learned from its materials, Jeanne Gang creates iconic environments that stand in curvy relief to blocky urban cityscapes. Full bio

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Paris permite por lei que qualquer cidadão cultive comida sã e sustentável em qualquer lugar da cidade

Telhado verde em Paris. Fonte: Muhimu
Foi no mês de Abril de 2015 quando a Câmara de Paris anunciou a implementação de uma nova economia circular com o objetivo de proteger os jardins e promover o desenvolvimento de ações ecológicas na cidade.

O objectivo era fomentar um ecossistema em que nada se perde e tudo se transforma e dar um passo para acabar com a imagem das cidades como uma devoradora de recursos. Pretendia-se promover o eco-design (produtos cujo ciclo de vida tem o menor impacto ambiental), a ecologia industrial (que os resíduos de uma empresa fossem uma fonte de outros) e a economia da funcionalidade (a proposta é aliar inovação e desenvolvimento sustentável, oferecendo serviços como valor agregado ao produto e trabalhando o conceito de utilização em vez de posse ).

Entre outros temas a autarquia disponibilizou oito milhões de euros para promover a agricultura urbana.

Assim, a Câmara Municipal de Paris aprovou, a 1 de Julho uma medida tanto inédita como revolucionária. Qualquer cidadão da capital francesa pode verdejar a sua localidade e produzir alimentos em qualquer ponto da cidade, seja em casa, no escritório, nos jardins públicos, nas paredes, nos telhados ou nas jardineiras de árvores na rua. Trata-se de introduzir mais verde na cidade e promover a cultura de hortas urbanas em toda a capital.

O governo da cidade francesa vai permitir que qualquer cidadão se torne num jardineiro, mas define uma série de condições: eles devem usar métodos sustentáveis, evitando o uso de pesticidas tóxicos e promover a biodiversidade na cidade.

É ainda necessária uma licença da Câmara Municipal- que demora cerca de um mês a analisar e ser aprovado- em que o cidadão se compromete manter adequadamente os seus jardins urbanos e garantir que a vegetação melhora a estética da cidade.
Jardim agrícola partilhado. Fonte: Invité du Jour

Depois de aprovado o governo local em Paris emite licenças por três anos com opção de renovação. Em troca, o governo local irá proporcionar-lhes um "kit de sementes" com sementes e solo.

Esta medida visa melhorar a qualidade de vida dos cidadãos parisienses, dando liberdade aos seus "jardineiros" e permitir-lhes voar a sua imaginação, para que eles possam ser criativos nas suas práticas ,reforçando a coesão social e transformar Paris numa cidade mais verde e habitável.

Tradução a partir de Muhimu

terça-feira, 31 de março de 2015

Há uma estufa de biovivos no telhado do ginásio mais chique de Lisboa

Lembra-se do designer agricultor de que a VISÃO Sete falou a propósito da iniciativa Sangue na Guelra? Foi, em parte, graças à passagem por este festival que João Henriques, 30 anos, deixou de ser considerado um "louco" (é o próprio que diz) e que as suas ideias sobre agricultura biológica começaram a ser levadas a sério.

A vida nem sempre foi fácil para este professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, desenhador, construtor e acima de tudo inventor de jardins verticais, hortas domésticas e estufas urbanas: enviou mais de uma centena de pedidos e apenas um "sim" lhe chegou, o do ginásio Clube VII, no Parque Eduardo VII, em Lisboa, onde está, agora, a cultivar os seus superalimentos biológicos (ou melhor, os seus biovivos), produzidos localmente e entregues em bicicleta elétrica.

O primeiro dia deu para estender a lona da estufa, que ocupará 18 metros quadrados e da qual espera retirar todos os meses cerca de 2 160 mini tabuleiros. Seguirão depois para a cafetaria do Clube VII e para quem os quiser comprar (João Henriques faz entregas, de bicicleta elétrica, num raio de 5 quilómetros).

