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terça-feira, 28 de julho de 2026

Por que razão Taiwan é o coração da IA mundial e o ponto mais crítico da geopolítica global?


Quando se fala na revolução da Inteligência Artificial (IA), a atenção recai habitualmente sobre os grandes algoritmos desenvolvidos em Silicon Valley, os supercomputadores de Elon Musk ou os apoios estatais em Pequim. Contudo, toda a arquitetura da economia digital moderna assenta fisicamente sobre uma ilha no Pacífico com cerca de 36 mil quilómetros quadrados: Taiwan.

A relevância de Taiwan ultrapassou a esfera do comércio tradicional para se converter no centro de gravidade da segurança nacional global, da transição energética e do futuro da computação.

O Monopólio da TSMC e o "Escudo de Silício"
Nvidia desenha os processadores gráficos (GPUs) mais potentes do mundo e empresas como a xAI, a Meta e a OpenAI desenvolvem os modelos de IA, mas nenhuma destas entidades fabrica os seus próprios chips.

A produção física de mais de 90% dos semicondutores de ponta do planeta está concentrada numa única empresa taiwanesa: a TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company).

Fundada em 1987 por Morris Chang, a TSMC popularizou o modelo de "fundição pura" (pure-play foundry), optando por fabricar os componentes concebidos por terceiros sem competir com eles no design. Esta especialização permitiu à empresa dominar as técnicas de litografia mais avançadas do mundo (nodos de 3nm e 2nm). Sem a precisão atómica das fábricas (fabs) em Hsinchu e Tainan, a produção de novos servidores de IA, processadores para smartphones e sistemas de navegação avançados pararia quase instantaneamente a nível global.

Esta concentração extrema deu origem ao conceito de "Escudo de Silício" (Silicon Shield): a teoria de que a dependência vital do Ocidente e da China em relação aos chips taiwaneses impede uma intervenção militar direta, uma vez que a destruição ou paralisação das infraestruturas da TSMC desencadearia um colapso económico global imediato.

O ponto de falha único na Guerra Fria Tecnológica
A posição geográfica e industrial de Taiwan transformou a ilha no principal ponto de fricção entre as duas maiores potências do mundo:
  1. A perspectiva dos EUA: em Washington, a dependência excessiva em relação à TSMC é encarada como o maior risco estratégico de segurança nacional. As administrações americanas têm pressionado a TSMC a diversificar a produção - construindo fábricas no Arizona e na Europa - enquanto impõem controlos de exportação para impedir que semicondutores avançados produzidos em Taiwan cheguem à China.
  2. A perspectiva da China: Pequim considera Taiwan uma província rebelde e defende a "reunificação" como prioridade nacional. Contudo, as sanções americanas que proíbem a venda de chips da Nvidia fabricados em Taiwan para o mercado chinês aceleraram a corrida de Pequim pela autossuficiência tecnológica, levando laboratórios chineses a apostar fortemente em modelos de IA de código aberto (open weights) para otimizar o hardware de que dispõem localmente.
O Impacto na economia real e na sustentabilidade
A relevância de Taiwan não se esgota no setor da defesa ou da tecnologia pura. Estudos de mercado sobre a transição sustentável - como as análises da Boston Consulting Group (BCG) em parceria com a Temasek - indicam que centenas de milhares de milhões de euros em ganhos de produtividade futura virão da aplicação de IA em redes elétricas inteligentes, manutenção preditiva e otimização industrial.

Toda esta transformação na economia real depende do fornecimento contínuo de novos chips. Caso a cadeia de abastecimento em Taiwan seja interrompida por um bloqueio naval ou conflito armado, os custos para a economia mundial seriam contados em biliões de dólares, afetando desde a produção automóvel à gestão energética global.

Referências Bibliográficas e Análises de Referência
Para aprofundar a análise sobre a centralidade de Taiwan no ecossistema global de semicondutores e geopolítica, destacam-se as seguintes obras e relatórios essenciais:

A obra de referência sobre a história da indústria dos semicondutores, detalhando como a TSMC e Taiwan se tornaram o ponto mais crítico da economia moderna.

2. Center for Strategic and International Studies (2024). Geopolitics and the Semiconductor Supply Chain. CSIS.
Análises estratégicas sobre o impacto de uma potencial crise no Estreito de Taiwan e a vulnerabilidade da infraestrutura tecnológica ocidental.

3. Boston Consulting Group & Semiconductor Industry Association (2021).Strengthening the Global Semiconductor Supply Chain in an Uncertain Era. BCG / SIA.
Estudo detalhado que mapeia os pontos de falha único (single points of failure) na cadeia de valor dos chips, com destaque para o monopólio de Taiwan na litografia de ponta.

4. TrendForce (2024). Global Semiconductor Foundry Market Share Analysis. TrendForce.
Relatórios de mercado que acompanham a quota de fabricação de semicondutores, demonstrando a liderança superior a 90% da TSMC no segmento de nós avançados para IA.

sábado, 6 de junho de 2026

Evangelina Mascardi baroque lute: Preludio e Fuga de Sylvius Leopold Weiss

Tenho tido a incrível sorte de assistir a inúmeros concertos ao vivo ao longo dos anos, desfrutando tanto de ambientes íntimos em recintos fechados como de atuações ao ar livre, rodeadas pela natureza. Há uma alquimia única quando música bela é tocada com tanta naturalidade por um verdadeiro mestre e, para mim, Evangelina Mascardi personifica essa perfeição. O seu domínio do alaúde é absolutamente hipnotizante.

O meu profundo amor por este instrumento estende-se também à brilhante obra do alaúdista e compositor alemão Sylvius Leopold Weiss. As suas composições transmitem uma beleza profunda e intemporal que ressoa profundamente, especialmente quando trazidas à vida por artistas que compreendem a alma delicada do alaúde.

Ouvir esta música no seio da natureza é uma experiência sublime - onde o suave dedilhar das cordas se funde na perfeição com o farfalhar das folhas e o céu aberto. É uma lembrança de quão poderosa e reconfortante a arte pura pode ser.

Biografia de Evangelina Mascardi

Tocar um instrumento musical como o alaúde barroco em plena natureza é uma experiência que cruza de forma profunda a biologia, a cultura e a sensibilidade humana. Para compreender esta ação, podemos dividi-la em duas perspetivas fundamentais: a biofilia e a etnobiologia. A biofilia, um conceito popularizado pelo biólogo E. O. Wilson, sugere que os seres humanos possuem uma tendência inata para procurar conexões com o mundo natural e outras formas de vida. Ao levar um instrumento para um bosque, para uma praia ou para um jardim, o músico não está apenas a contemplar a paisagem, mas sim a interagir ativamente com ela. A música transforma-se num diálogo e numa busca por bem-estar, onde o ritmo do dedilhar e o timbre do instrumento se alinham instintivamente com o som do vento, das ondas ou do canto dos pássaros. No caso específico do alaúde barroco, esta ligação é ainda mais íntima devido à sua natureza inteiramente orgânica, construída com madeiras ressonantes leves e cordas delicadas, produzindo um som acústico e suave que não agride o ecossistema, mas funde-se perfeitamente com ele.

