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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

ONU prevê um El Niño “muito forte” com possível duração até fevereiro de 2027


O fenómeno El Niño está “firmemente estabelecido” e deverá intensificar-se ainda mais nos próximos meses, atingindo uma intensidade “muito forte” com uma probabilidade “próxima dos 100%” de durar até fevereiro de 2027, alertou hoje a Organização Meteorológica Mundial.

“O El Niño estabeleceu-se firmemente e irá intensificar-se, tornando-se um fenómeno muito forte nos próximos meses, com repercussões significativas nos padrões de temperatura e precipitação, bem como nos riscos associados de inundações, secas e calor extremo”, alerta uma nova atualização da Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Espera-se que o fenómeno “se intensifique ainda mais nos próximos meses, atingindo uma intensidade muito forte antes de atingir o pico no final de 2026”, alerta ainda a OMM.

Além disso, a organização sublinha que as últimas previsões sazonais dos centros de produção globais da OMM indicam uma “probabilidade excecionalmente elevada”, de quase 100%, de que o El Niño persista até fevereiro de 2027.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou para a intensificação nos próximos meses do fenómeno El Niño, realçando que o mundo vive uma situação de “alto risco” com eventos climáticos extremos. “A ciência é inequívoca: o planeta está a entrar em águas desconhecidas, e essas águas estão a aquecer. As temperaturas da superfície do mar estão a atingir níveis recorde, os termómetros continuam a subir e encontramo-nos numa zona de alto risco onde os eventos climáticos extremos estão a tornar-se a nova normalidade”, disse Guterres em comunicado. António Guterres sublinhou que “este evento excecional do El Niño exige uma preparação e uma resposta excecionais”. “Não há tempo a perder. Está em curso uma corrida contra o tempo entre os riscos crescentes e a nossa determinação em agir contra as alterações climáticas e proteger as pessoas. É uma corrida que devemos ganhar”, disse.

O El Niño é um fenómeno natural que se repete a cada dois a sete anos. As águas superficiais do Pacífico equatorial central e oriental começam a aquecer na primavera, levando a grandes alterações nos padrões de vento, pressão e precipitação em todo o mundo nos meses seguintes.

As temperaturas da superfície do mar nesta zona do Pacífico equatorial já estão significativamente acima da média e continuam a subir.

As temperaturas estiveram, em média, 1,5 graus acima do normal entre maio e julho de 2026, passando para dois graus acima do normal em julho, segundo a OMM, que refere ainda leituras de 2,2 graus a 2,6 graus acima da média entre o final de julho e meados de agosto, “o que demonstra o contínuo fortalecimento do fenómeno”.

Abaixo da superfície do oceano, as temperaturas oceânicas estiveram ainda mais de 08 graus acima da média em algumas áreas durante julho e início de agosto.

Embora cada El Niño seja diferente, o fenómeno causou ou intensificou historicamente secas e riscos de incêndio em partes da Amazónia, América Central, Indonésia e Austrália, interrompeu a monção na Índia e trouxe chuvas torrenciais para a África Oriental.

Este fenómeno soma-se às alterações climáticas causadas pelas atividades humanas, exacerbando os eventos climáticos extremos.

Para o período de setembro a novembro deste ano, as previsões da OMM indicam um aumento da probabilidade de temperaturas acima da média em quase todas as massas terrestres, bem como padrões de precipitação consistentes com uma resposta atmosférica forte e clássica a um El Niño intenso no Pacífico.

No ano seguinte ao El Niño, o calor armazenado no oceano é libertado para a atmosfera, contribuindo geralmente para o aumento das temperaturas globais, levando muitos cientistas do clima a prever que 2027 será o ano mais quente de que há registo.

O ano mais quente até à data é 2024, depois do último El Niño.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Correntes verticais em “montanha-russa” no Oceano Antártico são mais intensas do que se pensava (video)


Investigadores australianos e norte-americanos mapearam pela primeira vez, com elevado detalhe, os movimentos verticais de massas de água no Oceano Antártico, revelando correntes muito mais intensas e complexas do que as estimativas anteriores sugeriam.

O estudo, publicado na revista científica Communications Earth & Environment, combinou observações de satélite com dados recolhidos por planadores oceânicos autónomos, criando uma imagem tridimensional sem precedentes das correntes que atravessam os primeiros mil metros de profundidade do oceano.

Segundo Yann-Treden Tranchant, estas correntes verticais desempenham um papel fundamental no transporte de calor, carbono, nutrientes e oxigénio entre a superfície e as profundezas marinhas.

“Ao ligarem a atmosfera ao oceano profundo, estas correntes ajudam a regular o clima da Terra”, explica o investigador.

Um redemoinho gigante junto à Antártida
A investigação centrou-se numa região particularmente dinâmica da Antarctic Circumpolar Current, a corrente oceânica mais forte do planeta, que circula em torno da Antártida.

Na área estudada, a sul da Tasmania, os cientistas analisaram um enorme redemoinho oceânico ciclónico formado junto à chamada Frente Polar, a fronteira natural onde águas frias antárticas encontram águas mais quentes provenientes do norte.

Este redemoinho apresentava uma diferença de quase um metro na altura da superfície do mar entre o seu centro e as águas circundantes, tornando-se um laboratório natural ideal para estudar os movimentos verticais da água.

Satélites e robôs mergulhadores
Os dados foram recolhidos durante a missão FOCUS, realizada em 2023 a bordo do navio de investigação RV Investigator.

A equipa utilizou observações do satélite Surface Water Ocean Topography (SWOT), capaz de detetar pequenas variações da altura da superfície do mar a partir do espaço.

Em simultâneo, dois planadores oceânicos autónomos foram colocados no interior do redemoinho. Estes robôs subaquáticos mergulharam repetidamente até mil metros de profundidade, recolhendo milhares de medições de temperatura, salinidade e oxigénio dissolvido.

Além disso, foram libertadas 15 bóias à deriva para acompanhar a velocidade e a direção das correntes superficiais.

Movimentos de centenas de metros por dia
Ao combinar os dados obtidos pelo satélite com as observações recolhidas debaixo de água, os investigadores conseguiram reconstruir os movimentos verticais da água em três dimensões.

Os resultados mostram que as correntes ascendentes e descendentes frequentemente ultrapassam os 150 metros por dia e podem deslocar massas de água várias centenas de metros em apenas 24 horas.

Estas correntes estendem-se até, pelo menos, mil metros de profundidade e ocorrem em escalas relativamente pequenas, por vezes inferiores a 10 quilómetros de largura.

Segundo os autores, a intensidade destes movimentos é significativamente superior à prevista por muitos modelos de circulação oceânica de grande escala.

Implicações para o clima global
Os cientistas acreditam que esta nova capacidade de observar movimentos verticais poderá melhorar significativamente a compreensão do papel do Oceano Antártico no sistema climático terrestre.


Os autores defendem que futuras observações através do satélite SWOT poderão permitir estimar com maior precisão a transferência de carbono, nutrientes, oxigénio e calor ao longo do tempo, ajudando a aperfeiçoar os modelos climáticos e a compreender melhor a resposta dos oceanos às alterações climáticas.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Experts say oceans soaked up record heat levels in 2025




A new study published in Advances in Atmospheric Sciences on 6 January 2026 shows that ocean temperatures in 2025 reached another record, as the ocean absorbed more heat last year than in any year since measurements began in the 1960s.

The study provides an updated assessment of global sea surface temperatures (SST) and upper-ocean heat content (OHC) for 2025. According to the Institute of Atmospheric Physics at the Chinese Academy of Sciences (IAP/CAS), in 2025, the heat accumulated in the oceans increased by around 23 ZJ (zettajoules), a large increase from the 16 ZJ absorbed in 2024.

This finding is confirmed by three additional independent research groups: the CIGAR-RT, the National Centers for Environmental Information at the National Oceanic and Atmospheric Administration (NCEI/NOAA), and Copernicus Marine.

A single zettajoule is equivalent to 1,000,000,000,000,000,000,000 joules. Twenty-three zettajoules in one year is equivalent to the energy of 12 Hiroshima bombs exploding in the ocean every second.

The study focused on the upper 2,000 meters of the ocean to measure the ocean’s heat content, where most heat accumulation occurs, and measurement coverage is most reliable.

The global OHC estimates are based on three gridded observational products from IAP/CAS, Copernicus Marine, NCEI/NOAA, and an ocean reanalysis dataset, CIGAR, a product from CNR ISMAR (Italian National Research Council’s Institute of Marine Sciences) that combines actual ocean measurements with computer model simulations to fill in gaps.

The ocean absorbs approximately 90% of the excess heat trapped by greenhouse gas emissions in Earth’s climate system. The atmosphere, despite being what we most directly experience, only retains about 1% of this excess heat. The remaining heat goes into melting ice and warming land.

Ocean heat content (OHC) changes are less affected by short-term weather and El Niño events than global mean surface temperature (GMST), making them a reliable sign of long-term climate change. Observations show that OHC has steadily increased over time, highlighting a continuous buildup of extra heat in the Earth’s system.

Higher OHC leads to more frequent and intense marine heatwaves, changes in atmospheric circulation, greater evaporation and moisture in the air, and stronger extreme rainfall, all of which help tropical cyclones intensify rapidly. The ongoing, unusually warm ocean conditions in 2025 have played a significant role in driving extreme weather and climate events worldwide.

The study notes that ocean warming is not uniform, with some areas warming faster than others. “Regionally, about 33% of the global ocean area ranked among its historical (1958–2025) top three warmest conditions, while about 57% fell within the top five, including the tropical and South Atlantic Ocean, Mediterranean Sea, North Indian Ocean, and Southern Oceans, underscoring the broad ocean warming across basins”.

Ocean warming has major effects on our planet. Rising ocean heat content (OHC) is the main driver of sea level rise, intensifies marine heatwaves, and contributes to more extreme weather by adding heat and moisture to the atmosphere.

Continuous GHG emissions will increase OHC. Monitoring of OHC will inform the pace of climate change.

This will entail strengthening space-based observation and ocean monitoring to support climate adaptation planning and to better respond to climate change.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

‘Profound impacts’: record ocean heat is intensifying climate disasters, data shows

Enquanto Trump insiste nos seus planos para extrair e queimar as colossais reservas de petróleo da Venezuela, o calor continua a aumentar.
Espere mais um ano de emissões crescentes — e de eventos climáticos extremos ainda mais devastadores e letais.

The world’s oceans absorbed colossal amounts of heat in 2025, setting yet another new record and fuelling more extreme weather, scientists have reported.

More than 90% of the heat trapped by humanity’s carbon pollution is taken up by the oceans. This makes ocean heat one of the starkest indicators of the relentless march of the climate crisis, which will only end when emissions fall to zero. Almost every year since the start of the millennium has set a new ocean heat record.

This extra heat makes the hurricanes and typhoons hitting coastal communities more intense, causes heavier downpours of rain and greater flooding, and results in longer marine heatwaves, which decimate life in the seas. The rising heat is also a major driver of sea level rise via the thermal expansion of seawater, threatening billions of people.

Reliable ocean temperature measurements stretch back to the mid-20th century, but it is likely the oceans are at their hottest for at least 1,000 years and heating faster than at any time in the past 2,000 years.

The atmosphere is a smaller store of heat and more affected by natural climate variations such as the El Niño-La Niña cycle. The average surface air temperature in 2025 is expected to approximately tie with 2023 as the second-hottest year since records began in 1850, with 2024 being the hottest. Last year the planet moved into the cooler La Niña phase of the Pacific Ocean cycle.

“Each year the planet is warming – setting a new record has become a broken record,” said Prof John Abraham at the University of St Thomas in Minnesota, US, and part of the team that produced the new data.

“Global warming is ocean warming,” he said. “If you want to know how much the Earth has warmed or how fast we will warm into the future, the answer is in the oceans.”

The analysis, published in the journal Advances in Atmospheric Sciences, used temperature data collected by a range of instruments across the oceans and collated by three independent teams. They used this data to determine the heat content of the top 2,000 metres of the oceans, where most of the heat is absorbed.

The amount of heat taken up by the ocean is colossal, equivalent to more than 200 times the total amount of electricity used by humans across the world. “Ocean warming continues to exert profound impacts on the Earth system,” the scientists concluded.

Ocean warming is not uniform, with some areas warming faster than others. In 2025, the hottest areas included the tropical and South Atlantic and North Pacific oceans, and the Southern Ocean. In the latter, which surrounds Antarctica, scientists are deeply concerned about a collapse in winter sea ice in recent years.

