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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Crise de memória RAM? A China está a adorar!


Por Nuno Miguel Oliveira
Como já disse várias vezes, a crise de memória RAM não é inocente. As 3 grandes fabricantes sofreram com excesso de stock durante algum tempo (o que resultou em margens mais curtas), e como tal, decidiram cortar na produção. Também decidiram cancelar planos para o desenvolvimento de novas linhas de produção. Tudo isso resultou na “crise” que agora se vive.

Mas, essa estratégia pode muito bem vir a resultar em algo extremamente curioso. As 3 grandes fabricantes (Samsung, Micron e SK Hynix), estão agora a ver um quarto concorrente a crescer de forma… Avassaladora. Dentro em breve, vamos ver um Big 4 e não um Big 3.

Pois é! O mundo não vive só de crises.
CXMT cresce 716% num ano e a China avança sem travões para esmagar o cartel da memória!

Quem pensava que as sanções dos Estados Unidos e as restrições de tecnologia iam matar a indústria de semicondutores na China pode começar a comer o pequeno-almoço, visto que está prestes a começar um novo dia.

A gigante chinesa de memórias CXMT não só sobreviveu, como se transformou na fabricante de DRAM com o crescimento mais rápido do planeta no segundo trimestre de 2026. De facto, os dados da Counterpoint Research mostram um disparo de receitas verdadeiramente de loucos: uns inacreditáveis 716% de aumento em comparação com o ano passado. É a China a mostrar que não precisa de pedir licença ao Ocidente para fazer chips de topo.

Assim, enquanto a Samsung tenta segurar a liderança do mercado com 39% de quota e a SK Hynix e a Micron andam à pancada pelo segundo lugar, a CXMT corre por fora e já ameaça entrar no clube.

Até a Apple quer estes chips!
Não vamos ser anjinhos e dizer que a China anda a vender chips mais baratos. Toda a gente gosta de dinheiro, e os chineses não são diferentes. De facto, os chips de memória da CXMT ainda não estão ao nível das outras 3 grandes fabricantes.

Mas, não estão muito longe, e apesar de caros, têm uma grande vantagem… Há stock!

E talvez mais importante que isto, a fabricante anda a aproveitar a onda para investir muito (e bem) no futuro. Afinal, ao contrário da SMIC, que ainda luta para ultrapassar certas barreiras na produção de processadores, a CXMT já está a produzir memórias de última geração e a fazer progressos sérios nos chips LPDDR6.

O motor deste crescimento avassalador assentou numa procura interna brutal na China e numa expansão agressiva das suas fábricas, financiada após a entrada na bolsa no início do ano. Aliás, a empresa já está a construir uma nova megafábrica em Pequim para produzir ainda mais.

E a ironia da história atinge o auge aqui! Até a própria Apple está a tentar fechar contratos com a CXMT para garantir o fornecimento de chips de memória para os seus equipamentos. Numa altura em que a crise da memória para a Inteligência Artificial encareceu tudo e forçou os americanos a subirem os preços dos seus produtos, Tim Cook bate à porta de Pequim a pedir socorro para não ficar sem stock.

A questão já não é “se”, é “quando”
A memória RAM e o armazenamento de alta velocidade são a espinha dorsal de tudo o que mexe na tecnologia moderna, desde os aceleradores de IA até ao smartphone que trazemos no bolso. Durante anos, Samsung, SK Hynix e Micron geriram o mercado quase a seu bel-prazer, ditando preços e volumes de produção.

A chegada da CXMT com apoio estatal, capacidade fabril massiva e preços competitivos vai virar o jogo ao contrário.

Curioso não é?

segunda-feira, 27 de julho de 2026

TR/ST - Gloryhole

Melhor som aqui
Letra

Warmth of your shiny breast
This season gives you white
Persistence and practice
My begging mother
Please hold me tight

[refrão] 2X
Wasted youth is smoldering
Our lust fell in from stars
Shall only pass this once
Devote only so far
Warmed as your season
Consistently white
Expensive swallow fills my throat
Warned off the preaching in wavering white
Lost in glossy now I know

"Gloryhole" dos TR/ST: significado, estética Queer e música de Intervenção
Apesar de surgir num contexto de música eletrónica de clube e de estética soturna, Gloryhole pode ser interpretada sob o prisma da música de intervenção, ainda que distanciada dos moldes tradicionais do protesto político direto. Em vez de utilizar panfletos ideológicos ou palavras de ordem explícitas, a canção atua como uma forma de intervenção social, corporizada e existencial ao dar voz à margem, ao anonimato e ao desejo dissidente. O próprio termo refere-se a um buraco numa divisória, habitualmente em casas de banho públicas ou espaços clandestinos, projetado para práticas sexuais anónimas sem contacto interpessoal direto. Enquanto a música de intervenção clássica se foca na denúncia de instituições, na crítica económica ou no combate a regimes, o TR/ST opera no plano da política do corpo. Ao centrar a narrativa no erotismo anónimo, no desejo visceral e nos espaços subterrâneos da subcultura queer, a canção recusa a higienização e a assimilação da identidade por parte das normas heteronormativas e da moralidade burguesa. Reivindicar a obscuridade, a abjeção e o perigo do desejo cru torna-se uma tomada de posição subversiva que nega a necessidade de pedir licença para existir.

O conceito do gloryhole representa uma arquitetura da clandestinidade que, historicamente, nasceu da sobrevivência e da fuga à perseguição policial e social. Ao trazer esta realidade erótica e marginal para o centro da obra, a música intervém no espaço público e força o ouvinte a confrontar geografias subterrâneas de prazer e dor que a sociedade prefere invisibilizar, transformando o estigma num espaço de validação da memória e de libertação. Esta dimensão de protesto cultural é amplificada pela popular associação visual ao filme Funeral Parade of Roses, de Toshio Matsumoto, conectando a sonoridade de TR/ST à história da contracultura queer dos anos 60 e à luta pelo direito à existência fora dos padrões impostos.

Neste cenário, o hedonismo sombrio e os versos que evocam uma juventude desperdiçada funcionam como uma resposta existencial ao desespero do mundo contemporâneo. Perante um futuro incerto ou sufocante, entregar-se ao efémero e encontrar beleza no que é rotulado de impróprio torna-se uma ferramenta de sobrevivência imediata, afirmando que o corpo e a vida pertencem ao indivíduo e não ao controlo social. A nível sonoro, a fusão de darkwave e EBM com vocais guturais atua como um manifesto contra a sonoridade comercial genérica, criando no espaço do clube subterrâneo um santuário de transe coletivo onde o trauma, a solidão e a vergonha são expurgados através da dança. Assim, a intervenção aqui não é partidária, mas sim profundamente política na forma como usa o corpo, o desejo e a transgressão estética para resistir à norma e resgatar a liberdade individual.

Mais info:
TR/ST (Album) wikipedia

sábado, 18 de julho de 2026

Anatomia de um arboricídio: o sacrifício de um Pinheiro-Manso em Lisboa

A recente condenação de um pinheiro-manso histórico em Lisboa reabriu o debate sobre a forma leviana como o património natural urbano é gerido em Portugal. No centro da polémica, José Ribeiro e Castro alega que a decisão de abate foi tomada com base num parecer técnico contratado a privados, uma manobra que serviu para ignorar e contornar as indicações expressas em sentido contrário dadas pelos técnicos oficiais da Câmara Municipal de Lisboa. Para justificar o corte, a narrativa oficial recorreu ao clássico exagero mediático, empolando o perigo com expressões alarmistas como "dezenas de toneladas" em risco de queda, e invocando os habituais argumentos dos passeios levantados ou de tubagens danificadas. No entanto, não faltaram alertas legítimos da sociedade civil, com o Fórum Cidadania Lx a encabeçar os avisos de que estávamos perante um atentado ambiental desnecessário.

Este abate coloca Lisboa em total contraciclo com as grandes cidades europeias, que hoje competem para expandir as suas copas urbanas. Ao contrário do que a ignorância política faz crer, a ciência atual oferece inúmeras tecnologias que previnem o arboricídio, sem que seja necessário invocar o exemplo máximo da engenharia tradicional japonesa, o Nemawashi. O progresso tecnológico permite-nos, de facto, resolver estes conflitos sem recurso à motosserra. Para o problema das raízes e dos passeios, existem tecnologias subterrâneas como as células de solo modulares e as barreiras físicas, que direcionam o crescimento radicular para baixo e protegem o pavimento. Para a avaliação da saúde da árvore, o diagnóstico pode ser feito com o rigor de uma ecografia através de tomógrafos sonoros e resistógrafos, que revelam se o tronco está oco sem desferir um único golpe. Numa escala macro, as metrópoles usam sensores de inclinação IoT, drones e laser LiDAR por satélite para vigiar o stress hídrico, complementados por plataformas de cadastro aberto e QR Codes que dão a cada árvore um bilhete de identidade digital, permitindo ao cidadão fiscalizar a legalidade de qualquer intervenção e combater a impunidade.

O argumento do custo financeiro destas tecnologias também não colhe. O mercado oferece hoje soluções em vários patamares: se a monitorização contínua por sensores IoT exige orçamentos de grandes capitais, o desenvolvimento de aplicações de denúncia urbana e a instalação de barreiras de raiz são investimentos perfeitamente acessíveis a qualquer pequeno município. Os especialistas são unânimes: investir na preservação é altamente rentável, pois o custo de manter uma árvore adulta saudável é uma ínfima fração do prejuízo económico e ambiental que resulta da sua remoção, da reparação de infraestruturas e do agravamento das ilhas de calor urbanas. No fundo, este caso expõe uma crise de mentalidade. Confundir a gestão de árvores urbanas com o trabalho de um homem de motosserra é o mesmo que confundir um cirurgião com um carniceiro. Ambos usam ferramentas de corte e ambos alteram o corpo, mas enquanto o primeiro estuda anos para curar e preservar a vida, o segundo apenas quer despachar o trabalho, amputando cegamente o que lhe aparece à frente. Lisboa perdeu mais do que um pinheiro; perdeu a oportunidade de demonstrar maturidade e respeito pela ciência.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Mesmo com mais população, Portugal convergiu com os países mais ricos da Europa

O PIB per capita de Portugal ainda está muito abaixo do dos países mais ricos da UE, mas mesmo corrigindo o efeito do aumento da população, está mais próximo do destes países do que alguma vez esteve nos últimos 60 ou 70 anos

A ideia de que, os novos dados sobre população, revelam que a convergência de Portugal na última década afinal não existiu, é uma ideia falsa. Na última década (2015-2025), ao contrário do que tinha acontecido na década e meia anterior (2000-2015), Portugal convergiu com os países mais ricos da União Europeia, e também com os EUA, o Canadá e o Japão. A alteração ao cálculo da população residente, feita pelo INE, altera a dimensão dessa convergência, mas não muda o facto de que Portugal se aproximou em PIB per capita (em PPC) de todos os países do G7, o grupo que reúne as economias mais ricas do mundo.

Quando, em 1986, Portugal entrou para a então CEE, o objetivo era conseguir aproximar-se do rendimento per capita das economias mais ricas desse clube (Alemanha França, Itália, Reino Unido). Nesse ano, Portugal era o país mais pobre dos 12, com um PIB per capita entre os 50% e os 60% do destes seis países e de 45% do PIB per capita dos EUA.

Nos primeiros 15 anos de integração, o país teve um forte processo de convergência. Em 2001, Portugal continuava a ser o país mais pobre da União Europeia a 15, mas tinha um PIB per capita que já estava entre os 65% e os 72% de qualquer uma das 4 maiores economias da UE e que já chegava aos 52% do dos EUA.

A este primeiro período de convergência, seguiram-se 14 anos de estagnação ou mesmo de retrocesso. Entre 2001 e 2015, o PIB per capita português caiu face a todos os parceiros da UE15, exceto a Grécia e a Itália.

Estes dados estão refletidos no gráfico. Em todos os países apresentados, a primeira coluna é positiva mostrando que houve convergência entre 1986 e 2001. Pelo contrário, a segunda coluna é negativa ou próxima de zero para todos os países exceto a Itália, o que significa entre 2001 e 2015, Portugal não convergiu com os países mais ricos.

Quando olhamos para as últimas duas colunas, o que vemos é que, no período de 2015 a 2025 os valores são todos positivos. Isso significa que, depois de 2015, voltou a haver convergência. Esta conclusão é visível na coluna a preto (que apresenta os cálculos com os valores utilizados pelo Eurostat), mas é também visível na coluna a cinzento, em que os dados foram corrigidos pela nova estimativa da população portuguesa. Obviamente, tomando em consideração os novos dados da população, a convergência em termos de PIB per capita fica menor. Mas continua a ser bem visível nos dados.

Portugal convergiu, mesmo com a Correção da População
Mesmo com os dados corrigidos, na última década, o PIB per capita de Portugal converge. Convergiu 23 pontos percentuais (pp) com o do Japão, 10 pp com o do Reino Unido, 7 pp com o da Alemanha e França, 6 com o dos EUA, e 2 pp com o de Itália. Por exemplo no caso da França, usando os dados do Eurostat, o PIB per capita de Portugal passa de 71% do de França, em 2015, para 82% em 2025. Corrigindo, com o aumento da população, o PIB per capita português já só representa 78% do PIB francês. É uma diferença entre uma convergência de 11 pontos e uma de apenas 7 pp, nestes 10 anos. Mas, em qualquer dos casos Portugal está hoje próximo dos 80% do PIB per capita francês, quando em 1986 estava nos 57% e, em 2015, estava nos 72%.

Estes dados significam que o ritmo de convergência anual entre Portugal e as economias mais ricas do mundo, nestes últimos dez anos, foi em alguns casos, muito próximo do que se registou nos primeiros 15 anos de integração.

Mesmo com os dados corrigidos, no caso dos EUA, Japão e Reino Unido, na última década, convergimos mais por ano, do que no período de ouro dos primeiros 15 anos de integração (1986-2001). Nos casos da França e Alemanha, no primeiro período convergimos 1 ponto percentual por ano, (15 pp em 15 anos), o mesmo valor que obtemos para a última década, com os dados não corrigidos. Quando se corrigem os dados, o valor passa para 0,7 pontos por ano, um ritmo menor, mas ainda assim uma aproximação significativa (7 pontos percentuais numa década). Apenas no caso da Itália, a correção coloca a convergência a níveis pouco significativos (passa de 6pp para 2pp).

O que é verdade para as grandes economias da UE, é também verdade para todos os restantes países que faziam parte da UE15. Mesmo considerando os dados corrigidos, entre 2015 e 2025, Portugal convergiu em PIB per capita com todos os países que integravam a UE15, exceto a Irlanda.

Quando se olha para a média, a correção populacional baixa significativamente a nossa convergência. Na última década, a aproximação de Portugal passa a ser de apenas 1 a 2 pontos percentuais (em vez de 5 ou 6 pp sem a correção), se considerarmos a UE27, e 3 ou 4 pontos, se compararmos com a Zona Euro (em vez de 7 ou 8 pp).

Isto deve-se ao facto de que a maioria dos países de leste terem continuado a crescer a um ritmo mais elevado do que Portugal e do que os restantes países da UE. A correção do PIB per capita português, pelo aumento da base populacional, apenas acentua esta realidade, que os dados anteriores já mostravam. Portugal convergiu mais com os países mais ricos do que com a média porque houve outros países que também convergiram, e que convergiram mais, contribuindo para aumentar a média.

Convergência mais forte dos países de leste
Desde 2000, a generalidade dos países de leste, cresceram a um ritmo muito superior ao português e ao da média da União Europeia. No entanto, também aqui é possível encontrar dois períodos distintos. Enquanto, entre 2000 e 2015, os países de leste convergiam fortemente com os países mais ricos da Europa e Portugal estava a divergir, depois de 2015, os países de leste continuaram a convergir, mas Portugal voltou a convergir.

Entre 2000 e 2015, todos os países de leste aumentaram o seu PIB per capita face ao de Portugal de forma acentuada. Depois de 2015, alguns países de leste, como a Chéquia, a Estónia e a Eslováquia, tiveram uma evolução do PIB per capita muito semelhante à de Portugal, mas outros, como a Bulgária, a Roménia ou a Polónia, continuaram a crescer a um ritmo mais acelerado.

Nos últimos anos Portugal cresceu mais em PIB per capita e convergiu com a Alemanha, a França, a Áustria e a Suécia. Mas, cresceu menos do que a Roménia a Polónia ou a Bulgária. A Roménia e a Polónia convergiram com Portugal, tendo chegado já ao mesmo nível de PIB per capita do nosso país.

A correção do PIB pela nova estimativa da população não altera a realidade de que os países de leste cresceram mais do que Portugal. No entanto, na margem, pode alterar a posição de Portugal, no ranking do PIB per capita, face a países como a Estónia, a Polónia, a Roménia ou a Croácia. Estes quatro países registam um PIB per capita entre os 77% e os 81% da média da UE27. O valor de 81% é o que surge para Portugal, nos dados do Eurostat e coloca o nosso país à frente destes países. O de 77% é o que se obtêm para Portugal quando se aplica a alteração da população portuguesa (sem outros ajustamentos) e coloca estes países à frente de Portugal. O valor real vai provavelmente estar no meio destes dois.

Estas pequenas diferenças mostram como este indicador face a países próximos é muito sensível a alterações de critérios, no cálculo da população, do PIB, ou dos níveis de preços. O próprio Eurostat salienta que: “há um consenso geral de que os indicadores baseados em Paridades de Poder de Compra (PPC), não se destinam a estabelecer um ranking rigoroso dos países. O grau de incerteza associado aos dados de preços e despesas, bem como aos métodos utilizados para o cálculo das PPC, pode gerar erros que influenciam a classificação dos países, especialmente quando estes se concentram em uma faixa de resultados muito estreita”. Parece uma frase destinada ao presente caso, mas já lá está há muitos anos.

Neste caso, para além da incerteza no cálculo dos preços, estamos a juntar alterações nas estimativas da população, e a aplicar essas alterações sem ter em conta os efeitos que a própria alteração da população pode ter no cálculo do PIB.

Questões sobre o uso dos novos dados de população
Na parte anterior deste artigo aceitei a ideia de fazer o ajustamento do PIB per capita de Portugal introduzindo na base 11,39 milhões de cidadãos (para 2024), em vez dos 10,75 milhões, que anteriormente eram usados. O resultado é uma descida do PIB per capita de 81% da média europeia, para os 77%. O que tentei demonstrar foi que, mesmo considerando este ajustamento, na última década, verifica-se uma convergência significativa entre Portugal e todos os países mais ricos da UE, exceto a Irlanda.

Esta correção, ao adicionar 637 mil residentes face às anteriores estimativas de população do INE, altera as estimativas de PIB per capita. Mas estas alterações não são lineares, uma parte dos agregados do PIB são estimados usando o emprego e a população como fatores de cálculo, o que significa que os novos dados de população podem obrigar a uma revisão para cima do PIB português, nos anos de 2021 a 2025. Ou seja, o método que apliquei na primeira parte do artigo, tende a sobrestimar a diminuição do PIB per capita. Esta diminuição deverá existir, mas pode não ser tão acentuada como a que utilizei.

Para calcular a nova estimativa de população, o INE recorreu a dados administrativos provenientes de uma multiplicidade de entidades públicas como a AIMA, a Segurança Social, o Instituto de Registos e Notariado, a Autoridade Tributária, o Instituto do Emprego e Formação Profissional e o Ministério da Educação. Estas estimativas permitiram encontrar a presença de muitos residentes estrangeiros que estavam a ser omitidas no método anterior.

O atual método, permite contar na população residente mesmo estrangeiros que estão ilegais, ou temporários. Isso dá uma visão mais realista do total dos residentes em Portugal. No entanto, devemos ter cuidado a ter no uso dos novos dados nas comparações internacionais.

As estimativas de estrangeiros ilegais na Alemanha variam entre os 800 mil e os 1,5 milhões, na França apontam para 600 a 900 mil ilegais, a maioria não captados nas estatísticas da população. Em Espanha, as estatísticas de estrangeiros residentes, para 2024 ou 2025, consideram apenas os registados. O governo estimava-se que pudessem existir mais de 500 mil imigrantes não registados. No processo extraordinário de regularização, em 2026, surgiram mais de 1,2 milhões de inscrições. Se estamos a ajustar o PIB per capita português colocando mais 600 mil pessoas, não devíamos então comparar este com um PIB per capita da Espanha ajustado para incluir mais 1,2 milhões de residentes? Ou o da Alemanha com mais 1,5 milhões de pessoas?

Por outro lado, se ficou claro que o método anterior subestimava o número de residentes, penso que é importante verificar se o atual método, para efeitos de cálculo do PIB per capita, não poderá sobrestimar os residentes estrangeiros.

Hoje temos mais nómadas digitais, que vivem parte do ano em Portugal, mas têm rendimentos fora do país. Temos também mais trabalhadores sazonais e temporários, em áreas como a construção, o turismo ou a agricultura, que mudam muitas vezes de emprego e de país, ao longo do ano. Temos ainda imigrantes temporários, que entraram em Portugal, mas estão em circulação para outros países.

É razoável assumir que muitos destes estrangeiros residentes, agora detetados, apenas trabalhem uma parte do ano em Portugal. Nestes casos estamos a contar uma capita na parte de baixo da equação, como se esta pessoa tivesse passado todo o ano em Portugal, mas o contributo para a produção e consumo desta pessoa em Portugal, pode ter sido dado em apenas alguns meses. Estas realidades podem conduzir a conclusões erradas sobre a produtividade e o contributo para o PIB per capita destes trabalhadores.

Por estas e outras razões, a nova metodologia não deve dispensar a realização de um exercício de Census, que permita avaliar algumas destas questões e calibrar os eventuais erros e omissões.

Conclusão
A revisão de dados sobre a população feita pelo INE é a meu ver positiva. Vai permitir um retrato mais claro da população residente e da presença de cidadãos estrangeiros no território nacional. No entanto, a utilização destes dados para comparações internacionais, deve ser feita com cuidado, no sentido de ser compatível com os critérios dos países com que estamos a comparar, e de incorporar todos os efeitos desta alteração, incluindo a forma como vai afetar o cálculo do PIB.

Volto ao princípio deste artigo, para salientar que, mesmo usando os dados na versão mais simples, e que tem mais impacto na baixa do nosso PIB per capita, o que os dados revistos com o aumento da população mostram é que, nos últimos 10 anos, o PIB per capita de Portugal se aproximou, não só do de todas as economias mais ricas da UE (UE15 - exceto a Irlanda), mas também do dos restantes países do G7 (EUA, Canadá e Japão).

Os novos dados sugerem que o país se aproximou menos do que antes pensávamos. E certamente menos do que desejávamos. Mas mostram que a realidade de Portugal como um país que não se estava a conseguir aproximar dos países mais ricos, que dominou todo o período entre 2001 e 2015, se inverteu na década de 2015 a 2025.

A última década correu bem e permitiu a Portugal convergir com a Alemanha, a França, o Reino Unido, a Suécia, a Áustria, os EUA ou o Japão. E convergiu em valores significativos. O PIB per capita de Portugal ainda está muito abaixo do dos países mais ricos da UE, mas mesmo corrigindo o efeito do aumento da população, está mais próximo do destes países do que alguma vez esteve nos últimos 60 ou 70 anos.

Penso que é mais importante centrarmo-nos em como conseguir que essa convergência continue ou até se reforce na década de 2025 a 2035, do que estar a usar os novos dados para alimentar o negativismo e para tirar conclusões, que estes não sustentam.

sábado, 23 de maio de 2026

Dia Mundial da Biodiversidade: "É a teia viva que sustenta a humanidade"


Esta sexta-feira, assinalou-se mais um Dia Mundial da Biodiversidade, data oficializada pelas Nações Unidas para comemorar a adoção o texto da Convenção da Diversidade Biológica (CBD), neste mesmo dia em 1992.

A primeira cimeira mundial da biodiversidade aconteceu dois anos depois, nas Bahamas, e, desde então, contam-se já 16, com a número 17 já programada para o próximo mês de outubro, na capital arménia de Yerevan. Ao longo desses 34 anos, a comunidade internacional construiu uma arquitetura de governação global da biodiversidade tendo a CBD como coluna-mestra, estabelecendo várias estratégias, objetivos e metas com os quais os signatários se foram comprometendo.

Contudo, tal como em muitas outras convenções e agendas internacionais, a realidade acaba, no final de contas, por ficar sempre aquém da ambição. Por exemplo, nenhuma das metas de biodiversidade de Aichi para 2020 (algumas com o horizonte mais curto de 2015), que a CBD tinha estabelecido uma década antes, foi alcançada. E isso naquela que deveria ter sido a Década das Nações Unidas para a Biodiversidade.

Agora, estamos, até 2030, na Década das Nações Unidas para a Recuperação dos Ecossistemas, assim declarada pela Assembleia Geral dessa organização internacional. Apesar de décadas de negociações, de promessas, e de alguns avanços significativos, como o Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, que entre os principais objetivos tem proteger 30% dos habitats e restaurar 30% dos ecossistemas degradados até 2030 e travar as extinções causadas pelos humanos, a diversidade da vida na Terra está cada vez mais ameaçada.

“A biodiversidade é a teia viva que sustenta a humanidade”, disse António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, a propósito do Dia Mundial da Biodiversidade. Contudo, deixa claro o estado atual em que nos encontramos: “o caos climático, a poluição e a incansável exploração da terra, do oceano e da água doce estão a empurrar o mundo natural para o colapso, com consequências devastadoras para pessoas, modos de subsistência e desenvolvimento sustentável”.

Biodiversidade em perigo
Apesar de décadas de cimeiras mundiais sobre esse tema, e de discursos enfáticos de líderes globais, responsáveis regionais e políticos nacionais sobre como é indispensável para a sustentabilidade e, em última análise, sobrevivência da espécie humana na Terra, a biodiversidade continua em perigo e a sua perda mantém-se como uma das três grandes crises planetárias, a par das alterações climáticas e da poluição.

A Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, criada e mantida pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), é um barómetro do estado de saúde da biodiversidade a nível global, classificando as várias espécies não-humanas consoante o grau de ameaça que enfrentam. Estima-se que, a nível global, sejam conhecidas cerca de 2,5 milhões de espécies atualmente, embora tal possa ser uma mera porção da biodiversidade real da Terra, onde alguns calculam que existam mais de oito milhões.

De ano para ano, o número de espécies na categoria “Criticamente ameaçada”, somente uma abaixo de “Extinta”, tem vindo a aumentar continuamente de ano para ano. Os cientistas dizem que esses números não devem ser interpretados como tendências do estado da biodiversidade, pois o aumento do número de espécies nessa categoria reflete mais o fortalecimento dos esforços de avaliação da UICN e entidades parceiras do que reais mudanças no número de espécies ameaçadas que existem no mundo.

No entanto, o facto de todos os anos, sem exceção, se descobrir que mais e mais espécies entram nessa categoria que marca o precipício da extinção certamente que não é uma boa notícia para a biodiversidade.

O mesmo se passa nas categorias “Em Perigo” e “Vulnerável”, que, conjuntamente com a de “Criticamente em perigo”, formam a tríade de categorias que integram as espécies que se consideram ameaçadas.

Em 2025, 26% das espécies de mamíferos estavam ameaçadas, 11% das aves, 21% dos répteis e 41% dos anfíbios. Para os restantes grupos, não há ainda dados suficientemente amplos que permitam calcular percentagens, dizem os cientistas. A falta de conhecimento sobre o verdadeiro estado de conservação das espécies – por falta de recursos humanos, técnicos e financeiros ou por falta de priorização política e social – é uma das grandes ameaças ao futuro de muitas espécies, que não são tão conhecidas do público ou que não são por ele tão admiradas quanto outras. É muito difícil, senão mesmo impossível, proteger o que não se conhece, e mesmo o que não se conhece ou o que se acaba de descobrir pode enfrentar já em risco de desaparecer.

Os fatores humanos
Um estudo publicado na ‘Nature’, em março de 2025, com o título “O impacto humano global sobre a biodiversidade” (tradução literal para português), determinou que a forma como a nossa espécie tem lidado com o planeta está claramente a reduzir a diversidade de formas de vida que nele habitam.

Através da compilação de dados de 2.133 estudos sobre os impactos humanos na biodiversidade terrestre, marinha e de água doce dos quatro cantos da Terra, e abrangendo todos os grupos de organismos – dos microrganismos aos mamíferos, passando pelos fungos, plantas, invertebrados, peixes e aves –, esta equipa liderada pela Universidade de Zurique criou “uma das maiores sínteses dos impactos humanos sobre a biodiversidade alguma vez realizada a nível mundial”, como explica Florian Altermatt, principal coautor.

De forma resumida, o estudo olhou para os cinco grandes fatores de pressão humanos sobre a biodiversidade – alteração de habitats, exploração direta (como caça e pesca), alterações climáticas, poluição e espécies invasoras – e concluiu que todos eles têm impactos significativos à escala global, em todos os grupos de organismos e em todos os ecossistemas.

Estimam os investigadores, com base nos dados analisados, que em média o número de espécies em locais impactados era quase 20% inferior ao de locais não afetados por fatores de pressão humanos. Perdas “particularmente graves” de espécies, salientam, foram encontradas nos répteis, anfíbios e mamíferos, pois as suas populações tendem a ser mais pequenas do que as dos invertebrados, o que aumenta a probabilidade de extinção.

Além disso, os investigadores dizem que os impactos humanos estão não só a reduzir o número de espécies, mas também a alterar a composição das comunidades, o que pode ter efeitos negativos e perigosos no funcionamento dos ecossistemas. A poluição e as alterações nos habitats são dos impactos humanos que mais afetam a diversidade e a composição das comunidades de vida não-humana.

Também em 2025, um outro estudo dizia que ao longo do último século o ritmo de extinção de espécies de plantas, artrópodes e vertebrados terrestres tem vindo a desacelerar, especialmente devido a esforços de conservação. Num artigo publicado na revista ‘Proceedings of the Royal Society B’, cientistas analisaram os ritmos e padrões de extinção de 912 espécies de plantas e animais que desapareceram nos últimos 500 anos. Além de apontarem para essa desaceleração no ritmo atual de extinção, uma afirmação que poderá gerar alguma controvérsia, apontam também as causas humanas como os principais fatores que estão a fazer desaparecer as espécies não-humanas.

Uma “teia viva” a desfiar-se
Em outubro de 2025, uma atualização da Lista Vermelha anunciou o agravamento do estatuto de ameaça de três focas do Ártico, que 61% de todas as espécies de aves a nível mundial estão em declínio e 11,5% ameaçadas por causa da desflorestação, e que o maçarico-de-bico-fino está oficialmente extinto, tornando-se a primeira ave da Europa continental declarada como extinta em 500 anos.

Na atualização mais recente, do passado mês de abril, o pinguim-imperador, com um declínio de 10% da sua população entre 2009 e 2018, e o lobo-marinho-antártico, com uma redução populacional de mais de 50% entre 1999 e 2025, viram os seus estatutos agravar-se para “Em perigo”.

Algumas estimativas apontam para que, dos cerca de oito milhões de espécies que existem na Terra, pelo menos 15 mil estejam ameaçadas de extinção. Desde 1500 que 881 espécies desapareceram para sempre, um número que, admitem os próprios cientistas, pode ser muito inferior à realidade. Dessas, 322 eram vertebrados terrestres e 37 anfíbios, embora, no que toca a esses animais amantes de água, os especialistas acreditem que mais de 100 outras terão desaparecido nas últimas décadas, ainda que não o consigam comprovar com certeza.