Por outro lado, embora o ato isolado de tocar não seja uma ciência, a relação humana e cultural que o sustenta é o objeto de estudo perfeito para a etnobiologia. Esta disciplina estuda as complexas interações entre as sociedades humanas e os ecossistemas ao seu redor. Quando analisamos o alaúde barroco sob esta lente, entramos no campo da etnobotânica aplicada à luthieria, que é a arte de construir instrumentos de corda. A própria existência do alaúde é o resultado de séculos de conhecimento acumulado por artesãos europeus sobre as propriedades físicas e acústicas das árvores. Para criar o tampo harmónico do instrumento, por exemplo, utiliza-se historicamente o abeto de ressonância, uma madeira proveniente de árvores que crescem em altitudes elevadas e em condições de frio extremo, como nos Alpes. Este crescimento lento gera anéis de madeira extremamente compactos e regulares, garantindo uma elasticidade e uma rigidez únicas que permitem ao instrumento vibrar com a máxima sensibilidade. Já para a construção da concha traseira do alaúde, recorre-se a madeiras como o ácer, que reflete o som rapidamente e confere brilho e clareza às notas, ou o teixo e as madeiras de árvores de fruto, como a ameixoeira, que trazem doçura e harmónicos calorosos à música.

Existe ainda uma ponte fascinante entre estes conceitos chamada biomúsica ou zoomusicologia, que estuda a música humana que incorpora ou responde diretamente aos sons do ambiente. No período Barroco, compositores como Sylvius Leopold Weiss criavam obras inspiradas na imitação da natureza, tentando traduzir paisagens e movimentos do mundo natural para as cordas do instrumento. Ao interpretar estas peças ao ar livre, o músico está, na verdade, a devolver essa matéria-prima florestal, agora transformada em património cultural, ao seu local de origem. Cria-se assim uma simbiose física e ambiental instantânea, uma vez que a madeira, sendo um material vivo e higroscópico, reage diretamente ao microclima, expandindo-se ou contraindo-se com a humidade e a temperatura do ar. Hoje em dia, esta relação enfrenta até desafios ecológicos modernos, pois as alterações climáticas e os invernos menos rigorosos na Europa fazem com que as árvores cresçam mais depressa, forçando os construtores de instrumentos a subir cada vez mais alto nas montanhas para encontrar a madeira ideal. Assim, tocar este instrumento na natureza manifesta o impulso biofílico de pertença ao mundo vivo e, em simultâneo, celebra o conhecimento etnobotânico que permitiu transformar a floresta em arte pura.

Finalmente, saber que o instrumento foi construído em 2024 pelo conceituado luthier Cezar Mateus, em Nova Jérsia, liga o passado histórico diretamente ao presente globalizado.

Do ponto de vista da etnobotânica moderna, a construção deste alaúde específico reflete a complexa jornada dos materiais na atualidade. Embora Cezar Mateus trabalhe nos Estados Unidos, um construtor desse nível mantém a tradição rigorosa de importar as madeiras europeias ideais, como o abeto dos Alpes para o tampo harmónico e o ácer ou o teixo para o corpo. Isto demonstra como o conhecimento tradicional sobre as árvores europeias cruzou o Atlântico, sendo aplicado por um mestre artesão nas Américas para criar um instrumento que, depois, viaja de volta à Europa para ser tocado na natureza pela alaudista Evangelina Mascardi. É a globalização ao serviço da preservação duma arte ecológica e histórica.

Além disso, o facto de ser um instrumento tão recente traz uma dinâmica física única para a biofilia e para a acústica ao ar livre. Um alaúde construído em 2024 é um instrumento "jovem". As suas madeiras ainda estão a aprender a vibrar juntas e são extremamente sensíveis às condições atmosféricas. Quando a artista o retira do ambiente controlado de um estúdio e o toca num espaço natural, o instrumento enfrenta o seu batismo de fogo ambiental, reagindo de forma muito viva à humidade e à temperatura daquele momento. Há uma beleza poética nisso: um instrumento feito recentemente com árvores antigas, esculpido do outro lado do oceano, a cantar e a vibrar pela primeira vez em plena sintonia com a natureza europeia.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Curva de Keeling: o gráfico que tirou a "pressão arterial" à Terra

Se pudéssemos tirar a pressão arterial à Terra para avaliar a sua saúde climática, o gráfico resultante seria, sem dúvida, a Curva de Keeling. Este registo gráfico, considerado um dos documentos científicos mais importantes da era moderna, mostra a acumulação contínua de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera terrestre desde o final da década de 1950. Mais do que um simples conjunto de dados estatísticos, a curva funciona como o espelho do impacto da atividade humana no planeta e um aviso claro sobre o futuro do nosso clima.
Até meados do século passado, a comunidade científica sabia que a queima de combustíveis fósseis libertava gases, mas não havia certezas se esse dióxido de carbono se acumulava na atmosfera ou se era totalmente absorvido pelos oceanos e pelas florestas. Tudo mudou quando o cientista americano Charles David Keeling desenvolveu um método de alta precisão para medir o CO2 e, em 1958, começou a recolher amostras de ar no topo do vulcão Mauna Loa, no Havai. A escolha do local foi estratégica: isolado no meio do Oceano Pacífico e a grande altitude, o observatório ficava longe da poluição direta das grandes indústrias, oferecendo uma amostra limpa e global da atmosfera terrestre.
Ao olhar para a Curva de Keeling, saltam imediatamente à vista duas características principais: um padrão anual em forma de ziguezague e uma subida vertical implacável ao longo das décadas. O ziguezague regular representa aquilo a que os cientistas chamam a "respiração" da Terra. Durante a primavera e o verão do Hemisfério Norte - onde se concentra a maior parte da vegetação do planeta -, as florestas crescem e absorvem grandes quantidades de CO2 através da fotossíntese, fazendo os níveis atmosféricos descerem. No outono e no inverno, o processo inverte-se; a vegetação entra em dormência e decompõe-se, libertando o gás de volta para o ar.
No entanto, embora o planeta expire e inspire todos os anos, o topo de cada ziguezague é sucessivamente mais alto do que o do ano anterior. Esta tendência de subida contínua a longo prazo é o resultado direto da atividade humana, impulsionada pela queima de carvão, petróleo e gás natural, além da desflorestação global. 
Quando Keeling fez a sua primeira medição em 1958, a concentração de $CO_2$ era de 315 partes por milhão (ppm). Hoje, esse valor já ultrapassou a barreira dos 420 ppm. Através do estudo de bolhas de ar presas no gelo profundo da Antártida, sabemos que, nos últimos 800 mil anos, estes níveis nunca tinham ultrapassado os 300 ppm. Em menos de um século, a humanidade alterou a composição química do ar de uma forma sem precedentes na história da evolução humana.
O dióxido de carbono atua como um manto térmico em redor do planeta, retendo o calor do Sol que, de outra forma, escaparia para o espaço. À medida que a Curva de Keeling continua a subir, esse cobertor torna-se cada vez mais espesso, alimentando o aquecimento global, o degelo dos glaciares, a subida do nível do mar e a multiplicação de fenómenos meteorológicos extremos. 
No fundo, a Curva de Keeling deixou de ser apenas uma monitorização laboratorial no Havai para se tornar no diagnóstico mais urgente da nossa civilização, lembrando-nos diariamente de que a estabilidade do clima do futuro depende da rapidez com que conseguirmos travar esta subida.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Mais do que beleza: o papel vital das borboletas nos ecossistemas


Para o observador casual, uma borboleta é um símbolo fugaz da graciosidade do verão. No entanto, para entomologistas e zoólogos, estes insetos frágeis são os "pesos-pesados" do mundo natural, funcionando como engrenagens vitais que mantêm ecossistemas inteiros em movimento. No século XVII, a pioneira entomologista Maria Sibylla Merian foi uma das primeiras cientistas a documentar a metamorfose das borboletas, provando, através das suas ilustrações detalhadas, que a vida destes insetos está intimamente ligada à existência de plantas hospedeiras específicas. Séculos mais tarde, o lendário zoólogo E.O. Wilson lembrou-nos, de forma célebre, que os invertebrados são "as pequenas coisas que governam o mundo". As borboletas são o testemunho perfeito desta verdade.


Embora pareçam delicadas, são polinizadoras de longo curso que mantêm a diversidade genética das plantas silvestres, as quais, por sua vez, estabilizam os nossos solos e purificam o nosso ar. Além disso, servem como uma âncora fundamental para a cadeia alimentar; enquanto lagartas, convertem a matéria vegetal em energia rica, fornecendo uma fonte de alimento indispensável para aves nidificantes, morcegos e pequenos mamíferos. Como são incrivelmente sensíveis à temperatura e à perda de habitat, os zoólogos também dependem delas como indicadores ecológicos — sensores climáticos vivos que funcionam como um sistema de alerta precoce quando um ambiente está em sofrimento. Como a grande bióloga Rachel Carson escreveu outrora: "Na natureza, nada existe sozinho." Em última análise, proteger as borboletas não é um mero ato de preservação da beleza estética; é a preservação necessária dos fios invisíveis e interligados que mantêm o nosso planeta vivo.

sábado, 21 de março de 2026

Dia Mundial dos Glaciares: Por que o Destino dos Glaciares é o Nosso Próprio Destino


No calendário global, o dia 21 de março costuma ser associado ao início da primavera no hemisfério norte, um símbolo de renovação. No entanto, desde que a Assembleia Geral da ONU proclamou esta data como o Dia Mundial da Preservação dos Glaciares, o foco mudou para a conservação crítica do que já temos — e do que estamos prestes a perder. Os glaciares não são apenas blocos estáticos de gelo; são "sentinelas" que moldam a geologia, regulam a temperatura e sustentam a vida humana.

A ciência por trás da sua importância é fascinante e, ao mesmo tempo, alarmante. Estas massas de gelo funcionam como o sistema de refrigeração da Terra através do efeito albedo. Quando a radiação solar atinge a superfície branca e brilhante de um glaciar, a maior parte dessa energia é refletida de volta para o espaço. À medida que o gelo derrete e expõe a rocha escura ou o oceano abaixo, a taxa de absorção de calor aumenta. É um equilíbrio delicado que pode ser resumido pela relação física onde a variação da temperatura  é inversamente proporcional à capacidade de reflexão da superfície (efeito albedo). Pode imaginar o efeito albedo como o sistema de 'espelhos' da Terra. Os glaciares brancos refletem até 90% da luz solar de volta para o espaço, mantendo o planeta fresco. No entanto, quando o gelo derrete e expõe a rocha escura ou o oceano, a superfície passa a absorver a energia solar. Em termos físicos, a redução da refletividade (albedo) resulta num aumento catastrófico da absorção de calor. O infográfico abaixo ilustra claramente este ciclo de aquecimento.




O Ponto de Inflexão
De acordo com o Relatório AR6 do IPCC, a influência humana é 'inequívoca' no recuo global dos glaciares desde a década de 199. Os dados revelam que estamos a perder cerca de 220 mil milhões de toneladas de gelo anualmente, um ritmo que coloca ecossistemas inteiros num ponto de inflexão. Isto significa que certas perdas glaciares tornaram-se irreversíveis, independentemente dos nossos esforços imediatos. O recuo nestas áreas aumenta o risco de inundações catastróficas e, a longo prazo, de secas severas. O impacto não é apenas visual; é uma ameaça direta à segurança hídrica de mil milhões de pessoas que dependem destas fontes de água doce. 

No entanto, o Dia Mundial dos Glaciares não serve apenas para lamentar perdas. É um convite à ação. Do majestoso Perito Moreno na Argentina às cavernas de gelo azul do Vatnajökull na Islândia, estas estruturas guardam a história do nosso clima. Cada bolha de ar presa no gelo profundo é um registo atmosférico de milhares de anos — uma biblioteca congelada que projetos como o Ice Memory tentam salvaguardar em "santuários de gelo" na Antártida.

Porém a rapidez com que o restante gelo desaparece ainda depende das nossas ações hoje. Estima-se que mais de mil milhões de pessoas dependam do degelo sazonal para obter água potável, irrigação e energia. Regiões como os Andes e os Himalaias (o "Terceiro Polo") estão na linha da frente.  

Em 2026, a mensagem da ONU é clara: os glaciares são os "Guardiões do Futuro da Terra". Preservá-los é indissociável das metas de emissões zero. Reduzir a nossa pegada de carbono não é apenas um conceito abstrato; é o esforço direto para manter estes gigantes vivos. Ao celebrarmos este dia, devemos olhar para o gelo não como algo distante, mas como o espelho do nosso próprio destino. Se o gelo respira, nós respiramos.

Para saber mais:
World Glacier Monitoring Service (WGMS) - Global Glacier Change Bulletin

quinta-feira, 12 de março de 2026

As observações de satélite confirmam a previsão da variação do nível do mar dos anos 90


As projeções climáticas dos anos 90 acertaram em cheio na subida do nível do mar, mas subestimaram o degelo das camadas de gelo. Agora, com a aceleração da subida do nível do mar, os cientistas alertam para os riscos regionais e para a possibilidade de um colapso catastrófico.

As alterações globais do nível do mar são medidas por satélites há mais de 30 anos e uma comparação com as projeções climáticas de meados da década de 1990 mostra que estas são notavelmente exatas, de acordo com dois investigadores da Universidade de Tulane.

“O derradeiro teste às projeções climáticas é compará-las com o que se passou desde que foram feitas, mas isso requer paciência - são necessárias décadas de observações”. Torbjörn Törnqvist, autor principal do estudo e Professor de Geologia no Departamento de Ciências da Terra e do Ambiente.
Törnqvist frisa ainda que os investigadores ficaram espantados com a qualidade das primeiras projeções, especialmente quando comparamos a rudeza dos modelos existentes na altura, com os que estão disponíveis agora.

O nível do mar não varia de forma uniforme
O coautor Sönke Dangendorf, Professor Associado no Departamento de Ciências e Engenharia Fluvial e Costeira, afirmou que, embora seja encorajador ver a qualidade das primeiras projeções, o desafio atual é traduzir a informação global em projeções adaptadas às necessidades específicas das partes interessadas em locais como o sul do Louisiana.

