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domingo, 28 de junho de 2026

Esther Abrami - Transmission

“My grandmother was a violinist but stopped her career when she got married. I know she never imagined that her only granddaughter would take up the instrument she had left behind one day. This piece is my way of continuing her story, whilst also telling my own. ‘Transmission’ is about the passing of music through generations. This is the first time I’ve ever recorded one of my own compositions. Merci Mamie de m’avoir mis ton violon dans les mains.”

“Ma grand-mère était violoniste mais elle a arrêté sa carrière quand elle s’est mariée. Je sais qu’elle n’aurait jamais imaginé que sa seule petite fille, des années plus tard, reprenne l’instrument qu’elle avait elle-même délaissé. Cette pièce est ma manière de continuer son histoire, tout en inscrivant la mienne. Transmission parle de la passation de la musique entre les générations. C’est la première fois que j’enregistre l’une de mes compositions. Merci, Mamie, de m’avoir mis ton violon dans les mains.”


A avó de Esther, Françoise Abrami era uma violinista muito talentosa, mas, seguindo os costumes rígidos da sua época, abandonou totalmente a prática e a perspectiva de uma carreira musical assim que casou. A ligação entre as duas começou muito cedo: quando Esther tinha apenas três anos, a avó Françoise deu-lhe o seu próprio violino, que conservava com todo o carinho. Embora Esther só tenha começado a estudar o instrumento a sério por volta dos dez anos, o impacto de ter recebido aquele objeto tão cheio de história moldou o seu destino. 
Infelizmente, a avó Françoise já faleceu, mas a sua memória e o seu sonho continuam bem vivos a cada nota de "Transmission".

Biografia de Ilse Weber

Página Oficial

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Hear the joy and resilience in the music of Terezin at Boston concert

Eighty years ago, when Ilse Weber was imprisoned at Theresienstadt, the young poet and author of popular children’s books composed “Wiegala,” a melodious lullaby with rhyming verses.

The soothing song gave hope and joy to the young children who were also held captive at the Nazi labor camp in the former Czechoslovakia.

Children performed the song, along with others Weber and other musicians composed in concerts that were sanctioned by the Nazis in charge of the camp. Performances were staged for foreign officials and the International Red Cross, part of a sinister ruse to hide the harsh reality of the camp (also known as Terezin) where more than 35,000 Jews died of malnutrition and 88,000 were deported to death camps.

Now, “Wiegala,” along with two of Weber’s other compositions, will ring out from the stage of Symphony Hall at the Terezin Music Foundation’s Nov. 19 annual gala concert.

“Women Artists of Terezin: Until the Song Dissolves These Walls” is being produced and directed by Mark Ludwig, founder and director of the Boston-based foundation. The title is a line from one of Weber’s poems.

The performance features the work of women composers from Terezin championed by Ludwig, a widely acclaimed scholar of music during the death camps and author of “Our Will to Live: The Terezin Music Critiques of Viktor Ullmann.”

Weber’s music is lyrical and captivating, Ludwig told the Journal. “She has a feel for the marriage of words and music, an array of emotions that express longing as well as uncertainty.”

World acclaimed pianist Simone Dinnerstein will perform works by Francois Couperin, Robert Schumann, and Philip Glass.

Cantor Shanna Zell, of Temple Beth Elohim in Wellesley, is the soloist for Weber’s compositions, accompanied by the Brookline High School Camerata under the direction of Michael Driscoll.

Susan and Alan Solomont, Boston-area philanthropists, will receive the Terezin Legacy Award for their support of Holocaust remembrance. Alan Solomont is a former U.S. Ambassador to Spain and Andorra; Susan Solomont, a longtime advocate of women’s causes, is the author of the widely acclaimed book, “Lost and Found in Spain.”

During the concert’s narrative portions, Ludwig, Boston Symphony Orchestra violist emeritus, will shed light on the noteworthy contributions women artists made at Terezin.

Ludwig has been struck by the wide range of the composers, choreographers, and singers from across the spectrum who were central figures in Terezin’s cultural community.

“It’s a remarkable testimony to their talents and generosity of spirit. They wanted to be part of the fabric of that community that was under great duress,” he said.

Weber worked as a nurse in the children’s infirmary at Terezin. She, along with fellow prisoners Regina Jonas – the first woman to be ordained a rabbi – and Friedl Dicker-Brandeis, who taught art to the children, provided comfort and support in those darkest of times.

“It was a form of healing and art as a therapeutic agent,” Ludwig underscored.

Weber was killed on Oct. 6, 1944, at Auschwitz-Birkenau, along with her youngest son, when the 41-year-old volunteered to accompany a transport of children to the death camp. Her husband, Willi, survived Auschwitz. Before the family was deported to Terezin, she had arranged through a friend for their older son, Hanuš, to be rescued from Prague.

Dicker-Brandeis and Jonas also were murdered at Auschwitz.

“One can only imagine what these songs meant to the prisoners,” Ludwig said. “In turn, it’s the gift of giving back to us to show how much music and the arts mean in our day-to-day survival.”

It was precisely the power of this music and Ludwig’s devotion to sharing it anew that turned Susan Solomont into a champion of the foundation.

At the request of a close friend who’s on the foundation’s board, Solomont agreed to meet with Ludwig. She was deeply moved by his decades-long devotion to recovering and performing this music across the globe, she told the Journal.

“To have such beauty come out of such an awful place like Terezin, this is music that people need to hear and to understand,” she recalled.

The timing proved significant. Alan Solomont was recently invited by President Biden to join the board of directors at the United States Holocaust Memorial Museum in Washington, D.C.

Susan Solomont said that as she’s listened more closely, her appreciation for the music has deepened. While some may be concerned that the music will be too sad, she encouraged them to come to the concert.

“It’s inherent upon us to keep this culture alive,” she said. “It’s an opportunity to come together as a community to understand the beauty and resilience that can be created during tragedy.

“Terezin stands for that.”

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

O dever de rejeitar o ódio. Artigo de Edgar Morin


Os monstruosos massacres cometidos pelo Hamas contra os judeus israelenses em 7 de outubro causam-me profundo horror. Nada justifica esses ataques fanáticos, muito menos a questão do povo palestino, cuja justa causa é dissimulada por esses atos bárbaros. O terrorismo do Hamas ocultou e está ocultando para muitos o terror de um Estado que respondeu a esses impiedosos fanáticos de forma impiedosa contra dois milhões de habitantes de Gaza, causando já três mil mortes. E como Netanyahu anunciou, isso é apenas o começo.

O ódio não é novo. Mas agora está vindo de ambos os lados. Gera o delírio da culpa coletiva do povo inimigo, que conduz às piores crueldades e aos massacres, atingindo também mulheres, idosos e crianças.

A contextualização dos horrores do 7 de outubro, indispensável para qualquer entendimento, coloca-os, em primeiro lugar, na longa história do povo israelense, vítima milenar do antijudaísmo cristão, depois do antissemitismo racial que visava o seu extermínio, e cuja pátria israelense viu-se por muito tempo ameaçada por Estados hostis. Israel não foi um oásis de refúgio, mas uma cidadela em guerra.

Essa história trágica criou a tragédia do povo palestino. Depois da Guerra da Independência de Israel (1948), o povo palestino foi parcialmente expulso de suas terras e acabou em campos de refugiados no Líbano, na Jordânia e na Cisjordânia, onde ainda está estacionado. Depois da Guerra dos Seis Dias de 1967, toda a Cisjordânia, chamada por Israel de Judeia-Samaria, viu-se ocupada e colonizada não apenas por um Estado, mas ainda hoje por centenas de milhares de colonos israelenses.

A consequência do Holocausto, palavra que significa catástrofe, foi a Naqba, palavra palestina com o mesmo significado, que foi de fato a catástrofe da Palestina árabe.

Assim como é necessário manter viva a memória dos milhões de vítimas do nazismo, também é necessário o respeito por essa memória que não pode justificar o domínio de Israel sobre o povo palestino, que é inocente em relação aos crimes de Auschwitz.

