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domingo, 19 de julho de 2026

Moonspell - The Great Wolf In The Sky (feat. Alicia Nuhro)

Letra

We had a dream, we had each other
Side by side, we were like brothers
Yet we felt our pack was leaving
The time has come for us to lead it

We had a feeling our time was up
And that the world had other plans for us
Come and pray that he keeps watching over us

Stop and listen there is hope, follow me
Just look up, open your eyes
There's a great wolf in the skies

We had a dream, like Nosferatu
We could be lovers, my hand in yours
But we forgot to draw the curtain
Sunlight burnt our final words
Come and pray that he keeps watching over us

Stop and listen there is hope, follow me
Just look up, open your eyes
There's a great wolf in the skies

Lobo, lupus, wolf, ulv, likos, varg
Lobo, lupus, wolf, ulv, likos, varg

The kingdom wolf it shall be done
Beware the Moon that eats the Sun
Lest we forget to say our prayers
They will be our final chaos

Lobo, lupus, wolf, ulv, likos, varg
Lobo, lupus, wolf, ulv, likos, varg

A canção "The Great Wolf In The Sky" assume-se como um dos principais destaques de Far From God, o 13º álbum de estúdio dos portugueses Moonspell, lançado em julho de 2026. Esta faixa une a bagagem histórica da banda da Amadora, a mais icónica do metal nacional português, a uma colaboração profunda com Alicia Nurho, prestigiada violinista, compositora e arranjadora espanhola radicada em Madrid, conhecida pelo seu trabalho com outros grandes nomes do rock gótico e metal, como os Paradise Lost.

Musicalmente, o tema ergue-se como um hino de Gothic Metal Melódico e Sinfónico. A sua estrutura assenta em teclados expansivos e nas guitarras harmonizadas que caracterizam a sonoridade clássica do grupo, enquanto os arranjos de cordas de Alicia Nurho infundem uma atmosfera clássica, melancólica e cinematográfica. Numa progressão gradual, o teclado chega mesmo a mimetizar o uivar de um lobo, culminando num refrão libertador.

Segundo o vocalista e letrista Fernando Ribeiro, a composição carrega múltiplos significados emocionais. O próprio título é uma referência direta ao clássico "The Great Gig in the Sky" dos Pink Floyd. Ao mesmo tempo, a faixa assinala o regresso ao tema dos lobos - pilar da identidade da banda , funcionando como uma metáfora sobre a própria jornada dos Moonspell e de todos os membros, amigos e parceiros que cruzaram o seu caminho e que, por força da vida ou da morte, deixaram a "alcateia". Ao estabelecer uma ponte temporal entre o passado, o presente e o futuro do grupo, a música carrega ainda uma forte componente de luto, tendo sido expressamente dedicada a um fã e amigo próximo que faleceu antes do lançamento do disco.

Esta carga emocional reflete-se no respetivo vídeo promocional, que assume a forma de uma alegoria visual sobre as últimas despedidas. O teledisco explora a linha ténue onde o amor se cruza com a perda, retratando o sentimento agridoce de aprender a "deixar ir", a cortar amarras e a aceitar o fim de um ciclo, num casamento perfeito entre o classicismo trágico e a estética sombria do metal gótico.

No plano conceptual e lírico, a faixa bebe do existencialismo e do romantismo sombrio que marcam a escrita de Fernando Ribeiro. O tema do vampirismo surge vincado na citação direta a "Nosferatu" ("We had a dream, like Nosferatu..."), numa alusão ao terror clássico e ao expressionismo alemão onde o sol queima as palavras finais de amantes que esqueceram de fechar as cortinas. A nível mitológico e filosófico, o refrão repetitivo ("Lobo, lupus, wolf, likos, varg") atua como um mantra pagão que eleva o lobo a um arquétipo do outsider, da resiliência e da lealdade comunitária perante a adversidade. Finalmente, a canção abraça a inevitabilidade do fim e a efemeridade do tempo através de versos como "Beware the moon that eats the sun / Lest we forget to say our prayers", aceitando o caos final como parte de um ciclo cósmico e oferecendo, ao olhar para o céu, um vislumbre de esperança e libertação.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

O 'bicho-de-sete-cabeças' que não é: como uma loja online unificada salvaria os museus públicos

Pelo que conheço de e-commerce, pôr de pé uma loja online que junte o espólio de mais de 30 museus e monumentos nacionais não é bicho-de-sete-cabeças, mas exige dividir os custos em dois momentos: o arranque e o dia a dia.

Para começar, o desenvolvimento do site - que tem de ser robusto para cruzar os stocks de museus diferentes -, a fotografia profissional das réplicas e livros, e a integração com sistemas de pagamento (como o MB Way, ou melhor ainda um agregador, como a Stripe ou a Adyen) e faturação ficaria entre os 21.500 € e os 43.000 €. É um investimento feito apenas uma vez.

O verdadeiro desafio está no que vem a seguir. Manter a loja viva e a faturar custaria entre 30.000 € e 61.000 € por ano. Este valor serve para pagar os servidores, o marketing digital (essencial para que os turistas saibam que a loja existe) e, acima de tudo, a logística: alguém tem de estar num armazém central a embalar as peças com cuidado e a despachar as encomendas.

Pode parecer muito dinheiro para a realidade da nossa cultura, mas as contas fazem-se depressa. Se cada cliente gastar, em média, 40 € (o preço de um catálogo e de uma lembrança), a loja só precisa de fazer 6 ou 7 vendas por dia para pagar todas as suas despesas e começar a dar lucro. Para os milhões de visitantes que os museus portugueses recebem todos os anos, isto é uma gota no oceano.

Fica claro que o problema nunca foi o preço da tecnologia, mas sim a falta de vontade política para gerir a nossa Cultura com uma visão sustentável, estratégica e promoção da Língua Portuguesa 
(P.S. sem nacionalismos ou ideologias) 

Ironia: a pretensa loja até existe, mas actualmente é um cemitério, desde 2012! . O que aconteceu? O dinheiro público foi gasto, mas as plataformas exigem manutenção contínua, interação constante entre as autarquias e a logística e como concluí, não há uma visão estratégica da Cultura Portuguesa além-fronteiras.

Neste aspecto (lojas virtuais de museus) não somos Franceses, Alemães, Holandeses nem os Países Nórdicos.

De Serralves à Vista Alegre: O sucesso das lojas digitais que o setor público devia imitar
As fundações privadas em Portugal estão, na verdade, bastante mais avançadas na transição digital do que o setor público. Como têm maior autonomia de gestão, orçamentos focados na internacionalização e processos de decisão mais ágeis, conseguiram criar plataformas de comércio eletrónico muito completas e intuitivas, que funcionam quase como montras de design e cultura.

Um dos melhores exemplos nacionais é a Loja de Serralves, no Porto, que se posiciona hoje como uma verdadeira concept store de arte contemporânea. No seu site, além de uma vasta livraria especializada em arte e arquitetura, é possível adquirir edições limitadas e numeradas de artistas consagrados, peças de decoração exclusivas, acessórios de moda desenhados por criadores portugueses e brinquedos didáticos de design premiado. Na mesma linha de excelência, as Lojas da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, dividem-se entre o catálogo do museu clássico e o do recém-renovado Centro de Arte Moderna (CAM). O seu espaço online destaca-se pela impressionante oferta de catálogos de exposições e ensaios históricos, mas também por peças de joalharia fina inspiradas na famosa coleção de René Lalique e por reproduções de azulejaria artística desenvolvidas em parcerias com galerias nacionais.

Para quem procura um nicho mais histórico e aristocrático, a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna disponibiliza na sua loja virtual os "Cadernos da Fundação" - que reúnem investigações sobre o património barroco e a literatura dos séculos XVII e XVIII - , além de peças de azulejaria e produtos exclusivos inspirados na iconografia do próprio Palácio Fronteira. Por fim, num cruzamento perfeito entre a arte, a indústria e a preservação histórica, a Fundação Vista Alegre desempenha um papel crucial ao disponibilizar online réplicas exatas de peças de porcelana do século XIX, retiradas diretamente do espólio do seu museu histórico, bem como edições limitadas produzidas em colaboração com artistas contemporâneos globais.

A grande vantagem destas plataformas, além da óbvia comodidade de receber as peças em casa, é que muitas oferecem descontos de liquidação em livros e catálogos antigos que já não se encontram no mercado comum. Acima de tudo, comprar nestes canais digitais é uma forma direta de apoiar a sustentabilidade da cultura em Portugal, uma vez que a receita destas vendas reverte inteiramente para a manutenção do património, restauro de peças e financiamento de novas exposições e bolsas artísticas. 

Sim, os bilhetes normais são caros e proibitivos para o dia a dia. Mas conhecendo os dias específicos, podemos usufruir do melhor que estas fundações privadas têm para oferecer com o mesmo custo do programa Acesso 52 dos museus públicos: zero euros.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Apagar Portugal da Língua Portuguesa: a nova utopia ideológica


A Língua Portuguesa não necessita de pedir licença para existir, nem de ser rebaptizada ao sabor das modas ideológicas contemporâneas. É uma das grandes línguas de cultura da Humanidade, formada ao longo de séculos de História, literatura, diplomacia, ciência e expansão civilizacional. Muito antes de certas tertúlias “descoloniais” descobrirem o prazer semântico da autoflagelação civilizacional, já o Português era veículo de pensamento, administração, poesia, comércio e universalidade.
Recentemente, José Eduardo Agualusa, no lançamento do livro “Tudo sobre Deus”, durante o festival Remexe Rio, resolveu brindar o público com uma reflexão sobre “As aventuras das Línguas Portuguesas”, no plural. Estava dado o mote para mais um exercício contemporâneo de revisionismo linguístico, esse desporto intelectual tão apreciado por sectores que parecem sentir vergonha da própria matriz civilizacional que lhes permite, precisamente, publicar livros, viajar pelo mundo e discursar em festivais internacionais.
Com uma prosa sentimental e algo piegas, o escritor propôs que a Língua Portuguesa deixasse de ser Portuguesa para passar a chamar-se “Língua Geral”, por considerar que o idioma teria deixado de ser “colonial, de opressão, de exploração e de domínio”, tornando-se antes um “território de encontros e afectos”. Curiosa formulação. Sobretudo porque a esmagadora maioria das línguas globais nasceu, expandiu-se ou consolidou-se através de impérios, migrações, guerras, alianças comerciais e influências culturais. O Inglês não se disseminou pelo mundo graças a festivais de poesia pacifista, o Castelhano não chegou à América por intercâmbio académico, e o Francês não adquiriu estatuto diplomático universal por mera simpatia gastronómica.
Percebe-se perfeitamente que o gigantesco mercado editorial Brasileiro constitua, na imaginação do escritor, um palco particularmente apetecível para este tipo de discurso ideologicamente alinhado com as tendências culturais da actualidade, podendo daí colher apreciáveis dividendos mediáticos e editoriais. Todavia, uma coisa parece garantida: tal estratégia dificilmente assegurará o respeito intelectual das pessoas verdadeiramente sérias, sobretudo das que conhecem minimamente a História, a formação e a projecção universal da Língua Portuguesa.
Mais curioso ainda é verificar que o próprio Agualusa beneficiou amplamente do espaço cultural Português e europeu. Estudou no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa, recebeu bolsas literárias em Portugal, além de apoios de instituições Holandesas e Alemãs. Nada de escandaloso nisso — pelo contrário. O problema surge quando se tenta transformar a língua que proporcionou essa projecção internacional numa espécie de entidade abstracta, órfã da sua origem histórica e civilizacional. Como se o Português tivesse nascido espontaneamente numa assembleia multicultural sob os auspícios da ONU de Guterres.
Aliás, se a lógica defendida por Agualusa fosse levada às últimas consequências, talvez o próprio escritor devesse dar o exemplo pessoal da ruptura identitária que propõe para a Língua Portuguesa. Poderia começar por abandonar o nome “José Eduardo”, de matriz claramente Ibérica e Cristã, substituindo-o por algo considerado culturalmente mais “descolonizado”. Talvez “Malungo”, em referência Angolana; “Omar”, de influência Árabe; ou “Caíque”, de origem Guarani. Quanto ao apelido “Agualusa”, igualmente integrado na tradição onomástica de expressão Portuguesa, poderia igualmente ser adaptado a uma fórmula mais consentânea com essa nova utopia linguística sem raízes nem origem definida. O problema destas teorias não reside no reconhecimento legítimo das influências culturais múltiplas — isso sempre existiu e constitui riqueza civilizacional —, mas na tentativa algo caricatural de apagar deliberadamente a matriz histórica fundadora da Língua Portuguesa, como se reconhecer a origem de uma língua fosse automaticamente um acto de opressão. Curiosamente, ninguém exige ao Inglês que deixe de se chamar Inglês por possuir vocábulos Normandos, Latinos, Germânicos ou Hindustânicos. Só ao Português parece exigir-se o estranho ritual contemporâneo da autoflagelação identitária permanente.
Importa, pois, recordar alguns factos elementares que parecem causar incómodo a certos pregadores da nova ortodoxia linguística. O Português deriva do Latim vulgar há cerca de dois mil anos e possui um substrato Céltico-Lusitano ligado aos Galaicos, Lusitanos, Célticos e Cónios. Com o colapso do Império Romano e a presença de povos Germânicos e Iranianos ou Eslavos — Suevos, Vândalos, Búrios, Alanos e Visigodos — consolidou-se o Proto-Galego-Português. Ou seja, o Português não nasceu em Luanda, no Rio de Janeiro ou numa conferência pós-colonial; nasceu na faixa ocidental da Península Ibérica, desenvolveu-se historicamente em Portugal e daí irradiou para o mundo.
E irradiou de forma extraordinária. Nos séculos XV e XVI, Portugal construiu um império marítimo e comercial que levou o Português a África, à Ásia e à América. O idioma tornou-se língua diplomática, comercial e administrativa em vastíssimas regiões do globo. Foi língua franca no Oriente, serviu de meio de comunicação entre povos asiáticos, africanos e europeus, e chegou a ser idioma dominante no Sri Lanka durante séculos. Dessa expansão nasceram crioulos, variantes regionais e influências recíprocas. Exactamente como aconteceu com todas as grandes línguas universais da História.
Mas há um detalhe frequentemente omitido pelos entusiastas da desconstrução identitária: a Língua Portuguesa continua, ainda hoje, a desempenhar uma função civilizacional indispensável, sobretudo em África. Em numerosos países africanos coexistem centenas de dialectos e línguas locais sem intercompreensão mútua. Sem o Português, a comunicação administrativa, jurídica, educativa e até nacional tornar-se-ia caótica. O Português funciona como elemento agregador, instrumento de unidade nacional e ponte internacional. Ironia das ironias: a língua tantas vezes denunciada como “opressora” é precisamente a que permite a comunicação entre comunidades que, de outro modo, permaneceriam linguisticamente fragmentadas.
Também em Timor-Leste o Português teve um papel político fundamental. Durante a ocupação da Indonésia, a preservação da Língua Portuguesa tornou-se símbolo de resistência nacional e afirmação identitária. O idioma funcionou como elo diplomático com o exterior e como marca distintiva face ao ocupante. Estranho instrumento de “opressão colonial”, este, que serviu de bandeira cultural na luta pela independência.
A relevância literária da Língua Portuguesa é igualmente incontestável. Obras como “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, elevaram o idioma ao patamar das grandes línguas clássicas europeias. Mais tarde, autores como Fernando Pessoa, José Saramago, Machado de Assis ou Mia Couto demonstraram a extraordinária capacidade do Português para exprimir pensamento filosófico, ironia, lirismo, crítica social e universalidade humana.
No plano diplomático e político, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa constitui hoje um espaço estratégico de cooperação internacional. O Português é uma das línguas mais faladas do mundo e possui crescente relevância geopolítica. Não obstante isso, há sempre quem considere mais urgente problematizar o nome da língua do que promover efectivamente o seu ensino, a sua difusão científica ou a sua valorização cultural.
No domínio científico, o Português continua a ser instrumento de produção e transmissão de conhecimento em universidades, centros de investigação e instituições académicas espalhadas por vários continentes. Apesar do predomínio internacional do inglês, o Português mantém uma função essencial na democratização do acesso ao saber e na formação de milhões de pessoas.
A verdade é simples, embora aparentemente incómoda para certos círculos intelectuais: o Português não precisa de ser desculpado pela História para justificar a sua existência. Nenhuma grande língua do mundo possui um passado asséptico, neutro ou angelical. As línguas são produtos da História da Humanidade — e a História da Humanidade raramente se escreveu com pétalas de rosa e declarações de boas intenções.
Assim, a Língua Portuguesa permanece aquilo que sempre foi: uma língua de cultura, de civilização, de universalidade e de futuro. Uma língua viva, plural e global, suficientemente forte para acolher influências externas sem perder identidade própria. E talvez seja precisamente essa solidez histórica que incomoda aqueles que gostariam de transformar tudo quanto herdámos numa vaga amálgama sem memória, sem origem e, de preferência, sem maiúsculas.
Sem Portugal não existiria Língua Portuguesa — apenas silêncio histórico!

João Micael
Presidente
Matriz Portuguesa – Associação para o Desenvolvimento da Cultura e do Conhecimento

domingo, 24 de maio de 2026

Homem, corço, prado: a mesma pele

Corço, fotografado em Groningen, Holanda
Entro nas canas altas e húmidas do mundo,
E sinto-me contido numa pele maior.
A terra húmida respira sob os meus pés,
Um pulmão antigo que exala verde, selvagem e vasto.

Este é o trabalho que reconecta -
Permanecer imóvel até que a fronteira entre o solo e o ser
Se dissolva como o nevoeiro da manhã.

Ali, no meio da planície vibrante,
Ergue-se uma sentinela silenciosa, um corço esculpido de sol e sombra.
Ele é um nativo desta hora, perfeitamente em casa,
Sem nada pedir ao Estado, sem pagar impostos ao vento,
Vivendo deliberadamente na erva profunda,
Um pequeno e silencioso templo de solidão com quatro patas e uma coroa de osso.

Ele olha para mim e, no seu olhar, os séculos sossegam.
Eu vejo-te, irmão! Celebro-te e canto-me a mim mesmo!
Não és uma coisa separada, nenhum estranho num campo distante,
Mas o próprio sangue do cosmos a saltar a vala.

Os mesmos átomos que moldam o teu olho firme e escuro
Vagueiam pela erva, pelos telhados de colmo, pelas nuvens cinzentas e pesadas,
E pelo coração que bate dentro do meu próprio peito.

Cada folha de erva é uma obra-prima das estrelas,
E tu és a sua obra de arte esta noite.

Permanecemos suspensos - o corço, o prado e eu -
Enraizados na grande teia em movimento de todas as nossas relações,
Vivos, despertos e infinitamente livres.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Armando Alves (1935-2026), um dos criadores do design moderno em Portugal


Armando Alves, um dos integrantes do famoso Grupo Os Quatro Vintes, a partir do qual se dedicou a renovar e a modernizar o design gráfico português, morreu esta terça-feira no Porto, cidade onde fez praticamente toda a sua carreira, deixando um notável legado como docente e praticante das artes gráficas. A notícia foi avançada por Miguel Carvalhais, director da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto (FBAUP), instituição onde Armando Alves se formou e onde leccionou durante anos.

Nascido em Estremoz, em 1935, Armando José Ruivo Alves iniciou a sua formação artística na Escola de Artes Decorativas António Arroio e prosseguiu estudos de Pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP), onde concluiu o curso em 1962 com a classificação máxima de vinte valores.

Após a licenciatura, integrou o corpo docente da ESBAP como Professor Assistente, sendo pioneiro na introdução do ensino das Artes Gráficas. Em 1963, foi um dos fundadores da Cooperativa Árvore, estrutura fundamental na promoção das artes plásticas em Portugal.

Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, viajou por vários países europeus nos anos 60, iniciando então a sua atividade expositiva individual. Em 1968, juntamente com Ângelo de Sousa, José Rodrigues e Jorge Pinheiro, fundou o grupo Os Quatro Vintes, que expôs em cidades como Porto, Lisboa e Paris até ao final da década de 1970.

A partir de 1973, dedicou-se integralmente às Artes Gráficas, área em que se afirmou como pioneiro e referência nacional. No seu atelier, situado na Rua Brito Capelo, desenvolveu uma vasta produção que incluiu direção gráfica de obras literárias, cartazes culturais e publicitários, bem como materiais para eventos diversos.

Armando Alves esteve também ligado ao Lugar do Desenho - Fundação Júlio Resende, desde a sua criação em 1993, participando em exposições internacionais entre 1997 e 1999, nomeadamente no Brasil, Chile, Cabo Verde e Moçambique.

Enquanto ilustrador, artista gráfico, desenhador e pintor - com uma evolução do neorrealismo para o abstracionismo - desempenhou ainda funções como consultor artístico e curador. A sua obra integra coleções de várias instituições, como a Câmara Municipal de Matosinhos e o Museu Nacional Soares dos Reis.

Ao longo da sua carreira, foi distinguido com diversos prémios e reconhecimentos, destacando-se a condecoração com o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito, atribuída pelo então Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, nas comemorações do 10 de Junho de 2006, realizadas na Alfândega do Porto.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Dia Internacional da Língua Materna


Celebrado anualmente em 21 de fevereiro, o Dia Mundial da Língua Materna é muito mais do que uma data no calendário; é um lembrete de que o idioma que aprendemos no colo dos nossos pais é a base da nossa identidade, cultura e forma de ver o mundo.

A data foi proclamada pela UNESCO em 1999 e oficializada pela ONU em 2002.

Sabia que? O idioma Ubykh (Turquia), extinto em 1992, tinha um dos sistemas sonoros mais complexos do mundo. Com a sua morte, sons que o ser humano era capaz de produzir perderam-se para sempre na prática quotidiana.

O desaparecimento acelerado de idiomas no século XXI representa uma das maiores crises de património imaterial da humanidade. Segundo o relatório Ethnologue (2025/2026), aproximadamente 40% das 7.168 línguas catalogadas no mundo estão em risco de extinção, um fenómeno impulsionado pela globalização económica e pela hegemonia de idiomas transnacionais. O World Atlas of Languages da UNESCO (2025) reforça que esta perda não é meramente vocabular, mas sim a erosão de sistemas de conhecimento ecológico, histórico e espiritual únicos. No contexto da Década Internacional das Línguas Indígenas (2022-2032), o foco global deslocou-se da simples documentação passiva para a revitalização ativa, onde o uso da língua materna na educação básica é apontado como o fator determinante para a sobrevivência de uma cultura.
A tecnologia tem desempenhado um papel ambivalente neste cenário. Se, por um lado, o mundo digital exclui línguas sem representação escrita ou técnica, por outro, surgem ferramentas inovadoras de salvaguarda. Projetos como o Woolaroo, do Google Arts & Culture, utilizam inteligência artificial para identificar objetos através da câmara e traduzi-los instantaneamente para idiomas ameaçados, como o Ibibio ou o Maia, criando uma ponte visual para as novas gerações. Outras plataformas, como o Indigenous Languages Digital Archive (ILDA) e a aplicação FirstVoices, permitem que comunidades isoladas criem os seus próprios dicionários de áudio e jogos educativos, garantindo que a fonética correta seja preservada mesmo quando o número de falantes nativos é reduzido.
A nível bibliográfico, os estudos de Crystal (2000) em Language Death continuam a ser a base teórica para compreender porque é que as línguas morrem, mas são os relatórios anuais da UNESCO (2024, 2025) que traçam o mapa atualizado da urgência. Estes documentos sublinham que a "morte" de uma língua ocorre habitualmente em três gerações: quando os avós a falam, os pais a entendem mas não a praticam, e os filhos a desconhecem por completo. Portanto, as ferramentas de gamificação e os arquivos digitais de livre acesso tornam-se, em 2026, as principais armas contra o silenciamento cultural, transformando dispositivos móveis em veículos de resistência linguística.

Referências e Relatórios Consultados:
Crystal, D. (2000). Language Death. Cambridge University Press.
Eberhard, D. M., Simons, G. F., & Robinson, A. J. (Eds.). (2026). Ethnologue: Languages of the World (29th ed.). 
UNESCO (2025). World Atlas of Languages: Global Status Report on Linguistic Diversity. 
United Nations (2022). Global Action Plan of the International Decade of Indigenous Languages (2022–2032).

Como estamos em Portugal, a análise do nosso território revela um contraste fascinante e preocupante entre a homogeneidade do português padrão e a resistência de pequenos enclaves linguísticos que lutam pela sobrevivência em 2026.

O Caso do Noroeste e Nordeste de Portugal
No interior de Portugal, a erosão linguística está diretamente ligada à desertificação humana. O Mirandês, a única língua regional oficialmente reconhecida (Lei n.º 7/99), entrou num período crítico. Segundo os relatórios mais recentes de monitorização da Associação de Língua e Cultura Mirandesa (ALCM) e estudos da Universidade de Coimbra (2025), o número de falantes nativos fluentes desceu para menos de 5.000 pessoas. Embora o Mirandês seja ensinado nas escolas de Miranda do Douro, o desafio em 2026 é a "interrupção da transmissão geracional": os avós falam, mas os jovens, embora o entendam, optam pelo português no ambiente digital e social.

Mais a sul, na zona de Castelo Branco e Alentejo, temos casos de micro-línguas ou dialetos em estado terminal:

Minderico (Minde): Originalmente uma gíria de comerciantes (piação), evoluiu para uma língua complexa. Hoje, é classificada pela UNESCO como "criticamente em perigo", restando apenas algumas dezenas de falantes que dominam o léxico completo.

Barranquenho (Barrancos): Situado na fronteira, este idioma funde elementos do português e do espanhol (extremenho e andaluz). Em 2021, foi reconhecido como património cultural, mas a pressão dos meios de comunicação de massa em português padrão continua a diluir a sua pureza fonética.

O Contraste com a Amazónia (Brasil)
Se em Portugal o risco é a assimilação cultural, na Amazónia o risco é a extinção física e territorial. O Brasil abriga cerca de 180 línguas indígenas, mas o relatório "Línguas em Trânsito" (2025) indica que a maioria delas possui menos de 1.000 falantes.

Línguas Isoladas: Grupos como os Pirahã mantêm uma língua única, sem números ou cores abstratas, que desafia as teorias linguísticas de Noam Chomsky. Contudo, a pressão do garimpo ilegal e a desflorestação forçam o contacto, o que historicamente leva à rápida substituição da língua nativa pelo português por necessidade de sobrevivência.

Resistência Digital: Em 2026, assistimos a um fenómeno inverso: o uso de redes sociais (TikTok e Instagram) por jovens indígenas (como os das etnias Guajajara ou Puyanawa) para criar conteúdos nos seus idiomas originais. Esta "re-gramatização" digital está a despertar o interesse dos adolescentes pela língua dos avós, transformando o telemóvel numa ferramenta de orgulho identitário.


Bibliografia e Documentação Específica:
Ferreira, M. B. (2024). O Mirandês no Século XXI: Entre a Escola e a Rua. Coimbra: Almedina.
Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional - IPHAN (2025). Inventário Nacional da Diversidade Linguística: Foco Amazónia.
Relatório ALCM (2026). Estado da Língua Mirandesa: Censo e Vitalidade. 
UNESCO (2025). Interactive Atlas of the World's Languages in Danger (Edição Digital 2026).
Relatório ALCM (2026). Estado da Língua Mirandesa: Censo e Vitalidade.

domingo, 18 de janeiro de 2026

A fermosura desta fresca serra


A fermosura desta fresca serra,
E a sombra dos verdes castanheiros,
O manso caminhar destes ribeiros,
Donde toda a tristeza se desterra;

O rouco som do mar, a estranha terra,
O esconder do Sol pelos outeiros,
O recolher dos gados derradeiros,
Das nuvens pelo ar a branda guerra;

Enfim, tudo o que a rara natureza
Com tanta variedade nos of’rece,
Me está se não te vejo magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;
Sem ti, perpetuamente estou passando
Nas mores alegrias, mor tristeza.

Luís Vaz de Camões, in “Sonetos

sábado, 20 de dezembro de 2025

Clarice Lispector - Estado de Graça

Santuário Cósmico
"Quem já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer. Não me refiro à inspiração, que é uma graça especial que tantas vezes acontece aos que lidam com arte. O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe. Nesse estado, além da tranquila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve porque na graça tudo é tão, tão leve. E uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não perguntem o quê, porque só posso responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.
E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma num dom. E se sente que é um dom porque se está experimentando, numa fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.
No estado de graça vê-se às vezes a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganha uma espécie de nimbo que não é imaginário: vem do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passa-se a sentir que tudo o que existe — pessoa ou coisa — respira e exala uma espécie de finíssimo resplendor de energia. A verdade do mundo é impalpável."

Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)'

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Cesária Évora and Bonnie Raitt - Crepuscular Solidro


Vento de mar
Traze me um cretcheu
Nessa tardinha
De céu nublado
Um chuva de amor
Pode faze florir
Um coração
Que modi paixão
Na patamar
Dum vida singela
Vou me encontra
Dona felicidade
Nem um olhar
Me encontra
Num multidão
Tão solitária

Já tem gente
Gente até demais
Que tá sofre
Na solidão

Já tem gente
Que tá quase tá morre
Na luz cadente
Dum crepúsculo

Já tem gente
Gente até demais
Que tá sofre
Na solidão

Já tem gente
Que tá quase tá morre
Na luz cadente
Dum crepúsculo

Vento de mar
Traze me um cretcheu
Nessa tardinha
De céu nublado
Um chuva de amor
Pode faze florir

Um coração
Que modi paixão
Na patamar
Dum vida singela
Vou me encontra
Dona felicidade
Nem um olhar
Me encontra
Num multidão
Tão solitária

Já tem gente
Gente até demais
Que tá sofre
Na solidão

Já tem gente
Que tá quase tá morre
Na luz cadente
Dum crepúsculo

Já tem gente
Gente até demais
Que tá sofre
Na solidão

Já tem gente
Que tá quase tá morre
Na luz cadente
Dum crepúsculo
Dum crepúsculo
Dum crepúsculo

Written by: Teófilo Chantre

A letra de "Crepuscular Solidão" (por vezes escrita "Solidro"), um dueto emocionante entre Cesária Évora e Bonnie Raitt, fala sobre a solidão em meio à multidão e o desejo por amor, descrevendo o vento do mar trazendo um chamado e a esperança de um coração apaixonado florescer, tudo sob um céu nublado de fim de tarde, expressando sentimentos de uma vida simples e a busca por felicidade. 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Nuno Loureiro era referência mundial em fusão nuclear e o seu trabalho poderia mudar os rumos da energia limpa


A misteriosa morte de Nuno Loureiro é uma perda enorme para o futuro e para o combate à crise climática. O português trabalhava na criação de energia limpa e redução das emissões de carbono. Tinha sido nomeado diretor do prestigiado MIT - Plasma Science and Fusion Center.

Loureiro era uma figura central na pesquisa global de fusão nuclear, área vista como uma das maiores apostas para energia limpa e abundante no futuro. Seu trabalho ajudou a avançar o entendimento sobre reconexão magnética, turbulência em plasmas e confinamento de partículas, temas críticos para viabilizar reatores de fusão como o ITER e projetos privados ligados ao MIT.

O corpo encontrado morto e baleado em casa permanece ainda uma incógnita e as fake news
Nuno Loureiro não era judeu
Nas redes sociais, logo a seguir ao trágico assassinato do cientista português Nuno Loureiro, surgiram de imediato alegações de que era judeu sugerindo alguma motivação que tivesse a ver com isso. Sabe-se agora que uma repórter foi junto do prédio onde mora a família Loureiro e verificou que estava enfeitado por ocasião da Festa das Luzes judaica (Chanucá ou Hanucá) deduzindo que fosse a dele. Não era; ele tinha vizinhos judeus, incluindo uma senhora de idade a quem por vezes ajudava a subir as escadas com as compras e que até já falou para a imprensa. Também vi a fotografia de uma janela com um letreiro de apoio a Israel, mas creio que nem era a mesmo prédio, embora na mesma rua. De qualquer forma não era o apartamento dele. Isso está tudo confirmado, incluindo por fontes americanas.
Também puseram a correr tweets de um tal Nuno Loureiro com referências ao Hamas, que não é ele, vê-se perfeitamente pela fotografia. Loureiros são aos milhares, não será difícil encontrar Nunos.
Posto isto, acabei de ver um artigo de opinião do Observador sobre o tema, assumindo investigações de Israel que já metem o Irão e tudo. Também vi contas israelitas e iranianas a citarem a pseudo- origem judaica desta mente brilhante que, tragicamente, se perdeu. Ou seja, uma reportagem com informações falsas deu origem a um sem fim de desenvolvimentos sem sentido. Entretanto, quer amigos próximos de Nuno Loureiro, quer colegas do MIT desmentiram quer a origem judaica quer que tenha emitido qualquer opinião pública sobre Israel ou Palestina.
As causas do horroroso assassinato são, até ao momento desconhecidas, mas há uma certeza: por ser judeu (ou militante pró-Israel) é que não foi e a sua esposa é Portuguesa. Por favor, não escrevam disparates nos jornais! Nuno Loureiro deixa mulher e três filhas, segundo notícia logo no 1.° dia, a mais nova terá assistido a tudo

Comoção internacional e impacto no meio científico
A morte de Nuno Loureiro repercutiu rapidamente entre pesquisadores, universidades e instituições científicas. Além de diretor, ele era visto como um articulador de ideias e projetos que buscavam avançar a compreensão da fusão nuclear, uma das grandes apostas para a transição energética do planeta.

A sua ausência deixa um vazio não apenas administrativo, mas intelectual. Projetos em andamento, colaborações internacionais e formações de novos pesquisadores perdem uma liderança considerada fundamental.

Um legado que ultrapassa fronteiras
Mais do que cargos ou títulos, o legado de Nuno Loureiro está ligado à construção de conhecimento em uma área decisiva para o futuro da humanidade. A fusão nuclear, estudada por ele ao longo de décadas, representa a promessa de uma fonte de energia limpa, segura e sustentável.

No meio da tragédia, permanece o impacto de sua contribuição científica, que continuará presente em pesquisas, artigos e na formação de novas gerações de físicos ao redor do mundo.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Hilda Hirst


Dez chamamentos ao Amigo
"Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.

E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo

Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento." ~ Hilda Hirst

Foto minha.

domingo, 16 de novembro de 2025

Miguel Real - A Morte de Portugal

Um livro muito interessante e peculiar e actual. Já é de 2007. Mas recuperei a leitura e identifico-me com este ensaio. Este pequeno ensaio diligencia desenhar os quatro complexos culturais por que Portugal se foi concebendo a si próprio ao longo de 800 anos de História: ora um país gerado exemplarmente no mais remoto dos tempos e contra as mais difíceis circunstâncias (Viriato); ora um país que, durante e após os Descobrimentos, se vê a si próprio como nação superior às demais, sintetizada na majestática arquitectónica do Quinto Império de padre António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva; ora um país que, fracassado o sonho grandiloquente do Império, se lastima e se penitencia, considerando-se nação inferior, passível de máxima humilhação (Marquês de Pombal); ora, finalmente, país mesquinho, venenoso e bárbaro, permanentemente ansioso de purificação ortodoxa, no qual cada corrente política e intelectual tem sobrevivido da canibalização das correntes adversárias, negando-as e humilhando-as. Por efeito do ambiente educacional e social, cada português percorre na sua vida, recorrente e ciclicamente, estas quatro figurações da sua história e da sua cultura.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Encontros Improváveis - Carlos Drummond de Andrade e Olga Kvasha

Olga Kvasha (pintora Ucraniana, nascida em 1976)
A Palavra Mágica

"Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.

Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.

Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra."

Carlos Drummond de Andrade

Leituras importantes:
  1. O Chega e o Ódio
  2. Não há Raças: A Unidade Biológica da Humanidade
  3. Desconstruindo a ideia de "povo lusitano", ou "povo português luso" em detrimento dos "imigrantes"

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Mia Couto - O "Pensajeiro"


Humilde e encantador "Pensageiro" Mia Couto. 
O poeta observa a realidade do seu povo e percebe as desigualdades, como a falta de acesso à leitura e à educação. As suas viagens inspiram-nos a ser melhores e mais humanistas. Não só poesia e Moçambique, mas também uma consciência sobre as dificuldades das pessoas em geral e sobre a importância do conhecimento. E respeito pelas outras culturas. E línguas. E a oralidade.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Israelitas concentram 40% das nacionalidades adquiridas em 2023

Das 41.393 pessoas que receberam passaporte português em 2023, os mais representados foram os Israelitas, com 16.377 cidadãos a adquirirem nacionalidade. Estes 40% de israelitas naturalizados são descendentes de judeus sefarditas. Esta informação consta nos últimos dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

Do número total de estrangeiros naturalizados em 2023, 24.408 não vivem no país, ou seja, 60% dos cidadãos estrangeiros que adquiriram a nacionalidade portuguesa vivem fora de Portugal.

