Mostrar mensagens com a etiqueta Frans de Waal. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Frans de Waal. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 16 de março de 2022

O comportamento moral nos animais, por Frans de Waal




Empatia, cooperação, justiça e reciprocidade — ter em atenção o bem-estar dos outros parece ser uma característica muito humana. Mas Frans de Waal partilha alguns vídeos surpreendentes de testes comportamentais, com primatas e outros mamíferos, que mostram como muitos destes traços morais são partilhados por todos nós.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Frans de Waal & Yuval Noah Harari – Empathy, Ecological Collapse & Humanity’s Future Challenges


Watch primatologist and ethologist Frans de Waal speak with historian and philosopher Yuval Noah Harari, about animal vs. human behavior, our future on this planet, and much much more -- in a conversation moderated by Bartosz Węglarczyk. 

Originally featured in the Freedom Games Conference in September 2021

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Moral behavior in animals por Frans de Waal


Empathy, cooperation, fairness and reciprocity - caring about the well-being of others seems like a very human trait. But Frans de Waal shares some surprising videos of behavioral tests, on primates and other mammals, that show how many of these moral traits all of us share.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

"As Vidas dos Animais" de John Coetzee

Publicada originalmente em 1999, a obra "A Vida dos Animais" (The Lives of Animals) afirma-se como um dos textos mais singulares e influentes de J.M. Coetzee, tendo surgido a partir das Tanner Lectures on Human Values que o autor proferiu na Universidade de Princeton entre 1997 e 1998. Em vez de seguir o formato de um ensaio académico tradicional, Coetzee optou pela estratégia da metaficção, criando a personagem Elizabeth Costello, uma romancista idosa que, ao ser convidada para dar uma palestra, utiliza esse espaço para proferir um discurso visceral e perturbador sobre o tratamento humano dado aos animais. Esta estrutura permite a Coetzee utilizar a literatura para testar os limites da razão, com Costello a argumentar que a filosofia ocidental padece de uma obsessão pela "razão" como único critério de valor, o que serve apenas para excluir os animais da esfera de consideração moral. Em alternativa, a personagem propõe a comiseração — a capacidade profunda de sentir o que o outro sente — como base ética. O ponto mais polémico desta análise surge na analogia do Holocausto, onde Costello compara os matadouros modernos ao extermínio nazi, sugerindo que a humanidade vive num estado de negação coletiva semelhante ao dos cidadãos que ignoravam a existência dos campos de concentração ao seu redor.

A obra promove um verdadeiro embate com a tradição filosófica ao incluir respostas reais de académicos, gerando um diálogo interdisciplinar de grande fôlego. Entre os intervenientes destaca-se Peter Singer, filósofo de ética utilitarista e autor de Libertação Animal, que responde através de um conto onde debate se a base para os direitos deve ser a razão ou a capacidade de sofrer, focando-se nos interesses, enquanto a visão de Costello se centra na experiência subjetiva. Embora não esteja diretamente presente no livro, o pensamento de Tom Regan também ressoa na narrativa ao defender que os animais são "sujeitos-de-uma-vida", possuindo um valor inerente que transcende a utilidade humana. Esta crítica estende-se às perspetivas da biologia e da etologia, com Costello a atacar a ciência que reduz os animais a objetos de estudo mecânicos. Sobre este ponto, o primatologista Frans de Waal contribui com um comentário argumentando que a moralidade e a empatia têm raízes evolutivas profundas e não são exclusivas da nossa espécie, ideia reforçada pela frequente citação de Jane Goodall, que desafia o antropocentrismo radical ao demonstrar que os animais possuem personalidades e emoções complexas.

No âmago da obra reside a tese da falha da linguagem humana, considerada insuficiente para capturar a essência da existência animal. Coetzee sugere que apenas através da imaginação poética, e não da lógica silogística, podemos aspirar a compreender o "ser" de um animal. Nesta jornada intelectual, surgem referências fundamentais como René Descartes, alvo central das críticas de Costello por ter definido os animais como "autómatos" desprovidos de consciência, e a filósofa moral Mary Midgley, que defendeu deveres mistos para com a comunidade biológica. A obra evoca ainda Jeremy Bentham, o precursor do utilitarismo que famosamente instigou a humanidade a perguntar não se os animais podem raciocinar ou falar, mas se podem sofrer. Em conclusão, "A Vida dos Animais" transcende o debate sobre o vegetarianismo para se tornar uma exploração profunda sobre a solidão da consciência humana e a nossa dificuldade em reconhecer a alteridade radical, obrigando o leitor a confrontar o "crime silencioso" que sustenta os pilares da nossa civilização.

