terça-feira, 31 de maio de 2022

O petróleo russo foi um problema? Imagine-se então o gás natural


Enquanto a União Europeia está centrada no sexto pacote de sanções à Rússia, é no sétimo que se pode tocar no ponto ultrassensível da Rússia (e de alguns países europeus, o que pode dificultar tudo de uma maneira ainda mais acentuada do que já se verificou a propósito do petróleo)

A União Europeia (UE) vai cortar em 90% a importação de petróleo da Rússia até ao final do ano, naquela que é a medida mais forte do sexto pacote de sanções a aplicar ao regime de Vladimir Putin por causa da invasão à Ucrânia. O especialista em diplomacia da União Europeia Francisco Pereira Coutinho não acredita que a UE fique por aqui e antecipa já um possível sétimo pacote de sanções, no qual poderá já ser incluído um embargo ao gás natural - o qual define como “a medida mais eficaz porque a Rússia não teria forma de vender a mais ninguém”, uma vez que ficaria obrigada a construir novos gasodutos.

“Existe uma dificuldade acrescida da dependência em relação ao gás natural da Rússia. O exemplo do petróleo vai ser repetido em relação ao gás, possivelmente num embargo num sétimo pacote de sanções”, afirma, lembrando que esse mesmo embargo pode ter algumas exceções, consoante as possibilidades dos diferentes Estados-membros. A República Checa, por exemplo, continua a depender a 100% de combustíveis fósseis que chegam da Rússia.

Em sentido contrário, Francisco Pereira Coutinho recorda que há países que já deixaram de consumir gás natural russo, seja por imposição da Rússia, como os casos dos Países Baixos ou da Finlândia, seja porque há países que abandonaram a importação daquela fonte energética, como fizeram os países do mar Báltico.

"O embargo ao gás natural da Rússia é a mais eficaz sanção mas também a mais difícil de executar porque as consequências sobre alguns Estados-membros seriam enormes", afirma, apontando o caso específico da Alemanha, país altamente dependente do gás natural russo. Atento a isso, o primeiro-ministro português já acenou ao chanceler alemão com a possibilidade de exportar gás natural a partir do porto de Sines.

O especialista em diplomacia refere, por isso, que “todos os Estados-membros estão a reduzir a sua dependência da energia russa”, pelo que se trata cada vez mais de “uma decisão política”: “Mas é preciso perceber que os efeitos se vão sentir de forma assimétrica, o que obriga a que as decisões não sejam as que a Comissão Europeia pretendia inicialmente”. Caso da República Checa mas também da Hungria, ou até da Áustria, que já se mostraram altamente reticentes em cortar a importação de gás natural.

No caso austríaco, por exemplo, houve mesmo uma conversa entre o chanceler, Karl Nehammer, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, onde o fornecimento de gás natural foi um dos temas centrais, com o lado russo a garantir que iria cumprir os acordos realizados.

Mas um sétimo, um oitavo ou até um nono pacote de sanções pode vir a existir, refere Francisco Pereira Coutinho, que diz que tudo depende da duração da guerra: “Se tivemos seis pacotes em três meses, certamente haverá um sétimo, um oitavo, um nono…”.

No entanto, e precisamente por causa da maior resistência de alguns Estados-membros ao embargo da energia russa, quanto mais duras forem as sanções mais difíceis e demoradas serão de aprovar: “Se este sexto pacote demorou um mês a ser concluído, o sétimo demorará mais”.

Sobre esse mesmo sexto pacote, que ainda não foi aprovado, Francisco Pereira Coutinho lembra que a proposta inicial não chegou a ser apresentada, uma vez que a intenção era impor um embargo total: “A estimativa é uma redução de 90% de petróleo até ao final do ano, mas em relação aos outros 10% não há certezas”.

"A decisão está tomada, e a decisão é eliminar a dependência energética da Rússia, o que está a ser atingido a um ritmo bastante grande", sublinha Francisco Pereira Coutinho.

Rússia sofre mais a curto prazo

Francisco Pereira Coutinho não acredita em grandes efeitos destas novas sanções a curto prazo, mas refere que a Rússia vai sofrer primeiro: "As consequências virão, mais tarde ou mais cedo. Vai ter menos receitas no seu orçamento e terá de encontrar forma de escoar o petróleo para outros mercados".

Por isso existe outra possibilidade, que passa pela aplicação de sanções secundárias, nomeadamente a países que possam vir a beneficiar do gás natural russo e que fiquem fora da União Europeia. Casos do Irão, China ou Turquia, por exemplo, países que podem vir a ser alvo de sanções europeias como forma indireta de pressionar a Rússia.

A concertação europeia na adoção deste tipo de medidas é, para o especialista em diplomacia, um símbolo da vontade que os 27 têm em diminuir a dependência em relação à Rússia, sabendo-se que 45% do gás natural consumido pela União Europeia vem de Moscovo.

"Isto mostra bem o estado de dependência da Europa em relação à Rússia", diz, sinalizando que a Rússia já recebeu cerca de 44 mil milhões de euros em energia desde o início da guerra.

Ainda assim, Francisco Pereira Coutinho vê a Rússia como a economia mais preocupada num cenário de sanções, voltando a referir que os países possivelmente mais afetados podem vir a ser ajudados, admitindo um cenário excecional para esses Estados - que devem continuar a receber petróleo, segundo o sexto pacote de sanções ainda por aprovar.

Fonte. CNN

Cash-rich companies are inadvertently funding the climate crisis



A groundbreaking new report shows the unintended consequences when companies park their cash holdings at major banks. The authors developed a new methodology enabling any company to calculate the carbon impact of its financial footprint and use its influence to accelerate decarbonization.

The Carbon Bankroll: the Climate Impact and Untapped Power of Corporate Cash provides groundbreaking analysis of the hidden climate impact of corporate finances, making it possible to understand the scale of emissions generated by a company’s cash, investments, and financial practices. The report was jointly published by the Climate Safe Lending Network (CSLN), The Outdoor Policy Outfit (TOPO), and BankFWD.

Using publicly available data from 10 major corporations, the report illuminates how the financial system – particularly the banking sector, which uses cash deposits to finance fossil fuel infrastructure – undermines the sustainability efforts of climate-conscious companies.

It finds that for several major companies, including Google, Meta, and PayPal, the emissions associated with their cash holdings and investments exceed all their other emissions combined.

“The companies highlighted in this report are all environmental leaders that have been working for years to combat climate change and decarbonize their supply chains. This report reveals that these companies’ substantial climate accomplishments are being severely undermined by a misaligned financial system that is channeling hundreds of billions of corporate US dollars into the carbon-intensive sectors driving the climate crisis.” — Paul Moinester,Executive Director of TOPO

The Carbon Bankroll offers companies a methodology to estimate how much their financial practices work against their goals to rein in emissions from direct and indirect operations across their value chains. The analysis also suggests how companies can leverage their financial holdings to accelerate the decarbonization of the financial sector, which is critical to achieving the global climate goal of limiting warming to 1.5°C.

The recent growth of environmentally and socially responsible investments reflects increasing recognition by companies that how they bank and invest their money has an impact on people and the planet. The report’s research and replicable methodology, which was produced in partnership with financial auditors at South Pole, fills critical data gaps that underscore the magnitude of the emissions generated by corporate cash and investments. By discovering the enormous scale of these emissions, the report emphasizes the need for companies to prioritize the decarbonization of their cash and investments. Key findings include:

  • For some of the world’s largest companies, including Google, Meta, Microsoft, and Salesforce, their cash holdings are their largest source of emissions, increasing total emissions by 91% to 112% when compared to most recently reported emissions.
  • For companies with more carbon-intensive operations such as Amazon and Johnson & Johnson, their cash holdings still constitute one of their largest emissions sources, increasing total emissions by 11%-15% compared to most recently reported emissions.
  • In 2021, the emissions generated by Microsoft’s $130 billion held in cash and investments was comparable to the cumulative emissions generated by the manufacturing, transportation, and use of every Microsoft product in the world.
  • In 2020, Amazon’s $81 billion held in cash and short-term investments generated more emissions than the purchased energy used to power every Amazon facility around the world, which includes its data centers, fulfillment centers, physical stores, and other facilities.

“The bad news is that many companies considered to be leaders in climate mitigation are not anywhere close to net zero, due to Scope 3 emissions associated with their cash holdings. The good news is that now, with this new methodology, companies can easily benchmark these hidden emissions and drive rapid change in the banking industry." — Karl Burkart, Co-founder and Executive Director, One Earth

The report suggests that just as companies have worked to decarbonize their operational and energy supply chains, they can work to decarbonize their financial supply chain by pushing their banks to decrease financing for fossil fuels, or by moving their money. Doing so, the report explains, would help companies achieve their corporate climate goals and improve the financial sector’s climate performance at a time when large banks have continued to finance fossil fuel expansion at levels that are incompatible with their own climate commitments.

The Carbon Bankroll is an invitation to companies to join in a collaborative effort, developing a comprehensive playbook for companies to drive positive change through their financial supply chains.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Dia Mundial do Decrescimento: 4 de Junho


Uma vida boa para todos requer uma sociedade que vise o bem-estar de todas as pessoas e proteja a base ecológica da vida”  e também nós (e muit@s outr@s pessoas/movimentos), com a Rede para o Decrescimento, temos vindo a investigar e a promover mudanças interiores, pessoais e coletivas, com vista a uma necessária transformação cultural na sociedade. Em especial neste ano de 2022 em que passam 50 anos sobre a publicação do relatório “Limites ao Crescimento” e em que temos vindo a convidar à reflexão mensal vários parceiros da sociedade civil para connosco analisarem o atual estado-do-mundo e as possibilidades de retomarmos um caminho bem mais convivial, sustentável e justo para tod@s e para o planeta. Assim, estamos tod@s convidad@s ao encontro nesse dia 4 de Junho já que, em Lisboa, prosseguem as sessões do ciclo ‘Crescer até Rebentar?’  e, dessa forma, nos uniremos ao TODO nesse dia especial de ação global que, desde 2019, lembra ao mundo que há alternativas ao modelo de vida vigente (produtivista e consumista); conectando diversas iniciativas de âmbitos e regiões variadas em torno de propostas do movimento decrescentista com vista a uma vida boa para tod@s. Junta-te a nós e vem celebrar a desaceleração, a suficiência, a justiça social e climática… operando uma VIDA de saudável interdependência, de responsável autodeterminação e de permanente dignidade, para ti e para TOD@S.

The idea of primitive communism is as seductive as it is wrong

Marx’s idea that societies were naturally egalitarian and communal before farming is widely influential and quite wrong



Karl Marx died on 14 March 1883. At the funeral three days later, Friedrich Engels wasted little time on their 40-year friendship, focusing instead on Marx’s legacy. ‘Just as Darwin discovered the law of development of organic nature,’ Engels said, ‘so Marx discovered the law of development of human history.’ His friend had died ‘beloved, revered and mourned by millions of revolutionary fellow-workers – from the mines of Siberia to California, in all parts of Europe and America … His name will endure through the ages, and so will his work!’

Engels made sure of this. In the following years, he devoted himself to organising and publishing Marx’s ideas. From a mélange of fragments and revisions, he produced the second and third volumes of Das Kapital, in 1885 and 1894 respectively. He meant to publish a fourth but died before he got to it. (It was later published as Theories of Surplus Value.) Still, the most peculiar project born from Marx’s notes was released a year after his death. Engels titled it The Origin of the Family, Private Property and the State. I’ll call it The Origin, for short.

The Origin is like Yuval Noah Harari’s blockbuster Sapiens (2014) but written by a 19th-century socialist: a sweeping take on the dawn of property, patriarchy, monogamy and materialism. Like many of its contemporaries, it arranged societies on an evolutionary ladder from savagery to barbarism to civilisation. Although wrong in most ways, The Origin was described by a recent historian as ‘among the more important and politically applicable texts in the Marxist canon’, shaping everything from feminist ideology to the divorce policies of Maoist China.

Of the text’s legacies, the most popular is primitive communism. The idea goes like this. Once upon a time, private property was unknown. Food went to those in need. Everyone was cared for. Then agriculture arose and, with it, ownership over land, labour and wild resources. The organic community splintered under the weight of competition. The story predates Marx and Engels. The patron saint of capitalism, Adam Smith, proposed something similar, as did the 19th-century American anthropologist Lewis Henry Morgan. Even ancient Buddhist texts described a pre-state society free of property. But The Origin is the idea’s most important codification. It argued for primitive communism, circulated it widely, and welded it to Marxist principles.

Today, many writers and academics still treat primitive communism as a historical fact. To take an influential example, the economists Samuel Bowles and Jung-Kyoo Choi have argued for 20 years that property rights coevolved with farming. For them, the question is less whether private property predated farming, but rather why it appeared at that time. In 2017, an article in The Atlantic covering their work asserted plainly: ‘For most of human history, there was no such thing as private property.’ A leading anthropology textbook captures the supposed consensus when it states: ‘The concept of private property is far from universal and tends to occur only in complex societies with social inequality.’

Historical narratives matter. In his bestseller Humankind (2019), Rutger Bregman took the fact that ‘our ancestors had scarcely any notion of private property’ as evidence of fundamental human goodness. In Civilized to Death (2019), Christopher Ryan wrote that pre-agricultural societies were defined by ‘obligatory sharing of minimal property, open access to the necessities of life, and a sense of gratitude toward an environment that provided what was needed.’ As a result, he concluded: ‘The future I imagine (on a good day) looks a lot like the world inhabited by our ancestors…’

Primitive communism is appealing. It endorses an Edenic image of humanity, one in which modernity has corrupted our natural goodness. But this is precisely why we should question it. If a century and a half of research on humanity has taught us anything, it is to be sceptical of the seductive. From race science to the noble savage, the history of anthropology is cluttered with the corpses of convenient stories, of narratives that misrepresent human diversity to advance ideological aims. Is primitive communism any different?

According to the Aché, former hunter-gatherers living in Paraguay, they first met Kim Hill when he was a child. They adopted him, raised him, and taught him their language. Hill, however, remembers their first encounter differently. It was Christmas of 1977. He was 24 years old. He had persuaded the Peace Corps to fly him out to a Catholic mission with newly contacted hunter-gatherers. A priest welcomed Hill, but ‘he had a lot of duties across the border in Brazil,’ Hill told me. ‘So he drove me into the mission, dropped me off, and said “Here’s the keys to my house.”’ Then the priest left for two weeks. Thus began ‘the most exciting, fun adventure I could imagine’.

The Aché that Hill first met had recently been contacted and settled at the mission. They didn’t know how to farm, so they regularly packed up and headed to the forest, sometimes for weeks at a time. The priest warned Hill not to join them. ‘He said: “You don’t have enough skills – it’s really rough – they’re going to walk really far – you won’t be able to eat the food” – blah blah blah.’ So, ‘of course, the first thing I did was ignore his advice completely.’

The first trip was tough. The Aché didn’t have clothes, so Hill went barefoot and wore nothing but gym shorts. The forest shredded his feet. Vines and spiny plants lacerated his legs. He later wrote in his diary: ‘I have seen my blood every single day for the past month.’ At night, the Aché slept on the ground. Struggling to keep warm, children crawled on Hill, making it hard to catch more than 10 minutes of sleep. He enjoyed hunted meat, but he was less prepared for the hundreds of fat palm larvae sitting between him and starvation.

It was on that first trip that Hill saw the Aché share their meat. A man returning from a hunt dropped an animal in the middle of camp. Another person, the butcher, prepared piles for each family. A third person distributed. ‘At the time, it seemed kind of logical to me,’ Hill said. The scene reminded him of a family barbecue where everyone gets a plate.

Yet the more he lived among the Aché, the more astonishing food-sharing seemed. Men were forbidden from eating meat they’d acquired. Their wives and children received no more than anyone else. When he later built detailed genealogies, he discovered that, contrary to his expectations, bandmates were often unrelated. Most importantly, food-sharing didn’t just happen on special days. It was a daily occurrence, a psychological and economic centrepiece of Aché society.

What he started to see, in other words, was ‘almost pure economic communalism – and I really didn’t think that was possible.’

Hill’s first trip to Paraguay got him hooked on anthropology. After the Peace Corps, he returned to the United States and wrote a PhD thesis on Aché foraging. Now, four decades later, he is professor of anthropology at Arizona State University and renowned for his work on hunter-gatherers and remote peoples. According to his CV, he has spent 190 months – nearly 16 years – conducting fieldwork.

Not all of that has been with the Aché. In 1985, he started working with another group, the Hiwi of Venezuela. He didn’t expect dramatic differences from the Aché. The Hiwi, too, were hunter-gatherers. The Hiwi, too, lived in lowland South America. Yet Hiwi society felt like a new world. The Aché lived in mobile bands of 20 to 30 people. The Hiwi lived in villages of more than 100 people for most of the year. The Aché neither did drugs nor danced. The Hiwi snorted hallucinogens and had tribal dances near-daily. The Aché spent most of each day strenuously getting food. The Hiwi foraged for barely a couple hours, preferring to relax in hammocks. The Aché divorced constantly. The Hiwi, virtually never.

Then, there was food-sharing. In the primitive communism of the Aché, hunters had little control over distributions: they couldn’t favour their families, and food flowed according to need. None of these applied to the Hiwi. When meat came into a Hiwi village, the hunter’s family kept a larger batch for themselves, distributing shares to a measly three of 36 other families. In other words, as Hill and his colleagues wrote in 2000 in the journal Human Ecology, ‘most Hiwi families receive nothing when a food resource is brought into the village.’

Hiwi sharing tells us something important about primitive communism: hunter-gatherers are diverse. Most have been less communistic than the Aché. When we survey forager societies, for instance, we find that hunters in many communities enjoyed special rights. They kept trophies. They consumed organs and marrow before sharing. They received the tastiest parts and exclusive rights to a killed animal’s offspring.

The most important privilege hunters enjoyed was selecting who gets meat. Selective sharing is powerful. It extends a bond between giver and recipient that the giver can pull on when they are in need. Refusing to share, meanwhile, is a rejection of friendship, an expression of ill will. When the anthropologist Richard Lee lived among the Kalahari !Kung, he noticed that a hunter named N!eisi once ignored his sister’s husband while passing out warthog meat. When asked why, N!eisi replied harshly: ‘This one I want to eat with my friends.’ N!eisi’s brother-in-law took the hint and, three days later, left camp with his wives and children. By exercising control over distributions, hunters convert meat into relationships.

To own something, we say, means excluding others from enjoying its benefits. I own an apple when I can eat it and you cannot. You own a toothbrush when you can use it and I cannot. Hunters’ special privileges shifted property rights along a continuum from fully public to fully private. The more benefits they could monopolise – from trophies to organs to social capital – the more they could be said to own their meat.

Compared with the Aché, many mobile, band-living foragers lay closer to the private end of the property continuum. Agta hunters in the Philippines set aside meat to trade with farmers. Meat brought in by a solitary Efe hunter in Central Africa was ‘entirely his to allocate’. And among the Sirionó, an Amazonian people who speak a language closely related to the Aché, people could do little about food-hoarding ‘except to go out and look for their own’. Aché sharing might embody primitive communism. Yet, Hill admits, ‘the Aché are probably the extreme case.’

Hunters’ privileges are inconvenient for narratives about primitive communism. More damning, however, is a starker, simpler fact. All hunter-gatherers had private property, even the Aché.

Individual Aché owned bows, arrows, axes and cooking implements. Women owned the fruit they collected. Even meat became private property as it was handed out. Hill explained: ‘If I set my armadillo leg on [a fern leaf] and went out for a minute to take a pee in the forest and came back and somebody took it? Yeah, that was stealing.’

Some proponents of primitive communism concede that foragers owned small trinkets but insist they didn’t own wild resources. But this too is mistaken. Shoshone families owned eagle nests. Bearlake Athabaskans owned beaver dens and fishing sites. Especially common is the ownership of trees. When an Andaman Islander man stumbled upon a tree suitable for making canoes, he told his group mates about it. From then, it was his and his alone. Similar rules existed among the Deg Hit’an of Alaska, the Northern Paiute of the Great Basin, and the Enlhet of the arid Paraguayan plains. In fact, by one economist ’s estimate, more than 70 per cent of hunter-gatherer societies recognised private ownership over land or trees.

The respect for property rights is clearest when someone violates them. To appreciate this, consider the Mbuti, one of the short-statured (‘pygmy’) hunter-gatherers of Central Africa.

Much of what we know about Mbuti society comes from Colin Turnbull, a British-American anthropologist who stayed with them in the late 1950s. Turnbull was kind, strong and courageous. From 1959 until his death, he lived in an openly gay, interracial relationship, eventually resigning from the American Museum of Natural History under charges of discrimination against him and his partner. He spent his later years campaigning for death row inmates and, upon his death, donated his entire estate and savings to the United Negro College Fund. ‘Throughout his life,’ wrote a biographer, ‘Turnbull was motivated by a deep-seated wish to find goodness, beauty and power in the oppressed or ridiculed and, by making those qualities known to the world, reveal the evils of Western civilisation.’

For some, these motivations clouded Turnbull’s descriptions of the Mbuti. He has been criticised for painting an ‘idealised picture’ of the Mbuti as ‘simple and childlike creatures’ living ‘a romantic and harmonious life in the bountiful rain forest.’ Yet, even if he did idealise, his writings still undermine claims of primitive communism. He described a society in which theft was prohibited, and where even the most desperate members suffered for violating property rights.

Take, for instance, Pepei, a Mbuti man who in 1958 was 19 years old and still unmarried. Unlike most bachelors, who slept next to the fire, Pepei lived in a hut with his younger brother. But instead of collecting building materials, he swiped them. He snuck around at night, plucking a leaf from this hut and a sapling from that. He also filched food. He was an orphan after all, and a bachelor, so he had few people to help him prepare meals. When food mysteriously disappeared, Pepei always claimed to have seen a dog snatch it.

‘Nobody really minded Pepei’s stealing,’ wrote Turnbull, ‘because he was a born comic and a great storyteller. But he had gone too far in stealing from old Sau.’

Old Sau was a skinny, feisty widow. She lived a couple of huts down from Pepei, and one night caught him skulking around in her hut. As he lifted the lid of a pot, she smacked him with a pestle, grabbed his arm, twisted it behind his back, and shoved him into the open.

Justice was brutal. Men ran out and held Pepei, while youths broke off thorny branches and thrashed him. Eventually Pepei broke away and ran into the forest crying. After 24 hours, he returned to camp and went straight to his hut unseen. ‘His hut was between mine and Sau’s,’ wrote Turnbull, ‘and I heard him come in, and I heard him crying softly because even his brother wouldn’t speak to him.’

Other foragers punished stealing, too. The Ute of Colorado whipped thieves. The Ainu of Japan sliced their earlobes off. For the Yaghan of Tierra del Fuego, accusing someone of robbery was a ‘deadly insult’. Lorna Marshall, who spent years living with the Kalahari !Kung, reported that a man was once killed for taking honey. Through violence towards offenders, foragers reified private property.

Is primitive communism another seductive but incorrect anthropological myth? On the one hand, no hunter-gatherer society lacked private property. And although they all shared food, most balanced sharing with special rights. On the other hand, living in a society like the Aché’s was a masterclass in reallocation. It’s hard to imagine farmers engaging in need-based redistribution on that scale.

Whatever we call it, the sharing economy that Hill observed with the Aché does not reflect some lost Edenic goodness. Rather, it sprang from a simpler source: interdependence. Aché families relied on each other for survival. We share with you today so that you can share with us next week, or when we get sick, or when we are pregnant. Hill once saw a man fall from a tree and break his hip. ‘He couldn’t walk for three months, and in those three months, he produced zero food,’ Hill said. ‘And you would think that he would have starved to death and his family would have starved to death. But, of course, nothing happened like that, because everybody provisioned him the whole time.’

This is partly about reciprocity. But it’s also about something deeper. When people are locked in networks of interdependence, they become invested in each other’s welfare. If I rely on three other families to keep me alive and get me food when I cannot, then not only do I want to maintain bonds with them – I also want them to be healthy and strong and capable.

Interdependence might seem enviable. Yet it begets a cruelty often overlooked in talk about primitive communism. When a person goes from a lifeline to a long-term burden, reasons to keep them alive can vanish. In their book Aché Life History (1996), Hill and the anthropologist Ana Magdalena Hurtado listed many Aché people who were killed, abandoned or buried alive: widows, sick people, a blind woman, an infant born too soon, a boy with a paralysed hand, a child who was ‘funny looking’, a girl with bad haemorrhoids. Such opportunism suffuses all social interactions. But it is acute for foragers living at the edge of subsistence, for whom cooperation is essential and wasted efforts can be fatal.

Consider, for example, how the Aché treated orphans. ‘We really hate orphans,’ said an Aché person in 1978. Another Aché person was recorded after seeing jaguar tracks:
Don’t cry now. Are you crying because you want your mother to die? Do you want to be buried with your dead mother? Do you want to be thrown in the grave with your mother and stepped on until your excrement comes out? Your mother is going to die if you keep crying. When you are an orphan nobody will ever take care of you again.

The Aché had among the highest infanticide and child homicide rates ever reported. Of children born in the forest, 14 per cent of boys and 23 per cent of girls were killed before the age of 10, nearly all of them orphans. An infant who lost their mother during the first year of life was always killed.

(Since acculturation, many Aché have regretted killing children and infants. In Aché Life History, Hill and Hurtado reported an interview with a man who strangled a 13-year-old girl nearly 20 years earlier. He ‘asked for our forgiveness’, they wrote, ‘and acknowledged that he never should have carried out the task and simply “wasn’t thinking”.’)

Hunter-gatherers shared because they had to. They put food into their bandmates’ stomachs because their survival depended on it. But once that need dissipated, even friends could become disposable.

The popularity of the idea of primitive communism, especially in the face of contradictory evidence, tells us something important about why narratives succeed. Primitive communism may misrepresent forager societies. But it is simple, and it accords with widespread beliefs about the arc of human history. If we assume that societies went from small to big, or from egalitarian to despotic, then it makes sense that they transitioned from property-less harmony to selfish competition, too. Even if the facts of primitive communism are off, the story feels right.

More important than its simplicity and narrative resonance, however, is primitive communism’s political expediency. For anyone hoping to critique existing institutions, primitive communism conveniently casts modern society as a perversion of a more prosocial human nature. Yet this storytelling is counterproductive. By drawing a contrast between an angelic past and our greedy present, primitive communism blinds us to the true determinants of trust, freedom and equity. If we want to build better societies, the way forward is neither to live as hunter-gatherers nor to bang the drum of a make-believe state of nature. Rather, it is to work with humans as they are, warts and all.

Fonte: Aeon

domingo, 29 de maio de 2022

A surpreendente mariposa de asas côr de rosa


Rosy maple moth (Dryocampa rubicunda)


Biologia e distribuição:

Poema de Fernando Guimarães: "Árvore"


Árvore
Conheço as suas raízes. É tudo o que vejo.
Há um movimento que a percorre devagar. Não sei
se ela existe. Imagino apenas como são os ramos,
este odor mais secreto, as primeiras folhas
aquecidas. Mas eu existo para ela. Sou
a sua própria sombra, o espaço que fica à volta
para que se torne maior. É assim que chega
o que não passa de um pressentimento. Ela compreende
este segredo. Estremece. Comigo procuro trazer
só um pouco de terra. É a terra de que ela precisa.


Fernando Guimarães,
in ‘Limites para uma Árvore’, Edições Afrontamento, 2000

Música do BioTerra: The Young Gods - Kissing The Sun


Soon we will be on our way
Say goodbye to yesterday

Soon we will be in the light
Swimming in the open sky

We'll spread our wings around the stars
Watch the way we drop our scars

We will be kissing the sun
Everybody knows kissing the sun
One and one with the one you've chosen

We'll spread our wings as we get higher
Spread our wings into the fire

We will be kissing the sun
Everybody knows kissing the sun
One and one And the thing explodes

sábado, 28 de maio de 2022

African nations’ dash for gas exposes division at the UN and ‘hypocrisy’ in Europe


Across Africa, gas is at the heart of a development versus decarbonisation challenge.

“We might see in gas a transitional source of energy with certainly less emissions,” Egypt’s foreign minister and COP27 president Sameh Shoukry told the Associated Press in Davos on Monday.

What that transition should look like dominated talks at the Sustainable Energy for All (SE4All) forum held in Kigali, Rwanda, last week.

“We need to plan now to be able to power Africa’s future industries sustainably but without slowing down our development,” said host Rwanda’s president Paul Kagame.

For ministers of at least 10 African nations, the answer lies in gas.

In a seven-point communique, they called on the international community to “support Africa in the deployment of gas as a transition fuel and the long-term displacement of gas by renewable energy and green hydrogen for industrial development, if financially and technically sustainable”.

This, they said, would help “address development gaps” and “put Africa on a pathway to economic prosperity and net zero”.

The Democratic Republic of Congo, Ghana, Kenya, Malawi, Morocco, Nigeria, Rwanda, Senegal, Uganda, and Zimbabwe signed on to the statement.

African nations’ appetite for exploiting untouched gas reserves contradicts UN secretary general António Guterres’ repeated call for phasing out fossil fuels, including gas.

He described investing in new fossil fuel infrastructure as “moral and economic madness” following the publication of the latest Intergovernmental Panel on Climate Change report which showed that expanding coal, oil and gas production puts global climate goals at risk.

But African leaders have found sympathy from high-powered Nigerian women at the UN: Guterres’ deputy and former environment minister Amina Mohammed and head of SE4All Damilola Ogunbiyi.

Ogunbiyi is responsible for delivering on a 2030 sustainable development goal for everyone to have access to affordable, reliable and sustainable energy. She joined SE4All at the start of 2020 with a firm opinion on the question.

“Gas, for me, in Africa, probably has to be part of the equation for a bit longer as a transitionary fuel because gas also affects cooking. I’m here in New York cooking with gas. It’s going to be very strange to tell the whole of Africa ‘don’t use gas because it’s a fossil [fuel] and continue using fuel wood’,” she told the BBC.

“If people that don’t have electricity in Africa got powered by gas today, it would increase Africa’s… emissions by 2-4%. That’s what we’re talking about. So it’s not fair to keep identifying Africa’s fossils as the problem,” she added, defending gas infrastructure projects on the continent.

A statement on the SE4All website, published following her appointment, says the organisation “recognises that interim solutions, including natural gas and liquefied petroleum gas, must be deployed urgently in some settings where they can best reduce human suffering and save lives”.

Mohammed has been less vocal on the issue but supports gas-powered development behind the scenes, sources close to the UN have told Climate Home. She did not respond to a request for comment.

An estimated 90 million people are without power in Nigeria alone, according to 2019 data. Across Africa, 592 million people lack access to electricity. The Covid-19 pandemic led to a reversal of some of the earlier gains in energy access.

Ovigwe Eguegu, a Nigerian policy adviser at consultancy Development Reimagined, told Climate Home that ahead of a presidential election next year, “the national discourse is not even about gas as a transition fuel but rather ‘we need energy first and then we can discuss if it’s clean’.”

At the time of the interview, Eguegu’s home had been seven hours without power. Many middle-class Nigerian households use polluting diesel generators as backup for frequent grid outages.

“No candidate can come to Nigeria and argue against gas,” said Eguegu, adding that it would be “shocking” if Nigerians in high-powered UN jobs didn’t support gas as part of the solution.

A SE4All spokesperson added that the organisation “strongly supports” reaching global net zero emissions by 2050 and gas that displaces diesel use would need to be phased out from 2030.

“If we want these countries to move away from gas sooner, then they will need a great deal of additional support, particularly finance and technical support, from the global north,” they added.

Youba Sokona, of Mali, a vice chair of the IPCC and special advisor for Sustainable Development at the South Centre, said gas had become “dilemma” for the African continent. While current renewable deployment isn’t sufficient to power the continent’s industrialisation, developing new gas infrastructure risks leaving them stranded, he explained.

“The question is will Africa jumpstart electrifying its development or will it invest in fossil with all various risks associated it will have to face?”

For climate campaigners the road ahead is clear. Those “arguments for gas exploration and gas-fired power infrastructure in Africa are robbing us of vital time to switch to clean energy,” Ugandan youth activist Vanessa Nakate wrote in Al-Jazeera ahead of the SE4All summit.

“We need massive investment from the global north in clean energy in Africa. Climate justice for Africa does not mean following the mistakes of the rich countries who got us into this crisis,” she told Climate Home.

In fact, SE4All identifies off-grid renewable solutions such as solar mini-grids as the cheapest, quickest and most sustainable way to electrify Africa. Yet oil and gas companies have continued to pitched gas as a reliable and cleaner alternative to coal than can support developing countries’ economic growth.

And arguments about energy access obscure the reality that much of the gas production under development in Africa is destined for export. That includes to European countries that talk tough on fossil fuels, yet since Russia invaded Ukraine have been scrambling to secure gas supplies from other sources.

On the first stop of an African tour on Sunday, chancellor Olaf Scholz said Germany would “intensively” work to support offshore gas production in Senegal – a project developed by BP and embroiled in a corruption scandal.

Senegalese president Macky Sall said he was “dancing with joy” at the prospect of cooperation with Germany. LNG production and export to Europe “is an issue that is really close to our hearts,” he said.

Germany’s support for Senegal’s gas exploitation appears to violate a Cop26 pledge signed by Berlin and more than 30 other countries to end international public finance for unabated fossil fuels, including gas, by the end of this year – a pledge that angered West African leaders.

A climate ministry spokesperson insisted Germany stood by its commitment.

But these mixed messages have led to fresh accusations of European hypocrisy. “If Europe is using gas as a transition fuel or for political calculations, why shouldn’t we?,” asked Eguegu.

Aki Kachi, of the New Climate Institute, told Climate Home the prospect of a deal “undermines Germany’s international credibility to live up to its promises”. Starting on Wednesday, Germany is hosting a G7 meeting of climate ministers, where ending public finance for fossil fuels is on the table.

“These European nations know that fossil fuels like gas are not the future and once they have their renewables up to speed, they will drop these new gas agreements,” Mohamed Adow, director of Power Shift Africa, told Climate Home.

“For Africa, it would be idiotic to invest our little resources to expand gas production just to help Europe in the short term when we could be investing in our own sustainable renewable energy,” he said.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

ADN revela espécies escondidas sob um mesmo disfarce

Exemplar da espécie Eumida sanguinea. Foto: Arne Ny Gren

A análise molecular de anelídeos marinhos do Nordeste Atlântico revelou que o que era previamente considerada uma só espécie são afinal nove espécies diferentes com a mesma aparência morfológica, segundo a Universidade de Aveiro.

A descoberta de uma equipa das universidades de Aveiro e do Minho deu origem à descrição de cinco espécies novas para a Ciência, estando as restantes a aguardar colheita de mais exemplares para um estudo mais aprofundado.

Os anelídeos são animais invertebrados com o corpo formado por vários segmentos que lembram uma série de anéis fundidos uns aos outros. Fazem parte dos ecossistemas costeiros e vivem em substratos arenosos e lodosos ou entre algas, até cerca de 50 metros de profundidade.

O crescente recurso a técnicas moleculares para a identificação de organismos tem vindo a revelar uma maior diversidade de espécies do que o pensado anteriormente.

Publicado na revista Zoological Journal of the Linnean Society, um estudo de investigadores do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da Universidade de Aveiro (UA), da Universidade do Minho e da Universidade de Gotemburgo (Suécia) a 148 exemplares da espécie Eumida sanguinea colhidos ao longo da costa europeia (desde a Noruega à Itália) revelou tratar-se, afinal, de um complexo de nove espécies diferentes.

Estas espécies de anelídeo distinguem-se apenas por variações subtis de coloração corporal e de proporção dos seus apêndices, as quais passam despercebidas até aos olhos mais atentos e experientes.

Com o cada vez maior uso dos testes de ADN poderá haver surpresas com outras espécies. “Na verdade” aponta, em comunicado, a investigadora Ascensão Ravara, do CESAM, “este foi só o primeiro ‘complexo de espécies’ de entre quatro que estamos a estudar”. A equipa – da qual fazem também parte os investigadores Marcos Teixeira, Pedro Vieira, Filipe Costa e Arne Nygren – tem já sinalizadas outras espécies que provavelmente também serão afinal complexos de espécies diferentes. “Certamente existirão mais casos por identificar”, sublinha Ascensão Ravara.

Antigamente, explica Ascensão Ravara, “a descrição das espécies baseava-se unicamente nas características externas dos organismos [morfologia]”. Hoje em dia, “as técnicas moleculares – com obtenção de sequências de ADN – permitem-nos caracterizar e comparar os organismos também ao nível genético. São duas ferramentas [morfologia e genética] que se complementam e nos ajudam a conhecer melhor o mundo que nos rodeia”.

Os organismos estudados neste trabalho estão depositados na CoBI – Coleção Biológica de Investigação da UA, uma coleção que está disponível para estudo pela comunidade científica.

A defesa da semana com 4 dias de trabalho.


A abordagem tradicional ao trabalho precisa de ser repensada, diz a economista Juliet Schor. Ela dirige experiências de trabalho de quatro dias por semana em países como os EUA e a Irlanda e os resultados até agora são extremamente positivos: de crescente satisfação tanto de empregadores como de clientes, ao aumento de receitas e redução da rotação de pessoal. Defendendo a semana de quatro dias de trabalho, de 32 horas (com cinco dias de pagamento), Schor explica como este modelo para o futuro do trabalho pode resolver problemas importantes como os esgotamentos e a crise climática — e conta-nos como empresas e governos podem funcionar em conjunto para o tornar realidade.

quinta-feira, 26 de maio de 2022

A Seca Ameaça Grande Parte do Planeta


Este ano a seca volta a preocupar Portugal, em especial o setor agrícola. Tecnicamente, a seca consiste numa anomalia transitória, mais ou menos prolongada, caracterizada por um período de tempo com valores de precipitação inferiores ao normal numa certa área, sendo causa inicial a escassa precipitação (seca meteorológica), e resultando numa insuficiência de recursos hídricos para suprir a procura (seca hidrológica). Reconhece-se ainda a seca agrícola, entendida como um défice de humidade para satisfazer as necessidades específicas de uma cultura.

As projeções climáticas regionalizadas para a Península Ibérica, revelam uma diminuição da quantidade de precipitação e do número de dias chuvosos, bem como um aumento da duração dos períodos de seca. Pelo contrário, não há sinais de alteração significativa das chuvas fortes. Ou seja, observamos uma tendência para menos chuva, mas não para que os episódios de chuva severa sejam reduzidos.

Os modelos climáticos regionais são agora mais eficientes na simulação da temperatura e extremos hidrológicos, incluindo a intensidade de fortes eventos de chuva e extremos quentes e frios. Os modelos podem agora simular bem as secas, particularmente à escala sazonal, e as projeções de duração e frequência da seca estão a tornar-se mais consistentes em muitas regiões, embora as alterações regionais das chuvas médias continuem a ser incertas. Temos, portanto, mais recursos para uma melhor gestão nacional e regional dos recursos hídricos. 

Sabemos que as crises de qualidade e quantidade da água estão intimamente associadas às alterações climáticas. Um relatório divulgado em Abril pela ONU - The Global Land Outlook - refere que, em apenas vinte anos, a duração dos episódios de seca aumentou 29%. Do conjunto de impactos físicos, humanos e sociais relacionados com o aquecimento global, este é provavelmente o que tem maior expressão. De acordo com o relatório apresentado no âmbito da sessão da Conferência das Partes (COP15) da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, mais de um terço da população mundial será afetada pela seca este ano. Urge planear e preparar os recursos possíveis para mitigar os efeitos de um fenómeno que se está claramente a agravar.

A seca poderá obrigar à deslocação de 700 milhões de pessoas até 2030. Na década seguinte, admite-se que uma em cada quatro crianças viverá numa região onde os recursos hídricos disponíveis serão extremamente reduzidos. Os cenários para 2050 sustentam que as secas afetarão três quartos da humanidade. "Entre 4,8 e 5,7 mil milhões de pessoas viverão em território com défice de água por um período de pelo menos um mês por ano", segundo o relatório da ONU. Os países do hemisfério norte não estão mais seguros. "Se o aquecimento global atingir os 3oC até 2100, as perdas pela seca podem ser cinco vezes mais elevadas do que na atualidade, com o maior aumento nas regiões mediterrânicas e atlânticas da Europa", alerta o relatório. 

Uma abordagem às alterações climáticas que reconheça a importância da água pode combater tanto as causas como os impactos das alterações climáticas. Combinar estratégias de adaptação e mitigação das alterações climáticas com especial enfoque na água, poderá beneficiar a gestão global dos recursos hídricos, incluindo a redução do risco de desastres, e melhorará a disponibilidade de água.

Helena Freitas, Diário de Coimbra, 24.05.2022

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“Lucrar com a dor”: Oxfam lança relatório sobre riqueza acumulada na pandemia

Durante a pandemia surgiu um novo multimilionário a cada 30 horas. Este ano, a cada 33 horas, houve um milhão de pessoas a passar à situação de risco de pobreza extrema. O relatório da Oxfam defende a taxação da riqueza dos multimilionários dos setores que mais lucraram com a pandemia e a atual crise energética e alimentar.


Esta segunda-feira a Oxfam publicou um relatório intitulado “Lucrar com a dor” onde avança dados sobre o nível de riqueza dos multimilionários dos setores que mais lucraram com a pandemia e agora com o aumento dos preços da energia e do setor alimentar.

De acordo com dados da Forbes, desde 2020 existem mais 573 multimilionários, perfazendo atualmente um total de 2.668. Se em 2000 a sua riqueza correspondia a 4,4% do PIB global, agora representa 13,9%. Os 10 homens mais ricos detêm uma riqueza maior do que os 40% da população mundial mais pobre e os 20 mais ricos totalizam uma fortuna maior do que o PIB da África subsariana.

Ao mesmo tempo, com a combinação das várias crises desde 2020, este ano mais de 263 milhões de pessoas podem experienciar um nível de pobreza extrema. A Oxfam faz um cálculo interessante: isto quer dizer que a cada 33 horas mais 1 milhão de pessoas está em risco de pobreza e, em média, desde 2020 que um novo multimilionário surge a cada 30 horas. Esta é provavelmente a imagem mais clara que o relatório nos dá: ao mesmo tempo que um novo multimilionário ascende, um milhão de pessoas confronta-se com pobreza extrema.

As várias faces da desigualdade

Para além dos diferentes níveis de acumulação da riqueza, a Oxfam recolhe dados para descrever a desigualdade enquanto fenómeno multidimensional.

Um aspeto gritante é a discrepância entre níveis de rendimento - por exemplo, em média, levaria a uma pessoa nos 50% mais pobres 112 anos a receber o que alguém nos 1% mais ricos aufere num ano. Com a pandemia, este fosso agravou-se: o rendimento de 99% da população mundial decresceu, equivalendo a 125 milhões de postos de trabalho a tempo inteiro perdidos.

Depois, a pobreza e as dificuldades de acesso ao mercado de trabalho são particularmente mais graves para as mulheres e os grupos racializados sofreram mais com a pandemia. Em 2020, era 1,4 vezes mais provável uma mulher perder o seu emprego e estaria três vezes mais incumbida de trabalho não pago. Já em 2021, comparando com 2019, enquanto havia menos 13 milhões de mulheres empregadas, o emprego masculino tinha recuperado para os níveis anteriores.

As condições de saúde em si são outro fator de desigualdade. A esperança de vida é cerca de 16 anos maior em países de elevado rendimento do que naqueles de baixo rendimento e, como resultado da pandemia, morreram quatro vezes mais pessoas no segundo grupo.

Por fim, a Oxfam salienta que a pandemia reverteu a tendência de convergência entre os dois grupos de países e que, para os países de baixo rendimento, o peso da dívida externa impede os governos de investir em serviços públicos de saúde.

Multinacionais lucraram com a pandemia

Os últimos dois anos, primeiro pelo surto da Covid-19 e depois pelo aumento dos preços da energia e do setor alimentar, reforçado com a guerra na Ucrânia, mostraram-se particularmente proveitosos para quatro setores: farmacêutico, alimentar, energético e tecnológico. Todos eles são áreas caracterizadas por uma grande concentração de mercado, funcionando por oligopólios.

O setor alimentar e o agronegócio, ao mesmo tempo que escala o receio de uma crise alimentar global, aumentou a sua riqueza em 382 mil milhões de dólares nos últimos dois anos, isto é, em 45%. Neste período apareceram 62 novos multimilionários e duas famílias merecem particular destaque - Cargill, detentora da gigante agroalimentar homónima, e os Walton, donos da cadeia de supermercados Wallmart. Os dois grupos registaram lucros avultados e distribuíram grande parte destes em dividendos aos seus acionistas.

Os lucros marginais das grandes petrolíferas quase duplicaram durante a pandemia enquanto se estima que o custo da energia deve aumentar em 50% em 2022. Nos últimos dois anos, a riqueza dos multimilionários no setor do petróleo, gás e carvão aumentou em 53,3 mil milhões de dólares, isto é 24%. Só a BP, Shell, TotalEnergies, Exxon e Chevron, cinco das maiores energéticas, estão a obter, juntas, lucros de 2.600 dólares a cada segundo.

Com a pandemia, as empresas farmacêuticas lucraram extensivamente com o desenvolvimento de vacinas, tratamentos, testes e máscaras, com especial destaque para os grupos Moderna e Pfizer. 40 novos multimilionários surgiram neste setor e as duas gigantes, apenas com a vacina, estão a lucrar 1.000 dólares por segundo. A Oxfam nota que estes lucros são largamente explicados por as duas farmacêuticas cobrarem aos governos até 24 vezes mais do que o custo potencial da produção genérica e por o desenvolvimento das vacinas ter sido amplamente apoiado por investimentos públicos. Mais, o setor farmacêutico é conhecido por recorrer a práticas fiscais agressivas e usufruir de paraísos fiscais.

Quanto ao setor tecnológico, parece ser o mais lucrativo e com maior grau de concentração. Cinco dos 21 maiores grupos económicos são gigantes tecnológicos: Apple, Microsoft, Tesla, Amazon e Alphabet. Estas juntas lucraram no ano passado 271 mil milhões de dólares, quase o dobro do que registaram em 2019.

Tributação de lucros extraordinários e da riqueza como solução

A Oxfam sugere três medidas para responder a estes níveis de desigualdade. Primeiro, um imposto sobre os lucros extraordinários dos maiores grupos multinacionais, em linha com as recomendações da Comissão Europeia, da OCDE e do FMI de tributar os lucros excecionais das energéticas para estancar o aumento galopante dos preços da energia.

A Oxfam propõe um imposto de 90% sobre lucros extraordinários, de forma temporária e transversal a todos os setores. Em setembro de 2020, estimava que um imposto deste género sobre as 32 empresas mais lucrativas durante a pandemia teria gerado uma receita de 104 mil milhões de dólares.

Segundo, impostos de solidariedade pontuais de 99% sobre a riqueza dos novos multimilionários para ajudar a população a enfrentar o aumento do custo de vida. Este tipo de impostos de solidariedade já foram reconhecidos pela OCDE e pelo FMI como opções económicas a considerar. A Argentina, por exemplo, adotou este tipo de medida como forma de financiamento no início da pandemia.

Terceiro, e por último, um imposto permanente sobre a riqueza como forma de equilibrar o tratamento fiscal do trabalho face ao capital. A Oxfam sugere que um imposto progressivo sobre riqueza pessoal de 2% a partir de 5 milhões de dólares, 3% acima de 50 milhões e 5% acima de mil milhões, geraria 2,52 biliões de dólares mundialmente. Este nível de receita tiraria 2,3 mil milhões da pobreza, cobriria a produção de vacinas de Covid-19 mundialmente e garantiria proteção social para a população dos países de baixo e médio-baixo rendimento.

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AGRICULTURA E DESFLORESTAÇÃO – QUE RELAÇÃO?

Tanto a desflorestação como a degradação florestal estão a ocorrer a um ritmo alarmante, agravando as alterações climáticas e a perda de biodiversidade. A expansão das áreas de produção agrícola de matérias-primas, mercadorias ou também chamadas commodities – como o gado bovino, a madeira, o óleo de palma, a soja, o cacau e o café – é o principal motor da desflorestação e a degradação florestal.

Em 2017, a União Europeia (UE) foi um dos maiores blocos consumidores de commodities associadas à desflorestação e à degradação das florestas, responsável por 16% da desflorestação associada ao comércio internacional, num total de 203.000 hectares.

PORTUGAL TAMBÉM É RESPONSÁVEL PELA DESFLORESTAÇÃO NA AMAZÓNIA?

Em Portugal, a pecuária intensiva é o principal motor da desflorestação causada pelas importações, sobretudo ligada à produção de matérias-primas para a alimentação animal como a soja e o milho. A maior parte da soja importada vem do Brasil, onde os grandes campos de soja estão ligados à destruição da Amazónia e de biomassa importantes como o Cerrado e o Pantanal. O agronegócio da soja está também ligado a violações de Direitos Humanos através da apropriação de terras e recursos naturais a comunidades locais.

A importação de mercadorias de países com fraca regulamentação ou controlo dos agroquímicos utilizados na sua produção também aumentam o risco para a saúde pública, sempre que entrem na cadeia alimentar, algo que já se está a verificar.

Portugal emitiu uma exceção à entrada de milho para alimentação animal com limites máximos de resíduos de pesticidas acima do permitido na UE (Despacho nº 28/2022 da DGAV), derivado das necessidades sobretudo da pecuária industrial que vêem o fornecimento a partir da Ucrânia em risco, devido ao atual contexto. A importação desta mercadoria deverá ser reforçada junto de países Sul Americanos, como a Argentina e o Brasil, onde a sua produção poderá estar ligada à desflorestação, degradação de biomas de alto valor e violações dos Direitos Humanos.

Estas matérias-primas estão nos produtos que consumimos diariamente, no entanto desconhecemos os impactes dos produtos disponíveis nos nossos locais de compra. O que compramos contribuir de forma direta ou indireta para a desflorestação? Quanto custa realmente aquilo que consumimos? (ou quais os custos escondidos daquilo que consumimos).

