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quinta-feira, 9 de abril de 2026

Ilwad Elman - Foco e Filosofia

"O colapso ecológico e o colapso da governação estão intrinsecamente ligados. Eles reforçam-se mutuamente. E as consequências não são apenas locais. São globais." - Ilwad Elman

Ilwad Elman é uma das mais influentes ativistas somali-canadianas da atualidade, centrando a sua atuação na intersecção entre a paz, a segurança e os direitos humanos.  Filha de pais também eles ativistas, Ilwad, nascida em 1989, na Somália, viveu parte da sua juventude no Canadá, mas decidiu regressar à Somália em 2010 para se juntar à sua mãe, Fartuun Adan, na gestão do Elman Peace and Human Rights Centre. Este centro foi fundado em memória do seu pai, Elman Ali Ahmed, um pacifista assassinado em 1996 pelo seu trabalho de reabilitação de jovens afetados pela guerra.

Em 2010, quando regressaram, o conflito ainda era intenso e a maioria das regiões de Mogadíscio e do Centro-Sul da Somália haviam sido perdidas para o controle do grupo terrorista Al-Shabaab, ligado à Al-Qaeda. Gradualmente, a organização Elman Peace foi pioneira em toda a Somália nas prioridades temáticas sobrepostas de paz e justiça, clima e segurança, direitos humanos e proteção, questões de género e igualdade, educação, meios de subsistência e criação de empregos.

Em 20 de novembro de 2019, as autoridades locais confirmaram que uma de suas irmãs, Almaas Elman, que também havia retornado à Somália como trabalhadora humanitária, foi morta a tiros num carro, perto do Aeroporto Internacional Aden Adde, em Mogadíscio

Ao longo da sua carreira, Ilwad destacou-se pela implementação de programas inovadores de desarmamento e reintegração social, focando-se especialmente na recuperação de ex-crianças-soldado e na proteção de mulheres sobreviventes de violência sexual. O seu trabalho ganhou uma dimensão global através do seu envolvimento como conselheira das Nações Unidas, onde tem defendido que a estabilidade política não pode ser dissociada da justiça social e, cada vez mais, da sustentabilidade ambiental.

Como sugere a citação na imagem, Elman é uma das vozes líderes na sensibilização para a segurança climática. Ela argumenta que a degradação ambiental e a escassez de recursos provocada pelas alterações climáticas e desigualdade promovidas por políticas belicistas e de lavagem verde, exacerbam os conflitos armados, principalmente no Sul Global e alimentam a sua instabilidade política, tornando a justiça ecológica um pilar fundamental para uma paz duradoura.

Pelo seu impacto humanitário, foi já nomeada em várias ocasiões para o Prémio Nobel da Paz, consolidando-se como uma das vozes mais respeitadas na resolução de conflitos em contextos complexos.

Recentemente, o seu percurso académico e contributo para a paz foram reconhecidos com distinções honorárias, incluindo um Doutoramento Honoris Causa em Direito (LL.D.) pela Carleton University, em reconhecimento pelo seu trabalho humanitário e liderança global.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Figura nacional do ano 2025 - Os imigrantes


Raquel Moleiro, Expresso, 26/12/2025
Como é tradição no Expresso, a redação escolheu as figuras nacionais e internacionais do ano. 
O imigrante nunca deixou de marcar a atualidade. Escolhido como urgência política, serviu de moeda de troca ao Governo para ganhar o apoio do Chega e atrair o seu eleitorado. São 1,5 milhões, a viver entre o discurso anti-imigração e o suporte da economia e da natalidade. 
O ano quase no fim e em dois dias o mar matou mais pescadores do que em todo o 2025. Primeiro naufragou o “Vila de Caminha”, a 14 de dezembro. O barco de pesca costeira avariou quando regressava da faina e um golpe de mar virou-o entre a barra de Caminha e a ilha de Ínsua. Levava cinco homens, três morreram. Dois dias depois, foi o “Carlos Cunha”, 21 metros dedicados à pesca do espadarte, a ir ao fundo a 370 quilómetros ao largo de Aveiro. Dos sete pescadores, apenas dois sobreviveram. Entre as duas embarcações só havia um português. Os oito que morreram eram todos imigrantes. Dos 14 pescadores que faleceram este ano, dez eram estrangeiros, da Indonésia. Mais do que números de uma tragédia repetida, estas são cifras que revelam a dependência do sector pesqueiro da mão de obra imigrante. 

São 75% de todos os tripulantes. Fazem parte de uma espinha dorsal estrangeira, mais ou menos invisível, que suporta em cada vez maior percentagem vários sectores da economia nacional: agricultura, construção, turismo, hotelaria, restauração, limpezas, apoio social.

Em 2025 reforçou-se.Dos 1.543.697 imigrantes residentes em Portugal — números da AIMA, ainda em revisão pelo INE —, 71% estão inscritos na Segurança Social, e representam 24% da população ativa do país. Em 2025, até 17 de outubro, tinham contribuído com €3,1 mil milhões, cinco vezes mais do que o valor recebido em subsídios e prestações sociais.

Diz a OCDE que é graças ao imigrante que a força de trabalho em Portugal continua a crescer. Diz o INE que um terço dos bebés que nascem no país tem mãe estrangeira, número que mais do que duplicou na última década, alimentando o aumento da natalidade há dois anos consecutivos. E que é também a imigração que tem garantido o crescimento da população ao manter o saldo migratório positivo. Mas este é um retrato pouco propagado da população estrangeira em Portugal. É positivo e só a custo entra no discurso político ou norteia as decisões do Governo e, em consequência, molda as perceções populares. 

Em 2025, a imigração foi o assunto que tudo dominou, mas encarada como um problema a resolver. O imigrante viu na restrição aos seus direitos de entrada, permanência, legalização, reagrupamento e obtenção de nacionalidade uma prioridade política do executivo de Luís Montenegro. Conseguiu, aliás, o feito notável de ultrapassar em importância a crise da habitação, que mantém os jovens em casa dos pais para todo o sempre, amassa famílias em quartos e repõe barracas. 

Ou o caos do SNS, que só conseguiu romper a hegemonia dos holofotes migrantes quando o número de bebés a nascer em ambulâncias começou a atingir proporções alarmantes. A Educação lá teve o seu curto período de estrelato com a falta crónica de professores — no final do 1º período, havia 13.446 horários por preencher. Mas a cada nova lei criada, votada, vetada, mudada, aprovada, o estrangeiro voltou sempre à ribalta.

Durante este ano, o Governo — pela mão do ministro Leitão Amaro — quis alterar todos os diplomas da imigração, numa transposição legal do fim da ‘política de portas escancaradas’. No Parlamento, o imigrante serviu de moeda de troca ao voto favorável do Chega, com leis a incluir artigos de uma Direita mais inclinada, só travados pelo Tribunal Constitucional (TC).Além de permitir a criação da Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras (UNEF), a nova Lei de Estrangeiros, em vigor desde outubro, veio dificultar o processo de reagrupamento familiar, obrigando um imigrante a esperar dois anos após receber a autorização de residência para iniciar o pedido.

O TC, que chumbou a primeira versão do diploma, forçou a inclusão de um prazo menor para cônjuges e filhos menores. Esta nova lei acabou também com o visto de procura de trabalho, mantendo-se como exceção o uso por profissionais altamente qualificados, e extinguiu o privilégio de legalização com isenção de visto para cidadãos CPLP.

