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sábado, 22 de agosto de 2026

Hoje assinala-se o Dia Internacional de Homenagem às Vítimas de Atos de Violência Baseados em Religião ou Crença.

Marilyn Monroe "The Springtime of Life", near Mailbu, CA, 1946- foto de André de Dienes

Embora estas efemérides procurem proteger a liberdade de consciência, torna-se impossível ignorar o papel que a própria religião - ou a sua manipulação ideológica - desempenhou e continua a desempenhar na eclosão de conflitos e na perda de vidas humanas. Ao longo da história, dogmas religiosos têm sido instrumentalizados para alimentar um nacionalismo sectário, onde a fé deixa de ser uma busca espiritual individual e passa a funcionar como uma fronteira de exclusão política. Quando a identidade nacional se confunde com a ortodoxia religiosa, a divergência deixa de ser apenas uma diferença de opinião e passa a ser vista como uma ameaça à soberania, pavimentando o caminho para a perseguição, a guerra e a violência estatal.

Acompanho, com muita apreensão, a aceleração e crescimento  galopante dos evangélicos e da manipulação em massa de gente nova a aderir a discursos evangélicos e pentecostais, os chamados "soldados/soldadas de Cristo". O movimento "Mulheres Conservadoras em Portugal" é o clímax de uma orquestração, que já vem detrás.  A aproximação à direita brasileira ganha particular relevância pelo papel que as igrejas evangélicas desempenham no Brasil como importante base de apoio da direita e estão no Parlamento Brasileiro. Imitam o Novo Conservadorismo norte-americano, constituindo, portanto, uma real ameaça à democracia. 

Contudo, os números são impressionantes. A liberdade de religião e de crença permanece um dos direitos fundamentais mais transgredidos no mundo contemporâneo, afetando cerca de 4,9 mil milhões de pessoas - o equivalente a mais de 60% da população global - que vivem sob regimes com limitações severas ou perseguição ostensiva à prática espiritual, segundo o relatório da Fundação ACN (Aid to the Church in Need). A violência motivada pela fé não se restringe a uma região ou dogma específico, distribuindo-se de forma heterogénea e vitimando comunidades de diversas matrizes.

Entre as populações mais afetadas, estima-se que mais de 365 milhões de cristãos enfrentem níveis elevados de discriminação ou opressão, registando-se perto de 5.000 assassinatos anuais por razões diretamente ligadas à sua fé, concentrados maioritariamente na África subsariana, com a Nigéria a responder por mais de 80% destas vítimas mortais, de acordo com os dados monitorizados pelo WWL da Open Doors International. Paralelamente, minorias muçulmanas sofrem repressão sistémica em várias geografias, como ilustrado pela detenção de mais de 1 milhão de Uigures em campos de reeducação em Xinjiang, na China, documentada pelo Relatório de Avaliação do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (OHCHR), e pelo deslocamento forçado de cerca de 740.000 muçulmanos Rohingya forçados a fugir de Mianmar para o Bangladesh, segundo os registos do Portal de Dados Operacionais do ACNUR/UNHCR. O antissemitismo também tem apresentado surtos globais, com aumentos superiores a 300% em incidentes violentos e de intimidação registados em países ocidentais após a escalada de conflitos no Médio Oriente a partir do final de 2023, de acordo com as estatísticas da Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA).

A gravidade do panorama estende-se ao enquadramento jurídico de vários Estados. Em cerca de 13 nações - localizadas maioritariamente no Médio Oriente, Norte de África e Sul da Ásia —, crimes como a apostasia e a blasfémia preveem formalmente a pena de morte, enquanto em mais de 80 países a renúncia à religião maioritária ou a crítica a dogmas resulta em penas de prisão efetiva, acusações criminais ou privação de direitos civis, como documenta a Humanists International no seu Freedom of Thought Report. Nestes cenários, a ausência de crença também é severamente punida, tornando ateus e agnósticos alvos frequentes de sanções estatais.

A esta realidade soma-se a expansão de novos movimentos de traço sectário que instrumentalizam o estatuto de liberdade religiosa para exercer coerção psicológica, exploração financeira ou violação de direitos individuais. O grande desafio da comunidade internacional e dos Estados de direito reside em equilibrar a salvaguarda da liberdade de consciência com a aplicação rigorosa da lei, garantindo que o pretexto da fé não sirva para legitimar abusos, nem que o poder estatal seja utilizado para silenciar a diversidade de crenças.

O Afeganistão sob o domínio do Taliban representa um dos exemplos mais radicais de como a instrumentalização da religião pode anular o Estado de direito e refundar a identidade de um país sob uma lógica de exclusão absoluta. Desde o regresso do grupo ao poder em agosto de 2021, a interpretação ultrafundamentalista da lei islâmica de matriz Deobandi foi erguida como a única fonte de soberania e legitimidade, transformando a fé num instrumento de controlo social totalitário.

Esta fusão entre dogma e governação resultou no apagamento prático da diversidade cultural e religiosa do país. Minorias históricas, como a comunidade Hazara (maioritariamente xiita, representando entre 10% a 15% da população afegã), enfrentam episódios recorrentes de violência, marginalização e deslocamento forçado sem qualquer garantia de proteção estatal, conforme documentado nos Relatórios sobre o Afeganistão da Amnistia Internacional. Ao mesmo tempo, o desvio da ortodoxia oficial, a conversão a outro credo ou o abandono da fé são classificados como apostasia — um crime punível com a pena de morte no enquadramento penal do regime, o que força qualquer dissidência espiritual ao anonimato absoluto sob risco de vida.

Paralelamente, a narrativa religiosa serve de justificação para uma segregação de género sem paralelo no mundo contemporâneo, frequentemente descrita por organismos internacionais como um sistema de apartheid. Mais de 1,4 milhões de raparigas afegãs foram deliberadamente privadas do acesso ao ensino secundário e universitário por decretos do regime, segundo o Relatório sobre a Situação da Educação no Afeganistão da UNESCO, enquanto mais de 80 diretivas executivas restringem o trabalho feminino, a frequência de espaços públicos e o direito das mulheres de circularem sem um tutor masculino (mahram), como detalhado nos Destaques da Situação das Mulheres da ONU Mulheres.

O cenário afegão ilustra como o extremismo religioso transcende a dimensão espiritual para dar lugar a um pseudo-nacionalismo dogmático. A pertença à nação deixa de assentar na cidadania ou no direito de nascimento e passa a depender da submissão a um código ideológico estrito, no qual a divergência não é apenas encarada como uma heresia, mas como uma ameaça à própria sobrevivência do Estado.

domingo, 21 de junho de 2026

Investigadores portugueses estudam ligação entre poluição do ar e desigualdades ambientais

A poluição do ar é considerada o maior risco ambiental para a saúde humana, segundo entidades internacionais como a Organização Mundial da Saúde, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e a Agência Europeia do Ambiente.