The North Atlantic and the Mediterranean Sea are also getting warmer, as well as saltier, more acidic and less oxygenated owing to the climate crisis. This is causing “a deep-reaching ocean state change in, making the ocean ecosystems and the life they support more fragile”, the researchers said.

“As long as the Earth’s heat continues to increase, ocean heat content will continue to rise and records will continue to fall,” said Abraham. “The biggest climate uncertainty is what humans decide to do. Together, we can reduce emissions and help safeguard a future climate where humans can thrive.”

terça-feira, 1 de outubro de 2024

Corinne Le Quéré: Carbon Storage by the Natural Land and Ocean Reservoirs in a Changing Climate


A palestra de Corinne Le Quéré, intitulada “Carbon Storage by the Natural Land and Ocean Reservoirs in a Changing Climate”, explica como o ciclo global do carbono e o clima estão profundamente ligados e como as atividades humanas estão a alterar esse equilíbrio. Ela começa por recordar que, ao longo de milhões de anos, o CO₂ atmosférico e a temperatura variam em conjunto, de modo que perturbações grandes no ciclo do carbono amplificam o aquecimento ou o arrefecimento do planeta. O aquecimento atual, de cerca de 1,2 °C, é causado principalmente pelas emissões antropogénicas de CO₂ provenientes da queima de combustíveis fósseis e da mudança de uso do solo, e não por variabilidade natural.

Para estabilizar a temperatura, é necessário que as emissões de CO₂ atinjam um pico e depois caiam até zero líquido; quanto mais baixo for o nível de aquecimento que se aceita, mais rápido e mais profundo terá de ser esse corte. Os cenários do IPCC indicam que, com as políticas atuais, o aquecimento provável ficará perto de cerca de 3 °C, muito acima da meta de “bem abaixo de 2 °C” do Acordo de Paris. Apesar disso, há progresso real: em vários países, como os Estados Unidos, muitos países europeus, o Reino Unido, a França e, mais recentemente, o Japão, o Brasil e a África do Sul, as emissões fósseis caíram durante pelo menos uma década, mesmo com as economias a crescer, graças a mais eficiência energética, à substituição de combustíveis fósseis por renováveis e ao reforço de políticas climáticas. A mensagem central é que “muita coisa já está a acontecer”, mas é preciso fazer mais, mais rápido e em maior escala.

Atualmente, os sumidouros naturais - terra e oceano - absorvem em média cerca de 55% das emissões anuais de CO₂, travando consideravelmente o aquecimento. No entanto, as mudanças climáticas já estão a reduzir a eficiência desses sumidouros: estimativas indicam retroalimentações que diminuem o sumidouro terrestre em cerca de 20% e o oceânico em cerca de 7% na última década. Modelos projetam que, ao longo deste século, essas retroalimentações positivas, que amplificam o aquecimento, podem reduzir a capacidade de absorção em cerca de 30 a 40% em relação ao que seria sem mudanças climáticas.

A palestrante dedica atenção especial a dois tópicos: o Oceano Austral e os incêndios florestais. No caso do Oceano Austral, apresenta resultados de modelação que separam os efeitos dos gases com efeito de estufa e do ozono estratosférico sobre os ventos, a mistura e a circulação. No passado recente, a depleção do ozono dominou as mudanças nos ventos e na dinâmica do carbono; no futuro, os gases com efeito de estufa dominarão. O efeito direto do aquecimento da superfície tende a dominar a resposta do carbono oceânico, enquanto mudanças na mistura e na circulação têm efeitos opostos no carbono “natural” e no carbono antropogénico, parcialmente compensando-se. Quanto aos incêndios florestais, descreve um estudo que usa machine learning para separar influências climáticas, de raios e humanas. Nas últimas duas décadas, houve um aumento de cerca de 60% nas emissões de CO₂ de incêndios florestais a nível global, com uma anomalia particularmente grande em 2023, como no Canadá. Embora as florestas possam regenerar-se e reabsorver parte desse carbono, o atraso entre a emissão e o regrowth deixa mais CO₂ na atmosfera, criando uma retroalimentação positiva.