"O nível do mar não sobe uniformemente - varia muito. O nosso estudo recente desta variabilidade regional e dos processos que lhe estão subjacentes baseia-se, em grande medida, nos dados das missões de satélite da NASA e nos programas de monitorização dos oceanos da NOAA. A continuação destes esforços é mais importante do que nunca e essencial para a tomada de decisões informadas em benefício das pessoas que vivem ao longo da costa.” Sönke Dangendorf.

Uma nova era de monitorização das alterações globais do nível do mar arrancou quando foram lançados satélites no início dos anos 90 para medir a altura da superfície do oceano. Isto mostrou que a taxa de subida global do nível do mar desde essa altura tem sido, em média, de cerca de 0,30 centímetros por ano. Só mais recentemente é que se tornou possível detetar que a taxa de subida do nível do mar está a acelerar.

Quando os investigadores da NASA demonstraram, em outubro de 2024, que a taxa duplicou durante este período de 30 anos, chegou o momento de comparar esta descoberta com as projeções feitas em meados da década de 1990, independentemente das medições por satélite.

As projeções do IPCC verificaram-se bastante próximas da realidade, apesar da subestimação do degelo
Em 1996, o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) publicou um relatório de avaliação pouco depois do início das medições do nível do mar por satélite. Projetava que o valor mais provável da subida global do nível do mar nos próximos 30 anos seria de quase 8 cm, notavelmente próximo dos 9 cm que se verificaram. Mas também subestimou o papel do degelo em mais de 2 cm.

Na altura, pouco se sabia sobre o papel do aquecimento das águas oceânicas e sobre a forma como este poderia desestabilizar os setores marinhos do manto de gelo antártico a partir de baixo. O fluxo de gelo do manto de gelo da Gronelândia para o oceano também tem sido mais rápido do que o previsto.

As regiões com cotas ao nível do mar encontram-se sob maior risco, em caso de subida do nível do mesmo.

As dificuldades do passado em prever o comportamento dos mantos de gelo também contêm uma mensagem para o futuro. As atuais projeções da futura subida do nível do mar consideram a possibilidade, embora incerta e de baixa probabilidade, de um colapso catastrófico do manto de gelo antes do final deste século.

As regiões costeiras baixas dos Estados Unidos seriam particularmente afetadas se esse colapso ocorresse na Antártida.

Referências bibliográficas

R. S. Nerem
Nerem, R. S., Beckley, B. D., Fasullo, J. T., Hamlington, B. D., Masters, D., & Mitchum, G. T. (2018). Climate-change–driven accelerated sea-level rise detected in the altimeter era. Proceedings of the National Academy of Sciences, 115(9), 2022-2025

Torbjörn E. Törnqvist, Clinton P. Conrad, Sönke Dangendorf, Benjamin D. Hamlington. Evaluating IPCC Projections of Global Sea-Level Change From the Pre-Satellite Era. Advancing Earth and Space Science - Earth’s Future (2025).

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Maria Sibylla Merian (1647-1717) - uma das pioneiras em Ecologia

Ilustração: ‘Dissertação sobre a geração e metamorfoses de insetos surinameses’, (1719)



Anna Maria Sibylla Merian foi uma naturalista e pintora. Ela utilizou o seu talento para o desenho, adquirido numa família de editores e ilustradores de renome, para complementar as suas observações naturalistas altamente detalhadas, particularmente sobre a metamorfose das borboletas.

Ela revolucionou a história da ciência com o seu trabalho sobre a transformação dos insetos.



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

William Elliott Whitmore - Civilizations


Letra
Don’t mind me I’m just livin here
Don’t mind me I’m just livin’ here
Tear down the mountains, cut the forest clear
Don’t mind me I’m just livin here

Pay no attention I’m just trying to exist
Pay no attention I’m just trying to exist
I’ve said too much now my name’s on a list
pay no attention to me

I know, I know, I know
Civilizations they come and they go
Sooner or later they crumble and fall
We’re just here in the middle of it all

Don’t mind me I’m bleeding now
Don’t mind me I’m just bleeding now
A hand from above cut out my heart somehow
Don’t mind me I’m just bleeding now

Under the radar hopefully
Under the radar hopefully
I’ll live live live ‘til they bury me
Under the radar hopefully


"Civilizations" é uma das faixas mais poderosas do álbum Radium Death (2015), de William Elliott Whitmore. É uma música que resume bem a filosofia do artista: uma mistura de folk visceral, activismo rural e uma pitada de estoicismo.

A canção é acompanhada por um evocativo videoclipe animado em tons sépia, co-realizado por Joel Anderson e Matt Scharenbroich. Utiliza imagens de paisagens em transformação e decadência histórica para reflectir o tema de "ascensão e queda" da música.

O Significado e a Inspiração
A canção é uma reflexão sobre a natureza cíclica da história humana e a resiliência do "homem comum".
O Ciclo da História: o tema central é que impérios e governos — as "civilizações" do título — eventualmente desmoronam sob o próprio peso, enquanto as pessoas comuns e a terra permanecem.

Comentário político: Whitmore escreveu a música como uma crítica à arrogância das potências modernas. Ele frequentemente traça paralelos com a queda de Roma, sugerindo que sociedades que priorizam o progresso industrial desenfreado em detrimento da terra estão destinadas ao fracasso.

Raízes Pessoais: a inspiração veio de uma luta real na defesa da sua quinta familiar no Iowa. Na época, havia um projeto de instalação de um oleoduto que passaria pelas terras de sua avó, o que deu origem aos versos sobre montanhas sendo derrubadas e florestas devastadas.[Fonte]. Ler mais detalhadamente abaixo

Estilo Musical
Diferente de outras faixas de Radium Death, que trazem guitarras elétricas e uma sonoridade mais rock, "Civilizations" é minimalista e acústica.
O Banjo: a música é guiada por um dedilhado de banjo lento e deliberado.
A Voz: a voz grave e "rasgada" de Whitmore (que soa muito mais velha do que ele realmente é) dá à canção um peso ancestral, como se estivesse sendo cantada por alguém que já viu séculos passarem.


O Contexto Político (Obama e o Iowa)
Obama estava no seu segundo mandato e, curiosamente, o contexto político da época cria um contraste interessante com a mensagem da canção:

A Contradição da energia: embora a administração Obama tenha promovido energias renováveis, também presenciou um boom na produção de petróleo e gás natural nos EUA. Foi precisamente durante este período que o projeto da Dakota Access Pipeline (que Whitmore contestava ativamente no Iowa) avançou a nível federal.

O "Home State" Político: o Iowa foi o estado que catapultou a carreira de Obama em 2008. Ver um artista do Iowa como Whitmore a cantar sobre a queda de "civilizações" e a ganância das corporações em 2015 mostrava um certo desencanto de parte da população rural que sentia que as promessas de proteção ambiental e económica não estavam a chegar ao terreno.

A Canção como Protesto
Quando Whitmore canta "Civilizations, they come and they go" (As civilizações vêm e vão), ele está a adoptar uma perspetiva histórica longa, sugerindo que nenhum governo ou império — mesmo o de um presidente popular como Obama — é permanente face à força da natureza e da terra.

Whitmore chegou a participar em protestos físicos no Iowa contra a construção da conduta de petróleo durante esse governo

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Carbofascismo

Um odor pútrido emana das margens do Lago Maracaibo, no oeste da Venezuela, uma região pontilhada por plataformas petrolíferas.

O que é “carbofascismo”?
Carbofascismo é um termo teórico usado para descrever uma tendência político‑ideológica que combina negação das crises ecológicas, defesa irrestrita de combustíveis fósseis e respostas autoritárias à política ambiental, refletindo um tipo de reação de direita que protege interesses carboníferos e a fossilização política da sociedade em detrimento de democracia ecológica ou justiça climática. Em outras palavras, ele denuncia uma visão política que prioriza a expansão contínua do uso de carbono fóssil (petróleo, carvão, gás) mesmo quando isso ameaça ecossistemas, sociedades e direitos humanos.

O termo é usado em pesquisas críticas sobre as conexões entre dependência de combustíveis fósseis, políticas autoritárias e resistência à transição ecológica. Não se refere a um partido ou movimento claramente definido historicamente, mas a um padrão ideológico observável em certas respostas políticas às crises climáticas e ecológicas.

Quem e quando foi cunhado?
O conceito de carbofascismo foi proposto pelo historiador ambiental Jean‑Baptiste Fressoz, segundo estudos posteriores de outros pesquisadores.

Jean‑Baptiste Fressoz é um historiador ambiental francês que aparece como a pessoa que coincidentemente introduziu o termo (ou pelo menos sua forma teórica original) para descrever essa combinação de negacionismo climático, defesa de combustíveis fósseis e elementos autoritários de governo e política.

O ensaio de Antoine Acker intitulado What Could Carbofascism Look Like? (Que aspecto o carbofascismo poderia ter?) expõe e discute este conceito a partir de uma perspectiva histórica e crítica, indicando que o termo foi cozinhado no debate académico sobre crise climática e política autoritária no contexto da pandemia de COVID‑19 e das respostas políticas globais.

Ou seja: não é um termo histórico clássico como “fascismo” (inventado nos anos 1910), mas sim um neologismo relativamente recente no debate académico, especialmente na historiografia ambiental crítica da última década.

Contexto de uso
O carbofascismo aparece em análises críticas de políticas públicas, movimentos sociais e respostas governamentais à crise climática, frequentemente ligadas ao estudo de como interesses econômicos fósseis influenciam e moldam democracias para preservar combustíveis sujos e bloquear medidas ambientais urgentes.

Isso é diferente, por exemplo, de ecofascismo — outro neologismo na crítica política — que costuma focar em extrema direita que usa a ecologia como pretexto para políticas autoritárias ou racistas, enquanto o termo carbofascismo enfatiza a defesa de combustíveis fósseis e a resposta política autoritária à crise climática.

Resumo rápido
Definição: ideologia política crítica que conecta defesa de combustíveis fósseis, negação de crises ecológicas e tendências autoritárias.

Origem do termo: cunhado no debate académico contemporâneo, ligado ao historiador ambiental Jean‑Baptiste Fressoz e analisado em ensaios como o de Antoine Acker.

Quando surgiu: no debate ecológico e político das últimas décadas (especialmente na era COVID‑19 e da intensificação do debate climático), portanto é um neologismo recente.

Fontes:

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Katie Hinde - O que não sabemos sobre o leite materno


O leite materno contribui para o crescimento do corpo dos bebés, alimenta o desenvolvimento neurológico, fornece imunofatores essenciais e protege contra a fome e as doenças — porque é que, então, a ciência sabe mais sobre o tomate do que sobre o leite materno? Katie Hinde partilha informações sobre esta substância complexa e vital e discute as principais lacunas que a investigação científica ainda precisa de preencher para que possamos compreendê-la melhor.

Katie pensava que estava a estudar leite. O que ela descobriu foi uma conversa.
Em 2008, Katie Hinde estava num laboratório de investigação com primatas na Califórnia, a encarar dados que se recusavam a comportar.
Estava a analisar leite materno de macacas rhesus — centenas de amostras, milhares de medições. E um padrão continuava a aparecer, um padrão que não fazia sentido sob as antigas regras da ciência.

As mães com filhos do sexo masculino produziam leite mais rico em gordura e proteína. As mães com filhas do sexo masculino produziam mais volume, com diferentes proporções de nutrientes. Isto não era aleatório.Era personalizado.

Os seus colegas homens descartaram a ideia. Erro de medição. Ruído. Coincidência.

Mas Katie confiava nos números. E os números estavam a dizer algo radical: o leite não é apenas alimento. É informação.

Durante décadas, a ciência tratou o leite materno como gasolina — calorias ingeridas, crescimento produzido. Combustível simples. Mas se isso fosse verdade, porque haveria de mudar de acordo com o sexo do bebé?

Katie continuou a investigar. Analisou o leite de mais de 250 mães em mais de 700 colheitas de amostras. E a história aprofundou-se. As mães de primeira viagem e mais jovens produziam leite com menos calorias, mas com níveis muito mais elevados de cortisol, a hormona do stress. Os bebés que o consumiam cresciam mais depressa e tornavam-se mais vigilantes, mais ansiosos e menos confiantes.

O leite não estava apenas a construir corpos. Estava a moldar o temperamento.

Depois veio a descoberta que surpreendeu até os céticos. Quando um bebé mama, pequenas quantidades de saliva viajam de volta através do mamilo até ao tecido mamário da mãe. Esta saliva transporta sinais sobre o estado imunitário do bebé. Se o bebé está a ficar doente, o corpo da mãe deteta. Em poucas horas, o leite dela muda. Os glóbulos brancos aumentam. Os macrófagos multiplicam-se. Aparecem anticorpos específicos.

E quando o bebé recupera? O leite volta ao normal. Não foi coincidência. Foi uma questão de causa e efeito.

A saliva do bebé avisa a mãe do que está errado. O corpo da mãe produz exatamente o medicamento necessário.

Um diálogo biológico — ancestral, preciso, invisível à ciência durante séculos.

Em 2011, Katie ingressou em Harvard e analisou o panorama geral da investigação. O que ela descobriu foi perturbador.

Havia o dobro dos estudos sobre a disfunção eréctil do que sobre a composição do leite materno.

O primeiro alimento que todos os humanos consumiram — a substância que moldou a nossa espécie — tinha sido largamente ignorado. 

Então, Katie fez algo ousado. Ela criou um blogue com um nome deliberadamente provocador: “Mamíferos Sugam… Leite!

Num ano, o blogue tinha mais de um milhão de leitores. Pais. Médicos. Cientistas. Pessoas a fazer perguntas que as sondagens tinham deixado de lado.

E as descobertas continuaram:
• O teor de gordura do leite varia consoante a hora do dia (o pico ocorre a meio da manhã)
• O leite inicial difere do leite final (amamentar durante mais tempo resulta num leite mais rico)
• O leite materno contém mais de 200 oligossacáridos que os bebés não conseguem digerir — pois servem de alimento às bactérias benéficas do intestino
• O leite de cada mãe é tão único como uma impressão digital
Em 2017, Katie apresentou esta história neste  TED, assistido por milhões de pessoas.
Em 2020, explicou-a ao mundo no documentário "Bebês", da Netflix.

