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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O aquecimento dos oceanos causa uma redução anual de 20% no número de peixes

O aquecimento crónico e prolongado dos oceanos é o responsável pelo declínio anual de quase 20% na biomassa de peixes (o peso total dos peixes capturados vivos em redes de arrasto), segundo pesquisadores do Museu Nacional de Ciências Naturais da Espanha e da Universidade Nacional da Colômbia.

A pesquisa, desenvolvida nas águas do Mediterrâneo, do Atlântico Norte e do Pacífico Nordeste, baseia-se na análise de 702.037 estimativas de mudanças na biomassa de 33.990 populações de peixes registadas entre 1993 e 2021 no Hemisfério Norte.

Os dados coletados, segundo os pesquisadores, devem ser cruciais para aprimorar a gestão da pesca e a conservação dos ecossistemas marinhos, dos quais depende grande parte da segurança alimentar mundial; hoje, 25 de fevereiro, eles publicam os resultados do seu trabalho na revista Nature Ecology and Evolution.

Shahar Chaikin, pesquisador do Museu Nacional de Ciências Naturais, explicou à EFE que calcularam essa perda de 'biomassa' analisando o peso total dos peixes vivos capturados em redes de arrasto de fundo durante o período abrangido pelos estudos científicos, que inclui espécies comerciais e não comerciais.

As ondas de calor marinhas, cada vez mais frequentes, não afetam todos os peixes da mesma forma, pois há populações que "perdem" e outras que "ganham", e o estudo mostra que tudo depende da zona de conforto térmico, a faixa de temperatura ideal na qual cada espécie cresce e se desenvolve melhor.

No final das contas, ninguém ganha.
Shahar Chaikin afirmou que, tanto globalmente quanto em nível populacional (em locais específicos), a tendência geral é de diminuição dessa biomassa à medida que os oceanos aquecem, e declarou que o resultado final do trabalho é que "ninguém ganha a longo prazo".

Quando uma onda de calor leva os peixes em águas já quentes além de sua zona de conforto térmico, a sua biomassa pode cair até 43,4%, mas as populações em áreas mais frias muitas vezes prosperam temporariamente com o aumento das temperaturas, aumentando a sua biomassa em até 176%.

“Embora esse aumento repentino na biomassa em águas frias possa parecer uma boa notícia para a pesca, trata-se de um aumento temporário. Se os gestores aumentarem as quotas de pesca com base no aumento da biomassa causado por uma onda de calor, correm o risco de provocar o colapso dos stocks quando as temperaturas voltarem ao normal ou quando o efeito do aquecimento global a longo prazo se consolidar, porque esses aumentos são pontuais”, alertou Chaikin.

“Ao contrário das flutuações climáticas de curto prazo, que podem variar drasticamente, o aquecimento crónico exerce uma pressão negativa constante sobre as populações de peixes no Mar Mediterrâneo, no Oceano Atlântico Norte e no nordeste do Oceano Pacífico”, disse Juan David González Trujillo, pesquisador da Universidade Nacional da Colômbia, num comunicado à imprensa divulgado na quarta-feira pelo MNCN.

Coordenação internacional para gerir recursos que não conhecem fronteiras.
A abordagem tradicional à gestão da pesca já não acompanha o ritmo das alterações climáticas e, para garantir o futuro dos recursos pesqueiros globais, os autores propõem uma estrutura de três níveis que combina resposta rápida, planeamento a longo prazo e cooperação internacional. Observaram que as espécies, na tentativa de se manterem dentro da sua zona de conforto térmico, inevitavelmente atravessam fronteiras internacionais, pelo que a conservação requer coordenação internacional e acordos conjuntos de gestão de recursos.

O pesquisador do MNCN-CSIC, Miguel Bastos Araújo, enfatizou a importância de equilibrar cuidadosamente os aumentos localizados com os declínios a longo prazo para evitar a sobre-exploração e afirmou que a única estratégia viável diante do aquecimento dos oceanos é priorizar a resiliência a longo prazo. "As medidas de gestão devem levar em conta o declínio esperado da biomassa num oceano cada vez mais quente."

A conclusão é que os recursos pesqueiros não podem ser regulamentados apenas considerando o aumento ou a diminuição ocasional da biomassa devido a uma onda de calor marinha, disse Chaikin à EFE, citando o exemplo do robalo do Mediterrâneo: quando confrontado com uma onda de calor marinha, é essencial reduzir a pressão da pesca, porque enfrenta perdas muito maiores do que as populações em costas mais frias da Galiza ou da Inglaterra.

Mas, embora as populações nessas "bordas frias" possam experimentar um aumento significativo durante uma onda de calor, esses ganhos são "transitórios" e desaparecem com o aquecimento oceânico a longo prazo , portanto, não representam uma oportunidade para a "captura sustentável".

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Expedição encontrou mais de 40 espécies novas no Recife do Algarve



Os primeiros resultados foram anunciados em 14 de Outubro pelos organizadores da expedição realizada no início de outubro, tendo como alvo o Parque Natural Marinho do Recife do Algarve – Pedra do Valado.

No total, foram identificadas 206 espécies marinhas, incluindo mais de 40 novos registos para esta área protegida, revela uma nota de imprensa divulgada pela Fundação Oceano Azul, pelo Oceanário de Lisboa e pelo CCMAR – Centro de Ciências do Mar, da Universidade do Algarve, ligados à organização desta iniciativa.

“Estes resultados reforçam o conhecimento científico essencial para apoiar o desenvolvimento dos instrumentos de gestão pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e para garantir a consolidação e proteção efetiva desta Área Marinha Protegida”, afirmam as três entidades.

A expedição científica aconteceu entre 2 e 7 de outubro. “Os dados continuam em análise, mas os primeiros resultados confirmam a riqueza e valor deste ecossistema”, afirma a organização. No total, foram registadas 206 espécies diferentes, incluindo 137 invertebrados, 41 peixes, 13 algas, 12 aves marinhas e três cetáceos.

Criado em janeiro de 2024, o Parque Natural Marinho do Recife do Algarve – Pedra do Valado é a primeira Área Marinha Protegida de Interesse Comunitário em Portugal Continental. “Resulta de um processo participativo pioneiro que reuniu pescadores, cientistas, autarquias e cidadãos em torno de um objetivo comum: proteger o oceano.” Em causa está uma área com 156 quilómetros quadrados – que inclui a área entre o Farol de Alfanzina, limite oeste, e a marina de Albufeira, nos municípios de Albufeira, Lagoa e Silves.

A Pedra do Valado é considerada um hotspot de biodiversidade marinha com 1059 espécies marinhas registadas, incluindo 754 invertebrados, 152 peixes vertebrados, 61 aves marinhas, 2 tartarugas marinhas, 7 espécies de cetáceos e 82 espécies de macroalgas. Naquela área marinha foram identificadas 18 espécies ameaçadas, entre as quais os cavalos-marinhos (Hippocampus spp.) e o mero (Epinephelus marginatus).

Um dos destaques da expedição foi o banco de rodólitos (algas calcárias) desta área protegida, que é “o único conhecido em Portugal continental”. “Trata-se de um habitat de elevada importância ecológica, essencial para a retenção de carbono e equilíbrio do oceano”, acrescenta a equipa, que concluiu que este “banco se mantém saudável e funcional, apesar da sua vulnerabilidade às alterações climáticas, que podem afectar a capacidade de calcificação das algas”. Mesmo após a morte dos organismos, explicam, “o carbono permanece armazenado, reforçando o papel duradouro deste habitat na mitigação das alterações climáticas.”

No entanto, os trabalhos científicos revelaram também o desaparecimento das pradarias marinhas anteriormente identificadas nesta zona, “um sinal preocupante que poderá estar associado à proliferação da alga invasora asiática Rugulopterix okamurae”.

Quanto aos jardins de gorgónias apresentaram bom estado ecológico, com o registo de novas espécies de profundidade e de corais duros pela primeira vez nesta área.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Cocteau Twins - How to Bring a Blush to the Snow


A canção “How to Bring a Blush to the Snow”, dos Cocteau Twins, faz parte do álbum Victorialand (1986), um dos trabalhos mais etéreos e contemplativos da banda. Gravado sem o baixista Simon Raymonde, o disco apresenta uma sonoridade leve, dominada por guitarras cristalinas e ambientes sonoros quase imateriais, que criam a sensação de um espaço gelado e luminoso, entre a melancolia e o sonho. A faixa em particular destaca-se pelo seu clima de fragilidade e pela forma como as guitarras parecem “tremeluzir”, acompanhando a voz de Elizabeth Fraser — uma voz que não narra, mas se transforma num instrumento emocional.

Como em quase todas as canções dos Cocteau Twins, as letras são enigmáticas, por vezes ininteligíveis, e o significado é mais sugerido do que dito. O título, “How to Bring a Blush to the Snow” (“Como fazer a neve corar”), evoca a ideia de dar cor, calor ou vida a algo frio e imaculado. Pode ser lido como uma metáfora para o despertar da emoção num ambiente de silêncio e distância, ou como a tentativa de introduzir humanidade e ternura num mundo de gelo — literal ou simbólico. Há quem veja na canção uma meditação sobre o renascimento e a delicadeza, uma paisagem sonora onde o frio se dissolve aos poucos pela presença de algo vivo.

Em Victorialand, as referências à neve, ao vento e às paisagens árticas são recorrentes, e esta faixa parece representar o momento em que a natureza começa a mudar, quando o gelo ganha um leve rubor — o presságio da primavera ou do afeto. Mais do que transmitir uma mensagem concreta, a canção convida o ouvinte a uma experiência sensorial: é sobre sentir a beleza efémera do calor que toca o frio, do silêncio que ganha voz. O seu significado, como o próprio mundo dos Cocteau Twins, reside menos nas palavras e mais na emoção que provoca.

No no no no no (I did everything) (I want a banana) But it’s driving me bonkers (I did everything) (I want a banana) Every beddie time he cries (I want a banana) (I want a banana) They mostly never soothe them (Oh wonderful food-ah) (Oh wonderful food-ah) I did everything I did everything No no no no no (I did everything) (I want a banana) But it’s driving me bonkers (I did everything) (I want a banana) Every beddie time he cries (I want a banana) (I want a banana) They mostly never soothe them (Oh wonderful food-ah) (Oh wonderful food-ah) I did everything (The fold-over, proper cheeks, I got …) I did everything (… Be firm, I said “It’s very fattening!”) (oh) Rotondedissima Rotondo tondo tondo rotondo Rotondedissima Rotondo tondo tondo rotondo Rotondedissima Rotondo tondo tondo rotondo Rotondedissima Rotondo tondo tondo rotondo Don’t know, hurry, hurry (Oh wonderful food-ah) Siss, I miss your commentary (Oh wonderful food-ah) Any time he cries (You ate a banana) (You ate a banana) They mostly never soothe them (You ate a banana) (You ate a banana) Oh wonderful food-ah Oh wonderful food-ah Someone hurry, hurry (Oh wonderful food-ah) Siss, I miss your commentary (Oh wonderful food-ah) Any time he cries (You ate a banana) (You ate a banana) They mostly never soothe them (You ate a banana) (You ate a banana) Oh wonderful food-ah (The fold-over, proper cheeks, I got …) Oh wonderful food-ah (… Be firm, I said “It’s very fattening!”) Tondo Bravo Rota, did ya see you move a mondo Tondo Bravo Rota, did ya see you move a mondo

terça-feira, 21 de maio de 2024

Colapso dos peixes migratórios ameaça alimentação de milhões de pessoas


O colapso das populações de peixes migratórios ameaça a segurança alimentar de milhões de pessoas e os ecossistemas críticos de água doce, indica um relatório ontem divulgado.

Em vésperas do Dia Mundial da Migração de Peixes, no próximo sábado, 24 de Maio, o documento salienta que desde 1970 se registou um declínio de 81% das populações de peixes migradores, sendo as quedas mais acentuadas na América Latina (91%), Caraíbas (91%) e Europa (75%).

No entanto a diminuição dos peixes de água doce regista-se em todo o mundo, o que põe em risco a segurança alimentar e os meios de subsistência de milhões de pessoas, a sobrevivência de muitas outras espécies, e a saúde a resiliência dos rios, lagos e zonas húmidas.

Os alertas fazem parte de um novo relatório do Índice Planeta Vivo, sobre peixes migratórios de água doce, publicado pela organização “World Fish Migration Foudation” e outras entidades, incluindo a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e a “World Wide Fund for Nature” (WWF).

O Índice Planeta Vivo é um indicador global sobre o estado da biodiversidade, administrado pela Sociedade Zoológica de Londres em cooperação com a WWF.

No documento explica-se que metade das ameaças aos peixes migradores se relaciona com a degradação dos habitats, incluindo a construção de barragens e de outras barreiras nos rios, e a conversão das zonas húmidas para a agricultura. A sobre-exploração, o aumento da poluição e o agravamento dos impactos das alterações climáticas, estão também a diminuir as espécies de peixes migradores.

“O declínio catastrófico das populações de peixes migratórios é uma chamada de atenção para o mundo. Temos de atuar agora para salvar estas espécies fundamentais e os seus rios”, afirmou, citado num comunicado sobre o relatório, Herman Wanningen, da “World Fish Migration Foudation”.

O especialista considera que os peixes migratórios “são fundamentais para as culturas de muitos povos indígenas, alimentam milhões de pessoas em todo o mundo e sustentam uma vasta rede de espécies e ecossistemas”, alertando que não se pode “continuar a deixar que eles escapem silenciosamente”.

Os autores do documento salientam também que os peixes migratórios de água doce são vitais para a alimentação de milhões de pessoas, especialmente na Ásia, África e América Latina, e que são meio de subsistência para dezenas de milhões através da pesca local, comércio, indústria e pesca recreativa.

E destacam pela positiva que um terço das espécies monitorizadas aumentou, nomeadamente por melhor gestão de recursos, recuperação de habitats e remoção de barragens.

Na Europa e nos Estados Unidos já foram removidas milhares de barragens, diques, açudes e outras barreiras fluviais. No ano passado a Europa removeu um recorde de 487 barreiras, um aumento de 50 % em relação ao máximo anterior de 2022.

Os decisores de todo o mundo devem acelerar os esforços para proteger e restaurar os caudais dos rios, investindo em alternativas sustentáveis às barragens hidroelétricas que estão planeadas. E lembram os objetivos saídos da cimeira mundial sobre a biodiversidade Kunming-Montreal, no Canadá no final de 2022, de recuperação de 300.000 quilómetros de rios degradados.

A “World Fish Migration Foudation” promove desde 2014 o Dia Mundial da Migração de Peixes, para aumentar a consciencialização sobre os peixes migratórios. Este ano celebra os rios livres e já conta com mais de 65 países participantes.

segunda-feira, 20 de maio de 2024

O verdadeiro custo da reprodução no reino animal

Verdilhão (Chloris chloris)

Um novo estudo publicado na revista Science e liderado por biólogos da Universidade Monash revela que o custo energético da reprodução é muito maior do que se pensava anteriormente.

A investigação, liderada por Samuel C Ginther, da Escola de Ciências Biológicas, desafia os pressupostos há muito defendidos sobre a dinâmica energética da reprodução e as suas implicações para a evolução da história de vida.

O estudo concluiu que a energia investida pelos progenitores na reprodução inclui não só a contida nos próprios descendentes (custos diretos), mas também a energia gasta para os produzir e transportar (custos indiretos). Na maioria das espécies, os custos indiretos, como a carga metabólica da gravidez, excedem os custos diretos.

A equipa de investigação analisou dados de 81 metazoários, desde rotíferos a seres humanos, para estimar os custos energéticos totais da reprodução e dos seus componentes. Esta abordagem global fornece um novo quadro para a compreensão da dinâmica energética da reprodução numa vasta gama de animais.

Embora os cientistas tenham compreendido os custos energéticos diretos associados à descendência (como a energia utilizada para a criar e alimentar), os custos indiretos – a carga metabólica da gravidez e dos cuidados parentais – têm sido largamente ignorados. Esta nova investigação revela que estes custos indiretos podem ser imensos.

Por exemplo, nos mamíferos, apenas cerca de 10% da energia utilizada na reprodução é canalizada para os próprios descendentes. No entanto, 90% é gasta no processo de gestação, que exige muito metabolismo. Os seres humanos, com as suas gravidezes prolongadas, têm alguns dos custos indiretos mais elevados, atingindo cerca de 96%.

Descobertas importantes para perceber como é que os animais evoluem e se adaptam aos seus ambientes

“Os resultados foram surpreendentes”, afirmo Ginther, revelando que descobriram que, para muitos animais, a energia gasta simplesmente no transporte e nos cuidados com a prole antes do nascimento “ultrapassa de longe a energia investida na própria prole”.

“Estas descobertas têm implicações significativas para a compreensão da forma como os animais evoluem e se adaptam aos seus ambientes. Também levantam preocupações sobre o potencial impacto das alterações climáticas no sucesso reprodutivo das espécies, uma vez que o estudo concluiu que os custos indiretos são particularmente sensíveis às flutuações de temperatura”, acrescenta.

O estudo concluiu que os mamíferos despendem mais energia na reprodução do que os ectotérmicos (anfíbios, répteis, peixes, etc.), representando os custos indirectos cerca de 90% do total das suas despesas de energia reprodutiva, enquanto os ectotérmicos que vivem têm custos indirectos mais elevados do que as espécies que põem ovos.

“O estudo altera fundamentalmente a nossa compreensão da dinâmica energética da reprodução e do seu profundo impacto nos fluxos de energia de um organismo”, afirma o coautor do estudo, o Professor Dustin Marshall, também da Escola de Ciências Biológicas da Universidade de Monash.

“O estudo também destaca a sensibilidade dos custos da energia reprodutiva ao aquecimento global, particularmente nos ectotérmicos”, adianta.

Dustin Marshall explica ainda que “as temperaturas mais quentes podem aumentar as taxas metabólicas, aumentando potencialmente os custos indiretos da reprodução”.

“Isso pode levar a descendentes menores e ter implicações para a reposição da população num mundo em aquecimento”, conclui.

sexta-feira, 15 de março de 2024

O mar não está para peixe!


Auntlantis: 2Sweeping the Floor2
A typical mundane workday for the Aunties of Auntlantis.Aunties take a break on the beach after a day of cleaning the ocean.
A nap on the beach is the best way to relax.
Inspired by Plato, great pacific garbage patch and poor birdies with bellies full of plastic trash.

This is an incredible video by Nice Aunties, an ground-breaking and innovative Japanese activist group who draw attention to a wide range of issues relating to ocean conservation and the destruction of our planet with outstandingly creative communications.

Original version posted on Instagram on 9 March 2024

sexta-feira, 1 de março de 2024

Parlamento Europeu - Primeiro organismo internacional a criminalizar casos “comparáveis ao ecocídio”


Os países terão dois anos para transpor a directiva actualizada, que abrange crimes “comparáveis ​​ao ecocídio”, para a legislação nacional.

A União Europeia tornou-se o primeiro organismo internacional a criminalizar os casos mais graves de danos ambientais que sejam “comparáveis ​​ao ecocídio”.

A destruição dos ecossistemas, incluindo a perda de habitat e a exploração madeireira ilegal, será punida com penas mais duras e penas de prisão ao abrigo da directiva actualizada da UE sobre crimes ambientais.

Numa votação no Parlamento Europeu na terça-feira, os legisladores da UE apoiaram esmagadoramente a medida com 499 votos a favor, 100 contra e 23 abstenções.

Os Estados-Membros têm agora dois anos para consagrá-lo na legislação nacional.

Aqui está o que você precisa saber sobre a lei atualizada, que os especialistas chamam de revolucionária.

Crime ambiental: uma nova página na história da Europa
De acordo com Marie Toussaint, advogada francesa e eurodeputada do grupo Verdes/Aliança Livre Europeia, a UE está “adoptando uma das legislações mais ambiciosas do mundo”.

“A nova directiva abre uma nova página na história da Europa, protegendo contra aqueles que prejudicam os ecossistemas e, através deles, a saúde humana. Significa pôr fim à impunidade ambiental na Europa, o que é crucial e urgente”, afirma.

De acordo com Toussaint, as actuais legislações da UE e nacionais não dissuadem os infractores de cometer crimes ambientais , porque as infracções são demasiado limitadas e as sanções muito baixas.

“Os crimes ambientais estão a crescer duas a três vezes mais rapidamente do que a economia global e tornaram-se, em poucos anos, o quarto maior sector criminoso do mundo”, diz ela.

Os crimes ambientais ainda ocorrem na Europa. No seu relatório sobre a luta contra a criminalidade ambiental na Europa, o Gabinete Europeu do Ambiente cita numerosos exemplos de crimes ambientais que continuavam impunes porque não estavam incluídos na antiga directiva.

Estes incluem a pesca ilegal de atum rabilho , a poluição agroindustrial em áreas protegidas, bem como práticas ilegais de caça e fraude no mercado de carbono.

Crimes ambientais comparáveis ​​ao 'ecocídio'
Os proponentes de tornar o ecocídio o quinto crime internacional no Tribunal Penal Internacional argumentam que a directiva actualizada criminaliza efectivamente o ecocídio . Embora a directiva não inclua a palavra directamente, no seu preâmbulo refere-se a “casos comparáveis ​​ao ecocídio”.

O ecocídio é definido como “atos ilegais ou arbitrários cometidos com o conhecimento de que existe uma probabilidade substancial de danos graves, generalizados ou de longo prazo ao meio ambiente serem causados ​​por esses atos”.

Foi formulado em 2021 por 12 advogados de todo o mundo e apresentado pela Stop Ecocide International.

No ano passado, o Parlamento propôs incluir o ecocídio na legislação da UE.

Penas de 10 anos de prisão por prática de crimes ambientais
A captação de água , a reciclagem e a poluição de navios , a introdução e propagação de espécies exóticas invasoras e a destruição do ozono são todas identificadas como actividades ambientais na nova directiva.

Contudo , não menciona a pesca, a exportação de resíduos tóxicos para países em desenvolvimento ou a fraude no mercado do carbono .

Para indivíduos – como CEOs e membros de conselhos de administração – as consequências da prática de crimes ambientais podem ser penas de prisão até oito anos, aumentando para 10 se causarem a morte de qualquer pessoa.

O advogado Antonius Manders, eurodeputado holandês do Grupo do Partido Popular Europeu (Democratas-Cristãos), descreveu as mudanças como muito esperançosas.

“Os CEOs podem arriscar uma multa, mas não querem se envolver pessoalmente. Eles nunca querem ir para a cadeia”, diz ele.

Os indivíduos podem ser responsabilizados se estiverem conscientes das consequências das suas decisões e se tiverem o poder de as impedir, explica Manders.

“Por exemplo, a defesa de uma licença não é mais possível, pois as pessoas têm o dever de cuidar. Se novas informações mostrarem que o comportamento está causando danos irreversíveis à saúde e à natureza – você terá que parar.”

Michael Faure, professor de direito ambiental comparado e internacional na Universidade de Maastricht concorda.

“Quando implementado pelos Estados-membros, os operadores devem estar cientes de que o simples cumprimento de uma licença já não os isenta de responsabilidade criminal. E isso não é menos que uma revolução”, diz ele.

Ao abrigo da anterior directiva da UE sobre crimes ambientais e da maioria das leis dos Estados-Membros, o crime ambiental só pode ser punido quando existe ilegalidade, mas desde que uma empresa cumpra as condições de uma licença, as suas acções não serão consideradas ilegais.

“Como resultado, poderá haver casos graves de poluição ambiental, mesmo com danos concretos à saúde humana como consequência. Mas, desde que um operador cumprisse as condições de uma licença, não haveria ilegalidade”, afirma Faure.

Um exemplo, explica Manders, é que a indústria química nos Países Baixos recebeu em 1982 uma licença para poluir a água com PFAS , antes de estes produtos químicos serem identificados como prejudiciais à saúde humana.

“Mas hoje sabemos que os produtos químicos causam câncer e até a morte. Portanto, num processo judicial como o da empresa química Chemours , embora a empresa tenha licença, quando a nova directiva entrar em vigor, tem de parar, uma vez que está provado que o PFAS prejudica as pessoas”, acrescenta Manders.

Será que a directiva ambiental actualizada vai suficientemente longe?
Os Estados-Membros terão dois anos para implementar a directiva revista na legislação nacional.

Entre outras coisas, terão a flexibilidade de escolher entre introduzir multas para as empresas com base numa proporção do seu volume de negócios - até cinco por cento, dependendo do crime, ou multas fixas até 40 milhões de euros.

“Gostaríamos de ter ido muito mais longe”, diz Toussaint.

Caberá também aos Estados-Membros se os crimes cometidos fora das fronteiras da UE em nome de empresas da UE forem abrangidos pela nova directiva, uma vez que isto ainda não foi acordado pela UE.

Embora seja de facto “revolucionário”, Manders defende a existência também de um procurador público a nível da UE.

“Esse é o futuro. No entanto, dependerá da avaliação do mandato da Procuradoria Europeia – e se no futuro a UE poderá lidar com tais casos”, afirma.

Toussaint concorda e afirma que é crucial manter-se atento às negociações em curso no Conselho da Europa, onde a Convenção sobre a Protecção do Ambiente através do Direito Penal - equivalente à directiva da UE, mas a nível do Conselho da Europa - está actualmente a ser revisado.

“Esta convenção, originalmente adoptada em 1998, nunca foi ratificada e, portanto, nunca entrou oficialmente em vigor. A actual revisão da directiva europeia poderá assim ter uma grande influência nas negociações em curso e um impacto fora do território da UE”, afirma.

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

"Maré de plástico" em praias do Norte de Espanha pode chegar a Portugal na primavera


O investigador Bordalo e Sá considerou esta terça-feira que as autoridades devem vigiar a costa e “implementar um plano de contingência desenhado à medida” da “maré de plástico” das praias do Norte de Espanha que pode afetar Portugal. Tal como noticiou a CNN Portugal, a Autoridade Marítima Nacional está a preparar plano de ação, que envolve várias entidades, para remover os objetos caso cheguem à costa portuguesa.

“Neste momento as correntes dominantes são para norte. É provável que estas partículas cheguem a Portugal lá para a primavera, quando mudar a direção das correntes, e se não tiver dado à costa todo o conteúdo [dos contentores que transportavam o plástico] que caiu ao mar, embora com um impacto menor. O primeiro passo será acionar a vigilância das praias, usando também a sociedade civil, e o segundo passo será implementar um plano de contingência desenhado à medida e supervisionado”, explicou o hidrobiólogo da Universidade do Porto, em declarações à Lusa.

Bordalo e Sá observou que o granulado, usado como matéria-prima para produtos de plástico (designado por ‘pellets’ ou ‘nurdles’, em inglês), facilmente se transforma em nanoplástico, chegando à cadeia alimentar de peixes e bivalves e, consequentemente, à dos seres humanos, desconhecendo-se ainda todos seus os impactos.

As regiões do Norte de Espanha, da Galiza ao País Basco, ativaram ou elevaram hoje alertas ambientais por causa de toneladas de minúsculas bolas de plástico que caíram ao mar em dezembro em águas portuguesas.

Considerando que as praias do Norte espanhol estão perante “uma maré de plástico”, Bordalo e Sá notou que o problema está a ser enfrentado por “autoridades muito dinâmicas, porque Espanha é um país descentralizado”.

No caso português, “os primeiros 1.800 metros de mar da costa portuguesa integram os planos de bacias hidrográficas”, pelo que “deviam estar sob a alçada das administrações hidrográficas regionais, mas estão centralizados em Lisboa”.

“O grosso do conteúdo [das partículas de plástico] irá parar à Galiza e há de chegar a França. Temos a experiência da tragédia de Entre-os-Rios [em 2001, várias pessoas morreram na sequência da queda de uma ponte e houve corpos encontrados na Galiza e em França]. Mas sem dúvida que podem chegar a Portugal”, alertou.

Em causa estão, nas praias espanholas, “esferas de cinco milímetros de plástico” que facilmente se partem, passando a “microplásticos, quando tiverem menos de um milímetro, e depois ainda se fracionam mais, em nanoplásticos, do tamanho de micróns, e aí está o problema”, continuou.

“Essas partículas nano vão sendo progressivamente colonizados por seres vivos que se depositam à sua volta e, devido ao odor, muitos peixes vão pensar que é alimento e os bivalves vão filtrá-los indiscriminadamente”, descreveu.

O especialista notou ainda que “a perda dos contentores, que não é tão rara quanto isso, não foi junto da costa”, mas “numa das vias marítimas mais congestionadas do mundo”, o que faz com que o Norte de Portugal e a Galiza sejam “zonas altamente vulneráveis a acidentes no mar”.

Segundo informações divulgadas pelo governo espanhol, o armador do barco que em 08 de dezembro perdeu contentores da carga que transportava, a 80 quilómetros de Viana do Castelo, disse que caíram ao mar mais de mil sacos com cerca de 26,2 toneladas destas bolas com cerca de cinco milímetros de diâmetro, usadas para fabricar plásticos e que estão agora a dar à costa no norte de Espanha.

As informações anteriores, conhecidas até segunda-feira, estimavam 15 toneladas de bolas de plástico dentro de um dos contentores perdidos pelo barco.

Nos outros contentores caídos ao mar (pelo menos mais cinco) havia pneus, rolos de película aderente e barras de alumínio, segundo as informações fornecidas pelo armador do barco às autoridades espanholas.

Os primeiros sacos com as bolas de plástico foram identificados em 13 de dezembro em praias da Galiza, na fronteira com o Norte de Portugal.

No entanto, foi no final da semana passada que começaram a chegar à costa da Galiza, em quantidade, as bolas de plástico dispersas, fora de sacos.

Saber mais:

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Organismos estão a ficar cada vez mais pequenos, especialmente peixes


Peixes grandes, como as raias espinhosas, estão a tornar-se mais pequenos e peixes mais pequenos, como a cavala, estão a tornar-se cada vez mais abundantes, revela um novo estudo científico.

Os peixes dos oceanos estão a mudar; nos mares de todo o mundo está a dar-se uma substituição de espécies e a ocorrer mudanças dentro das mesmas espécies, segundo um novo estudo publicado na revista Science, que analisou dados de todo o mundo dos últimos 60 anos (entre 1960 e 2020) e de diversas espécies de animais e plantas.

Estudos anteriores mostram que o tamanho dos peixes troféu, capturados nas competições de pesca tem vindo a diminuir e que muitas das espécies mais ameaçadas são grandes.