A maldição de Auschwitz deve ser o privilégio que justifica toda repressão israelense?

A colonização da Cisjordânia, que começou precisamente no século da descolonização em África e na Ásia, assemelha-se em muitos aspectos àquelas em que as revoltas e as repressões multiplicaram sangrentos assassinatos de civis entre os opressores e os oprimidos. A diferença não é apenas no agravamento da colonização, mas também no conflito originário entre duas sacralizações antagônicas em relação a Jerusalém e à Palestina.

Séculos de antijudaísmo cristão, depois antissemitismo racista e três anos de extermínio nazista alimentaram o mito sionista do retorno à pátria original.

De fato, Israel mudou a condição judaica. A humilhação secular do judeu sem terra, submisso e medroso, deu lugar ao orgulho judaico pelas façanhas militares do povo judaico e pelos empreendimentos agrícolas dos kibutzim. Os intelectuais judeus universalistas diminuíram a favor de intelectuais essencialmente sensíveis ao destino de Israel, e para alguns deles a Torá substituiu o Manifesto Comunista.

A noção de "confissão israelita", uma pertença puramente religiosa, foi substituída pela noção de povo judeu, presente tanto na França como em Israel.

Esse apego radical, que deve ser compreendido, levou à justificação incondicional de todas as ações de Israel, incluindo a opressão dos palestinos. Os ocidentais, principalmente os europeus, sentindo-se culpados pelas devastações genocidas do antissemitismo, mostraram-se favorável à nação judaica.

Israel, filho do antissemitismo europeu e ocidental, tornou-se o posto avançado privilegiado da presença ocidental num perigoso mundo árabe. O recente pró-judaísmo (que reduziu, mas não eliminou o antigo antissemitismo) favorece Israel, enquanto ao mesmo tempo a existência de Israel despertou um imenso antijudaísmo no mundo árabe-muçulmano. A isso se somaram, a partir de 1948, considerações estratégicas e militares. Israel obteve a independência graças à vitória sobre os estados árabes que tentavam aniquilá-lo pela raiz e desenvolveu uma força militar superior àquela dos estados vizinhos que há tempo se mantinham hostis. Impôs-se um Israel imperioso, que ignora inúmeras resoluções da ONU para a criação de um Estado palestino. Houve um momento privilegiado em que Arafat e Rabin apertaram as mãos e foram assinados os acordos de Oslo, que previam os dois estados. Mas o assassinato de Rabin por um fanático judeu é o desaparecimento da esquerda israelense levaram ao domínio de uma coalizão nacionalista-religiosa que visa a anexação de toda a Cisjordânia e segue por seu caminho.

Nessas condições, é difícil ver a possibilidade de um Estado palestino com centenas de milhares de colonos israelenses que lhe são radicalmente hostis e é difícil imaginar que Israel retire seus assentamentos. As perspectivas são sombrias; as violências tendem a se intensificar de ambos os lados, com ataques indiscriminados e repressões em massa igualmente indiscriminadas. As verdades unilaterais triunfam, mascarando as verdades contrárias. Ódios e medos dominam os espíritos.

Não é impossível, mas é duvidoso, que uma ação conjunta das Nações Unidas e dos Estados Ocidentais e árabes possa levar a um resultado decisivo.

Não é impossível que o conflito se alastre, abrangendo e incendiando uma nação após outra. Há que se temer o pior.

Que pelo menos as nossas mentes possam resistir aos delírios. A nossa missão não é apenas rejeitar o ódio, mas fazer todo o possível para chegar a um início de compreensão mútua, não só entre Israel e Palestina, mas também entre os apoiadores franceses de ambos os povos, sem abandonar ao esquecimento uma causa justa.

"Não é impossível que o conflito se alastre, abrangendo e incendiando uma nação após outra. Há que se temer o pior", escreve o filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, em artigo publicado por La Repubblica, 20-10-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Desinformação lida na tuitosfera. Gonçalo Sousa tem 47.000 subscritores no seu canal Youtube!


Dias atrás, um estudo concluiu que a geração actual tem um QI inferior à antecedente: está à vista. Este tipo de afirmações, é muito comum entre a juventude, inclusive a universitária. É lamentável.
Mas vou fazer-lhe a vontade.
Salazarismo! Qualquer pessoa honesta, que estude o modus operandi do aparelho repressivo da ditadura salazarista, sabe que se trata da réplica parola do fascismo. Tinha a PIDE. Salazarismo foi tão maligno quanto o fascismo italiano e se aproximando do nazismo alemão (campos de concentração). O nazismo teve a II Guerra Mundial. O Salazarismo fascista teve a Guerra Colonial.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Morreu Adolfo Kaminsky, o falsificador de documentos que salvou milhares de judeus

Adolfo Kaminsky - Rapaz, Paris. c. 1950

O fotógrafo Adolfo Kaminsky, falsificador de documentos ao serviço da Resistência francesa durante a ocupação nazi e mais tarde dos movimentos anticoloniais, morreu em Paris aos 97 anos.

A morte de Kaminsky na segunda-feira foi confirmada à agência France Presse pela filha, Sarah Kaminsky, autora do livro "O Falsificador", a biografia do seu pai. O museu de História Edmund Michelet, em Brive-la-Gaillarde, França, anunciou esta quarta-feira que vai manter a exposição dedicada ao fotógrafo até ao dia 27 de maio.

Calcula-se que os documentos que Adolfo Kaminsky falsificou em França salvaram mais de três mil famílias judias da morte e da deportação para os complexos de extermínio nazi, durante a II Guerra Mundial (1939-1945).


Juntou-se à Resistência Francesa com 17 anos e depois foi recrutado pelos serviços secretos
Adolfo Kaminsky, nascido em 1925 em Buenos Aires, Argentina, no seio de uma família russa de origem judia, e que se mudou para França no início dos anos 1930, juntou-se à Resistência Francesa, em Paris, durante a II Guerra Mundial (1939-1945), com apenas 17 anos.

Quando se integrou na Resistência Francesa, a rede clandestina mantinha laços estreitos com organizações como o Movimento das Juventudes Sionistas, a Organização Judia de Combate, a Obra de Socorro à Infância e o Movimento de Libertação Nacional, que recebia instruções de Londres, assim com as redes comunistas, Franco Atiradores Partisans (FTP), e o grupo Mão-de-Obra Imigrante.

Depois da Libertação de Paris, em junho de 1944, Adolfo Kaminsky foi recrutado pelos serviços secretos franceses para fabricar documentos falsos aos soldados Aliados, que eram projetados atrás das linhas nazis.

Mais tarde dedicou-se à produção de documentos para os sobreviventes judeus dos campos de concentração que embarcavam clandestinamente para a Palestina (1946-1948), tendo-se colocado depois ao serviço da Frente de Libertação Nacional, durante a Guerra da Argélia.

Kaminsky iniciou revolucionários espanhóis antifranquistas e portugueses antifascistas nas técnicas de falsificação, nomeadamente o português José Hipólito dos Santos da LUAR - Liga de Unidade e Ação Revolucionária, e proporcionou identidades falsas aos que lutavam na Guatemala contra o general golpista Castillo Armas, assim como aos opositores contra a ditadura dos Coronéis, na Grécia, a refugiados políticos brasileiros e desertores norte-americanos que se recusaram a combater no Vietname, entre outros.


"Não me arrependo de nenhum combate que travei. Atuei por convicção e em apoio aos povos vítimas da opressão, em nome da liberdade e seguindo o que ditava a minha consciência", disse Kaminsky, no longo diálogo com a filha, reproduzido no livro "O Falsificador", publicado em Portugal em 2020.

Na altura da publicação da biografia, a filha de Adolfo Kaminsky disse à agência Lusa que o pai arriscou a vida quando era procurado pelos nazis, durante a Segunda Guerra Mundial, mas empenhou-se igualmente e de forma clandestina noutros combates, não fazendo distinções entre raças, homens e mulheres, religião ou cor de pele.


"Eu creio que se trata de uma figura profundamente humanista. Nunca se filiou em nenhum partido político, apesar de ter trabalhado muito com comunistas, anarquistas e com gente de esquerda, mas nunca se situou politicamente porque queria ser livre. Ele abraçou uma posição de resistência, que incluía muitas lutas", explicou Sarah Kaminsky, atriz e guionista francesa, frisando que ficou "surpreendida" quando soube toda a verdade sobre o pai, conhecido como o "homem das mil vidas".

"Foi sempre assim durante toda a vida mas, na realidade, ele não contou tudo quando eu era criança. O meu pai casou-se muito tarde com uma senhora argelina e eu o meu irmão nascemos na Argélia. E quando fomos para França, em 1982, ele não tinha documentos. Ele ainda tinha a nacionalidade argentina e a minha mãe não tinha sequer papéis legais para ficar em território francês o que é um pouco irónico - ser-se 'falsário' e não ter papéis para a sua própria família", recordou Sarah Kaminsky em 2020.

"Ele foi um herói da Segunda Guerra Mundial mas depois ajudou os argelinos e os franceses que lutaram pela independência da Argélia e a questão argelina foi um assunto doloroso para muita gente durante muito tempo e, mesmo em 1982, quando regressámos a França, foi alvo de muitas ameaças de morte", afirma, recordando o papel que o pai também desempenhou no apoio aos desertores da Guerra Colonial portuguesa (1961-1975), durante a ditadura do Estado Novo.

As convicções, as lutas, as aventuras e a vida clandestina como resistente são reveladas pelo próprio operacional à filha no livro "O Falsificador", que destaca o caráter humanista do pai durante as convulsões políticas da segunda metade do século XX.

"Quando eu nasci o meu pai já não fazia documentos falsos. Eu nasci [em 1979] na segunda parte da vida dele. Foi um pai que respeitava muito as regras e dizia-nos que as regras e as leis devem ser cumpridas. Mais tarde, quando soube que ele fazia documentos falsos fiquei muito surpreendida. Um dia tive uma má nota na escola que tinha de ser assinada pelos pais e eu imitei a assinatura da minha mãe. Ela apanhou-me e pôs-me de castigo, mas o meu pai entrou no meu quarto a rir-se e disse-me: 'Sarah toda a gente vê que esta assinatura é falsa'", recorda sublinhando que a vida de Kaminsky foi guiada por um profundo respeito pela liberdade.

"Ele dizia muitas vezes que as leis devem ser respeitadas mas que por vezes as 'leis dos homens' não devem ser seguidas restando-nos, por isso, o nosso livre arbítrio porque 'às vezes', dizia ele, 'é preciso transgredir quando as leis tiram as pessoas para a morte'", disse ainda à Lusa a autora da biografia de Adolfo Kaminsky.

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domingo, 13 de novembro de 2022

Cinco Judeus que mudaram a forma de ver o mundo


Houve 5 Judeus que mudaram a forma de ver o Mundo:

- Moisés, quando disse: "a Lei é Tudo";
- Jesus, quando disse: "o Amor é Tudo";
- Marx, quando disse: "o Capital é Tudo";
- Freud, quando disse: "O Sexo é Tudo".

Depois, veio Einstein e colocou Tudo em causa, quando disse:
"Tudo é relativo".

Scholar explores how a handful of Jews changed the course of history


So what makes you Jews so damn smart? That is a question asked through the centuries by people who admire the Jews as well as by anti-Semites. British historian Norman Lebrecht, an admired author of several award-winning non-fiction books, takes on that perplexing question in his superbly crafted and meticulously researched tome, “Genius & Anxiety: How Jews Changed the World, 1847-1947.” 

Lebrecht confronts the daunting challenge of trying to pinpoint a source or common denominator that gives genius-level Jews the ability to see things ordinary people miss, with his credentials as a serious historian on full display. His book is not a simplistic “bragging rights” compilation of Jewish achievement. He emphatically rejects a “genetic” explanation for Jewish genius.

He delves deep into the rigorous study of the Talmud for clues as to why such a tiny fraction of humanity has accomplished so much despite virulent anti-Semitism.

Rather than attempting to survey the entire 4,000 years of Jewish history as other authors have done, Lebrecht book-ends his time frame between 1847, when Karl Marx published “The Communist Manifesto” and 1947, when the United Nations approved the Partition Plan, which made possible the establishment of the State of Israel after 2,000 years of persecution culminating in the Holocaust. Ironically, Marx, who descends from a long line of rabbis, was a strident hater of Jews.

Lebrecht points out the inherent irony in trying to define the impact of Jews on history — and history’s impact on the Jews, and strives to “address the story from both aspects.” Overall, Lebrecht succeeds admirably with serious scholarship infused with good-natured humor.

He writes, “Folk wisdom has it that five Jews wrote the rules of society:

Moses said, ‘The Law is Everything.’
Jesus said, ‘Love is Everything ‘
Marx said, ‘Money is Everything.’
Freud said, ‘Sex is Everything.’
Einstein said, “Everything is relative.’ ”

Ha-ha, says Lebrecht. “But more than half true. And Jews have a half truism for many things.”

He adds: “The Jewish mindset behind the wave of genius has not been successfully explored. How much do Jewish elements in their background inform Mahler, Modigliani, Marcel Proust? How does Freud know sex is the source of most unhappiness? What makes Marx hate the Jews?”

The above and other questions are explored in depth, with superb scholarship and engaging style by Lebrecht. With just a few words Marx encapsulated his Communist theories: “Workers of the world unite. You have nothing to lose but your chains.” Einstein wrote the formula E equals MC squared and upended the world of physics.

Proust recalled the aroma of his beloved Madeleine teacakes and transformed world literature. Einstein wrote to Freud to ask if mankind was by nature violent and warlike.

David Ben-Gurion, the genius of the Zionists who helped create Israel, tried to persuade Einstein to become President of Israel, which he politely declined, not wanting to become an “ornament.”

Einstein and Freud possessed the wisdom to know that no matter how many Nobel Prizes were won by Jews, anti-Semitism would not just whither away.

In his impressive and significant book, Lebrecht proves how the anxiety over being Jewish in such a hate-filled world contributed to the positive changes Jewish geniuses have made and continue to make.

“Genius and Anxiety” should grace the shelves of both scholars and general readers who enjoy history told with verve, accuracy and wit.

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Book review in New York Times

O livro que Hitler mandaria para a fogueira 



Norman Lebrecht O autor de Génio e Ansiedade fez contas ao número de judeus que mudaram a face do mundo entre 1847 e 1947. O resultado é surpreendente e bem defendido.

O título do livro, Génio e Ansiedade, só se compreende com a leitura do subtítulo: Como os judeus mudaram o mundo - 1847-1947. É disso que se trata, desses homens e mulheres que se impuseram nesse século entre séculos devido à importância do seu trabalho. O autor, Norman Lebrecht, justifica esta odisseia intelectual com a seguinte afirmação: "Eles não esperavam ser aceites. Pelo contrário, sabendo que as suas ideias iriam ser rejeitadas, sentiam-se livres para pensar o impensável."

Daí que em mais de 500 páginas arrole muitas das figuras que conhecemos e em que, na maior parte, se esquece a questão da "proveniência" religiosa: Freud, Einstein, Kafka, Sarah Bernhardt, Proust, Marx, entre mais umas dezenas de famosos que Lebrecht encaixa numa espécie de gueto para justificar o mote do volume. Olhando com distanciamento, podia ver-se o volume como propaganda, no entanto o génio do autor, aliado à ansiedade em se libertar de tal rótulo, resulta numa obra não questionável a esse respeito. Nada que obstasse Hitler a enviá-lo para a fogueira nazi noutros tempos.

O livro que Hitler mandaria para a fogueira 
Não se pode deixar de começar por lhe perguntar na entrevista a propósito da tradução em Portugal se só um judeu poderia escrever este livro. "Provavelmente" é o que responde de imediato. Acrescenta: "Contudo, só quem pensou nisto durante metade da vida é que o faria, afinal não é uma proposta fácil e terá sempre de vir do interior do autor. Além disso, é necessário ter um conhecimento do que se poderia chamar de uma "cultura coletiva inconsciente" e do passado dos judeus de forma a perceber certas implicações." Dá um exemplo: "Admiro Freud desde sempre, mas não desconfiava que os princípios da psicanálise teriam algo em comum com explicações que estão no texto da Bíblia. Quando os ponho lado a lado, confirmo isso. Freud recusaria esse legado da cultura judia e diria que não era verdade, mas creio que desconhecia certos princípios que existem na Bíblia em que sustento a minha opinião e tê-lo-á feito de forma inconsciente."

Génio e Ansiedade não é o tipo de livros que Norman Lebrecht tenha escrito ao longo da vida e que lhe deram sucesso mundial, pois a dúzia de edições já publicadas são mais na área da música clássica e só três dos mais recentes são romances. Esta viragem foi uma decisão tardia mas consciente, diz: "Quando entrei nos 60 prometi que só iria escrever livros que estivessem na minha cabeça há muito tempo. Foi o caso de Porquê Mahler?, em que descrevo as razões por que é considerado importante nos nossos dias enquanto no seu tempo de vida foi menos valorizado. Foi assim que cheguei a esta investigação, ao reparar que desde metade do século XIX e o mesmo período do XX existiam dezenas de indivíduos que mudaram a forma como se via o mundo e que permitiram viver como se o faz atualmente. Ao fazer as contas vi que metade eram judeus e perguntei: como é possível se são uma percentagem ínfima da população mundial? O que une Marx, Sarah Bernhardt e Einstein neste século?"

Encontrar as personalidades da lista final que preenchem os capítulos obrigaram Lebrecht a fugir aos suspeitos do costume, como os que acaba de referir: "O grande problema foi excluir nomes e encontrar um equilíbrio entre os mais famosos e os completamente esquecidos, apesar de o seu trabalho ter os efeitos que destaco. É o caso de quem possibilitou as transfusões de sangue ao descobrir que existiam diferentes tipos de sangue e que é completamente ignorado até por especialistas: Karl Landsteiner. É certo que se converteu ao cristianismo, mas decerto que no seu inconsciente existiam várias narrativas inscritas no Talmude que referem que o sangue não é igual em todas os seres humanos."

Para Norman Lebrecht era preciso interromper o livro num ano e escolheu o de 1947. Primeira razão: "Tinha de parar em algum ano!" Segunda razão: "1948 foi o ano em que tem início o Estado de Israel e é tanto o fim de uma história como o princípio de outra. Os judeus deixaram de estar como nos anteriores dois mil anos e começaram um novo capítulo." Admite: "Poderia ter continuado pois houve vários contributos de judeus para a civilização até aos dias de hoje, contudo a concentração, que é o propósito do livro, seria difícil de encontrar."

"Para alguém que nasceu após a Segunda Guerra Mundial, posso dizer que nunca vi durante a maior parte da minha vida tanto antissemitismo como nos últimos sete anos."

A data de início, 1847, foi devido à publicação do Manifesto Comunista por Karl Marx: "Foi fácil, mesmo que a maioria dos historiadores optasse pelo ano seguinte, de várias revoluções." Questiona-se a escolha de Marx porque, refere no livro, "via-se a si próprio como um falhanço". Teriam na sua época noção do trabalho feito? Concorda, ressalvando a herança judia: "Alguns deles sim, mesmo que Marx negasse em público qualquer ligação ao judaísmo, até atacava os judeus como sendo a fonte do capitalismo, mas sabe-se que em cartas às filhas pedia-lhes para quando se dirigiam aos trabalhadores, como muitos eram judeus, dizerem-lhes que eram comunistas e judias."

Uma afirmação inicial no livro descreve muitas destas figuras com a faculdade de "pensarem rápido". O que significa? "Eles trabalhavam sob uma grande ansiedade por serem judeus e não terem segurança no emprego, poderem ser expulsos e até mesmo mortos. O génio neste tempo é temperado por ameaças e sabiam que estavam vivos devido à graça de Deus", explica.

Para defender a tese do livro, Lebrecht recupera ataques a judeus, como o de Wagner a Mendelssohn: "Sim, Wagner foi o primeiro indivíduo que quis a legitimação cultural antissemita. É um grande compositor, mas detestava judeus e queria que fossem removidos da civilização europeia, o que era um passo para chegar ao que Hitler fez. Não creio que eu o faça como ataque, é apenas a descrição de como era e do que Mendelssohn sofreu."

Génio e Ansiedade não escapa ao regresso de um antissemitismo muito forte nos dias que correm e Lebrecht prefere dar um testemunho pessoal: "Para alguém que nasceu após a Segunda Guerra Mundial, posso dizer que nunca vi durante a maior parte da minha vida tanto antissemitismo como nos últimos sete anos. É uma situação que parece impossível após o Holocausto a de alguém manter este tipo de comportamento, mas regressou. Essa foi uma sombra sobre mim enquanto escrevia e fez-me lembrar o que teriam sentido Mendelssohn e Mahler, por exemplo, criando em mim uma grande afinidade para com eles. Felizmente, em Portugal isso não se vê, também por os judeus serem minoria."

O livro que Hitler mandaria para a fogueira 
Ao referir essa sombra, questiona-se Lebrecht porque quase passa ao lado do Holocausto no livro? "Tenho um capítulo que trata do Holocausto, no entanto este é um assunto demasiado grande para um livro deste género - já o tratei num romance - e distorceria a temática. Olho apenas para a questão teológica de onde estava Deus em Auschwitz e de como cada judeu interpretou a sua existência ou não existência durante esse tempo terrível", explica.

Para Norman Lebrecht, essa foi uma situação que moldou os milhões de judeus que sobreviveram: "Mais do que moldar, fez desaparecer muitos valores. Um dia em conversa com um amigo do mundo da música, ele disse-me que faltavam novos violinistas nas orquestras porque duas gerações tinha desaparecido em Auschwitz e quase eliminado a grande tradição de violinistas entre os judeus. Tal como se matou ainda em criança futuros médicos, cientistas, pensadores."

Será que a versão final do livro foi a que Lebrecht imaginava? "Não, fui conduzido para direções inesperadas e em Einstein, por exemplo, foi difícil encontrar o foco." Se tivesse de eleger uma destas personalidades qual seria? "Teria muito para conversar com Mahler e queria conhecer melhor Modigliani. Ou Max Brod, de quem vivi perto e não conversei sobre Kafka - de que me arrependo muito."

Leitura curiosa

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Dia Internacional Contra o Fascismo e o Antissemitismo


O Dia Internacional Contra o Fascismo e o Antissemitismo é comemorado anualmente a 9 de novembro. A data alude à noite de 1938, que ficou conhecida como a ‘Noite de Cristal’ e como o início de um dos episódios mais sombrios da história da humanidade: o Holocausto.

De 9 para 10 de novembro de 1938 incendiaram-se centenas de sinagogas, profanaram-se cemitérios judaicos, destruíram-se e saquearam-se mais de 7.500 lojas, mataram-se centenas de pessoas e foram deportados entre 30 a 35 mil judeus.

O pretexto para estas ações foi o assassinato do secretário da embaixada alemã em Paris, Ernst vom Rath, cometido por um jovem judeu polaco, Herschel Grynszpan,  a 7 de novembro.

A partir daquela noite, todas as tentativas de disfarçar a real intenção do Governo nazi não importavam mais. Deu-se início ao Holocausto, com o aprisionamento em massa dos judeus e envio para os campos de concentração. Era o fim da fase de antissemitismo velado e o início da era de ódio e genocídio, agora clara para o resto do mundo, que resultou no extermínio de dois terços da população judaica na Europa.

O dia foi criado pelo Parlamento Europeu, tendo em vista a luta contra o racismo e a xenofobia na União Europeia. Dizer não ao fascismo e ao antissemitismo é o objetivo da data.

A doutrina fascista e antissemitista dos nazis seria responsável por mais de 6 milhões de mortes. A data é recordada anualmente não só pelo alemães, mas também pela Europa e um pouco por todo o mundo.

Curiosamente o dia 9 de novembro marca também a queda do muro de Berlim, em 1989.

Sites e ONG

sábado, 17 de setembro de 2022

Documentário: Nuit et Brouillard (Noite e Nevoeiro)


Legendado


É um olhar fundamental dedicado a uma das páginas mais negras da história mundial: o nazismo. Regressar ao egrégio Noite e Nevoeiro (1956) significa pois tomar a posição do não esquecimento, face a uma atualidade que cada vez mais se alimenta do pavio curto de cada dia, deixando a memória na estante dos livros. Estamos a falar de um filme documental com apenas 32 minutos de duração, que, pela justeza e pudor lírico, revolucionou a abordagem do terror do Holocausto, permitindo abrir a discussão sobre a própria dificuldade de se lidar com as suas imagens. Mais importante ainda, a obra de Alain Resnais assimila essa mesma reflexão: qual a distância certa a tomar em relação às imagens?

Realizado dez anos após a libertação dos campos de concentração nazis, na sequência de um pedido do Comité de História da Segunda Guerra Mundial, Noite e Nevoeiro acabou por ser tudo menos um trabalho de encomenda. Resnais estabeleceu, desde o princípio, que a questão formal no seu cinema (então ainda a dar os primeiros passos) era indispensável para apurar a questão moral em si. Daí que esta curta-metragem, negando as fórmulas convencionais e demarcando-se de tudo o que tinha sido feito até aí, seja uma visão ímpar, tanto em termos de rigor do pensamento de fundo, como na qualidade de objeto documental. Além disso, o tema da memória já estava no ADN da filmografia de Resnais, e seria, por excelência, a sua matéria-prima, concretizando-se posteriormente em títulos como Toute la mémoire du monde (1957), Hiroshima, Meu Amor (1959) e Muriel ou o Tempo de Um Regresso (1963). Do mesmo modo, em nenhum destes a memória é instrumento de uma linguagem cinematográfica convencional; bem pelo contrário.

Em Noite e Nevoeiro, com essa liberdade e firmeza artística, o cineasta francês cruzou planos filmados a cores em Auschwitz, antigo cenário do horror - naquela altura já transformado numa paisagem verde e serena -, com imagens de arquivo, algumas dos deportados. Em voz off é lido, por Michel Bouquet, um texto de comentário escrito pelo poeta Jean Cayrol, ele próprio um ex-prisioneiro de Maathausen que relatara a sua experiência em Poèmes de la nuit et du brouillard (1945). Já a banda sonora do compositor Hanns Eisler surge como um marcante revestimento. E o que resultou desta conjugação de esforços e intelectos traduz-se no "filme impossível" de que nos fala o crítico Jacques Doniol-Valcroze, citado na contracapa do DVD agora lançado, ou como notou François Truffaut - um dos grandes admiradores de Noite e Nevoeiro -, numa experiência da qual se sai "devastado, confuso", pela sua força de meditação.

Este assombro com o filme de Alain Resnais é também aquilo que move o documentário que vem como extra do DVD: Face aos Fantasmas (2009), de Jean-Louis Comolli, é uma análise de Noite e Nevoeiro feita pela historiadora Sylvie Lindeperg, que o estudou durante 20 anos. Aqui é explorada a própria origem e percurso do filme, com os seus intervenientes, bem como a atitude de Resnais face à missão que tinha em mãos (ouvem-se excertos de gravações da sua voz a explicar o processo de trabalho e a revelar os sentimentos que o assaltaram nessa época). Dentro de um registo muito sóbrio, Lindeperg explana sobre todas as qualidades desta obra-prima, nomeadamente o porquê de a sua força histórica estar ligada de um modo muito racional ao seu lirismo. Resnais quis arriscar uma nova escrita, e foi o cineasta que levou o sentido da memória ao seu ponto de vertigem.

Entrevista:
Alain Resnais interview on Night and Fog, Nuit et Brouillard, 1955

Filmografia e Biografia
Alain Resnais

domingo, 6 de março de 2022

A Ucrânia é Auschwitz da nossa geração

Em manifestação contra a guerra, russa pede desculpas aos ucranianos

A artista plástica Olga Ivanova, de 26 anos, deixou a Rússia há 5 por causa de Putin e participou de protesto nessa quinta-feira, em Barcelona




O medo é uma ficção. Um "bluff". Putin sabe que os direitos humanos estão no coração de cada pessoa de bem deste planeta, por mais que tenhamos aprendido a ignorar os migrantes afogados, os povos em fuga de guerras, ou pura e simplesmente os envenenados do Kremlin. Mas há limites: ver morrer em direto os ucranianos, hora a hora, na sua própria terra, invadida sem qualquer legitimidade, é um novo teste de indiferença que finalmente não vamos conseguir passar.

As Nações Unidas e a NATO têm de colocar em cima da mesa a "legítima defesa humanitária". Novos tempos exigem novos conceitos. Holocausto nuclear? Nós já estamos a perecer aos poucos neste holocausto da liberdade de um povo que podia ser qualquer país livre. Gente como nós, colocada num gigantesco campo de concentração - a sua própria terra.

Exige-se às Nações Unidas, ou à NATO, ou à União Europeia, ou a alguns dos países da União Europeia, o apoio aéreo a um povo indefeso: aviões com logística de sobrevivência, a par de outros para defesa de um espaço de exclusão militar nos céus da Ucrânia. E, se não funcionar, responder com a entrada em ação desses aviões para concretizarem essa "legítima defesa".

Zelensky roga esse mínimo: lutar em terra, na desproporção de 10 ou 20 ou 100 soldados russos por cada ucraniano, até morrerem todos os que defendem Kiev e o resto do país. Implora apenas uma batalha justa, sem ataques aéreos. A cobardia russa não autoriza. Nós obedecemos. E aguardamos a qualquer momento o óbvio massacre, inimaginável, das bombas e colunas de blindados de 50 km a desfazerem Kiev e as outras cidades. Lamentaremos então o horror, impossível de olhar. Será tarde demais.

O equilíbrio do mundo não tem forma de se manter. A mais pequena tentativa do Ocidente de defender Zelensky, ou a capital da Ucrânia, culminará numa resposta "legítima" de um homem que se considera detentor do "ethos" da guerra, da vontade dos vizinhos e arquiteto de fronteiras imaginárias. Não temos como evitar o confronto com Putin.

Na II Guerra Mundial, em Varsóvia, 1938, o Ocidente tolerou o gueto: era "apenas" um gueto. Eram "apenas" judeus. A seguir vieram os campos de concentração. Como não atuámos antes, não sabíamos até onde o mal pode ir. E continuamos a não aprender. Hoje dizemos: são "ucranianos". Porque não são da NATO - por medo nosso, não os deixamos ser. Portanto, podem morrer.

Ainda só passaram 10 dias. A desgraça é gigantesca e ainda nem sequer começou. Este é um momento decisivo na História: ou vencem os valores do Ocidente, com as pessoas e a democracia em primeiro lugar, ou perpetuamos ditadores globais no poder.

Não parecia crível que tivéssemos de enfrentar uma escolha tão medieval. Mas não podemos ter dúvidas. O nosso testemunho para as gerações vindouras é o de cairmos de pé ou triunfarmos sem medo. Não ceder a Putin, Xi Jinping, ao indiano Modi, ao ISIS, aos talibãs, não reeleger Trump, é uma resposta de cada um dos povos.

Mas a Ucrânia, neste momento de genocídio, é uma responsabilidade da humanidade.
Esta é a nossa oportunidade. Putin tornou isto cristalino. Porque connosco vivos não voltará a haver o império soviético. Mesmo que haja a hipótese ("bluff"?) de morrermos de frio e fome ou sobre bombas nucleares.
Um homem é apenas pó, terra, cinza, nada. Temer Golias é ignorar que uma pequena pedra o derrubará.

Ler mais:

Assistir a este debate:

Documentários para perceber a Guerra na Ucrânia

Cinco municípios PCP e PS, votam claramente contra a Invasão Russa da Ucrânia, em contraciclo com a Direção Nacional do PCP, que insiste na "ocupação territorial" e acusa a NATO e UE.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Lembrar para não esquecer: a libertação de Auschwitz há 77 anos


“Lembro-me de simplesmente não ter o que comer. Durante seis anos tive fome. No fim da guerra, tinha 11 anos e pesava apenas 20 quilos.”
Jacob Drachman

Jacob Drachman nasceu em Lodz, Polónia, em 1935. Sobreviveu a 3 campos de concentração (Auschwitz, Stutthof e Flössenburg), morou em Paris, Uruguai e Israel; e escreveu o livro 'Dry Tears' sobre a sua experiência como sobrevivente do Holocausto e da barbárie nazi.

Resumo
As tropas soviéticas entraram em Auschwitz, no sul da Polónia, a 27 de janeiro de 1945, onde mais de 1,1 milhão de pessoas foram exterminadas pelo regime nazi orientado por Hitler.
Apenas cerca de 7 mil prisioneiros tinham sobrevivido em péssimas condições de saúde e psicológicas. Entre eles, estavam cerca de 500 crianças. Os sobreviventes estavam extremamente magros e exaustos. Poucos conseguiam ficar de pé, muitos estavam deitados no chão, apáticos.
Mais de 1,1 milhão de pessoas morreram em Auschwitz-Birkenau. A maioria era constituída por judeus vindos principalmente da Hungria, Polónia, Itália, Bélgica, França, Holanda, Grécia, Croácia, Rússia, Áustria e Alemanha, mas também homens, mulheres e crianças de outras etnias e com outras orientações sexuais.
Eles chegavam ao campo de concentração em comboios sem janelas, casas de banho ou comida. Logo ao chegar, eram divididos entre quem poderia trabalhar e quem deveria ser morto imediatamente.
Os prisioneiros eram mantidos em situação deplorável: a comida era insuficiente e as condições de higiene muito precárias. Eles eram torturados e submetidos a trabalhos forçados até à exaustão. Quem não estava apto a trabalhar, era encaminhado para as câmaras de gás Zyklon-B e as cinzas erem enterradas ou usadas como fertilizantes.
Para apagar os vestígios do Holocausto antes da chegada do Exército Vermelho, a SS implodiu as câmaras de gás em 1944 e evacuou a maioria dos prisioneiros. Charlotte Grunow e Anita Lasker foram levadas para o campo de concentração de Bergen-Belsen, onde os britânicos as libertaram em abril de 1945. Outros 65 mil que haviam ficado em Auschwitz já podiam ouvir os tiros dos soldados soviéticos quando, a 18 de janeiro, receberam da SS a ordem para a retirada.

Lembrar para não esquecer!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto - Documentário : "One Day In Auschwitz"



O Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto é celebrado anualmente no dia 27 de janeiro, no aniversário da libertação do Campo de Concentração e Extermínio Nazi de Auschwitz-Birkenau pelas tropas soviéticas em 27 de janeiro de 1945. Este dia foi proclamado como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto através da Resolução 60/7 [en] adotada na Assembleia Geral das Nações Unidas de 1 de novembro de 2005.

Esta data tem dois objetivos: em primeiro lugar, presta-se homenagem à memória das vítimas do Holocausto e, em segundo lugar, relembra-se a necessidade de combater o anti-semitismo, o racismo e quaisquer outras formas de intolerância que possam levar à violência.

Documentos

Declaração conjunta dos três Presidentes por ocasião do 75.º aniversário da libertação de Auschwitz-Birkenau DESCARREGAR

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Documentário- Surviving the Holocaust

 

You don’t ever expect to be hauled out of your house, marched into a gas chamber, and be choked to death,” says Irene Fogel Weiss. Yet, that is exactly what happened to most of her family in the summer of 1944. Irene was thirteen at the time, and by several twists of fate, she survived. “There is a life force in all of us that you just want to live another day,” she says. “Let’s survive this. We have to survive this.” Irene shares her story of survival with hundreds of high school students every year. In this program, we listen in on her presentation to Woodson High School students as she shares a personal account of the events that lead to the Holocaust. 
She discusses her life as a child in Hungary, the changes she witnessed as the Nazis took power, and all manner of degradations imposed on the Jewish people. Irene describes how her family was ostracized from society and how the Jewish “ghettos” were created. She discusses what her family did and did not know about Nazi practices across Europe and how the deportation of Jews worked. She recounts her arrival at the worst of all Nazi death camps – Auschwitz-Birkenau – and shares historic photos, taken by the Nazis, which capture the very day that her family arrived. She talks about the painful separation from her family and what it was like to be a prisoner at Auschwitz. 
After sharing the story of her liberation and rebuilding her life in America, Irene examines the questions of propaganda and humanity that surround the Holocaust. She helps students understand the importance of critical examination of information and comparing sources. She discusses how a basic lack of empathy and humanity toward each other can lead to cruel, and ultimately horrific, behaviors. Irene uses her experience in the Holocaust as a lesson for us all. 
For more information, visit 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

História e Holocausto — Estudar o passado, conhecer os assassinos


Por Irene Pimentel, 14 de Janeiro de 2018

Aproximamo-nos de 27 de Janeiro, Dia Internacional da Memória do Holocausto ou da Shoah. Foi escolhido, em 2014, por ter sido nesse dia, em 1945, que o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau (Polónia) foi libertado pelo Exército Vermelho soviético. Como se sabe, a historiografia sobre a Shoah tem sido muito abundante, sendo abordadas, para explicar esse terrível acontecimento, questões como a do anti-semitismo e da eugenia, das etapas que levaram ao Holocausto, da resistência — ou falta dela — ao nacional-socialismo, bem como da singularidade desse terrível evento relativamente a outras atrocidades ou o facto de ser comparável com estas.

Aproveito a proximidade da data para referir uma abordagem que tem sido central ultimamente quando se trata do tema e que pode servir de exemplo à análise sobre qualquer ditadura, incluindo a portuguesa. Trata-se dos estudos sobre os carrascos e os seus motivos, que constituem já um subtema de estudo com o nome em alemão de Täterforschung (investigação sobre os perpetradores), não só na historiografia, mas também na antropologia, psicologia, ciências políticas, direito e até na ficção. É que torturadores e criminosos de massa não nasceram assim, tornaram-se perpetradores, como diz Françoise Sironi, repegando uma expressão de Simone de Beauvoir sobre as mulheres. O criminoso Reinhard Heydrich, braço direito SS de Heinrich Himmler, aderiu tarde ao partido nacional-socialista, e para arranjar um emprego, pois não foi aceite na Marinha de Guerra.

De um modo geral, os estudos sobre o Holocausto e os perpetradores caracterizaram-se, entre os anos 1940 a 60, pela demonização e psicopatologização dos envolvidos. Os julgamentos do pós-II Guerra, a partir do de Nuremberga, nomeadamente o dos Einsatzgruppen, em 1958, e sobretudo o de Adolf Eichmann em Jerusalém, em 1961, bem como, depois, o de Auschwitz, em Frankfurt, deram a conhecer os principais criminosos, proporcionando a publicação de sólidas análises sobre os motivos, estruturas e métodos dos líderes do regime nacional-socialista. A sua forma comum de defesa assumida foi em geral a de que “apenas” eram executantes que teriam obedecido a ordens superiores.