Hoje, no Laboratório de Lactação Comparativa da Universidade Estadual do Arizona, a Dra. Katie Hinde continua a desvendar como o leite molda o desenvolvimento humano desde as primeiras horas de vida — influenciando os cuidados nas UCI neonatais, melhorando o desenvolvimento das fórmulas infantis e reformulando as políticas de saúde pública em todo o mundo.

As implicações são impressionantes.
O leite tem vindo a evoluir há 200 milhões de anos - mais tempo do que os dinossáurios caminhavam sobre a Terra. Aquilo que a ciência descartou como “simples nutrição” é, na verdade, um dos sistemas de comunicação mais sofisticados que a biologia já produziu.

Katie Hinde não estudou apenas o leite. Ela revelou que a forma mais antiga de nutrição é também a mais inteligente - uma conversa viva e responsiva entre dois corpos, moldando quem nos tornamos antes mesmo de falarmos.

Tudo porque uma cientista se recusou a aceitar que metade da história era “erro de medição”.
Por vezes, as maiores revoluções começam ao ouvirmos aquilo que todos os outros ignoram.

quarta-feira, 12 de abril de 2023

Sitopia: reconstruir as nossas vidas através da comida

Arquitecta e autora de importantes ensaios sobre a cidade e a comida, sobre o abastecimento das cidades, Carolyn Steel desenvolveu uma importante problemática em torno do conceito de «sitopia», isto é, do mundo como lugar moldado pela alimentação. No centro da sua análise, está o pressuposto contemporâneo da comida barata, proporcionada por uma indústria agroalimentar que põe em causa o futuro da vida na Terra.

Nerea Morán, arquiteta e docente na Escola Superior de Arquitetura de Madrid (ETSAM). É autora de livros como Raíces en en asfalto. Pasado, presente e futuro da agricultura urbana e Cidades em movimento. Avanços e contradições nas políticas autárquicas desde a óptica das transições ecossociais.

Sitopia é um termo cunhado por Carolyn Steel que combina as palavras gregas sitos (comida) e topos (lugar), significando "lugar de comida", e refere-se ao mundo moldado pela alimentação, propondo que repensar nossa relação com a comida pode salvar o planeta e melhorar a vida humana. É um conceito que explora como a comida, muitas vezes invisível na sua omnipresença, influencia paisagens, cidades, política, economia e o nosso corpo, oferecendo uma alternativa à utopia, ao focar num "lugar" real e fundamental para a existência e transformação

domingo, 23 de outubro de 2022

Documentário Histórico- "Silent Spring" com Rachel Carson (1962)

Para cada praga de um inseto, existem 1.700 insectos benéficos [link]


O início humilde da Agência de Proteção Ambiental durante uma época em que não havia proteção contra o despejo ilegal de resíduos, poluição do ar e da água e fábricas de produtos químicos que produziam pesticidas que prejudicam o ecossistema da Terra - incluindo todos os seres humanos.

O tema predominante de Primavera Silenciosa é o efeito poderoso – e muitas vezes negativo – que os humanos têm no mundo natural. O principal argumento de Carson é que os pesticidas têm efeitos prejudiciais ao meio ambiente; ela diz que esses são mais propriamente chamados de "biocidas" porque seus efeitos raramente se limitam às pragas-alvo.

O DDT é um excelente exemplo, mas outros pesticidas sintéticos – muitos dos quais estão sujeitos a bioacumulação – são examinados. Carson acusa a indústria química de espalhar desinformação intencionalmente e os funcionários públicos de aceitar reivindicações da indústria de forma acrítica.

A maior parte do livro é dedicada aos efeitos dos pesticidas nos ecossistemas do mundo natural, mas quatro capítulos detalham casos de envenenamento humano por pesticidas, cancro e outras doenças atribuídas a pesticidas. Sobre o DDT e o desenvolvimento do câncer nas células.

O livro documentou os efeitos prejudiciais sobre o meio ambiente – principalmente sobre as aves – do uso indiscriminado de pesticidas. Carson acusou a indústria química de espalhar desinformação e os funcionários públicos de aceitar as reivindicações da indústria sem questionar.

No final da década de 1950, Carson voltou sua atenção para a conservação, especialmente os problemas ambientais que ela acreditava serem causados ​​por pesticidas sintéticos. O resultado foi Silent Spring (1962), que trouxe preocupações ambientais para o público americano.

Silent Spring foi recebida com feroz oposição por empresas químicas, mas estimulou uma reversão na política nacional de pesticidas, levou a uma proibição nacional do DDT para usos agrícolas e inspirou o Movimento Ambiental que levou à criação da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA).

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Documentário - Cabra Marcado para Morrer


Numa de suas viagens, Eduardo Coutinho teve contato com a história de João Pedro Teixeira, um líder camponês paraibano que foi assassinado, e a saga de sua família em busca de justiça. E surge daí, a ideia de fazer um filme  que abordasse o fato.

“Cabra Marcado para Morrer” – titulo inspirado no poema de cordel “João Boa-Morte, cabra marcado para morrer”, do poeta Ferreira Gullar -, que a princípio seria um filme ficcional, tem suas gravações iniciadas na década de 60.

Os personagens da história eram atores amadores que interpretavam os seus papéis reais no filme. Devido ao Golpe Militar em 1964, as gravações foram interrompidas e parte da equipa foi presa na época sob a acusação de serem comunistas.

Após dezassete anos, o cineasta retorna ao local das gravações, porém, muitas coisas mudaram ao longo dos anos na região e o projeto inicial do filme acaba tomando outros rumos. A longa-metragem, que antes seria apenas uma reconstituição de um fato, torna-se um registo sobre o resgate das memórias coletivas de um acontecimento, que passa assumir um tom documental.

A morte de João não é mais destaque nas pautas dos jornais, em “Cabra Marcado para Morrer”, a voz reprimida durante tanto tempo ganha força e espaço. Apoiado no estilo híbrido, a obra cinematográfica é composta por encenações – imagens das primeiras gravações -, registos jornalísticos, imagens de outros filmes e entrevistas.

Segundo o Coutinho, numa entrevista cedida a Mariana Rebuá Simões (clique aqui para ver na íntegra), a longa-metragem é um “trabalho de História, de jornalismo, de cinema, tudo misturado. […] é um filme que conta a história do filme, cinema e história todo tempo, lado a lado. (…) Enfim, é um filme que aguenta até hoje porque ele não é um filme triunfalista. Ele lida com uma verdade do personagem e não com discurso."

Mas se Coutinho tivesse conseguido finalizar sua obra naquela época, sem as interrupções? Ao analisar nesse sentido, talvez a proposta do filme fosse, por exemplo, similar à longa-metragem “O Bandido Giuliano”(1962), do cineasta italiano Francesco Rosi, em que as pessoas interpretam seus próprios papéis reencenando os fatos reais que ocorreram nos locais que aconteceram.