REGULAMENTO DA UE PARA PRODUTOS SEM DESFLORESTAÇÃO

A Comissão Europeia (CE) apresentou uma proposta de regulamento, a 17 de novembro de 2021, com o objetivo de garantir que as cadeias de abastecimento Europeias não causam desflorestação e degradação das florestas.

O regulamento para produtos livres de desflorestação proposto pela CE assume um caminho de transparência e de responsabilização de toda a cadeia de abastecimento, para que se torne cada vez mais difícil a circulação de mercadorias ligadas à desflorestação ou à degradação de ecossistemas florestais. No entanto, algumas definições vagas e aspetos pouco claros podem enfraquecer o regulamento e deixá-lo vulnerável a emendas que comprometam a sua eficácia, tais como:
  • As isenções para empresas, resultantes de uma definição excessivamente abrangente de pequenas e médias empresas (PME), podem deixar de fora cadeias importadoras.
  • A falta de responsabilização do setor financeiro permitirá que se continue a financiar a destruição de florestas tropicais.
  • Mercadorias como a borracha e o milho, a par de outros ecossistemas para além das florestas, já deveriam estar incluídos na primeira versão do regulamento, caso contrário resultarão danos evitáveis e um atraso considerável na concretização dos objetivos do diploma.
  • Não estão devidamente acautelados mecanismos de recurso à justiça em caso de violação dos Direitos Humanos e outros direitos.
O sucesso deste regulamento vai, pois, depender do empenho e ambição dos Estados-Membros, crucial durante a discussão ao longo dos próximos meses. Assegure-se que a sua opinião é representada!

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Personalidades lançam manifesto para honrar vida e obra de Gonçalo Ribeiro Telles


O documento, subscrito por personalidades como Elísio Summavielle, Viriato Soromenho Marques, Luísa Schmidt, Helena Roseta, Isabel do Carmo, Fernando Nunes da Silva, José Sá Fernandes e Francisco Ferreira, entre outros, lançado por ocasião do centenário do nascimento de Ribeiro Telles, pretende honrar "a resistência à destruição dos espaços naturais e da sua cultura e a aposta na identidade humana com a Terra".

Explicando a motivação que deu origem a esta iniciativa, a comissão ad-hoc, que conta, entre outros, com nomes como António Eloy, coordenador do Observatório Ibérico de Energia, Aurora Carapinha e Margarida Cancela de Abreu, arquitetas paisagistas, e José Carlos Costa Marques, distinguido em 2009 com o Prémio Nacional de Ambiente Fernando Pereira, defende que se "continuar a pôr em prática" o espírito de Ribeiro Telles.

"Numa altura em que as políticas públicas se alinham em contradição com o que ele sempre defendeu, arrastando a desorganização do território, a destruição da biodiversidade, a destruição da paisagem enquanto valor cultural e identitário, e as lógicas de um desenvolvimento contra o ambiente e a sustentabilidade, apesar de embrulhadas num discurso «verde»", escrevem.

"Honramos, em Gonçalo Ribeiro Telles, no centenário do seu nascimento, o Professor, o Arquiteto Paisagista, o homem político, o defensor do mundo rural, e da cidade entendida como o enlace da sociedade e da natureza, e não como puro artifício", acrescentam.

No documento, defendem que honrar Gonçalo Ribeiro Telles "é defender o municipalismo como forma de organização cívica e de respeito pela história, em vez da artificialização e centralização administrativa constantes".

"É pugnar pela centralidade do solo, da sua proteção, conservação e regeneração. É agir sempre com base no respeito consequente pelas áreas protegidas, valores naturais, ecossistemas e biodiversidade", sublinham.

Os subscritores defendem ainda que honrar Ribeiro Telles "é defender o ar, a água e o solo como fontes primaciais da vida. É defender políticas agro-pastoris-florestais coerentes".

"É entender e atuar na paisagem enquanto sistema vivo, resultante da união íntima entre ecologia e cultura, respeitando a memória biofísica e antropológica que a configura", defendem, acrescentando: "É acreditar que a paisagem é uma realidade fundadora da qualidade de vida das comunidades".

Cientistas de Coimbra desenvolvem novo material que pode substituir o plástico


Uma equipa de investigadores liderada pela Universidade de Coimbra (UC) desenvolveu um substituto do plástico a partir de nanocelulose combinada com um mineral fibroso, totalmente biodegradável e biocompatível.

Em nota de imprensa enviada à agência Lusa, a UC afirmou que o novo material tem várias aplicações, desde logo “embalagens alimentares e impressões eletrónicas, abrindo portas à fabricação de plásticos mais sustentáveis”.

Segundo o comunicado, o novo material foi desenvolvido ao longo dos últimos três anos, em parceria com o Instituto Politécnico de Tomar (IPT) e a Universidade da Beira Interior (UBI), contando ainda com a colaboração da empresa espanhola TOLSA.

Esta nova solução ecológica, “que, na prática, se traduz numa nova classe de filmes compósitos”, foi produzida a partir de nanocelulose, “obtida através de processos mecânicos, químicos e enzimáticos, combinada com um mineral fibroso, um recurso geológico que permite a redução de custos e a melhoria de propriedades mecânicas e de barreira muito importantes”.

Citados no comunicado, José Gamelas e Luís Alves, respetivamente coordenador do projeto e investigador principal do estudo, explicaram que as propriedades mecânicas derivam de os filmes “terem de ser resistentes”, enquanto as de barreira estão relacionadas com a impermeabilidade aos gases [dos filmes] , ou seja, resistência ao ambiente”.

Segundo os dois investigadores do Centro de Investigação em Engenharia dos Processos Químicos e dos Produtos da Floresta (CIEPQPF) da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCTUC), “a grande inovação” deste novo substituto do plástico é o uso de minerais fibrosos, “que não têm qualquer risco para a saúde, e também a preparação dos filmes por filtração, o que acelera muito o processo de produção”.

“Por exemplo, com o processo convencional pode durar uma semana até se obter os filmes, enquanto através do método por filtração conseguimos ter os mesmos filmes em poucas horas e com melhores propriedades”, garantiram.

Até agora, os resultados obtidos na investigação “são altamente promissores, demonstrando que esta pode ser uma solução de futuro viável. Aumentar a escala de produção, otimizar processos e explorar as propriedades destes filmes para outras aplicações, nomeadamente para restauro de livros antigos, serão os próximos passos do projeto”, revelaram José Gamelas e Luís Alves.

“Embora o projeto tenha sido pensado para embalagens alimentares e eletrónica impressa, há muitas outras aplicações que podem beneficiar desta solução, tais como a conservação/restauro de documentos importantes em suporte de papel que tenham problemas de degradação com o envelhecimento”, acrescentaram.

Os dois cientistas lembraram ainda que utilização massiva de plásticos e a “incapacidade de fazer uma reciclagem apropriada é cada vez mais um tema de grande importância na sociedade contemporânea”.

“Por isso, é fundamental a procura de novos materiais produzidos a partir de recursos não fósseis, isto é, de recursos renováveis, para reduzir o uso do plástico”, defenderam.

A investigação foi desenvolvida no âmbito do projeto “FilCNF: Nova geração de filmes compósitos de nanofibrilas de celulose e partículas minerais como materiais de elevada resistência mecânica e propriedades de barreira a gases”, financiado em 190 mil euros pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER).

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