A partir de 1961, na senda de Hannah Arendt (1906-1975) e Raul Hilberg (1926-2007), estabeleceu-se uma segunda fase na investigação, que interpretou o grupo de perpetradores enquanto burocratas e assassinos de secretária. Para Hannah Arendt, “o mal radical” (depois qualificado de “banal”) é “obra da liberdade dos homens vulgares”, assinalando a filósofa que “os autores do mal não têm uma alteridade absolutamente diferente” da generalidade dos seres humanos. Arendt foi muito criticada, e também por Hilberg. Em The Destruction of the European Jews (1961), interpretou a Shoah como um processo que funcionou em etapas sucessivas, levadas a cabo por uma multitude de decisores no seio de uma vasta aparelhagem burocrática, através de um processo desumanizante que não foi travado por qualquer ética, moral ou religião.

 Hannah Arendt 

O historiador Raul Hilberg tinha sido influenciado, por seu turno, por Franz Neumann (1900-1954) que, em Behemoth, de 1942, atribuiu ao regime nazi a dupla característica de surgir como um poder monolítico submetido a um chefe absoluto, mas que, nos bastidores, resultava da lei da selva partilhada por quatro poderes rivais e universos semiautónomos: a burocracia estatal; o Exército; a grande indústria; o partido nazi. O poder de Hitler residia na sanção que dava aos compromissos passados entre as forças que se digladiavam entre si, fora do círculo dos projectores.

Três caminhos

Na abordagem historiográfica da Shoah, uma preocupação central passou a ser a de descobrir os motivos dos carrascos, desenvolvendo-se, até aos anos 90 do século XX, três principais teorias que contribuem para a explicação do comportamento dos perpetradores: as narrativas intencionalistas, as estruturalistas e as situacionistas. Os chamados “intencionalistas” viram no extermínio a aplicação de um programa predeterminado e metodicamente planeado imposto de cima para baixo, derivando da vontade anti-semita de Hitler e da sua iniciativa individual, mas, muitos historiadores, apresentaram opiniões mais matizadas. Já os “funcionalistas”, retomando a tese de Neumann, nos anos 70, tenderam a analisar o Holocausto enquanto crime em massa “mecanizado” por um “aparelho industrializado de genocídio”.

Para Martin Broszat (1926-1989), o Estado nazi foi uma “policracia” pluridimensional, na qual a autoridade de Hitler constituía a garantia suprema da coesão do sistema. Por seu turno, Hans Mommsen (1930-2015), autor do conceito de “radicalização cumulativa” para descrever os diversos estádios que levaram ao Holocausto, reconheceu sobretudo o papel crucial de cumplicidade das elites alemãs com o regime. Ambos puseram em causa a ideia de que a evolução do Terceiro Reich resultaria da aplicação de um plano pré-estabelecido, há muito anunciado no Mein Kampf, dando centralidade à análise do sistema caótico nazi.

Prendendo-se com uma crítica do historicismo, desencadeou-se, nos anos 1980, no meio intelectual da RFA, a chamada historikerstreit (“querela dos historiadores”). Originada por uma ideia controversa do historiador alemão Ernst Nolte (1923-2016), segundo o qual o extermínio dos judeus deveria ser visto como uma forma de reacção aos crimes estalinistas, a contestação surgiu através o filósofo Jürgen Habermas, que, num artigo do jornal Zeit (11 de Julho, 1986), discutiu o estatuto do nazismo na memória colectiva alemã e a centralidade e singularidade do genocídio dos judeus, transformando a reavaliação do nazismo numa questão política e nacional. Os “funcionalistas” foram também criticados de historicismo e de relativizarem o quadro político, ideológico e moral específico, bem como substituírem a condenação moral do nazismo pela empatia com o objecto de estudo (Saul Friedländer).

As abordagens intencionalistas e funcionalistas foram depois matizadas através de sínteses com os aspectos positivos de ambos os lados. O historiador alemão Norbert Frei assinalou a importância do Führer como suporte carismático do poder e de arbitragem de conflitos, assente numa multiplicidade de centros de decisão e de conflitos. A coerência do “estado do Führer” (Der Führerstaat. Nationalsozialistische Herrschaft 1933-1945, editado em 1987) residiria na preeminência de um chefe supremo, que, ao mesmo tempo, soube responder à necessidade de integração social dos alemães, conseguindo obter a colaboração de pessoas vulgares que cooperaram no reforço do anti-semitismo e das medidas raciais.

Ian Kershaw, autor na segunda metade dos anos 1980 de obras sobre a opinião pública no III Reich e sobre Hitler, escreveria uma biografia monumental deste último em dois tomos: Hitler, 1889-1936: Hubris, publicado em 1998; e Hitler, 1936-1945: Nemesis, publicado em 2000. Ao apresentar o paradoxo de este não estar na origem de tudo mas ter sido indispensável, explicou o poder de Hitler pelo seu carisma político, concluindo que este resultou na colaboração de todos aqueles que, na Alemanha, ocuparam uma posição de influência, cujo objectivo foi servir o Führer, esforçando-se por adivinhar e pôr em prática os seus desejos.


Os estudos actuais não colocam a agência do Holocausto nos comandos centrais da estrutura (Hitler e Himmler), mas entre os perpetradores directos da periferia 

É certo que, entre os sobreviventes do Holocausto, Primo Levi (1919-1987) — que só conseguiu publicar o seu primeiro livro em 1958, depois de ter visto recusada a edição em 1947, e só mais tarde descoberto, com Se Isto é Um Homem, A Trégua, Os Que Sucumbem e os Que se Salvam —, caracterizou Auschwitz como uma fábrica invertida da morte, onde não cabiam unicamente as vítimas (“zona branca”) e os carrascos (“zona negra”), mas uma enorme “zona cinzenta” composta por uma “classe híbrida de prisioneiros-funcionários”. Um terceiro estádio da análise historiográfica, na senda de Christopher Browning, influenciado pelo conceito de “zona cinzenta” de Levi, passou a originar novas representações dos perpetradores, vistos como “homens vulgares”. ­

No seu livro de 1992, Ordinary Men, Reserve police battalion 101 and the final solution in Poland, Browning revelou criminosos nazis, feitos do mesmo tecido (humano) dos outros, cujos actos resultaram, em parte, de circunstâncias em que se operou uma passagem do normal para o patológico no seio de um sistema em que os fins justificam os meios. Browning mostrou que a maioria dos elementos do Batalhão 101, que mataram judeus na Polónia, eram técnicos amorais, cujas iniciativas “de baixo” tornaram desnecessárias a explicitação precisa das ordens “de cima”. O autor concluiu que, no seio de qualquer colectivo social, o grupo dominante exerce uma tremenda pressão e impõe as normas morais. Por outro lado, as noções de lealdade, dever e disciplina baniram quaisquer considerações humanas e morais do seio dos “perpetradores”.

Certo é que a investigação sobre os perpetradores passou a examinar as “circunstâncias” situacionais, paralelamente às motivações ideológicas, abordagem a partir da qual se baliza o início dos estudos sobre perpetradores numa perspectiva “situacionista”.

Contrariamente à abordagem multicausal de Browning, ao estudar o mesmo grupo (Hitler’s Willing Executioners, de 1996), Daniel Goldhagem afirmou através de uma postura essencialista que a história cultural da Alemanha foi marcada por um anti-semitismo “eliminacionista”, principal motivo de os alemães levarem a cabo a Shoah. Na controvérsia à volta do livro de Goldhagen, com base nas mesmas fontes de Browning, este concluiu que uma combinação de factores situacionais e ideológicos concorreram para desumanizar as vítimas, transformando-os de “homens vulgares” em “executantes voluntários”.

domingo, 13 de dezembro de 2020

Breve viagem à lógica do horror

Por Helena Araújo

Com o intuito de facilitar a leitura, transcrevo para aqui um thread bastante longo de Francisco Feijó Delgado no Twitter. Espero que ele não me leve a mal. 

Diz, portanto, Francisco Feijó Delgado ( @sheeko ):
 
 O @cvazmarques  foi acusado de tirar a afirmação de JRS fora de contexto. Vendo a entrevista toda e lendo a clarificação adicional, há pouca dúvida: é JRS que tira do contexto e produz afirmações de uma ligeireza enorme. Vejamos.