O estudo publicado a 7 de Setembro mostra que a mudança no tamanho do corpo advém do facto de indivíduos dentro das espécies se tornarem menores, mas também pelo facto de espécies maiores serem substituídas por outras menores.

“Em alguns locais, por exemplo, têm sido observados indivíduos cada vez menores de raias espinhosas, enquanto espécies com um corpo menor, como por exemplo a cavala, estão a aumentar em abundância”, explicou, em comunicado, Inês S. Martins, primeira autora deste estudo, investigadora na Universidade de York, no Reino Unido, antiga aluna da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) e que fez o estudo enquanto investigadora da Universidade de St Andrews, na Escócia. “Seja pelas preferências alimentares dos seres humanos, ou por causa do aquecimento dos seus habitats, os peixes grandes simplesmente não conseguem descanso”, acrescentou.

A diminuição do tamanho do corpo foi mais comum entre os peixes, mas as alterações foram mais variadas entre outros grupos de organismos, como plantas e invertebrados. Ao analisar grupos de espécies, o estudo demonstrou que estão a ocorrer alterações complexas, com alguns organismos a tornar-se maiores enquanto outros diminuem.

“Estes resultados sugerem que quando os grandes organismos desaparecem outros tentam ocupar o seu lugar e utilizar os recursos que se tornam disponíveis”, explicou Maria Dornelas, coordenadora deste estudo, investigadora da Ciências ULisboa e da Universidade de St Andrews.

“Reconhecer e explorar esta complexidade é imperativo se quisermos compreender os mecanismos envolvidos na forma como o tamanho do corpo dos organismos está a mudar ao longo do tempo”, acrescentou Inês S. Martins.

O estudo também observou a substituição de alguns organismos grandes por muitos pequenos, mantendo constante a biomassa total. Este resultado surpreendente apoia a ideia de que os ecossistemas tendem a compensar as mudanças, mantendo a biomassa global das espécies estudadas num determinado habitat estável. Esta estabilidade é atribuída a um compromisso entre reduções no tamanho corporal e aumentos simultâneos na abundância entre os organismos.

Os investigadores acreditam que estes resultados têm implicações para a compreensão de como os organismos se estão a adaptar aos desafios da era do Antropoceno. “É claro que a substituição generalizada de espécies que vemos em todo o mundo está a ter consequências mensuráveis”, disse Maria Dornelas. “O facto de os organismos se tornarem mais pequenos tem efeitos importantes, uma vez que o tamanho dos animais tem influência no funcionamento dos ecossistemas e na forma como os seres humanos deles beneficiam. Peixes maiores geralmente podem alimentar mais pessoas do que peixes menores”.

“Este estudo destaca a importância de considerar as mudanças nas características das espécies se quisermos compreender os efeitos das alterações ambientais e da influência humana na biodiversidade a nível global”, salientou Franziska Schrodt, também coordenadora deste estudo, investigadora na Universidade de Nottingham, no Reino Unido.

domingo, 13 de agosto de 2023

Predadores marinhos podem perder 70% de habitat até 2100. Oceano Atlântico é foco de preocupação


Até ao final deste século, 12 espécies de predadores marinhos migradores, como os tubarões, os atuns e os espadartes, podem vir a perder grandes porções dos seus habitats naturais no noroeste do Oceano Atlântico e no Golfo do México. Nessas zonas, a temperatura do mar está a subir mais rapidamente do que em qualquer outra região marinha do planeta.

Segundo um estudo divulgado esta quarta-feira na revista ‘Science’, uma equipa de investigadores dos Estados Unidos da América, liderada pelo Instituto Oceanográfico Woods Hole, alerta que, até 2100, algumas dessas espécies “icónicas e económica e ecologicamente importantes” poderão perder até 70% de habitat adequado à sua sobrevivência. E os cientistas avisam que “na maioria dos casos, os impactos destas alterações induzidas pelo clima podem já ser observadas”.

No artigo, escrevem que os efeitos das alterações climáticas, os que já se sentem e os que se prevê que surjam num futuro não muito distante, destacam “a necessidade urgente de gerir de forma adaptativa e proativa os ecossistemas marinhos dinâmicos”.

Dado a dimensão e ritmo de aquecimento das águas no Golfo do México e no noroeste do Atlântico, os investigadores estimam que essas duas áreas serão ‘pontos quentes’ de perda de habitat para diversas espécies de predadores marinhos.

Camrin Braun, primeiro autor do artigo, considera que as alterações climáticas provocarão transformações profundas na distribuição e modo de vida dos predadores marinhos abrangidos pela investigação. E embora admita que o trabalho não tenha tido em consideração a capacidade de adaptação dessas espécies aos efeitos da subida da temperatura marinha, afirma que este estudo ajudará a perceber que mudanças serão essas “para que possamos fazer alguma coisa quanto a isso”.

Para chegar a essas conclusões, a equipa recorreu a dados recolhidos por satélite nos últimos 30 anos, bem como a novas informações adquiridas no ‘terreno’, que permitiram “desenvolver modelos dinâmicos da distribuição das espécies para avaliar como as alterações climáticas já estão e continuarão a afetar essas espécies de peixes”.

Rebecca Lewison, professora de biologia da Universidade de San Diego e que também assina o artigo, declara que “a nossa investigação mostra que as alterações causadas pelo clima estão a acontecer agora, não a partir de projeções, mas com base em dados de observação empírica das últimas duas décadas”.

A docente refere também a importância dos dados de satélite para perceber “como um oceano em transformação está a impactar espécies marinhas de importância comercial, como os espadartes e os atuns”. Por isso, esta investigação, defendem os seus autores, não se reveste apenas de importância ecológica, mas deve também ajudar a criar políticas de gestão de pesca que possam adaptar essa atividade de grande relevância económica e social às transformações que estão a mudar a face, e as profundezas, dos oceanos do planeta, e todas as formas de vida de neles habitam e que deles dependem.

sexta-feira, 30 de junho de 2023

Documentário - Vida em Extinção

Fonte: Wired


Em "Vida em Extinção", uma equipa de artistas e ativistas expõe o mundo oculto da extinção com imagens inéditas que podem mudar a forma como vemos o planeta. Dois mundos impulsionam a extinção em todo o planeta - e podem provocar a perda de metade das espécies conhecidas. O primeiro é o comércio internacional de animais selvagens, que cria mercados clandestinos às custas de criaturas que sobrevivem neste planeta há milhões de anos. O segundo está à nossa volta, oculto bem diante de nós — um mundo que as empresas de gás e petróleo não querem que a população veja. Usando táticas secretas e tecnologia de ponta, a equipa de Vida em Extinção expõe esses dois mundos numa tentativa de inspirar a preservação da vida na Terra. Dos mesmos criadores do premiado "A Enseada" (2009), vencedor do Oscar de Melhor Documentário.

Mais detalhes aqui

sexta-feira, 28 de abril de 2023

Alterações climáticas: Metade da vida na zona crepuscular do oceano pode desaparecer até ao final do século


A zona oceânica mesopelágica, situada entre os 200 e os 1.000 metros abaixo da superfície, apesar de poder receber pouca luz solar e de estar em permanente penumbra, alberga uma grande diversidade de formas de vida, como peixes especialmente adaptados à falta de luminosidade, com grandes olhos e com capacidade para produzirem a sua própria luz, a chamada bioluminescência.

Além disso, desempenha um papel crucial na vida marinha, ao servir de abrigo para pequenos organismos que aí se desenvolvem longe dos grandes predadores da superfície e que se alimentam dos milhares de milhões de toneladas de matéria orgânica que, como chuva, ‘caem’ das regiões mais cimeiras e soalheiras da coluna de água.

Contudo, os efeitos das alterações climáticas, impulsionadas pela ação humana, podem colocar em risco esse oásis de vida de profundidade. Num artigo divulgado esta semana na ‘Nature Communications’, investigadores do Reino Unido e dos Estados Unidos da América alertam que, até 2100, mesmo com reduções das emissões de gases com efeito de estufa, a vida mesopelágica pode cair entre os 20% e os 40%, fruto do aquecimento das águas marinhas.

E a recuperação dessas perdas poderá, avisam, demorar milhares de anos.

Katherine Crichton, da Universidade de Exeter e a principal autora do artigo, reconhece que “ainda sabemos relativamente pouco acerca da zona crepuscular do oceano, mas ao usarmos evidências do passado podemos perceber o que poderá acontecer no futuro”.

Composta por paleontólogos e investigadores do oceano, a equipa procurou estudar registos fósseis da vida marinha crepuscular em períodos distantes de aquecimento global, analisando vestígios de animais, como conchas, preservados nos sedimentos que cobrem o leito oceânico.

Os cientistas focaram-se em dois períodos quentes da história da Terra: há 50 milhões de anos e há 15 milhões de anos e descobriram que a zona mesopelágica nem sempre esteve repleta de vida.

“Durante esses períodos quentes, muito menos organismos viviam na zona crepuscular, porque muito menos comida chegava das águas mais superficiais”, explica Paul Pearson, da Universidade de Cardiff e outro dos autores. Isso acontece porque, em águas mais quentes, microorganismos, como as bactérias, estão muito mais ativos e, por isso, são capazes de descompor maiores quantidades de matéria orgânica, impedindo que ela afunde.

Assim, a grande biodiversidade que hoje caracteriza a zona mesopelágica desenvolveu-se recentemente, à escala geológica, claro. “A rica variedade da vida na zona crepuscular evoluiu nos últimos milhões de anos, quando as águas oceânicas tinham arrefecido suficientemente para agirem como um frigorífico, preservando a comida durante mais tempo”, e permitindo que ela chegasse às zonas mais profundas.

Olhando para esse registo do passado, os investigadores quiseram responder a uma simples, mas importante, pergunta: Com os oceanos a aquecerem cada vez mais, o que acontecerá à vida no crepúsculo oceânico? E a resposta não é animadora.

“A menos que reduzamos rapidamente as emissões de gases com efeito de estufa, poderemos assistir ao desaparecimento ou extinção de grande parte da vida na zona crepuscular dentro de 150 anos, com efeitos que se estenderão ao longo de milénios”, frisa Crichto

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Remoção de barreiras fluviais obsoletas bate novos recordes em 2022 – relatório


Pelo menos 325 barreiras fluviais obsoletas foram removidas na Europa em 2022, um novo recorde, segundo um relatório da organização “Dam Removal Europe”.

A remoção de 325 barreiras desnecessárias e prejudiciais à natureza representou um aumento de 36% em relação ao recorde do ano anterior, indica a organização, uma coligação de sete organizações internacionais.

As barreiras foram removidas em 16 países europeus, na maior parte dos casos represas, quase sempre antigas e obsoletas e sem a remoção representar grandes custos.

A organização atribui o grande número de remoções a novas oportunidades de financiamento disponíveis, como o “Open Rivers Programme”, os esforços coordenados de autoridades públicas para divulgar a informação e uma maior sensibilização para o problema.

Espanha é o país europeu que mais barragens removeu, seguindo-se a Suécia e a França. O Luxemburgo registou a primeira remoção de barragens. Portugal não tem expressão nesta matéria.

Os responsáveis da organização referem a proposta da Comissão Europeia para uma lei da Restauração da Natureza para afirmar que é importante continuar a destacar a remoção de barragens como uma ferramenta crucial para a restauração de ecossistemas. A Estratégia para a Biodiversidade 2030 quer libertar pelo menos 25.000 quilómetros de rios europeus.

A remoção de barreiras também contribui para o Desafio Global da Água Doce, de restaurar 300.000 quilómetros de rios degradados até 2030, um objetivo lançado na Conferência das Nações Unidas sobre a Água, realizada em Nova Iorque em março passado.

Os ecossistemas de água doce enfrentam problemas de poluição, degradação de habitats, exploração excessiva de recursos naturais e também de excesso de obstáculos, como barragens e açudes, que prejudicam a biodiversidade mas também as comunidades que dependem dos cursos de água.

Mais de 1,2 milhões de barreiras fragmentam os rios europeus, sendo muitas delas estruturas abandonadas (pelo menos 150.000 segundo a organização internacional WWF). Essas barreiras impedem as migrações de peixes de água doce, cujas populações sofreram na Europa um declínio de 93% (76% a nível mundial).

A “Dam Removal Europe” junta as organizações “World Wide Fund for Nature” (WWF), “The Rivers Trust”, “The Nature Conservancy”, “The European Rivers Network”, “Rewilding Europe”, “Wetlands International”, e “World Fish Migration Foundation”.

Na semana passada o ministro do Ambiente disse que o programa de recuperação da rede hidrográfica vai incluir um plano nacional de remoção de barreiras obsoletas nos rios portugueses, contando com a colaboração das organizações não-governamentais na identificação das prioridades.

Duarte Cordeiro falava numa sessão que decorreu na margem do rio Alviela, em Vaqueiros, no concelho e distrito de Santarém, que se seguiu à remoção de um antigo açude que impedia o curso livre do rio, no âmbito de um projeto da organização não-governamental (ONG) Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA), financiado pela fundação suíça MAVA.

A responsável pelo projeto “Rios Livres”, do GEOTA, Catarina Miranda, afirmou na altura que se estima em cerca de 30.000 as barreiras à conectividade fluvial em Portugal, muitas delas obsoletas, apelando para que, a exemplo do que acontece em outros países da Europa e do mundo, Portugal inicie um programa de remoção de pequenos açudes a grandes barragens “que já não têm nenhum papel atual, nem económico, nem social, nem cultural”.

Em março, a associação ambientalista ANP/WWF lançou uma petição pública para pedir ao Governo prioridade na remoção de barreiras desnecessárias em rios e atenção ao restauro fluvial.

Na altura a associação procedeu à primeira remoção de uma barreira fluvial obsoleta, o açude de Galaxes, no concelho de Alcoutim.

O relatório da “Dam Removal Europe” do ano passado indicava que em 2021 foram removidas 239 barragens em 17 países europeus.

segunda-feira, 10 de abril de 2023

Sim ou não ao peixe de aquacultura? Mitos e verdades

Temem-se as “farinhas” com que são alimentados. Diz-se que estão cheios de antibióticos, que crescem em más condições, que não sabem a mar. O que há de verdade nestas ideias feitas dos portugueses – o povo que mais peixe come na União Europeia – em relação à aquacultura? E será que a pesca tradicional é mesmo a melhor opção?


Jorge Sousa, 60 anos, está sentado, de comando na mão, e volta e meia carrega num dos botões, enquanto ajeita o gorro que o protege do frio que se sente na lota de Sesimbra. É comum vê-lo por aqui às tardes, neste leilão do peixe. Mas também podemos cruzar-nos com ele de manhã, depois de uma madrugada da faina no seu barco.

O carro enche-se agora de exemplares saídos do mar e ainda com alguns criados em aquacultura. “Hoje em dia, comer um peixe do mar é um luxo. Até a cavala, para iscar, já vai a €2,5 o quilo. Dantes, era deitada fora”, nota, já a arrumar os exemplares, selvagens e de viveiro, no seu restaurante na praia do Meco. “Os stocks do mar estão a acabar, a aquacultura é o futuro se queremos continuar a alimentar-nos de peixe”, avisa.