Contudo, persistem lacunas no conhecimento de como a poluição do ar se relacionada com outras dimensões centrais para a compreensão devida do problema, como o facto de nem todas as pessoas e comunidades são afetadas da mesma forma.

Grupos humanos mais vulneráveis podem estar mais expostos à poluição do ar do que outros, os impactos podem ser mais fortemente sentidos em certas áreas ou regiões e não tanto noutras, levantando questões relacionadas com desigualdades e justiça ambientais.

Foi essa constatação que levou um grupo de investigadores, liderado por membros de instituições académicas e centros de investigação portugueses, a rever o conhecimento existente para perceber se, e também como, conceitos relacionados com desigualdades e justiça ambientais são tidos em conta em avaliações dos impactos da poluição do ar na saúde.

O trabalho, liderado pela Universidade de Aveiro em colaboração com a Universidade de Coimbra, o Laboratório Associado de Sistemas Inteligentes (LASI), sediado na Universidade do Minho, e também a University of the West of England (Reino Unido), analisou 99 artigos científicos. Nesse exame, foram tidos em conta diferentes aspetos como o enquadramento conceptual, a região estudada, a escala temporal, os dados e indicadores utilizados e os métodos de análise aplicados, sejam estatísticos, numéricos ou baseados em inquéritos.

Os resultados, revelados num artigo publicado na revista ‘Heliyon’, mostram que os estudos sobre justiça ambiental associados à poluição do ar foram realizados em 21 países, sendo os Estados Unidos da América responsáveis pela maioria das investigações (53%). Seguem-se Canadá (6%) e China (5%).

Em termos temporais, mais de metade dos estudos foram publicados nos últimos cinco anos, o que os investigadores dizem refletir “um crescimento recente do interesse científico neste tema”. A maioria das investigações analisa impactos de longo prazo da poluição atmosférica.

Relativamente aos dados que são utilizados, a maior parte dos trabalhos centra-se nas partículas finas PM2.5, um dos poluentes mais associados a riscos para a saúde. No entanto, apenas cerca de metade dos estudos inclui explicitamente dados sobre saúde ou níveis de exposição, avança esta equipa.

Todos os artigos analisados abordam questões de justiça ambiental relacionadas com estatuto socioeconómico ou raça/etnia. Entre os indicadores socioeconómicos mais utilizados, mostra este estudo, destacam-se os dados de rendimento (99%), seguidos de indicadores de caracterização populacional e de habitação.

O método de análise mais frequente é a análise estatística, utilizada em 71% dos estudos. Cerca de 14% recorrem a inquéritos e 15% utilizam modelos de simulação para explorar cenários.

Com base na revisão, os autores deste artigo consideram que ainda existe margem para o desenvolvimento de novos estudos, especialmente na Europa e noutras regiões menos representadas. Os investigadores, é avançado em comunicado da Universidade de Aveiro, defendem a utilização de modelos estatísticos “mais robustos e métodos mistos”, que sejam capazes de lidar com “a complexidade das múltiplas variáveis envolvidas neste tipo de investigação”.

Em escalas geográficas mais pequenas, os autores recomendam também a realização de estudos apoiados por inquéritos, que permitam “integrar indicadores socioeconómicos tanto individuais como contextuais”. A revisão destaca ainda que poucos estudos abordam perceções sociais ou o envolvimento dos cidadãos nas questões relacionadas com a poluição do ar.

A equipa conclui que é preciso aprofundar o conhecimento sobre as dimensões sociais da poluição atmosférica, algo que permitirá contribuir de forma importante para políticas ambientais e de saúde pública mais equitativas.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A Delek Group, uma empresa israelita incluída na lista negra da ONU, arrecadou mais de mil milhões de dólares com o petróleo e o gás do Mar do Norte em apenas seis anos



An Israeli firm blacklisted by the UN for its West Bank activities has raked in over $1bn from North Sea oil and gas in just six years – and could be set to earn even more if the Rosebank field is approved.

Analysis by The Ferret shows Aberdeen oil company Ithaca Energy has paid over $1bn in dividends to its largest shareholder, Delek Group, since 2020.

Delek, an Israeli energy conglomerate, has been named on a United Nations database of firms whose activities in the occupied West Bank raise “particular human rights concerns”.

Ithaca owns a stake in the Rosebank oil field off the coast of Shetland, which the UK energy minister Ed Miliband is under pressure to green light. It also now owns 100 per cent of the Cambo field, which was at the centre of controversy in 2021.

Lawyers for the campaign group Uplift have claimed that Ithaca’s connection to Delek means approving Rosebank could risk the UK breaching the Geneva convention, and alleged that the Israeli company’s activities could be seen as “ancillary” to war crimes.

Environmental campaigners told The Ferret that “not one penny of profit should flow from the North Sea towards Delek” and that choosing to approve Rosebank would be “morally reprehensible” because it could “bolster" its activities in the West Bank.

Both Ithaca and Delek were approached for comment.

Delek has been Ithaca’s largest shareholder since 2017, but its pay-outs from the firm have accelerated in recent years as Ithaca expanded its presence in UK fossil fuels. Ithaca says it now holds stakes in six of the UK’s ten largest oil and gas fields.

Our analysis shows Ithaca paid $569m in dividends to Delek across 2024 and 2025, with a further $101m distributed on 16 April this year. That takes total payments since 2020 to more than $1bn.

Delek has previously described Ithaca’s operations in the North Sea as part of the “growth engine” for its wider business. 

As The Ferret first reported when Ithaca bought Cambo back in 2022, Delek was included in a 2020 list of companies whose activities in the occupied West Bank “raised particular human rights concerns” after a UN fact finding mission. It remained on updated versions of the list published in 2023 and 2025.

Delek was included because it was deemed to be providing services and utilities to support the maintenance of the settlements and was using natural resources in the West bank for “business purposes”. Israeli settlements in the West Bank are widely regarded as illegal under international law.

We also previously found that another firm in which Delek holds a significant stake – Delek Israel – has held contracts to provide refueling services to the Israel Defense Forces (IDF).

Rosebank is at the centre of a political row over whether the UK should continue to expand oil and gas production in the North Sea.

It is the UK’s largest untapped oil field and is estimated to contain 300 million barrels of oil. Backers of the project argue it could create thousands of jobs and support the country’s energy security in an increasingly unstable world.

Opponents claim it is incompatible with the UK’s climate targets and would do little to lower bills because most of the oil extracted from it would be exported.

The field was initially approved by the Conservative government in 2023, but Scotland’s court of session later found that decision unlawful, deeming that its full environmental impact had not been considered.

A revised application has since been submitted and the final decision will rest with Ed Miliband, who has faced pressure from politicians and industry to approve the project.

Analysis by WWF Norway previously estimated a further $300m (£222m) could flow to Delek if Rosebank goes ahead. Ithaca is expected to make a final decision on whether to try and develop the Cambo field either this year or in 2027.

“If the UK Government chooses to green light Rosebank, it would be a morally reprehensible decision that turns a blind eye to the fact that the project could bolster Delek’s activities in the Occupied Palestinian Territories,” Lauren MacDonald from the campaign group Stop Rosebank told The Ferret.

She continued: "There are many reasons why this toxic field should be stopped - but this is simply indefensible.

“The UK Government is well aware of these risks, and has even been warned that it could breach its own obligations under international law if it allows the field to go ahead.

"If the UK and Scottish governments are serious about creating a better world, they will pull the plug on Rosebank for good and ensure no further profits flow from our North Sea to Delek.”

Ithaca has not publicly commented on Delek’s links to the West Bank but has pointed out that it is a London stock exchange listed company and claims to be “governed by the highest standards of corporate governance”.

“Ithaca is one of the biggest investors in the North Sea and Scotland, is a responsible employer and is a major contributor to both the UK Treasury through tax payments and the UK’s energy security,” it told us in response to a story last August.

The UK Government also failed to respond to a request for comment. It previously said in regard to Rosebank that it cannot comment on individual projects.

terça-feira, 7 de abril de 2026

US is ‘using Mexico as a garbage sink’ leading to ‘toxic crisis’, UN expert says


Mexico is facing a “toxic crisis” and has become a “garbage sink” for the US, exposing Mexican communities to dangerous pollution, a UN expert has warned.

In an interview with the Guardian and Quinto Elemento Lab, an investigative outlet, Marcos Orellana, an environmental specialist, said pollutants ranging from imported waste to dangerous pesticides were affecting people’s right to live healthy lives.

Orellana, whose title is UN special rapporteur on toxics and human rights, conducted an 11-day investigative mission in Mexico last month to learn about toxic threats facing its population. He said he found lax environmental standards and a lack of oversight, which have allowed pollution to accumulate over the years.

“Where standards are weak, what you get is legalized pollution,” he said, adding that imports of hazardous and plastic waste from the United States were worsening the situation.

“US overconsumption and economic activity are using Mexico as a garbage sink.”

The rapporteur said there were more than 1,000 contaminated locations officially recorded in Mexico’s National Inventory of Contaminated Sites, many of which he said had become “sacrifice zones”, where diseases such as cancer, and medical events such as miscarriages, were normalized.

In a preliminary report summarizing his visit, he cited factories spewing hazardous waste into the Atoyac River in Puebla, huge industrial pig farms contaminating drinking water on the Yucatan peninsula and a decade-old mining chemical spill that continued to affect health in communities around the Sonora River.

He said many of these situations left residents struggling with dire health effects.

A resident collects water outside their home in the Arizpe community, Sonora state, Mexico, in 2014, when a copper mine leaked 40,000 cubic meters of sulfuric acid into the Sonora River, seriously polluting the water way. Photograph: Héctor Guerrero/AFP/Getty Images

“As I heard during one meeting: living in a sacrifice zone means losing the right to die of old age,” he wrote.

He cited one place he visited, the industrial corridor of Tula in the central Mexican state of Hidalgo, where steel plants, cement factories and petrochemical facilities operate near a river polluted by industrial waste and untreated sewage from Mexico City. He said proposals to bring in additional waste for recycling would only add to an already devastating environmental burden on communities there.

Meanwhile, companies are not held responsible for preventing, mitigating and repairing the damage, he said.

The result, he said, was the “legalized poisoning of people”.

The rapporteur highlighted the influx of plastic waste from the United States. He said once this waste crosses the border, there is often little clarity about its final destinations. In addition, he said he was concerned that microscopic plastic particles had been detected in rivers such as the Tecate in Baja California, the Atoyac in Puebla and the Jamapa in Veracruz.

This view shows a section of the Pemex thermoelectric plant and refinery in Tula de Allende, Hidalgo state, Mexico, in August 2024. 

Government records show the US ships hundreds of thousands of tons of hazardous waste to Mexico each year, including lead-acid car batteries, as well as common scrap such as plastic, paper and metal for recycling. Environmental groups have questioned whether the country is equipped to handle all this without it leading to pollution.

Residents in Monterrey, which serves as a US manufacturing hub and suffers some of the worst air pollution in North America, welcomed the rapporteur’s calls for more attention to the health of Mexico’s people.

María Enríquez, a mother and activist in Monterrey, who co-founded the environmental group Comité Ecológico Integral, warned that poor air quality has become part of daily life in the city, and residents suffer from rhinitis, eye irritation and asthma attacks.

“We have learned to live sick, especially with respiratory illnesses,” she said.

Guadalupe Rodríguez, director of a network of childcare centers in Monterrey, agreed, saying children in her nursery program were also affected.

“Families consider it normal for children to have constant coughing,” said Rodríguez. She called on the government to do more to enforce Mexico’s constitutional guarantee of a healthy living environment, especially for the most vulnerable. “If they are not protected, the right to health is not being guaranteed.”
People take part in a protest demanding the closure of the Pemex refinery, blaming it for polluting the air, in Monterrey, Mexico, in January 2024.

The rapporteur’s visit, at the invitation of the Mexican government, comes at a time when toxic and hazardous waste are coming under increasing scrutiny in the country.

In Monterrey, residents have been demanding government action to reduce heavy metal pollution, much of it emitted in the air by factories that are manufacturing goods for the US or recycling hazardous US waste.

Already, officials in President Claudia Sheinbaum’s administration have acknowledged that regulatory standards, such as rules for how much pollution factories can emit, are out of date, and have announced plans to strengthen them.

In an interview, Mariana Boy Tamborrell, Mexico’s federal attorney for environmental protection, said her agency had reached a regulatory “turning point”, and would start requiring industries to remediate environmental damage they caused. Her agency is rolling out a new air monitoring system to detect emissions coming from specific facilities, starting in an industrial corridor of Monterrey.

“Then there will be no room for ‘it wasn’t me,’” she said. “We will be able to clearly identify the source.”

The rapporteur said Mexico could adopt restrictions on the import of hazardous waste as a measure to address part of the crisis. He noted that some countries had chosen to ban such imports to avoid becoming destinations for international waste, without undermining their participation in global trade.

Waldo Fernández, a Mexican senator, has already introduced legislation to more strictly regulate imports of waste into Mexico for recycling. The law would prohibit importing waste if it has greater environmental impacts in Mexico than allowed in its country of origin.

Mexico “must not become a dumping ground for toxic waste or a recipient of pollution under commercial pressures”, said Fernández.

The rapporteur also said the upcoming review of the free trade agreement between Mexico, the US and Canada represented an opportunity to strengthen environmental standards and their enforcement.

If they did not, “economic pressure will worsen the toxic crisis”, he said.

domingo, 29 de março de 2026

Nesta semana a ONU aprovou, por larga maioria, uma resolução que declara o tráfico transatlântico de escravos "o crime mais grave contra a humanidade". O que isso significa?


A Assembleia Geral das Nações Unidas apoiou esta semana, por larga maioria, uma resolução que declara o tráfico transatlântico de escravos "o crime mais grave contra a humanidade".

A resolução histórica aprovada na quarta-feira foi apoiada pela União Africana (UA) e pela Comunidade das Caraíbas (Caricom). Tinha sido proposta pelo presidente do Gana, John Dramani Mahama, que disse: "Que fique registado que, quando a história chamou, fizemos o que era certo em memória de milhões que sofreram a indignidade da escravatura."

Ao saudar a votação, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, afirmou que a riqueza de muitas nações ocidentais foi "construída sobre vidas roubadas e trabalho forçado".

Assinalando os "castigos bárbaros que mantinham o controlo – desde grilhões e coleiras de ferro a açoites e violência sexual", disse que "não se tratava simplesmente de trabalho forçado".

"Era uma máquina de exploração em massa e de desumanização deliberada de homens, mulheres e crianças. As feridas são profundas e muitas vezes passam despercebidas."

A resolução, apoiada por países africanos e caribenhos, não é juridicamente vinculativa, mas os analistas afirmam que transmite uma mensagem poderosa.

"É já um passo enorme e significativo em termos políticos ter este debate na ONU, mesmo que tenha um valor mais simbólico", disse Almaz Teffera, investigadora sénior sobre racismo da Human Rights Watch, à BBC.

Ela afirma que isto poderia aumentar as hipóteses de progresso nas discussões sobre reparações ou alguma forma de compensação.

A resolução foi aprovada por 123 votos a três, com 52 abstenções, incluindo o Reino Unido e os Estados-membros da UE.

Os Estados Unidos, a Argentina e Israel votaram contra.
A Dra. Erieka Bennett, que lidera o Fórum Africano da Diáspora, sediado no Gana, disse à BBC que a votação teve um significado pessoal para os descendentes de pessoas escravizadas, como ela.

"Significa que sou reconhecida, significa que o meu antepassado finalmente descansa em paz". Para mim, pessoalmente, como afro-americano, é algo avassalador – até que se tenha vivido o que aconteceu, é muito difícil perceber o que isso realmente significa.

Os países afetados pela escravatura têm vindo a pedir reparações há mais de um século. Mas o debate intensificou-se nos últimos anos, sobretudo depois de algumas nações e empresas que historicamente lucraram com o trabalho escravo africano terem pedido formalmente desculpa e anunciado medidas de reparação.

Qual é o argumento a favor das reparações?
Dos séculos XV ao XIX, cerca de 12 a 15 milhões de homens, mulheres e crianças africanos foram capturados e traficados para as Américas para trabalharem como escravos.

Foram enviados para colónias controladas por países europeus, como Espanha, Portugal, França e Reino Unido. Acredita-se que dois milhões de pessoas morreram a bordo dos infames navios negreiros.

Os efeitos de séculos de exploração ainda se fazem sentir nos dias de hoje.

No Brasil, o maior recetor de africanos escravizados – 4,9 milhões, a maioria durante o período em que era colónia portuguesa – as pessoas negras têm o dobro da probabilidade de viver na pobreza. como brancos, de acordo com o órgão oficial de estatísticas do país (IBGE).

As reparações têm como objetivo funcionar como uma restituição – um pedido de desculpas e um pagamento às pessoas negras cujos antepassados ​​foram forçados à escravatura. A moção, proposta pelo Gana, insta os Estados-membros da ONU a considerarem pedir desculpa pelo tráfico de escravos e a contribuírem para um fundo de reparações.

A Dra. Esther Xosei, académica, ativista e figura de destaque no movimento global pelas reparações, saudou a votação, mas duvida que faça grande diferença por si só.

"É uma boa vitória [para o movimento pelas reparações], mas vamos recordar “Isto é apenas uma declaração de intenções”, disse ela à BBC.

Xosei acrescentou que, embora fosse “encorajador ver as nações africanas a assumir o protagonismo nestas discussões”, destacou a importância da ação popular.

“Corações e mentes não serão conquistados na ONU.”

“A verdadeira batalha será travada nas ruas, onde as pessoas ainda estão mal informadas sobre a história da escravatura e os seus efeitos duradouros na vida dos africanos e dos seus descendentes.”

Existe algum precedente histórico para as reparações?
Sim – o caso de reparações mais famoso envolve a Alemanha. Desde 1952, a nação europeia pagou mais de 80 mil milhões de dólares (60 mil milhões de reais) às vítimas judias do regime nazi, incluindo pagamentos a Israel.

Mas, até agora, nunca nenhum país pagou reparações aos descendentes de africanos escravizados ou às nações africanas, caribenhas e latino-americanas afetadas.

A maior parte das reparações pagas pelos governos veio sob a forma de indemnizações aos proprietários de escravos no século XIX, e não àqueles que foram escravizados.

Isto inclui o Reino Unido - na década de 1830, após a abolição da escravatura, o país pagou aos proprietários o equivalente a mais de 21 mil milhões de dólares (16 mil milhões de libras) em valores actuais.

Mesmo nações que pediram formalmente desculpas pelo seu papel na escravatura, como a Holanda em 2022, descartaram reparações financeiras diretas aos descendentes de pessoas escravizadas. O governo holandês criou, em vez disso, um fundo de 230 milhões de dólares para "iniciativas e projetos sociais para lidar com o legado da escravatura".

"O mais importante a compreender é que ninguém está a tentar mudar o passado, mas sim a lidar com as suas consequências no presente", explicou a Dra. Celeste Martinez, investigadora especializada em colonialismo espanhol em África.

"Os legados da escravatura ainda persistem hoje sob a forma de racismo e desigualdade. Reconhecer o passado é crucial se queremos sociedades mais justas e democráticas."

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Francesca Albanese e o caminho solitário da rebeldia



Pode ver a minha entrevista com Francesca sobre a reportagem  aqui

(…) Francesca (…) é a bête noire de Israel e dos EUA. Foi colocada na lista do Gabinete de Controlo de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Departamento do Tesouro dos EUA — normalmente usada para sancionar os acusados de lavagem de dinheiro ou envolvimento com organizações terroristas — seis dias após a publicação do seu relatório, “Da economia da ocupação à economia do genocídio”.

A lista da OFAC — usada pela administração Trump para perseguir Francesca e em clara violação da imunidade diplomática concedida aos funcionários da ONU — proíbe qualquer instituição financeira de ter alguém da lista como cliente. Um banco que permita que alguém da lista da OFAC realize transações financeiras é proibido de operar em dólares, enfrenta multas multimilionárias e é bloqueado dos sistemas de pagamento internacionais.

No seu relatório, Francesca lista 48 empresas e instituições, incluindo a Palantir Technologies, a Lockheed Martin, a Alphabet Inc., a Amazon, a International Business Machines Corporation (IBM), a Caterpillar Inc., a Microsoft Corporation e o Massachusetts Institute of Technology (MIT), juntamente com bancos e empresas financeiras como a BlackRock, seguradoras, imobiliárias e instituições de caridade, que, em violação do direito internacional, estão a ganhar milhares de milhões com a ocupação e o genocídio dos palestinianos.

O relatório, que inclui uma base de dados com mais de 1.000 entidades corporativas que colaboram com Israel, exige que essas empresas e instituições rompam os laços com Israel ou sejam responsabilizadas por cumplicidade em crimes de guerra. O relatório descreve a «ocupação eterna» de Israel como «o campo de testes ideal para fabricantes de armas e grandes empresas de tecnologia — proporcionando oferta e procura ilimitadas, pouca supervisão e zero responsabilização — enquanto investidores e instituições privadas e públicas lucram livremente».

Francesca, cujos relatórios anteriores, incluindo «Genocídio em Gaza: um crime coletivo» e «Genocídio como apagamento colonial», juntamente com as suas denúncias apaixonadas do massacre em massa de Israel em Gaza, tornaram-na um alvo fácil. Ela é criticada sempre que se desvia do guião aprovado, incluindo quando manifestantes pró-Palestina invadiram a sede do jornal diário italiano La Stampa enquanto estávamos em Itália.

Francesca condenou a invasão e a destruição de propriedade — os manifestantes espalharam jornais e pintaram slogans nas paredes, como «Palestina Livre» e «Jornais cúmplices de Israel» —, mas acrescentou que isso deveria servir como um «aviso à imprensa» para que fizesse o seu trabalho. Essa qualificação expressou a sua frustração com o descrédito dos media em relação às reportagens dos jornalistas palestinianos — mais de 278 jornalistas e profissionais dos media foram mortos por Israel desde 7 de outubro, juntamente com mais de 700 membros de suas famílias — e a amplificação acrítica da propaganda israelita. Mas isso foi aproveitado pelos seus críticos, incluindo a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, para linchá-la.

O secretário de Estado Marco Rubio impôs sanções a Francesca em julho.
«Os EUA condenaram e opuseram-se repetidamente às atividades tendenciosas e maliciosas de Albanese, que há muito a tornam inadequada para o cargo de Relatora Especial», dizia o comunicado de imprensa do Departamento de Estado. «Albanese tem espalhado antissemitismo descarado, expressado apoio ao terrorismo e desprezo aberto pelos EUA, Israel e o Ocidente. Esse preconceito tem sido evidente ao longo de toda a sua carreira, incluindo a recomendação de que o TPI, sem base legítima, emitisse mandados de prisão contra o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant.»

«Recentemente, ela intensificou esses esforços escrevendo cartas ameaçadoras a dezenas de entidades em todo o mundo, incluindo grandes empresas norte-americanas dos setores financeiro, tecnológico, de defesa, energético e hoteleiro, fazendo acusações extremas e infundadas e recomendando que o Tribunal Penal Internacional investigasse e processasse essas empresas e os seus executivos», continuou. «Não toleraremos essas campanhas de guerra política e económica, que ameaçam os nossos interesses nacionais e a nossa soberania.»

terça-feira, 18 de novembro de 2025

A Colômbia proíbe todos os novos projetos de petróleo e mineração no seu território


Colombia will no longer approve new oil or large-scale mining projects in its Amazon biome, which covers 42% of the nation’s territory, according to a Nov. 13 statement by its environment ministry.

Acting Environment Minister Irene Vélez Torres said the entire Colombian Amazon will be made a reserve for renewable natural resources. She made the announcement at a meeting of ministers with the Amazon Cooperation Treaty Organization, during COP30, the U.N. climate summit taking place in Belém, Brazil.

“This declaration is an ethical and scientific commitment. It seeks to prevent forest degradation, river contamination and biodiversity loss that threatens the continent’s climate balance,” Vélez said.

She also called on other Amazonian nations to adopt similar protections, highlighting that Colombia controls just 7% of the Amazon biome. Across the Amazon, 871 oil and gas blocks cover an area roughly twice the size of France; 68% of the blocks are still in the study or bidding phases.

“We do this not only as an act of environmental sovereignty, but as a fraternal call to the other countries that share the Amazon biome, because the Amazon does not know borders and its care requires us to move forward together,” Vélez added.

Brazil, which controls nearly 60% of the Amazon, has moved in the opposite direction over the past year, despite successfully cracking down on deforestation. The nation auctioned off several oil blocks near Indigenous lands and approved drilling for an offshore site at the mouth of the Amazon River.

Peru is courting foreign oil companies to restart production at Lot 192, a huge Amazonian crude oil site in in the north of the country. The Ecuadorian government is planning to auction off 49 oil and gas projects worth more than $47 billion, despite protests.

In Colombia, 43 oil blocks and 286 mining requests haven’t yet broken ground. The new measure, the ministry says, will prevent these projects from going forward. “Their activation could put the climate balance of the continent at risk,” the environment ministry wrote in a statement.

At another COP30 event, Vélez criticized a mechanism that allows corporations to sue governments for losses caused by environmental policies, saying it infringes on state sovereignty. Such a system, she noted, makes it difficult for a nation to outlaw existing extractive industries without facing significant penalties.

“Future generations must be able to find nature in a healthy state, the way we have known it,” María Soledad Hernández, coordinator of the sustainability program with the Colombia-based Amazonian Institute for Scientific Research, said in a video statement.