Numa entrevista dada recentemente à Green Savers, Nuno Ferrand, diretor do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO), dizia, a respeito da a biodiversidade em Portugal, que “estamos muito longe de uma situação ideal” e que “falta visão aos nossos decisores e aos nossos políticos”.

Disse-nos o catedrático que para proteger a biodiversidade não basta desenhar linhas num mapa e chamar-lhes “áreas protegidas” sem os meios necessários para a sua efetiva proteção e conservação.

“Para mim, é absolutamente incompreensível que todos os governos, desde há muito tempo, tratem assim a gestão e a conservação da biodiversidade num dos países da Europa que mais biodiversidade tem e que mais responsabilidade tem nessa área”, declarou.

Seja qual for o ritmo a que a biodiversidade está a desaparecer, o simples facto de isso estar a acontecer deve ser motivo de alarme para toda a humanidade. Não se trata de proteger uma Natureza distante, que é bonita e interessante, mas sim de zelar pelo nosso próprio habitat e pelos ecossistemas que nos fornecem serviços indispensáveis, e de assegurar, das profundezas mais escuras dos oceanos, aos topos das montanhas mais altas, passando pelas mais luxuriantes florestas tropicais húmidas, pelos desertos ilusoriamente desprovidos de vida e pelos jardins das nossas casas e cidades, que as maravilhas do mundo natural não se desvanecem para sempre, roubando à Terra parte da sua força vital que a torna tão única.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

A dupla face da China: líder na transição verde esconde uma corrida às armas nucleares


A geopolítica do século XXI fixou o olhar na China sob o signo de uma profunda contradição. Aos olhos do mundo, Pequim assume-se orgulhosamente como a locomotiva incontestável da transição energética global, liderando a produção de painéis solares, turbinas eólicas e veículos elétricos. No entanto, por trás desta fachada de vanguarda ecológica e de um soft power meticulosamente desenhado para projetar a imagem de uma potência responsável, esconde-se uma realidade consideravelmente mais sombria e bélica: uma aposta sem precedentes na expansão do seu arsenal nuclear.

Durante décadas, o regime chinês manteve uma postura de dissuasão minimalista, assegurando ao plano internacional que o seu armamento atómico servia apenas como último recurso defensivo. Contudo, sob a liderança de Xi Jinping, a China iniciou uma aceleração histórica que quebrou este antigo equilíbrio. Campos de centenas de silos para mísseis balísticos intercontinentais surgiram nas zonas remotas do oeste do país, enquanto a nova "tríade nuclear" — capaz de projetar ogivas por terra, mar e ar — passou a ser exibida com pompa militar. Para lá dos mísseis de longo curso, Pequim investe agora fortemente em mísseis hipersónicos e de teatro de operações regional, armas de "capacidade dupla" que baralham as fronteiras entre o convencional e o nuclear, elevando drasticamente o risco de um erro de cálculo global.

Esta corrida ao armamento é alimentada por uma profunda paranoia estrutural face ao Ocidente e, em particular, aos Estados Unidos. Ao observar o tabuleiro internacional e o conflito na Ucrânia, os estrategas chineses retiraram uma lição clara: a ameaça nuclear russa funcionou como um escudo eficaz para paralisar a intervenção direta da NATO no terreno. É este mesmo manual que Pequim ambiciona replicar na Ásia Oriental. O objetivo desta musculação atómica não é necessariamente desencadear o Armagedon, mas sim construir uma barreira de medo tão robusta que desencoraje qualquer intervenção norte-americana ou dos seus aliados numa eventual invasão a Taiwan.

Paralelamente, a narrativa da transição verde e o investimento massivo na energia nuclear civil servem de cobertura perfeita. Enquanto o mundo aplaude os avanços tecnológicos chineses na descarbonização, o complexo militar-industrial do país absorve recursos e tecnologia de ponta para otimizar os seus vetores de destruição. O país que se vende ao exterior como o garante da sustentabilidade do planeta prepara-se, à porta fechada, para cenários de "guerra nuclear limitada", posicionando mísseis concebidos para paralisar bases inimigas no Pacífico sob uma lógica de retaliação imediata. Esta é a verdadeira distopia chinesa: um império que lidera a transição para um futuro verde com uma mão, enquanto com a outra afia as armas que têm o potencial de extinguir o amanhã.

O documentário divide-se em três partes: 

Parte 1: Do Programa Mínimo à Expansão Histórica
  • A Parada de Pequim: a China exibiu publicamente pela primeira vez a sua "tríade nuclear" completa, demonstrando uma capacidade consolidada de lançar armas nucleares por terra, mar e ar.
  • O Ritmo da Expansão: especialistas apontam que a China se encontra no meio de uma expansão nuclear histórica. O Pentágono projeta que o país alcance as 1.500 ogivas nucleares até 2035.
  • A Motivação de Xi Jinping: o líder chinês é movido pelo receio de um confronto inevitável com o Ocidente liderado pelos EUA. A sua estratégia baseia-se no realismo estrutural: demonstrar poder para forçar as potências ocidentais a abandonarem a política de contenção contra a China.
  • A Inspiração na Rússia: Xi Jinping destacou internamente que a Rússia tomou uma decisão correta após a Guerra Fria ao manter o seu grande arsenal nuclear, o que obriga os rivais a moderar as suas políticas.
  • Os Silos de Mísseis: investigadores descobriram, através de imagens de satélite, mais de 300 silos de mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) em construção nas zonas remotas do oeste da China. Esta foi a forma mais rápida encontrada por Pequim para expandir o seu arsenal e demonstrar a sua capacidade aos EUA.
Parte 2: O Arsenal da Nova Tríade Nuclear
  • O Vetor Aéreo: a mais recente perna da tríade é o míssil balístico lançado pelo ar, conhecido como Jinglay 1 (JL-1).
  • O Vetor Marítimo e a Geografia: os novos submarinos nucleares chineses estão equipados com o míssil Juulang 3 (JL-3), com um alcance superior a 10.000 km. A China enfrenta restrições geográficas marítimas (a "primeira cadeia de ilhas"), onde os aliados dos EUA monitorizam as saídas para o oceano. É por isso que o Mar do Sul da China e a ilha de Hainan são cruciais para esconder os submarinos. O controlo sobre Taiwan daria à China acesso direto e indetetável ao Oceano Pacífico.
  • Mísseis de Teatro de Operações (Médio Alcance): o míssil DF-26 (apelidado de "Guam Killer") tem um alcance de 4.000 km e consegue atingir as forças dos EUA no Pacífico. Estes mísseis possuem "capacidade dupla", o que significa que podem transportar tanto ogivas convencionais como nucleares. Isto gera um perigo de incerteza em tempos de crise, pois os EUA podem confundir um ataque convencional com um ataque nuclear. O DF-17 é o primeiro sistema hipersónico da China, capaz de manobrar a altas velocidades para evitar as defesas antimísseis.
Parte 3: A Doutrina Nuclear e o Risco de Guerra
  • A Lição da Ucrânia: Pequim observou que as ameaças nucleares implícitas de Vladimir Putin resultaram em impedir que a NATO enviasse tropas para o terreno na Ucrânia. A China ambiciona ter a mesma capacidade de dissuasão para evitar que os EUA intervenham num cenário de invasão a Taiwan.
  • A Política de "Não Primeiro Uso" (No First Use): oficialmente, a China mantém a política de nunca ser a primeira a utilizar armas nucleares. Contudo, existem ambiguidades: analistas indicam que Pequim tem planos para ameaçar com o uso nuclear caso alvos estratégicos convencionais no seu território sejam atacados, argumentando que a política só é tecnicamente violada se as armas forem efetivamente disparadas.
  • Lançamento sob Ataque (Launch Under Attack): com a ajuda tecnológica da Rússia, a China está a desenvolver um sistema de alerta precoce para detetar mísseis inimigos. Isto permite adotar uma postura de disparar os mísseis de volta antes que os mísseis do adversário atinjam os silos chineses. O perigo reside no risco elevado de alarmes falsos e interpretações erradas durante uma crise.
  • Guerra Nuclear Limitada: o desenvolvimento de armas regionais mostra que a China está a preparar-se para a possibilidade de uma guerra nuclear limitada com os EUA. Os estrategistas chineses pensam em alvejar bases militares americanas na região (como em Guam, Japão ou Alasca) para aterrorizar os EUA e ganhar vantagem, sem provocar uma retaliação total que leve à destruição mútua global.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

The Geometry of Peace: A Tribute to Susumu Yokota (1960-2015)


To listen to "Cherry Blossom" is to witness a digital sunrise over an ancient forest. It is not merely a song, but a living ecosystem of sound that bridges the gap between the pulse of the machine and the rhythm of the of the heart.