Saber mais:
J.M. Coetzee and Elizabeth Costello: Landscapes and Animals

Mirror neurons and literature: Empathy and the sympathetic imagination in the Fiction of J.M. Coetzee

terça-feira, 13 de abril de 2010

Entrevista Marina Lencastre- A senhora que descobriu a origem da bondade


A senhora que descobriu a origem da bondade

Marina Lencastre tem as suas raízes em Cabeceiras de Basto. Viveu na Bélgica durante a sua licenciatura e doutoramento e em 1986 escolheu a área do Porto para viver e trabalhar. É psicóloga e passou pela educação ambiental nos anos 90. Não foi uma passagem fugaz e muito menos inusitada. Pelo contrário, a entrada na área foi natural no percurso da sua carreira académica e com ela abriram-se novas perspectivas. A educação ambiental conquistou até hoje uma rigorosa investigadora com um certo tom crítico e Marina Lencastre ganhou coragem para dar o passo seguinte - interligar o ambiente e a psicologia em nome do “bem-estar humano”.

Qual é o seu passatempo favorito?
Ler, fazer caminhadas no campo. Na primavera gosto de observar as flores, levar o meu cão a passear. Também gosto muito de ler, embora ultimamente tenha lido pouca ficção. Tornei-me muito exigente com o uso do meu tempo e leio principalmente livros relacionados com a minha profissão. Os últimos livros que li foram “The Origins of Human Nature” sobre a relação entre genes, desenvolvimento e cultura, e “Primates and Philosophers” de Frans De Waal. Este primatólogo conduziu um estudo científico sobre questões como a empatia social e a reconciliação entre os primatas. Sabia que, por exemplo, depois de uma luta os chimpanzés têm uma tendência compulsiva para a reconciliação?

Isso também acontece nos humanos?

Um dos problemas da ética social e ambiental contemporânea tem a ver com os contextos expandidos. É preciso criar uma ética global. Temos tendência para nos vincularmos aos que são próximos, pelo que a reconciliação com os mais distantes é mais difícil. A propósito disso, escrevi recentemente um artigo que se chama “A origem da bondade” que vai ser publicado num livro internacional sobre educação ambiental. Analisei qual era a origem filogenética das tendências benevolentes no humano, que tem uma raiz nos outros animais. E, ao contrário do que se pensava até há pouco tempo, verifica-se que a bondade é tão inata quanto a agressão. Acreditava-se que a bondade era fruto da educação, mas não é assim. É inata. O que é preciso é criar os contextos nos quais a bondade se possa exprimir sem medo.

Confesse-nos uma coisa que gosta?

Gosto muito de estar com os meus amigos, idealmente em espaços naturais.

E uma coisa que não gosta nada?
Desde pequena que sou muito sensível ao maltrato a seres mais frágeis, sejam eles pessoas ou animais. Talvez até essa tenha sido a razão pela qual mais tarde vim a “sentir-me em casa” na educação ambiental. Actualmente existe uma tal falta de sensibilidade pela natureza, pelo que está ao nosso dispor, é gratuito e é frágil…

Se pudesse ser um animal, qual seria?

(risos) Uma leoa a viver na savana! Quando era miúda vi um filme - “Born Free” - que era a história de uma leoa que viveu com humanos durante muitos anos e que depois voltou à savana, mas não esqueceu a sua família humana. A liberdade daquele animal tocou -me imenso.

domingo, 4 de outubro de 2009

Entrevista a Frans de Waal sobre a sua obra Our Inner Ape (2005)



Estudar macacos para entender a natureza humana? Sim, porque somos todos primatas e, por isso, muito mais semelhantes do que diferentes. Essa é a polêmica tese de Frans de Waal, primatólogo da Universidade Emory, Atlanta, Estados Unidos.
Por Carolina Cantarino, em Com Ciência

Os humanos compartilham aproximadamente 98% de seu DNA com os chimpanzés. Por conta dessa identificação genética, aquilo que costumamos descrever como características humanas (cooperação, altruísmo, agressividade, amor, medo, reconciliação, competição) existiria também entre os macacos. Buscar essas aproximações e semelhanças (mais do que as diferenças) tem sido o trabalho de Frans de Waal, primatólogo e autor de uma série de livros (muitos dos quais voltados para o público não-especializado) sobre os nossos primos mais próximos: Chimpanzee politics (1982), Peacemaking among primates (1989), Bonobo: the forgotten ape (1997), The ape and the sushi master (2001). Em sua publicação mais recente, Our inner ape (2005), duas espécies de macacos africanos (os violentos e agressivos chimpanzés, que vivem em grupos dominados pelos machos, e os pacíficos e altruístas bonobos, entre os quais as fêmeas detêm o poder, e a resolução de conflitos se faz através do sexo) são os contrapontos utilizados pelo autor para caracterizar a natureza humana.