A entrada de trabalhadores estrangeiros passa a fazer-se quase exclusivamente através de visto laboral, dependente da celeridade (demorada) dos consulados ou da ‘via verde’ criada pelo Governo para a contratação de mão de obra por grandes empresas. As confederações esperavam receber por aí 100 mil trabalhadores por ano, mas desde abril só passaram 1305. Por agora, a “porta escancarada” tem aberta uma nesga.
A Lei da Nacionalidade foi o segundo diploma temático aprovado. Igualmente polémica, seguiu o caminho da primeira e foi chumbada a semana passada pelos juízes do Palácio Ratton, vetada por Marcelo Rebelo de Sousa e devolvida ao Parlamento. Em traços gerais, aumenta de cinco para dez anos — sete para países lusófonos — o tempo de residência legal no país para um imigrante iniciar um pedido, o que coloca Portugal entre os mais restritivos da UE. A inclusão de uma pena acessória de perda de nacionalidade não passou no TC. Já em dezembro, o Conselho de Ministros aprovou as linhas gerais do último diploma da tríade migratória, a Lei do Retorno, que regula o afastamento dos ‘ilegais’ de Portugal e mexe igualmente na Lei do Asilo. Encontra-se em consulta pública. Entre as medidas está o aumento do tempo de detenção no Centro de Instalação Temporária dos atuais 60 dias para um ano e meio, e o fim das Notificações para Abandono Voluntário, que acelera a expulsão lá fora, o medo 

Fora da bolha política do Parlamento, no mundo real do imigrante, a vida piorou. O diagnóstico é comum às várias comunidades: entre os 485 mil brasileiros que são 31% dos estrangeiros; os indianos que não chegam aos 100 mil, quase os mesmos que os angolanos; os 79 mil ucranianos; ou entre os cabo-verdianos que se ficam pelos 66 mil. É esse o top cinco das principais nacionalidades em Portugal.Se se ligasse apenas às perceções e cartazes políticos, o Bangladesh estaria em primeiro lugar com os seus 55 mil nacionais, só mais 7 mil que os britânicos. 

terça-feira, 27 de maio de 2025

Jovens receiam não ter green skills necessárias para combater eficazmente as alterações climáticas


O novo estudo do Research Institute da Capgemini e do Generation Unlimited da UNICEF analisou as perspetivas dos jovens sobre a crise climática. O estudo inclui os seus pontos de vista sobre as green skills, a obtenção de diplomas que os capacitem para os green jobs, e a forma como as empresas e os governos podem trabalhar com os jovens para impulsionar uma maior consciência sobre as questões climáticas e a defesa do ambiente.

De acordo com a investigação, a maioria dos jovens está preocupada com as mudanças climáticas, com mais de dois terços em todo o mundo a reconhecer que estão apreensivos com a forma como as alterações climáticas podem afetar o seu futuro, o que representa um aumento face aos dados recolhidos em 2023, quando um inquérito da UNICEF nos EUA revelou que 57% dos jovens a nível mundial sofriam de «ansiedade ambiental». Neste âmbito, os jovens do hemisfério norte reportaram àquela data níveis mais elevados de ansiedade relacionados com as alterações climáticas (76%), por comparação com os seus colegas do hemisfério sul (65%).

A divisão entre os mundos rural e urbano apresentava-se então também de forma evidente, com 72% dos jovens a viverem em zonas urbanas e suburbanas a manifestarem preocupação com o impacto das alterações climáticas no seu futuro, contra apenas 58% dos seus homólogos das zonas rurais.

Jovens acreditam que ainda há tempo para resolver problemas causados pelas alterações climáticas
Não obstante os elevados índices de ansiedade ambiental/climática, a maioria dos jovens acredita que as green skills são essenciais para que o futuro possa ser melhor, e 61% consideram mesmo que ao desenvolverem-nas estão a potenciar as suas possibilidades de acesso a mais oportunidades profissionais. Os jovens querem, além disso, alinhar as suas carreiras profissionais com os seus valores climáticos/ambientais: mais da metade dos jovens (53%) em todo o mundo, e quase dois terços (64%) no hemisfério norte, estão interessados em ter um emprego e uma carreira na área ambiental.

“Os jovens em todo o mundo, e particularmente nos EUA, estão profundamente conscientes dos desafios urgentes que as alterações climáticas nos colocam. É claro que eles também estão ansiosos por fazerem parte da solução”, afirma Sarika Naik, Group Chief Corporate Responsibility Officer da Capgemini. “Temos de ajudar os jovens a transformar esta paixão em ações concretas e com impacto positivo, investindo em capacitá-los com as competências ambientais necessárias. Este estudo evidencia o quão importante é que as empresas, os governos e os líderes da área da educação trabalhem em conjunto para colmatar o défice de competências, dando voz e habilitando os jovens, criando vias de acesso a carreiras profissionais com impacto positivo a nível ambiental”.

“Os jovens estão a criar e a implementar soluções inovadoras que respondem às alterações climáticas que as suas comunidades enfrentam”, refere Kevin Frey, CEO, Generation Unlimited da UNICEF, sublinhando que ”a Green Rising com o seu ecossistema de parceiros dos setores público e privado, está a ajudar os jovens a adquirirem as competências e as oportunidades de que necessitam para poderem agir no combate às alterações climáticas, criarem empresas ambientalmente sustentáveis, terem acesso a empregos e carreiras na área do ambiente e a colocarem em prática soluções verdes”.

Jovens não possuem competências ambientais necessárias
Os jovens são uma reserva de talento fundamental para assegurar o combate às alterações climáticas, mas a transição verde exige mão-de-obra altamente qualificada e especializada. De acordo com a OCDE – Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico, a competência em matéria de sustentabilidade ambiental assenta numa base científica sólida, na compreensão das alterações climáticas, no compromisso de proteger o ambiente, na confiança na explicação dos problemas ambientais e na motivação para agir de forma sustentável.

No entanto, o estudo conclui que só menos de metade dos jovens em todo o mundo (44%) acredita possuir as competências ambientais necessárias para poder ser bem-sucedido no atual mercado de trabalho. Neste contexto, verifica-se igualmente que os jovens das zonas rurais estão ainda mais atrasados do que os das zonas suburbanas e urbanas. A percentagem também varia conforme as regiões. No hemisfério sul, cerca de seis em cada dez jovens brasileiros afirmam possuir competências ambientais, um valor que contrasta fortemente com os 5% dos jovens etíopes que dizem possuí-las.

A verdade é que os conhecimentos dos jovens no que diz respeito às competências ambientais regrediram desde 2023, quando foi realizado o estudo anterior pelo Research Institute da Capgemini. Entre os jovens com idades compreendidas entre os 16 e os 18 anos na Alemanha, Áustria, EUA, França, Japão e Reino Unido, a reciclagem e a redução de resíduos continuam a ser as competências ambientais mais difundidas.

Mas a proporção de jovens com conhecimentos de design sustentável, energia e transportes diminuiu significativamente desde 2023. Já no hemisfério sul, os jovens têm mais conhecimentos sobre reciclagem e redução de resíduos, conservação de energia e água, mas menos sobre tecnologias verdes, análise de dados e design sustentável.

A maioria dos jovens em todo o mundo (71%) concorda que devem ter uma forte influência na política e na legislação ambiental. No entanto, consideram que os líderes empresariais e políticos em todo o mundo não estão a desempenhar o seu papel e devem contribuir mais para o combate contra as alterações climáticas. Quase dois terços dos jovens sentem-se suficientemente confiantes para falarem com os seus líderes locais sobre a ação climática. No entanto, só menos de metade acredita que as suas opiniões são realmente tidas em conta.

O estudo incita os líderes locais a apoiarem os jovens na promoção das soluções e das competências ambientais. O Young People’s Perspetives on Climate: Preparing for a Sustainable revela igualmente que integrar a educação ambiental, expandir o acesso à formação e alinhar os objetivos climáticos com as estratégias de emprego dos jovens, são aspetos que devem ser parte da solução a ser implementada pelos decisores políticos. Também os líderes empresariais devem ser incentivados a colaborar na criação dos green jobs, a investirem em iniciativas lideradas por jovens e a integrarem as suas vozes nas estratégias de RSE, ESG e clima das suas empresas com o objetivo de reforçar a confiança e estimular a inovação sustentável.

Movimentos globais como o Green Rising (que tem como objetivo apoiar 20 milhões de jovens até 2026, capacitando-os para poderem participar no combate às alterações climáticas e para conseguirem agir localmente nas suas comunidades, proporcionando-lhes oportunidades de voluntariado, de ativismo, de trabalho remunerado e de empreendedorismo), respondem ao anseio crescente dos jovens de melhorarem as suas competências ambientais. Esta iniciativa é liderada pela Generation Unlimited da UNICEF e é apoiada por várias organizações dos setores público e privado, incluindo a Capgemini.

sábado, 17 de maio de 2025

War/No More Trouble feat. Bono



À medida que viajávamos pelo mundo, encontrávamos amor, ódio, ricos e pobres, negros e brancos, bem como muitos grupos religiosos e ideologias diferentes. Ficou muito claro que, enquanto raça humana, precisamos de transcender das trevas para a luz e a música é a nossa arma do futuro. This Song Around The World conta com a participação de Bono, David Broza, Rocky Dawuni, Mermans Mosengo e músicos que viram e superaram conflitos e ódio com amor e perseverança. Não precisamos de mais problemas, o que precisamos é de amor. O espírito de Bob Marley vive sempre.

Until the philosophy which hold one race
Superior and another inferior
Is finally and permanently
Discredited and abandoned
Everywhere is war, me say war

(We don't need) No, we don't need (no more trouble)
No more trouble!
(We don't need no more trouble)

(We don't need) We don't need (no more) trouble!
We don't need no trouble!

What we need is love (love)
To guide and protect us on (on)
If you hope good down from above (love)
Help the weak if you are strong now (strong)

We don't need no trouble (Need no trouble)
What we need is love
(What we need is love sweet love) Oh, no!
We don't need, no more trouble!
Lord knows, we don't need no trouble!

Speak happiness! (Sad enough without your woes)
Come on, you all, and speak of love
(Sad enough without your foes)

We don't need no trouble (We don't need your troubles)
What we need is love now (What we need is love!)
(We don't need) Oh, we don't need no more trouble!
We don't need, no, we don't need no trouble!

terça-feira, 3 de setembro de 2024

Alterações climáticas: isto não é ficção científica


O Tratado Falepili tem um nome fora do comum e entrou em vigor na passada quarta-feira, no dia 28 de Agosto. Por que é que é tão importante? Porque consiste num acordo entre a Austrália e a nação insular de Tuvalu, que enfrenta o drama do desaparecimento iminente: o arquipélago da Polinésia, onde vivem 11 mil pessoas, pode ficar submerso em apenas 100 anos, o que na história do planeta é uma pequena fracção de tempo. As alterações climáticas, com a subida do nível do mar, ditam o desfecho.
Os subscritores chamam-lhe um “caminho especial de mobilidade”, que permitirá aos habitantes de Tuvalu morar e trabalhar na Austrália, tendo em conta que as próximas gerações terão cada vez menos território físico para habitar. São mais um caso de refugiados climáticos, expressão que parecia alarmista quando começou a surgir há uns anos, mas que hoje em dia não é nada mais nada menos do que algo bem real e tangível.
O Banco Mundial estima que haja 216 milhões de refugiados climáticos até 2050. De acordo com a Organização Internacional para Migrações (OIM), o Brasil, por exemplo, já é o sexto país com o maior número de deslocados internos, devido à maior frequência de fortes inundações, como as que ocorreram em Maio no Rio Grande do Sul. No ano de 2022, mais de 700 mil brasileiros foram, aliás, obrigados a deslocar-se para outras zonas por causa das inundações.
A Unicef também tem estado atenta ao problema e revelou que, entre 2016 e 2021, mais de 40 milhões de crianças terão sido deslocadas em todo o mundo.
Em Portugal, as alterações climáticas manifestam-se especialmente na erosão costeira, aumento da temperatura da água e em períodos maiores de seca. Ao contrário de outros países, não tem havido eventos climáticos extremos que suscitem uma onda imediata de alerta e preocupação, mas a verdade é que Portugal já entrou para o top 20 dos países mais afectados pelas ondas de calor e tem crescido o número de mortes provocadas pelo aumento das temperaturas.
Na bacia do Mediterrâneo, Grécia, Malta e Itália vivem as situações mais dramáticas e as preocupações dos europeus com as alterações climáticas já se fazem sentir mesmo na altura de férias. Um recente trabalho do Público reflectia sobre a forma como essas alterações já orientam as escolhas dos turistas: cerca de 76% dos europeus afirmam estar a ajustar os seus hábitos de viagem em função das alterações climáticas, segundo o relatório de 2024 da European Travel Commission (ETC).
Em suma, as consequências das alterações climáticas sentem-se todos os dias em várias vertentes e só mesmo os negacionistas podem ignorá-lo, até porque há mesmo países em risco de desaparecimento e isso não é ficção científica."

sábado, 1 de junho de 2024

1 de Junho - Dia da Criança

Mais que tudo e todos...a criança. Bom dia da Criança, Cecília com belo poema à criança (que já fomos e não morreu em nós).


Poema à Criança 
"A criança aproxima-se das mudanças no rodopio da aragem
É a eclosão da esperança
O simulacro da pujança numa qualquer margem
A criança é a ribeira e o amanhecer é a coragem e o acontecer
A criança é a melhor das imagens em consonância
A criança é a vida o hoje o amanhã
A criança é polpa e dissemelhança"

Cecília Barreira

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Dezenas de milhões de pessoas neste país bebem água contaminada com arsénico. A situação pode piorar muito


Incolor, insípido e inodoro. O arsénio é um assassino furtivo, naturalmente abundante nas rochas e no solo da Terra. É muito tóxico na sua forma inorgânica, sendo encontrado nos níveis elevados das águas subterrâneas. Há vários países onde se verificam contaminações por arsénico

Começou com pontos espalhados pelo peito e costas das pessoas. Manchas duras invulgares na pele das palmas das mãos e nas solas dos pés. Para alguns, um escurecimento dos dedos dos pés.

Médicos e investigadores começaram a observar pacientes no Bangladesh que apresentavam este tipo de sintomas na década de 1980. Rapidamente se tornou claro o que estavam a ver: sinais clássicos de envenenamento por arsénico.

Numa trágica ironia, a razão acabou por ser atribuída a um programa de saúde pública de enorme sucesso.

Na década de 1970, as crianças do Bangladesh morriam em grande número devido a doenças como a disenteria e a cólera, depois de beberem água suja dos rios, lagos e ribeiros. Em resposta, o governo do Bangladesh, juntamente com agências de ajuda lideradas pela UNICEF, lançou um enorme esforço para obter água mais limpa no subsolo.

Ao longo das duas décadas seguintes, milhões de poços tubulares - tubos estreitos perfurados a profundidades relativamente pequenas - foram enterrados na terra. "No espaço de uma geração, mudaram o comportamento da água potável de toda uma população", disse Seth Frisbie, químico e professor emérito da Universidade de Norwich, que passou décadas a investigar a contaminação por arsénico.

Os números de crianças a morrer diminuíram significativamente. Ainda assim, nos anos 90, tornou-se claro que o projeto tinha falhado a ter em conta um problema enorme e mortal: grande parte das águas subterrâneas continha níveis elevadíssimos de arsénico, um conhecido agente cancerígeno ligado a uma série de outros impactos negativos para a saúde.

Os especialistas em saúde classificaram-no como o "pior envenenamento em massa" de uma população na história - com dezenas de milhões de pessoas afetadas. Embora o governo, a UNICEF e outras agências de ajuda humanitária se tenham esforçado por combater a contaminação, os impactos do envenenamento continuam a ser generalizados. Estima-se que 43.000 pessoas morrem todos os anos devido a doenças relacionadas com o arsénico no Bangladesh, de acordo com um estudo.