An Ecological Resonance
This track breathes. It captures the essence of ecological interconnectedness, where the repetitive, hypnotic loops mimic the cycles of the seasons. It suggests that our technology is not an enemy of nature, but a mirror of it—a "botanic electronica" where every synthesizer swell feels like a petal unfurling in slow motion. It reminds us that we are not separate from the Earth; we are the Earth processing beauty through frequency and light.

The Human Tapestry
In its ethereal textures, there is a profound human connection. Yokota weaves an invisible thread of silk that connects every listener across time and space. To be moved by this music is to participate in a collective meditation. It strips away the ego, leaving only a shared sense of wonder. It is a universal language that speaks of our common fragility and our capacity for grace.

An Act of Active Pacifism
Above all, this music is a manifesto of active pacifism. In a world defined by noise, aggression, and the sharpness of conflict, choosing to dwell in this sonic landscape is a radical act of resistance.
It is a unilateral disarmament of the soul.
It replaces the "iron and fire" of modern discord with a "transparency of spirit."
By refusing to be loud or violent, it achieves a strength that no weapon possesses.

To carry this melody within you is to walk through the world with an open heart, proving that softness is not weakness, but the ultimate form of resilience. It is a quiet revolution that begins in the ear and ends in a more peaceful way of being.


Yokota was at the forefront of Japan's electronic music scene as it blossomed in the early '90s. His vast and exceptional body of work found him fans from far beyond the realms of the dance community, with Bjork, Phillip Glass, and Radiohead's Thom Yorke just a few names from his long list of admirers. His music found homes on revered labels such as Harthouse, Sublime Records, Reel Musiq, Leaf, and his own Skintone imprint, and his music saw him invited to perform DJ sets at the world's best-loved dance venues. He was the first Japanese artist to play at Berlin's Love Parade, and – alongside Ken Ishii – represented Asia magnificently during dance music's halcyon days through the late '90s and early '00s. His sound veered from techno to acid, ambient to house, breaks to drum & bass, and he recorded under innumerable aliases – including Stevia, Ebi, Prism, Ringo, Yin & Yan, Anima Mundi.

Though he died tragically in 2015, his incredible back catalogue continues to shine brightly, and it's of little surprise that labels are opting to re-issue the best of his music. Earlier in 2021, UK label Cosmic Soup presented a collection of house and techno sounds Yokota recorded under the secret alias 246, and now it's the turn of his ambient-leaning 'Symbol' to enjoy another jaunt under the spotlight. Previously released on British imprint Lo-Recordings, the blissfully horizontal album is formed around a core of samples borrowed from classical music – manipulated and repurposed alongside Yokota's masterful programming.

Borrowing passages and snippets from classical masters including Debussy, Tchaikovsky, and Ravel, he expertly lifts the emotion behind the original music while uniquely reimagine the music. From the soothing strings of opening track 'Long Long Silk Bridge' to the mesmerising chants of 'Symbol', the album overflows with imagination and spellbinding beauty. Yokota was a true master of electronic music composition, and 'Symbol' is among his most playfully seductive albums. Penetrable but profound, its re-issue represents a wonderful opportunity for new audiences to marvel at his studio prowess.

terça-feira, 7 de abril de 2026

SASAMI - Pacify My Heart


A artista SASAMI (nome artístico de Sasami Ashworth) é de nacionalidade norte-americana, nascida em Bronxville, Nova York,1990 e radicada em Los Angeles. Ela possui ascendência coreana (família Zainichi) e japonesa.

Pacify My Heart (e o álbum de estreia): Esta música específica pertence ao seu primeiro álbum homónimo (SASAMI, 2019)

[Verse 1]
Sometimes I wish I never met you (3X)
Because I don't have enough

[Chorus 1]
When you quantify my love
You may find it's not enough
But that's okay with me
Another day I'll see it through
I'll see it through

[Verse 2]
Some days I wish I could forget you (3X)
Because you don't have it all

[Chorus 2]
When you pacify my heart
I forget why it was hard
But that's okay with me
Another day I'll see it through
I'll see it through

A canção "Pacify My Heart", lançada pela norte-americana SASAMI em 2019, é uma composição densa que mergulha nas complexidades do luto afetivo e da exaustão emocional. A letra inicia com uma confissão amarga de arrependimento, onde a artista expressa o desejo de nunca ter conhecido a pessoa em questão, estabelecendo de imediato um tom de desilusão. O significado central da faixa repousa no conflito entre a razão, que reconhece a toxicidade de um relacionamento passado, e o coração, que ainda se encontra num estado de agitação e sofrimento. O título funciona como um apelo desesperado por tranquilidade e silêncio interno, uma tentativa de "pacificar" o turbilhão de memórias que persistem mesmo após o fim da união.

Musicalmente, a estrutura da canção reforça esse sentimento de sufocamento e eventual libertação. O que começa como uma balada de indie rock contida e atmosférica evolui para um final instrumental longo e carregado de distorção shoegaze. Esse encerramento não é meramente estético; ele simboliza a catarse emocional, onde o ruído das guitarras substitui as palavras que já não são suficientes para expressar a dor e a frustração. Ao transformar o sentimento em som puro, SASAMI consegue transmitir a sensação de um colapso interno, tornando "Pacify My Heart" uma exploração visceral sobre como o desapego é, muitas vezes, um processo barulhento e violento dentro de nós mesmos.

domingo, 15 de março de 2026

A filosofia de John Cobbe


O pensamento de John B. Cobb Jr. (nascido em 1925, Japão) representa uma das sínteses mais ambiciosas dos séculos XX e XXI entre a espiritualidade, a ciência e a economia. Como principal expoente da Teologia do Processo, Cobb baseou a sua visão de mundo na filosofia de Alfred North Whitehead (1861–1947), rejeitando a ideia de um universo estático composto por objetos isolados. Para ele, a realidade é um fluxo contínuo de eventos interconectados, onde cada ser é constituído pelas suas relações com os outros. Esta perspetiva alterou radicalmente a compreensão de Deus: em vez de um monarca onipotente e imóvel, o Deus de Cobb é uma presença sensível que sofre e se alegra com a criação, influenciando o mundo não pela coerção, mas pela persuasão em direção ao bem, à beleza e à vida.

Essa fundamentação filosófica levou Cobb a tornar-se um pioneiro da teologia ecológica. Ao compreender que o bem-estar humano é indissociável da saúde da biosfera, passou a criticar severamente o modelo de desenvolvimento industrial. A sua colaboração mais famosa neste campo ocorreu com o economista Herman Daly (1938–2022), com quem escreveu a obra seminal For the Common Good (1989). Juntos, desafiaram o uso do PIB como única métrica de progresso, argumentando que o crescimento económico cego ignora a degradação ambiental e a erosão das comunidades. Propuseram o Índice de Bem-Estar Económico Sustentável (ISEW), uma ferramenta prática para medir a economia sob uma ótica de preservação e justiça social.

