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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O Telhado Chegava

Ricardo Meireles
No dia 28 de Abril de 2025, ao princípio da tarde, a Península Ibérica apagou-se em cinco segundos. Tenho familiares que nesse dia estavam debaixo de um telhado coberto de painéis, pagos à EDP, com o inversor de corrente instalado e a funcionar. O sol caía em cima da casa, os painéis absorviam a energia toda, e essa energia ia parar a lado nenhum. Nem uma luz se acendia lá dentro.

No mesmo dia, um casal amigo, a Alice e o André, que há muitos anos exploram com persistência os modos de vida mais resilientes, publicava numa rede social que o sol e umas baterias de chumbo compradas a preço acessível lhes estavam a dar a energia toda de que precisam para a vida frugal que com orgulho vão mostrando. O post recebeu uma série de comentários depreciativos. Entre eles, o argumento de que é muito fácil para quem tem terreno. Os painéis deles estão no telhado. Curioso.

Duas casas portuguesas, o mesmo sol, o mesmo dia. Numa, o investimento grande, o contrato com a empresa, a escuridão. Na outra, os painéis apoiados pelas baterias de chumbo e a luz acesa. A explicação técnica é simples: os sistemas ligados à rede desligam o inversor quando a rede cai, por segurança de quem repara as linhas, e os painéis ficam inúteis exactamente no momento em que fariam mais falta. O sistema foi desenhado para que os painéis sirvam a rede primeiro e a família depois. No dia em que a rede caiu, ficou claro quem serve quem.

A história por trás da explicação técnica é a de como um país desenhou, e depois desmontou, a hipótese de uma energia democrática.

Em 2007 a política energética portuguesa promovia a microprodução doméstica: instalava-se, ligava-se à rede, vendia-se tudo a uma tarifa bonificada, calculada de maneira a que o investimento se pagasse a si próprio. Milhares de famílias fizeram as contas, pediram crédito e ousaram subir ao telhado. E a área chegava. Chega ainda. João Joanaz de Melo, professor de Engenharia do Ambiente na Nova e ligado ao partido do Governo (PSD), resume o que os estudos dizem: “no edificado doméstico e de serviços português, temos área suficiente para produzir duas a três vezes o consumo das famílias e dessas empresas”. Três vezes. Sobre o caminho que se seguiu em vez desse: “Isto é uma iniquidade e um erro estratégico. Devíamos ter um metro descentralizado por cada metro centralizado.”

Um país com área construída para o triplo do que consome em casa reservou 456 mil hectares de solo rústico para centrais de escala. Entre uma frase e a outra há uma distância. Este texto é sobre a maneira como ela se foi abrindo. Ler texto completo aqui

Minha Análise
Caro Ricardo,
O teu texto é de uma lucidez e sensibilidade raras, porque consegue desmontar a narrativa oficial da transição verde a partir da realidade concreta da terra, da fatura das famílias e da própria física dos sistemas. A imagem do apagão - o contraste entre as casas conectadas à rede que ficaram às escuras e a resiliência simples da casa off-grid - resume com precisão a grande contradição do nosso tempo. O sistema não foi desenhado para dar autonomia aos cidadãos, mas para canalizar fluxos de capital e garantir o abastecimento de grandes atores.
Subscrevo por inteiro a tua crítica à ocupação de 456 mil hectares de solo rústico quando temos telhados e zonas impermeabilizadas de sobra. Ainda assim, a leitura do teu artigo faz-me pensar em alguns pontos que tornam esta equação ainda mais perversa e que reforçam a gravidade do que está a acontecer com o PSZAER.
Em primeiro lugar, há a questão do próprio consumidor que investe no telhado. Não se trata apenas de o inversor desligar por razões de segurança da rede; trata-se de um enquadramento regulatório que desincentiva ativamente a instalação de sistemas híbridos com comutação automática. A regulamentação e as exigências técnicas da DGEG e da ERSE foram construídas de tal forma que amarram o cidadão à infraestrutura central. Quem tenta criar a sua própria resiliência com armazenamento encontra barreiras burocráticas e custos acrescidos. Pagas o equipamento, mas a regra do jogo impede-te de usar a tua própria energia quando a rede falha.
Depois, há um lado de usurpação do planeamento local que o PSZAER concretiza sem rodeios. Ao transformar vastas manchas de solo rústico em zonas de aceleração, o poder central passa por cima dos Planos Diretores Municipais e da vontade das comunidades locais. Isto gera uma pressão especulativa brutal no campo: o pequeno agricultor ou quem está no terreno a tentar regenerar a terra com técnicas agroecológicas simplesmente não consegue competir com as rendas anuais por hectare oferecidas pelas multinacionais da energia. O programa não está apenas a disputar espaço ao eucaliptal; está a bloquear ativamente a regeneração e a soberania alimentar.
Outra grande contradição que se esconde por trás desses 456 mil hectares é a própria incapacidade física da rede elétrica nacional para absorver tanta energia sem armazenamento em grande escala. Nos dias de pico solar, o excesso de oferta sem capacidade de rede vai inevitavelmente conduzir ao corte forçado de produção, o chamado curtailment. Ou seja, vamos ver ecossistemas destruídos e solos selados para instalar painéis que, em vários momentos do ano, terão de ser desligados porque não há onde meter a eletricidade. E a ineficiência deste modelo acabará, como sempre, refletida na tarifa de uso da rede paga por todos nós.
Ao mesmo tempo, ao extrativismo energético para alimentar os data centers de Sines e a inteligência artificial do outro lado do Atlântico junta-se uma pegada hídrica da qual quase não se fala. Estes grandes agregados de servidores exigem volumes gigantescos de água para os seus sistemas de arrefecimento. Numa região do país estruturalmente fustigada pela seca, estamos a entregar o solo para a produção fotovoltaica e os aquíferos para arrefecer máquinas, tudo para processar dados que não deixam valor real no território que os acolhe.
No fundo, aquilo que o teu ensaio expõe brilhantemente é que a transição energética em curso não é uma transição de paradigma, mas apenas uma transição de combustível. Mantém-se a mesma lógica centralizadora, extrativista e colonizadora do território, trocando o carvão e o gás por hectares de silicone, e sacrificando a esponja viva do húmus em nome do consumo ilimitado das metrópoles e das grandes tecnológicas. Obrigado por pores em palavras aquilo que a terra e quem trabalha nela já sentem há muito tempo.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Acabei de submeter o meu parecer de discordância relativamente ao Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER)

Ler o texto aqui


Anexei o relatório do próprio Governo (Agenda Nacional de IA) e o mais recente relatório “Global Data Centers Outlook 2026”, elaborado pela JLL.

𝐀𝐜𝐞𝐥𝐞𝐫𝐚𝐫 𝐚𝐬 𝐙𝐀𝐄𝐑 𝐚 𝐭𝐨𝐝𝐨 𝐨 𝐜𝐮𝐬𝐭𝐨? 𝐍𝐚̃𝐨 𝐚 𝐞𝐬𝐭𝐞 𝐩𝐫𝐞𝐜̧𝐨
Como o litoral e as grandes áreas metropolitanas (como Lisboa e Porto) estão com a rede elétrica severamente saturada, direcionar as ZAER para o interior ajuda a equilibrar a Rede Elétrica Nacional (REN). Ao produzir energia nestas zonas e ao acoplá-las a novos sistemas de armazenamento de grande escala (baterias), torna-se viável abastecer os grandes centros de consumo e de dados através de linhas de transporte de alta tensão que atravessam o país, sem sobrecarregar ainda mais os nós elétricos do litoral.

Isto é a narrativa por detrás das ZAER.

O grande paradoxo de toda esta história é simples: a eletricidade produzida nestes novos moldes não vai para as pessoas que vivem na região. Vai, quase toda, alimentar os servidores gigantes de multinacionais como a Amazon, a Google ou a Microsoft.

O negócio funciona através de acordos privados a longo prazo, conhecidos na gíria como PPAs (Power Purchase Agreements). Na prática, uma elétrica constrói o parque solar no Alentejo ou no interior e vende essa energia diretamente à tecnológica por um preço fechado e muito baixo durante 10 ou 15 anos. Com isto, a multinacional garante energia barata e o "selo verde" para os seus relatórios financeiros de sustentabilidade, o promotor assegura o retorno do investimento e as populações locais ficam apenas com a paisagem desfigurada e menos terra para trabalhar.

Há ainda outro pormenor que quase ninguém explica e que pesa no bolso de todos. Para que essa eletricidade viaje do interior até aos grandes centros de dados ou ao litoral, é preciso construir novas linhas de alta tensão e subestações. Quem paga esta fatura milionária de expansão da rede? Nós. O custo das infraestruturas é diluído nas tarifas de acesso à rede que aparecem na fatura da luz de qualquer família portuguesa ao fim do mês. Acabamos, no fundo, a subsidiar indiretamente a rede que serve estas tecnológicas.

A Agência Europeia do Ambiente (AEA) classifica Portugal, a par de outros países do sul do continente como Espanha, Itália e Grécia, como uma das regiões europeias mais vulneráveis e pressionadas pelo stress hídrico. A agência considera a escassez de água no território nacional um problema altamente premente que exige políticas urgentes de resiliência. Atualmente, o país encontra-se bem acima do limiar de alerta de stress hídrico da União Europeia, sendo frequentemente apontado como o sexto país com maior pressão sobre os recursos hídricos durante o período do verão. Esta classificação sazonal deve-se ao facto de o período estival combinar uma seca meteorológica acentuada com uma redução severa dos caudais dos rios e um aumento drástico das captações para a agricultura irrigada, o turismo e o consumo doméstico.

Para medir esta pressão de forma técnica, a AEA utiliza o indicador de exploração de água conhecido como WEI+, que calcula a percentagem de água doce consumida face aos recursos renováveis disponíveis em cada região. Os padrões europeus estipulam que valores acima de 20% indicam stress hídrico, ao passo que valores acima de 40% sinalizam um stress severo e um uso insustentável da água. Embora a média anual portuguesa possa parecer moderada à escala global, as análises regionais e sazonais da agência revelam que as bacias hidrográficas do sul, nomeadamente as do Sado, do Mira e do Algarve, ultrapassam com frequência e de forma alarmante o limiar crítico de 40% durante a primavera e o verão.

Claro que Portugal precisa de apostar nas renováveis e fechar as centrais poluentes. Ninguém discute isso. Mas o modelo atual tem um forte cunho extrativista: o interior arca com os custos ambientais, perde o montado ou o olival e vê a sua paisagem descaracterizada, enquanto a riqueza, a eletricidade barata e os empregos qualificados vão para as sedes das empresas e para os polos tecnológicos do litoral.

A solução não passa por travar a transição, mas por mudar as regras do jogo. O licenciamento destes grandes projetos devia obrigar à criação de comunidades de energia locais, que distribuíssem parte da eletricidade de graça ou a preço de custo a quem vive e trabalha nessas regiões. Sem regras que protejam quem lá está, as novas zonas de aceleração do interior correm o risco de ser apenas o quintal de energia barata das grandes tecnológicas.

Esta vulnerabilidade é substancialmente agravada pela elevada dependência transfronteiriça de Portugal, uma vez que o país depende fortemente dos caudais de rios internacionais como o Tejo, o Douro e o Guadiana, que nascem em território espanhol. Esta circunstância deixa a segurança hídrica nacional exposta às decisões de gestão do país vizinho, especialmente em anos de seca ibérica severa. Além disso, a AEA aponta no seu diagnóstico que o problema em Portugal é potenciado pela ineficiência no consumo, estimando que até metade da água captada para a agricultura seja perdida por sistemas de rega desatualizados, enquanto as perdas nos setores industrial e urbano também continuam elevadas. Face ao cenário de alterações climáticas, as projeções da agência apontam para reduções que podem atingir 40% nos caudais dos rios durante o verão, reforçando o aviso de que o país não pode sustentar novos projetos de consumo intensivo e inflexível de água sem uma transição urgente para a reutilização de águas residuais tratadas.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Município de Oleiros dá parecer desfavorável ao Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (ZAER)

O Município de Oleiros reconhece a importância da transição energética, da descarbonização e da produção de energia a partir de fontes renováveis. No entanto, é de parecer desfavorável à proposta atualmente em consulta pública, por considerar que a mesma não assegura a adequada proteção do território e dos seus valores naturais, sociais e económicos.

A proposta abrange mais de 35 % do território do concelho de Oleiros, incluindo áreas próximas de habitações, captações e infraestruturas de abastecimento público de água, espaços florestais de elevado valor ecológico, património natural e zonas de forte vocação turística.

Na análise efetuada, o Município concluiu que subsistem insuficiências técnicas, metodológicas e territoriais, pelo que defende, entre outras medidas:
  • Redução significativa da área proposta para o concelho de Oleiros;
  • Exclusão das áreas ambiental e paisagisticamente mais sensíveis;
  • Validação cartográfica à escala municipal;
  • Definição de limites máximos de ocupação territorial por município;
  • Prioridade para a instalação de projetos em áreas já artificializadas, industriais, degradadas ou anteriormente intervencionadas;
  • Articulação efetiva com os instrumentos municipais de gestão do território.
O Município considera ainda que a política energética deve privilegiar o desenvolvimento de Comunidades de Energia Renovável e o reforço do autoconsumo, promovendo uma transição energética mais equilibrada e geradora de benefícios para as populações, em vez da concentração de grandes áreas de implantação suscetíveis de alterar de forma significativa a identidade e o modelo de desenvolvimento do território.

Para o Presidente da Câmara Municipal de Oleiros, Miguel Marques, “a posição assumida pelo Município não representa uma oposição às energias renováveis, mas sim, que a sua implementação deve ser compatível com a proteção dos recursos naturais, da floresta, da paisagem, do património e da qualidade de vida das populações.”

Consultar:

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Desinformação climática evolui: da inteligência artificial ao 'greenlash'


Especialistas dizem que a desinformação sobre o clima está a evoluir, concentrando-se cada vez mais em desmontar políticas verdes. Em paralelo, cresce o conteúdo gerado por inteligência artificial.
De rebater afirmações de que os invernos frios não provam que o aquecimento global é falso às alegações de que o clima muda naturalmente e, por isso, a humanidade não tem culpa, os cientistas passaram décadas a demonstrar a existência de uma crise climática.

Mas especialistas afirmam que estes discursos de desinformação estão a evoluir e que passam cada vez mais por desacreditar as políticas ambientais e a ação climática, em vez de negarem frontalmente o aquecimento global.

“A era do negacionismo climático está praticamente encerrada”, diz Ned Mendez, responsável pela investigação e análise na agência de campanhas digitais 411, à equipa de verificação da Euronews, O Cubo. “A indústria da desinformação desceu um degrau. Já não discute se a luta contra o aquecimento global é real, mas se a resposta é exequível, se é justa e se compensa o custo.”

“Quando pensamos em desinformação, tendemos a associá-la à negação da existência das alterações climáticas ou da sua origem humana. O que vemos hoje, porém, é que esta já não é necessariamente a forma mais comum que o fenómeno assume”, diz Eva Morel, secretária da entidade francesa de vigilância da desinformação climática, Quota Climat.

Este fenómeno insere‑se no contexto político mais vasto do “greenlash” - junção de “green” e “backlash” - que descreve a crescente resistência política à ação climática.

Apesar disso, a desinformação climática continua fortemente condicionada pela atualidade, explica Morel, moldada pelo debate político, pela publicação de documentos de política climática, por grandes encontros internacionais como as COP ou cimeiras europeias, bem como por fenómenos extremos como ondas de calor, cheias e incêndios florestais.

Estas narrativas não se limitam às redes sociais. Embora exista um consenso entre os dirigentes europeus de que as alterações climáticas são reais e exigem resposta, a negação continua presente no espaço político.

Na Alemanha, por exemplo, o partido de extrema‑direita Alternativa para a Alemanha (AfD) pôs em causa o consenso científico de que as alterações climáticas têm origem humana. Há também quem repita declarações do presidente norte‑americano, Donald Trump, que descreveu reiteradamente as alterações climáticas como uma “fraude” e atacou os governos europeus pelas políticas de ação climática, que apelidou de “green new scam”.

Ondas de calor alimentam desinformação
Mesmo assim, falsas alegações sobre a natureza das alterações climáticas continuam a surgir, a par da desinformação sobre as políticas climáticas.

Em junho, a onda de calor recorde na Europa desencadeou uma vaga de desinformação, incluindo publicações virais nas redes sociais que alegavam que as temperaturas elevadas não eram invulgares. Sustentavam que se alinhavam com picos de temperatura anteriores, citando ondas de calor ocorridas em Londres na década de 1970.

Climatologistas afirmam que estas alegações, além de enganadoras, aumentaram a hostilidade e o assédio de que estes cientistas são alvo, com muitos utilizadores online a culpá‑los pelo fracasso da ação climática.

“As pessoas argumentam que, no fundo, os [cientistas do clima] foram demasiado alarmistas, pouco pedagógicos, apontaram para soluções erradas e tomaram decisões erradas e que, por isso, a culpa é deles”, afirma Morel. “A responsabilidade é colocada sobre os especialistas.”

Estas narrativas falsas sobre a mais recente onda de calor europeia não são casos isolados. Quando, em outubro de 2024, o leste de Espanha recebeu em poucos dias a quantidade de chuva equivalente a um ano inteiro, a desinformação sobre um dos desastres naturais mais mortíferos da história do país, que tirou a vida a mais de 230 pessoas, ganhou grande força.

As alegações falsas incluíam acusações de que barragens tinham sido deliberadamente desmanteladas para agravar as cheias, bem como de que a estratégia de biodiversidade da União Europeia e a política de renaturalização dos rios estavam na origem do desastre.

Responsáveis políticos do partido espanhol de extrema‑direita Vox, que contesta a realidade das alterações climáticas, estiveram entre os principais difusores destas alegações.

Uma profunda desconfiança em relação às instituições alimentou estas narrativas, segundo Mendez. “Se alguém está predisposto a desconfiar de uma instituição, mesmo que ela forneça conselhos climáticos úteis, por exemplo, avisar que o nível da água será elevado às 16 horas, pode pensar: estão a inventar isto para provar uma tese.”

Ler mais
  1. A monetização das redes sociais, que alimenta a economia da atenção, funciona também como incentivo à desinformação climática.
  2. "Ilegal por Conceção" e Tóxica para o Planeta: A Amnistia Internacional Desmascara a IA

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Todos gostamos do ambiente, mas o ambiente sai muito caro


Com os preços atuais do biometano ainda não é possível descarbonizar a indústria. Esta foi uma conclusão transversal aos dois debates que decorreram hoje na Feira Nacional de Agricultura, promovidos pela Floene e a que o Expresso se juntou como media partner.