Agora, numa reviravolta cruel, a situação pode estar a piorar. Novas evidências sugerem que os impactos da crise climática causada pelo homem - incluindo as inundações e o aumento do nível do mar - estão a alterar a química da água no subsolo e a aumentar ainda mais os níveis de arsénico.


O problema estende-se muito para além do Bangladesh.
Um número crescente de estudos realizados noutros países, incluindo os Estados Unidos, sugere que o aquecimento global pode estar a superalimentar o problema da água contaminada com arsénico em todo o mundo.

"Afeta todos os órgãos do corpo"
O arsénico é naturalmente abundante nas rochas e no solo da Terra. É muito tóxico na sua forma inorgânica, sendo encontrado nos níveis elevados das águas subterrâneas, não só no Bangladesh, mas também em países como a Índia, China, Taiwan, Vietname, Argentina, Chile, México, partes da Europa, Austrália e EUA.

Enquanto as águas superficiais poluídas adoecem rapidamente as pessoas, o arsénico é um assassino furtivo.

É incolor, insípido e inodoro. Não há forma de o detetar sem testes e os seus impactos tendem a surgir ao fim de muitos anos.

A exposição crónica pode revelar-se através da pele endurecida das mãos e dos pés, chamada queratose, do aparecimento de manchas pigmentadas na pele e até da "doença do pé negro", uma doença vascular que pode causar gangrena - tecido morto causado pela falta de fluxo sanguíneo.

Os seus efeitos nocivos continuam no interior do corpo das pessoas, onde aumenta o risco de cancro da pele, do fígado, dos pulmões e da bexiga, bem como de doenças cardíacas e diabetes. O arsénico também tem sido associado à perda da gravidez, a atrasos no desenvolvimento das crianças e a doenças respiratórias.

"Afeta todos os órgãos do corpo", afirma Rubhana Raqib, cientista sénior do Centro Internacional de Investigação sobre Doenças Diarreicas no Bangladesh (ICDDR,B - na sigla original).

Alguns peritos sugeriram que a escala do envenenamento no Bangladesh ultrapassa largamente a de outras catástrofes mais conhecidas causadas pelo homem, como o desastre nuclear de Chernobyl. Mas o número exato de mortos é quase impossível de calcular, em parte devido às dificuldades em desvendar as causas do cancro.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que cerca de 140 milhões de pessoas em pelo menos 70 países têm bebido água contaminada com arsénico a níveis que excedem o limite recomendado de 10 microgramas por litro.

No Bangladesh, onde as diretrizes do governo estão fixadas numas menos restritivas 50 microgramas, acredita-se que milhões de pessoas terão sido afetadas.

Um enorme estudo de análise de poços realizado pelo British Geological Survey, que teve início em 1998 e abrangeu a maior parte do Bangladesh, revelou que 27% dos poços tubulares menos profundos excediam as diretrizes do país, afetando cerca de 35 milhões de pessoas. Cerca de 57 milhões de pessoas foram expostas a níveis que violavam as indicações de 10 microgramas da OMS, de acordo com o estudo - aproximadamente 45% da população.

Frisbie, que passou algum tempo no Bangladesh a produzir mapas da água potável afetada pelo arsénico, disse que o número era evidente.

"Percorri aldeias onde ninguém tinha mais de 30 anos", disse à CNN.

Mesmo as normas mais rigorosas em matéria de arsénico recomendadas pela OMS e adotadas por países como os EUA não proporcionam proteção suficiente, afirmou. "O arsénico é extremamente tóxico. Só porque está a um determinado nível que o governo diz ser seguro... não significa que seja seguro, não significa que as pessoas não vão morrer."

O aquecimento global pode aumentar os riscos
Os riscos são cada vez maiores à medida que os seres humanos continuam a queimar combustíveis fósseis que aquecem o planeta.

Os impactos cada vez mais graves das alterações climáticas podem mudar a química das águas subterrâneas, de acordo com um estudo recente de que Frisbie é coautor.

Isto significa mais problemas para o Bangladesh, que está firmemente na linha da frente da crise climática. Baixa e densamente povoada e com uma longa costa, enfrenta uma imensidão de ameaças, desde a subida do nível do mar até às inundações - todos os anos, cerca de 20% do país fica submerso.

As inundações podem impedir que o oxigénio da atmosfera penetre nas águas subterrâneas, de acordo com a investigação, o que, por sua vez, pode aumentar a libertação de arsénico dos sólidos e sedimentos para a água - um processo designado por "redução".

A subida do nível do mar representa outro desafio, provocando a infiltração de água salgada nas fontes de água subterrâneas. Isto não só faz com que a água tenha um sabor mais salgado, como a presença de sal pode também aumentar as concentrações de arsénico, fazendo com que este se dissolva na água através de um fenómeno chamado "efeito salino".

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Hoje celebramos o Dia Internacional da UNICEF


Com mais de 75 anos de história e presença em mais de 190 países e territórios, a UNICEF é a principal organização de defesa e promoção dos direitos das crianças.
Das situações de emergência à construção de um futuro melhor, levamos ajuda humanitária, educação, saúde, proteção e, acima de tudo, esperança a milhões de crianças em situações de vulnerabilidade.


A UNICEF (United Nations Children's Fund - Fundo das Nações Unidas para a Infância) é um órgão da Organização das Nações Unidas (ONU) que tem como objetivo fomentar a defesa dos direitos das crianças e contribuir para o desenvolvimento destas. Ela rege-se pela Convenção sobre os Direitos da Criança, lutando por um mundo melhor para as crianças, que são o futuro da humanidade. 

Celebra-se a dia 11 de dezembro o Dia Internacional da UNICEF pois foi neste dia que se fundou este organismo, em 1946. Na sua origem esteve o desejo de ajudar as crianças europeias que sentiram na pele a crueldade da 2ª Guerra Mundial. Hoje em dia a UNICEF está em 193 países e territórios do mundo, tendo a sua sede em Nova Iorque.

Neste dia pode informar-se sobre a UNICEF e sobre a defesa das crianças, assim como pode fazer um donativo à UNICEF. Este órgão depende inteiramente de contribuições voluntárias, não recebendo qualquer financiamento da ONU.

sexta-feira, 24 de março de 2023

Guerra no Iémen faz 11 milhões de crianças precisarem de ajuda humanitária


O Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, lançou um alerta sobre a precária situação das crianças após oito anos de guerra no Iémen.

O agravamento do conflito, o fracasso económico do país e o desmonte de serviços essenciais lançaram mais de 11 milhões de menores numa situação desesperadora à espera de assistência humanitária urgente.

Em comunicado, a agência da ONU informa que milhões de crianças iemenitas estão sob risco de mal nutrição, e mais de 540 mil sofrem de forma aguda correndo risco de morte caso não receba tratamento urgente.

A Unicef explica que a vida de milhões de menores continua sendo massacrada pela guerra sem fim. O representante da agência no Iémen, Peter Hawkins, lembrou que mais de 11 mil crianças ficaram seriamente feridas pelo conflito entre março de 2015 e novembro passado.

O número de menores recrutados para o combate ultrapassa 4 mil.

Segundo a agência, houve mais de 900 ataques a instalações de saúde e educação assim como uso desses locais para fins militares.

A ONU afirma que oito anos de conflito, desespero e luto também colocaram 8 milhões de iemenitas na lista de espera para serviços de assistência psicossocial e de saúde.

Muitas famílias estão perdendo as crianças para o combate e o casamento infantil.

Os dados indicam que mais de 2,3 milhões de menores ainda estão vivendo em acampamentos de deslocados internos com acesso inadequado a serviços básicos de saúde e higiene.

O representante do Unicef diz que os oito anos do conflito levaram muitos a perder as esperanças. Várias crianças estão crescendo no meio da guerra e sem acreditar em dias melhores ou num futuro de paz.