Além de Daly, outros colaboradores foram fundamentais para a expansão deste sistema. Charles Hartshorne (1897–2000) forneceu o rigor lógico necessário para definir a natureza dipolar de Deus no processo, enquanto David Ray Griffin (1939–2022) trabalhou ao lado de Cobb na fundação do Center for Process Studies em 1973, consolidando a teologia do processo como uma alternativa viável à modernidade materialista. Cobb também se destacou no diálogo inter-religioso, especialmente com o Budismo, publicando Beyond Dialogue: Toward a Mutual Transformation of Christianity and Buddhism em 1982. Atualmente, o seu legado vive no movimento pela Civilização Ecológica, uma proposta de reorganização total da sociedade que busca garantir a sobrevivência e o florescimento de todas as formas de vida na Terra, conceito que ganhou forte tração em fóruns internacionais e políticas de sustentabilidade na China a partir de 2007.

E o que é a Civilização Ecológica?
Cobb foi um dos primeiros a usar o termo "Civilização Ecológica". Ele acreditava que o modelo atual de civilização industrial está em colapso e que o Terrismo é a base para a próxima fase da humanidade:
  1. Localismo: comunidades mais pequenas e autossuficientes.
  2. Respeito biocêntrico: leis que protegem o ecossistema acima do lucro corporativo.
  3. Educação integrada: ensinar as crianças que a sua identidade é, antes de mais, "terrestre".
"O destino da humanidade e o destino da Terra são um só." — Esta frase resume a dedicação de Cobb ao longo de décadas.

É fascinante notar como Cobb influenciou até políticas públicas na China, onde o conceito de "Civilização Ecológica" foi adotado oficialmente.[em março de 2018]

Biografia
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sábado, 28 de fevereiro de 2026

Entrevista a Gary Snyder - aos 92 anos


Snyder enfatiza que os seres humanos perderam a conexão com o local onde vivem. Ele defende que devemos conhecer intimamente a nossa "bacia hidrográfica" (watershed): quais plantas crescem ali, de onde vem a água, quais animais habitam à sua volta. Para ele, a ecologia não é um conceito abstrato, mas a prática de se tornar um "nativo" do lugar onde se pisa.

Ele discute sua longa permanência no Japão e como o Zen-Budismo moldou sua visão de mundo. Snyder explica que a prática espiritual não está separada do trabalho físico (como cortar lenha ou cuidar da terra). Ele vê a natureza como um "sangha" (comunidade espiritual) expandido, onde todos os seres vivos têm dignidade.

A conversa toca na importância de comunidades pequenas e autossustentáveis. Snyder acredita que a resistência contra a destruição ecológica começa na escala local, através do fortalecimento dos laços comunitários e da educação das novas gerações sobre o valor do seu ecossistema imediato.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Aiko Sakamoto

Rapariga com borboletas, da série Nocturnos (2022)

Aiko Sakamoto é uma artista plástica nascida em 1977 na província de Tóquio, no Japão, onde reside e trabalha actualmente. A sua formação académica foi realizada na Universidade de Arte Tama (Tama Art University), onde se graduou no Departamento de Pintura Japonesa e, posteriormente, concluiu o mestrado na mesma especialidade.
O seu estilo é profundamente enraizado no Nihonga (pintura tradicional japonesa), mas apresenta uma abordagem contemporânea e lírica que explora a relação entre o visível e o invisível. Utiliza técnicas que misturam pigmentos minerais, pó de ouro e prata sobre papel japonês (washi), destacando-se pela criação de borboletas tridimensionais feitas de papel e folha metálica que são aplicadas sobre a tela plana. Esta técnica permite que a luz seja refletida de diferentes ângulos, conferindo uma sensação de vitalidade e movimento às obras.

Os seus temas centram-se em fenómenos naturais efémeros e conceitos abstratos, como o vento, o som, as ondas e as flutuações da luz e da água. Através de uma paleta onde predominam o azul profundo e o preto denso, Sakamoto procura expressar a essência da existência humana e a circulação da vida em ciclos infinitos, fundindo figuras biomórficas com o cosmos e o silêncio.


A sua obra encerra um simbolismo contemporâneo que nos convoca ao desvelar de uma liberdade ancestral, sintonizando o ser com a génese de Gaia e o repouso absoluto de uma harmonia que transcende o visível.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Por que razão as petrolíferas estão a ajudar a Toyota na corrida das baterias de estado sólido?

A Toyota tem trabalhado com a empresa japonesa Idemitsu Kosan, desde 2023, num programa piloto focado nas baterias de estado sólido. Por que razão está uma gigante petrolífera a ajudar a fabricante de automóveis neste âmbito?

A Toyota e a Idemitsu Kosan começaram a colaborar no desenvolvimento de tecnologia para produção em massa de eletrólitos sólidos, em outubro de 2023, concentrando-se em eletrólitos sólidos de sulfeto, considerados um material promissor para alcançar produção em escala de baterias de estado sólido para veículos elétricos.

Os eletrólitos sólidos de sulfeto caracterizam-se pela suavidade e pela adesão a outros materiais, duas qualidades que os tornam particularmente adequados à produção em massa.

Agora, ambas as empresas decidiram avançar com uma nova fábrica para produzir eletrólito sólido para baterias de veículos elétricos totalmente de estado sólido.

Em outubro de 2023, a Idemitsu e a Toyota anunciaram o início da cooperação para a produção em massa de baterias de estado sólido para veículos elétricos. 

Qual o interesse de uma petrolífera nas baterias de estado sólido?
Aparentemente, o interesse não está nas baterias per si: empresas como a Idemitsu Kosan geram fluxos massivos de enxofre durante a dessulfurização de combustíveis, e converter esse enxofre de baixo valor num material de alta margem de lucro, como o sulfeto de lítio, pode ser uma vantagem financeira para o setor de refinação de petróleo.

São subprodutos da melhoria de produtos petrolíferos. A Idemitsu descobriu a utilidade dos componentes de enxofre em meados da década de 1990 e, através da nossa investigação e capacidades tecnológicas melhoradas ao longo de muitos anos, conseguimos criar um eletrólito sólido. Este eletrólito sólido está prestes a abrir um novo futuro para a mobilidade.

Explicou Shunichi Kito, diretor-executivo da japonesa Idemitsu Kosan, conforme citado.

Segundo o Electrek, o plano de produto original, publicado pelas duas empresas no final de 2023, visava a comercialização bem-sucedida das suas baterias totalmente de estado sólido para um veículo elétrico a bateria da Toyota, capaz de oferecer 1000 km de autonomia e carregamento de 10 a 80% em cerca de 10 minutos, entre 2027 e 2028.

O anúncio da nova fábrica para produzir eletrólito sólido para baterias de veículos elétricos totalmente de estado sólido parece indicar que estão a cumprir o cronograma.

Além da Idemitsu Kosan, a Toyota está, também, a colaborar com a Sumitomo Metal Mining, um grupo japonês, por forma a garantir materiais de cátodo de alto desempenho para a nova fábrica de baterias de estado sólido, que deverá ser capaz de produzir “várias centenas de toneladas métricas” de eletrólito sólido quando estiver totalmente operacional.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Portugal descarta 17 milhões de peças de roupa infantil anualmente



Novas investigações da Epson revelam que Portugal envia 17 milhões de peças de roupa infantil para o aterro sanitário anualmente – o equivalente a 19 vezes a altura do Monte Evereste empilhadas numa única pilha.

Enquanto um em dois portugueses (56%) consideram ativamente roupas mais sustentáveis para si próprios, quase um em três [31%] admitem que se livram das roupas dos filhos da forma mais rápida e fácil possível. O estudo concluiu que os portugueses deitam fora 11 peças de roupa por criança todos os anos. Em comparação, os espanhóis descartam 14.

Para mostrar como a inovação pode ajudar a combater este crescente problema de desperdícios, a Epson colaborou com a estilista e pioneira da sustentabilidade Priya Ahluwalia para criar Fashion Play – uma coleção de moda de tamanho de boneca, impressa com a tecnologia digital de impressão têxtil Monna Lisa da Epson e feita a partir de resíduos têxteis com a pioneira Dry Fiber Technology da Epson, que transforma têxteis antigos em novas fibras sem água nem químicos agressivos.