Baseada na teoria darwinista da evolução, a abordagem de Waal gera controvérsias, sobretudo entre cientistas preocupados com as consequências sociais e políticas que podem advir dessa aproximação entre o comportamento de humanos e macacos. O risco de se atribuir à biologia que compartilhamos com os primatas não só certas emoções e qualidades humanas mas também hierarquias e desigualdades – como as desigualdades entre homens e mulheres – é criar justificativas, ancoradas na ciência, para perpetuá-las, já que seriam vistas como inevitáveis por serem naturais. Estaríamos, assim, diante de uma nova versão do determinismo biológico? Frans de Waal foi questionado sobre esse e outros temas, em entrevista concedida à ComCiência.

ComCiência: Em Our inner ape (2005), o senhor propõe uma comparação entre o comportamento dos chimpanzés, dos macacos bonobos e dos seres humanos, para descrever a natureza humana. Além das similaridades, como o senhor pensa a questão das diferenças entre essas espécies? O que seria específico de nós, seres humanos? Qual seria a especificidade da condição humana em relação às outras espécies animais?

Frans de Waal: Entre eles, primatas, e nós, humanos, existem similaridades imensas e poucas diferenças consideráveis. Destas últimas, as principais são a linguagem e a família nuclear. Habilidades linguísticas estão basicamente ausentes nos macacos. Eles podem aprender alguns princípios da linguagem, como o uso de símbolos, mas nunca conseguem muito mais do que uma criança bem pequena pode fazer. A outra diferença (a família nuclear) está ligada ao fato de que, na nossa espécie, os machos estão envolvidos no cuidado com a família, o que não é o caso entre os macacos. As fêmeas dos primatas costumam cuidar de tudo sozinhas, o que explica, aliás, o por quê delas terem tão poucos filhotes. O intervalo entre o nascimento de um filhote e outro gira em torno de cinco ou seis anos enquanto que os humanos, por causa da assistência masculina, podem ter filhos com mais frequência.

ComCiência: Como primatólogo, o senhor propõe estudar outras espécies para compreender a nossa. Mas a comparação entre o comportamento humano e o comportamento animal – para falar sobre o que seria a natureza humana (não resultaria numa naturalização ou mesmo animalização do ser humano)? Por outro lado, não existe o risco de se projectar qualidades humanas sobre os animais, através de uma culturalização dos primatas, por exemplo?

Frans de Waal: Essas duas formas de abordagem apresentam riscos, mas é preciso lembrar que a maioria dos estudos sobre o comportamento humano nunca sequer consideraram o nosso background primata. Isso tem levado a uma grosseira superestimação da singularidade humana, como é possível notar em alguns textos de sociólogos ou psicólogos. Sendo assim, o meu esforço tem sido no sentido de oferecer um contraponto. E o meu objectivo não é fazer com que o comportamento humano pareça puramente biológico, porque eu acredito que todos os primatas (e não apenas os humanos) são bastante influenciados pelo aprendizado e pelo ambiente. Nós estudamos, inclusive, a cultura dos primatas, em busca daqueles comportamentos que foram aprendidos. Descobrimos que os macacos são seres muito culturais. Sendo assim, as semelhanças entre humanos e primatas estão postas não apenas na biologia mas também no modo como o aprendizado afecta o comportamento.

Recentemente, por exemplo, nós ensinamos a uma fêmea de um grupo de chimpanzés, um jeito de abrir uma caixa. A mesma caixa poderia ser aberta de outro modo. Ensinamos, então, a uma outra fêmea, de um grupo diferente, esse segundo jeito de abrir. Depois disso, introduzimos as fêmeas e as caixas nos seus respectivos grupos e vimos que todos os chimpanzés do primeiro grupo adoptaram o primeiro método, e todos os macacos do segundo grupo adoptaram o outro método. Tínhamos criado, assim, duas diferentes culturas sobre como abrir uma determinada caixa. Isso demonstra como os primatas são afectados pelo ambiente. Nós fizemos o mesmo com crianças e obtivemos os mesmos resultados.