Os dados divulgados pelo INE revelam também que apenas um quarto de todas as nacionalidades adquiridas foi concedida a estrangeiros que residiam em Portugal há pelo menos seis anos. Destes, 30% são de países de língua portuguesa, como Brasil e Cabo Verde, com uma grande representação de ucranianos e nepaleses no número total de casos.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Agostinho da Silva


"Temos, sobretudo, de aprender duas coisas: aprender o extraordinário que é o mundo e aprender a ser bastante largo por dentro, para o mundo todo poder entrar"

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Dulce Pontes - Na Língua Das Canções



Não te posso amar
Sem te perguntar
Se já foste rio
Se és irmão das areias e das conchas e dos peixes e do mar
Sou irmã do vento
O meu pensamento
Só se faz canção
Ao sentir-se irmão
Do que quer cantar

Ao olhar pra ti
Sei que te escolhi
Porque foste rio
Dei as mãos aos abraços e a boca aos beijos que eu ousei sonhar
Sou irmã de tudo, amor
O meu canto é mudo, amor
Se eu não conseguir
Chorar e sorrir
Sempre que cantar

Mas eis que o coração
Se torna transparente
Eis que o coração
Abriga os temporais que nascem no mar
E tudo é ser capaz de traduzir na língua das canções
Na minha voz
Na tua voz
O som da água a passar

Sem te perguntar
Se já foste rio
Se és irmão das areias e das conchas e dos peixes e do mar
Sou irmã do vento, amor
O meu pensamento, amor
Só se faz canção
Ao sentir-se irmão
Do que quer cantar

A música 'Na Língua das Canções' de Dulce Pontes é uma ode à conexão profunda entre o ser humano e a natureza, bem como à capacidade de expressar emoções através da música. A letra começa com a cantora questionando se a pessoa amada já foi um rio, simbolizando a fluidez e a transformação. Ela se identifica como irmã do vento, sugerindo uma ligação íntima com os elementos naturais e a liberdade que eles representam. A ideia de que o pensamento só se torna canção ao sentir-se irmão do que quer cantar reforça a necessidade de uma conexão genuína e profunda para a verdadeira expressão artística.

Ao longo da música, Dulce Pontes explora a escolha do amor e a reciprocidade emocional. Ela menciona que escolheu a pessoa amada porque esta já foi um rio, o que pode ser interpretado como uma escolha baseada na capacidade de transformação e adaptação. A cantora também fala sobre a importância de sentir e expressar emoções, afirmando que seu canto se torna mudo se ela não conseguir chorar e sorrir ao cantar. Isso destaca a autenticidade emocional como um componente essencial da arte e da vida.

A metáfora do coração que se torna transparente e abriga os temporais que nascem no mar sugere uma vulnerabilidade e uma abertura para as emoções intensas. A música conclui com a ideia de traduzir essas emoções na língua das canções, utilizando a voz como um meio de comunicação universal. A repetição de elementos naturais como o rio, o vento e o mar ao longo da letra reforça a ideia de que a natureza e as emoções humanas estão intrinsecamente ligadas, e que a música é uma forma poderosa de expressar essa conexão.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Teresa Torga - uma mulher na Revolução


Uma mulher decidiu despir-se e dançar no cruzamento das avenidas Miguel Bombarda e 5 de Outubro, em Lisboa. Eram quatro da tarde, corria o ano de 1975 e o país fervia na liberdade recém-conquistada. O gesto deu origem a uma crónica do jornalista Rogério Rodrigues no Diário de Lisboa e, mais tarde, a uma canção de José Afonso. 

Alan Romero 
"A letra fala da triste história de uma artista decadente que, numa atitude tresloucada, dançava nua em plena tarde numa avenida lisboeta. A cena inusitada atraiu a atenção de um repórter que, no entanto, não conseguiu fotografá-la devido aos protestos dos transeuntes, revoltados com o que consideraram uma exploração degradante. Entretanto a canção tornou-se um clássico da luta pelos direitos da mulher em Portugal. Só em 2006 o texto original foi dado a público, através do livro "Os loucos dias do PREC", de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira. A notícia, publicada originalmente no Diário de Lisboa, confirmava o conteúdo da canção e dava mais pistas: ela tinha sido fadista, atriz de teatro de revista e vivido durante algum tempo no Brasil. Reportava também a sua condição de paciente de um conhecido hospício. Recentemente, o blog português "Rua dos dias que voam" localizou uma entrevista de Teresa Torga na extinta revista Plateia. 
Ela fala dos sete anos em que morou no Rio de Janeiro, tendo trabalhado com Maria Della Costa, Costinha e outros grandes nomes do teatro e da televisão. A musa de Zeca Afonso mostrava sua face: a matéria é ilustrada com duas fotos, as únicas conhecidas da artista. Mas o que mais despertou a minha curiosidade foi a referência a um disco que ela teria gravado com as canções "De degrau em degrau" e "Rua sem luz". 
Imediatamente mergulhei no Google em busca dessas gravações. Revirei a internet de ponta a ponta até que localizei essa raridade no acervo da Discoteca Oneyda Alvarenga! Trata-se de uma edição do selo Chantecler, de 1962, talvez a única cópia existente, preservada graças a esta instituição. Teresa Torga aos poucos vai saindo da bruma do esquecimento. De suposta personagem ficcional passou a ter existência documentada. Depois viu-se-lhe o rosto. E agora ganha voz! A Associação José Afonso agradece à Discoteca Oneyda Alvarenga a oportunidade única concedida aos fãs do Zeca de poderem ouvir tão preciosos áudios.


No centro da Avenida 
No cruzamento da rua 
As quatro em ponto perdida 
Dançava uma mulher nua 

A gente que via a cena 
Correu para junto dela 
No intuito de vesti-la 
Mas surge António Capela 

Que aproveitando a barbuda 
Só pensa em fotografá-la 
Mulher na democracia 
Não é biombo de sala 

Dizem que se chama Teresa 
Seu nome e Teresa Torga 
Muda o pick-up em Benfica 
Atura a malta da borga 

Aluga quartos de casa 
Mas já foi primeira estrela 
Agora é modelo à força 
Que o diga António Capela 

T'resa Torga T'resa Torga 
Vencida numa fornalha 
Não há bandeira sem luta 
Não há luta sem batalha