A agência da ONU está pedindo US$ 484 milhões para continuar a salvar vidas neste ano.

Se não receber a quantia, o Unicef diz que será forçado a diminuir a assistência a crianças que precisam.

sábado, 3 de dezembro de 2022

Eco-ansiedade: Preocupar-se com as alterações climáticas pode ser stressante


Quão preocupados estão com as questões ambientais? Se pensarmos nas alterações climáticas e na perda de biodiversidade nos stressa, não estamos sozinhos. Os psicólogos estão a tentar compreender este sentimento, que se chama eco-ansiedade, e estão a descobrir que esta preocupação pode ser essencial para a nossa luta para salvar o planeta, avança a “Science Focus”.

Segundo a mesma fonte, para nos ajudar a medir a eco-ansiedade, em finais de 2021, o psicólogo australiano aplicado Teaghan Hogg e colegas propuseram uma nova escala: a Escala de Eco-ansiedade Hogg. Dividida em 13 itens, capta os nossos sentimentos complexos sobre o planeta.

A escala é medida por emoções negativas como o nervosismo, a beira do abismo, ou o medo sobre questões ambientais incluindo o aquecimento global, a degradação ecológica, o esgotamento de recursos, a extinção de espécies, o buraco na camada de ozono, a poluição dos oceanos, e a desflorestação. A escala também mede se somos incapazes de deixar de pensar nas alterações climáticas ou nas perdas para o ambiente.

Além disso, tenta perceber como estes sentimentos e pensamentos mudam o nosso comportamento, como se lida com as dificuldades para dormir, trabalhar, ou desfrutar de situações sociais. E, como nos sentimos responsáveis, como nos sentimos ansiosos pelo impacto dos nossos comportamentos pessoais na Terra, ou se os nossos comportamentos individuais pouco farão para resolver o problema.

Se pensassem apenas: “uau, isso sou eu a maioria dos dias”, então provavelmente têm uma elevada eco-ansiedade. Isto é comum em todo o mundo, em todas as idades, mas, parece ser o mais pronunciado entre os jovens.

Em 2021, investigadores e conjunto com a UNICEF publicaram o primeiro inquérito internacional em larga escala sobre a ansiedade climática em crianças e jovens. Inquiriram 10.000 pessoas entre os 16 e os 25 anos de idade, em 10 países (Austrália, Brasil, Finlândia, França, Índia, Nigéria, Filipinas, Portugal, Reino Unido, e EUA). Verificaram que 59 por cento das pessoas estavam muito ou extremamente preocupadas com as alterações climáticas, e 84 por cento estavam pelo menos moderadamente preocupadas.

Explorando diretamente as facetas da eco-ansiedade, os investigadores da UNICEF descobriram também que metade das crianças e jovens relataram sentir-se tristes, ansiosos, zangados, impotentes, indefesos e culpados por questões ambientais. Mais de 45% disseram o que sentiam sobre as alterações climáticas afetando negativamente a sua vida diária, com receios sobre o futuro dominando os seus pensamentos e sentimentos profundos de traição por parte dos governos.

“Este é um problema potencial para a saúde mental. Sentir-se constantemente ansioso e preocupado com o clima pode levar a stress crónico na infância, o que pode ter consequências duradouras”, sublinha a “Science Focus”.

Será que os jovens vão ficar mentalmente doentes devido ao constante stress que estas questões têm na sua mente? Numa análise da investigação sobre as consequências para a saúde da eco-ansiedade publicada em 2022, uma equipa de investigadores espanhóis e brasileiros descobriu que esta está associada à depressão, ansiedade, stress, insónias, menor autorreferência à saúde mental, diminuição da memória e da atenção, e uma relutância em ter filhos.

Isto não significa que os jovens de hoje sejam todos afetados pela eco-ansiedade. Mas quer dizer que “temos de estar atentos aos efeitos psicológicos que as alterações climáticas estão a ter”.

O lado positivo da eco-ansiedade

“Há também um lado positivo da eco-ansiedade. Tem estado ligada à ação pró-ambiental e ao ativismo climático. É por causa disto que alguns investigadores têm argumentado que, em geral, a eco-ansiedade é uma coisa boa porque é uma ansiedade prática”, sublinha o site.

A ansiedade é a forma do nosso corpo nos dizer que podemos estar em perigo. Isto leva-nos a tentar descobrir qual é essa ameaça, levando-nos a encontrar mais informação e a descobrir uma solução que nos torne seguros. A crise climática é um perigo muito real. É bom que os nossos cérebros estejam a tentar fazer-nos prestar atenção e fazer algo a respeito, porque é assim que derrotamos esta ameaça.

Os investigadores que examinaram a ligação entre a eco-ansiedade e a saúde descobriram que a ação pró-ambiental poderia proteger especificamente contra esta ansiedade que evolui para a depressão.

“Por outras palavras, particularmente se tiver ansiedade ecológica, apanhar o comboio em vez de voar, reciclar, fazer petições ao funcionário do governo local, ou aderir a uma marcha, não é apenas bom para o planeta, pode também fazer maravilhas para a sua saúde mental”, conclui a mesma fonte.

sábado, 29 de outubro de 2022

Onde Estão os Pobres?


Por António Guerreiro

A pobreza é histórica e socialmente relativa, os critérios para a sua definição mudam consoante a época e a sociedade.

Ao mesmo tempo que eram divulgados alguns números sobre o aumento da pobreza em Portugal e se publicavam reportagens que amplificam demagogicamente a situação, o Governo depositava 125 euros na conta bancária de uma grande parte dos cidadãos. Esse dinheiro vai alimentar o fluxo económico e volta a reentrar parcialmente nos cofres do Estado. Mas o que importa é cultivar a imagem de um Estado benfeitor.

Muito embora o universo dos beneficiários inclua a maior parte da população e não se limite aos que têm rendimentos muito reduzidos ou se situam abaixo do limiar de pobreza, esta “dádiva”, no contexto em que é feita, arrisca-se a parecer uma manobra de assistência ou um suplemento de generosidade do sistema de protecção social.

Evidentemente, a operação é económica, bastante alargada, e tem objectivos políticos, mas na sua forma e graças à coincidência com a divulgação de dados alarmantes, acaba por se confundir demasiado com a assistência à pobreza. E ser assistido é, como sabemos desde que em 1907 Georg Simmel publicou o seu célebre estudo sobre os pobres, com o qual impulsionou uma “sociologia da pobreza”, o critério essencial para que uma pessoa seja representada pelos outros como pobre.

Onde está afinal esta enorme massa de população pobre se nós não a vemos ou a vemos muito pouco? Não a vemos porque na nossa sociedade (democrática e rica ou com aspirações a tal) é o modelo da riqueza que se tornou conspícuo ou até exuberante, enquanto os pobres foram relegados para a condição da invisibilidade. De outro modo, constituiriam um grande incómodo que justifica, aliás, o assistencialismo: este acaba por ser uma forma de assistência não apenas aos assistidos, mas aos sujeitos da assistência. É preciso apresentar ainda uma outra razão para esta invisibilidade: em países como Portugal há uma pobreza integrada socialmente.

Muitas pessoas com quem nos cruzamos diariamente, que nos prestam serviços e que nos atendem nas lojas, nos supermercados, nos cafés e restaurantes, fazem parte deste estrato social; nos países da Europa do Norte, pelo contrário (embora com alguns desvios que se têm acentuado nos últimos anos), a classe média é a regra geral e a pobreza é quase sempre marginal, os pobres vivem na condição de “restos”, de inadaptados, não formam um conjunto social.

Outra coisa que Simmel nos ensinou é que a pobreza é sempre relativa e, por isso, devemos interrogar a própria noção de pobreza, tal como ela é definida e quantificada pelas estatísticas. Basta mudar um pouco o limiar de pobreza oficial e imediatamente se altera a proporção dos pobres em relação à totalidade do universo populacional.