“Talking about conservation does not mean talking about not making use of it. Talking about conservation means being sustainable, being responsible and having activities that are balanced and in harmony with nature,” she added.

A 2023 U.N. report called “Paying polluters” found that the ISDS, referred to as a “secretive international arbitration process,” had awarded more than $100 billion to fossil fuel and mining industries.

The report highlighted a case of three Australian mining corporations seeking $37 billion from the Republic of Congo for revoking their iron ore mining permits, citing project delays. The amount claimed is more than twice the nation’s annual GDP.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Faixa de Gaza. "O genocídio, ao que parece, é lucrativo", denuncia relatora da ONU"


"Da Economia da Ocupação à Economia do Genocídio" é o título do mais recente relatório que Francesca Albanese vai apresentar, esta semana, ao Conselho de Direitos Humanos da ONU. A relatora especial da ONU para a situação dos Direitos Humanos na Palestina conclui que o genocídio levado a cabo por Israel em Gaza está a ser "lucrativo" para muitas multinacionais de setores como tecnologia, bancos e armas. 

O documento menciona mais de 60 empresas, incluindo grandes fabricantes de armas e tecnologia (Microsoft, Alphabet Inc. e Amazon), pelo apoio que têm dado à instalação de colonatos judeus e às operações militares em Gaza. 

Estas ações são referidas como parte de uma "campanha genocida". 

Também são mencionadas Caterpillar Inc e HD Hyundai, cujos equipamentos contribuíram para a destruição de propriedades palestinianas. São alguns nomes referidos no mesmo documento em que a relatora pede que as empresas interrompam as relações comerciais com Israel e que os dirigentes e executivos das mesmas sejam responsabilizados por “violações do Direito Internacional”. 

“Enquanto líderes políticos e governos se esquivam das suas obrigações, muitas entidades corporativas lucraram com a economia israelita de ocupação ilegal, apartheid e, agora, genocídio”, denuncia o documento. 

Francesca Albanese sublinha a urgência em exigir responsabilidades porque “a autodeterminação e a própria existência de um povo estão em jogo”.“Este é um passo necessário para pôr fim ao genocídio e desmantelar o sistema global que o permitiu”, está escrito no documento de 27 páginas. 

O relatório que Francesca Albanese apresenta esta semana, em Genebra, foi partilhado pela própria na mensagem que partilhou na rede social X. “Isto não é o negócio de sempre. O meu novo relatório da ONU, Da Economia da Ocupação à Economia do Genocídio, foi publicado hoje. Ele revela como as corporações alimentaram e legitimaram a destruição da Palestina. O genocídio, ao que parece, é lucrativo. Isto não pode continuar, a responsabilização deve ser o resultado”. 

“A cumplicidade exposta pelo relatório é apenas a ponta do icebergue”, admite o relatório de Francesca Albanese. O relatório foi elaborado com base em mais de 200 contribuições de Estados, defensores de Direitos Humanos e académicos. Francesca Albanese, que está mandatada pelo Conselho dos Direitos Humanos da ONU, mas que não fala em nome da organização, é uma das vozes mais críticas da guerra de Israel em Gaza. 

Francesca Albanese foi também uma das primeiras vozes a classificar a guerra de Israel contra a população palestiniana como "genocídio". 

Ainda na terça-feira, os Estados Unidos pediram ao secretário-geral da ONU que expulse Francesca Albanese do cargo de relatora especial para a situação dos direitos humanos na Palestina, alegando "má conduta". Washington considerou ainda que as alegações de Albanese de que Israel está a cometer genocídio em Gaza e a envolver-se num sistema de 'apartheid' "são falsas e ofensivas".

Porque é que o genocídio palestiniano continua? Porque é lucrativo



The United Nations special rapporteur on the situation of human rights in the occupied Palestinian territory (oPt) has released a new report mapping the corporations aiding Israel in the displacement of Palestinians and its genocidal war on Gaza, in breach of international law.

Francesca Albanese’s latest report, which is scheduled to be presented at a news conference in Geneva on Thursday, names 48 corporate actors, including United States tech giants Microsoft, Alphabet Inc. – Google’s parent company – and Amazon. A database of more than 1000 corporate entities was also put together as part of the investigation.

“[Israel’s] forever-occupation has become the ideal testing ground for arms manufacturers and Big Tech – providing significant supply and demand, little oversight, and zero accountability – while investors and private and public institutions profit freely,” the report said.

“Companies are no longer merely implicated in occupation – they may be embedded in an economy of genocide,” it said, in a reference to Israel’s ongoing assault on the Gaza Strip. In an expert opinion last year, Albanese said there were “reasonable grounds” to believe Israel was committing genocide in the besieged Palestinian enclave.

The report stated that its findings illustrate “why Israel’s genocide continues”.

“Because it is lucrative for many,” it said.

Ontem, os meios de comunicação em Portugal, reproduziram notícias de agências internacionais, titulando: “EUA pedem expulsão de Francisca Albanese da ONU.” Nenhum concedeu acrescentar algo mais próximo da verdade como: “EUA pedem expulsão de relatora da ONU, por causa de documento comprometedor." Ou, pronto, vá, qualquer coisa como: “EUA pedem expulsão de Albanese: em causa relatório que compromete inúmeras multinacionais e Israel.”

Porque é disso que se trata. Na próxima quinta, a relatora especial para a situação dos direitos humanos na Palestina, vai apresentar um documento que conclui que o genocídio que está a ser levado a cabo por Israel é lucrativo para muitas multinacionais de setores como a tecnologia, bancos e armas. É contundente e avassalador. Discorre sobre as fundações da economia global e a relação com os acontecimentos em Gaza. Daí que, claro, os EUA, e não só, tentem agora, numa jogada de antecipação, desacreditá-la, falando em “má conduta” e, pondo em causa, inclusive, o seu carácter, as qualificações e outras coisas que tais, numa manobra recorrente nestes casos.

O relatório está aqui para quem quiser ler. Detalha a responsabilidade de dezenas de empresas, com nomes e apelidos. Todos sabemos dos condicionalismos das redes, mas se existe algo que podemos fazer neste momento, é disseminar este documento.

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Global: Africans and people of African descent call on Europe to reckon with their colonial legacies


Experts from the African continent and its global diasporas called on European governments to address their colonial past and ongoing impacts at the Dekoloniale Berlin Africa Conference, a decolonial counter-version of the 1884/5 Berlin Africa Conference 140 years ago.

Representatives from Africa and people of African descent came together at the conference on November 15, 2024, to reflect on the history and lasting impacts 140 years after the opening of the 1884/5 Berlin Africa Conference, where European powers expanded their colonial reach across the African continent. Civil society organizations working on the legacies of colonialism in the world, including its ongoing impact on human rights, also joined the November 15 conference.