Cultivará biovivos de ervilha (possui três vezes mais vitamina C do que a laranja e só tem 18 calorias/100 gramas), de girassol (com mais antioxidantes do que os frutos vermelhos) e de erva trigo (utilizada na confeção de shots e sumos Detox). João Henriques destaca a versatilidade destes produtos (que levam, em média, duas a quatro semanas a ser cultivados) bem como o seu baixo custo (um quinto do preço dos microlegumes tradicionais). Com este projeto, espera vir a ter a primeira estufa de telhado biocertificada da Europa. Outra horta irá, em breve, nascer no cimo do Parque Holanda, em Carnaxide. Perdão, outra estufa.

Onde comer e comprar

Por ora, em Lisboa, é possível comer os legumes de João Henriques nos restaurantes Jardim dos Sentidos, 1300 Taberna, FoodTemple e na loja Liquid. A partir de maio, também vão estar à venda nos supermercados Brio

Fonte: Visão

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Legumes em formato "mini" podem chegar em breve aos telhados de Lisboa



Produzir legumes biológicos com o menor impacto possível no meio ambiente é o projeto do designer industrial João Rodrigues, que propõe instalar micro-estufas nos telhados de Lisboa. Os produtos serão para consumo dos habitantes do próprio prédio. 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

ArquitecturArte-Natural- Anche un misero arboscello


Feliz Dia da Terra

Anche un misero arboscello
di più grandi eccelse piante
par men bello
perché frondi in sen non ha.

Pur fecondo più di quelle,
che a noi sembrano sì belle,
suo vigor crescendo va.

Este vídeo apresenta paredes, interiores e telhados vivos, bem como três imagens finais ligados ao tema do vídeo. Incluído na montagem do vídeo: The Musée du quai Branly, Paris .Semiahmoo Library em Surrey, British Columbia .Jeff Koons' "Puppy", Guggenheim , Bilbao. .Edgware Road Tube stop, Londres .Athenaeum Hotel, Londres .Beijing National Stadium (also known as the "Bird's Nest") .Piano Violin House, Huainan, China .Traditional sod roofs, typical of the Faroe Islands . Museu Caixa Forum, Madrid .Nanyang Technical University, Singapura

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Por falar em calor: ilhas de calor urbano

Foto: Nuno Mamede Santos

Ilha de calor (ou ICU, ilha de calor urbana) é a designação dada à distribuição espacial e temporal do campo de temperatura sobre a cidade que apresenta um máximo, definindo uma distribuição de isotérmicas que faz lembrar as curvas de nível da topografia de uma ilha, daí a origem do nome ilha de calor. Há um contraste térmico entre a área mais urbanizada e menos urbanizada ou periférica, que inclusive pode ser área agrícola. Alterações da humidade do ar, da precipitação e do vento também estão associadas à presença de ilha de calor urbana. Em geral, nas cidades de latitudes médias e altas (onde o clima é mais frio) forma-se durante a noite, em associação com o estabelecimento de uma circulação tridimensional na camada limite urbana (CLU) cujo ramo inferior ocorre na forma de um fraco escoamento centrípeto chamado brisa urbana, com intensidade da ordem de 1 a 3 km/h. A origem das ilhas de calor deve-se simplesmente à presença de edificações e das alterações da paisagem feitas pelo homem nas cidades. A superfície urbana apresenta particularidades em relação à menor capacidade térmica e densidade dos materiais utilizados nas construções urbanas: asfalto, concreto, telhas, solo exposto, presença de vegetação nos parques, ruas, avenidas e também, alterações do albedo (reflexão das ondas curtas solares) devido às sombras projectadas das construções e à impermeabilização da superfície do solo que implica aumento da velocidade do escoamento superficial da água de chuva e maior risco de cheias das zonas baixas das cidades, várzeas etc.

O efeito de ilha de calor nos países de latitudes médias (frios ou temperados) é mais marcado no período nocturno, e a sua intensidade é função não linear da população urbana.

Mais Informação: