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sábado, 24 de janeiro de 2026

Hilariante - A paródia e a amostra que Donald Trump é mesmo ignorante


Esta sexta-feira, a Casa Branca publicou uma nova montagem que mostra que ou Donald Trump não sabe que não existem pinguins na Gronelândia ou que, no limite, pensa levar estes animais para o território.

“Abracem o pinguim”, lê-se na descrição da fotografia publicada esta sexta-feira na conta oficial da Casa Branca na rede social X. Na imagem, vê-se Donald Trump a caminhar ao lado de um pinguim, que carrega na sua mão uma bandeira norte-americana. As pegadas de ambos — note-se, de iguais dimensões — caminham até às montanhas, onde se encontra uma bandeira da Gronelândia.

Os pinguins encontram-se apenas no Hemisfério Sul, com a sua maior população na Antártida. A Gronelândia fica no Hemisfério Norte.

sábado, 11 de outubro de 2025

Dia Internacional da Rapariga

Hoje é Dia Internacional da Rapariga  , data instituída pela ONU em 2011, com o objetivo de promover a proteção dos direitos das raparigas de todo o mundo e de acabar com a vulnerabilidade, a discriminação e a violência de que muitas vezes são vítimas.
As Raparigas são mais "altas" do que elas próprias pensam. E o Mundo tem de lhes dar mais atenção porque (segundo dados da ONU):
  1. Existem 1,1 mil milhões de raparigas no mundo.
  2. Uma em três raparigas casa antes dos 18 anos nos países em desenvolvimento, o que aumenta a probabilidade de violência pelo parceiro.
  3. 700 milhões das mulheres de hoje casaram antes dos 18 anos e um terço destas casou antes dos 15 anos. As raparigas pobres têm 2,5 vezes mais hipóteses de casar na infância do que as raparigas ricas.  
  4. 7 milhões de raparigas menores engravidam por ano nos países em desenvolvimento.
  5. 40% das gravidezes não são planeadas, com grande parte deste número a resultar de violações.
  6. Mais de 3 milhões de grávidas não têm acesso a planeamento familiar e cerca de 40% das jovens procuram contracetivos sem êxito.
  7. Entre 100 a 142 milhões de raparigas terão sido submetidas a mutilação genital.
  8. 31 milhões de raparigas em idade de escola primária e 34 milhões em idade do secundário não vão à escola, números que pecam infelizmente por defeito.

sábado, 11 de maio de 2024

Jornalista José Vegar - Pobreza cultural e ideológica da extrema-direita nacional


É extremamente curioso ver o desacerto estratégico, que revela de imediato a actual pobreza cultural e ideológica, da extrema-direita nacional ao atacar emigrantes magrebinos no Porto.
Como qualquer cidadão minimamente informado sabe, os argelinos e marroquinos, embora tendo agência pessoal, isto é, vontade e capacidade de decisão, não são o alvo da extrema-direita, mas apenas a peça executora e controlada de um contexto global económico e social.
Por outras palavras, os alvos da extrema-direita nacional, se esta estrategicamente os escolhesse, e os decidisse combater, nos únicos formatos admissíveis, que são os fixados na Lei e na Constituição, e nunca pela acção directa violenta, são o coordenador da rede emigratória, o proprietário do imóvel, no caso onde os magrebinos foram atacados em casa, e o empregador.
Sendo estes os alvos, a extrema-direita nacional enfrenta um enorme problema, e talvez o exercício de violência sobre os emigrantes magrebinos não seja sinal de um desacerto estratégico, mas antes de uma impotência e de um desespero na acção, o que é ainda mais grave para os seus ideólogos e militantes.
Na verdade, os alvos que elenco são inacessíveis para a extrema-direita nacional, cada um pela sua razão.
O coordenador da rede internacional migratória é-lhe desconhecido, sendo apenas um dos milhares de operadores que dão materialidade e execução aquilo que hoje se chama “a economia do biscate” (gig economy) que assenta, essencialmente no fornecimento de mão de obra barata, maioritariamente não ocidental, aos mercados dos países desenvolvidos.
Ou seja, em Portugal fornece a mão de obra à hotelaria, distribuição, construção, agricultura, pequeno comércio e bem-estar físico, noutros países desenvolvidos a outros nichos do mercado, como é o caso da carne nos EUA e na Alemanha.
O proprietário do imóvel e o empregador, na esmagadora maioria dos casos sócios de pme´s, são intocáveis para a extrema-direita, porque, teoricamente, mas não na realidade nacional, são a sua base de apoio sociológica.
Por último, e mais uma vez basta ler a abundante literatura científica disponível, não é o emigrante magrebino, como não é o emigrante brasileiro, paquistanês, africano ou nepalês, que estão no terreno a roubar o trabalho ao cidadão nacional.
O emigrante ocupa o posto de trabalho porque aceita trabalhar com remuneração e direitos extremamente inferiores aos dos cidadãos nacionais, e caso essa força de trabalho não estivesse disponível, os postos de trabalho seriam extintos, ou substituídos pela tecnologia e pela deslocação da operação, sendo este o caso gravíssimo da manufactura nos EUA, que em muito explica a delirante, mas abundante, base de apoio de Trump.
Sendo este o contexto, os actos violentos no Porto não são mais do que, no ângulo político, tontices imaturas, e, no ângulo legal, crimes.
Ou seja, a extrema-direita nacional está totalmente encurralada.
Vasculhando o seu património cultural e ideológico, poderia apoiar-se no tradicionalismo moral, no nacionalismo, no patriotismo, na ordem e segurança, e no racismo.
Mas não o pode fazer por duas razões, uma de ordem cultural, outra de ordem posicional.
No caso do tradicionalismo moral, assenta na família monogâmica heterossexual católica perpétua, não tem qualquer base demográfica de suporte, especialmente em meio urbano, porque esta é uma das áreas onde os cidadãos nacionais mais abandonaram os valores tradicionais católicos.
No caso do nacionalismo, a pertença nacional à União Europeia, por um lado, a dependência de várias cadeias mercantis globais, e a ausência de um inimigo directo, tornam a causa impopular para a população.
O patriotismo é também uma causa de complexa criação de exaltação nos cidadãos, tanto porque é imaterial, como porque é impraticável, no caso da obtenção de capital e de mão de obra, e também dado que, infelizmente, a sua manifestação activa banalizou-se, seja nos cantos dos estádios, seja nas reivindicações profissionais.
Hoje, de novo infelizmente, canta-se o hino por qualquer razão menor.
Resta então à extrema-direita o racismo, que mais uma vez não tem massa demográfica de apoio, e todo o universo da Ordem e da Segurança.
Infelizmente para a extrema-direita nacional, o Chega, com visão estratégica, ocupou todas as dimensões da ordem e da segurança, da corrupção dos políticos ao menosprezo cultural pelas forças de segurança.
Seguindo os extremos políticos e sociais desde 1989, os de esquerda e direita, dos de ideário apenas político aos de agenda ecológica, não vejo nenhuma entidade mais encurralada que a extrema-direita nacional.
A extrema-esquerda tem uma causa poderosa, a da luta contra o capital global e contra os efeitos da sua implacabilidade, e os movimentos de agenda social, dos ecológicos aos de defesa dos direitos das minorias, um apoio demográfico em crescendo.
A extrema-direita nacional continua como começou em democracia, por volta de 1986.
Nunca soube criar uma agenda política que a fizesse respeitada e apoiada, caindo sempre na tentação de se transformar em grupo de violência que mata, magoa e fere.
É uma pena, porque, ao contrário do que muitos defendem em Portugal, continuo a ter a crença que todas as culturas, formas e formações políticas e sociais extremas têm lugar em democracia e contribuem, mesmo que não o queiram e desprezem a democracia, para tornar melhor uma sociedade democrática.
É que discutir uma ideia faz-nos sempre ganhar mais conhecimento.

domingo, 31 de março de 2024

Kyrie, de José Carlos Ary dos Santos


Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.

Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.

Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.

Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.

Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

domingo, 31 de dezembro de 2023

Livro para o último dia do ano: Jojo Meyes - As Mensageiras da Esperança

Determinação, coragem, alfabetizar os mais pobres e abrir os horizontes através dos livros e do gosto pela leitura é a conclusão geral quando terminei a leitura deste livro. Kentucky, à época da Grande Depressão, não era um estado fácil.

Esta leitura fez-me lembrar especialmente a série netflix «When Calls the Heart», a crise mineira, os inícios do século XX, as mulheres corajosas que têm de enfrentar tudo no mundo, muitas sozinhas, viúvas, cheias de filhos, fome e pobreza, solteironas e mulheres "diferentes", párias da sociedade.
Empregos, vidas, situações que é simples para um homem e tido como garantido, é extremamente difícil para uma mulher conseguir, que é tida como pertença do homem, mera máquina de ter filhos, de arrumar e lavar, e ai da mulher que se atreva a ser diferente ou a desafiar as pressões sociais, tais como a obrigatoriedade de ser casada e de ter filhos, caso contrário, se não se casar é uma rejeitada da sociedade, ou mesmo galdéria, e se não tem filhos não vale nada como mulher...

E o que mais me deliciou nesta leitura foi a irmandade das bibliotecárias a cavalo, amizade verdadeira, com as respectivas discussões, alegrias e tristezas, sem falsidades, os livros mencionados e o drama destas pequenas comunidades, pobres, incultas e muitos analfabetos, extremamente religiosos - a roçar o fanático - que olhavam para todos os livros que não fossem a Bíblia com desconfiança. Também me encantou a coragem destas mulheres de não só a percorrerem quilómetros sem fim, fizesse chuva ou sol, a cavalo, por trilhos muito perigosos, para irem aos locais remotos onde vivam os mais pobres para lhes levar livros, muitas vezes sendo maltratadas, ofendidas, mal recebidas, lidarem com a desconfiança e conseguirem dar a volta a estas pessoas para darem uma oportunidade à literatura, especialmente conseguirem a autorização dos pais para que os seus filhos pudessem ler livros, aprenderem a ler e incentivar a deixar os filhos irem à escola, é fabuloso, verdadeiramente mulheres com M grande!
Conheça a história verdadeira do Pack Horse Library Project
E uma inspiração para o novo ano.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Dia de nascimento de Kateryna Bilokur



Hoje é o aniversário da grande artista ucraniana – Kateryna Bilokur (1900-1961). Ela poderia ter sido mais reconhecida durante a sua vida, mas não foi porque era mulher e camponesa. Mas agora podemos celebrar a arte dela como ela merece!

Biografia

quarta-feira, 19 de julho de 2023

António Aleixo


A obra do poeta popular algarvio é impactante, no que respeita à renovação de mentalidades de todo um país. A sua mordaz crítica social está longe de se esgotar no seu tempo.

Cauteleiro, guardador de caprinos, tecelão, guarda, servente, cantor popular em tempo de feira, homem de mil ofícios e de improvisos… esperançoso emigrante.

António Aleixo, revela-nos a dimensão do sábio longe da erudição. Como quem esgravata invulgarmente a terra, e sabe, de forma rigorosa, condensar a complexa vida em redor.

Viveu inúmeras misérias e desgraças.

Simultaneamente conhecedor e humilde, resistiu, cultivando forte personalidade.

Poderia ser mais um entre tantos outros injustiçados

É especialmente a visão da vida em epítome que o eleva à paridade com reconhecidos génios literários.

No seu legado, a simplicidade do homem confunde-se com as interrogações. Talvez devido aos inúmeros absurdos de amarguradas batalhas, umas vezes de forma algo merencória, outras emprestando mordacidade chistosa que tão bem o define.

Por vezes caricaturado, sempre ciente do quão abrangente é a caricatura.


O maior poeta popular, senão vejamos...
Aleixo tinha sido convidado para cerimónia de gala, mas como não tinha roupa apropriada para esse momento solene, foi-lhe emprestado por um amigo um bonito fraque de cerimónias, as respectivas calças e camisa, e os sapatos riscados de branco e preto.
Terminada a cerimónia de gala, António Aleixo foi devolver a roupa emprestada ao seu velho amigo, e de improviso saiu-lhe este desabafo em forma de quadra:

Ontem Rei, hoje sem trono,
Cá ando outra vez na rua;
Entreguei a roupa ao dono
E a miséria continua.
António Aleixo

sábado, 20 de maio de 2023

Sobre o Estado da Arte da Música Portuguesa - as tardes de sábado e domingo nas televisões


Uma reflexão minha sobre o péssimo estado da arte da Música Portuguesa. Os canais televisivos aos sábados e domingos carregam-nos com artistas pimba ao fartote. Impressiona a quantidade de músicos pimba que existem Um absurdo. Lesam a minha inteligência e fico perplexo como a jumentude do séc. XXI (às vezes tenho a impressão que cantam por cantar- só querem o dinheiro ao fim do mês) se presta a esta mediocridade. São como cogumelos. Surgem todas as semanas mais e mais enteados de Tony Carreiras, Marcos Paulos e afins deste cantinho luso, que eu julgava que tinham desaparecido. Mas não, as televisões malham-nos em cima com pimba. Letras amorfas, sem riqueza de figuras de estilo, nada. NADA. Enfim...Todos horríveis. Saudades da Dona Rosa. Sabem onde ela anda? Tão doce e tão querida.

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Agrotóxicos: um "Atlas" global expõe o desastre


Um Atlas Mundial, agora publicado, expõe uma série de dados sobre esses produtos tóxicos. As mulheres são vítimas inocentes do uso de agrotóxicos no mundo.´

Principais dados:

1 — O consumo de pesticidas no mundo aumentou 80% desde 1990
A União Europeia gostaria de reduzir o consumo de agrotóxicos para metade até 2030. Em França, o plano Écophyto tinha esse objetivo. Mas tanto em França como na União Europeia, o consumo está estagnado em vez de cair. Em outras partes do mundo, determinados continentes concentram o aumento do consumo. Na América Latina, mais que dobrou (+119%) entre 1999 e 2020. No mesmo período, a África aumentou o seu consumo em 67%. A União Europeia garante a proibição dos pesticidas mais perigosos. No entanto, isso não a impede de continuar a fabricá-los no seu território e exportá-los. O Reino Unido, a Alemanha e a Itália são os três maiores exportadores desses pesticidas proibidos na Europa por serem muito perigosos. Eles são vendidos principalmente no Brasil, Ucrânia e África do Sul. Enquanto 195 pesticidas considerados "extremamente perigosos" pela ONG Pesticide Action Network são proibidos na UE, apenas 20 são proibidos no Mali, 19 na Nigéria, 18 na Argentina.


2 – Quatro empresas controlam 70% do mercado global de agrotóxicos
A indústria de agrotóxicos está concentrada nas mãos de um punhado de empresas. Syngenta, Bayer, Corteva e BASF controlavam 70% do mercado global de pesticidas em 2018 (contra 29% 25 anos antes). As mesmas detêm 57% do mercado de sementes. O mercado de pesticidas cresce 4% ao ano desde 2015 e pode atingir os 130,7 mil milhões de dólares (120 mil milhões de euros) em 2023. Mas "a rentabilidade do setor dos pesticidas seria atualmente impossível sem o apoio público e a cobrança coletiva dos impactos negativos", estima o Atlas. Calcula ainda que em França, em 2017, os benefícios da indústria dos pesticidas atingiram 200 milhões de euros a mais do que as despesas por eles geradas (poluição das águas, tratamento das doenças que provocam, etc.) custaram 372 milhões de euros. Ou seja, quase duas vezes mais caro.

3 – 80% dos solos europeus estão contaminados
Na Europa, as análises mostraram que em 317 canteiros agrícolas testados, mais de 80% continham resíduos de pesticidas. A água também está contaminada. Segundo um estudo da Agência Europeia do Ambiente, cerca de um terço das estações europeias de monitorização das águas superficiais apresentaram níveis de pesticidas superiores aos limites nacionais entre 2013 e 2019. No ar, foram encontrados resíduos de pesticidas a mais de 1.000 quilómetros de seu local de aplicação.

4 – As mulheres estão mais expostas aos perigos dos pesticidas
As mulheres, menos alfabetizadas no mundo, portanto menos capazes de ler rótulos e conselhos de aplicação, são mais vulneráveis ​​aos pesticidas, aponta o relatório. Por exemplo, no Nepal, 53% dos agricultores do sexo masculino lêem e entendem os rótulos, em comparação com 25% das agricultoras. No Gana, 65% dos agricultores do sexo masculino conhecem os pesticidas proibidos, em comparação com 5% das agricultoras.

5 – Mudar o sistema agrícola custaria menos
“É todo o sistema agrícola e alimentar que precisa de ser mudado”, explica Mathilde Boitias, diretora da Fábrica Ecológica e coordenadora do Atlas. A agricultura orgânica é a única que garante a não utilização de agrotóxicos sintéticos. A União Europeia gostaria de triplicar o número de quintas orgânicas até 2030. Isso custaria 1,85 bilião de euros por ano, menos do que os custos sociais ligados aos pesticidas, sublinha l'Atlas.

Fonte: Reporterre

quarta-feira, 17 de maio de 2023

António Barreto é mesmo facho


Olha, olha. Logo António Barreto a dizer uma alarvidade, quando no período em que fala exilou-se na Suíça, para fugir à Guerra Colonial e tirar lá o seu Doutoramento em "Sociologia".

Fonte: aqui

terça-feira, 21 de março de 2023

Documentário: “RBUI, nosso direito de viver”


O Documentário “RBUI, nosso direito de viver” fala sobre o direito de subsistência de todos os seres humanos pelo simples fato de ter nascido. Essa ideia já tem história mas começou a se propagar fortemente nos últimos anos, principalmente pelo fato da   tecnologia passar a ser uma ameaça que pode deixar a maioria da população sem emprego para cobrir suas necessidades. O documentário está montado principalmente a partir das entrevistas realizadas aos fundadores de uma rede, que leva mais de trinta anos trabalhando por esta ideia, mas também a académicos e ativistas, que nos contam as suas atividades e experiências ao redor do mundo.

Este filme, realizado por Álvaro Orús, promovido por Pressenza e pelos Humanistas pela Renda Básica, foi estreado no Fórum Europeu de Madrid, em maio de 2018, e até ao momento foi traduzido em sete línguas e apresentado em vários continentes.

Lembramos que este filme explica em 41′ o que é a renda básica, o que não é, que diferenças existem com o rendimento mínimo (ou para as pessoas pobres), os avanços em relação a difusão da ideia, as experiências piloto, possíveis consequências da sua implementação, as maiores dificuldades para sua concretização, etc.

Fruto do trabalho coletivo e voluntário do diretor, Álvaro Orús, do músico David Bazo, de diferentes pessoas que tem traduzido, dado a voz, difundindo, etc, trata-se de um documento essencial para descobrir o que cada vez mais pessoas reivindicam como direito universal, o que deveria ser o primeiro direito universal porque trata-se do direito à subsistência. Algo que hoje é possível devido à riqueza acumulada, que cada dia cresce graças aos avanços tecnológicos, que produzem, por outro lado, cada vez menos emprego.

De maneira que, se devido aos avanços tecnológicos, há cada dia menos empregos remunerados ao mesmo tempo que se gera mais riqueza, a humanidade vê-se diante de uma pergunta: como se resolverá a subsistência de uma percentagem crescente da população, se não se questiona a relação salário-subsistência?

Na “RBUI, o nosso direito de viver”, reivindica-se que essa riqueza – consequência do trabalho de gerações ao longo da história, mais a contribuição de toda a população mundial atual – começa a ser distribuída através de uma renda básica universal (para toda a população), incondicional (independentemente dos recursos de cada um), individual (para cada pessoa pelo fato de ter nascido) e suficiente (para permitir que uma pessoa tenha assegurado sua subsistência).

Como financiar essa renda básica, que neste momento seria paga através dos governos, é um tema de debate, embora boa parte das propostas visem aumentar os impostos para aqueles que mais tem, o que seria uma medida de justiça social, ao começar a redistribuir os lucros que poucos recebem pela contribuição de todos.

Promovido por Pressenza e pelos Humanistas pela Renda Básica, o filme foi estreado no Fórum Europeu de Madrid, em maio de 2018. O filme percorreu alguns países e continua a ser apresentado em cinemas, congressos e fóruns… foi traduzido em sete línguas (espanhol, inglês, francês, alemão, italiano, grego e português).

Hoje convidamos-lhe a aproveitar e a aprender o que é a renda básica, para que não continue a ser enganado quando se utiliza este termo para falar de rendimentos mínimos ou rendimentos para pobres.

Saber mais:

segunda-feira, 20 de março de 2023

D. Matilde, a doce


Conheci a D. Matilde, nossa caseira (assim se chamavam antigamente os inquilinos) tinha ela 54 anos. Não sabia o ano de nascimento, porque os pais não a baptizaram, mas gostava de pensar que nasceu em 1918, no fim da Guerra. Não me falava muito dos seus pais. Sabia que o pai andou na Guerra e foi filha única. Uma infância triste, pois brincava sozinha todo o ano, à excepção de Agosto, em que a casa de infância se enchia de primos.

Jurou que quando casasse teria muitos filhos. E assim foi. Tinha 15 anos, cabelos loiros, morena, sorridente e olhos azuis, atraía muitos pretendentes. Rejeitou um militar, um polícia e até um estudante de filhos ricos. Conheceu o marido, pedreiro e fadista, de origem alfacinha, numa festa de baile. Dançava a valsa como ninguém. Foi amor assolapado. Tiveram 7 filhos, todos varões. Enviuvou cedo. Tinha apenas 35 anos. A doença dos mineiros, a silicose. Dos sete filhos, 4 zarparam para França.

Prometiam regressar no Natal, para a ver. Os anos passaram, nem telefonemas, nem cartas. Não sabia nada deles. Os outros 3 ficaram, mas só o Fernando a visitava. D. Matilde, agora era uma viúva, toda de escuro, que vivia numa casa-quarto muito escura. Sem electricidade nem água canalizada. Ia tomar banho a uma vizinha no andar de cima, mais ou menos uma vez por semana. Para entrar na casa dela, os meus olhos tinham que se adaptar à escuridão e só depois lá via a sua figura franzina. Cintinha de vespa (quem diria que nasceram 7 filhos?) e a cama, a candeia e a panela de ferro.

Fazia ensopados e sopas como ninguém. Trabalhou na agricultura. Agora, são as vizinhas que a socorrem. Está cansada. 45 anos de trabalho agrícola e de feirante esgotaram-na. Mas sempre que me via, tinha que provar os seus cozinhados. Fazia questão. E que saborosos eles eram. A sopa de favas, de ervilhas, de tomate, de abóbora e couves e feijão eram as minhas favoritas. Quando ela fazia ensopados de borrego ou de coelho, guardava para mim. Depois da Escola, passava por lá, interesseiro, mas ela gostava. Não se importava nada. Aquecia e dava-me o manjar dos deuses.

O Fernando era alto. Não saía à mãe em altura mas ostentava cabelos loiros. Meio-careca. Tinha problemas de álcool. A aldeia ficou em choque, certo dia. A má nova: Fernando, numa noite de muita chuva tinha morrido afogado numa poça num bosquete ali perto. Choramos todos.
D. Matilde nunca mais foi a mesma. Foi morrendo aos poucos. Deitava-se de acordo com as estações do ano. Às 17.00, durante o Inverno. Às 20.30 ou mais tarde um pouquinho, no Verão. No dia seguinte era ouvi-la a falar com os galos, logo às 6-7 horas da manhã. No dia 15 de Agosto de 1975, deitou-se às 18.30. Nunca mais acordou.
Pintura: Salvadore Mangione

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

No Dia Internacional da Língua Materna: A Língua Mirandesa


Deixo aqui uma palavrinha de homenagem à outra Língua Materna de Portugal: a Lhéngua Mirandesa.

Tive o muito gostoso privilégio de ter chegado à «mãe do Mirandês» (oficial, actual) pela mão de um dos seus "pais" mais brilhantes. Ela é Professora Manuela Barros Ferreira, minha muito querida mestra e amiga; ele é o incrível mirandês de Sendim, o dr. Amadeu Ferreira. Foi o próprio Amadeu Ferreira quem baptizou a Professora Manuela como a mãe da Lhéngua Mirandesa.

Foi também ele quem escreveu um dia assim: «Tengo dues lhénguas cumigo / dues lhénguas que me fazírun / i yá nun passo nien sou you sien ambas a dues».

Estes versos fazem parte dum poema de Amadeu Ferreira, que ele cedeu aos Guarani, cumprindo a promessa que um dia ele mesmo se fez: “Fago por poner an prática la seguinte eideia que a mi mesmo m’ampus: nun deixar passar un die sin fazer algo pula lhéngua mirandesa”. Afinal, o Mirandês e o Guarani empenham-se no mesmo combate: manter viva a sua língua.

«También la historia de América es la historia de sus lenguas, que tenemos que lamentar cuando ya muertas, que tenemos que visitar y cuidar cuando enfermas, que podemos celebrar con alegres cantos de vida cuando son habladas” (MELIÀ, 2010: 27).

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Retrato de Portugal, por Guerra Junqueiro - tão actual



“Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, – reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta (…)”- Guerra Junqueiro, in Pátria (1896)

Texto completo aqui

Imagem da Capa: Caricatura de D. Carlos I, por Celso Hermínio. Originalmente publicada no n.º 6 do semanário humorístico O Berro.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Livro- Misericórdia, de Lídia Jorge


Livro imperdível. Um pouco autobiográfico. Fala dos velhos, mas as personagens que entram na vida de Maria Alberta são de uma densidade imensa e são de várias gerações Que bom ler em voz alta para quem já não tem essa capacidade. 

O lar, espaço fechado, também funciona como uma grande metáfora do que será, ou, já é a Europa. Um território de transição. Com imigrantes, problemas de natalidade. A crise Ucrânia - Rússia, a pandemia. Podemos refletir também sobre a juventude e a criança. 

O destino do ser humano não pode ser o cinismo. O cinismo só conduz a uma luta autodestrutiva que é o darwinismo social. Só esperamos que os seus defensores saiam sempre derrotados. 

É esta mensagem forte deste fabuloso romance.

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Sobre Grafia e Línguas Ágrafas


Escrever traz riscos. Falar é menos arriscado. As palavras escritas ficam; os diálogos orais permanecem durante a noite na memória por um tempo, então desaparecem ou ficam distorcidos. Mas a oralidade é relevante. A sabedoria, os cantares permanecem. Mas realmente a oralidade é diferente do que pegar na caneta e escrever ou ser escrito. A palavra escrita, ao contrário da oral, não desaparece, ela permanece: pode ser lida e relida. Escusado será dizer que não desprezo os diálogos orais ao telefone ou através dos (quase) inúmeros gadgets actuais. Escusado será dizer também que amo a nossa oralidade e dos povos indígenas ou das tradições ágrafas que chegaram aos nosso dias. Escusado será dizer que adoro as pronúncias. As diferenças nos sons e até palavras, seja em Português, Francês, Inglês, Galego e Irlandês e até Castelhano- que são as que conheço melhor. Fascina-me o Gaélico, o Basco, o Italiano, o Romeno, o Húngaro e o Alemão (quero ver se ainda em vida tiro um curso nesta língua- apaixona-me os seus diferentes filósofos e os poetas).Fascina-me o Grego e o Latim. Fascina-me a grafia milenar Chinesa, Islâmica e Japonesa. Fico triste sabendo que, de acordo com a ONU, em cada três semanas desaparece uma língua: como seria ao ouvido? que cultura tinha? que magia dos sons perdida? que mitos e lendas teriam? que histórias se perderam.

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

John Clare - um poeta maior


Se já é duro ser poeta contemporâneo de Blake, Byron, Burrns, Coleridge, Keats, Shelley e Wordsworth, imagina então frequentar o terreno lírico proveniente da ralé interior. Esse é, sem tirar nem pôr, o drama de John Clare (1793-1864).
Nasceu em Helpston, este The Northamptonshire Peasant Poet. Começou a trabalhar na agricultura ainda em criança, depois foi garçon no bar Blue Bell. Também trabalhou como jardineiro, acampou com ciganos, foi queimador de cal. De saúde precária, mal alimentado, socorreu-se nas paróquias locais. A leitura de The Seasons, de James Thomson, levou-o a escrever os primeiros poemas. Em 1820, sai o seu primeiro livro: Poems Descriptive of Rural Life and Scenery. Não podia ter um título mais adequado. É precisamente isso o que caracteriza grande parte da poesia do primeiro dos três bardos antologiados e traduzidos por Ricardo Marques em Três Bucólicos Ingleses (Elysium, Setembro de 2020): uma poesia descritiva da vida rural, com suas cenas, paisagens, lugares, pessoas, trabalhadores, com sua fauna e flora, as Lebres a brincar, A raposa, a Névoa nos prados, os Estudantes no Inverno.

Clare foi muito elogiado pelos seus poemas iniciais. Casou-se nesse mesmo ano de 1820. Dividido entre os saraus literários londrinos e o analfabetismo da vizinhança, passou por graves momentos de depressão. Perdeu a aura inicial, afogou-se em álcool, procurou refúgio num asilo para doentes mentais. Dizia-se Lord Byron, dedicando-se a reescrever os poemas deste. Também dizia ser Shakespeare, o génio da Renascença, mas no magnífico poema Eu sou!, é perceptível a frustração: «Eu sou o que se consome com os seus problemas». Sentia-se desprezado e abandonado pelos amigos. 

Como referi a sua vida foi um verdadeiro desfile de tragédias e misérias. Primeiro as económicas - família pobre, sem recursos sequer para propiciar-lhe uma educação formal razoável -  depois as afetivas, novamente económicas, até as sociais - internado num asilo em 1837, aí e permanece por quatro anos, fugindo em julho de 41 ("He walked the 80 miles to Northborough, penniless, eating grass by the roadside to stay his hunger", diz a sempre contida Encyclopeadia Britannica);  no final desse ano, é declarado louco e passa os últimos 23 anos de vida num hospício, escrevendo com impulso lírico estranhamente insaciável, algumas das suas melhores poesias.

Teve a Natureza como tema central em seus poemas, sempre louvando-a ou lamentando a sua destruição. Seria um activista ambiental nos nossos dias.

Publicou três livros em vida, nenhum dos quais chegando a render muito, nem crítica ou dinheiro.

Foi redescoberto no séc. XX por Arthur Symons, que em 1908 incluiu-o numa seleção de poetas britânicos. A sua fama e mérito e respeito foi aumentando. Um dos poemas de John Clare serviu de inspiração para a Sinfonia da Primavera de Benjamin Britten e, em 1989, 125 anos após sua morte, ele foi homenageado com uma placa no Poet's Corner, na Abadia de Westminster.



 Aqui Patrick Stewart lê o poema "Ao Outono" junto da casa onde John Clare viveu.


E-Livro: Clare´s Poems, by Norman Gale (1901)

Biografia
John Clare [wiki]

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

O Toque de Thanatos

Evelyn De Morgan- Angel of Death (1880)

Não desejo o empresário ou o estado com "toque de Hades", imperando a falsa ideia de pobrete mas alegrete, em que regressa a bufaria, a polícia dos costumes e a censura nas actividades culturais, mais analfabetismo e abandono escolar. Política da terra queimada, sem sindicatos, partido único e ideologia nacionalista ou eugénica. Porém, longe estamos do mítico "toque de Midas",  em que os ricos ainda pensavam em responsabilidade social, partilhavam por entre os trabalhadores os lucros da sua empresa, aumentando os salários dos funcionários, promovendo bolsas de estudo para que os filhos dos seus trabalhadores prosseguissem estudos, prémios de estímulo ao desporto e actividades culturais.  E contam-se pelos dedos das nossas mãos empresários com este ideal. Agora? Até a partilha é negócio, com a uberização da sociedade. Agora? Temos os super-ricos que realmente estão a desregular mercados, abalar as democracias, incentivar o discurso do ódio e do racismo, em particular. São causadores do aparecimento de conflitos religiosos e armados e pagam mercenários para impôr os seus desejos e ambições desmedidas de dinheiro e poder . Interferem directamente na soberania dos estados e no  bem-estar de nações inteiras. Um multimilionário emite um milhão de vezes mais gases com efeito de estufa do que o cidadão comum, denuncia Oxfam. Têm o "toque de Thanatos". Onde tocam com as suas actividades transformam tudo em deserto, mais desmatamento, mais poluição, mais herbicidas (para combater as ervas daninhas dos campos de transgénicos), mais fome, mais pobreza, muito suicídio. Schumpeter, teórico do desenvolvimento económico em que estamos mergulhados, questionou no fim de vida os seus princípios. Fico muito contente em saber que  Professores e Investigadores apoiam ocupações da Greve Climática Estudantil. Apoio o movimento M.A.E

Leituras adicionais
  1. Can Capitalism Survive? Ben Rogge on Capitalism's Future by Dwight R. Lee
  2. Edição Especial do Boletim da ECOECO, nº 41- Limites Biofísicos ao Crescimento - Esta edição especial do Boletim da ECOECO trata do tema “Limites biofísicos ao crescimento da Economia: 50 anos depois”, o qual tem raiz na publicação do livro de Georgescu-Roegen The Entropy Law and the Economic Process e no Relatório do Clube de Roma, Limites do Crescimento.