Portugal depende quase exclusivamente de gás importado e, a este nível, tem sido um dos países da Europa mais afetado pela subida generalizada de preços, resultante da guerra na Ucrânia. Contudo, uma das soluções pode estar no biometano, capaz de somar vantagens como a descarbonização, a competitividade industrial e a valorização territorial. No debate desta manhã na Feira Nacional de Agricultura (FNA), em que o tema foi ‘o biometano enquanto solução ambiental’, os vários participantes foram unânimes no diagnóstico de que o país tem potencial na produção desta energia renovável, mas continua longe de conseguir transformá-lo em escala.

Quando questionado sobre se o país está a aproveitar o seu potencial agropecuário, António Farracho não hesitou em garantir que “a resposta óbvia é que não”. O fundador e CEO da Prado Energia recorda que o biometano permite transformar “um passivo ambiental que não está a ser aproveitado, em ativo energético”, sobretudo em territórios rurais onde os odores e riscos sanitários associados aos efluentes são uma preocupação constante.

Contudo, e como referiu Nuno Pinto, o biometano é antes de tudo um caminho de qualificação territorial, o que significa que “os projetos têm de ser transparentes, sem segredos, e envolver todos os envolvidos, até as populações”. Ou seja, o responsável pela área do biometano na REGA Energy alertou para a importância da aceitação, que dependerá sempre da forma como se comunica e como se escolhem os locais, e lembrou que, no contexto europeu, o gás renovável é já um pilar estratégico. “O biometano é um dos fatores essenciais da soberania energética europeia”.

Do lado da comercialização, Óscar Delfim, diretor comercial B2B da Goldenergy, destacou a vantagem imediata para as empresas. “As empresas conseguem descarbonizar rapidamente e sem necessidade de investir nos equipamentos”. Mas alerta para aquele que considera o principal desafio: “Há uma grande dificuldade na parte dos licenciamentos”.

Já na perspetiva da indústria cerâmica, altamente exposta ao custo do gás, o biometano “é uma solução técnica já madura”. Paulo Pires, vice‑presidente da APICER (Associação Portuguesa Indústria Cerâmica), não tem dúvidas de que seria possível “substituir a 100% o gás natural por biometano”. Mas, à data de hoje, identifica o preço “incomportável para a indústria” e a falta de oferta como os grandes travões à descarbonização. “Todos gostamos do ambiente, mas o ambiente sai muito caro”, acrescentou Nuno Pinto.

Miguel Faria reforçou que o país está atrasado na política de resíduos e que isso limita a matéria‑prima disponível, lembrando que o biofertilizante resultante do processo “já permite substituir metade do fertilizante que vem da Rússia ou do que passa pelo Estreito de Ormuz”. Para o COO (Chief Operating Officer) da Floene, o desafio é “dar velocidade à implementação dos projetos”.

Mix perfeito não existe
Quando falamos de mix energético, Portugal não pode substituir uma dependência por outra, nem avançar para soluções simplistas num sistema que continua estruturalmente ancorado em combustíveis fósseis. A opinião é de Nuno Ribeiro da Silva, que abriu o debate da tarde no espaço Floene, na Feira Nacional de Agricultura, e que defendeu também que a transição energética não é um exercício tecnológico, mas um teste económico e geopolítico à resiliência dos países. Como lembrou o ex-presidente da Endesa, “quando dizemos que produzimos 80% da energia com fontes renováveis, falamos apenas da eletricidade, que representa menos de um quarto do total da energia consumida no país. O resto continua a ser petróleo e gás”.

Neste contexto, defendeu ainda Nuno Ribeiro da Silva, o gás, e sobretudo o biometano, permanece “a geração menos agressiva do ponto de vista ambiental”, sendo por isso inevitável no equilíbrio do sistema.

Do lado regulatório, Mário Paulo rejeitou a ideia de que a ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos) trava a transição. “A ERSE não faz leis”, sublinhou, lembrando que o regulador atua dentro das políticas definidas e que “acabar com o gás em dois ou três dias é uma fantasia tecnicamente impossível”. A Europa, acrescentou o presidente da ERSE, já reviu a sua posição e admite que o gás continuará a representar “cerca de 20% do mix energético em 2040”.

Gabriel Sousa, CEO da Floene, destacou que Portugal pode acelerar a adoção de biometano aprendendo com quem começou mais cedo. “Não é sempre mau sermos os últimos”, afirmou. França, Itália e Dinamarca mostram que o crescimento depende de mecanismos estáveis e de uma articulação entre energia, agricultura e resíduos. “Portugal vai precisar dos dois sectores”, defendeu, sublinhando que o país pode fazer “em três anos o que outros demoraram quinze a fazer”.

Nuno Ribeiro da Silva reforçou ainda que as tecnologias emergentes precisam de apoio, tal como aconteceu com a eólica e o solar. “Se fosse puramente o mercado, só as tecnologias incumbentes existiam”, disse, defendendo que o biometano representa uma oportunidade industrial acessível e integrável na economia nacional.

Outras conclusões:
  1. O potencial agropecuário português continua largamente por explorar, apesar de estar mapeado e quantificado. “O Concelho de Torres Vedras figura no Top 10 dos concelhos com maior produção de efluentes agropecuários”, exemplificou António Farracho.
  2. A aceitação social dos projetos depende da forma como são apresentados às comunidades. “Quando se chega a um território e se apresenta um projeto há sempre um fator de rejeição natural”, afirmou Nuno Pinto.
  3. Para Óscar Delfim, a produção nacional de biometano pode reduzir a exposição do país às flutuações internacionais do preço do gás. “Não estaremos sujeitos às acelerações de preços que têm sido fruto dos conflitos”.
  4. A indústria cerâmica enfrenta um risco real de perda de competitividade se não houver acesso a gás renovável a preços viáveis. “O problema que temos é um fator de competitividade”, alertou Paulo Pires.
  5. “A classificação dos resíduos como subprodutos é um passo essensial para desbloquear matéria‑prima para o biometano”, sublinhou Miguel Faria.
  6. A evolução do sistema energético não pode assentar em ilusões de substituição instantânea: exige convivência prolongada entre múltiplas fontes e uma gestão realista das limitações técnicas. “Neste processo de transição energética, temos de dar tudo para conseguir libertar‑nos deste uso que ainda fazemos do petróleo e do gás natural”, disse Nuno Ribeiro da Silva.
  7. “A regulação acompanha, mas não inventa políticas”, garantiu Mário Paulo. O regulador sublinha que o país precisa de soluções compatíveis com a sua estrutura industrial e que a transição não pode ignorar a história e o ritmo dos sistemas energéticos.
  8. Gabriel Sousa alertou que o biometano só avança se unir sectores que nunca trabalharam juntos. “Juntar energia, agricultura, resíduos, economia e indústria não é fácil, mas parece‑me absolutamente indispensável”.

sábado, 6 de junho de 2026

Saber não basta - décadas de investigação nas ciências comportamentais demonstram que a informação, por si só, raramente produz mudanças significativas de comportamento

O Fosso entre Saber e Agir (The Value-Action Gap) [relatório disponível aqui]

Nunca soubemos tanto sobre o clima. Os modelos atmosféricos tornaram-se mais sofisticados, as redes de monitorização produzem dados em tempo quase real e os relatórios do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) oferecem diagnósticos cada vez mais robustos sobre os riscos associados às trajetórias atuais de desenvolvimento. Paradoxalmente, quanto mais sólido se torna o conhecimento científico, mais insuficiente se revela para promover a transformação social, económica e política que os próprios dados reclamam.

O problema central do nosso tempo já não é a falta de informação. O verdadeiro desafio reside no fosso persistente entre aquilo que sabemos e o que fazemos. Décadas de investigação nas ciências comportamentais demonstram que a informação, por si só, raramente produz mudanças significativas de comportamento. Quando os riscos são percecionados como distantes, abstratos ou excessivamente complexos, a consciência do problema não se traduz necessariamente em ação.

Esta dificuldade é agravada pela natureza sistémica das crises contemporâneas. Os desafios atuais não surgem de forma isolada. Pelo contrário, interagem entre si de forma não linear. As alterações climáticas afetam a segurança alimentar e hídrica; a instabilidade energética amplia desigualdades económicas; as tensões geopolíticas comprometem respostas coordenadas a problemas globais; e a degradação dos ecossistemas aumenta vulnerabilidades sociais preexistentes. Vivemos numa realidade marcada pela interdependência, na qual perturbações localizadas podem produzir efeitos em cascata à escala planetária.

Durante décadas, as sociedades habituaram-se a interpretar as crises como interrupções temporárias da normalidade. Hoje, essa visão tornou-se insuficiente. A sucessão de choques ambientais, económicos e geopolíticos sugere que a instabilidade deixou de ser uma exceção para se transformar numa condição. Adaptar-se à incerteza tornou-se uma exigência permanente.

Esta transformação tem consequências profundas. A exposição prolongada a narrativas de risco e urgência gera uma ansiedade difusa, alimentada pela perceção de que os problemas se acumulam mais rapidamente do que a capacidade coletiva para os resolver. A dificuldade crescente em imaginar futuros estáveis e desejáveis converte-se num fator de vulnerabilidade por direito próprio.

A psicologia ajuda-nos a compreender este fenómeno. A repetição constante de alertas pode reduzir gradualmente a intensidade da resposta emocional. Embora este mecanismo tenha valor adaptativo no curto prazo, pode tornar-se contraproducente quando prolongado. A preocupação converte-se em resignação, a confiança nas instituições enfraquece e as decisões passam a orientar-se pelo imediato. Um dos maiores riscos das sociedades contemporâneas poderá não ser apenas a multiplicação das crises, mas a erosão da capacidade coletiva para lhes responder.

No entanto, são muitos os progressos alcançados. A expansão das energias renováveis acelerou a um ritmo histórico, os custos da energia solar e do armazenamento diminuíram drasticamente e a capacidade científica para prever fenómenos extremos melhorou de forma notável. Estes avanços demonstram que a inovação, a cooperação e o investimento de longo prazo podem produzir mudanças significativas.

Sabemos hoje mais sobre os riscos que ameaçam as sociedades humanas do que em qualquer outro momento da história. Dispomos de conhecimento científico, capacidade tecnológica e experiência acumulada para enfrentar muitos desses desafios. O verdadeiro teste do nosso tempo já não reside na produção de mais informação, mas na capacidade de traduzir conhecimento em decisão, cooperação e compromisso coletivo. Saber continua a ser indispensável, mas deixou de ser suficiente.
Diário de Coimbra, 02/06/2026

Leituras recomendadas:
A. O Fosso entre Saber e Agir (The Value-Action Gap)
A premissa de que "dar informação não muda comportamentos" é o calcanhar de Aquiles da comunicação de ciência.
  • George Marshall (Livro: Don't Even Think About It: Why Our Brains Are Wired to Ignore Climate Change): Este livro explora exatamente o que a autora descreve: como o cérebro humano lida mal com riscos abstratos, distantes no tempo e geograficamente distantes.

  • Per Espen Stoknes (Livro: What We Think About When We Try Not To Think About Global Warming): Stoknes, um psicólogo e economista norueguês, identificou as "5 barreiras psicológicas" para a ação climática (Distância, Destruição, Dissonância, Negação e Identidade). O texto de Helena Freitas reflete quase diretamente o trabalho de Stoknes ao falar sobre a "redução da resposta emocional" e a "resignação".

B. O Conceito de Policrise e Efeitos em Cascata
A secção sobre crises que "interagem entre si de forma não linear" bebe diretamente da literatura sociológica contemporânea.
  • Adam Tooze (Historiador e Economista): Popularizou o termo "Policrise" para descrever como a crise climática, a geopolítica, a inflação e as pandemias já não são eventos isolados, mas uma rede interligada onde um choque amplifica o outro.

  • Thomas Homer-Dixon (Artigos sobre Complex Systems and Cascading Regimes): Investigador que estuda como o stress ecológico interage com o stress económico e político, levando ao colapso ou à necessidade de resiliência sistémica.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

O futuro passa pelas Comunidades de Energia Renovável (CER) mas com mais reindustrialização solar dentro da Europa /União Europeia

Produção e partilha de energia limpa por um grupo de cidadãos e instituições públicas e privadas a custos vantajosos com redução significativa da emissão de CO2 é o foco que está na origem da criação das Comunidades de Energia Renovável (CER).

Em 2019 foi introduzido em Portugal o Decreto-Lei n.º 162/2019 que define as bases para a criação destas Comunidades. A energia solar é a fonte de energia preferencial na Europa para a criação de CER pela abundância, custos mais reduzidos e simplicidade do planeamento da instalação. Conheça neste artigo o que são as Comunidades de Energia Renovável, como se podem constituir e quais os seus benefícios.