A pobreza é histórica e socialmente relativa, os critérios para a sua definição mudam consoante a época e a sociedade: um pobre em Inglaterra na época da revolução industrial não é o mesmo que um pobre na Inglaterra de hoje, tal como um pobre na Suíça não se assemelha a um pobre em Portugal. Mas esta definição relativa de pobreza aplica-se também às categorias profissionais. Um exemplo, que tem actualmente uma extrema evidência, demonstrativa desta realidade: a classe dos jornalistas tem os seus pobres, que são a maioria, e os seus ricos, uma minoria.

A pobreza, em sociedades como a nossa, é apenas bem visível quando ostentada pelos “outros”, os que não são como nós, os imigrantes ou os que são etnicamente identificados. Mas, para além de genericamente invisível, é também muda ou, pelo menos, muito pouco eloquente. Não se vê e pouco fala. Há quem fale por ela, muitas vezes instrumentalizando-a, mas é muito raro apreendê-la com voz própria e sem mediações. Uma excepção a esta regra é um livro-reportagem, um fabuloso livro de um notável escritor dos Estados Unidos, William T. Vollmann, intitulado Poor People (2007).

Vollmann percorreu entre 1994 e 2006 vastas zonas do mundo onde prolifera a pobreza e perguntou aos pobres porque é que são pobres. E as respostas que recebeu são as mais variadas: o destino, dizem uns, a preguiça, confessam outros, o infortúnio e as decisões políticas, avançam outros. Enfim, as respostas são muito diferentes e há até uma mulher indiana que lhe respondeu que a sua pobreza era ditada pelas leis da encarnação; e há um sem-abrigo, algures no México, que diz que não se considera pobre porque arranja dinheiro diariamente para se embebedar.

Relatórios 
Índice Multidimensional de Pobreza (ONU-2002)
UNICEF- Análise do impacto da Guerra Rússia-Ucrânia e a desaceleração económica na pobreza infantil na Europa Oriental e na Ásia Central

Política Nacional

terça-feira, 24 de maio de 2022

Crianças portuguesas não vivem em casas saudáveis, diz relatório da UNICEF


Relatório lamenta que mesmo muitos países ricos não consigam oferecer um ambiente saudável aos seus próprios jovens. Portugal caiu para a 25.ª posição.

As crianças portuguesas não vivem em ambientes saudáveis, sobretudo devido a problemas com a habitação, segundo um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) divulgado esta terça-feira.

O documento, elaborado pelo Centro de Pesquisa Innocenti da UNICEF, coloca Portugal no terceiro lugar, entre 39 países, no que toca ao desempenho geral em termos de indicadores ambientais.

No entanto, Portugal cai para a 25.ª posição no que toca às condições ambientais para as crianças em particular, nomeadamente a poluição do ar e da água e a presença de chumbo no sangue.

O relatório sublinha que cerca de 8% das crianças portuguesas vivem em habitações com problemas graves.

Cerca de 35% das famílias pobres com crianças tinham dificuldade em manter as casas aquecidas em Portugal, enquanto 25% das famílias são afetadas pelo ruído e poluição sonora.

Uma em cada cinco crianças portuguesas é exposta a humidade e bolor em casa, enquanto uma em cada dez famílias pobres com crianças viviam em habitações com pouca iluminação natural.

O centro analisou 39 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e da União Europeia (UE) de acordo com diferentes critérios, incluindo pesticidas, geração de resíduos, humidade doméstica e acesso à luz natural.

O relatório lamenta que mesmo muitos países ricos não consigam oferecer um ambiente saudável aos seus próprios jovens, sublinhando que mais de 20 milhões de crianças têm níveis elevados de chumbo no sangue.

"Não só a maioria dos países ricos não consegue proporcionar aos seus próprios filhos um ambiente de vida saudável, mas, pior ainda, contribui para a destruição de outras crianças, em outras partes do mundo", denunciou num comunicado à imprensa Gunilla Olsson, diretora do Centro Innocenti.

O relatório refere que o ambiente saudável vivido em países como a Finlândia, Islândia e Noruega só é possível através de sistemas com um enorme impacto no planeta em termos de consumo, emissão de gases de carbono e produção de lixo eletrónico.

Mesmo em Portugal, o consumo médio da população exigiria que o planeta Terra tivesse 2,8 vezes os recursos naturais atuais. O valor atinge oito vezes no caso do Luxemburgo.

Os mais jovens estão conscientes da insustentabilidade, com 30% dos portugueses entre os 16 e os 25 “extremamente preocupados” com as mudanças climáticas, um valor que o Centro Innocenti atribui ao aumento dos fogos florestais em Portugal.

Mais de metade dos jovens portugueses sente-se “traído” pelo governo no que toca à crise climática e cerca de um terço pondera não ter filhos “devido às mudanças climáticas”.

sábado, 5 de fevereiro de 2022

A outra 'pandemia' que ameaça a humanidade (a uma velocidade alarmante)

As superbactérias já matam mais do que sida, malária e cancro do pulmão.



O número de mortes por infeções causadas por bactérias resistentes irá aumentar em 10 vezes até 2050, adverte um estudo publicado na revista Lancet, sublinhando que as superbactérias já matam mais do que sida, malária e cancro do pulmão

De acordo com a investigação, todos os anos morrem 1,2 milhões de pessoas devido a superbactérias. E os cientistas estimam que, em menos de 30 anos, as venham a provocar a morte de 10 milhões de pessoas por ano, três vezes mais do que a estimativa de óbitos por Covid para 2020.

A investigação é baseada em dados de 204 países. Até à data, é a mais abrangente sobre o tema. Os investigadores analisaram 23 agentes patogénicos diferentes e quase 90 combinações de infeções e medicamentos utilizados para tratá-las, sem sucesso.

Segundo o estudo, as superbactérias foram a terceira causa de morte a nível mundial em 2019, ficando apenas atrás das doenças cardíacas e do AVC. As infeções respiratórias, tais como a pneumonia, causadas por estas bactérias são as maiores 'assassinas': 400 mil mortes por ano.

As crianças são as mais afetadas. Os dados mostram que 20% tinham menos de cinco anos. Ou seja, vão ao encontro dos números da Unicef, que estima que até 40% de todas as mortes neste grupo etário são provocadas por superbactérias.

De todos os micróbios testados, seis deles - E. coli, S. aureus, K. pneumoniae, S. pneumoniae, A. baumannii, e P. aeruginosa - são responsáveis pela maioria das mortes (920 mil).

A África Subsaariana e o Sudeste Asiático são as duas regiões mais abaladas, com mais de 20 mortes por cada 100 mil habitantes. Nos países desenvolvidos, esta infeções matam, em média, 13 pessoas por 100 mil habitantes. No entanto, a mortalidade causada por estes micróbios poderia ser muito inferior se houvesse um acesso mais facilitado à medicação. sublinham os investigadores.

Recorde-se que a biotecnológica portuguesa Immunethep tem em desenvolvimento uma vacina injetável e um tratamento contra as infeções bacterianas. "Estamos a trabalhar na primeira vacina para prevenir infeções por cinco bactérias diferentes, como a E Coli, que são conhecidas por superbactérias, porque são resistentes aos antibióticos. Temos também um outro produto para tratar essas próprias infeções e uma parceria com a americana Merck", revelou Bruno Santos, CEO da empresa portuguesa de biotecnologia, em entrevista ao Notícias ao Minuto.

A vacina em desenvolvimento contra infeções bacterianas resistentes a antibióticos baseou-se numa investigação desenvolvida na Universidade do Porto "realmente única" ligada à própria criação da Immunethep, em 2014.

"Não estamos a atacar cada uma das bactérias isoladamente. Foi descoberto um mecanismo que todas essas bactérias usam e estamos a falar de bactérias conhecidas pela sua resistência a antibióticos e responsáveis por grande parte das infeções hospitalares. Ao ter sido descoberto o porquê de elas estarem a ultrapassar o nosso sistema imunitário e serem capazes de nos infetar e terem um mecanismo comum, com esta abordagem conseguimos fazer uma vacina que tem capacidade de prevenir infeção de cinco bactérias diferentes", disse à agência Lusa Bruno Santos, cofundador e administrador executivo da biotecnológica.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

COP26: esperado texto "praticamente final" em dia dedicado a cidades e regiões

Os negociadores da cimeira do clima devem apresentar hoje um texto de conclusões.


Os negociadores da cimeira do clima em Glasgow, Reino Unido, devem apresentar hoje um texto de conclusões "praticamente final", segundo o presidente da conferência, Alok Sharma, num dia também dedicado às cidades e regiões.

Na quarta-feira Alok Sharma pediu "abertura e flexibilidade" aos negociadores e disse esperar para hoje um texto de resoluções "praticamente final".

A 26.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP26), termina na sexta-feira, quando se espera que dela saiam decisões para que o mundo evite um aquecimento global que vá além dos 1,5ºC (graus celsius) em relação à época pré-industrial.

Hoje, além de um balanço dessas conclusões, a cimeira debate a importância das cidades, regiões e ambiente construído na mitigação das emissões de gases com efeito de estufa.

Será o dia dos governos nacionais, das cidades e das regiões e da sua colaboração com o setor privado para um melhor ambiente construído, no sentido de se começar a luta contra as alterações climáticas a nível local para a partir daí se chegar ao nível global.

Vai falar-se por exemplo do que se pode fazer a nível dos municípios para um melhor ambiente, sem emissões de gases com efeito de estufa e ao mesmo tempo mais resistente aos efeitos das alterações climáticas.

Crise dos direitos da criança

No penúltimo dia da cimeira serão ainda discutidos temas como a crise climática e a crise dos direitos da criança, num debate organizado pela UNICEF; o caminho para acabar com a produção de combustíveis fósseis, ou a forma de impedir o colapso climático agindo sobre a Amazónia.

Duas outras organizações internacionais, a ambientalista "World Wide Fund for Nature" (WWF) e a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) estão também na organização de outros eventos que decorrem paralelamente às conversações para se encontrar um acordo final e consensual na sexta-feira.

Mais de 120 líderes políticos e milhares de especialistas, ativistas e decisores públicos estão reunidos até sexta-feira em Glasgow, na Escócia, na COP26 para atualizar os contributos dos países para a redução das emissões de gases com efeito de estufa até 2030.

A COP26 decorre seis anos após o Acordo de Paris, que estabeleceu como meta limitar o aumento da temperatura média global do planeta a entre 1,5 e dois graus celsius acima dos valores da época pré-industrial.

Apesar dos compromissos assumidos, as concentrações de gases com efeito de estufa atingiram níveis recorde em 2020, mesmo com a desaceleração económica provocada pela pandemia de covid-19, segundo a ONU, que estima que, ao atual ritmo de emissões, as temperaturas serão no final do século superiores em 2,7 ºC.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

O Euro da UEFA é pago pelo Estado Social


1.O cerco de Lisboa, o fim dos ingleses, agora o fim dos alemães, a seguir os outros que também não vêm, os números que vão continuar a crescer em Julho... e de repente todos os negócios que vivem do verão estão já a bater no fundo de forma mais violenta do que em 2020. O que é inacreditável. Como é possível termos conseguido atravessar o ano passado, com prudência e sem vacina, e perder o pé quando estamos a semanas de uma imunidade provável às variantes conhecidas? A resposta é cada vez mais evidente: uma minoria é suficiente para sequestrar a sociedade. Não que as pessoas queiram contrair covid, mas o risco económico é baixíssimo - a doença é pouco grave em 98% dos casos.
É neste paradoxo que temos de começar por analisar a batalha subterrânea sobre o teletrabalho. Os números começam a aparecer. Os empregadores (74%) pretendem fazer voltar os trabalhadores aos escritórios a tempo inteiro, segundo o Dinheiro Vivo de ontem. Ao mesmo tempo, uma sondagem do Jornal de Negócios revelava que apenas 13% dos trabalhadores defendem o trabalho presencial na íntegra.
Ora, como os números mostram, há potencialmente muita gente a querer que o teletrabalho vá continuando. Daí a tranquilidade aparente com que se juntam milhares de pessoas nas ruas sem medo das consequências, ou se organizam aniversários ou casamentos com dezenas ou centenas de pessoas sem testagem prévia. "Vai ficar tudo bem". Não fica, como se vê.
2. A acrescentar a esta deriva, não pode ser pior o exemplo do Euro de futebol. A UEFA, totalmente indiferente à variante Delta e à vida de milhares de pessoas, não se contentou com o negócio televisivo e uma presença de um terço da lotação dos estádios. Enche-os, à boleia de uma indiferença coletiva que tem uma rede de luxo: Estado Social europeu e serviços nacionais de saúde. Eis o cúmulo a que chegamos.
A UEFA está, aliás, a hipotecar o regresso do futebol pós-verão com o crescendo da pandemia, liquidando os próprios clubes, de novo, provavelmente com estádios vazios. Um egoísmo atroz. Em paralelo, as atividades sequestradas pela minoria irresponsável - turismo, restauração, atividades culturais e, particularmente, a música -, definham sem apelo nem agravo. Como é possível?
3. Há um outro problema que recusamos enfrentar. Não é possível continuar a fazer de conta que os ajuntamentos noturnos podem ser indefinidamente tolerados porque se trata de "gente nova". Pois, isto tem custos humanitários brutais: vamos acelerar a vacinação até aos 18 anos (ou até 12 anos...!) por causa desta desresponsabilização enquanto a vacinação nos países mais pobres nos faz corar de vergonha.
Esta semana o Painel de Informação da UNICEF assinalava que das 2,54 mil milhões de doses produzidas até agora, apenas 88 milhões (3%) foram enviadas para 131 países através dos mecanismos de apoio Covax - e apenas 36 milhões através de doações. Porque não há vacinas. Ou seja, as populações de risco de países inteiros ficam à espera, enquanto corremos a vacinar a malta do "social".
É preciso dizer isto de forma clara: há muita gente nos países ricos a brincar com a vida dos outros. São seres humanos que morrem porque os seus países não têm dinheiro (ou poder) para lhes dar uma vacina a tempo. É importante que as novas gerações (e os negacionistas) compreendam o luxo em que vivem. Pede-se contenção por uns meses, não uma eternidade. Não podemos esperar um mundo melhor demitindo-os de assumirem as suas responsabilidades. Os do "gueto" estão a morrer enquanto mantemos, apesar de tudo, uma vida normal.

Saiba mais:

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Dia Internacional dos Direitos das Crianças



O Dia Internacional dos Direitos das Crianças é comemorados todos os anos a 20 de novembro.

Origem da Data
A origem do Dia Internacional dos Direitos da Criança é bastante clara e significativa: foi a 20 de novembro de 1959 que se proclamou mundialmente a Declaração dos Direitos das Crianças e a 20 de novembro de 1989 que se adotou a Convenção sobre os Direitos da Criança. O objetivo da data é salientar e divulgar os direitos das crianças de todo o mundo.

Em Portugal realizam-se atividades solidárias como é o exemplo do Dia Nacional do Pijama, onde as crianças vão de pijama para a escola, relembrando o direito de todas as crianças a terem um lar, uma família e a proteção da sociedade.

