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terça-feira, 21 de julho de 2026

Dave Eggers - "O ChatGPT está a silenciar uma geração inteira"


O CEO da OpenAI, Sam Altman, convidou o escritor e jornalista norte-americano, Dave Eggers, a falar perante os funcionários da empresa e, fiel ao que tem sido o seu percurso, o autor não perdeu a oportunidade para tecer duras críticas à Intenligência Artificial enquanto tecnologia.

Eggers, conhecido sobretudo pelo romance “The Circle” de 2013 onde faz críticas à indústria tecnologia, declarou que os textos gerados pelo ChatGPT, o resultado é uma “colagem sem sentido” - argumentando que ninguém terá interesse em ler livros criados com Inteligência Artificial.

Contou Eggers ao Financial Times que estas críticas levaram Altman a convidá-lo para uma pequena palestra na OpenAI, uma oportunidade que aproveitou para afirmar que a Inteligência Artificial seria devastadora para toda uma geração de jovens.

“O efeito que o ChatGPT está a ter na vida dos educadores é catastrófico”, declarou Eggers. “Intencional ou não, tornaram a vida de todos os professores infinitamente mais difícil do que era há dois anos. Pensem nisso.Se os estudantes estão a usar [o ChatGPT] para escreverem, que é uma grande tragédia, nunca aprenderão a escrever. E a voz ser-lhes-á roubada. Nunca terão a capacidade para comunicarem as suas verdades e contarem as suas próprias histórias. E isso é silenciar uma ou duas gerações inteiras”.

A afirmação de Eggers deve ser classificada como um aviso preventivo contra a dependência cognitiva.

Ele não está necessariamente a prever o fim da civilização, mas sim a questionar se estamos dispostos a trocar a dificuldade (e a beleza) do pensamento humano pela conveniência (e esterilidade) da resposta algorítmica. É uma crítica que serve de "freio" necessário num momento de euforia tecnológica desmedida, lembrando-nos de que a tecnologia, se mal utilizada, pode tornar-nos espectadores, em vez de criadores.

Para além de Dave Eggers, o debate contemporâneo sobre os impactos profundos da Inteligência Artificial conta com vozes influentes que abordam o tema sob prismas filosóficos, sociais e científicos. O historiador Yuval Noah Harari, por exemplo, foca-se no perigo existencial da perda de agência cultural, argumentando que a IA é a primeira tecnologia da história capaz de criar conceitos, narrativas e arte de forma totalmente autónoma. Para Harari, ao dominar a linguagem, a tecnologia adquire a capacidade de "hackear" o sistema operativo da própria civilização, o que pode resultar na manipulação em massa e no colapso da confiança nas instituições democráticas. Numa linha de pensamento focada na natureza da mente e do conhecimento, o linguista Noam Chomsky adota uma postura cética quanto à suposta inteligência destes sistemas, classificando a IA generativa como uma forma de plágio de alta tecnologia. Chomsky defende que os modelos de linguagem funcionam apenas com base em correlações estatísticas e probabilidades, carecendo de uma compreensão real sobre a moralidade, a verdade ou as relações de causa e efeito, o que os afasta irremediavelmente da verdadeira capacidade de pensamento crítico e criatividade do ser humano.

Noutro espectro da crítica encontram-se os cientistas que ajudaram a construir as bases desta revolução tecnológica e que hoje manifestam profundos arrependimentos. Geoffrey Hinton, frequentemente apelidado de um dos padrinhos da IA devido ao seu trabalho pioneiro em redes neuronais, demitiu-se do seu cargo na Google para poder alertar o mundo livremente sobre os riscos iminentes da tecnologia. Hinton manifesta um temor genuíno de que a inteligência digital ultrapasse a biológica muito mais cedo do que a comunidade científica previa, criando cenários propícios para a disseminação descontrolada de desinformação e para o desenvolvimento de armas autónomas letais. Alinhado no ceticismo tecnológico, o pioneiro da realidade virtual Jaron Lanier critica a própria designação de Inteligência Artificial, considerando-a um mito comercial perigoso que mascara a realidade. Para Lanier, estes sistemas são, na verdade, ferramentas de colaboração social massiva que extraem e reconfiguram o trabalho de milhões de criadores humanos reais, alertando que a humanização das máquinas resulta inevitavelmente na desvalorização do esforço e da singularidade das pessoas.

Por fim, as correntes focadas na justiça social e na ética prática expõem os danos imediatos e palpáveis que a IA já está a causar no quotidiano. A investigadora Timnit Gebru, antiga líder da equipa de ética da Google, cunhou o termo papagaios estocásticos para descrever os grandes modelos de linguagem, demonstrando que estes sistemas se limitam a repetir padrões linguísticos de forma mecânica e sem consciência. Gebru e os seus pares alertam para o facto de estes modelos refletirem, amplificarem e perpetuarem os preconceitos raciais, de género e de classe já presentes nos dados históricos da internet, servindo os interesses financeiros de grandes monopólios tecnológicos enquanto prejudicam as populações marginalizadas. Assim, quer seja através do medo da obsolescência cognitiva partilhado por Eggers e Chomsky, do alarmismo existencial de Hinton e Harari, ou da denúncia política de Gebru e Lanier, o pensamento crítico atual converge na ideia de que a IA exige uma regulação urgente e uma reflexão profunda sobre os limites que a humanidade deve impor às suas próprias criações.

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sábado, 30 de maio de 2026

O adeus a Edgar Morin. 104 a resistir, pensador global, herdeiro do iluminismo

Quando em 2001 lhe perguntaram, à beira da celebração dos 100 anos de vida, onde é que ele ia buscar a transbordante vitalidade, Edgar Morin respondeu: ”É porque consigo ser ao mesmo tempo infantil, juvenil e velho. Admito que mais ou menos adulto, mas não muito.” 

Edgar Morin, um dos últimos mestres do pensamento da cultura contemporânea, sociólogo, filósofo, antropólogo e epistemólogo, morreu a pouco mais de um mês de em 8 de julho chegar aos 105 anos de vida (n.1921, em Paris).

Morin, sempre luminoso e generoso (veio muitas vezes a Portugal, arranjava sempre tempo para quem queria conversar com ele), é um dos últimos herdeiros do Iluminismo. Com mais de 100 livros publicados, continuou até ao fim da longa vida a intervir e a a posicionar-se em muitos dos debates dos nosso tempo (sobre ecologia, sempre sobre a educação, também  questões sensíveis como as caricaturas de Maomé ou a política de colonização israelita, de que era muito crítico). Edgar Morin também ousou imaginar o futuro e interrogar as incertezas do tempo pela frente. Ele gostava de repetir que, do ponto de vista da evolução do pensamento, “ainda estamos na pré-história.”

Ao pensarmos em Edgar Morin pensamos sempre em humanismo. Admirado pelo espírito corajoso e livre, fez da dúvida e da autocrítica ferramentas indispensáveis ​​para a reflexão orientada para enfrentar e entender as metamorfoses e a complexidade do mundo contemporâneo.

Em toda a vida foi um e resistente aos esquematismos ideológicos e aos guetos disciplinares, combateu as arrogâncias, aliou o gosto pela reflexão à relevância da observação, com abordagem interdisciplinar orientada para a concretização da ecologia de ideias que, a par da centralidade da ética, considerava indispensável para chegarmos a uma sociedade mais justa. Para Morin, o trabalho intelectual só faz sentido se resultar em propostas políticas realistas e exequíveis. E, nesta perspetiva, embora consciente dos muitos riscos que o planeta enfrenta, acreditava que os períodos de crise como o tempo de agora são, ainda assim, ricos em potencial, desde que “a civilização ocidental renuncie à obstinada busca de uma ideia de progresso baseada exclusivamente na fé cega no poder da tecnologia e da economia".

Nascido em Paris numa família judaica sefardita, Edgar Nahoum participou ativamente na resistência anti-nazi no início da década de 1940, adotando então pela primeira vez o pseudónimo Morin, que manteria durante toda a sua vida. Após a guerra, frequentou regularmente os meios intelectuais, foi próximo de Marguerite Duras.

Logo a seguir ao final da II Grande Guerra, Morin, oficial da Resistência francesa, foi mobilizado para a Alemanha ocupada. Tinha 24 anos, publicou L’an zéro de l’Allemagne (1946), em que corajosamente propõs a superação do rancor, com aposta na reconciliação franco-alemã. Foi o primeiro título de uma notável bibliografia que, no final da sua vida, contaria com mais de 100 livros. La Méthode, monumental e fundamental obra sociológica e filosófica, foi publicada em seis tomos, ao longo de 17 anos, de 1977 a 2004.