Ouvi-lo a falar assim, põe-nos em sentido: trata-se de um pescador com muita experiência, de um comprador assíduo na lota e ainda se assume como um grande apreciador de produtos do mar. Será que Jorge Sousa, que gasta dos dois tipos de peixe, está absolutamente certo no que diz? Tudo indica que sim, mas a maioria da população não aderiu ainda a esse método, a avaliar pelos números.

Na última década, a aquacultura regista o maior crescimento dentro do setor alimentar, a nível mundial – metade do peixe consumido vem desse processo. Porém, na União Europeia esse valor fica-se pelos 20% e, em Portugal, a percentagem desce até aos 10 por cento. Neste momento, produzimos apenas 14 mil toneladas por ano. O objetivo, a nível nacional, é chegar às 25 mil toneladas em 2030.

Os preconceitos são os principais culpados para o facto de estarmos tão atrasados.

Depois de estudar peixes de proveniências diferentes, Ana Luísa Marques, nutricionista, chegou à conclusão de que o teor lipídico é, geralmente, mais concentrado no pescado de aquacultura. “Isso acontece porque as rações são preparadas à base de soja e milho, podendo também conter outros ingredientes, como sementes de chia, de linhaça e algas marinhas com o intuito de aumentar o teor em ácidos gordos polinsaturados ómega-3 e reverter a presença de ácidos gordos ómega-6.”

No caso do teor proteico, o peixe selvagem sai a ganhar, pois tem mais espaço para circular, o que se reflete numa maior quantidade de tecido muscular. “Além de uma composição nutricional idêntica face ao pescado selvagem, a aquacultura apresenta vantagens, como o abastecimento constante, um conteúdo nutricional uniforme e o controlo rigoroso sobre a produção”, acrescenta a nutricionista.

De que é feita a ração

No porto de Sesimbra, os barcos continuam a sair todas as noites, embora nesta época seja raro excederem as cotas, porque o mar está fraco em produtos de qualidade. As douradas, por exemplo, estão magrinhas, pois a desova foi em janeiro – as de aquacultura não sofrem com a sazonalidade.

António Raimundo, 55 anos, tem sete barcos (para o peixe-espada, para o cerco e para exemplares de escama) e ainda é dono de duas peixarias na Margem Sul do Tejo. Diz que “quem nasce numa família de pescadores, sabe que uma coisa não tem nada a ver com a outra. O que vem do mar é sempre mais saboroso”. E não o afirma por temer a concorrência: “O de viveiro não incomoda a gente.”

5 mitos a desfazer
As principais ideias feitas que nos alimentam e nos afastam de decisões mais equilibradas

1. Os peixes de aquacultura são alimentados com farinhas
São alimentados com rações em forma de grão, compostas de proteína e óleo de peixe, soja e sementes como chia ou linhaça, nutricionalmente equilibradas. Nas explorações menos intensivas, os peixes também têm acesso a alimento natural, daí que a quantidade de ração ingerida seja menor.

2. Os peixes de aquacultura estão cheios de antibióticos
O uso de antibióticos de forma preventiva nas rações foi banido da União Europeia em 2006. São utilizados apenas em caso de doença e nas doses autorizadas por lei. No final do tratamento, os peixes ficam em quarentena até que desapareça qualquer vestígio do medicamento ingerido e seja seguro o seu consumo. Para a prevenção de doenças, já se usam vacinas. 

3. Os peixes selvagens têm mais ómega-3
Na verdade, os animais saídos da aquacultura são geralmente mais ricos em ómega-3, por causa da composição das rações. Além disso, têm menos mercúrio do que os selvagens.

4. A pesca tradicional é mais sustentável
Desde 2018 que Portugal não é autossuficiente em pescado, logo consumir peixes de aquacultura é uma atividade complementar desejada para aliviar a pressão nos mares.  

5. Os peixes de aquacultura morrem em sofrimento
Depois do cerco, os animais são retirados das redes e colocados imediatamente em gelo, o que os anestesia – a morte ocorre ao fim de meia hora. Na pesca tradicional, os peixes morrem por asfixia, processo que pode demorar algumas horas.

António Manuel, 62 anos, pescador há meio século, tende a concordar. “O peixe não sabe ao mesmo, nunca come o que há no mar”, assegura, para a seguir acrescentar, assente em alguma contradição, que o peixe do oceano é pouco, que o robalo começou a falhar, assim como a corvina e a dourada.

No final do leilão da lota, os comandos hão de fixar o preço da dourada de aquacultura, que neste dia estabilizou nos 14 euros o quilo (a de mar fixou-se nos €22). “Se for nacional, a diferença não é assim tão grande. A gordura e a frescura até podem ser melhores”, garante Luís Teodoro, 36 anos, dono de armazéns de manipulação de pescado. 

Estamos agora na EA Aquicultura, junto ao estuário do Sado, na maior exploração do País, gerida por Edo Alexandre, 36 anos, numas antigas marinhas de sal com 40 hectares. Aqui “faz-se” essencialmente dourada, mas nestes tanques de terra (os mais comuns em Portugal) também se encontram sargos, corvinas, linguados e robalos. “Setúbal é dos melhores sítios da Europa para criar dourada. A temperatura é idêntica à do mar e o rio é muito rico em nutrientes e alimento”, explica Edo.

O pescado de aquacultura tem mais teor lipídico: ácidos gordos polinsaturados ómega-3, explica a nutricionista Ana Luísa Marques

Em tempos, houve três maternidades nacionais, mas estão todas fechadas. Quer isto dizer que os peixes pequeninos, entre seis e dez gramas, são comprados em Espanha e França. Por outro lado, já existe uma empresa que fabrica rações, à base de produtos do mar, muitas vezes aproveitando o desperdício da lota e da indústria conserveira. A composição e a dosagem do granulado varia consoante a espécie e de acordo com as suas necessidades nutricionais.

Nesta exploração, os 800 mil peixes alimentam-se dessa ração, mas ela só representa 70% a 80% do que comem, porque a água do mar entra e sai, consoante as marés e há muito produto natural à disposição. “As minhas douradas crescem à velocidade das do oceano. Para pescar uma de 500 gramas, espero dois anos. Se as deixar crescer até ao quilo, quilo e meio, passa para três anos e meio”, revela o aquacultor.

Os 27 tanques e dois canais estão tapados com uma rede, para impedir que os corvos e as garças roubem cerca de 30% da produção, explica, enquanto conduz o trator que atira a ração para a água. “O facto de distribuir assim a comida obriga-os a movimentarem-se atrás dela, para ficarem com mais músculo.”  

Nesta altura do ano, pesca-se três vezes por semana (no verão, é todos os dias), logo de manhã. E há 20 toneladas prontas a sair até maio – Edo tem vendido mil quilos por semana, valor aquém do ano passado. Para isto, os pescadores cercam uma parte do tanque com a rede, como se se tratasse de arrasto, e depois selecionam à mão aqueles que estão no ponto para sair. Entram depois numas tinas grandes que comportam até 500 quilos, com gelo, para que o peixe esteja anestesiado quando morre. À tarde, são embalados e entregues nas grandes empresas de distribuição, os principais clientes.

Os preços para os peixes criados em regime semi-intensivo, como este, são altos, mas ainda assim ficam a cerca de metade dos seus congéneres do mar.

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Alterações climáticas estão a atrair para o Ártico predadores marinhos de águas mais quentes


Entre 2000 e 2019, o número de espécies de predadores nas águas do Ártico aumentou. A subida da temperatura marinha no pólo Norte do planeta tem criado as condições ideias para a instalação de tubarões, baleias e aves marinhas que antes não ocorriam nessa região.

Uma equipa internacional de investigadores estudou a evolução da distribuição espacial de 69 espécies de predadores marinhos ao longo dos últimos 20 anos, em oito áreas do Ártico, e percebeu que as águas mais quentes tornam não só a vivência nesses ambientes hostis mais tolerável a espécies de zonas mais a sul, como também faz aumentar a produtividade desses ecossistemas árticos, fazendo crescer a abundância de alimento.