Declaração Universal dos Direitos das Crianças
A Declaração dos Direitos da Criança foi adaptada da Declaração Universal dos Direitos Humanos, tendo a seguinte redação:
  • Todas as crianças têm o direito à vida e à liberdade.
  • Todas as crianças devem ser protegidas da violência doméstica, do tráfico humano e do trabalho infantil.
  • Todas as crianças são iguais e têm os mesmos direitos, não importando a sua cor, raça, sexo, religião, origem social ou nacionalidade.
  • Todas as crianças devem ser protegidas pela família e pela sociedade.
  • Todas as crianças têm direito a um nome e a uma nacionalidade.
  • Todas as crianças têm direito a alimentação, habitação, recreação e atendimento médico.
  • As crianças portadoras de deficiências, físicas ou mentais, têm o direito à educação e aos cuidados especiais.
  • Todas as crianças têm direito ao amor, à segurança e à compreensão dos pais e da sociedade.
  • Todas as crianças têm direito à educação.
  • Todas as crianças tem direito de não serem violadas verbalmente ou serem agredidas por pais, avós, parentes, ou mesmo a sociedade.
Documentos
Joint Statement by the European Comission and the High Reresentative DESCARREGAR

Resolução 1386 (XIV) da Assembleia Geral da ONU sobre a Declaração dos Direitos da Criança | Organização das Nações Unidas DESCARREGAR

Resolução 44/25 da Assembleia Geral da ONU sobre a Convenção sobre os Direitos da Criança | Organização das Nações Unidas DESCARREGAR
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Dia Universal da Criança: Declaração Comum da Comissão e do Alto Representante da UE [parte en]
DESCARREGAR

domingo, 5 de julho de 2020

UN highlights urgent need to tackle impact of likely electric car battery production boom

Fonte: aqui


Demand for raw materials used in the production of electric car batteries is set to soar, prompting the UN trade body, UNCTAD, to call for the social and environmental impacts of the extraction of raw materials, which include human rights abuses, to be urgently addressed.

Electric cars are rapidly becoming more popular amongst consumers, and UNCTAD predicts that some 23 million will be sold over the coming decade: the market for rechargeable car batteries, currently estimated at $7 billion, is forecast to rise to $58 billion by 2024 .

The shift to electric mobility is in line with ongoing efforts to reduce the world’s dependence on fossil fuels, and reduce harmful greenhouse gas emissions responsible for climate change, but a new report from UNCTAD, warns that the raw materials used in electric car batteries, are highly concentrated in a small number of countries, which raises a number of concerns.

Drilling down in DRC, Chile

For example, two-thirds of all cobalt production happens in the Democratic Republic of the Congo (DRC). According the UN Children’s Fund (UNICEF), about 20 per cent of cobalt supplied from the DRC comes from artisanal mines, where human rights abuses have been reported, and up to 40,000 children work in extremely dangerous conditions in the mines for meagre income.

And in Chile, lithium mining uses nearly 65% of the water in the country's Salar de Atamaca region, one of the driest desert areas in the world, to pump out brines from drilled wells. This has forced local quinoa farmers and llama herders to migrate and abandon ancestral settlements. It has also contributed to environment degradation, landscape damage and soil contamination, groundwater depletion and pollution.

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Electric cars at UN Headquarters, New York (file)

Climb the value chain

Noting that "the rise in demand for the strategic raw materials used to manufacture electric car batteries will open more trade opportunities for the countries that supply these materials”, UNCTAD's director of international trade, Pamela Coke-Hamilton, emphasised the importance, for these countries, to “develop their capacity to move up the value chain".

In the DRC, this would mean building processing plants and refineries that would add value and, potentially, jobs within the country. However, for various reasons (including limited infrastructure, financing and a lack of appropriate policies), refining takes place in other countries, mainly Belgium, China, Finland, Norway and Zambia, which reap the economic benefit.

The report recommends that countries such as DRC provide “conducive environment to attract investment to establish new mines or expand existing ones”.

Diversify and thrive

UNCTAD also recommends that the industry find ways to reduce its dependence on critical raw materials. For example, scientists are researching the possibility of using widely-available silicon, instead of graphite (80% of natural graphite reserves are in China, Brazil and Turkey).

If the industry manages to become less reliant on materials concentrated in a small number of countries, says UNCTAD, there is more chance that prices of batteries will drop, leading to greater take-up of electric cars, and a shift away from fossil-fuel powered transport.

As for the environmental consequences of the batteries themselves, the report recommends the development of improved, more sustainable mining techniques, and the recycling of the raw materials used in spent Lithium-Ion batteries, a measure that would help deal with the expected increase in demand, and also create new business opportunities.

sábado, 25 de maio de 2019

Emergência Climática e Capitalismo

Notícia e imagem aqui


A crise ambiental tem sido menosprezada e descredibilizada há tanto tempo e de tantas formas diferentes, que o subconsciente coletivo parece dizer «Não é possível. Se fosse mesmo assim tão grave “eles” faziam alguma coisa». O “eles” todo-poderoso antecipava e salvava-nos.

                                             Como nos salvou de todas as outras crises que vieram antes desta, certo?

A nossa classe política já provou, vezes e vezes sem conta, sobretudo nos últimos anos, que é estrategicamente incapaz de gerir ou antecipar o que quer que seja, mas nós continuamos a fechar os olhos, a empurrar a responsabilidade, a “deixar andar”. Afinal, não pode ser assim tão mau… e se for, os efeitos também só se vão sentir daqui a várias gerações, certo? Errado. Provado e avisado, inúmeras de vezes, pela comunidade científica (o “eles” que importa).

Claro que não apetece nada pensar nisto e muito menos assumir qualquer tipo de responsabilidade, porque não, não basta votar nos paliativos que temos no Parlamento (completamente alienados da realidade), nem basta fazer reciclagem em casa ou parar de comer carne. As medidas que são necessárias tomar neste momento são muito mais dramáticas e estruturais e afetam a própria organização da nossa sociedade. Precisamos reavaliar a sociedade de consumo em que vivemos, de constante produção e crescimento. O resultado já não é teórico. Está à vista. Isto não é segredo nenhum, nem conversa de hippies e extremistas ambientais. Consta, entre outros, do Relatório Especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas.

Neste momento, e se quisermos limitar o aumento do aquecimento global a 1,5°C até 2030, vamos ter que implementar medidas extremas, coisa que até agora nos temos recusado a fazer. Se não o fizermos, e ultrapassarmos esse limite, as consequências serão devastadoras: colapso do ecossistema, acidificação dos oceanos, desertificação, inundação das cidades costeiras, emigração em massa… enfim, receita para o caos. E isto sem considerar sequer que os recursos que usamos e abusamos atualmente, são finitos e que estão a desaparecer a um ritmo alarmante. Desde o peixe, aos combustíveis fósseis, passando pela extinção em massa da biodiversidade terrestre. Continuar assim não é sustentável, mas mais do que isso, não é sequer possível por muito mais tempo e ou aceitamos esse facto e vamo-nos preparando para uma mudança progressiva e faseada ou essa mudança vai acontecer na mesma, quer se queira, quer não – e desengane-se quem acha que temos muitos anos pela frente. O Planeta está-se nas tintas se é “prático” ou se o “custo é demasiado elevado” – vai acontecer e pronto.

Mas então, se temos a informação e se sabemos que medidas são precisas tomar, porque é que não o fazemos? Porque quem tem o poder de decisão é exatamente quem mais beneficia do atual status quo e tem todos os incentivos e mais alguns para negar que a situação seja assim tão urgente. Só vão agir se não lhes for dada outra escolha, através de um movimento em massa de protesto, como temos visto surgir um pouco por toda a Europa e que levou, inclusivamente o Parlamento Britânico a declarar recentemente estado de emergência ambiental.

Em Portugal, este movimento tem surgido em força nas gerações mais novas – naturalmente mais disruptivas e menos acomodadas, mas também mais facilmente descredibilizadas. É altura de juntarmos mais vozes, falar mais alto e exigir um futuro seguro e digno para os nossos filhos – porque é isso que está em jogo.