At the Dekoloniale Berlin Africa Conference, 19 experts discussed how the legacies of those historical injustices are linked to systemic racism and global inequality. The 19 experts included the award-winning UK broadcaster Gary Younge, the Angolan artist Kiluanji Kia Henda, the Cameroonian lawyer Alice Nkom, and Pumla Dineo Gqola, the South African academic, award-winning writer, and gender activist.

“It’s important the Dekoloniale Berlin conference took place at the site that changed the world in many ways, powered by an enormous sense of entitlement, which can never be fully returned,” said Pumla Dineo Gqola.

“The conversations around debt, human rights and reparations, even at the level of art and culture, the conversation of coloniality, is one that shows every aspect of how the EU is a power block. Going forward, I want to see a significant shift in the negotiation of states inside and out of the EU – and whatever that looks like needs to move beyond diplomacy, while conversations about reparations must be serious and move out of the realms of superficiality.”

The 19 experts, either from the African diaspora or invited from countries affected by the 19 European powers represented in the 1884/5 conference, set out a 10-point list of demands on human rights, reparations, migration, economy, trade and anti-racism.

Among their demands are calls for European governments to address their selective advocacy of human rights in their relations with the African continent based on political, economic and diplomatic interests; the need for European governments to adopt transformative actions that unconditionally recognize systemic racism, inequalities and inequities; fair and equitable trade and investment regimes between Africa and Europe while also consulting the African diaspora; an end to EU externalization of its border which has created EU borders on African soil; the return of what was stolen from communities – whether land, objects or the remains of ancestors; and inclusive dialogue where African communities lead the conversation on their terms.

“For far too long communities and individuals directly impacted by historical injustices have been demanding reparations, especially Indigenous Peoples and people of African descent, Rym Khadhraoui, researcher on racial justice at Amnesty International

As part of a wider Dekoloniale festival marking 140 years since the Berlin Africa Conference, African Futures Lab, Amnesty International and Human Rights Watch organized a joint workshop to explore strategies for communities impacted by colonial legacies – and who continue to be affected today – to achieve justice and fulfilment of their human rights in line with European governments’ obligations under international human rights law.

“For far too long communities and individuals directly impacted by historical injustices have been demanding reparations, especially Indigenous Peoples and people of African descent,” said Rym Khadhraoui, Amnesty International’s racial justice researcher. “Colonialism, enslavement, the slave trade and their ongoing legacies remain largely unaccounted for by European states and others who are responsible.”

Based on experts’ interventions, participants at the workshop shared and exchanged reparations struggles they have experienced and obstacles to upholding communities’ rights. Participants noted the failure of meaningful consultations of affected communities in the Namibia-Germany negotiations process to address Germany’s colonial crimes in Southwest Africa and by the UK government in the context of its negotiations with Mauritius around sovereignty over the Chagos Islands.

“Reckoning with these European colonial legacies is not optional for European governments, it’s an obligation under international human rights law. Almaz Teffera, researcher on racism in Europe at Human Rights Watch

African Futures Lab recently released a report on the Métis children— children of mixed African and European ancestry — abducted by Belgium’s colonial administration. In the Great Lakes region, organizations concerned with the rights of Métis children are demanding concrete reparations measures from the Belgian state. Five Métis women, who were forcibly taken during Belgium’s colonization of Congo, are pursuing legal action in Belgium against the Belgian state. They seek justice and reparations for crimes against humanity, with a ruling expected in early December.

“Reckoning with these European colonial legacies is not optional for European governments, it’s an obligation under international human rights law,” said Almaz Teffera, researcher on racism in Europe at Human Rights Watch. “European governments should embrace the need for victim-centred reparations processes that genuinely recognize and address the ongoing harms and losses as a result of their historic actions over the years.”

Going forward, those affected by colonialism are calling for accountability and acknowledgment of the historical injustices of European colonialism and its impacts on human rights in line with European governments’ obligation under international human rights law.

The far-reaching impacts are manifold, with Amnesty International highlighting the impacts of colonialism in a submission to the United Nations Special Rapporteur on contemporary forms of racism, racial discrimination, xenophobia and related intolerance.

It’s time to dismantle these structures and correct the historical wrongs that still shape our world today.Geneviève Kaninda, advocacy and policy officer at African Futures Lab

“Governments can no longer dismiss our call for reparations—they must be held accountable,” said Geneviève Kaninda, advocacy and policy officer for African Futures Lab. “True reparatory justice isn’t just a step forward; it’s a necessity for building a fair and equitable world rooted in racial justice. The colonial legacies of oppression have entrenched systemic racism, widened global wealth gaps, and fuelled inequality. It’s time to dismantle these structures and correct the historical wrongs that still shape our world today.”

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Ministro invocou motivos de agenda para não receber Francesca Albanese



Francesca Albanese veio esta semana a Portugal para dar algumas conferências sobre o genocídio em Gaza e o Direito Internacional. Na quarta-feira esteve no ISCTE, esta quinta-feira irá ao CCB e na sexta é a vez da Universidade de Coimbra. Pelo meio está previsto um encontro no Ministério dos Negócios Estrangeiros, mas o ministro Paulo Rangel, que recentemente teve de recuar na sua posição sobre a bandeira portuguesa no navio que transporta explosivos para Israel, invocou motivos de agenda para não a receber. E em vez de ser recebida por um secretário de Estado, será um diretor-geral do Ministério a marcar presença no encontro.

Na manhã desta quinta-feira, a relatora especial da ONU foi recebida por deputados na Assembleia da República. No final do encontro, a coordenadora bloquista Mariana Mortágua lamentou que o ministro tenha optado por não receber Francesca Albanese “como era sua responsabilidade como representante do Governo português”. E considerou a ausência como “mais uma das contradições do Governo” no que diz respeito à Palestina, a juntar à da defesa dos dois estados sem reconhecer o Estado da Palestina. E para o Bloco a prioridade agora passa por reconhecer o Estado da Palestina e parar o massacre, caso contrário “não vai ter população para reconhecer daqui a uns meses”.

Mariana Mortágua destacou a importância da presença de Albanese no Parlamento português, elogiando a forma clara e simples como coloca o problema que está em causa: que “as ações de Israel só podem ser enquadradas num projeto racista, expansionista, de ocupação do território palestiniano e extermínio da sua população” e que por isso “não se trata de uma resposta, de uma defesa, não se trata sequer de uma vingança, mas sim de “um plano de longo prazo” para a Palestina com aquelas características.