É importante ressaltar que “Cabra Marcado para Morrer” inovou a estilística no documentário brasileiro. Para quem ainda não assistiu essa obra-prima ou não conhecia, recomendo-a.

quinta-feira, 10 de março de 2022

Documentário completo: O Sabor da Despedida (2009)


A construção da Barragem do Baixo Sabor e as consequências ambientais para o equilíbrio natural da região

Portugal prepara-se para perder o seu último troço de vida selvagem. Em Trás-os-Montes, o Rio Sabor, vai deixar de correr naturalmente até ao Douro. A construção da Barragem do Baixo Sabor muda para sempre o equilíbrio natural da região.
Conheça as espécies e as memórias condenadas no altar do progresso energético e prove connosco o sabor da despedida.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Universidade de Coimbra lança site que desvenda ‘segredos’ da botânica com mais de 100 anos

A plataforma, que contém informações taxonómicas e geográficas de potencial relevo para a definição de estratégias de promoção e conservação da biodiversidade em Portugal e vários países lusófonos, foi lançada pela UC com o contributo de mais de mil cientistas-cidadãos, que colaboraram na transcrição das cartas.

Já está online o site Cartas da Natureza (http://cartasdanatureza.uc.pt), que desvenda todos os pormenores das trocas de correspondência dos botânicos da Universidade de Coimbra (UC), em finais do século XIX e início do século XX. A plataforma, que contém informações taxonómicas e geográficas de potencial relevo para a definição de estratégias de promoção e conservação da biodiversidade em Portugal e vários países lusófonos, foi lançada pela UC com o contributo de mais de mil cientistas-cidadãos, que colaboraram na transcrição das cartas.

A base de dados “Cartas da Natureza” contém a transcrição pesquisável do conteúdo da correspondência trocada pelos responsáveis do Instituto, do Herbário e do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, entre cerca de 1870 e 1928 (cartas que hoje integram o espólio do Arquivo de Botânica do Departamento de Ciências da Vida da UC). Estas missivas, envolvendo mais de 1100 correspondentes diferentes, contêm informações relevantes sobre localizações históricas de plantas, áreas de distribuição e abundância de espécies, registos de trocas de plantas e sementes, processos científicos de colheita, classificação e taxonomia de plantas e dados para reconstrução do percurso de espécimes de herbário e objetos museológicos nas coleções de história natural da UC.

Todos esses dados, disponibilizados online, foram obtidos com a colaboração voluntária dos cidadãos-cientistas que responderam ao apelo à comunidade lançado em 2019, a partir da plataforma Zooniverse, que agrega interessados em projetos de ciência participativa. Cerca de 1200 participantes – muitos deles estrangeiros – contribuíram para a transcrição de mais de mil cartas, em seis línguas diferentes, num total de mais de 3,8 milhões de caracteres (mais de 640 mil palavras). “Sendo uma quantidade de dados muito grande, esta foi uma excelente oportunidade para pedir a colaboração de voluntários, cidadãos-cientistas, que ajudassem nessa parte do processo de criação do conhecimento. Era uma tarefa exigente, mas absolutamente fundamental. E, incrivelmente, ao fim de um ano, tínhamos o material praticamente todo transcrito”, recorda o Coordenador do projeto Cartas da Natureza e investigador do Centro de Ecologia Funcional da UC, António Gouveia.

“A transcrição torna facilmente pesquisável toda a informação que até aqui apenas estava contida nas imagens digitalizadas das cartas. “Estamos a falar de relações epistolares que relatam a ligação entre os cientistas da Universidade de Coimbra, como Júlio Henriques [grande impulsionador do estudo da botânica em Portugal], e os seus congéneres de toda a Europa, que criavam redes de conhecimento sobre as plantas. Na realidade, esta correspondência, que parece ter um âmbito relativamente local, é bastante global, quer em termos da informação que contém quer em termos dos atores que envolve”, explica António Gouveia.

É também por isso que, passados mais de 100 anos, os ‘segredos’ das cartas agora desvendadas continuam a ter particular relevo científico. “Muita desta informação diz respeito a Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, que a poderão utilizar em questões relacionadas com o conhecimento da biodiversidade passada, que pode ter implicações na definição de estratégias de conservação presentes e futuras”, sublinha o Coordenador do Projeto e investigador associado da Cátedra UNESCO em Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável – no âmbito da qual o projeto “Cartas da Natureza” foi desenvolvido, em colaboração com o Jardim Botânico, o Departamento de Ciências da Vida e o Centro de Ecologia Funcional da UC.

Para todos os potenciais interessados – e como reconhecimento pelos participantes que colaboraram de forma voluntária na transcrição – os documentos estão agora disponíveis online, em acesso aberto, para consulta da comunidade científica e sociedade civil. A iniciativa é também mais um exemplo do crescente envolvimento da UC nos domínios da ciência aberta. “Este projeto ilustra, de forma modelar, as inequívocas vantagens do paradigma emergente da chamada Ciência Cidadã, através da qual os cidadãos podem dar um contributo determinante para acelerar o desenvolvimento da ciência e reforçar a sua relevância social”, conclui o Vice-Reitor da UC para a Cultura e a Ciência Aberta, Delfim Leão.

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Scientists understood physics of climate change in the 1800s – thanks to a woman named Eunice Foote



Long before the current political divide over climate change, and even before the U.S. Civil War (1861-1865), an American scientist named Eunice Foote documented the underlying cause of today’s climate change crisis.

The year was 1856. Foote’s brief scientific paper was the first to describe the extraordinary power of carbon dioxide gas to absorb heat – the driving force of global warming.

Carbon dioxide is an odorless, tasteless, transparent gas that forms when people burn fuels, including coal, oil, gasoline and wood.

As Earth’s surface heats, one might think that the heat would just radiate back into space. But, it’s not that simple. The atmosphere stays hotter than expected mainly due to greenhouse gases such as carbon dioxide, methane and atmospheric water vapor, which all absorb outgoing heat. They’re called “greenhouse gases” because, not unlike the glass of a greenhouse, they trap heat in Earth’s atmosphere and radiate it back to the planet’s surface. The idea that the atmosphere trapped heat was known, but not the cause.

Foote conducted a simple experiment. She put a thermometer in each of two glass cylinders, pumped carbon dioxide gas into one and air into the other and set the cylinders in the Sun. The cylinder containing carbon dioxide got much hotter than the one with air, and Foote realized that carbon dioxide would strongly absorb heat in the atmosphere. 
Eunice Foote’s paper in the American Journal of Science and Arts. Royal Society

Foote’s discovery of the high heat absorption of carbon dioxide gas led her to conclude that “… if the air had mixed with it a higher proportion of carbon dioxide than at present, an increased temperature” would result.

A few years later, in 1861, the well-known Irish scientist John Tyndall also measured the heat absorption of carbon dioxide and was so surprised that something “so transparent to light” could so strongly absorb heat that he “made several hundred experiments with this single substance.”

Tyndall also recognized the possible effects on the climate, saying “every variation” of water vapor or carbon dioxide “must produce a change of climate.” He also noted the contribution other hydrocarbon gases, such as methane, could make to climate change, writing that “an almost inappreciable addition” of gases like methane would have “great effects on climate.”
Humans were already increasing carbon dioxide in the 1800s

By the 1800s, human activities were already dramatically increasing the carbon dioxide in the atmosphere. Burning more and more fossil fuels – coal and eventually oil and gas – added an ever-increasing amount of carbon dioxide into the air.