As oito áreas do Ártico abrangidas pelo estudo.
Fonte: Artigo / Irene D. Alabia, et al. Scientific Reports. March 11, 2023

Por isso, os cientistas consideram que essa “expansão para Norte” de várias espécies de predadores se pode dever às alterações climáticas, a uma maior produtividade, ou a uma combinação desses dois fatores.

No entanto, essa ‘migração’ em direção ao Ártico não acontece de forma uniforme para todas os predadores estudados. Por exemplo, percebeu-se que a expansão da distribuição de predadores de média escala, como é o caso dos caranguejos e de peixes, era relativamente limitada, comparando com a dos tubarões, das baleias e das aves marinhas.

Gráfico mostra o aumento do número de espécies de predadores na região do Ártico desde os anos 2000.
Fonte: Artigo / Irene D. Alabia, et al. Scientific Reports. March 11, 2023
Irene Alabia, do Arctic Research Center da Universidade de Hokkaido, no Japão, e principal autora do artigo publicado na revista ‘Scientific Reports’, acredita que os resultados deste estudo são fundamentais para identificar zonas de grande diversidade de espécies e, se for o caso, implementar medidas para a sua conservação, uma vez que os efeitos das alterações climáticas no Ártico são cada vez mais evidentes.

E esse conhecimento assume uma importância ainda maior quando se considera, tal como escrevem os cientistas, que “ao longo das últimas décadas, a região do Ártico tem experienciado alterações climáticas antropogénicas sem precedentes” e que “as alterações ambientais no Ártico têm impactos evidentes nos ecossistemas marinhos, através de mudanças biogeográficas e da reorganização das comunidades e biodiversidade marinha”.

terça-feira, 14 de março de 2023

Dia Internacional de Ação pelos Rios

Esta data foi comemorada pela primeira vez em março de 1997, em Curitiba, no Brasil, no I Encontro Internacional dos Atingidos pelas Barragens, onde representantes de 20 países decidiram que o Dia Internacional de Ação seria a partir de então a 14 de março.

A partir dessa iniciativa, todos os anos, milhares de pessoas por todo o mundo comemoram esta data, exigindo melhores políticas e práticas, e lançando a atenção sobre as ameaças que os rios enfrentam.

A água é um recurso finito, pelo que a sua utilização deve ser regrada e consciente. A escassez deste bem tem afetado cada vez mais áreas no mundo, potenciando inclusive guerras entre alguns países. Para além da escassez, a poluição dos recursos hídricos leva a restrições na sua utilização, podendo causar problemas de saúde graves. Está nas mãos de todos a proteção da água como recurso essencial à vida.

Consulte o site do Dia Internacional de Ação pelos Rios para saber mais sobre as várias ações a decorrer.

quarta-feira, 1 de março de 2023

Mapa europeu das substâncias químicas “eternas” revela contaminação em Portugal

Consórcio de investigação e jornalismo divulgou esta quinta-feira os resultados de um projecto de mapeamento que assinala múltiplos locais na Europa contaminados por substâncias persistentes.


Um mapa europeu sobre as pegadas da contaminação por substâncias perfluoroalquiladas​ —​ conhecidas como PFAS ou, mais informalmente, como “produtos químicos eternos” — foi divulgado, esta quinta-feira, por um consórcio de investigação e jornalismo que juntou vários meios de comunicação numa denúncia comum. O trabalho revela que estas substâncias tóxicas, que ainda são usadas em vários produtos, foram encontradas em águas, solos e sedimentos de vários países da união Europeia e do Reino Unido. Portugal surge neste documento com oito pontos de contaminação.

"Poluentes conhecidos como 'produtos químicos eternos', que não se decompõem no ambiente, se acumulam no corpo e podem ser tóxicos, foram encontrados a níveis elevados em milhares de locais em todo o Reino Unido e na Europa", avisa a notícia publicada, esta quinta-feira, pelo The Guardian.

O mapa assinala os nove pontos, entre as amostras recolhidas em Portugal, onde foi identificada uma contaminação igual ou superior a 10 nanogramas por litro de água (n/l): ​​Bravães (Ponte da Barca, 190 ng/l); Praia Pontilhão da Valeta (Arcos de Valdevez, 160 ng/l); ​Penide/Areias de Vilar (Barcelos, 350 ng/l); Albufeira de Crestuma-Lever (Vila Nova de Gaia, 460 ng/l); Montemor-o-Velho (240 ng/l); Muge (Salvaterra de Magos, 3200 ng/l); Ribeira Vale do Morto (Elvas; 10 ng/l); Monte da Vinha (Elvas; 750 ng/l) e Ermidas do Sado (Santiago do Cacém, 450 ng/l).

O alerta com as conclusões da investigação foi divulgado ao mesmo tempo em vários meios de comunicação social europeus. O consórcio de investigação e jornalismo envolve as seguintes organizações ou meios de comunicação: Watershed Investigations, Le Monde (França), NDR, WDR, Süddeutsche Zeitung (Alemanha), RADAR Magazine e Le Scienze (Itália), The Investigative Desk e NRC (Holanda), Journalismfund.eu e Investigative Journalism for Europe.

A revelação do mapa da contaminação com as substâncias persistentes ocorre poucos dias depois de a União Europeia anunciar a intenção de proibir as PFAS a partir de 2026, ou no ano seguinte. As PFAS constituem uma classe com mais de nove mil substâncias químicas valorizadas pelas suas propriedades antiaderentes e detergentes. É por isso que são usadas em inúmeros produtos, das embalagens alimentares aos utensílios de cozinha, passando por têxteis, tintas, espumas de combate a incêndios e produtos médicos.

Estas substâncias são informalmente referidas como “produtos químicos eternos” porque não se degradam com facilidade, persistindo na natureza e acumulando-se nos organismos vivos. O mapa agora divulgado mostra que estes produtos persistentes têm sido encontrados em cerca de 17 000 locais em todo o Reino Unido e na Europa. Desse total, as PFAS foram detectadas em concentrações elevadas de mais de mil nanogramas (ng) por um um litro de água em cerca de 640 zonas, e acima de dez mil ng/l em 300 outras localidades.

Consequências para a saúde
Duas PFAS têm estado particularmente ligadas a vários problemas de saúde: a PFOA tem sido relacionada ao cancro renal e testicular, doença da tiróide, colite ulcerativa, colesterol elevado e hipertensão induzida pela gravidez; enquanto a PFOS tem estado associada a doenças reprodutivas, do desenvolvimento, do fígado, dos rins e da tiróide. As PFAS têm ainda sido associados à imunotoxicidade.

"Estes tipos de concentrações suscitam preocupações", disse Crispin Halsall, professor da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, especializado em química ambiental, citado pelo Guardian. "Há o risco de o gado ter acesso a essas águas e [, nesse caso, as PFAS entram] na rede alimentar humana".

O especialista recorda ainda que as PFAS nas águas subterrâneas constituem "um grande problema", uma vez que estas reservas são frequentemente captadas para a agricultura ou, pior ainda, para consumo humano.

Já Ian Cousins, cientista ambiental da Universidade de Estocolmo, refere que os locais com leituras superiores a mil nanogramas por quilo deveriam ser "urgentemente avaliados" para que possam ser remediados.

"Em sítios [altamente] contaminados, as autoridades locais deveriam considerar a possibilidade de testar para garantir que os níveis de PFAS são seguros nos produtos locais. Isto ajudaria a determinar se são necessários conselhos de saúde locais e campanhas de publicação para desencorajar o consumo regular de peixes selvagens, mariscos, ovos [produzidos por galinhas] ao ar livre", acrescentou ao Guardian.