ComCiência: A relação entre natureza e cultura (nature and nurture), historicamente tem gerado controvérsias entre biólogos e cientistas sociais. As tentativas de se integrar as diferentes abordagens dessas duas áreas do conhecimento (como a sociobiologia de Edward O . Wilson) muitas vezes são acusadas de resultarem num determinismo biológico. Na sua opinião, seria possível ir além da dicotomia natureza/cultura e pensar, de fato, numa perspectiva integrada?

Frans de Waal: Tudo o que a natureza faz é oferecer sugestões e direcções sobre como se comportar. As sociedades humanas caracterizam-se por uma incrível diversidade, o que significa que, sim, a biologia deve ser levada a sério, mas a imagem de nós, seres humanos, como escravos de nossos genes, é errada.
Sem a biologia não existiriam seres humanos. Nossos cérebros, corações, pulmões, hormonas, enfim, tudo isso provêm da biologia, e, sendo assim, não se pode escapar do fato de que nossa biologia é, em parte, biologicamente determinada. Nas ciências sociais, essa percepção está se tornando mais comum, e existe um interesse crescente pela teoria da evolução. Mas eu acredito que a integração entre uma perspectiva baseada na cultura e no aprendizado e uma perspectiva oriunda da biologia ainda é uma necessidade.

ComCiência: Recentemente, declarações do reitor da Universidade de Harvard, Lawrence Summers, sobre as diferenças biológicas entre os sexos (que, segundo ele, seria um dos factores que explicaria a reduzida presença feminina em algumas áreas da ciência) despertou uma série de polémicas na academia e na imprensa, inclusive sobre o uso da biologia para justificar a existência de desigualdades sociais. O debate sobre as consequências políticas da ideia da influência da biologia sobre o comportamento humano, mais uma vez, foi retomado. Qual a sua opinião sobre as possíveis implicações políticas da ciência do comportamento (
behavioral science)?

Frans de Waal: É claro que existem grandes diferenças de género ancoradas na biologia, química cerebral, hormonas e etc. Mas nós não sabemos se essas diferenças afetam a capacidade intelectual e nem como elas afectam. Não está claro se os homens são inerentemente melhores do que as mulheres para certas profissões e, se esse for o caso, ainda assim existirão excelentes mulheres que poderão desempenhar essas profissões. Noutros primatas, também, machos e fêmeas são bastante diferentes. Muitas das diferenças entre os géneros que nós observamos entre os humanos são também reconhecíveis entre os primatas. Por exemplo, eu tenho afirmado que as fêmeas dos chimpanzés são melhores do que os machos para evitar conflitos e manter a paz no grupo. Mas, por outro lado, elas não são tão boas quanto os machos em retomar e reparar relações depois da ocorrência de uma grande briga. Ou seja, a resolução de conflitos, o fazer as pazes com o inimigo não é o forte das fêmeas e estudos com crianças têm indicado o mesmo para meninos e meninas: elas tendem a guardar ressentimentos por mais tempo do que eles. Essas são diferenças interessantes que, provavelmente, fazem parte de nossa biologia.

Ler ainda noutra postagem anterior no BioTerra.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

The Age of Empathy: Nature’s Lessons for a Kinder Society. By Frans de Waal

Less brutish, still short(a review from The Economist 3.Set.09) 
EVERY day the world seems more like Aesop’s Fables. Rooks are found to use ingenious tools; dolphins are overheard talking to whales; and pigs, while not yet flying, play a passable game of football—at least according to the BBC. As for apes, they would hardly make headlines any more if they were found to be adept at composing limericks. Frans de Waal, a primatologist in the psychology department of Emory University in Atlanta, Georgia, is perhaps best known for his studies of bonobos—the so-called politically correct apes who are somewhat feminist, often resolve disputes by making love instead of war, and with whom humans share as much of their DNA as they do with chimpanzees. 