De acordo com o Fundo Ambiental, as Comunidades de Energia Renovável tornam possível que cidadãos, empresas e entidades públicas e privadas, produzam, consumam, partilhem, armazenem e vendam a energia produzida a partir de fontes de energia renováveis. Desta forma, participam ativamente na transição energética, na transformação das redes elétricas convencionais em redes elétricas inteligentes e, ao mesmo tempo, conferem maior qualidade de serviço e segurança de abastecimento, ao permitirem a integração significativa de fontes renováveis.

CER – O que são e como funcionam?
Uma Comunidade de Energia Renovável (CER) reúne cidadãos, empresas e instituições, inclusive Municípios, na realização de projetos de energia renovável com proveito e partilha dessa energia para satisfazer as suas necessidades locais. Baseia-se numa participação aberta e voluntária dos seus membros que estão localizados na proximidade desses projetos. O objetivo principal de uma CER é proporcionar aos seus membros e às localidades onde se encontra benefícios ambientais, económicos e sociais.

O Decreto-Lei n.º 162/2019 que regula as CER visa facilitar a participação ativa na transição energética de empresas e de cidadãos interessados em investir, sem subsídios públicos, em recursos energéticos renováveis que respondam às necessidades de consumo.

Os membros de uma Comunidade de Energia Renovável têm de ter proximidade geográfica e podem organizar-se entre si para Autoconsumo Coletivo (ACC). No entanto, enquanto no Autoconsumo Coletivo os autoconsumidores têm de ser proprietários das instalações de autoconsumo, no caso das CER esta obrigatoriedade não se coloca. Ou seja, a Comunidade de Energia Renovável destina-se à satisfação das necessidades de energia elétrica dos seus membros e não tem necessariamente de ser proprietária das instalações de consumo que deverá alimentar, mas apenas da(s) Unidade(s) de Produção para Autoconsumo (UPAC).

Para clarificar, o Autoconsumo Coletivo refere-se à atividade de produção de energia renovável para consumo próprio através de uma ou mais Unidades de Produção para Autoconsumo (UPAC), constituída por, pelo menos, dois autoconsumidores locais. Destina-se à satisfação das necessidades de energia elétrica dos autoconsumidores que constituem o coletivo que são também proprietários da(s) UPAC(s) e das instalações de consumo e partilham a energia de acordo com coeficientes previamente definidos pelos próprios. Os autoconsumidores são, assim, detentores dos contratos de fornecimento de energia elétrica que devem ser alimentados pelo coletivo.

Quais os benefícios de uma Comunidade de Energia Renovável?
O principal benefício é a redução na fatura da eletricidade que pode alcançar uma média de 30%. Uma poupança considerável numa altura em que os preços da eletricidade alcançam máximos históricos. Para a indústria é particularmente relevante, tendo em conta que a eletricidade influencia muito o custo de produção, logo, a rentabilidade ou até a manutenção do negócio.

Outro benefício imediato é a redução de CO2 e o consequente impacto benéfico no planeta. As Comunidades de Energia Renovável podem desempenhar um papel fundamental no cumprimento das metas e objetivos de Portugal e da Europa no que se refere ao clima e à sustentabilidade.

A criação de Comunidades de Energia Renovável tem ainda como objetivo estimular a coesão social e territorial ao envolver pessoas e instituições públicas e privadas, o que pode gerar emprego e contribuir para uma melhor distribuição do tecido empresarial por todo o país e também proporcionar maior competitividade.

A partilha do excedente de produção de energia elétrica das Comunidades é outra das vantagens.

Que fonte de energia renovável escolher para criar uma CER?
A maioria dos projetos de Comunidades de Energia em desenvolvimento na Europa são de energia solar. A energia solar revela-se a mais indicada para este tipo de projetos por vários fatores.

Quais os fatores que tornam a energia solar a principal escolha para criar uma Comunidade de Energia Renovável?
Um deles, no caso concreto de Portugal, tem a ver com a abundância. Portugal é um dos países da Europa com maior disponibilidade de radiação solar: 2.500 a 3.200 horas de sol por ano. Outro, é o baixo custo quando comparado a outras fontes renováveis. Além disso, o planeamento de uma instalação fotovoltaica é mais simples. De acordo com o mesmo guia, a energia solar é uma ótima opção para ambientes urbanos e tem um grande impacto na criação de empregos e no desenvolvimento económico local.

Como constituir uma Comunidade de Energia Renovável?
O novo Decreto-Lei define as bases para o Autoconsumo Coletivo (ACC) e Comunidades de Energia Renovável (CER) que se tratam de novos modelos de organização local de autoprodução de energia que apresentam novas oportunidades para as comunidades locais de consumidores, para a indústria e para os fornecedores de serviços e tecnologias de autoprodução e autoconsumo a partir de fontes de energia 100% limpa. Significa que particulares, Autarquias, Juntas de Freguesia, Parques Industriais e pequenas e médias empresas podem tornar-se produtores, armazenistas e vendedores de energia. Assim, é possível alcançar uma redução da fatura de eletricidade, através de uma utilização sustentável dos recursos locais disponíveis na própria comunidade, bem como contribuir para as metas de descarbonização e, com isso, para um planeta mais saudável.

Como constituir então uma Comunidade de Energia Renovável?
A Comunidade pode ser constituída por pessoas físicas ou jurídicas e qualquer entidade pública ou privada que queira criar uma Comunidade de Energia Renovável. Até mesmo um conjunto de pessoas que vive no mesmo bairro pode fazê-lo.

O primeiro passo é escolher uma área próxima dos consumidores para instalar a estrutura para a produção. Este passo é de extrema importância. Se estivermos a falar de um sistema fotovoltaico para autoconsumo, a área deve ter uma boa exposição solar para assegurar que se obtém o melhor rendimento. Opções podem ser telhados ou terrenos.

No caso das Comunidades de Energia Renovável, a estrutura selecionada não precisa de ser propriedade da comunidade, a não ser que se opte pela solução de Autoconsumo Coletivo. Numa CER, a estrutura pode ser fornecida por um ou mais membros da Comunidade ou até por outras pessoas ou entidades que não fazem parte da Comunidade.