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

A Escola - por Paulo Freire

"Ninguém liberta ninguém. As pessoas se libertam em comunhão." ~Paulo Freire

Escola é...
o lugar que se faz amigos.
Não se trata só de prédios, salas, quadros,
Programas, horários, conceitos...
Escola é sobretudo, gente
Gente que trabalha, que estuda
Que alegra, se conhece, se estima.
O Diretor é gente,
O coordenador é gente,
O professor é gente,
O aluno é gente,
Cada funcionário é gente.
E a escola será cada vez melhor
Na medida em que cada um se comporte
Como colega, amigo, irmão.
Nada de “ilha cercada de gente por todos os lados”
Nada de conviver com as pessoas e depois,
Descobrir que não tem amizade a ninguém.
Nada de ser como tijolo que forma a parede, indiferente, frio, só.
Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar,
É também criar laços de amizade, É criar ambiente de camaradagem,
É conviver, é se “amarrar nela”!
Ora é lógico...
Numa escola assim vai ser fácil!Estudar, trabalhar, crescer,
Fazer amigos, educar-se, ser feliz.
É por aqui que podemos começar a melhorar o mundo.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Pedro, “vem-te”


Estamos em 1976. Na aldeia onde vivi, Lamaçães (Pedroso- Gaia), na rotunda, existe um cruzeiro medieval que anunciava este povoado como roteiro dos padres beneditinos até ao Mosteiro de Pedroso.
Em frente a ele e ao cimo da minha rua estava uma casa por alugar, há uns anitos. De repente, ou seja, de madrugada, chegou uma novidade. Ninguém ouviu nada, mas certamente que foi durante a madrugada que os novos habitantes fizeram a mudança com uma Citroën  2cv com móveis e bens que eram da D. Mariana e do pequenito Pedro.

De manhã, sábado, ainda me lembro, surgiu da casa a D. Mariana. A aldeia em peso ficou chocada. Era uma jovem, teria 26 anos e destacou-se logo por ter cabelo curto (?), fumar (?), conduzir (?), mãe solteira (?) e vestir calças (?). Outra revolucionária, comunista e puta!

A minha irmã Cindinha foi a pioneira nessas terras do Demo a usar calças. Pois, em 1965, teve logo a aldeia em peso condenando o seu atrevimento. Chegou a ser agredida e por onde passava insultavam-na. A aldeia também apontava o dedo à minha mãe, costureira, questionando a ousadia de coser essas calças. Era a mocidade, a rebeldia, o querer ser diferente, a idade de afirmação social e de manifestação terrena que está cá na Terra por muitos anos, era gente, mais uma pessoa com ideias na cabeça, pouco se importando perante uma sociedade retrógrada, caduca e bafienta. A minha mãe costurou mais de vinte calças num mês. Depois era hábito e passou a ser novamente a modista da aldeia, alinhavando saias e calças ao mesmo tempo.

A D. Mariana estava a marimbar-se para esta gente. Tinha cursado o 9º ano industrial, culta e lia muito ao fim de semana. Mãe adolescente, nasceu o Pedro. Era feminista. Não esteve com paciência para se subjugar às manias e ordens machistas do seu companheiro. Trataram do baptizado do menino, no Porto e cada um seguiu a sua vida.

Adorava capinar. A casa, que estava cheia de mato e silvas e ervas e jarros e rosas velhas, com um diospireiro ao fundo e uma linda cameleira perto do pátio da casa, ao fim de três meses estava transformada e exibia um terreno lavrado, roseiras novas, um pessegueiro jovem e um limoeiro. A Mariana adorava sumos de limão e de pêssego.

Matriculou o filho na Escola Básica dos Carvalhos e inteirou-se sobre qual era a minha turma. Disseram-lhe não havia vaga. Teve de o matricular noutra. E agora? Horários diferentes, ela a trabalhar, a aldeia em estado de sítio. “Pensa rápido, Mariana, pensa rápido. Fogo, tu consegues. Dás sempre a volta por cima”. Telefonou à mãe. Talvez a minha mãe, professora de várias costureiras, com a criançada a brincar no grande pátio da casa, não se importaria de ficar com o seu filho. E assim foi. A aldeia foi mastigando a intrusa. A aldeia viu que afinal até trabalhava no campo. Foi abrindo gradualmente as portas e deixou-se de impropérios. Estava arrependida. O Pedro brincava comigo, por vezes, pois tínhamos horários distintos.

Mas a aldeia esperava pelo belo momento em que a Mariana, regressando a casa do trabalho, chamava a bons pulmões: “Pedro, vem-te!”. Estalavam sorrisinhos marotos e carinhosos entre as mães da aldeia.