Por fim, Corinne Le Quéré aborda o que pode acontecer depois de 2100. Para este século, não há evidência forte de mudanças abruptas nos feedbacks do carbono, mas além de 2100 a situação é mais incerta: em cenários extremos, terra e oceano podem até começar a libertar carbono em vez de o absorver. Ela conclui que é crucial manter e reforçar políticas climáticas ambiciosas e estáveis, desenvolver e escalar a remoção deliberada de CO₂ (como BECCS e DACCS), melhorar a monitorização do ciclo do carbono e preparar estratégias de adaptação que incluam a gestão de perturbações como incêndios e pragas.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Oceanos absorveram 90% do aquecimento global e registam mudanças irreversíveis


Os oceanos absorveram mais de 90% do calor excessivo retido pelos gases com efeito de estufa desde 1971 e estão já a passar por “mudanças que serão irreversíveis nos próximos séculos”, alertou hoje a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Esta é uma das conclusões do relatório da OMM sobre o estado do clima no sudoeste do Pacífico no ano de 2023, apresentado no Tonga pela secretária da organização, Celeste Saulo, e pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, que se encontra de visita ao país durante a realização do 53.ª cimeira do Fórum de Líderes das Ilhas do Pacífico.

As ilhas paradisíacas do Pacífico estão em perigo devido ao “transbordamento” do oceano, disse Guterres, à medida que a subida média dos mares em todo o mundo ocorre a uma velocidade sem precedentes. Mas o problema “está a chegar a todos nós, juntamente com a devastação da pesca, do turismo e da economia azul”, disse o líder das Nações Unidas.

O secretário-geral da ONU alertou ainda para a ameaça real de um degelo da Gronelândia e da Antártida ocidental, que colocaria em perigo aglomerações como Los Angeles, Lagos e as megacidades asiáticas de Xangai, Mumbai e Dhaka.

Guterres referiu-se assim ao impacto da crise climática na subida do nível do mar durante um discurso no arquipélago oceânico de Tonga, no âmbito da cimeira de líderes das ilhas do Pacífico, que estão entre as mais ameaçadas pelas alterações climáticas.

Tendo feito da crise climática uma das bandeiras do seu mandato, o secretário-geral da ONU deu como certo que haverá um aumento de um metro no nível do mar, mas insistiu que depende da ação humana “a escala, o ritmo e impacto” desse aumento.

O relatório da OMM indica que o degelo na Gronelândia e nos pólos, somado à alta absorção do aquecimento global pelos oceanos, está a acrescentar água às grandes massas do planeta, que por sua vez aumentam a sua temperatura e se expandem, levando ao aumento dos seus níveis.

“Prevê-se que os 2.000 metros superiores do oceano continuem a aquecer devido ao calor excessivo acumulado no sistema terrestre pelo aquecimento global, uma mudança que é irreversível em escalas temporais de séculos e milénios”, avança o relatório.

As ilhas do Pacífico estão na “linha da frente” da crise climática devido à sua elevada exposição aos efeitos das emissões de gases – para os quais praticamente não contribuem -, incluindo ciclones tropicais e inundações, e fenómenos como uma erupção vulcânica que gerou um tsunami e uma forte produção de vapor em 2022.

 “As atividades humanas enfraqueceram a capacidade do oceano de nos sustentar e proteger e – através da elevação do nível do mar – estão a transformar um amigo de longa data numa ameaça crescente”, lamentou a OMM.

“Já estamos a ver mais inundações costeiras, recuo da linha costeira, contaminação de reservas de água doce por água salgada e deslocação de comunidades”, acrescentou.

Entre 1993 e 2023, a mediana do aumento global do nível do mar foi de 9,4 centímetros (cm), mas no Pacífico tropical foi superior a 15 centímetros em alguns pontos. Num cenário de aquecimento de três graus Celsius (em linha com a atual trajetória), o nível do mar na região poderá subir mais 15 cm entre 2020 e 2050.

Entre as consequências do aquecimento global, que as organizações instaram a travar imediatamente, não está apenas o aumento do nível do mar: também a maior intensidade e frequência das ondas de calor marinhas, mais calor na superfície e no conteúdo do oceano, e mais acidificação. Cada fenómeno com as suas próprias ramificações.

“Há preocupações crescentes de que algumas ilhas-nação possam tornar-se inabitáveis”, alerta o documento, “com implicações para a sua realocação, soberania e estatuto de Estado”.

“São necessários AGORA cortes profundos, rápidos e sustentados nas emissões globais de gases com efeito de estufa para permanecermos numa trajetória de aquecimento a longo prazo de 1,5 graus”, insta o relatório, que considera necessário melhorar a adaptação costeira e investir na resiliência em todo o mundo, especialmente nas pequenas ilhas.

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Estudo conclui que ondas internas no Pacífico ajudam a prever fenómenos atmosféricos


Investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) concluem que a existência de ondas internas ao longo do Oceano Pacífico Equatorial ajuda a determinar a previsão de fenómenos atmosféricos como o El Niño e La Niña.

Em comunicado, a faculdade esclarece que o estudo, publicado no Journal of Physical Oceanography, descreve um conjunto de processos associados às ondas internas que podem afetar a variabilidade e previsibilidade dos fenómenos ENSO (padrões climáticos).

As ondas internas solitárias – ondas gigantes que se propagam no interior do oceano – são conhecidas por “aumentar a mistura vertical das águas dos oceanos e potenciam, por exemplo, o arrefecimento da temperatura da superfície do mar”.

“Numa zona já de si de grande instabilidade onde ocorrem estes fenómenos, os seus efeitos poderão ser ainda mais marcantes e intensificar o mecanismo de realimentação do ENSO (particularmente em regime La Niña), podendo resultar numa maior regulação da temperatura à superfície”, salienta.

Citado no comunicado, o investigador José da Silva, da FCUP, esclarece que as ondas internas estão “numa longa banda zonal com milhares de quilómetros de extensão, conhecida por ‘língua fria do Pacífico Equatorial’, onde estes fenómenos de anomalias térmicas geralmente se desenvolvem”.

“Acreditamos que estas ondas podem intensificar a absorção de calor da atmosfera para águas mais profundas onde esse calor pode então desempenhar um papel importante na circulação oceânica e na variabilidade climática”, afirma José da Silva.

De acordo com a investigação, as ondas internas solitárias poderão provocar “uma maior mistura vertical na língua fria”, fator ainda não conhecido e não devidamente parametrizado nos modelos climáticos.

“Esta mistura, que até agora não estava atribuída a estas ondas, pode, de acordo com os investigadores, regular e determinar a previsão de eventos El Niño (aquecimento anómalo das águas superficiais) /La Niña (elevado arrefecimento das águas superficiais)”, acrescenta.

Para os investigadores, estas ondas podem ter um impacto significativo “no arrefecimento da superfície do mar durante as transições para anos de La Ninã, uma vez que ocorrem com maior frequência durante este fenómeno”.

A investigação, financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e pela Agência Espacial Europeia (ESA), contribui para um maior conhecimento sobre a mistura e transferência de calor na vertical numa região crítica do oceano para o clima.

O estudo, salienta a FCUP, pode “motivar mais investigações para compreender melhor como a absorção de calor da atmosfera dentro da “língua fria” pode retardar (pelo menos por algum tempo) as mudanças climáticas antropogénicas, como o aquecimento global”.

Na sequência deste trabalho, uma equipa norte-americana está a preparar-se para efetuar medições com campanhas oceanográficas na região onde foram encontradas ondas internas.

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Ondas de calor no mar têm maior impacto entre os 50 e os 250 metros


Os efeitos das ondas de calor marinhas são mais intensos entre os 50 e os 250 metros do que nas águas mais superficiais, concluíram investigadores da Universidade do Algarve, alertando que isso representa um maior risco para a biodiversidade.

Num estudo publicado na revista científica Nature Climate Change, a equipa de trabalho liderada por investigadores do Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve (UAlg) sustenta que a duração e intensidade das ondas de calor marinhas “podem persistir durante mais tempo em águas mais profundas” e que “a biodiversidade subsuperficial pode estar sujeita a um maior risco” devido à alteração da temperatura.

“Até agora, as previsões e os impactos destes eventos têm-se centrado na superfície do mar, no entanto, observações localizadas sugerem que as ondas de calor marinhas podem ocorrer abaixo da superfície e persistir durante anos”, alertaram os investigadores, num comunicado em que a UAlg dá conta da publicação do estudo.

A UAlg destaca que a investigadora do CCMAR Eliza Fragkopoulou e a restante equipa recorreram a “observações da temperatura do mar a nível global e dados de reanálise”, de “previsões meteorológicas passadas” com “modelos meteorológicos modernos”, para estimar a duração e a intensidade das ondas de calor marinhas.