Quais os incentivos para constituir uma Comunidade de Energia Renovável (CER)?
Apesar do Decreto-Lei que serve de base à criação das Comunidades de Energia Renovável ter entrado em vigor no início de 2020, em Portugal ainda são conhecidas poucas Comunidades de Energia Renovável. Foi lançado de 14 de junho a 31 de outubro de 2022 um concurso com um apoio total de 30 milhões de euros para a criação de Comunidades de Energia Renovável (CER) e Autoconsumo Coletivo (ACC). Um concurso integrado no programa “Eficiência energética em edifícios de serviços” e com apoios disponíveis para edifícios residenciais, de serviços e da Administração Pública. O aviso de abertura do concurso está disponível aqui.

O objetivo é o financiamento do Autoconsumo Coletivo e das Comunidades de Energia Renovável como modelos essenciais para assegurar a produção de energia elétrica a partir de fontes renováveis. De acordo com a Recuperar Portugal, espera-se que este apoio permita alcançar cerca de 30% do consumo de energia primária nos edifícios beneficiados, o que representa 93 MW.

Novas medidas em 2026 (Decreto-Lei n.º 58/2026 e atualizações da DGEG) visam acelerar o licenciamento, reforçar o acesso às redes e criar modelos de partilha mais justos, reduzindo a burocracia.

Minha análise
Ponto 1 - O modelo energético que as políticas públicas devem incentivar cada vez mais é o da energia dos e para os cidadãos e cidadãs. A legislação já permite o desenvolvimento de Comunidades de Energia Renovável (que não são as "comunidades energéticas ou de energia" publicitadas por grandes empresas do ramo), mas sim associações, cooperativas, fundações ou sociedades sem fins lucrativos em que pessoas que vivem na mesma zona (num raio de 2 - 4 km consoante os casos) se juntam para produzir, partilhar energia renovável e desenvolver outras atividades na área da energia, como compras coletivas para renovação energética das suas casas, mobilidade partilhada elétrica, literacia energética, entre outras. O caminho da autonomia e da descarbonização passa pela cooperação! A Comunidade de Energia Renovável de Telheiras/Lumiar, da Associação Viver Telheiras com o apoio da Junta de freguesia do Lumiar, é um exemplo pioneiro de base cidadã, mas há outros na Culatra, na Comenda e em todo o país a dar os primeiros passos. Isso sim é que o Governo deve apoiar com incentivos fiscais, financiamento e capacitação técnica. A Coopérnico tem apoiado tecnicamente vários projetos, tem em curso um programa de mentoria e tem feito um enorme esforço de defesa da clarificação da lei, da desburocratização e da agilização dos procedimentos para os cidadãos se envolverem e recolherem os benefícios dessa participação democrática no setor da energia. Mas as políticas e entidades públicas têm de ser coerentes, mostrar claramente o caminho e não obstaculizar o modelo descentralizado gerido pelos cidadãos e cidadãs

Ponto 2- Há um grande dilema aqui. Ficar refém dos fabricantes chineses de painéis solares, baterias e aerogeradores é reduzir a dependência energética? Se a UE vai proibir os inversores chineses porque continua a importar os outros equipamentos que podem pôr em causa a segurança energética europeia? Fonte

quinta-feira, 5 de março de 2026

Solar e Agricultura: como os projetos agrivoltaicos apoiam os agricultores e a economia rural?


Os projetos agrivoltaicos são uma solução prática que combina a atividade agrícola com a produção de eletricidade a partir de energia solar no mesmo terreno, permitindo um duplo uso do solo. Com um bom planeamento, os projetos agrivoltaicos asseguram que a terra continue produtiva, gerando novos rendimentos para os proprietários e proporcionando maior estabilidade às comunidades locais.

Estudos recentes indicam que a implementação de projetos agrivoltaicos na União Europeia pode aumentar a eficiência do uso do solo, permitindo manter o rendimento agrícola, promovendo soluções como o pastoreio e a apicultura.
Protegendo a agricultura através da transição energética

A transição energética é um dos maiores desafios da atualidade, e a energia solar assume um papel central nesse processo. Segundo a International Renewable Energy Agency (IRENA), em 2024 foram adicionados 585 GW de nova capacidade renovável a nível global, representando 92,5% de toda a expansão de capacidade elétrica.

À medida que a energia solar cresce, surge uma questão essencial: como maximizar o uso do solo, conjugando simultaneamente a produção energética e a atividade agrícola?

O que são projetos agrivoltaicos e como funcionam?
Esta tipologia de projetos combina a agricultura com a produção de energia solar no mesmo terreno instalando painéis solares de forma a permitir a continuidade do uso agrícola do solo, seja para pastoreio, culturas específicas ou apicultura.

Exemplos comuns incluem:
  1. Pastoreio de ovinos
  2. Culturas de baixo porte adaptadas à sombra parcial
  3. Instalação de colmeias
A estrutura dos painéis (cerca de 2,5 a 3 metros no ponto mais alto) permite a circulação de animais e a manutenção da atividade agrícola regular, combinadas com a produção de energia solar.

Projetos agrivoltaicos e rendimento agrícola: dados concretos
Estudos internacionais indicam que esta tipologia de projetos permite:
  1. Reduzir a perda de água das culturas, mitigando o stress hídrico em contextos de calor extremo através de sombreamento parcial

  2. Melhorar a produtividade de determinadas culturas sensíveis ao calor extremo
  3. Aumentar a eficiência do uso dos solos
Para agricultores rurais, isto traduz-se em:
  1. Diversificação de fontes de receitas
  2. Redução da dependência exclusiva de ciclos agrícolas voláteis
  3. Maior previsibilidade financeira a longo prazo
Projetos agrivoltaicos e economia rural: impacto local
Para além do rendimento direto para agricultores, os parques solares podem gerar benefícios económicos locais:
  1. Contratação de serviços locais
  2. Receita fiscal municipal
  3. Estabilidade financeira para proprietários de terrenos
  4. Criação de emprego durante construção e operação – o setor solar fotovoltaico é o maior empregador global nas renováveis, representando cerca de 4,9 milhões de empregos em 2022
Promoção de soluções que favoreçam biodiversidade e polinizadores

Apicultura e energia solar: uma parceria natural
Parques solares integrados em modelos agrivoltaicos podem apoiar polinizadores e apicultores locais, integrando apicultura e energia solar na atividade agrícola existente.

A criação de prados floridos e zonas de pastoreio solar permite instalar colmeias, monitorizar a biodiversidade e gerar rendimento complementar, contribuindo para reforçar a economia rural.

Como os projetos agrivoltaicos apoiam agricultores e economia rural?
Os projetos agrivoltaicos apoiam agricultores ao permitir que continuem a utilizar a terra para a atividade agrícola enquanto geram rendimento adicional através da energia solar. Este modelo diversifica receitas, reduz riscos associados à variabilidade climática e contribui para a estabilidade económica das comunidades.

Energia solar e agricultura: possibilidades de uso duplo do solo
Quando cuidadosamente planeados, os parques solares funcionam de forma a complementar a atividade agrícola, não a inviabilizá-la ou substituí-la. A transição energética pode ser também uma estratégia de revitalização rural.

domingo, 8 de janeiro de 2023

No meio da natureza, Fabrizio Cardinali vive há 51 anos sem electricidade e nem pensa nos custos da energia

Fabrizio Cardinali vive de forma completamente autónoma há 51 anos, nas colinas de Verdicchio, em Itália. É uma das poucas pessoas na Europa despreocupadas com o aumento dos custos de energia.


Fabrizio Cardinali, 72 anos, não deseja as luzes brilhantes da cidade. Na realidade, não tem qualquer utilidade para a electricidade e há mais de meio século que vive sem estar ligado à rede.

Isto faz dele uma das poucas pessoas na Europa despreocupadas com o aumento dos custos de energia, neste Inverno.

Cardinali, cuja longa barba branca o faz parecer Karl Marx, o poeta Walt Whitman ou um Pai Natal magro, vive numa casa de pedra nas colinas da região vinícola de Verdicchio, perto de Ancona, na costa oriental do Adriático italiano.

 Fabrizio Cardinali, 72 anos, sentado na cozinha 

Fabrizio Cardinali na cozinha 

Por opção, não tem electricidade, nem gás, nem canalização interior.

"Não estava interessado em fazer parte do mundo como estava. Então, deixei tudo — família, universidade, amigos, a equipa de desporto e parti numa direcção completamente diferente", diz, sentado na cozinha a usar calças de bombazina remendadas. "Desistir de algo não é masoquista. Tu desistes de alguma coisa para conseguir outra mais importante."

Antes, vivia completamente sozinho

Agora, Fabrizio tem dois companheiros de casa, um galo, três galinhas e um gato numa comunidade a que chama "A Tribo das Nozes Harmoniosas".

Cardinali apanha azeitonas 

Os visitantes que procuram Cardinali e os seus amigos são aconselhados pelos habitantes da cidade mais próxima a seguirem o estreito caminho de terra que começa ao lado de um carvalho que hasteia uma bandeira de paz multicolorida.

Cardinali e os companheiros de casa, que apenas disseram chamar-se Agnese e Andrea, contam com um fogão a lenha para cozinharem e se aquecerem, e lêem com a ajuda de lâmpadas alimentadas a óleo de cozinha usado doado pelos vizinhos.

"Sinto-me privilegiada por ter a liberdade para escolher a minha liberdade", diz Agnese, 35 anos, que se mudou para ali há dois anos. Andrea, 46 anos, passa lá a semana, mas regressa a Macerata, a cerca de 50 quilómetros de distância, todos os fins-de-semana, para tomar conta da mãe.

 Agnese prepara o almoço na cozinha de madeira 

 Agnese, 35, Andrea, 46, e Cardinali almoçam juntos 

As "nozes harmoniosas" cultivam frutas e legumes, azeitonas para azeite, e abelhas para o mel. Uma cooperativa local vende-lhes sacos de leguminosas, cereais e trigo, que moem para fazer o seu próprio pão.

Quando é possível, trocam qualquer produção excedentária por tudo o que precisam.

Embora algumas pessoas o tenham apelidado de "o Eremita de Cupramontana", Cardinali diz que não é um eremita. Em vez disso, acredita que a vida é melhor vivida em pequenas comunidades.

 Cardinali quando fazia parte dos Carabiniere (polícia paramilitar) 

O primeiro conselho que dá a qualquer pessoa tentada a seguir o seu exemplo é: "Deitar fora o chamado telemóvel inteligente".

Cardinali percorre ocasionalmente curtas distâncias para visitar amigos, levar azeitonas a um lagar de pedra para produzir azeite e caminhar ou apanhar boleia até à cidade mais próxima para tomar um café com os habitantes locais ou visitar o médico.

"Vivo desta forma há cerca de 51 anos e nunca me arrependi. Com certeza, houve dificuldades, mas nunca me fizeram pensar que tinha feito a escolha errada ou deitado tudo a perder", diz. " De forma alguma.".
Reportagens: 

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Já conhece o "Comunidades de Energia: Um Guia Prático"?

Pretende ser um manual de referência, repleto de instruções, dicas práticas e recursos para cada cidadão poder começar uma comunidade de energia e participar na revolução renovável europeia, liderada pelas comunidades locais.


Este manual foi criado pela Friends of the Earth Europe, pela REScoop.eu e pela Energy Cities. A Coopérnico traduziu-o para português.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Portugal Livre de Minas - Publicação colaborativa gratuita


A publicação "Portugal Livre de Minas" é um projecto colaborativo criado em defesa de todas as terras portuguesas em risco de exploração mineira, em particular de lítio. Inclui uma compilação de textos, poemas, fotos e artivismo criados por vários indivíduos e colectivos, e pretende sensibilizar a população portuguesa para o impacto que a exploração de lítio terá nas zonas ameaçadas, nas quais muitos de nós temos raízes. 
DOWNLOAD AQUI

Sabemos que as baterias de lítio são promovidas como uma solução para a criação da tão desejada "energia limpa". Porém, é sabido que os impactos da mineração de lítio são enormes, incluindo a poluição das águas e dos solos, a degradação da vida e saúde das comunidades locais, e a alteração irreversível da paisagem. A "energia verde" não pode nem deve ser criada a qualquer custo. É urgente repensar as soluções que temos na mesa, mantendo as populações locais e as futuras gerações no centro na conversa. 

AJUDEM-NOS A DIVULGAR ESTE PROJECTO 
O nosso desejo é que esta publicação chegue longe, como sementes ao vento, e que o máximo número de pessoas possa ter acesso a ela, independentemente de terem ou não acesso a um computador ou à internet. Assim, incentivamos que divulguem esta zine não só nas redes sociais, mas também fora delas, imprimindo-a em casa da melhor forma que conseguirem e distribuindo-a nas vossas comunidades. 

Pela nossa terra livre, soberana e sagrada