His new book, The Age of Empathy, looks at altruism and sympathetic fellow-feeling in both humans and other animals. His title has a double-meaning: empathy is both very old and freshly topical. It is as ancient as the entire mammalian line, he argues, engaging areas of the brain that developed in our distant ancestors over 100m years ago. And we are also entering a new age of empathy, he thinks, brought on by the financial crisis (the product of a selfishly oriented system), and marked by America’s election of President Barack Obama, who has re-emphasised the importance of compassion and helping one’s neighbour. 
 The book is a polemic, and its main target is what Mr de Waal takes to be a distorted idea of human life as relentlessly selfish and ruthlessly competitive. As an antidote to this picture, he offers plenty of evidence of apparently selfless sacrifice, unforced sympathy, co-operation and even a keen sense of fairness in our closest animal relatives, who evolved to reap the benefits of mutual aid. In other words, his answer to Thomas Hobbes’s famously gloomy statement that man’s existence tends to be nasty, brutish and short is, in effect, that it is unfair to brutes. Beasts are not actually all that beastly, and so we need not be either. 
Nature does not force us to be selfish. But what exactly is the moral relevance of empathy and altruism in non-human animals? Ethicists have a name for the confused idea that moral conclusions can be deduced from scientific evidence: they call it the naturalistic fallacy, and it cuts two ways. If it is a mistake to justify human selfishness on the basis of the alleged selfishness of nature (as one strain of Social Darwinism tried to do in the late 19th and early 20th centuries, and some right-wing columnists do now), then it is equally mistaken to espouse altruism merely on the basis that chimps can be assiduous at sharing food and at being good buddies to one another. 
On the whole, it appears that Mr de Waal appreciates this point. The Age of Empathy is best seen as a corrective to the idea that all animals—human and otherwise—are selfish and unfeeling to the core. It offers not only plenty of examples to the contrary, but also some hints as to how and why empathy evolved, and how it might be related to self-awareness. In the case of humans, one might think that it is hardly necessary to get the professional opinion of a zoologist on the matter. 
Don’t we already know that people can be rather good at co-operating, and are not always mercilessly hostile towards their rivals? Yet Mr de Waal does manage to spring some pleasing and intriguing surprises on this score: how many people are aware, for example, that most soldiers are unwilling to fire at the enemy, even in battle? On the other hand, politics can be a much bloodier battleground than war, as any advocate of a kinder society soon finds out. 


domingo, 19 de dezembro de 2004

Estamos no Antropodenial?

Dotar os animais de emoções humanas tem sido um tabu científico. Mas se não o fizermos, corremos o risco de perder algo fundamental, sobre os animais e nós.


Quando os convidados chegam ao Centro Regional de Pesquisa de Primatas de Yerkes, na Geórgia, onde trabalho, eles costumam fazer uma visita aos chimpanzés. E muitas vezes, quando ela os vê se aproximando do complexo, uma chimpanzé fêmea adulta chamada Georgia corre até a torneira para pegar um gole de água. Ela então se misturará casualmente com o resto da colônia atrás da cerca de malha, e nem mesmo o observador mais perspicaz notará algo incomum. Se necessário, Georgia esperará minutos, de boca fechada, até que os visitantes se aproximem. Então haverá gritos, risadas, saltos - e às vezes quedas - quando ela de repente os borrifa. Conheço alguns macacos que são bons em surpreender as pessoas, ingénuas ou não. Heini Hediger, o grande zoobiólogo suíço, conta como ele - estando preparado para enfrentar o desafio e prestando atenção a cada movimento do macaco - foi encharcado por um chimpanzé experiente. 

Certa vez, me vi em uma situação semelhante com a Geórgia; ela tinha tomado um gole da torneira e estava se esgueirando até mim. Eu a olhei bem nos olhos e apontei meu dedo para ela, avisando em holandês, eu vi você! Ela imediatamente recuou, deixou um pouco da água escorrer de sua boca e engoliu o resto. Certamente não quero afirmar que ela entende holandês, mas ela deve ter percebido que eu sabia o que ela estava fazendo e que não seria um alvo fácil. Agora, sem dúvida, mesmo um leitor casual deve ter notado que, ao descrever as ações de Georgia, insinuei qualidades humanas como intenções, a capacidade de interpretar minha própria consciência e uma tendência para o mal. No entanto, a tradição científica diz que devo evitar tal linguagem – estou cometendo o pecado do antropomorfismo, de transformar não-humanos em humanos. 

A palavra vem do grego, significando forma humana, e foram os antigos gregos que primeiro deram má reputação à prática. Eles não tinham chimpanzés em mente: o filósofo Xenófanes se opôs à poesia de Homero porque ela tratava Zeus e os outros deuses como se fossem pessoas. Como pudemos ser tão arrogantes, perguntou Xenófanes, a ponto de pensar que os deuses deveriam se parecer conosco? Se os cavalos pudessem fazer desenhos, ele sugeriu zombeteiramente, eles sem dúvida fariam seus deuses parecerem cavalos. Hoje em dia, os descendentes intelectuais de Xenófanes advertem contra a percepção de que os animais são como nós. Existem, por exemplo, os behavioristas, que acompanham o psicólogo BF Skinner ao ver as ações dos animais como respostas moldadas por recompensas e punições, e não como resultado de decisões internas, emoções ou intenções. Eles diriam que a Geórgia não estava tramando nada quando borrifou água em suas vítimas. Longe de planejar e executar uma trama perversa, Georgia simplesmente caiu na recompensa irresistível da surpresa e aborrecimento humano. Considerando que qualquer pessoa agindo como ela seria repreendida, presa ou responsabilizada, a Geórgia é de alguma forma inocente. 

Os behavioristas não são os únicos cientistas que evitam pensar na vida interior dos animais. Alguns sociobiólogos - pesquisadores que buscam as raízes do comportamento na evolução - descrevem os animais como máquinas de sobrevivência e robôs pré-programados colocados na Terra para servir a seus genes egoístas. Há um certo valor metafórico nesses conceitos, mas foi negado pelo mal-entendido que eles criaram. Tal linguagem pode dar a impressão de que apenas os genes têm direito a uma vida interior. Nenhuma ideia antropomorfizante mais ilusória foi apresentada desde a mania do pet-rock dos anos 1970. Na verdade, durante a evolução, os genes – um mero lote de moléculas – simplesmente se multiplicam em taxas diferentes, dependendo das características que produzem em um indivíduo. Dizer que os genes são egoístas é como dizer que uma bola de neve que cresce à medida que desce uma colina é ávida por neve. Logicamente, essas atitudes agnósticas em relação a uma vida mental em animais só podem ser válidas se forem aplicadas também à nossa própria espécie. No entanto, é incomum encontrar pesquisadores que tentam estudar o comportamento humano puramente como uma questão de recompensa e punição. 

Descreva uma pessoa como tendo intenções, sentimentos, e pensamentos e você provavelmente não encontrará muita resistência. Nossa própria familiaridade com nossa vida interior anula qualquer coisa que alguma escola de pensamento possa reivindicar sobre nós. No entanto, apesar desse duplo padrão em relação ao comportamento de humanos e animais, a biologia moderna não nos deixa escolha a não ser concluir que somos animais. Em termos de anatomia, fisiologia e neurologia, não somos realmente mais excepcionais do que, digamos, um elefante ou um ornitorrinco à sua maneira. Mesmo tais marcas presumidas da humanidade como guerra, política, cultura, moralidade e linguagem podem não ser completamente sem precedentes. 

Por exemplo, diferentes grupos de chimpanzés selvagens empregam diferentes tecnologias – alguns pescam cupins com paus, outros quebram nozes com pedras – que são transmitidas de uma geração para outra por meio de um processo que lembra a cultura humana. Diante dessas descobertas, devemos ter muito cuidado para não exagerar a singularidade de nossa espécie. Os antigos aparentemente nunca deram muita atenção a esta prática, o oposto do antropomorfismo, e por isso nos falta uma palavra para isso. Vou chamá-lo de antropodenial: uma cegueira para as características humanas de outros animais, ou para as características animais de nós mesmos. Aqueles que estão em antropodenia tentam construir uma parede de tijolos para separar os humanos do resto do reino animal. Eles continuam a tradição de René Descartes, que declarou que enquanto os humanos possuíam almas, os animais eram meros autômatos. Isso gerou um sério dilema quando Charles Darwin apareceu: se descendíamos de tais autômatos, não éramos nós mesmos autômatos? Se não, como chegamos a ser tão diferentes? Cada vez que devemos fazer tal pergunta, outro tijolo é arrancado da parede divisória, e para mim essa parede está começando a parecer uma fatia de queijo suíço. 

Trabalho diariamente com animais dos quais é tão difícil se distanciar quanto de Lucy, o famoso fóssil australopitecíneo de 3,2 milhões de anos. Se devemos a Lucy o respeito de um ancestral, isso não força um olhar diferente para os macacos? Afinal, tanto quanto podemos dizer, a diferença mais significativa entre Lucy e os chimpanzés modernos é encontrada em seus quadris, não em seus crânios. Assim que admitimos que os animais são muito mais parecidos com nossos parentes do que com máquinas, então a antropodenização se torna impossível e o antropomorfismo se torna inevitável – e cientificamente aceitável. Mas nem todas as formas de antropomorfismo, é claro. A cultura popular nos bombardeia com exemplos de animais sendo humanizados para todos os tipos de propósitos, variando de educação a entretenimento, de sátira a propaganda. Walt Disney, por exemplo, nos fez esquecer que Mickey é um rato e Donald um pato. George Orwell disfarçou os males da sociedade humana sobre uma população de gado. 