A análise abrangeu o período entre 1993 e 2019 e profundidades até 2.000 metros, permitindo aos investigadores descobrir que “a maior intensidade das ondas de calor marinhas não se verifica à superfície, mas sim na subsuperfície, especificamente entre 50 e 250 metros de profundidade”.

“Contra as nossas expectativas iniciais, descobrimos que as ondas de calor marinhas são mais intensas abaixo da superfície e que a sua duração pode duplicar, quando comparadas com a superfície”, constatou Eliza Fragkopoulou.

Os autores do estudo cruzaram depois os dados da temperatura com a distribuição das espécies marinhas e concluíram que “a biodiversidade subsuperficial poderia estar em risco, devido a uma maior intensidade cumulativa (indicador de stresse térmico) das ondas de calor nos primeiros 250 metros” do mar.

“Em todo o mundo, identificámos regiões de maior risco para a biodiversidade marinha, incluindo partes significativas dos oceanos Índico e Atlântico Norte, onde a elevada intensidade cumulativa das ondas de calor coincide com áreas onde se prevê uma elevada sensibilidade das espécies ao stresse térmico”, explicou Jorge Assis, investigador do CCMAR que liderou a investigação.

Os investigadores alertaram para a necessidade de desenvolver mais investigação neste âmbito, devido ao aumento da intensidade e frequência das ondas de calor no mar, causadas pelas alterações climáticas e o aquecimento global.

“Espera-se que os eventos extremos de temperatura redistribuam as espécies marinhas, levando-as da superfície para o oceano profundo. No entanto, existem outros fatores que podem impedir essa redistribuição, com consequências imprevisíveis”, advertiu Miguel Bastos Araújo, do National Museum of Natural Sciences (MNCN-CSIC), que também integrou a equipa de investigadores.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Earth Heat Inventory: O Estudo que Revela Para Onde Vai o Calor da Terra



O Earth Heat Inventory (Inventário do Calor da Terra), uma avaliação científica liderada por Karina von Schuckmann em cooperação com mais de 70 peritos internacionais, constitui a principal referência global para quantificar o Desequilíbrio Energético da Terra (Earth's Energy Imbalance - EEI). Devido à crescente concentração de gases de efeito de estufa resultantes das atividades humanas, o planeta retém atualmente mais energia solar do que aquela que consegue libertar de volta para o espaço. Para mapear com exatidão a trajetória desse excesso térmico, o inventário consolida dados empíricos obtidos através de quatro componentes fundamentais do sistema terrestre: a monitorização dos oceanos (recorrendo a mais de 3.800 boias Argo, sensores profundos e altimetria por satélite da NASA e ESA), o estudo da criosfera (fusão de glaciares, gelo marinho e mantos de gelo na Gronelândia e Antártida), a medição do aquecimento da superfície continental e perfurações profundas (boreholes), e a análise da atmosfera por meio de balões meteorológicos e satélites.

Os resultados do estudo revelam a magnitude do papel dos oceanos na regulação do clima global. Por absorverem entre 89% e 90% de todo o excesso de calor retido no planeta, as massas de água funcionam como um amortecedor vital que impede que as temperaturas à superfície terrestre atinjam níveis inabitáveis. A energia remanescente divide-se no aquecimento do solo e massas continentais (~6%), no derretimento do gelo e calotas polares (~4%), e no aquecimento direto da atmosfera (~1%).

No entanto, o relatório alerta para uma preocupante aceleração deste processo, mostrando que a taxa de acumulação térmica nos oceanos quase duplicou nas últimas décadas. Além disso, embora as camadas superficiais (até aos 700 metros) retenham a maior fatia de energia, a monitorização até aos 2.000 metros de profundidade confirma que o oceano profundo está a aquecer de forma contínua e irreversível à escala humana. Esta acumulação ininterrupta de calor tem consequências diretas severas, sendo a expansão térmica da água responsável por 30% a 40% da subida do nível do mar, além de intensificar a ocorrência de tempestades extremas e a frequência de ondas de calor marinhas.

Para consultar o estudo científico completo publicado na revista Earth System Science Data, aceda à hiperligação direta: