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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Steve Earle - City Of Immigrants (canção de intervenção, mais uma no seu currículo imaculado e coerente com princípios éticos e eco-pacifistas)


Veteran singer-songwriter-actor Steve Earle and veteran actor-director Steve Buscemi are two people who would seem to have known each other for ages. Their work, whether it’s Earle’s vast catalog of songs (“Copperhead Road,” “Guitar Town”) and acting roles (“The Wire,” “Treme,” “Leaves of Grass”), or Buscemi’s formidable history of acting and directing (“Fargo,” “Reservoir Dogs,” “The Big Lebowski,” “The Sopranos,” “Boardwalk Empire”), shares a certain humanity, sensitivity and sensibilities.

Yet the two actually met for the first time earlier this year, after Buscemi was suggested as a director for a new video for Earle’s 2007 song “City of Immigrants” from his New York-themed album “Washington Square Serenade.” The video is a heartfelt, lively celebration of the polyglot melting pot that New York City has always been, created by two longtime residents.

Earle and Buscemi, together with a small cast of extras and technicians, were together in the East Village one sunny spring afternoon in April to shoot footage for the clip, which features people from the city’s countless ethnic groups, along with shots of Earle walking the streets and singing the in several different neighborhoods — also including Jackson Heights in Queens, which the singer describes as “easily the most diverse neighborhood in the country” — and performing a concert at the Gramercy Theater.

Steve Earle has never been afraid to speak his mind even if it loses him fans. He was singing about gun violence and attacking the NRA back in the 80's when it was deeply unpopular. He made a whole album against the war in Iraq when most of the country, especially his Copperhead Road fans, were supporting it. He has sung about the children of Gaza long before anyone was talking about Palestine. Seeing him stand up for immigrants is not surprising. Beautiful song.

Letra
Livin' in a city of immigrants
I don't need to go travelin'
Open my door and the world walks in
Livin' in a city of immigrants
Livin' in a city that never sleeps
My heart keepin' time to a thousand beats
Singin' in languages I don't speak
Livin' in a city of immigrants

City of black
City of white
City of light
City of innocents
City of sweat
City of tears
City of prayers
City of immigrants

Livin' in a city where the dreams of men
Reach up to touch the sky and then
Tumble back down to earth again
Livin' in a city that never quits
Livin' in a city where the streets are paved
With good intentions and a people's faith
In the sacred promise a statue made
Livin' in a city of immigrants

City of stone
City of steel
City of wheels
Constantly spinnin'
City of bone
City of skin
City of pain
City of immigrants

All of us are immigrants
Every daughter, every son
Everyone is everyone
All of us are immigrants - everyone
Livin' in a city of immigrants
River flows out and the sea rolls in
Washin' away nearly all of my sins
Livin' in a city of immigrants

City of black
City of white
City of light
Livin' in a city of immigrants
City of sweat
City of tears
City of prayers
Livin' in a city of immigrants

City of stone
City of steel
City of wheels
Livin' in a city of immigrants

City of bone
City of skin
City of pain
City of immigrants
All of us are immigrants


quinta-feira, 23 de abril de 2026

A Verdade sobre o Genocídio Arménio

Em 1915, por entre derrotas militares e colapso político, o Império Otomano entrou na Primeira Guerra Mundial em profunda crise. Tendo já perdido a maior parte dos seus territórios europeus, o império enfrentava uma crescente instabilidade. A ideologia nacionalista ganhou influência entre a elite governante, intensificando as divisões internas e a suspeita em relação às populações minoritárias.

A comunidade arménia, estabelecida na Anatólia Oriental há milénios, passou a ser cada vez mais retratada como inimiga interna. Entre abril de 1915 e julho de 1916, mais de um milhão de arménios foram deportados, massacrados ou morreram durante marchas forçadas pelo deserto da Síria. Estes acontecimentos são amplamente reconhecidos por muitos historiadores como o primeiro genocídio do século XX — um século marcado por repetidos episódios de violência em massa.

Durante décadas, na Turquia moderna, o debate público sobre os acontecimentos de 1915 foi fortemente restringido, e o termo “genocídio” permaneceu altamente controverso e politicamente sensível. Contudo, nos últimos anos, vozes da sociedade turca começaram a confrontar essa história dolorosa.

Este documentário reúne duas pessoas cujas histórias familiares se encontram em lados opostos da tragédia: Hasan Cemal, jornalista turco e neto de uma das figuras proeminentes associadas aos acontecimentos, e Fethiye Çetin, advogada turco-arménia e neta de uma sobrevivente. Através de testemunhos pessoais e reflexões históricas, exploram a memória, a responsabilidade e a necessidade urgente de verdade e diálogo.

Ao examinar tanto o registo histórico como os debates contemporâneos, o filme lança luz sobre um dos capítulos mais sombrios do início do século XX — e sobre a luta contínua em torno da forma como é recordado.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Brigade Internationale - Remember My Death


O nome Brigade Internationale (Brigada Internacional) é uma referência direta às unidades militares compostas por voluntários estrangeiros que viajaram para a Espanha para lutar ao lado da Segunda República Espanhola contra as forças fascistas de Francisco Franco durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

Ao escolherem este nome, a banda evoca uma estética de resistência antifascista, idealismo político e melancolia histórica, temas comuns na subcultura coldwave da época.

Regard Extrême é uma das músicas mais conhecidas da banda, presente no álbum/cassete Regard Extrême lançado em 1984 pela gravadora Wallenberg Produktion.

A canção: Mantém a sonoridade característica do género, com sintetizadores sombrios, linhas de baixo marcantes e uma atmosfera minimalista e melancólica.

Significado da Letra: O título "Remember My Death" (Lembre-se da minha morte) reforça a temática existencialista e fúnebre do grupo, possivelmente ligando-se ao sacrifício dos voluntários das brigadas originais

domingo, 21 de setembro de 2025

Antes do ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023

1.⁠ ⁠Haifa Massacre 1937
2.⁠ ⁠Jerusalem Massacre 1937
3.⁠ ⁠Haifa Massacre 1938
4.⁠ ⁠Balad al-Sheikh Massacre 1939
5.⁠ ⁠Haifa Massacre 1939
6.⁠ ⁠Haifa Massacre 1947
7.⁠ ⁠Abbasiya Massacre 1947
8.⁠ ⁠Al-Khisas Massacre 1947
9.⁠ ⁠Bab al-Amud Massacre 1947
10.⁠ ⁠Jerusalem Massacre 1947
11.⁠ ⁠Sheikh Bureik Massacre 1947
12.⁠ ⁠Jaffa Massacre 1948
13.⁠ ⁠Deir Yassin Massacre 1948
14.⁠ ⁠Tantura Massacre 1948
15.⁠ ⁠Qibya Massacre 1953
16.⁠ ⁠Khan Yunis Massacre 1956
17.⁠ ⁠Jerusalem Massacre 1967
18.⁠ ⁠Sabra and Shatila Massacre 1982
19.⁠ ⁠Al-Aqsa Massacre 1990
20.⁠ ⁠Ibrahimi Mosque Massacre 1994
21.⁠ ⁠Jenin Refugee Camp April 2002
22.⁠ ⁠Gaza Massacre 2008-09
23.⁠ ⁠Gaza Massacre 2012
24.⁠ ⁠Gaza Massacre 2014
25.⁠ ⁠Gaza Massacre 2018-19
26.⁠ ⁠Gaza Massacre 2021
27.⁠ ⁠Gaza Genocide 2023 is still ongoing.
The world didn’t start on October 7!

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Governo israelita considera “vergonhosa” acusação de genocídio, Hamas diz que vergonha é inação internacional


Israel considerou hoje “vergonhoso” o relatório da Associação Internacional de Académicos do Genocídio acusando-o de “um genocídio” em Gaza, enquanto para o movimento islamita palestiniano Hamas uma “mancha de vergonha” é a inação da comunidade internacional.

“[O documento] assenta inteiramente na campanha de mentiras do Hamas e no branqueamento dessas mentiras por parte de terceiros”, declarou o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) israelita na sua conta da rede social X.

Reagiu assim à declaração da Associação Internacional de Académicos do Genocídio (IAGS, na sigla em inglês), a maior associação de especialistas nesse crime contra a humanidade, que classificou as ações de Israel na Faixa de Gaza como “um genocídio” e instou o Governo israelita a cessar os ataques contra civis e a “deslocação forçada” da população.

“As políticas e ações de Israel em Gaza correspondem à definição legal de genocídio prevista no artigo II da Convenção das Nações Unidas para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio de 1948”, sustentou a associação num comunicado, recordando que o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) considerou plausível que Israel estivesse a cometer genocídio e instou o Estado a cumprir as ordens do tribunal.

O MNE israelita disse que o relatório dos especialistas é “vergonhoso” e que a IAGS não “verificou a informação”, a tarefa “mais elementar” numa investigação, conseguindo “até distorcer” o que foi dito pelo TIJ.

Mas, “acima de tudo”, acrescentou o MNE israelita na rede social X, a IAGS “criou um precedente histórico”: “Pela primeira vez, os ‘especialistas em genocídio’ acusam a própria vítima de genocídio”.

Isto apesar da “tentativa de genocídio do Hamas contra o povo judeu, assassinando 1.200 pessoas, violando mulheres, queimando vivas famílias e declarando o seu objetivo de matar todos os judeus”, acrescentou o MNE de Israel na mensagem.

O Exército israelita matou mais de 63 mil palestinianos desde o ataque do grupo islâmico Hamas a Israel, a 07 de outubro de 2023.

Por seu lado, o Hamas afirmou que o relatório da IAGS que classifica a guerra israelita na Faixa de Gaza como um genocídio representa uma nova prova legal sobre a situação no enclave, constituindo uma “mancha de vergonha” para a comunidade internacional.

A definição de genocídio estabelecida no artigo II da Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio indica que “é cometido um genocídio quando um grupo nacional, étnico, racial ou religioso é sujeito a massacre, alvo de lesões graves à sua integridade física ou mental, intencionalmente submetido a condições destinadas a causar a sua destruição física ou transferência à força de crianças desse grupo para outro” – tudo isto feito com o intuito de exterminar, total ou parcialmente, essa comunidade.

Para o Hamas, a resolução do IAGS “constitui uma nova documentação legal que se soma aos relatórios e testemunhos internacionais que documentaram o genocídio” de que os palestinianos estão a “ser vítimas à vista de todo o mundo”.

O grupo palestiniano defendeu que “a inação” da comunidade internacional “é uma mancha de vergonha, uma falha injustificável na proteção da humanidade e uma ameaça direta à paz e à segurança internacionais”.

“Exigimos que a comunidade internacional, as Nações Unidas e todas as partes relevantes tomem medidas urgentes para pôr fim aos crimes de genocídio, deslocação e limpeza étnica que o Exército de ocupação está a cometer implacavelmente contra o nosso oprimido povo palestiniano”, sublinhou o movimento num comunicado.

O Hamas exigiu ainda que sejam punidos “os líderes fascistas e terroristas da ocupação pelos seus crimes, garantindo-se que não escaparão impunes”.

Várias organizações de defesa dos direitos humanos importantes, incluindo duas organizações israelitas, declararam também acreditar que Israel está a cometer genocídio.

A denúncia do maior grupo de peritos em genocídio junta-se às de dezenas de associações, organizações não-governamentais (ONG) e organizações internacionais, como a ONU, que têm classificado as ações de Israel na Faixa de Gaza como genocídio ou possível genocídio.

Ler mais:
Guerra em Gaza é boa para o negócio: venda israelita de armas vai de vento em popa.
Indústria de defesa de Israel aumentou exportações pelo quarto ano consecutivo. E Europa é o principal comprador. Ajuda um bom argumento de marketing: são armas testadas no campo de batalha.


sábado, 12 de julho de 2025

Marci Shore saiu dos EUA e agora deixa o aviso: "A Europa não deve absolutamente confiar em nós"



A grande questão neste momento, defende Marci Shore, "é saber quem vai forçar quem" na "situação sem precedentes" em que os Estados Unidos se encontram. "Trump e Vance não são omnipotentes nem imortais, são habilitados por muitas outras pessoas, incluindo quase todos os republicanos".

Isso é notório, por exemplo, na recente aprovação da "lei grande e bela" que vai enriquecer os mais ricos e empobrecer os mais pobres, num país que está a resvalar para o autoritarismo. "O terror atomiza-nos, e os regimes tirânicos alimentam-se dessa atomização – e o único antídoto é a solidariedade ", ressalta a historiadora especializada em fascismo.

Aos que dizem que a América será salva pelos "pesos e contrapesos" que sempre orientaram a política norte-americana, Shore deixa um aviso. "As estruturas e instituições não são proteções mágicas e sobrenaturais, são criadas e geridas por pessoas" – e se a História nos mostra algo, é a facilidade com que coisas impensáveis são normalizadas. "Os seres humanos têm uma capacidade extraordinária de normalizar o anormal; o que parecia inconcebível num dado momento pode tornar-se o novo normal alguns meses mais tarde, e mal nos apercebemos de como as fronteiras recuaram."

Com uma carreira de décadas dedicada à cultura eslava e à Europa Central e de Leste, Shore trocou a Universidade de Yale, nos EUA, pela Universidade de Toronto, no Canadá, uma decisão que, garante, foi tomada após muita ponderação em família. Se dependesse do marido, o historiador e escritor Timothy Snyder, é possível que a mudança nunca tivesse acontecido. "O meu marido não é uma pessoa ansiosa por natureza. Se estivesse sozinho, teria regressado a New Haven, não apesar, mas precisamente por causa da vitória de Trump, para lutar pela democracia dos Estados Unidos."

Ao ver o vídeo que o NYT fez consigo e com outros dois especialistas em Fascismo da Universidade de Yale, Jason Stanley e o seu marido, Timothy Snyder, achei muito marcante a analogia que faz com o Titanic, em relação a esta ideia do ‘excecionalismo americano’. Continua a haver muita gente, dentro e fora dos Estados Unidos, a acreditar que os pesos e contrapesos vão impedir o navio de se afundar, apesar de a realidade apontar na direção oposta. Vislumbra alguma forma de esses pesos e contrapesos prevalecerem, por exemplo, por via das eleições intercalares no próximo ano ou do ramo judiciário? Ou estamos destinados a ver o navio afundar-se?
Não existe nada “destinado”. Os “pesos e contrapesos” referem-se a estruturas e instituições – não são proteções mágicas e sobrenaturais, são criadas e geridas por pessoas. Há certamente juízes que estão a recuar e a dizer ‘não’ – e a administração Trump está, muitas vezes, a recusar-se a honrar essas decisões judiciais. Torna-se então uma questão de saber quem vai forçar quem. Esta é, de certa forma, uma situação sem precedentes nos Estados Unidos.

E como se sai dessa situação?
Tudo depende das pessoas. Trump não é omnipotente nem imortal – e JD Vance também não. Eles são habilitados por muitas outras pessoas – incluindo quase todos os membros republicanos do Congresso, que fizeram barganhas faustianas. Esta “Lei Grande e Bela”, que priva milhões de americanos de cuidados de saúde e milhões de crianças de comida, não teria sido aprovada se o Partido Republicano não tivesse alinhado com Trump. Eles podiam dizer ‘não’.

A votação no Senado estava a 50-50 antes de JD Vance ter dado o voto de desempate na sua qualidade de vice-presidente. Juntamente com todos os democratas, três senadores republicanos votaram contra. Se mais um senador republicano tivesse votado contra, o projeto de lei não teria sido aprovado.

Logo após o voto, o meu irmão, que é compositor de ópera, publicou este vídeo [uma música chamada “Na noite passada sonhei que vi Jesus”, que termina com o verso “E ele disse-me que eu podia ir para o inferno” e com a adenda: “Mantenham-se seguros, amigos – e não fiquem doentes”. Desde a eleição de Trump, Dan Shore tem usado os seus dotes musicais para compor sátiras políticas de protesto contra as políticas da administração.]

Em tempos como estes, as pessoas tentam encontrar esperança onde quer que seja e muitas estão algo esperançosas perante notícias recentes como a libertação de Mahmoud Khalil, ativista da Universidade de Columbia, e a vitória de Zohran Mamdani nas primárias democratas à Câmara Municipal de Nova Iorque. O que podem estes eventos indiciar no contexto da busca por um caminho alternativo para os EUA?
Os Estados Unidos são um país profundamente dividido, é por isso que todas as eleições presidenciais são uma competição por um grupo demográfico relativamente mínimo, os chamados “swing voters”, ou eleitores indecisos. Há uma verdadeira resistência, há momentos de esperança, e é importante estar ciente e reconhecer esses momentos.

Estou a participar numa iniciativa do Seminário de Democracia da New School para documentar “pequenos atos de resistência democrática”. Este site pretende ser uma plataforma de solidariedade, reconhecimento e apoio moral, mas também um recurso para jornalistas, especialmente jornalistas fora dos Estados Unidos.

Recentemente, deu uma palestra na Universidade Metropolitana de Toronto onde avisou os canadianos – numa mensagem também dirigida, presumo, aos europeus e a outras sociedades – que “não podem confiar” no atual governo americano e que, por conseguinte, não podem confiar nos Estados Unidos. A verdade, porém, é que a arquitetura da relação transatlântica assenta nesta dependência europeia dos EUA, por exemplo, em matéria de defesa e segurança. Quão exequível seria “sair” desta relação? Ou existe outra forma de negociar (e fazer acordos) com os EUA, reduzindo essa dependência?

Eu nem sequer o descreveria como uma mudança de paradigma, mas sim como um salto para o niilismo. Para Trump, não existe a verdade versus a mentira ou o bem versus o mal; existe apenas o que é vantajoso ou desvantajoso para si próprio num dado momento. Todas as relações são puramente transacionais. Não existem valores ou princípios.

Estamos a olhar para um abismo. Pode acontecer, claro, que algo que Trump entenda como sendo do seu interesse num determinado momento tenha, por acaso, efeitos positivos – mas isso não deve ser mal interpretado como uma política coerente ou um paradigma que reflita qualquer tipo de valores consistentes.

A Europa não deve absolutamente confiar em nós. É isto mesmo: o fim do namoro.

Num artigo que escreveu em maio, afirmava que se deve “evitar fetichizar” conceitos como autocracia, fascismo, autoritarismo, etc., porque “nenhuma situação histórica é exatamente igual a outra”. Ainda assim, impõe-se a pergunta: que lições é que o passado pode ensinar-nos no que toca a lutar contra este sentimento de paralisia da sociedade?
Conceitos como o fascismo são muito úteis, só não devem ser fetichizados. Quanto às lições: os seres humanos têm uma capacidade extraordinária de normalizar o anormal. O que parecia inconcebível num dado momento pode tornar-se o novo normal alguns meses mais tarde, e mal nos apercebemos de como as fronteiras recuaram. Habituamo-nos a uma nova realidade e depois não conseguimos ver verdadeiramente o que está a acontecer à nossa volta.

Após as eleições de novembro de 2016, o comediante John Oliver disse ao seu público televisivo: "Vai ser demasiado fácil as coisas começarem a parecer normais – especialmente se se for alguém que não é diretamente afetado pelas ações [da administração Trump]. Por isso, lembrem-se: isto não é normal. Escreva-o num post-it e cole-o no seu frigorífico." O contexto era um programa de comédia política, mas isto não era uma piada, e o conselho de John Oliver foi absolutamente correto.

Há aqui dois desafios: abanar a sociedade, para que reconheça as implicações aterradoras da livre expressão da violência e da crueldade, e encontrar métodos para fundamentar o nosso discurso na verdade empírica"

É essencial não normalizar o anormal. É também essencial insistir na verdade – procurando-a, dizendo-a em voz alta. O terror atomiza-nos, e os regimes tirânicos alimentam-se dessa atomização. O único antídoto para isso é a solidariedade. Conhecemos a famosa citação de Martin Niemöller, o simpatizante da direita alemã que se tornou prisioneiro político dos nazis: "Primeiro vieram atrás dos socialistas, e eu não me pronunciei – porque não era socialista. Depois vieram atrás dos sindicalistas, e eu não falei – porque não era sindicalista. Depois vieram buscar os judeus, e eu não falei – porque não era judeu. Depois vieram atrás de mim – e já não havia ninguém para falar por mim".

Líderes como Donald Trump são regularmente aplaudidos pela sua “honestidade”, mas essa honestidade não corresponde à ideia de falar verdade no sentido do que se pode empiricamente provar como verdadeiro – corresponde, antes, a falar sem qualquer filtro, mesmo quando o que se está a dizer é o oposto do que é verdadeiro. Isto coloca um desafio aos cidadãos em geral, e aos jornalistas em particular, tornando ainda mais difícil navegar a realidade e reportá-la nos dias que correm. Desde que Trump anunciou a sua primeira candidatura à presidência, há uma década, os jornalistas têm tentado combater a desinformação com factos, mas isso não parece ser suficiente, nem nos EUA, nem na Europa. Qual é o caminho?
O que os apoiantes de Trump entendem como “honestidade” é o tipo de libertação da repressão que Freud descreveu em “A Civilização e os seus Descontentamentos: a livre expressão de Eros e Thanatos”. Hoje, se virmos uma mulher a andar na rua e desejarmos violá-la, é perfeitamente admissível expressá-lo em voz alta. Freud dir-nos-ia que a civilização se baseia na repressão. A libertação dessa repressão é a verdadeira libertação – pela qual pagamos o pequeno preço da destruição da civilização. E estamos a pagar esse preço.

As possibilidades tecnológicas de disseminação e consumo de informação – e desinformação – não têm precedentes. É um alvo em movimento: a tecnologia acelera mais rapidamente do que conseguimos compreender o problema e formular soluções. Em 2016, os jornalistas americanos ficaram sem saber o que fazer. Estavam habituados a verificar factos individuais – não estavam habituados a um completo afastamento da realidade empírica. E ninguém conseguia verificar os factos tão rapidamente quanto Trump conseguia mentir.

Portanto, há aqui dois desafios. Um é abanar a sociedade, para que reconheça as implicações aterradoras da livre expressão da violência e da crueldade. O outro é encontrar métodos para fundamentar o nosso discurso na verdade empírica.

Diz que “a grande lição de 1933 é que se deve sair mais cedo do que tarde”, num paralelismo entre o que aconteceu na Alemanha, com a ascensão de Adolf Hitler ao poder, e o que está a acontecer agora nos EUA. Porque é que decidiu abandonar o seu país-natal?
Receio que a mudança da minha família para Toronto tenha sido um pouco dramatizada de forma absurda. Na verdade, não é assim tão dramática. Foi uma decisão familiar muito gradual e complexa, que começou muito antes das eleições. Por um lado, Yale é uma instituição excecional; adorei ensinar em Yale, tenho lá amigos e colegas de quem sentirei muitas saudades. Por outro lado, nunca pensei ficar tanto tempo na mesma cidade ou na mesma instituição; parecia que estava na altura de mudar a meio da carreira.

Há muito que queria criar os meus filhos num lugar onde não houvesse tanta violência armada – mesmo em tempos muito melhores politicamente, a quantidade de violência armada nos Estados Unidos é horrível. New Haven [a cidade do Connecticut que alberga a Universidade de Yale] fica a menos de uma hora de Sandy Hook, onde uma turma inteira de alunos do primeiro ano foi assassinada por um atirador numa escola primária há pouco mais de 12 anos. Na altura, um dos meus alunos de licenciatura trabalhava como paramédico a tempo parcial e foi um dos primeiros a responder. Chegou ao local e não havia nada a fazer – estavam todos mortos.

A posse de armas per capita é mais elevada nos Estados Unidos do que em qualquer outra parte do mundo. Sou eslava e sabe o que Anton Chekhov disse sobre as armas? "Quando a arma está em cena, tem de disparar até ao fim do último ato." Receio que isso seja verdade tanto na vida quanto no teatro. Em qualquer sábado à noite em New Haven, as urgências estão cheias de vítimas de ferimentos provocados por armas de fogo.

Foi por isso que decidiu ir dar aulas na Universidade de Toronto?
A Munk School for Global Affairs começou a recrutar-me a mim e ao meu marido, Tim Snyder, há cerca de três anos. E há muitas razões pelas quais não só Toronto em geral, mas também a Munk School da Universidade de Toronto em particular, eram especialmente atrativas. Estudei na Universidade de Toronto nos anos 90 e adorei tanto a cidade como a universidade. A Munk foi concebida para promover e apoiar a interdisciplinaridade, o envolvimento, tanto académico como público. Há lá um grupo fantástico de académicos, liderado pela extraordinária cientista política Janice Stein, muito inspiradora para mim.

O Tim e eu viemos para Toronto em agosto de 2024 com os nossos filhos, num ano sabático de Yale. Por isso, já estávamos a viver aqui durante as eleições de novembro. E é muito provável que tivéssemos ficado em Toronto e aceitado as ofertas da Munk mesmo que Kamala Harris tivesse vencido. O meu marido não é uma pessoa ansiosa por natureza; se estivesse sozinho, teria regressado a New Haven, não apesar, mas precisamente por causa da vitória de Trump, para lutar pela democracia dos Estados Unidos.

Mas aceitou mudar-se pela família?
Sim, concordou em ficar em Toronto por mim e pelos nossos filhos. Estou muito disposta a assumir a minha própria ansiedade, mas encolho-me quando vejo a imprensa infligir-lhe a minha ansiedade e cobardia. “Fugir” é o tipo de palavra que quer Jason Stanley quer eu, enquanto judeus neuróticos, usaríamos – mas o Tim não foge.

A minha posição é influenciada pelo facto de, apesar de ser americana, não ser uma americanista – ou seja, o meu trabalho intelectual sempre se centrou na Europa Central e de Leste. Há muito que estou mais empenhada na Ucrânia do que nos Estados Unidos, e muito do que faço é desempenhar o papel de mediadora cultural, ajudando os americanos a compreender a Europa de Leste.

A minha vida intelectual nunca esteve centrada no meu próprio país, o que talvez contribua para o meu sentimento geral de que é possível trabalhar em prol do bem a partir de onde quer que seja – ainda que de formas diferentes. Além disso, tendo saído dos Estados Unidos, sinto-me ainda mais obrigada a falar sobre o que se está a passar lá, em nome dos meus amigos e colegas que se encontram em posições mais vulneráveis.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Petição dirigida à Assembleia da República para o reconhecimento do Estado da Palestina


Numa petição tornada pública esta terça-feira e que pode ser assinada aqui, mais de cem personalidades exigem que o Estado português tome finalmente a decisão de reconhecer o Estado da Palestina. Os promotores entendem que o "reconhecimento do Estado da Palestina por parte de um grande número de países é, hoje, uma forma eficaz de, no plano diplomático, demonstrar a solidariedade para com o povo palestiniano e pressionar o governo israelita a pôr fim à escalada de violência contra as populações de Gaza e da Cisjordânia". E concluem que “apenas o reconhecimento do direito do povo palestiniano a constituir o seu próprio Estado permitirá abrir um horizonte de esperança num futuro de paz para a região”.

"Os abaixo-assinados não admitem ser testemunhas silenciosas ou passivas destes crimes. Ao condená-los, recordam décadas de violência e humilhações contra o povo palestiniano", diz o documento citado pela agência Lusa e que é subscrito por figuras do meio académico e cultural como António Sampaio da Nóvoa, Júlio Machado Vaz, Maria de Lurdes Rodrigues, Teresa Violante, Vital Moreira, Pilar del Rio, Ana Bacalhau, Capicua, José Eduardo Agualusa, José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe, Sérgio Godinho ou Rui Reininho. No plano político, além de Sampaio da Nóvoa, a lista de promotores conta ainda com outra antiga candidata presidencial, Ana Gomes, os ex-deputados bloquistas Alda Sousa, João Teixeira Lopes e José Manuel Pureza, o ex-presidente da Assembleia da República Ferro Rodrigues e um antigo secretário de Estado do governo de Passos Coelho, Bruno Maçães, entre outros atuais e ex-parlamentares.

O texto diz ainda que os signatários seguem "com crescente preocupação o agravamento das violações de direitos humanos e da lei humanitária internacional, os crimes de guerra e a escalada de violência sobre civis em Gaza e na Cisjordânia". Além do reconhecimento do Estado da Palestina, os signatários querem que Portugal se comprometa com as deliberações do Tribunal Penal Internacional, “nomeadamente apoiando o cumprimento de mandados de captura contra Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel e Yoav Gallant, ex-Ministro da Defesa de Israel” e que o nosso país “impossibilite o trânsito e o transbordo de material militar destinado a Israel em território português ou águas territoriais portuguesas e adote as políticas necessárias para garantir que entidades jurídicas privadas registadas na jurisdição portuguesa cessem a prestação de serviços utilizados por Israel nas suas operações militares em Gaza”.

Em declarações ao Público, Sampaio da Nóvoa explicou o seu apoio a esta iniciativa, dizendo que “ao longo da História, foi pelo silêncio de muitos, e que tantas vezes foram as vítimas seguintes, que se cometeram as maiores barbaridades. Não podemos ficar em silêncio.”

Noutra iniciativa, que junta 146 “personalidades que, de um ou outro modo, trabalham em ligação com a infância”, na maioria escritores e ilustradores, também se defende que “ante o massacre de milhares de crianças e outros palestinos em Gaza, não seremos cúmplices pelo silêncio”. Segundo a agência Lusa, o abaixo assinado dinamizado pelas ilustradoras Ana Biscaia e Inês Oliveira e pelo escritor João Pedro Mésseder juntou escritores como Alice Vieira, Álvaro Magalhães, Ana Filomena Amaral, António Mota, José Fanha, Luísa Ducla Soares e Rita Taborda Duarte e ilustradores como André Carrilho, Catarina Sobral, Madalena Matoso, Mariana Rio, Rachel Caiano e Yara Kono. “Denunciamos e repudiamos o genocídio”, afirmam os signatários, considerando que “um mundo de paz é possível”.

Outro manifesto divulgado na semana passada juntou mais de 230 escritores de língua portuguesa num apelo ao cessar-fogo imediato na Palestina e em defesa da “entrada urgente de ajuda humanitária nos territórios ocupados”. A iniciativa foi da Fundação José Saramago e juntou nomes como Lídia Jorge, Teolinda Gersão, Chico Buarque, José Eduardo Agualusa, Mia Couto e Mário Lúcio Sousa. Iniciativas semelhantes ocorreram no Reino Unido e Irlanda e também em França.

Hoje , 4 de junho, o MPPM convoca uma manifestação em solidariedade com a Palestina e pelo fim do genocídio, com ponto de partida às 18h no Largo do Chiado. O protesto seguirá até ao Largo 1.º de Dezembro.

“Ajuda” israelita já matou mais de 100 nas filas
Os massacres da população faminta em Gaza são agora diários, com as tropas de Israel a abrirem fogo sobre os deslocados que se dirigem aos centros de distribuição de alimentos geridos por uma organização patrocinada por Israel e EUA. Na manhã de terça-feira, os disparos fizeram pelo menos 27 mortos e dezenas de feridos num desses pontos em Rafah.

Um porta-voz da Cruz Vermelha disse à Reuters que o seu hospital de campanha recebeu 184 vítimas, dos quais 19 foi declarado o óbito à chegada, tendo outros oito morrido pouco depois devido aos ferimentos. As autoridades de Gaza elevam para 102 o número de mortos nestes pontos de distribuição de alimentos na última semana.

“Atacar os famintos enquanto procuram o seu sustento revela a natureza deste inimigo fascista, que usa a fome e os bombardeamentos como armas de morte e de deslocação, como parte de um plano sistemático para esvaziar Gaza da sua população”, afirmou o Hamas, considerando o processo promovido pelos israelitas e estadunidenses à margem das redes de apoio da ONU e das ONG no terreno como “uma armadilha de morte e humilhação”

quarta-feira, 21 de maio de 2025

O genocídio

Genocídio no Ruanda

O genocídio infelizmente não é novidade. A história humana está repleta de histórias de vingança, diferenças religiosas ou sociais ou competição por terras. Exige que um grupo seja visto como menos que humano. A vítima não deve ter qualquer mérito ou importância. O genocídio vitorioso deve centrar-se nas mulheres e nas crianças; é um requisito. São o futuro da vítima e devem ser mortos, degradados, levados para a selva, enlouquecidos. Genocídio não é guerra. É o mal mais tóxico da alma humana.

terça-feira, 13 de maio de 2025

Israel espera que 50% da população de Gaza fuja durante ataque em grande escala

com o apoio directo do governo português e de toda a direita nacional, que acabou de votar contra qualquer pedido de contas a israel. Embora tb seja verdade que o ps votou agora a favor de um pedido de contas que não aplicou nunca nos meses de governação ps em que o genocídio começou. A falta de vergonha na cara anda em alta.

"- Israel expects half of Gaza’s 2.3 million people to leave as its military prepares an all-out assault in the next few days .
- A WHO official says without food “an entire generation” of Palestinian children will be permanently affected as Israel’s Gaza blockade and mass starvation continues.
- Israeli forces bomb Nasser Hospital in Khan Younis killing two people, including journalist Hassan Eslaih, and wounding other patients and staff.
- Israel’s war on Gaza has killed at least 52,908 Palestinians and wounded 119,721, according to Gaza’s Health Ministry. The Government Media Office updated the death toll to more than 61,700, saying thousands of people missing under the rubble are presumed dead." Fonte

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Hebrew is very easy


Uma investigação da Al Jazeera revelou que os EUA e o Reino Unido prestaram apoio militar a Israel, criando uma ponte aérea que foi vital para manter a intensidade da guerra em Gaza.

domingo, 14 de julho de 2024

Em apenas dez anos morreram em solo dos EUA quase tantos americanos como aqueles que morreram na segunda grande guerra mundial


Recentemente em 2022, na sequência de um massacre numa escola dos Estados Unidos, o ex-presidente Donald Trump discursou na convenção da poderosa Associação Nacional do Rifle (NRA), principal financiadora do lobby das armas no país, e afirmou que a melhor solução contra a violência é armar ainda mais a população.
De 2021 a 2023 houve mais de 600 tiroteios em massa nos EUA, quase dois por dia em média, segundo a organização americana GunViolence.
Devido ao porte de arma generalizado nos EUA, de 2021 a 2023 morreram quase 60.000  pessoas no país (excluindo suicídios com recurso a arma), o que dá a espantosa média de quase 20.000 mortes por ano nos três últimos anos.
Desses 60.000 cerca de 4800 eram crianças ou adolescentes, o que dá uma média de 1.600 mortes dentro dessas faixas etárias nos três últimos anos.
Já os suicídios com uso de arma de fogo rondam em média as mais de 26.000 mortes nos três últimos anos, ou seja, cerca de 78.000 pessoas suicidaram-se nos EUA nestes três últimos anos recorrendo a armas de fogo.
De 2021 a 2023, armas de fogo foram directamente responsáveis por quase 140.000 mortes nos EUA!
Para termos uma noção, morreram nas duas guerras do Iraque cerca de 9.000 soldados americanos. No Afeganistão morreram cerca de 2.400.
Cerca de 36.500 soldados americanos morreram durante a Guerra da Coreia. 
Aproximadamente 58.220 soldados americanos morreram na Guerra do Vietname.
116.516 soldados americanos morreram durante a Primeira Guerra Mundial.
Apenas na segunda guerra mundial morreram mais americanos do que nos EUA em tempo de paz de 2021 a 2023. Nesse conflito cerca de 405.000 soldados americanos morreram, estando nós a falar do conflito mais mortífero alguma vez ocorrido no planeta.
Se no entanto alargarmos esta estatística para os últimos dez anos, aproximadamente 400.000 americanos morreram devido a armas de fogo, considerando homicídios, suicídios e acidentes.
Em apenas dez anos morreram em solo dos EUA quase tantos americanos como aqueles que morreram na segunda grande guerra mundial.

terça-feira, 7 de maio de 2024

A guerra nunca partiu, de Mia Couto


"A guerra nunca partiu, filho. As guerras são como as estações do ano: ficam suspensas, a amadurecer no ódio da gente miúda."- Mia Couto in "O Último Voo do Flamingo"

sábado, 4 de maio de 2024

A intifada que Israel tem de encarar. E o Velho Mundo também


Alexandra Lucas Coelho
"1. Eu ia começar este texto pela Califórnia. Só que ontem à noite o meu amigo W. escreveu a dizer que tinha conseguido sair de Gaza. Meio morto mas incrivelmente vivo, ao fim de sete meses de um horror sem precedentes no nosso tempo. Contarei adiante o que ele quiser contar, a partir do Egipto. Para já, vai dormir, ser tratado e reencontrar a filha mais nova, que conheci pequenina há 19 anos e agora terá o pai na sua festa de casamento. 
2. Quando W. estava prestes a atravessar o Sinai, no longo êxodo de Gaza, muitos milhares de estudantes, ainda mais novos do que essa filha dele, estavam acampados em mais de cem campus por toda a América, num apoio também sem precedentes à Palestina, contra a participação dos EUA na guerra e para exigir às universidades o fim dos apoios a Israel. Um dos maiores acampamentos era o da UCLA (Universidade da Califórnia, em Los Angeles). E de repente, na terça-feira à noite, véspera de feriado, jovens a 12.200 quilómetros de Gaza, com vidas mais ou menos confortáveis, estavam ali numa barricada, a serem atacados por uma milícia pró-Israel com bastões, ferros, foguetes, objectos pesados, gás-pimenta. Não era um confronto entre duas facções. Foi um raide bélico contra um acampamento pacífico. Dezenas de estudantes ficaram feridos. Há inúmeros vídeos com os atacantes a destruir e espancar. Dois dias antes, provocadores já tinham desafiado o acampamento, muitos falando hebraico. Havia bandeiras israelitas. 
Na terça, os atacantes foram mascarados, mas não há dúvida de que eram pró-Israel. “Em 33 anos na UCLA, nunca vi nada tão aterrorizador”, escreveu David N. Myers, “Distinguished Professor” de história e cultura judaica, no Forward, jornal com mais de cem anos, feito por judeus americanos. Um “falhanço total da universidade, da cidade de L.A. e do estado da Califórnia”, porque os atacantes agiram “com impunidade durante três horas”, apesar de a UCLA ter a sua própria força policial e de a polícia de L.A. estar algures no campus. Havia sinais de perigo desde domingo e nada foi feito para evitar a escalada. Então, além de “condenar a violência chocante”, a universidade tem de “investigar como os manifestantes antiguerra foram deixados sem defesa durante horas”, aponta Myers. Mas não só: “Tornar claro que exprimir oposição à guerra em Gaza é legítimo, que anti-semitismo e islamofobia não têm lugar no campus, e que a retórica irresponsável sobre o perigo que representariam manifestantes pacíficos contribuiu para horror”. Com a força de ser quem é, Myers desafia ainda os líderes da comunidade judaica a denunciarem atacantes que agem em nome de uma suposta protecção dos estudantes judeus. Quando há incontáveis judeus em protesto nos campus, e eles mesmos foram alvos do ataque de 30 de Abril. No dia seguinte, a UCLA ainda viveu a brutalidade do desmantelamento policial dos acampados. Com balas de borracha: sim. Com 200 estudantes detidos. Ao todo, vamos em mais de dois mil detidos desde que a repressão policial na Universidade de Colúmbia acendeu o levante por todo o país. Toda a América do Norte, já, porque nos últimos dias sucederam-se acampamentos no Canadá, e também na Universidade Autónoma do México, que tem memórias vívidas de repressão. Como Colúmbia e outras universidades têm. Gaza é o novo Vietname nos campus da América, desta vez em directo. Esta geração vê o horror nos seus telefones há sete meses, e viu agora o que a polícia fez a estudantes. E professores. 
Eu vi filósofas de cabelo branco serem atiradas ao chão, imobilizadas à bruta, levadas polícia, na universidade de Emory. Não só milhares de estudantes foram feridos, detidos, como suspensos, impedidos de assistir às aulas, ameaçados de expulsão, ou banidos, mesmo. E, ainda assim, estão determinados a não parar. A, por exemplo, mostrar um cartaz com a palavra genocídio na cara de responsáveis de Harvard. Sim, têm coisas a perder, e já pagaram um preço, físico e académico. É o próprio futuro da universidade que está em risco longo ensaio de Louis Menand há dias na New Yorker). Chamar a polícia para reprimir estudantes no campus é uma linha vermelha. Ser presidente numa universidade e marioneta de um tribunal público é incompatível. Tenho amigos em várias universidades americanas. 
Um deles, João José Reis, dos mais importantes historiadores brasileiros, está há meses numa visita a Princeton (depois de temporadas noutros campus, desde há décadas). “Essa é a guerra da vez, e é uma guerra também americana, pelo nível de engajamento dos EUA”, escreveu-me, quando perguntei se gostaria de dizer algo. “Já tínhamos lido e visto o jornalismo daqui adoptar essa atitude entre autocondescendente e covarde, mas ver acontecer nas universidades é chocante, por se apresentarem ao mundo como o paraíso da liberdade e do pensamento crítico. A máscara caiu. Prevalece o poder dos doadores pró-Israel, apesar de muitas universidades terem dinheiro por anos e séculos. Então vale tudo, vale ter seus alunos ameaçados de expulsão e também seus professores, apesar de empregos teoricamente estáveis. Vale as universidades se calarem e até aplaudirem a violência e a prisão.” Enquanto isso, duas universidades tão prestigiadas como a Rutgers e a Brown mostraram como era possível dialogar com os estudantes, e os acampamentos serem desmontados pacificamente. Na Rutgers, os estudantes conseguiram, entre outras vitórias, bolsas para jovens de Gaza. Oito em dez pontos aceites, num clima de alegria. E a universidade aceitou debater os restantes, incluindo o desinvestimento em Israel. Contraste total entre as imagens ali e a militarização em Colúmbia ou na UCLA. Ou seja, havia boas alternativas a chamar a polícia. Outro amigo, Pedro Schacht Pereira, está como visitante em Yale, e em contacto permanente com a Ohio State University, onde éprofessor Æxo, tem um filho estudante e a polícia também actuou. Aí, raparigas foram forçadas a tirar o hijab. Professores e pais questionaram a universidade. Entretanto em Yale, um provocador de megafone, com um discurso de ódio contra os palestinianos, insultava os manifestantes. Pedro não testemunhou qualquer resposta anti-semita, ao contrário, uma organização empenhada em impedir que isso acontecesse. Eu vi centenas de imagens e relatos de várias universidades. E vi também um provocador pró-israelita de megafone, desta vez na Califórnia, que dizia: “Tirem os vossos hijabs e arranjem um emprego! Vocês são gordas, feias e falidas.” Islamofobia desbragada. Como dizer “Voltem para a Polónia” é anti-semitismo, e li no Haaretz que isso aconteceu num campus. Também li, e foi amplamente noticiado na imprensa americana, que a universidade de Colúmbia baniu um estudante do campus porque ele tinha dito “os sionistas não merecem viver”. Quando dei uma primeira olhada nas notícias, pensei que ele tinha dito aquilo agora no campus. Lendo mais, ficávamos a saber que era um post no Instagram. Feito em Janeiro. De que ele se retractara. Mas no retrato geral que me chegava de Israel era como se os campus da América estivessem a gritar ao megafone que os sionistas não mereciam viver. A palavra campus passara a estar atrelada à palavraanti-semitismo. É a forma favorita e Israel não pensar no seu próprio problema. Estava resolvido: o que se passava nos campus da América era anti-semitismo. Mas esta intifada também é contra isso: a exploração do anti-semitismo. O que está a acontecer nos campus da América não é pequeno, e não é anti-semitismo. Embora haja anti-semitas por toda a parte, como há racistas por toda a parte, nenhum mais importante que outro, todos criminosos. E todos para levar a sério. O anti-semitismo mata, como os judeus sabem. Incluindo os que estão nos campusda América agora a lutar pela vida. O futuro dos judeus não está no governo de Israel. Está na mão deles." (este texto continua amanhã)

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Documentário: "Longe de Cabul"


Há um país no mundo que proibiu uma prática inerente ao ser humano: a música. Há um país no mundo que baniu as raparigas das escolas.
O Afeganistão mergulhou no silêncio quando os talibã chegaram ao poder no Verão de 2021. "A música é a minha vida, é tudo para mim. Quando penso em viver sem música sinto que não posso respirar " declara Sevinch Majidi. Há mais de 2 anos que a estudante Sevinch não vê a família que ficou no Afeganistão. Ela estudava no ANIM - Instituto Nacional de Música do Afeganistão em Cabul. Agora vive no norte de Portugal, frequenta o Conservatório de Música Calouste Gulbenkian em Braga tal como muitos outros estudantes afegãos que tiveram de fugir de Cabul. "Tranquei o meu violino numa sala em Cabul para o deixar a salvo, mas não sei o que lhe aconteceu", confessa Al Sina Hotak.
Vivem em Braga com o pensamento a voar sempre para as famílias em Cabul que enfrentam uma severa crise económica e todas as outras restrições sociais e profissionais do regime talibã. Vivem em ansiedade permanente pelo que poderá estar a acontecer com as irmãs ou os irmãos, com as mães ou os pais.
Enfrentaram as diferenças de língua, comida, hábitos sociais, religião, cultura. Mantêm o sonho de amplificar a voz da música afegã. Foram a Genebra, tocaram no Palácio das Nações Unidas quando se evocavam os Direitos Humanos. Formam uma jovem orquestra no exílio à espera de conseguirem voltar a romper o silêncio no Afeganistão.
"Longe de Cabul" é um documentário da autoria de Cândida Pinto e Daniel Mota, com imagem de David Araújo e Daniel Mota, edição de Maria Azevedo e realização de Daniel Mota.

"Violaram valores". Talibãs detiveram mulheres por "mau hijab" em Cabul

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

O que se sabe sobre explosões de bombas no Irão que mataram 95 pessoas


Pelo menos 95 pessoas morreram após a explosão de duas bombas perto do túmulo do general iraniano Qasem Soleimani nesta quarta-feira (03/01) — quando a morte dele por um ataque de drones conduzido pelos Estados Unidos completou quatro anos.

Inicialmente, o número relatado oficialmente de mortes foi de 103. Posteriormente, no entanto, o ministro da Saúde do Irão retificou a informação, dizendo que alguns dos nomes haviam sido contados mais de uma vez.

As explosões atingiram uma procissão perto da mesquita Saheb al-Zaman, na cidade de Kerman, no sul do país. Soleimani nasceu na região.

Segundo dados citados pela emissora estatal Irib e atribuídos ao departamento local de serviços de emergência, outras 141 ficaram feridas nas explosões. Alguns dos feridos estão em estado crítico.

O vice-governador de Kerman afirmou que se trata de um "ataque terrorista".

Não está claro quem está por trás das explosões e não houve reivindicações imediatas de autoria por nenhum grupo.

Entretanto, nos últimos anos, separatistas árabes, o Estado Islâmico (EI) e outros grupos jihadistas sunitas reivindicaram a autoria de ataques mortais contra forças de segurança e santuários xiitas no Irão.

Depois do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, Soleimani era visto como a figura mais poderosa do Irão. Ele foi morto pelas forças americanas no vizinho Iraque, em 2020.

Homenagem ao quarto ano da morte de Soleimani em Teerão

Imagens transmitidas pela TV estatal mostraram que centenas de pessoas estavam reunidas na periferia leste de Kerman quando ocorreram as duas explosões.

A media iraniana informou que a primeira explosão ocorreu às 14h50 no horário local (8h20 em Brasília), a cerca de 700 m do cemitério do Jardim dos Mártires, ao redor da mesquita Saheb al-Zaman.

A segunda teria ocorrido cerca de 15 minutos depois, a cerca de 1 km do cemitério.

'Vimos pessoas caindo'
A agência de notícias Tasnim, afiliada à Guarda Revolucionária do Irão, citou fontes que afirmaram que "dois sacos contendo bombas" foram aparentemente detonados "por controle remoto".

"Estávamos caminhando em direção ao cemitério quando de repente um carro parou atrás de nós e uma lata de lixo contendo uma bomba explodiu", afirmou uma testemunha citada pela agência Isna

"Só ouvimos o som da explosão e vimos pessoas caindo."
O Crescente Vermelho, organização de socorro, disse que entre os mortos está pelo menos um paramédico que foi enviado ao local da primeira explosão e foi atingido pela segunda.

Imagens parecem mostrar que o túmulo de Soleimani não foi danificado.

Como comandante do braço de operações externas da Guarda Revolucionária, a Força Quds, ele arquitetou a política iraniana em toda a região.

Ele foi responsável pelas missões clandestinas da Força Quds e pelo fornecimento de verbas, orientação, armas, inteligência e apoio logístico a governos aliados e grupos armados, incluindo o Hamas e o Hezbollah.

O então presidente dos EUA, Donald Trump, que ordenou o assassinato em 2020, descreveu Soleimani como "o terrorista número um em qualquer lugar do mundo".

Reacções
A União Europeia declarou o ataque um "ato de terror", condenando-o. "Este ato de terror causou um número chocante de mortes e feridos civis. Os nossos pensamentos agora estão com as vítimas e as suas famílias. Os autores devem ser responsabilizados", lê-se num comunicado citado pela agência Al Jazeera.

Aliás, a mesma agência cita também o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, que ofereceu as suas condolências às famílias das vítimas, "mártires da mesma causa, da mesma batalha que estava a ser travada pelo comandante Qassem Soleimani". A ele juntou-se o ayatollah Ali Khamenei, líder supremo da Revolução Islâmica, que prometeu "uma resposta dura", em comunicado.

À lista de entidades que condenaram o ataque juntou-se, também, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, esperando que "Deus tenha misericórdia sobre aqueles que perderam as suas vidas nos ataques", numa mensagem no X (antigo Twitter), e o presidente russo, Vladimir Putin, que disse que "o homicídio de pessoas pacíficas que visitavam o cemitério é chocante pela sua crueldade e cinismo", citado pela Al Jazeera.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Sudão: "A guerra mais esquecida do nosso tempo"

Os novos combates no centro do Sudão obrigaram 300.000 pessoas a fugir

No extremo leste do Chade, mulheres com roupas coloridas tentam cozinhar numa fogueira improvisada, em frente às tendas dos refugiados. Fazem parte das famílias da região de Darfur, no oeste do Sudão, que conseguiram fugir para o outro lado da fronteira, em direção ao Chade. Estão vivas, mas ficaram sem nada:

"Eu e o meu marido temos quatro filhos. A vida é muito difícil. Aqui recebemos um saco de 10 quilos de comida todos os meses, mas isso não chega. A comida simplesmente não é suficiente", contou à DW uma testemunha que não quer ser identificada.

As organizações internacionais de ajuda humanitária não têm fundos para fazer face à catástrofe humanitária. Só no Chade vivem pelo menos 800.000 refugiados do Sudão, diz Pierre Honnorat, do Programa Alimentar Mundial.

"Precisamos urgentemente de financiamento para esta crise. É urgente porque primeiro temos de comprar os alimentos e trazê-los para o Chade e depois transportá-los até aqui, para a fronteira, para que as pessoas aqui recebam pelo menos uma refeição por dia."

Sete milhões de refugiados
No Sudão, os dois homens mais poderosos do país estão em conflito desde abril passado. De um lado está Abdelfaftah al-Burhan, o chefe do Exército e presidente do Conselho Soberano do Sudão, do outro, o seu antigo adjunto, Mohamed Hamdan Dagalo, que comanda as chamadas Forças de Apoio Rápido.

Os combates alastraram-se a todo o país, afetando até zonas residenciais. A situação no Sudão não podia ser pior, disse recentemente Jan Egeland, diretor do Conselho Norueguês para os Refugiados, numa entrevista à emissora alemã ARD.

"Entristece-me que o mundo esteja a ignorar um dos maiores desastres humanitários da nossa geração. Sim, há a guerra na Ucrânia, a crise em Gaza. Mas como é que o mundo pode esquecer, em apenas alguns meses, que mais seis milhões de pessoas tiveram de fugir daqui? As mulheres estão a ser violadas, os hospitais estão a ser bombardeados, os campos de refugiados estão a ser bombardeados!"

Segundo os relatos, a situação é particularmente difícil na região de Darfur, no extremo oeste do Sudão. As milícias das Forças de Apoio Rápido voltam a ser acusadas de crimes brutais contra os direitos humanos. Vinte anos depois, a crise vivida no Darfur em 2003 parece estar a repetir-se, lembra Jan Egeland.

"O Darfur está atualmente a sofrer uma limpeza étnica maciça", começou por explicar o diretor do Conselho Norueguês para os Refugiados, que trabalha nas Nações Unidas há 20 anos.

"O Darfur era uma questão importante, o então Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush e o primeiro-ministro britânico Tony Blair estavam determinados a ajudar a população. Hoje, está a acontecer novamente o mesmo em Darfur - centenas de milhares de pessoas estão a ser deslocadas, milhares já foram massacradas - e ninguém parece ter consciência disso."

Comunidade internacional ignora Sudão?
A crise parece não ter fim à vista: até agora, todos os esforços de mediação internacional para um cessar-fogo falharam. Diz-se mesmo que algumas potências estarão a alimentar o conflito no Sudão, que é rico em matérias-primas - as milícias controlam várias minas de ouro no país.

As relações entre o Governo sudanês e as Nações Unidas são cada vez mais tensas. O enviado especial alemão Volker Perthes foi declarado "persona non grata" e demitiu-se. E o Sudão apelou à ONU para encerrar a missão de estabilização no país.

"Uma civilização inteira foi destruída, 24 milhões de pessoas precisam de ajuda. Se o que está a acontecer no Sudão estivesse a acontecer noutro lugar e não em África, estaria no topo da agenda política. É a guerra mais esquecida do nosso tempo."

Desde abril, a guerra entre o exército e as RSF já causou pelo menos 12 mil mortos e mais de sete milhões de deslocados no Sudão

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Marty, o norte-americano que faz a diferença


O racismo, a xenofobia e o ódio não são divisíveis por dois
Os EUA, que possuem as leis sobre armas mais flexíveis do mundo, têm o maior número de tiroteios em massa do mundo. Os cidadãos dos EUA lideram o mundo em termos de posse de armas, com estimativas sugerindo que havia 390 milhões de armas em circulação em 2018, com uma taxa de 120,5 armas por 100 residentes.
Há um solitário activista, Marty, agora com 81 anos, desde há 5 anos mantém o seu posto diariamente em frente à Casa Branca, com este cartaz. Filho de imigrantes, pretende com o seu protesto que os americanos exerçam a sua tradicional amizade em vez de fomentar o ódio e a divisão.

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

"Dispararam como chuva". Arábia Saudita acusada de mortes em massa de migrantes etíopes



Os guardas fronteiriços sauditas estão a ser acusados de matar centenas de migrantes, a maioria etíopes, usando armas explosivas e armas pequenas.No relatório da HRW, intitulado “They fired on us like rain” (“Eles dispararam contra nós como chuva”), conclui-se que "os guardas fronteiriços sauditas utilizaram armas explosivas para matar muitos migrantes e dispararam sobre outros à queima-roupa, incluindo muitas mulheres e crianças, num padrão de ataques generalizado e sistemático".

Em alguns casos, segundo o relatório, “os guardas fronteiriços sauditas perguntaram aos migrantes em que membro deviam disparar e depois dispararam sobre estes à queima-roupa".

No total, a HRW estima que "os guardas fronteiriços sauditas mataram pelo menos centenas de requerentes de asilo e migrantes etíopes que tentaram atravessar a fronteira entre o Iémen e a Arábia Saudita entre março de 2022 e junho de 2023". Os migrantes procuram atravessar o Iémen devastado pela guerra para chegar à Arábia Saudita.

A ONG defende que "os abusos sistemáticos sobre os etíopes (na Arábia Saudita) podem constituir crimes contra a humanidade" e apelou às Nações Unidas que iniciem uma investigação. A organização exigiu ainda à Arábia Saudita que revogue "imediata e urgentemente qualquer política de uso de força letal contra migrantes e requerentes de asilo".

“Vi pessoas mortas de uma maneira que nunca imaginei”

Algumas das pessoas que viajavam em grupos descreveram ter sido atacadas pelos guardas fronteiriços sauditas, munidos de espingardas e de outras armas explosivas, assim que cruzaram a fronteira. Outras afirmaram que foram espancadas por guardas com pedras e barras de metal. Mais de uma dezena de entrevistados testemunharam ou foram alvo de disparos à queima-roupa e seis foram atingidos tanto por armas explosivas como por disparos.

Algumas das testemunhas disseram que os guardas sauditas às vezes os mantinham em centros de detenção, em alguns casos durante meses, e os espancavam.

"Um rapaz de 17 anos afirmou que os guardas fronteiriços o obrigaram, juntamente com outros sobreviventes, a violar duas raparigas, também elas sobreviventes, depois de os guardas terem executado outro migrante que se recusou fazê-lo", refere o documento.

Todas descrevem um cenário de terror: vários corpos de mulheres, homens e crianças no chão, gravemente feridos, já mortos ou desmembrados.

“Vi pessoas mortas de uma maneira que nunca imaginei”, disse Hamdiya, uma menina de 14 anos que cruzou a fronteira com um grupo de 60 pessoas em fevereiro, citada pelo relatório. “Vi 30 pessoas mortas no local”, afirmou.

A principal investigadora do relatório da HRW, Nadia Hardman, descreveu as descobertas como “obscenas”.

“Eu cubro a violência nas fronteiras, mas nunca encontrei algo desta natureza, o uso de armas explosivas, inclusive contra mulheres e crianças”, disse Hardman.

Arábia Saudita rejeita acusações
As autoridades sauditas responderam ao relatório da HRW no passado sábado, rejeitando veementemente as acusações de assassinatos sistemáticos ou em grande escala.

"Com base nas informações limitadas fornecidas, as autoridades do Reino não descobriram nenhuma informação ou prova para confirmar ou sustentar as alegações", respondeu o Governo saudita numa carta enviada à ONG.

Cerca de 750 mil etíopes vivem e trabalham na Arábia Saudita e, "embora muitos migrem por razões económicas, outros fugiram devido a graves violações dos direitos humanos na Etiópia, nomeadamente durante o recente e brutal conflito armado no norte do país", salientou a ONG.

Embora a HRW tenha documentado assassinatos de migrantes na fronteira com o Iémen e a Arábia Saudita desde 2014, a ONG salienta que “os assassinatos parecem resultar de uma escalada deliberada, tanto no número como na forma de assassinatos seletivos”.

A HRW insta o governo saudita a "investigar e disciplinar ou processar adequadamente o pessoal de segurança responsável por assassinatos ilegais, ferimentos e tortura na fronteira com o Iémen" e apela aos "países preocupados" que imponham sanções a "funcionários sauditas e houthis credivelmente implicados em violações contínuas na fronteira".

“Os guardas de fronteira sauditas sabiam ou deveriam saber que estavam a disparar contra civis desarmados”, disse Hardman. “Se não houver justiça para o que parecem ser crimes graves contra migrantes etíopes e requerentes de asilo, isso apenas alimentará mais assassinatos e abusos", salientou