Certa vez, fiquei impressionado com um anúncio de uma empresa de petróleo que afirmava que seu propano salvava o meio ambiente, no qual um urso pardo desfrutando de uma paisagem intocada tinha o braço em volta dos ombros de sua companheira. Na verdade, os ursos são míopes e não formam pares, então a imagem diz mais sobre nosso próprio comportamento do que sobre o deles. Talvez fosse essa a intenção. O problema é que nem sempre nos lembramos de que, quando usado dessa maneira, o antropomorfismo pode fornecer uma visão apenas dos assuntos humanos e não dos assuntos dos animais. Quando meu livro Chimpanzee Politics saiu na França, em 1987, meu editor decidiu (sem eu saber) colocar François Mitterrand e Jacques Chirac na capa com um chimpanzé entre eles. Só posso presumir que ele queria insinuar que esses políticos agiam como mães macacos. No entanto, ao fazer isso, ele foi totalmente contra o objetivo do meu livro, que não era ridicularizar as pessoas, mas mostrar que os chimpanzés vivem em sociedades complexas cheias de alianças e jogos de poder que, de certa forma, refletem os nossos. Muitas vezes você pode ouvir tentativas semelhantes de humor antropomórfico nas multidões que se formam em torno da exibição de macacos em um zoológico típico. Não é interessante que antílopes, leões e girafas raramente provocam hilaridade? 

Mas as pessoas que observam os primatas acabam gritando e gritando, se coçando em exagero e apontando para os animais enquanto gritam: Tive que olhar duas vezes, Larry. Pensei que eras tu! Na minha cabeça, o riso reflete o antropodenismo: é uma reação nervosa causada por uma semelhança incômoda. Essa mesma semelhança, no entanto, pode nos permitir fazer melhor uso do antropomorfismo, mas para isso devemos vê-lo como um meio e não como um fim. Não deveria ser nosso objetivo encontrar alguma qualidade em um animal que seja precisamente equivalente a um aspecto de nossa própria vida interior. Em vez disso, devemos usar o fato de sermos semelhantes aos animais para desenvolver ideias que possamos testar. Por exemplo, depois de observar um grupo de chimpanzés longamente, começamos a suspeitar que alguns indivíduos estão tentando enganar os outros - dando alarmes falsos para desviar a atenção indesejada do roubo de comida ou da atividade sexual proibida. Uma vez que enquadramos a observação nesses termos, podemos validar previsões testáveis. Podemos imaginar exatamente o que seria necessário para demonstrar a fraude por parte dos chimpanzés. Dessa forma, uma especulação se transforma em um desafio. Naturalmente, devemos estar sempre em guarda. Para evitar interpretações tolas baseadas no antropomorfismo, deve-se sempre interpretar o comportamento animal no contexto mais amplo dos hábitos e da história natural de uma espécie. 

Sem experiência com primatas, pode-se imaginar que um macaco rhesus sorridente deve estar encantado, ou que um chimpanzé correndo em direção a outro com grunhidos altos deve estar em um estado de espírito agressivo. Mas os primatologistas sabem, por muitas horas de observação, que os macacos rhesus mostram os dentes quando são intimidados e que os chimpanzés costumam grunhir quando se encontram e se abraçam. Em outras palavras, um sorridente macaco rhesus sinaliza submissão, e o grunhido de um chimpanzé geralmente serve como uma saudação. Um observador cuidadoso pode, assim, chegar a um antropomorfismo informado que está em desacordo com as extrapolações do comportamento humano. Também é preciso estar sempre ciente de que alguns animais são mais parecidos conosco do que outros. O problema de partilhar as experiências de organismos que dependem de diferentes sentidos é profundo. Foi expresso de forma mais famosa pelo filósofo Thomas Nagel quando ele perguntou: Como é ser um morcego? Um morcego percebe seu mundo em pulsos de som refletido, algo que nós, criaturas de visão, teríamos dificuldade em imaginar. Talvez ainda mais estranha seja a experiência de um animal como a toupeira de nariz estrelado. Com 22 tentáculos rosa contorcendo-se em torno de suas narinas, é capaz de sentir texturas microscópicas em pequenos objetos na lama com o mais aguçado senso de toque de qualquer animal na Terra. Os humanos mal conseguem imaginar o Umwelt de uma toupeira de nariz estrelado - um termo alemão para o ambiente percebido pelo animal. Obviamente, quanto mais próxima uma espécie estiver de nós, mais fácil será entrar em seu Umwelt. É por isso que o antropomorfismo não é apenas tentador no caso dos macacos, mas também difícil de rejeitar com base no fato de que não podemos saber como eles percebem o mundo. Seus sistemas sensoriais são essencialmente os mesmos que os nossos. 