Em Autocritique (1959),Morin relata como foi expulso do Partido Comunista Francês (PCF), de que fora figura de relevo, e reconhece a “cegueira inicial em relação ao estalinismo” que viria a criticar veementemente. Tornou-se também um dos fundadores do comité de intelectuais contra a Guerra da Argélia.

No tempo final de vida, Morin lastimou recorrentemente o estado sombrio do mundo. Quis intervir ativamente em censura à invasão russa da Ucrânia. Publicou um último ensaio,  De guerre en guerre: de 1940 à l’Ukraine (De guerra em guerra: de 1940 à Ucrania). Assentou então: “Estamos a assistir à escalada da desumanidade e ao colapso da humanidade, à escalada do pensamento simplista e ao colapso da complexidade. E, acima de tudo, à escalada para uma guerra mundial que representa o mergulho da humanidade no abismo.” 

No livro de memórias, Les souvenirs viennent à ma rencontre (As Lembranças vêm ao meu encontro), publicado em 2019, quando tinha 97 anos, prenunciou o fim que chegou neste final de 2026 “Eu também partirei para a terra onde cresce a flor de laranjeira.”

Morin resistiu sempre. Contra o populismo, contra o totalitarismo, contra o nacionalismo, contra a violência, contra as ofensas ao ambiente,  contra a desigualdade, contra o ódio, contra a estupidez, contra tudo o que divide e separa. Nunca desistiu, nunca se rendeu.

Morin argumentou ferozmente contra o «reducionismo» — o hábito de dividir os problemas em caixas isoladas e unidisciplinares. Em vez disso, acreditava que os maiores desafios do mundo estão fundamentalmente interligados.

Conceitos-chave que deixa como legado
O trabalho de Morin deu-nos lentes totalmente novas para olhar para as crises modernas:
  1. A Policrise: um termo que co-pioneou para descrever como as crises ambientais, económicas, sociais e políticas não acontecem de forma isolada. Pelo contrário, alimentam-se e amplificam-se mutuamente de forma dinâmica.
  2. O Princípio hologramático: a ideia de que, tal como num holograma, a parte está no todo, mas o todo também está embutido na parte (por exemplo, um indivíduo carrega em si toda a cultura da sua sociedade).
  3. Religação (Reliance): a capacidade humana de construir e sustentar laços significativos, que ele defendeu como a nossa ferramenta máxima de solidariedade num mundo profundamente fragmentado.
«Enquanto for possuído pelas forças da vida, o espetro da morte recua.» — Edgar Morin

Era, como em França gostam de classificar, um maître à penser. O presidente Macron foi certeiro no primeiro comentário ao fim da vida de Edgar Morin: “era o Humanismo feito pessoa.”

Saber mais:

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Os sentimentos homeostáticos são os heróis silenciosos que deram “coragem” a António Damásio a publicar o seu novo livro



Os livros do neurocientista António Damásio nem sempre são feitos de páginas de fácil compreensão para o leitor, nada que não seja normal quando os temas de que tratam são do domínio de apenas uma ínfima minoria de especialistas em todo o mundo. No entanto, no seu mais recente ensaio, A Inteligência Natural & a Lógica da Consciência, há uma tentativa de seduzir o maior número de leitores para que estes caminhem junto dele e compreendam os desenvolvimentos que tem vindo a acrescentar à sua teoria sobre a consciência. Daí que desde o princípio do livro escreva: “É importante explicar aos leitores aquilo sobre o qual se pretende escrever”.

A justificação para Damásio ter este comportamento vem expresso logo de seguida: “O meu objetivo principal será explicar como se fabrica a consciência”. Adianta que para explicar a sua perspetiva sobre “como a natureza fez o seu trabalho”, precisa de “apresentar a ideia que tenho daquilo em que consiste a consciência”. Antes de continuar faz um alerta: “A maior parte das ideias que defendo neste livro assenta em dados científicos comprovados, alguns bens recentes, mas incluo também teorias e hipóteses que ainda não foram testadas”. Se o leitor ainda desconhecia o que poderia passar-se se aceitasse o convite do autor para a leitura deste ensaio, rapidamente entenderia o que estava em causa ao ler o que escreve um pouco mais à frente, sob o título O plano: “No início introduzimos o problema da consciência no contexto da Inteligência Natural. A reflexão filosófica é completada por descobertas nos campos da biologia geral, da neurologia clínica e da neurociência. O texto apresenta as minhas respostas a duas questões principais: como se fabrica a consciência e como é que a consciência afeta aqueles que a têm”.

Seis meses após lançar a edição portuguesa de A Inteligência Natural e a menos de cinco meses de ser editada a versão mundial em inglês (Natural Intelligence & the Logic of Consciousness), António Damásio não deixa de confessar que além do leitor tradicional este trabalho tem outros destinatários: “Quero fornecer a colegas por quem tenho apreço e que até podem ter entendimentos diferentes dos meus qual é a minha ideia sobre esta questão.” Considera que o livro poderá ser o melhor veículo pois “a comunicação de ideias é muitas vezes difícil quando é feita através de um artigo científico que tem um limite de páginas”.

Além de avisar o leitor sobre este duplo objetivo do livro, o estratagema que Damásio utiliza para encaminhar o leitor resume-se a uma frase de apenas nove palavras, em que é capaz de antecipar e aguçar a atenção para a revelação que vai dominar o ensaio: “Os sentimentos homeostáticos são os heróis silenciosos deste livro”. Acrescenta: “É esse o ponto que quero realçar neste livro e também dar ao leitor a ideia de que não só se pode ter a compreensão daquilo que é a consciência, como se está perante um primeiro vislumbrar da forma como a consciência pode ser construída através de sentimentos homeostáticos. Estes são verdadeiramente um avanço e é isso que quero deixar bem vincado”. Conclui: “Não é só um novo livro, não é só uma reflexão sobre aquilo que é o sistema nervoso, a vida e a consciência, mas antes uma reflexão e uma proposta muito concreta sobre a forma como tudo isto pode ser construído e realizado por seres vivos”.

Tal como no livro vai expondo gradualmente as descobertas, também nesta conversa as suas afirmações seguem os mesmos passos. É então que se ouve: “Hoje sou capaz de explicar como os sentimentos homeostáticos surgiram no nosso organismo”. Há logo uma necessidade de se esclarecer uma situação: é uma descoberta mais recente ou já a vinha cimentando? O cientista faz uma segunda confissão: “A coragem de explicar e descrever este novo estado de coisas é recente, no entanto alguns dos conhecimentos que levaram a essa coragem para o revelar já têm alguns anos. Por isso, podia descrever as conclusões deste livro da seguinte maneira: finalmente, tive a coragem de explicar e defender um mecanismo que há algum tempo tenho estado a investigar e a acumular os dados que permitam ter a noção de como tudo isto é construído e de como se chega ao sentimento homeostático e à consciência.”

É essa a razão, pergunta-se a António Damásio, pela qual a questão dos sentimentos homeostáticos domina a maior parte deste novo livro. Responde afirmativamente: “Sim. Dominam o livro não só por aquilo que os sentimentos homeostáticos são capazes de introduzir na vida humana, mas pela maneira como são absolutamente necessários para essa vida e para que haja uma regulação dessa vida. Também pelas consequências que esses sentimentos homeostáticos têm para a vida de uma forma mais ampla, até do ponto de vista cultural.”

Mas Damásio tem mais para anunciar sobre o assunto em causa, que tem vindo a adiantar no último ano em artigos em revistas científicas e avançava em parte no anterior livro, Sentir & Saber (2020): “Não se pode ignorar uma 'novidade' que está neste livro e que é muito importante para a minha investigação: a de que não só digo que a consciência provém dos sentimentos homeostáticos como tenho uma solução para explicar a forma como esses sentimentos homeostáticos se desenvolveram. Afinal, embora venha a afirmar desde há muito tempo que os sentimentos homeostáticos são uma raiz da consciência, só neste livro e nos trabalhos mais recentes é que encontrei e descrevo uma solução para explicar como esses sentimentos homeostáticos são construídos. Ou seja, é uma situação extremamente importante, o que faz com que este novo livro não só deixe bem registada a importância dos sentimentos homeostáticos, como seja capaz de explicar a forma como esses sentimentos homeostáticos podem ser criados em seres como nós, seres vivos e humanos.”