Quem vê a entrevista e lê a justificação sai com a seguinte ideia transmitida por JRS: que os nazis, nas suas cabeças, justificaram o extermínio dos judeus – um mal necessário – com razões humanitárias para com os judeus. 

Deixo claro que não estou a acusar o JRS de revisionismo ou sequer de dizer que acha que as acções dos nazis foram humanas. Claro que não. O que contesto é que haja qualquer consideração humanitária para com os judeus como razão para o holocausto. 

Os nazis podiam invocar considerações “humanitárias”, só que não há, no processo, qualquer desejo de minimizar o sofrimento das vítimas, mas sim de distanciar progressivamente os carrascos das suas vítimas.

A historiografia do processo que culminou com o extermínio em massa dos Judeus é complexa, em parte pq se desenvolveu sob o conceito de “trabalhar para o líder”, em que os diversos agentes procuravam interpretar e executar aquilo que consideravam ser os desígnios do Führer. 

É por isso que não existe uma ordem ou directriz de Hitler a mandar exterminar os judeus.

JRS invoca a preocupação pelos judeus, citando uma carta de um oficial nazi, Höppner, a Eichmann em que propõe um método de morte rápida para lidar com os judeus de Łodz: uma “solução mais humana”. Mas é JRS que tira tudo isto do contexto e faz uma afirmação pouco cuidadosa. 

É JRS que tira Höppner do contexto, tira a palavra “humanidade” do contexto, e tira o gasear dos judeus do contexto.

A palavra humanidade significa compaixão, benevolência. Ser-se humano preocupar-se, minorar o sofrimento de outros e dar-lhes dignidade. Ignorando casos individuais, é possível dizer que houve compaixão pelos judeus no criar do processo que iria levar ao seu extermínio?

A própria frase é um paradoxo, a não ser que se deixe de tratar os judeus como humanos, mas como sub-humanos. Então aí sim, podemos matar indivíduos de forma humana, como matamos animais. Foi isso que aconteceu? Já lá iremos.

JRS cita Höppner para atribuir um lado compassivo ao processo dos nazis. “Estão a morrer de fome, não podemos alimentá-los. Se é para morrer, mais vale morrer de uma forma mais humana.”

Antes de mais, não questiona sequer onde está a humanidade no porquê de estarem a morrer de fome, ou no porquê de não os poderem alimentar? Como é que uma pessoa pode ser “humana” na morte doutrem, sendo que em tudo desumaniza a sua vida?

Vale a pena contextualizar: Höppner era o chefe do Gabinete Central de Reinstalação (UWZ), especialista em deportações. Na altura os judeus estavam a ser deportados em cada vez maior número com a ideia de os colocar no Governo Geral, e se no início eram os das províncias ocupadas, em breve viriam a ser também os da Alemanha. A ghettização facilitaria o controlo e a deportação. Mas trazia problemas logísticos que se agravaram com a demora nas deportações e pouca orientação de Berlim, deixando líderes locais a ter de decidir por si. 

Uns advogavam o declínio e a morte dos judeus, usando a fome deliberadamente, e outros o uso dos judeus como trabalhadores forçados. É neste contexto que Höppner escreve o memorando, numa altura em que a existência do ghetto, pensada como temporária, se eternizava: os judeus incapazes para o trabalho iriam morrer de fome, porque inicialmente a ideia era vender-lhes comida, extorquindo-lhes os bens, mas os bens acabaram. 

O superior interesse do povo alemão era incompatível com subsidiar publicamente a alimentação dos judeus inaptos. 

Havia portanto *um problema* a resolver. Não era a primeira vez que Höppner advogava, embora não tão explicitamente, a liquidação de indivíduos que causavam problemas burocráticos. Já em 1940:



E ainda em 1940, um ano antes do tal memorando, em polaco, mas com rápida tradução em inglês:



Nessas alturas, Höppner não teve qualquer pejo em propor a liquidação de pessoas para resolver os *problemas* com que se deparava. Em nenhuma dessas vezes achou por bem justificar as acções com razões humanitárias. 

Vale a pena voltar ao memorando, q não acaba com «Seria melhor do que deixá-los morrer à fome», mas «Auf jeden Fall wäre dies angenehmer, als sie verhungern zu lassen.», i.e, “em qualquer dos casos, seria mais agradável do que deixá-los morrer à fome”. Agradável para quem?

No parágrafo seguinte, num outro "exemplo de compaixão": propõe a esterilização das mulheres para acabar com o problema judaico naquela geração. Ficam as perguntas: - Houve alguma compaixão em Höppner? - Houve alguma preocupação em minorar o sofrimento dos judeus? 

O uso da palavra “humanidade” está presente no discurso de muitos outros oficiais nazis, começando pelo próprio Hitler.



Wilhelm Kube recusou-se a mandar liquidar judeus por fuzilamento enquanto não houvesse uma forma mais discreta e “humana”, tendo o seu superior, Heydrich, desautorizado-o.


Kube, que no massacre do Ghetto de Minsk atirou rebuçados para crianças que estavam num fosso de areia para morrer, foi mais tarde assassinado.

Himmler, que não apreciara a sua relutância relativamente às acções contra os judeus alemães, considerou o seu assassinato uma benção, que de qualquer maneira, o homem já tinha lugar marcado num campo de concentração.

O facto é que há inúmeros exemplos de que as tais “razões humanitárias” eram humanitárias para os carrascos, não para as vítimas. O extermínio já tinha começado, mas matar pessoas com esquadrões de fuzilamento em grande quantidade é difícil: 




A evolução foi tudo menos “humana” e, mais uma vez, com o objectivo de tornar o extermínio mais exequível. Até morte por explosivos foi testada, mas ir apanhar restos de corpos nas árvores não era agradável:





O facto é que Hitler e os nazis criaram um ambiente que, como afirma Kershaw, não fez do genocídio um acidente, sem qualquer ponta de compaixão ou consideração pelos judeus.


E Goebbels rejubilava com a vingança sobre a praga judia: «a única maneira de lidar com eles é com a brutalidade necessária»:



As palavras têm de ser postas no contexto, interpretadas e calibradas. Alguém insuspeito que entrasse em Auschwitz até poderia pensar que o trabalho liberta. 

Eichmann, no seu julgamento disse «nunca matei ninguém, nunca dei ordem para matar». E no entanto, foi um dos operacionais do extermínio dos judeus. Assassino não é só quem aperta o gatilho, e humano não é só quem se apressa a matar.

Da mesma maneira que os nazis invocaram “razões humanitárias”, também Eichmann invocou que o trabalho dele não era matar ninguém. 

A “humanidade”, era, no seu aspecto sistémico, uma qualidade interesseira, em que a compaixão era dirigida aos carrascos. Era uma maneira de eles se próprios se libertarem:

De facto, a deturpação do conceito de “humanidade” tornou tudo ainda mais perigoso.


JRS diz que eram pessoas normais nos campos, e pergunta o que levou essas pessoas a participar em acções de extermínio. Mas as pessoas normais já se tinham envolvido nas matanças. O que esta forma “humana” fez, foi facilitar ainda mais isso.





Mas quem assiste à entrevista e lê o que escreve, vê JRS afirmar que os nazis eles próprios estavam convencidos de que estavam a fazer um mal necessário e que ainda tinham em conta o sofrimento dos judeus, tentando minorá-lo.

A tal “humanidade” não era uma razão para o extermínio, como JRS diz, mas sim o instrumento fundamental para pôr uma indústria daquela escala a funcionar. Em Auschwitz, finalmente, poucos alemães teriam que directa e pessoalmente matar alguém.

Eram meros operadores, técnicos especializados, que “só” tinham que deixar cair o conteúdo de uma lata por um tubo. Muito mais “humano” do que metralhar mais uma fila de judeus deitados sobre a fila que tinham metralhado há instantes.