The first quantitative estimate of carbon dioxide-induced climate change was made by Svante Arrhenius, a Swedish scientist and Nobel laureate. In 1896, he calculated that “the temperature in the Arctic regions would rise 8 or 9 degrees Celsius if carbon dioxide increased to 2.5 or 3 times” its level at that time. Arrhenius’ estimate was likely conservative: Since 1900 atmospheric carbon dioxide has risen from about 300 parts per million to around 417 ppm as a result of human activities, and the Arctic has already warmed by about 3.8 C (6.8 F).

Nils Ekholm, a Swedish meteorologist, agreed, writing in 1901 that “The present burning of pit-coal is so great that if it continues … it must undoubtedly cause a very obvious rise in the mean temperature of the earth.” Ekholm also noted that carbon dioxide acted in a layer high in the atmosphere, above water vapor layers, where small amounts of carbon dioxide mattered.

All of this was understood well over a century ago.
The Keeling curve tracks the changing carbon dioxide concentration in the atmosphere. Observations from Hawaii starting in 1958 show the rise and fall of the seasons as concentrations climb. Scripps Institution of Oceanography

Initially, scientists thought a possible small rise in the Earth’s temperature could be a benefit, but these scientists could not envision the coming huge increases in fossil fuel use. In 1937, English engineer Guy Callendar documented how rising temperatures correlated with rising carbon dioxide levels. “By fuel combustion, man has added about 150,000 million tons of carbon dioxide to the air during the past half century,” he wrote, and “world temperatures have actually increased ….”
A warning to the president in 1965, and then …

In 1965, scientists warned U.S. President Lyndon Johnson about the growing climate risk, concluding: “Man is unwittingly conducting a vast geophysical experiment. Within a few generations he is burning the fossil fuels that slowly accumulated in the earth over the past 500 million years.” The scientists issued clear warnings of high temperatures, melting ice caps, rising sea levels and acidification of ocean waters.

In the half-century that has followed that warning, more of the ice has melted, sea level has risen further and acidification due to ever increasing absorption of carbon dioxide forming carbonic acid has become a critical problem for ocean-dwelling organisms.

Scientific research has vastly strengthened the conclusion that human-generated emissions from the burning of fossil fuels are causing dangerous warming of the climate and a host of harmful effects. Politicians, however, have been slow to respond. Some follow an approach that has been used by some fossil fuel companies of denying and casting doubt on the truth, while others want to “wait and see,” despite the overwhelming evidence that harm and costs will continue to rise.

In fact, reality is now fast overtaking scientific models. The megadrought and heat waves in the western U.S., record high temperatures and zombie fires in Siberia, massive wildfires in Australia and the U.S. West, relentless, intense Gulf Coast and European rains and more powerful hurricanes are all harbingers of increasing climate disruption.

The world has known about the warming risk posed by excessive levels of carbon dioxide for decades, even before the invention of cars or coal-fired power stations. A rare female scientist in her time, Eunice Foote, explicitly warned about the basic science 165 years ago. Why haven’t we listened more closely?


Neil Anderson, a retired chemical engineer and chemistry teacher, contributed to this article.

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

O que podemos descobrir dentro de uma pena?


É fácil esquecermo-nos das coisas que não vemos. A menos que a coisa seja um coronavírus e estejamos em plena pandemia. Um grande toque de despertador que este vírus nos trouxe, foi a consciência de que há um mundo invisível aos nossos olhos que pode controlar a nossa vida. Mas este artigo não é sobre vírus. É sobre outra ameaça à nossa saúde que não podemos ver a olho nu. E sobre uma forma surpreendente de conseguirmos ampliá-la.

Todos os dias estamos em contacto com milhares de pequenos inimigos que tendem a acumular-se no nosso corpo. São elementos e compostos químicos, poluentes microscópicos que não podemos ver nem sentir, mas que podem silenciosamente afetar o nosso bem-estar. Há poluentes que sempre existiram no nosso planeta, como o mercúrio expelido pelos vulcões. Outros poluentes foram criados em laboratório, como o DDT, o primeiro pesticida sintético que se tornou famoso pelo seu êxito a controlar insetos. Estamos cercados por mais de 100.000 compostos químicos de uso corrente, mas só conhecemos bem menos de 2% desses compostos. Apanharmos estes poluentes antes que eles nos apanhem a nós pode ser um autêntico jogo da cabra-cega. Sobretudo se estivermos durante muito tempo em contacto com pequenas doses desses poluentes, tão pequenas que são incapazes de causar sinais óbvios de envenenamento.

Só damos por um problema se conseguirmos vê-lo. Foi por notarmos o desaparecimento de muitas aves na década de 1950 que nos apercebemos dos efeitos negativos do DDT. Alertada pela sociedade, a ciência juntou 2+2 e provou que o DDT diminuía a espessura da casca dos ovos e que, por isso, as aves não se reproduziam bem. Como resultado, o uso do DDT na agricultura foi proibido e as aves voltaram a aumentar.

As aves e outros seres vivos que vemos à nossa volta são sensíveis às ameaças que também são as nossas e podem dar-nos pistas para problemas que não conseguimos ver. Por exemplo, predadores como a coruja-das-torres, que se alimenta principalmente de ratos nos campos agrícolas, podem servir de lupa para ampliar os poluentes que poderemos encontrar no nosso prato.

Os predadores comem outros animais que, por sua vez, já comeram outros animais ou plantas. Ao estarem no topo das cadeias alimentares, os predadores acumulam mais os poluentes do que as suas presas. Se uma coruja comer 1.000 ratos num ano, vai acumular os poluentes que estavam em todos esses ratos! A isso chama-se bioampliação. E uma forma de medirmos a quantidade desses poluentes é… nas penas!

As penas funcionam como um reservatório para os poluentes que circulam no sangue no momento em que a pena está a crescer. Depois de completamente formada, a pena deixa de estar irrigada e os poluentes acumulados durante o crescimento ficam presos no seu interior. As aves mudam as penas regularmente, o que também é uma forma de eliminar os poluentes que entram no seu corpo.

As penas são mais fáceis de conservar do que o sangue ou outros tipos de amostras que também podemos usar para medir poluentes. Por isso, as coleções de penas guardadas em museus ao longo de décadas permitiram-nos medir poluentes que existiram quando ainda nem tínhamos forma de os analisar.

Hoje, as penas da coruja-das-torres dizem-nos que o DDT e outros pesticidas proibidos há mais de duas décadas ainda permanecem nos nossos campos agrícolas. Dizem-nos também que em algumas zonas do país existem menos destes poluentes do que noutras, o que nos pode dar pistas para percebermos o que ajuda a eliminá-los do ambiente. Sabia que numa pena cabia tanta informação?

Da próxima vez que vir uma coruja lembre-se disto.

Autora: Inês Roque, doutorada em biologia e investigadora no LabOr – Laboratório de Ornitologia do MED – Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento da Universidade de Évora. O seu trabalho de investigação centra-se na ecologia e conservação de aves de rapina noturnas (corujas e mochos) e, em particular, na sua relação com o ser humano. O seu fascínio pela comunicação de ciência levou-a a fundar a Ambios Portugal, uma ONG dedicada à difusão da cultura científica e ao envolvimento da sociedade na ciência.