Após esta explicação, Damásio remata assim: “Isto é novo cientificamente e é muito importante”. Faz questão de acrescentar uma nota: “Há quem após uma leitura superficial deste livro possa dizer que esta será apenas mais uma afirmação que António Damásio está a fazer, até que já o disse anteriormente - de que os sentimentos homeostáticos têm um papel na consciência -, contudo, a importância deste livro é estar a propor a existência de um mecanismo que permite aos seres vivos criar consciência através desses sentimentos homeostáticos.”

Um componente moderno
O que pode António Damásio explicar sobre esse mecanismo é a interrogação que se segue e a que o neurocientista responde, com todos os detalhes possíveis usando como exemplo a conversa transatlântica em curso sobre este seu novo livro: “Este mecanismo tem como base o facto de termos no nosso sistema nervoso dois componentes extraordinariamente importantes e muito distintos. Um é um componente moderno, do ponto de vista da evolução, e é aquele que permite que duas pessoas possam ter um diálogo via Internet devido às enormes capacidades cognitivas que possuímos e que nos conferem uma capacidade de ter perceção daquilo que se escuta enquanto convivemos com o que se está a passar à nossa volta; também de pensar sobre o que estamos a ver e a ouvir, a que acresce a nossa capacidade de transformar tudo isso em linguagem - pode-se dar o exemplo desta entrevista telefónica. Vamos ao segundo componente, aquele que permite toda esta maravilha: é um sistema nervoso em que as células nervosas são mielinizadas, ou seja, células nervosas modernas do ponto de vista evolucionário, que estão rodeadas de mielina e por isso funcionam como cabos elétricos em que não se perde corrente desde o princípio do corpo celular até à sinapse. Esses sentimentos permitem uma ligação (resonation) aos nossos afetos e são produzidos por neurónios completamente diferentes. Neurónios que, do ponto de vista evolutivo, são muito mais velhos, muito mais do princípio do desenvolvimento dos sistemas nervosos, e em que os axónios em vez de terem mielina e estarem isolados, pelo contrário, estão expostos àquilo que se passa no meio químico que os rodeia. É exatamente nessa ligação entre aquilo que se passa no meio químico que rodeia os neurónios e os neurónios propriamente ditos, aquilo que descreveria em inglês como co-mingling [mingle = misturar], ou seja, que se dá a possibilidade de fazer uma mistura. Portanto, aquilo que se está a passar no sistema nervoso que permite os sentimentos homeostáticos é, de facto, uma mistura entre aquilo que se está a passar no corpo e aquilo que se está a passar na nossa vida direta; nas células que constroem o nosso corpo e que têm os intercâmbios com a vida propriamente dita, e naquilo que se está a passar no sistema nervoso cognitivo. Dessa situação de co-mingling entre os componentes, a mistura do que está no corpo propriamente dito e aquilo que está no sistema nervoso, é que emergem os sentimentos homeostáticos. Daí que tenhamos sentimentos homeostáticos agradáveis e desagradáveis, pois quando a vida está a correr bem o sistema nervoso apanha no nosso corpo a ideia de que a vida está boa, que a vida é possível e que não há barreiras à continuação dessa vida; se temos qualquer coisa que não está a funcionar bem no corpo, nessa altura temos sentimentos de desagrado ou de dor, e esses sentimentos são aqueles que nos estão a dar a ideia de que qualquer coisa se passa de mal no nosso corpo.”

Aniquilar uma civilização
A dado momento do livro, Damásio regista que “talvez seja possível reorientar parte das notáveis conquistas das inteligências naturais, de modo a salvar a humanidade da beira do abismo ao qual chegou”. Até que ponto se pode fazer uma leitura de que as sociedades contemporâneas não estão a preservar o melhor da vida, ou seja, a consciência não está a conseguir ter o papel necessário de harmonização da sociedade? Para António Damásio é possível fazer esta leitura, mas coloca condições: “É preciso vincar o facto de que a consciência não é uma forma de regular a nossa vida social, mas, basicamente, ser uma forma de regular a vida individual. A ideia de consciência, tal como explico neste livro, é de que ela é um sistema de regulação da vida individual, um sistema que vem através do desenvolvimento dos sentimentos homeostáticos e que nos permite ter conhecimento direto e imediato de se a vida está a decorrer de uma forma normal ou se existem riscos para essa própria vida. Essa é a grande beleza e a enorme importância da consciência, por ter consequências extremamente importantes na regulação da vida.”

Aproveitando o cenário geopolítico de acontecimentos mundiais em curso nas últimas semanas, questiona-se o cientista sobre o papel da Inteligência Natural; que tão bem protegeu e promoveu a vida ao longo da história humana e que recentemente se encontrou perante a perplexidade de uma ameaça do presidente Trump em aniquilar uma civilização em poucas horas. Estaremos a viver num tempo de destruição da Inteligência Natural? Damásio considera que é uma pergunta interessante, mas passível de diversas respostas: “Não tenho grandes dúvidas que a nossa Inteligência Natural está, de certo modo, ameaçada por tudo aquilo que se passa com a Inteligência Artificial porque, de certo modo, a Inteligência Artificial tem-nos separado daquilo que é a realidade da vida e a realidade humana. Não é a primeira vez que tal situação se dá, pois existem diversos aspetos da cultura que, historicamente, têm contribuído para essa separação, no entanto é mais evidente agora. Porquê? Quando um grande número de pessoas - quase que a totalidade da humanidade - utiliza sistemas de Inteligência Artificial para comunicar e prefere esses sistemas à comunicação humana direta, não duvido que aquilo que constituiu a realidade da vida tornou-se mais longínqua da nossa perceção do dia-a-dia e estamos a interpor um outro sistema de comunicação que torna as coisas um pouco menos nítidas. Pode até dizer-se que há qualquer coisa que se está a passar na cultura humana em geral que remove a importância da Inteligência Natural do que seria o seu papel central e que nos torna mais distantes daquilo que é a vida ou o sofrimento e que, por essa razão, nos deixa mais capazes de tolerar o sofrimento. Portanto, a resposta à pergunta feita lá atrás é afirmativa.”

No que respeita à Inteligência Artificial, este novo livro de António Damásio é mais seletivo do que se poderia esperar e soma muito poucas dezenas de páginas em referências soltas e apenas lhe é dedicado um único capítulo de forma específica. Questiona-se Damásio sobre se considera que a Inteligência Artificial está a desviar o foco da ciência além das alterações no comportamento humano? O cientista responde: “Sim, dada a importância extraordinária e cada vez maior dessa tecnologia na nossa rotina diária. O nosso dia-a-dia está ligado a capacidades de comunicação que vêm desse mundo artificial e o que se está a passar é que as pessoas estão a utilizar a Inteligência Artificial quando poderiam muito bem usar o contacto direto humano. Eu vejo isso nas ruas dos Estados Unidos da América, e também no campus da universidade, em que a maior parte das pessoas, especialmente os jovens, estão a caminhar e a olhar para os seus aparelhos em simultâneo, por vezes a ler o que está no visor ou a ter uma conversa, até a falar com outras enquanto circulam de bicicleta ou trotinetas elétricas. Ou seja, é um entrar na nossa vida diária de uma forma estranhamente potente e que nos afasta daquilo que é a humanidade e era a sua vida corrente.”

Lembra-se António Damásio de que esteve há pouco mais de um ano em Lisboa e que participou num debate na Fundação Champalimaud com o professor Arlindo Oliveira, no qual estava muito reticente sobre os avanços da Inteligência Artificial. No entanto, aquando da apresentação deste livro, em novembro, parecia ter mudado de perceção. Questiona-se sobre qual é a sua opinião atual sobre a Inteligência Artificial? Refere a mudança: “Não é tanto mudar de opinião, antes de corrigir a opinião. Continuo a achar que a Inteligência Artificial tem diferenças fundamentais em comparação com a Inteligência Natural, mas não tem neste momento a capacidade de, por exemplo, ter uma consciência. Este é um dos pontos que sublinho neste novo livro e em novos artigos, o de que não é possível à Inteligência Artificial, tal como funciona neste momento, aceder a um estágio como o dos seres vivos, especialmente, o dos seres humanos. No entanto, não há qualquer dúvida que o poder do sistema ao nível técnico é tal que avançou muito além daquilo que eu pensava ser possível e que iria alcançar. Ou seja, repito, não é tanto mudar de opinião mas corrigir e continuar a afirmar que é difícil à Inteligência Artificial conseguir copiar inteiramente aquilo que é a Inteligência Natural e, sobretudo, sensibilizar sobre o facto de não existirem dúvidas sobre o quanto está a dominar a nossa vida diária de uma forma que tem impacto sobre aquilo que podemos ser como seres humanos e também no que respeita à nossa relação uns com os outros.”

Ao iniciar o título do novo livro com a expressão Inteligência Natural existiria uma intenção de António Damásio em rivalizar com o conceito de Inteligência Artificial? É a pergunta que se faz e a que o cientista responde desta forma: “Era o título que pretendia usar desde o início, de modo a forçar a distinção entre aquele que é um processo natural nos seres humanos e o que é um processo de inteligência que veio através do desenvolvimento desses seres humanos. A Inteligência Artificial é um dos diversos produtos da criação humana, que é extraordinariamente importante e há que reconhecer a sua extraordinária importância e potência na maneira como ajuda as nossas vidas em diversos aspetos e com resultados positivos. No entanto, também é preciso reconhecer que tem limitações, graves riscos e, entre as limitações, o que mais me interessa é o facto de lhe faltar a lógica da consciência que a Inteligência Natural tem à sua disposição.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

The Youth Movement in a Post-Growth World


Bringing about alternatives to our capitalist growth system at the speed and scale needed is no easy task. The herculean work to develop transformative worldviews, including theories toward a steady state economy, is ongoing and increasingly cross-sectoral. At the core of this endeavor is the recognition that we cannot implement alternatives to growth capitalism without first addressing cultural and social dynamics deeply rooted in colonialism and cultural appropriation.

In this context, youth movements, particularly those focusing on environmental justice, have led the way for many. Youth activists often draw clear connections among the fossil-fueled economy, extractivism in general, colonialism, and a range of other systemic issues, such as racial justice.

The Young Feminist Fund (FRIDA), for example, has established the parallel nature of several struggles for justice. They have articulated the need to stand up to ecocide and genocide and move beyond capitalism, which they see (logically enough) as linked at the hip with growth. FRIDA’s recently published report states: “Neoliberal capitalism thrives in power-over structures that keep decision-making in the hands of those with privilege, access, and wealth.”

Let’s take a closer look at the Youth Movement and assess how it might help society move beyond the capitalist growth system.

Youth Aren’t Always Radical
The Youth Movement is not a unified voice that shares the same vision of the future. Nor do youth-led organizations employ the same methods to actualize their visions. Some take a more radical approach than others. The radicality of an organization is often assessed by its relationship to power, in terms of funding as well as access to decision-making spaces and representation.

A large number of youth-led organizations take the “moderate” approach. The majority of environmental organizations are quite in line with this approach, as steady staters have long lamented. Moderate youth activists believe that, though the system is not great, it could be improved with the right champions in place or the right voices speaking on the right panels.

Youth organizations that take a moderate approach, explicitly or not, make the assumption that if enough funding flows through the right organizations, transformative change is possible. But it’s hard to imagine that reforming our economic system—based on interest-bearing debt and rooted in growth capitalism—is simply an issue of funding or access to decision-making spaces.

Vanessa Andreotti addresses the question of what it will take to transform our dying system (death being the ultimate outcome of unsustainability) in her book Hospicing Modernity. She writes about methodological, educational, and ontological (relating to being) interventions. Andreotti argues that only the latter can truly lead to systemic change.

Youth Activism and Professional-Class Liberalism
The Youth Movement has achieved a lot over the last few years. It has self-organized first at the local level, through volunteering, and grown into a global movement acting at the policy level. Throughout that time, youth activists have undergone a professionalization process, becoming highly trained.

In many ways, this is a positive development. There are more panels, workshops, and seminars with young activists (for instance at UN Climate Conferences) than ever. At these events, youth are making the case for more action to address the environmental emergency.

However, there are concerns about the Youth Movement joining the elite club of professional-class liberals. This club includes lawyers, economists, policy experts, and nonprofit executives. The global expansion of graduate and professional education has been a key driver of growth in this elite club.

The Youth Movement is organizing increasingly through the creation of non-profit organizations, sharing decision-making power with governing and advisory boards. They are also developing fundraising strategies and advocacy and communication plans. All of this makes them professional activists and members of the informal club of professional-class liberals. At what cost?

The Youth Movement is a diverse collection of individuals with different socio-economic backgrounds, lived realities, and opinions. However, only a handful of groups are made visible on the international stage. The level of visibility awarded to young activists often correlates with their willingness to adopt a “soft critique” of growth capitalism, far from the radical discourse they often come from. In other words, those in power are telling youth groups: We are willing to talk to you as long as you do not say anything to make us too uncomfortable. One gets the impression that some of the most visible youth organizations seek simply a piece of the cake, not to re-bake the cake.

Some youth-led organizations do recognize growth capitalism as the root cause of environmental breakdown. However, seldom are they equipped with a shared and coherent theory of change. They don’t have the tools to 
1) recognize biases and the ways in which they might be part of the problem; 
2) engage in decolonizing languages and narratives; and 
3) mobilize funding to sustain radical work.

YOUNGO’s latest Strategic Policy Position is an example of how the Youth Movement is stuck at methodological and epistemological levels of analysis, not reaching the ontological level necessary for systemic change. One of the organization’s most important policy recommendations is to “incorporate the participation of children and youth as agents of change, as well as considerations of intergenerational equity throughout all decision-making.” However, this promotion of youth feels weak without an alternative theoretical framework. Which youth will they prioritize for participation, and to bring about what change?

Youth inclusion should not be a goal by itself; it should be a means to an end. The end we need is a comprehensive and radical change away from the capitalist growth system.

Embracing Radicality
A “radical” approach to youth-led activism targets growth capitalism as the root cause of ecological breakdown. It also targets the cultural and social components of the capitalist growth system. For the Youth Movement to embrace radicality further, activists must develop a sharp understanding of the fundamentals of this system. They must also unlearn many of the mental projections internalized over the years, at a collective and individual level. For instance, many youth have internalized consumerism, mass advertising, and “self-exploitation,” turning their activism into a spectacle and a competition.

At the end of the day, what determines an organization’s ability to embrace radicality—and contribute to a genuine alternative—is its relationship to all forms of power. To what extent is a group identifying, calling out, and challenging the status quo? Without an analysis of power dynamics, the risk is that youth environmental groups will limit their focus to reforms that those in power approve of. They may not dedicate enough time to sensibly think, dream, and feel about a future worth fighting for.

The Youth Movement can be proud of what it has achieved. So many youth organizations focus on important issues: access to funding, decision-making spaces, and climate education, for example. But the Youth Movement must not stop here. Taking down cultural and social dynamics deeply rooted in pro-growth capitalism means asking some tough questions. What privileges am I willing to let go of? Do I actually want to change the system, or do I just feel bad about not being part of it?

We need all hands on deck to ideate new ways to equip the Youth Movement with a holistic, radical approach. To generate systemic change, young activists must be brave in their criticism of capitalism and growth.

Unfortunately, they must also get comfortable with doubt, not knowing exactly what tomorrow will look like. Fonte

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Agnotologia

"Durante muito tempo, a gente aprendeu que ignorância era só falta de informação. Que bastava ensinar melhor, divulgar mais, explicar com paciência. Esse raciocínio parte de uma ideia confortável: a de que todo mundo erra sem querer. Até que alguém resolveu olhar para o problema por outro ângulo e perguntar o que acontece quando a ignorância não é um acidente, mas um projeto.

Foi aí que conheci o trabalho de Robert Proctor, historiador da ciência, professor em Stanford, e o homem que deu nome a esse mecanismo desconfortável chamado agnotologia. Agnotologia é o estudo da produção deliberada da ignorância. Não do erro honesto. Não da dúvida legítima. Mas da ignorância construída com método, dinheiro, estratégia e paciência histórica.

Proctor chegou a isso estudando a indústria do tabaco. E aqui vale ser bem didático. Nos anos 1950, a ciência já havia identificado com clareza a relação entre cigarro e cancro de pulmão. O consenso estava se formando. O que a indústria fez não foi negar frontalmente esses estudos. Isso seria fácil de desmontar. O que ela fez foi algo muito mais sofisticado.

Ela financiou pesquisas paralelas, pagou especialistas para relativizar conclusões, criou institutos “independentes” e passou a repetir uma frase-chave: “a ciência ainda não é conclusiva”. Não era mentira direta. Era fabricação de dúvida. O objetivo não era convencer as pessoas de que fumar fazia bem. Era fazer com que elas pensassem que ainda era cedo demais para ter certeza.

Aqui está o ponto central da agnotologia: não se trata de convencer, mas de paralisar. Se existe dúvida, não há urgência. Se há controvérsia, não há decisão. Se tudo parece incerto, ninguém precisa agir agora.
Esse método deu tão certo que passou a ser reutilizado. Mudam os temas, mas a engrenagem é a mesma. Mudanças climáticas, por exemplo. Durante décadas, empresas financiaram campanhas não para negar o aquecimento global, mas para transformá-lo em “debate”. O planeta aquecia, os dados se acumulavam, mas a pergunta pública permanecia sempre a mesma: “Será mesmo?”

Vacinas seguiram caminho parecido. Não foi preciso provar que elas não funcionam. Bastou sugerir que talvez não fossem tão seguras assim, que talvez ainda houvesse algo escondido, que talvez fosse melhor esperar. A dúvida virou produto. A hesitação virou comportamento social.

História também entra nessa conta. Quando tudo vira “versão”, quando factos documentados passam a disputar espaço com opinião, quando arquivos viram narrativa opcional, a ignorância deixa de ser ausência e passa a ser política. Não é esquecimento. É escolha.

A agnotologia não nasceu na filosofia, mas dialoga diretamente com ideias que muita gente já sentiu na pele sem saber nomear. Michel Foucault já havia mostrado como saber e poder caminham juntos, como certos discursos ganham status de verdade enquanto outros são empurrados para a margem. Proctor mostra o outro lado da moeda: não apenas o que é dito, mas o que é sistematicamente impedido de ser sabido.

Décadas depois, pesquisadores como Naomi Oreskes deixaram isso ainda mais explícito ao analisar como a dúvida científica foi usada como arma política no debate climático. Não se vence a verdade com mentira escancarada. Vence-se desgastando-a, cercando-a de ruído, colocando-a no mesmo nível de qualquer palpite. Quando tudo vira opinião, a verdade deixa de ter urgência.

Esse mecanismo fica ainda mais eficiente quando encontra um terreno fértil chamado dissonância cognitiva. Um conceito da psicologia formulado por Leon Festinger, que explica algo simples e profundamente humano. A gente não gosta de informações que nos obrigam a rever quem somos, no que acreditamos ou ao grupo ao qual pertencemos. Quando uma informação ameaça nossa identidade, o cérebro não reage buscando verdade. Ele reage buscando alívio.

E a dúvida fabricada oferece exatamente isso. Ela não exige mudança. Não cobra revisão. Não pede desconforto. Ela apenas sussurra: “calma, talvez não seja bem assim”. A agnotologia não precisa criar essa tensão. Ela só precisa explorá-la.

As redes sociais transformaram esse processo em escala industrial. Algoritmos aprenderam a entregar conforto cognitivo com precisão assustadora. Se você acredita em algo, sempre haverá um conteúdo dizendo que você tem razão em duvidar do resto. Nesse ambiente, a ignorância não precisa ser imposta. Ela passa a ser escolhida.

Eu faço questão de falar disso aqui porque entender esse mecanismo é uma forma de defesa. Não contra pessoas, não contra ideias específicas, mas contra estruturas invisíveis que moldam o debate público. A melhor forma de se prevenir é entender o mecanismo. A agnotologia não te transforma automaticamente em alguém mais informado ou mais inteligente. Ela te transforma em alguém mais atento. E atenção, hoje, é um ato quase subversivo.

Talvez você nunca tenha ouvido essa palavra antes. E tudo bem. Ela não costuma circular fora da academia justamente porque nomear o problema é o primeiro passo para desmontá-lo. Mas o efeito dela está por toda parte. Nos debates que nunca avançam. Nas discussões que se repetem em círculos. Na sensação constante de que algo está errado, mas nunca errado o suficiente para exigir mudança imediata.

Quando identidade vira trincheira, qualquer dúvida que proteja essa identidade parece virtude. É assim que a guerra cultural se alimenta. Não pela força da verdade, mas pelo conforto da hesitação. Em certos momentos da história, não é a mentira que vence. É a dúvida bem administrada.

E é exatamente por isso que escrever este texto me dá um tipo específico de orgulho. Não aquele orgulho inflado, performático, mas um orgulho quieto, quase teimoso. O de continuar falando de coisas difíceis num tempo em que o fácil viraliza mais rápido. O de explicar um conceito pouco conhecido quando o mundo parece preferir gritar certezas rasas.

Com tudo o que tem acontecido comigo, com o debate público e com o próprio planeta, sentar para escrever sobre isso é, para mim, uma forma de resistência lúcida. E também um gesto de confiança em quem ainda lê com atenção. Se isso aqui servir como munição para quem pensa criticamente, mesmo que só para reconhecer a engrenagem, já valeu a pena "

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

O que é a Metaética? Conceito, Questões e Principais Filósofos

Nota 1 (embaixo)
A metaética é o ramo da filosofia moral que recua um passo para analisar a própria natureza da ética. Em vez de perguntar "O que devemos fazer?" (o objeto da ética normativa) ou "A eutanásia é moralmente aceitável?" (o foco da ética aplicada), a metaética interroga o próprio edifício concetual do discurso moral, questionando: "O que significa dizer que algo é 'bom' ou 'mau'?" e "Os valores morais existem de forma objetiva no mundo?". 
Para estruturar esse campo, a metaética divide-se habitualmente em três dimensões centrais. 
A primeira é a semântica moral, que investiga o significado da linguagem moral e contrapõe o cognitivismo - a ideia de que os juízos morais expressam crenças e descrevem factos suscetíveis de serem verdadeiros ou falsos - ao não-cognitivismo, que entende os enunciados morais como meras expressões de emoções, desejos ou ordens. 
A segunda dimensão é a ontologia moral, que aborda o estatuto de existência das propriedades morais, dividindo-se entre o realismo moral, para o qual existem factos morais independentes das opiniões humanas, e o anti-realismo moral, que interpreta os valores como construções sociais, ilusões ou projeções subjetivas. 
A terceira dimensão é a epistemologia moral, dedicada a compreender como obtemos conhecimento moral, quer seja por meio da intuição direta, do raciocínio lógico, da experiência empírica ou dos sentimentos.
Embora a metaética enquanto disciplina autónoma e analítica se tenha consolidado a partir do século XX, as suas preocupações ontológicas, semânticas e epistemológicas remontam à Antiguidade e atravessam toda a história da filosofia. Na Grécia Antiga, Platão inaugurou uma forma radical de realismo moral ao propor que o "Bem" é uma Forma ou Ideia transcendente e objetiva, acessível apenas através do intelecto. Em contraste, Aristóteles adotou uma postura naturalista, ancorando a moralidade na teleologia humana e argumentando que o bem reside no desenvolvimento das virtudes e no florescimento biológico e racional (eudaimonia). Entre os sofistas, como Protágoras, surgiram as primeiras reflexões de cariz anti-realista e relativista, ao sustentar que "o homem é a medida de todas as coisas".
No início da Idade Moderna, Thomas Hobbes introduziu uma visão mecanicista e subjetivista, afirmando que as palavras "bom" e "mau" servem apenas para significar os desejos e aversões de cada indivíduo, emergindo a moralidade objetiva unicamente através do pacto social. Mais tarde, David Hume desferiu um dos golpes mais marcantes na ontologia e na epistemologia morais ao postular o sentimentalismo moral - segundo o qual a moral deriva das nossas reações emotivas e não da razão - e ao formular o famoso problema do "is-ought" (a Guilhotina de Hume), que denuncia a impossibilidade lógica de derivar um dever-ser (juízo moral) a partir do ser (factos descritivos). 
Em resposta a Hume, Immanuel Kant propôs uma abordagem construtivista e racionalista, sustentando que os princípios morais não dependem de factos empíricos externos nem de sentimentos voláteis, mas são leis a priori impostas pela própria estrutura da razão prática sob a forma do Imperativo Categórico.
No século XIX, G. W. F. Hegel criticou o abstracionismo kantiano, sugerindo no seu conceito de Sittlichkeit (vida ética) que os valores morais são construídos e desenvolvidos historicamente através das instituições de uma comunidade. Em contrapartida, Arthur Schopenhauer fundamentou a ética no sentimento inato de compaixão perante o sofrimento alheio, enquanto John Stuart Mill, aprofundando o utilitarismo de Jeremy Bentham, defendeu um naturalismo assente na maximização do bem-estar e da felicidade empírica. No final do século, Friedrich Nietzsche realizou uma crítica genealogicamente demolidora aos valores morais ocidentais, argumentando que os conceitos de "bem" e "mal" não possuem fundamento transcendente ou objetivo, sendo antes manifestações de relações de poder e de construções históricas ao serviço da "vontade de poder".
Com a viragem linguística no início do século XX, G. E. Moore inaugurou a metaética analítica moderna no seu livro Principia Ethica (1903). Moore defendeu o intuicionismo ao argumentar que o "bem" é uma propriedade simples, não-natural e indefinível (análoga à cor amarela) e que qualquer tentativa de a reduzir a conceitos naturais ou científicos, como o prazer ou a evolução, incorre na falácia naturalista, testada pelo seu famoso Argumento da Questão Aberta. W. D. Ross expandiu esta linha ao propor um intuicionismo de deveres prima facie, sustentando que conhecemos os nossos deveres morais básicos por intuição racional direta. Em oposição ao intuicionismo, o positivismo lógico do Círculo de Viena deu origem a vertentes não-cognitivistas radicais. A. J. Ayer, na sua obra Linguagem, Verdade e Lógica (1936), formulou o emotivismo, sustentando que as afirmações morais não possuem valor de verdade e servem unicamente para expressar sentimentos de aprovação ou repulsa - pelo que dizer "Matar é mau" equivale simplesmente a gritar "Abaixo o assassinato!". Charles Stevenson desenvolveu e refinou o emotivismo ao demonstrar como a linguagem moral é usada não apenas para ventilar emoções, mas também para influenciar dinamicamente as atitudes dos interlocutores. Decénios mais tarde, R. M. Hare apresentou o prescritivismo universal, argumentando que a linguagem moral não é meramente emotiva, mas funciona como um conjunto de imperativos e instruções que exigimos que se apliquem universalmente a qualquer pessoa em circunstâncias análogas.
No campo das teorias anti-realistas cognitivistas, J. L. Mackie chocou a comunidade filosófica ao propor a Teoria do Erro (Error Theory) em Ethics: Inventing Right and Wrong (1977). Mackie argumentou que, embora a nossa linguagem moral quotidiana pretenda referir-se a factos e propriedades morais objetivas (cognitivismo), tais propriedades exigiriam a existência de entidades "estranhas" (argument from queerness) sem paralelo no mundo natural; assim, por falta de correspondência com a realidade, todas as afirmações morais positivas são rigorosamente falsas. Na mesma linha expressivista e anti-realista, Simon Blackburn desenvolveu o quasi-realismo, procurando explicar como podemos falar legitimamente "como se" existissem factos morais sem ter de aceitar uma ontologia realista pesada, enquanto Allan Gibbard formulou o expressivismo de normas, focando-se no papel da linguagem moral para expressar a aceitação de sistemas de regras. Em reação às correntes subjetivistas e emotivistas, a segunda metade do século XX assistiu a um forte ressurgimento do realismo e do naturalismo moral. Philippa Foot, juntamente com G. E. M. Anscombe, rejeitou o subjetivismo e ajudou a refundar a ética das virtudes e o naturalismo moral, argumentando que os conceitos morais estão ancorados na própria natureza humana e no florescimento biológico e social da espécie, de forma análoga a como avaliamos a saúde ou a qualidade funcional de qualquer outro organismo vivo. No âmbito do realismo analítico, a chamada Escola de Cornell - representada por filósofos como Richard Boyd, Nicholas Sturgeon e David Brink - defendeu que as propriedades morais são propriedades naturais complexas que sobredeterminam os factos físicos e desempenham um papel explicativo real no mundo, sendo descobertas do mesmo modo que as ciências naturais descobrem propriedades como a água ser H2O.
Na filosofia contemporânea de matriz kantiana, Christine Korsgaard e Stephen Darwall destacam-se no desenvolvimento do construtivismo moral. Korsgaard argumenta que a fonte da normatividade não reside em propriedades morais independentes e flutuantes no universo, mas é ativamente construída pela estrutura da razão humana, pela autonomia da vontade e pelas exigências do respeito mútuo impostas pela nossa identidade prática. Em suma, a metaética contemporânea continua a dissecar as ferramentas epistemológicas, ontológicas e semânticas com que pensamos, articulamos e justificamos a moralidade, desvelando a complexa teia que sustenta o nosso discurso sobre o bem e o mal.

Nota 1- A minha arte digital mostra um homem de meia-idade a segurar uma câmara reflex e a olhar atentamente pelo visor, focado em capturar um momento num mercado ao ar livre.

Se olharmos para esta cena como uma metáfora filosófica, a ética do quotidiano é tudo o que acontece na feira: as trocas, as escolhas e o comportamento das pessoas. A ética normativa funciona como o conjunto de regras do local, indicando o que ali é correto fazer. A metaética, por sua vez, é a análise da própria câmara. Não se foca nas pessoas ou nas bancadas da feira, mas sim no equipamento que usamos para capturar o mundo.

O gesto de olhar pelo visor ilustra na perfeição as três grandes dúvidas da metaética. Na vertente semântica, questiona se a fotografia mostra o mundo tal como ele é ou apenas o resultado dos filtros e da luz do sensor — ou seja, se quando dizemos que algo é "bom" estamos a descrever um facto real ou apenas a expressar uma perceção pessoal. Na vertente ontológica, pondera se as cores e as formas da imagem existem de forma independente no mundo ou se dependem do aparelho para ganhar forma, o que equivale a perguntar se os valores morais existem por si só na realidade ou se são puras criações humanas. Por fim, na vertente epistemológica, questiona a forma como ajustamos o foco para ver bem, indagando se o conhecimento moral surge de um estalo intuitivo, de um cálculo técnico da lente ou de uma aprendizagem contínua.

No fundo, aquele fotógrafo representa a própria postura da metaética: o ato de dar um passo atrás para entender como funcionam as lentes e os mecanismos com que julgamos o bem e o mal.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Mia Couto - O "Pensajeiro"


Humilde e encantador "Pensageiro" Mia Couto. 
O poeta observa a realidade do seu povo e percebe as desigualdades, como a falta de acesso à leitura e à educação. As suas viagens inspiram-nos a ser melhores e mais humanistas. Não só poesia e Moçambique, mas também uma consciência sobre as dificuldades das pessoas em geral e sobre a importância do conhecimento. E respeito pelas outras culturas. E línguas. E a oralidade.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Clara Pinto Correia - Antares


A obra passa-se em Antares, um planeta distante escolhido pela humanidade para colonização e estudo. Um grupo de cientistas, exploradores e técnicos é enviado em missão para analisar as condições do planeta, compreender a sua biosfera e avaliar a possibilidade de vida humana permanente.

1. A chegada a Antares
A equipa humana aterra num ambiente alienígena que, embora com paralelos à Terra, possui ecossistemas, organismos e ciclos biológicos completamente diferentes. Logo surgem dificuldades de adaptação — tanto físicas como psicológicas.

2. Vida alienígena e estranheza biológica
O ponto central do romance é a forma como os humanos observam e interagem com as criaturas de Antares. A autora, bióloga, cria organismos extremamente originais, com fisiologias e comportamentos que levantam questões sobre:
  1. evolução convergente e divergente
  2. modelos alternativos de reprodução
  3. sistemas de ecologia complexos
  4. limites da compreensão humana perante o “Outro” biológico
A narrativa mistura maravilhamento científico com estranheza quase filosófica.

3. Tensões humanas
A convivência no planeta e a pressão da missão fazem emergir:
  1. conflitos internos do grupo
  2. dilemas éticos entre explorar e preservar
  3. tensões políticas e pessoais
  4. alterações psicológicas causadas pelo ambiente alienígena
Os humanos percebem que estão a mudar — não apenas no corpo, mas na forma como pensam e se relacionam.

4. A grande pergunta da obra
A autora explora uma questão:
até que ponto a humanidade é apenas um produto do ambiente que habita?

O planeta começa, de forma simbólica e literal, a moldar os visitantes.
as alterações humanas não são reversíveis

o ADN e a fisiologia foram alterados

as mentes começam a sintonizar-se com padrões do planeta

Antares não é uma força maligna, mas absorve a equipa da mesma forma que integra qualquer forma de vida.

Alguns resistem até ao fim — outros entregam-se completamente.

5. Mistério e metamorfose
Progressivamente, a equipa percebe que Antares não é apenas um espaço físico, mas um processo que influencia a vida que o atravessa. Há elementos de suspense e transformação que culminam numa visão muito própria da autora sobre:
  1. adaptação
  2. hibridação
  3. o papel da humanidade no cosmos
6. A transformação irreversível
O planeta transforma os humanos porque:
  1. é assim que o ecossistema funciona
  2. não distingue “estrangeiros” de “locais”
  3. tudo o que vive ali torna-se parte do ciclo
  4. resistência é inútil, aceitação traz harmonia
Antares não é uma força maligna, mas absorve a equipa da mesma forma que integra qualquer forma de vida.

7. O desfecho final 
O final é aberto mas claro na sua implicação:
  1. parte da equipa morre (por conflitos, acidentes, ou falhas fisiológicas)
  2. outros transformam-se e tornam-se parte do ecossistema de Antares
  3. os poucos que tentam fugir já não têm condições biológicas para voltar à Terra
  4. o planeta continua indiferente e harmonioso
O livro termina com a sugestão de que a humanidade talvez não seja a “forma final” da evolução, e que Antares poderia ser um próximo passo — mas apenas para quem se dispõe a abandonar a noção rígida de identidade individual.

Não há final feliz nem final trágico absoluto.
É, acima de tudo, um final  profundamente ecológico, biológico evolutivo.

Antares é uma metáfora para a ideia de que a vida no universo pode ser cooperativa, interligada e mutável — e que a humanidade só é “humana” enquanto vive num ambiente que define essa humanidade.

sábado, 4 de maio de 2024

Esopo e a Língua

Velázquez - Esopo (Museo del Prado, 1639-41)

Esopo, considerado o pai da fábula, era um escravo que viveu no século V a. C.
Um dos seus mestres, Xantus, ordenou-lhe que fosse ao mercado e lhe trouxesse o melhor alimento que encontrasse para receber convidados importantes. Esopo comprou apenas língua e a cozinhou de maneiras diferentes. Os convidados ficaram fartos de comer e saborearam como uma delícia.
Quando ficou sozinho, Xantus perguntou-lhe o que era tão delicioso.
— Você me pediu o melhor — disse Esopo — e eu trouxe língua. A língua é o fundamento da filosofia e das ciências, o órgão da verdade e da razão. Com a língua se instrui, se constroem as cidades e as civilizações, se persuade e dialoga. Com a língua se canta, com a língua se reza e se declara amor e paz. O que mais pode haver melhor do que a língua?
Poucos dias depois, Xantus disse-lhe que viriam visitantes desagradáveis que ele deveria atender por protocolo, mas queria manifestar-lhes o seu desgosto servindo-lhes uma má refeição.
—Traga do mercado o pior que encontrar — recomendou.
Esopo trouxe língua e a fez preparar com um sabor tão desagradável que repugnou os clientes.
— Que porcaria é essa que você serviu? — perguntou Xantus.
— Língua — Esopo respondeu. A língua é a mãe de todos os processos e discussões, a origem das separações e das guerras. Com a língua se mente, com a língua se calúnia, com a língua se insulta, com a língua se quebram as amizades. É o órgão da blasfêmia e da impiedade. Não há nada pior do que a língua.
- A língua é uma arma de dois gumes.
"O homem, tão indefeso por natureza, não tem presas, não tem garras, não cospe fogo, mas tem o dom da linguagem, e uma língua pode ser tão suave quanto o mel e tão afiada quanto uma faca".

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Aniversário da morte de Sócrates


Aniversário da morte de Sócrates 15 de fevereiro (disputado) 399 AC Atenas, Grécia "A vida não examinada não vale a pena viver." - Sócrates
Um famoso ditado supostamente proferido por Sócrates em seu julgamento por impiedade e corrupção de jovens, pelo qual foi posteriormente condenado à morte.
Bertrand Russell comenta Uma História da Filosofia Ocidental (1945) “Os principais factos do julgamento e morte de Sócrates não são susceptíveis de dúvida. A acusação baseou-se na acusação de que: “Sócrates é um malfeitor e uma pessoa curiosa, que investiga as coisas debaixo da terra e acima do céu; e fazer com que o pior pareça ser a melhor causa, e ensinar tudo isso aos outros.“ Isso está registado no diálogo Apologia, que é geralmente considerado histórico. Este afirma ser o discurso que Sócrates fez em sua própria defesa no seu julgamento – não, claro, um relatório estenográfico, mas o que permaneceu na memória de Platão alguns anos depois do acontecimento, reunido e elaborado com arte literária. Platão esteve presente no julgamento, e certamente parece bastante claro que o que está estabelecido é o tipo de coisa que Platão se lembrava de Sócrates ter dito, e que a intenção é, em termos gerais, histórica. Isto, com todas as suas limitações, é suficiente para dar uma imagem bastante definida do carácter de Sócrates. Ao que parece, certa vez perguntaram ao Oráculo de Delfos se havia algum homem mais sábio que Sócrates, e ele respondeu que não. Sócrates afirma ter ficado completamente perplexo, pois não sabia de nada e, no entanto, um deus não pode mentir. Ele, portanto, andou entre homens considerados sábios, para ver se poderia convencer o deus do erro. Primeiro ele procurou um político, que "era considerado sábio por muitos, e ainda mais sábio por ele mesmo". Ele logo descobriu que o homem não era sábio e explicou-lhe isso, de maneira gentil, mas firme, "e a consequência foi que ele me odiou". Ele então foi até os poetas e pediu-lhes que explicassem passagens de seus escritos, mas eles não conseguiram fazê-lo. "Então eu soube que não é por sabedoria que os poetas escrevem poesia, mas por uma espécie de génio e inspiração." Depois procurou os artesãos, mas achou-os igualmente decepcionantes. No processo, diz ele, ele fez muitos inimigos perigosos. Finalmente concluiu que "só Deus é sábio; e com a sua resposta pretende mostrar que a sabedoria dos homens vale pouco ou nada; não está a falar de Sócrates, está apenas a usar o meu nome a título de ilustração, como se ele disse: Aquele, ó homens, é o mais sábio, aquele que, como Sócrates, sabe que sua sabedoria na verdade não vale nada. Esse negócio de mostrar pretendentes à sabedoria ocupa todo o seu tempo e o deixou em extrema pobreza, mas ele sente que é um dever defender o oráculo. pág. 86
A acusação dizia que Sócrates não só negava os deuses do Estado, mas também introduzia outros deuses próprios; seu promotor Meleto, porém, diz que Sócrates é um ateu completo e acrescenta: "Ele diz que o sol é pedra e a lua é terra." Sócrates responde que Meleto parece pensar que está processando Anaxágoras, cujas opiniões podem ser ouvidas no teatro por um dracma (presumivelmente nas peças de Eurípides). É claro que Sócrates salienta que esta nova acusação de ateísmo completo contradiz a acusação, e depois passa para considerações mais gerais. pág. 87
A Apologia dá uma imagem clara de um certo tipo de homem: um homem muito seguro de si, nobre, indiferente ao sucesso mundano, acreditando que é guiado por uma voz divina e persuadido de que o pensamento claro é o requisito mais importante para viver corretamente. Exceto neste último ponto, ele se assemelha a um mártir cristão ou a um puritano. Na passagem final, onde considera o que acontece após a morte, é impossível não sentir que acredita firmemente na imortalidade e que a sua professada incerteza é apenas assumida. Ele não se preocupa, como os cristãos, pelo medo do tormento eterno: não tem dúvidas de que a sua vida no outro mundo será feliz. No Fédon, o Sócrates platónico dá razões para a crença na imortalidade; se foram essas as razões que influenciaram o Sócrates histórico, é impossível dizer.” p. 89 — Bertrand Russell, Uma História da Filosofia Ocidental (1945), Livro Um Filosofia Antiga, Parte II. Cap: XI, Sócrates, p. 86, pág. 87 e pág. 89
Antecedentes: A Morte de Sócrates, 15 de fevereiro de 399 AEC Sócrates (c. 470-399 aC) foi uma figura altamente enigmática e polarizadora na sociedade ateniense. Em 399 aC, ele foi acusado de impiedade e de corromper a juventude. Após um julgamento que durou apenas um dia, ele foi condenado à morte e obrigado a beber uma bebida venenosa composta principalmente de cicuta, mel e leite (o mel era usado para mascarar o forte sabor amargo da cicuta e leite adicionado para não causar vómito ). Sócrates passou seu último dia na prisão, recusando ofertas de ajuda para escapar. As últimas palavras de Sócrates foram de acordo com Platão: “Crito, devemos um galo a Asclépio. Pague e não negligencie."
— Sócrates, Fédon 118a (Ὦ Κρίτων τῷ Ἀσκληπιῷ ὀφείλομεν ἀλεκτρυόνα. ἀλλὰ ἀπόδοτε καὶ μὴ ἀμ ελήσητε)