A coordenadora do Bloco criticou ainda o ministro Paulo Rangel por dizer na ONU que Israel tem o direito à legítima defesa mas que cometeu “excessos” em Gaza. “O genocídio não é excesso, é crime internacional”, prosseguiu Mariana, concluindo que o argumento dos “excessos” não faz mais do que revelar “a natureza da cumplicidade” de muitos estados com Israel. A coordenadora do Bloco agradeceu ainda a pressão feita por Albanese para a retirada da bandeira portuguesa do navio Kathrin, considerando-a “decisiva” para a “vitória da mobilização popular e da pressão que fizemos” junto do Governo que tinha começado por negar que houvesse navio e depois que houvesse explosivos a bordo.

Em conferência de imprensa na quarta-feira, Albanese congratulou-se com a retirada da bandeira do cargueiro Kathrin, mas sublinhou que “a questão mais urgente é saber o que é que Portugal vai fazer para não ter qualquer relação política, diplomática ou económica com Israel que possa prejudicar os palestinianos. O que é que o Governo vai fazer sobre o reconhecimento do Estado da Palestina. O que é que é preciso?”, questionou.

Albanese diz acreditar que “os arquitetos deste genocídio vão ser responsabilizados” e que a pressão sobre os governos para aplicarem o Direito Internacional “é um imperativo moral para todos nós”. Questionada sobre se o corte de relações diplomáticas com Israel não seria um passo excessivo, responde que “há um genocídio a acontecer, e mesmo se não lhe quiserem chamar genocídio, crimes de guerra, crimes contra a humanidade, o que seja: não se apoia um país no momento em que este comete atrocidades, e isto não começou ontem.”

A relatora das Nações Unidas defendeu que “este deve ser o momento para o Governo de Portugal ter um papel exemplar. Eu vejo como o vosso país vota nas Nações Unidas. Este é o momento de passar à ação. Qual é a coerência em dizer que concordam com a autodeterminação mas não reconhecem o Estado da Palestina? Isto é uma incoerência. Onde está o compasso moral da Europa?”, voltou a perguntar, contrapondo que “[os palestinianos] têm o direito de existir como povo num ou em dois Estados”.

Francesca Albanese foi também questionada pelos jornalistas sobre o recente anúncio de considerar o secretário-geral da ONU como persona non grata. “Já não há palavras. O mandato do secretário-geral vai ser marcado por este genocídio. Ele tem estado debaixo de grande pressão mas foi muito corajoso. Quanto ao facto de ter sido declarado persona non grata, já somos dois. É o que é”, concluiu.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Sudão: "A guerra mais esquecida do nosso tempo"

Os novos combates no centro do Sudão obrigaram 300.000 pessoas a fugir

No extremo leste do Chade, mulheres com roupas coloridas tentam cozinhar numa fogueira improvisada, em frente às tendas dos refugiados. Fazem parte das famílias da região de Darfur, no oeste do Sudão, que conseguiram fugir para o outro lado da fronteira, em direção ao Chade. Estão vivas, mas ficaram sem nada:

"Eu e o meu marido temos quatro filhos. A vida é muito difícil. Aqui recebemos um saco de 10 quilos de comida todos os meses, mas isso não chega. A comida simplesmente não é suficiente", contou à DW uma testemunha que não quer ser identificada.

As organizações internacionais de ajuda humanitária não têm fundos para fazer face à catástrofe humanitária. Só no Chade vivem pelo menos 800.000 refugiados do Sudão, diz Pierre Honnorat, do Programa Alimentar Mundial.

"Precisamos urgentemente de financiamento para esta crise. É urgente porque primeiro temos de comprar os alimentos e trazê-los para o Chade e depois transportá-los até aqui, para a fronteira, para que as pessoas aqui recebam pelo menos uma refeição por dia."

Sete milhões de refugiados
No Sudão, os dois homens mais poderosos do país estão em conflito desde abril passado. De um lado está Abdelfaftah al-Burhan, o chefe do Exército e presidente do Conselho Soberano do Sudão, do outro, o seu antigo adjunto, Mohamed Hamdan Dagalo, que comanda as chamadas Forças de Apoio Rápido.

Os combates alastraram-se a todo o país, afetando até zonas residenciais. A situação no Sudão não podia ser pior, disse recentemente Jan Egeland, diretor do Conselho Norueguês para os Refugiados, numa entrevista à emissora alemã ARD.

"Entristece-me que o mundo esteja a ignorar um dos maiores desastres humanitários da nossa geração. Sim, há a guerra na Ucrânia, a crise em Gaza. Mas como é que o mundo pode esquecer, em apenas alguns meses, que mais seis milhões de pessoas tiveram de fugir daqui? As mulheres estão a ser violadas, os hospitais estão a ser bombardeados, os campos de refugiados estão a ser bombardeados!"

Segundo os relatos, a situação é particularmente difícil na região de Darfur, no extremo oeste do Sudão. As milícias das Forças de Apoio Rápido voltam a ser acusadas de crimes brutais contra os direitos humanos. Vinte anos depois, a crise vivida no Darfur em 2003 parece estar a repetir-se, lembra Jan Egeland.

"O Darfur está atualmente a sofrer uma limpeza étnica maciça", começou por explicar o diretor do Conselho Norueguês para os Refugiados, que trabalha nas Nações Unidas há 20 anos.

"O Darfur era uma questão importante, o então Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush e o primeiro-ministro britânico Tony Blair estavam determinados a ajudar a população. Hoje, está a acontecer novamente o mesmo em Darfur - centenas de milhares de pessoas estão a ser deslocadas, milhares já foram massacradas - e ninguém parece ter consciência disso."

Comunidade internacional ignora Sudão?
A crise parece não ter fim à vista: até agora, todos os esforços de mediação internacional para um cessar-fogo falharam. Diz-se mesmo que algumas potências estarão a alimentar o conflito no Sudão, que é rico em matérias-primas - as milícias controlam várias minas de ouro no país.

As relações entre o Governo sudanês e as Nações Unidas são cada vez mais tensas. O enviado especial alemão Volker Perthes foi declarado "persona non grata" e demitiu-se. E o Sudão apelou à ONU para encerrar a missão de estabilização no país.

"Uma civilização inteira foi destruída, 24 milhões de pessoas precisam de ajuda. Se o que está a acontecer no Sudão estivesse a acontecer noutro lugar e não em África, estaria no topo da agenda política. É a guerra mais esquecida do nosso tempo."

Desde abril, a guerra entre o exército e as RSF já causou pelo menos 12 mil mortos e mais de sete milhões de deslocados no Sudão