No verão passado, um macaco salvou um menino de três anos. A criança, que havia caído 20 pés na exibição de primatas no Brookfield Zoo de Chicago, foi resgatada e carregada para um local seguro por Binti Jua, uma gorila fêmea de oito anos de idade. O gorila sentou-se num tronco em um riacho, embalando o menino no colo e dando tapinhas em suas costas, e então o carregou até uma das portas da exposição antes de deitá-lo e continuar seu caminho. Binti se tornou uma celebridade da noite para o dia, figurando nos discursos dos principais políticos que a apontavam como um exemplo de compaixão tão necessária. Alguns cientistas foram menos líricos, no entanto. Eles alertaram que os motivos de Binti podem ter sido menos nobres do que pareciam, apontando que esse gorila foi criado por pessoas e aprendeu habilidades parentais com um bichinho de pelúcia. O caso todo pode ter sido um instinto maternal confuso, eles alegaram. O intrigante nessa enxurrada de explicações alternativas é que ninguém pensaria em levantar dúvidas semelhantes quando uma pessoa salva um cachorro atropelado por um carro. O socorrista pode ter crescido em um canil, foram elogiados por serem gentis com os animais, têm uma personalidade carinhosa, mas ainda assim veríamos seu comportamento como um ato de carinho. Por que então, no caso de Binti, seu passado foi usado contra ela? Não estou dizendo que sei o que passou na cabeça de Binti, mas sei que ninguém a preparou para esse tipo de emergência e que é improvável que, com seu próprio bebê de 17 meses nas costas, ela tenha maternalmente confuso. Como no mundo um animal tão inteligente poderia confundir um garoto loiro de tênis e camiseta vermelha com um gorila juvenil? Na verdade, a maior surpresa foi a surpresa da maioria das pessoas. Os estudiosos do comportamento dos macacos não achavam que Binti tivesse feito algo incomum. Jörg Hess, um especialista em gorilas suíço, disse sem rodeios: O incidente pode ser sensacional apenas para pessoas que não sabem nada sobre gorilas. A ação de Binti causou uma profunda impressão principalmente porque beneficiou um membro de nossa própria espécie, mas em meu trabalho sobre a evolução da moralidade e da empatia, encontrei vários exemplos de animais cuidando uns dos outros. 

Por exemplo, um chimpanzé consola uma vítima após um ataque violento, colocando um braço em volta dela e dando tapinhas em suas costas. E os bonobos (ou chimpanzés-pigmeus) são conhecidos por ajudar companheiros novos em seus aposentos em zoológicos, levando-os pela mão para guiá-los pelo labirinto de corredores que conectam partes de seu prédio. Esses tipos de casos não chegam aos jornais, mas são consistentes com a ajuda de Binti ao infeliz menino e a ideia de que os macacos têm capacidade de simpatia. O baluarte tradicional contra esse tipo de interpretação cognitiva é o princípio da parcimônia – que devemos fazer o mínimo de suposições possível ao tentar construir uma explicação científica, e que assumir que um macaco é capaz de algo como simpatia é um salto muito grande. Mas esse mesmo princípio de parcimônia não argumenta contra assumir uma enorme lacuna cognitiva quando a distância evolutiva entre humanos e macacos é tão pequena? Se duas espécies intimamente relacionadas agem da mesma maneira, seus processos mentais subjacentes provavelmente também são os mesmos. O incidente no Zoológico de Brookfield mostra como é difícil evitar ao mesmo tempo o antropodenismo e o antropomorfismo: ao tentar evitar pensar em Binti como um ser humano, nos deparamos diretamente com a percepção de que as ações de Binti fazem pouco sentido se nos recusamos a assumir intenções e sentimentos. No final, devemos perguntar: que tipo de risco estamos dispostos a correr - o risco de subestimar a vida mental animal ou o risco de superestimá-la? Não há uma resposta simples. Mas, de uma perspectiva evolutiva, a bondade de Binti, assim como a travessura de Georgia, é explicada de maneira mais parcimoniosa da mesma forma que explicamos nosso próprio comportamento - como resultado de uma vida interior complexa e familiar.