* O Oráculo de Delfos
Pítia era o título oficial da suma sacerdotisa do Templo de Apolo em Delfos. Ela serviu especificamente como oráculo e era comumente conhecida como Oráculo de Delfos. Os gregos antigos derivaram este nome de lugar do verbo πύθειν (púthein) 'apodrecer', que se refere ao cheiro doce e enjoativo do corpo em decomposição de uma monstruosa Píton depois de ter sido morto pelo deus Apolo. O Oráculo de Delfos era o oráculo de maior prestígio e autoridade entre os gregos antigos e estava entre as mulheres mais poderosas do mundo clássico. Muitos dos escritos antigos afirmavam que a Pítia entregava oráculos num estado frenético e hipnótico induzido por vapores que subiam de um abismo vulcânico na rocha no centro do templo. Quaisquer palavras que os Ptyhia pronunciassem, os sacerdotes délficos masculinos interpretavam como profecias enigmáticas. Esta interpretação antiga, no entanto, foi contestada por muitos estudiosos modernos e atualmente não é geologicamente sustentável. O templo sobreviveu até 390 DC, quando o imperador cristão romano Teodósio I silenciou o oráculo destruindo o templo e destruindo a maioria das estátuas e obras de arte na tentativa de remover todos os vestígios do paganismo grego, uma tarefa que foi amplamente bem-sucedida.
Imagem: Busto de Sócrates. Mármore, obra de arte romana (século I), talvez uma cópia de uma estátua de bronze perdida feita pelo escultor grego antigo Lísippo. Atualmente alojado no Museu do Louvre, Paris.

domingo, 28 de janeiro de 2024

Encontros Improváveis: Death in June e Rui Nunes


If we don’t neutralize decay,
We may run out of tomorrows.
Time tryeth truth,
And truth was found and fined.

Let’s break bread together,
Our honesty moves more than lies.
What do you mean “I need”?
In suffering you breed.

If we don’t neutralize decay,
We may run out of tomorrows.
Time tryeth truth,
And truth was found and fined.

I can hear the kiss fill me
Through the minds and warning signs.
Sounds of ghosts go further,
If you engage in a coven with crows.

If we don’t neutralize decay,
We may run out of tomorrows.
Time tryeth truth,
And truth was found and fined.[2X]

So if we don’t neutralize decay,
We may run out of tomorrows
Time tryeth truth,
And truth was found and fined.[2X]

I can hear the kiss fill me
Through the minds and warning signs.
Sounds of ghosts go further
If you engage in a coven with crows.

If we don’t neutralize decay,
We may run out of tomorrows.
Time tryeth truth,
And truth was found and fined.[2X]

"Qualquer palavra maligniza-se:
basta deixá-la crescer 
e tornar-se-á a palavra única do mundo: 
um fungo, um vírus." - Rui Nunes

Uma grande verdade. Muito isto que sinto, não tanto no Facebook, mas muito na rede X. Para isso nos alertou Laurie Anderson, com o seu tema fabuloso "Language is a virus".

As imagens deste vídeo são da obra-prima: Naqoyqatsi

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Nico - Evening of Light

Filme Original (1969)


[Chorus]
Midnight winds are landing at the end of time
Midnight winds are landing at the end of time

[Verse 1]
A true story wants to be mine
A true story wants to be mine
The story is telling a true lie
The story is telling a true lie
Mandolins are ringing to his viol singing
Mandolins are ringing to his viol singing

[Chorus]
Midnight winds are landing at the end of time
Midnight winds are landing at the end of time

[Verse 2]
Dungeons sink in to a slumber till the end of time
Dungeons sink in to a slumber till the end of time
Petrel sings, the doorbells pound into the unlit end of time
Petrel sings, the doorbells pound into the unlit end of time

[Chorus]
Midnight winds are landing at the end of time
Midnight winds are landing at the end of time

[Verse 3]
In the morning of my winter
When my eyes are still asleep
In the morning of my winter
When my eyes are still asleep
A dragonfly lady in a coat of snow
I'll send to kiss your heart for me
A dragonfly lady in a coat of snow
I'll send to kiss your heart for me

[Chorus]
Midnight winds are landing at the end of time
Midnight winds are landing at the end of time

[Verse 4]
The children are jumping in the evening of light
The children are jumping in the evening of light
The peasants' hands are heavy in the evening of light
The peasants' hands are heavy in the evening of light

[Chorus]
Midnight winds are landing at the end of time
Midnight winds are landing at the end of time

Significado da Canção

Promo video for Nico’s “Evening of Light” directed by François De Menil in 1969, but probably finished much later. There was a tantalizingly brief clip of this in the Nico: Icon documentary. Not the album version of the song appearing on The Marble Index, this alternate take was released as part of The Frozen Borderline: 1968–1970 compilation in 2007.

The story is told in Richard Witts’ (fantastic) Nico biography, Nico: The Life and Lies of an Icon, that De Menil, heir to the Schlumberger Limited oil-equipment fortune via his mother’s family, who knew Nico via Warhol associate Fred Hughes, had become besotted by the Teutonic ice queen and proposed making a film with her.

At this time Nico was having a brief affair with a 21-year-old Iggy Pop, who she had met through John Cale, then producing the first Stooges album in New York. (Iggy once revealed to a French interviewer that Nico taught him how to “eat pussy.”). Nico told De Menil that he had to follow them to Ann Arbor, Michigan if he wanted to do it. De Menil obliged, shooting the film behind the house where the band lived.

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Ervin László - A Experiência Akashica: A Ciência e o Campo de Memória Cósmica


O Dr. Ervin Laszlo é um renomeado filósofo, autor e pioneiro no campo dos estudos da consciência, que fez contribuições significativas para a nossa compreensão dos Registos Akáshicos e as suas profundas implicações para a consciência e espiritualidade humanas. Com uma carreira notável ao longo de várias décadas, o Dr. Laszlo mergulhou profundamente nos domínios da metafísica, cosmologia e teoria de sistemas, ganhando reconhecimento internacional como um dos principais pensadores em seu campo.

Nascido em Budapeste, Hungria, em 1932, o Dr. Laszlo foi exposto a uma rica tapeçaria de influências culturais e intelectuais desde tenra idade. Ele prosseguiu os estudos em filosofia, ciências naturais e música, e obteve um Ph.D. em filosofia pela Sorbonne em Paris. Ao longo da sua jornada académica, ele começou a questionar os paradigmas convencionais da ciência e a explorar as interconexões entre as dimensões física, mental e espiritual da realidade.

Uma das contribuições mais inovadoras é a sua exploração dos Registos Akáshicos, um conceito profundamente enraizado nas antigas tradições espirituais e na sabedoria coletiva da humanidade. De acordo com esse conceito, os Registos Akáshicos são um repositório energético que contém o conhecimento e as experiências de todos os seres ao longo do tempo e do espaço. Acredita-se que ter acesso aos Registos Akáshicos permite que os indivíduos se conectem com uma consciência universal, obtendo insights sobre as suas vidas passadas, desafios atuais e potenciais futuros.

Com base na sua extensa pesquisa e exploração, o Dr. Laszlo lançou luz sobre os aspectos científicos e metafísicos dos Registos Akáshicos. Ele propõe que esses registos existam como um campo não físico, uma memória cósmica que transcende o espaço e o tempo. Ele sugere que os Registos Akáshicos servem como uma fonte fundamental de informação e inspiração, acessível àqueles que estão abertos a receber a sua sabedoria por meio de estados profundos de consciência, meditação e investigação intuitiva.

O trabalho do Dr. Laszlo sobre os Registos Akáshicos teve um impacto profundo no campo dos estudos da consciência e na nossa compreensão do potencial humano. Ao reconhecer a existência e acessibilidade desse vasto reservatório de conhecimento, ele oferece um novo paradigma para o  crescimento pessoal, desenvolvimento espiritual e transformação coletiva. As suas percepções sobre os Registos Akáshicos inspiraram inúmeras pessoas a explorar as profundezas de sua própria consciência, buscando orientação, cura e um senso de propósito mais profundo.

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

As adivinhas


As adivinhas desapareceram, ou pelo menos são cada vez menos conhecidas e usadas. Era motivo de conversa, tradição oral, diálogo intergeracional (pais-filhos; avós-netos) e surgiam no Ensino Pré-Escolar e Primário. Recebíamos o feed-back, quando os nossos filhos, chegados a casa, traziam a novidade e nos perguntavam "qual é a coisa, qual é ela?". Actualmente, verifica-se que os alunos apresentam dificuldades na compreensão de textos escritos, sobretudo no que se refere à apreensão de informação implícita com recurso à construção de inferências. Esta capacidade não é só indispensável apenas para a compreensão de textos escritos, mas também para a descodificação de informação oral. Isto alerta para a necessidade de contrariar esta tendência ativamente, ou seja, criar estratégias que promovam o desenvolvimento da capacidade inferencial. E regressarmos às adivinhas!

"Verde que verde nasceu,
deita sangue sem ter dor,
faz três mudanças no ano
sem nenhuma ser de amor."