De acordo com os resultados, as crianças em Portugal compram 63 peças de roupa todos os anos – totalizando 99 milhões em todo o país. Quase um em cada dois portugueses (41%) diz que os seus filhos têm peças não usadas com etiquetas ainda presas guardadas nos roupeiros, enquanto 52% deitaram fora ou reutilizaram roupas que NUNCA foram usadas.

Maria Eagling, Diretora de Marketing da Epson Europe, explica que “a moda oferece a todas as idades uma via criativa para a autoexpressão, mas todos temos um papel a desempenhar em fazer melhores escolhas no que toca ao que compramos e como nos livramos disso quando terminamos. Embora existam ações simples que os consumidores podem tomar – desde reduzir a quantidade que compram até dar prioridade ao usado – quisemos mostrar como inovações como a Dry Fiber Technology também podem ajudar a reduzir a quantidade de roupa que vai para o aterro”.

“A coleção Fashion Play é uma homenagem divertida ao nosso amor por nos vestirmos – que começa quando somos crianças – mas usar métodos e materiais como estes pode provocar uma mudança sísmica na indústria da moda e no planeta. Estamos muito entusiasmados por trabalhar com a Priya Ahluwalia, uma designer que admiramos imenso pelo seu esforço de upcycling e pelo seu compromisso em criar peças bonitas que não prejudicam o planeta”, acrescenta.

Fashion Play inspira-se na coleção Ahluwalia AW25. Para além da Dry Fiber Technology, outros métodos de produção usados para criar os conjuntos incluem a impressora digital têxtil de próxima geração da Epson, a Monna Lisa, que pode reduzir o consumo de água na fase de impressão a cores da produção de vestuário em até 97%.

Sobre a coleção Priya Ahluwalia sublinha que “ao viajar para a Índia e Nigéria, testemunhei a verdadeira dimensão do desperdício têxtil resultante da indústria ocidental de vestuário em segunda mão. Essa experiência ficou comigo, e desde então tenho-me esforçado por trabalhar de uma forma melhor para as pessoas e para o planeta, especialmente no sul global”.

“Esta colaboração com a Epson vai além da moda. Trata-se de iniciar conversas sobre sustentabilidade em múltiplos níveis, desde a forma como nos vestimos até ao que escolhemos para aqueles que amamos. Através desta coleção de miniaturas feita com a tecnologia Dry Fiber, esperamos mostrar que a inovação e a imaginação podem remodelar o futuro da moda”, adianta.

Para mais informação aceda ao relatório aqui

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Hideo Tanaka


Hideo Tanaka (pintor, Japonês, nascido em 1959) - "Flowers", 2020

Hideo Tanaka não é propriamente um pintor hiper-realista. Digamos que é um pintor realista e neo-surrealista.

Tanaka pinta com um olhar muito atento ao detalhe, unindo realismo com elementos surreais.

As suas obras figurativas frequentemente retratam mulheres — muitas vezes “empoleiradas” em postes eléctricos ou semáforos — num ambiente onírico / surreal, como se estivessem prestes a uma epifania. Outras em posições fetais.

Também abundam quadros com vasos, luzes e lâmpadas, ou até refeições, convocando o espectador a uma reflexão profunda sobre a energia, o significado simbólico da luz e do nutrimento.

Apesar da componente surreal e imaginativa, os seus retratos e composições mantêm uma precisão realista nos elementos representados — gerando uma sensação nostálgica, contemplativa, em vez de assombro imediato.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Indochine - No Name


A canção “No Name” da banda Indochine, lançada em 1999 no álbum Dancetaria, é uma música envolta em um tom melancólico e introspectivo, característico do estilo do grupo. O significado de “No Name” pode ser interpretado em várias camadas, mas o tema central gira em torno de anonimato, solidão e perda de identidade — tanto pessoal quanto emocional.

Aqui estão alguns elementos principais do seu significado:

  1. Anonimato e vazio existencial
    – O título “No Name” (sem nome) já sugere a sensação de não pertencer ou não ser reconhecido.
    – A letra evoca um sentimento de distanciamento do mundo e de si mesmo, comum em temas de alienação urbana e emocional.

  2. Busca por amor e sentido
    – Há uma tensão entre o desejo de conexão e a impossibilidade de alcançá-la.
    – Isso pode representar um amor perdido, uma identidade em crise, ou a dificuldade de encontrar sentido num mundo impessoal.

  3. Atmosfera sombria e emocional
    – A música combina sintetizadores e guitarras melancólicas, criando uma ambiência de nostalgia e tristeza contida.
    – Essa estética reflecte o espírito post-punk/new wave do Indochine, influenciado por bandas como The Cure e Depeche Mode.

  4. Interpretação simbólica
    – “No Name” pode também simbolizar as pessoas invisíveis da sociedade — aquelas que passam despercebidas, esquecidas.
    – É uma canção sobre identidade negada, amor não correspondido e solidão moderna.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Cop30: Desmascarar os bloqueios e exigir acção real

Em novembro de 2025, Belém do Pará, no coração da Amazónia, acolherá a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP30). O lugar não é neutro: é o epicentro de uma floresta que regula o clima global e, ao mesmo tempo, uma das regiões mais ameaçadas pela desflorestação, pela exploração predatória e pela desigualdade social. Realizar a COP na Amazónia é um gesto político e simbólico: o debate climático no território onde se decide o destino do planeta.

Mas o simbolismo não basta. O mundo chega a Belém dividido, com emissões recorde e promessas incumpridas. A diplomacia climática vive uma crise de confiança, e os interesses fósseis continuam a ditar o ritmo da ação global. A COP30 será, por isso, um momento de verdade sobre o futuro coletivo da humanidade.

A crise climática é hoje uma evidência incontornável. Secas, cheias e ondas de calor extremo afetam todos os continentes e o tempo para agir esgota-se. O clima precisa de todos, mas sobretudo precisa de coragem política.

Mais de metade das emissões globais provém de empresas estatais sediadas em regimes autoritários. Das vinte maiores companhias de combustíveis fósseis do mundo, dezasseis são públicas e controladas por governos como os da China, Rússia, Irão e Arábia Saudita. Estes países tornaram-se o principal travão à descarbonização. A Rússia usa a energia como arma geopolítica; a China, responsável por cerca de 30 % das emissões globais, continua a construir centrais a carvão; o Irão e a Arábia Saudita financiam a dependência global do petróleo e bloqueiam sistematicamente o avanço dos acordos internacionais. Enfrentar esta realidade é uma exigência civilizacional.

Durante demasiado tempo, a diplomacia internacional preferiu o silêncio à verdade. Tratou por igual quem age e quem sabota, quem investe na transição e quem lucra com a destruição. Esse modelo está esgotado: não se vence uma emergência planetária com concessões a quem nega o futuro.

Mas a hipocrisia não é exclusiva das autocracias. Democracias como o Reino Unido, o Japão e o Canadá continuam a subsidiar combustíveis fósseis enquanto proclamam metas de neutralidade carbónica. Esta duplicidade mina a confiança global e fragiliza a liderança moral do mundo democrático.

A União Europeia deve abandonar a complacência e assumir o papel de força motora. É urgente aplicar de forma firme o ajustamento de carbono nas fronteiras, eliminar os subsídios ao petróleo e ao gás, e investir decisivamente na transição justa - dentro e fora de fronteiras. A diplomacia climática precisa de ser estratégica, transparente e corajosa.

A COP30 será um teste. Mais do que uma conferência, é a fronteira entre o discurso e a ação. O mundo precisa de recuperar a confiança na cooperação internacional e provar que ainda é capaz de convergir em torno do essencial: garantir um futuro habitável. A crise climática é também uma crise de desigualdade. Não haverá transição justa sem redistribuição de poder, de riqueza e de oportunidades. 

Combater a emergência climática é construir justiça social e regeneração económica. A humanidade precisa de decisões.

A justiça climática exige clareza, coragem e ação. Agora.

Diário de Coimbra, 4 de novembro de 2025