quarta-feira, 16 de março de 2022
O comportamento moral nos animais, por Frans de Waal
terça-feira, 22 de fevereiro de 2022
Frans de Waal & Yuval Noah Harari – Empathy, Ecological Collapse & Humanity’s Future Challenges
segunda-feira, 14 de junho de 2021
Moral behavior in animals por Frans de Waal
sexta-feira, 15 de maio de 2020
"As Vidas dos Animais" de John Coetzee
Publicada originalmente em 1999, a obra "A Vida dos Animais" (The Lives of Animals) afirma-se como um dos textos mais singulares e influentes de J.M. Coetzee, tendo surgido a partir das Tanner Lectures on Human Values que o autor proferiu na Universidade de Princeton entre 1997 e 1998. Em vez de seguir o formato de um ensaio académico tradicional, Coetzee optou pela estratégia da metaficção, criando a personagem Elizabeth Costello, uma romancista idosa que, ao ser convidada para dar uma palestra, utiliza esse espaço para proferir um discurso visceral e perturbador sobre o tratamento humano dado aos animais. Esta estrutura permite a Coetzee utilizar a literatura para testar os limites da razão, com Costello a argumentar que a filosofia ocidental padece de uma obsessão pela "razão" como único critério de valor, o que serve apenas para excluir os animais da esfera de consideração moral. Em alternativa, a personagem propõe a comiseração — a capacidade profunda de sentir o que o outro sente — como base ética. O ponto mais polémico desta análise surge na analogia do Holocausto, onde Costello compara os matadouros modernos ao extermínio nazi, sugerindo que a humanidade vive num estado de negação coletiva semelhante ao dos cidadãos que ignoravam a existência dos campos de concentração ao seu redor.
A obra promove um verdadeiro embate com a tradição filosófica ao incluir respostas reais de académicos, gerando um diálogo interdisciplinar de grande fôlego. Entre os intervenientes destaca-se
No âmago da obra reside a tese da falha da linguagem humana, considerada insuficiente para capturar a essência da existência animal. Coetzee sugere que apenas através da imaginação poética, e não da lógica silogística, podemos aspirar a compreender o "ser" de um animal. Nesta jornada intelectual, surgem referências fundamentais como
J.M. Coetzee and Elizabeth Costello: Landscapes and Animals
Mirror neurons and literature: Empathy and the sympathetic imagination in the Fiction of J.M. Coetzee
terça-feira, 13 de abril de 2010
Entrevista Marina Lencastre- A senhora que descobriu a origem da bondade

| A senhora que descobriu a origem da bondade | |||
Marina Lencastre tem as suas raízes em Cabeceiras de Basto. Viveu na Bélgica durante a sua licenciatura e doutoramento e em 1986 escolheu a área do Porto para viver e trabalhar. É psicóloga e passou pela educação ambiental nos anos 90. Não foi uma passagem fugaz e muito menos inusitada. Pelo contrário, a entrada na área foi natural no percurso da sua carreira académica e com ela abriram-se novas perspectivas. A educação ambiental conquistou até hoje uma rigorosa investigadora com um certo tom crítico e Marina Lencastre ganhou coragem para dar o passo seguinte - interligar o ambiente e a psicologia em nome do “bem-estar humano”.
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Qual é o seu passatempo favorito?
Isso também acontece nos humanos?
Um dos problemas da ética social e ambiental contemporânea tem a ver com os contextos expandidos. É preciso criar uma ética global. Temos tendência para nos vincularmos aos que são próximos, pelo que a reconciliação com os mais distantes é mais difícil. A propósito disso, escrevi recentemente um artigo que se chama “A origem da bondade” que vai ser publicado num livro internacional sobre educação ambiental. Analisei qual era a origem filogenética das tendências benevolentes no humano, que tem uma raiz nos outros animais. E, ao contrário do que se pensava até há pouco tempo, verifica-se que a bondade é tão inata quanto a agressão. Acreditava-se que a bondade era fruto da educação, mas não é assim. É inata. O que é preciso é criar os contextos nos quais a bondade se possa exprimir sem medo.
Confesse-nos uma coisa que gosta?
Gosto muito de estar com os meus amigos, idealmente em espaços naturais.
E uma coisa que não gosta nada?
Se pudesse ser um animal, qual seria?
domingo, 4 de outubro de 2009
Entrevista a Frans de Waal sobre a sua obra Our Inner Ape (2005)
Por Carolina Cantarino, em Com Ciência
Os humanos compartilham aproximadamente 98% de seu DNA com os chimpanzés. Por conta dessa identificação genética, aquilo que costumamos descrever como características humanas (cooperação, altruísmo, agressividade, amor, medo, reconciliação, competição) existiria também entre os macacos. Buscar essas aproximações e semelhanças (mais do que as diferenças) tem sido o trabalho de Frans de Waal, primatólogo e autor de uma série de livros (muitos dos quais voltados para o público não-especializado) sobre os nossos primos mais próximos: Chimpanzee politics (1982), Peacemaking among primates (1989), Bonobo: the forgotten ape (1997), The ape and the sushi master (2001). Em sua publicação mais recente, Our inner ape (2005), duas espécies de macacos africanos (os violentos e agressivos chimpanzés, que vivem em grupos dominados pelos machos, e os pacíficos e altruístas bonobos, entre os quais as fêmeas detêm o poder, e a resolução de conflitos se faz através do sexo) são os contrapontos utilizados pelo autor para caracterizar a natureza humana.
Baseada na teoria darwinista da evolução, a abordagem de Waal gera controvérsias, sobretudo entre cientistas preocupados com as consequências sociais e políticas que podem advir dessa aproximação entre o comportamento de humanos e macacos. O risco de se atribuir à biologia que compartilhamos com os primatas não só certas emoções e qualidades humanas mas também hierarquias e desigualdades – como as desigualdades entre homens e mulheres – é criar justificativas, ancoradas na ciência, para perpetuá-las, já que seriam vistas como inevitáveis por serem naturais. Estaríamos, assim, diante de uma nova versão do determinismo biológico? Frans de Waal foi questionado sobre esse e outros temas, em entrevista concedida à ComCiência.
ComCiência: Em Our inner ape (2005), o senhor propõe uma comparação entre o comportamento dos chimpanzés, dos macacos bonobos e dos seres humanos, para descrever a natureza humana. Além das similaridades, como o senhor pensa a questão das diferenças entre essas espécies? O que seria específico de nós, seres humanos? Qual seria a especificidade da condição humana em relação às outras espécies animais?
Frans de Waal: Entre eles, primatas, e nós, humanos, existem similaridades imensas e poucas diferenças consideráveis. Destas últimas, as principais são a linguagem e a família nuclear. Habilidades linguísticas estão basicamente ausentes nos macacos. Eles podem aprender alguns princípios da linguagem, como o uso de símbolos, mas nunca conseguem muito mais do que uma criança bem pequena pode fazer. A outra diferença (a família nuclear) está ligada ao fato de que, na nossa espécie, os machos estão envolvidos no cuidado com a família, o que não é o caso entre os macacos. As fêmeas dos primatas costumam cuidar de tudo sozinhas, o que explica, aliás, o por quê delas terem tão poucos filhotes. O intervalo entre o nascimento de um filhote e outro gira em torno de cinco ou seis anos enquanto que os humanos, por causa da assistência masculina, podem ter filhos com mais frequência.
ComCiência: Como primatólogo, o senhor propõe estudar outras espécies para compreender a nossa. Mas a comparação entre o comportamento humano e o comportamento animal – para falar sobre o que seria a natureza humana (não resultaria numa naturalização ou mesmo animalização do ser humano)? Por outro lado, não existe o risco de se projectar qualidades humanas sobre os animais, através de uma culturalização dos primatas, por exemplo?
Frans de Waal: Essas duas formas de abordagem apresentam riscos, mas é preciso lembrar que a maioria dos estudos sobre o comportamento humano nunca sequer consideraram o nosso background primata. Isso tem levado a uma grosseira superestimação da singularidade humana, como é possível notar em alguns textos de sociólogos ou psicólogos. Sendo assim, o meu esforço tem sido no sentido de oferecer um contraponto. E o meu objectivo não é fazer com que o comportamento humano pareça puramente biológico, porque eu acredito que todos os primatas (e não apenas os humanos) são bastante influenciados pelo aprendizado e pelo ambiente. Nós estudamos, inclusive, a cultura dos primatas, em busca daqueles comportamentos que foram aprendidos. Descobrimos que os macacos são seres muito culturais. Sendo assim, as semelhanças entre humanos e primatas estão postas não apenas na biologia mas também no modo como o aprendizado afecta o comportamento.
Recentemente, por exemplo, nós ensinamos a uma fêmea de um grupo de chimpanzés, um jeito de abrir uma caixa. A mesma caixa poderia ser aberta de outro modo. Ensinamos, então, a uma outra fêmea, de um grupo diferente, esse segundo jeito de abrir. Depois disso, introduzimos as fêmeas e as caixas nos seus respectivos grupos e vimos que todos os chimpanzés do primeiro grupo adoptaram o primeiro método, e todos os macacos do segundo grupo adoptaram o outro método. Tínhamos criado, assim, duas diferentes culturas sobre como abrir uma determinada caixa. Isso demonstra como os primatas são afectados pelo ambiente. Nós fizemos o mesmo com crianças e obtivemos os mesmos resultados.
ComCiência: A relação entre natureza e cultura (nature and nurture), historicamente tem gerado controvérsias entre biólogos e cientistas sociais. As tentativas de se integrar as diferentes abordagens dessas duas áreas do conhecimento (como a sociobiologia de Edward O . Wilson) muitas vezes são acusadas de resultarem num determinismo biológico. Na sua opinião, seria possível ir além da dicotomia natureza/cultura e pensar, de fato, numa perspectiva integrada?
Frans de Waal: Tudo o que a natureza faz é oferecer sugestões e direcções sobre como se comportar. As sociedades humanas caracterizam-se por uma incrível diversidade, o que significa que, sim, a biologia deve ser levada a sério, mas a imagem de nós, seres humanos, como escravos de nossos genes, é errada.
Sem a biologia não existiriam seres humanos. Nossos cérebros, corações, pulmões, hormonas, enfim, tudo isso provêm da biologia, e, sendo assim, não se pode escapar do fato de que nossa biologia é, em parte, biologicamente determinada. Nas ciências sociais, essa percepção está se tornando mais comum, e existe um interesse crescente pela teoria da evolução. Mas eu acredito que a integração entre uma perspectiva baseada na cultura e no aprendizado e uma perspectiva oriunda da biologia ainda é uma necessidade.
ComCiência: Recentemente, declarações do reitor da Universidade de Harvard, Lawrence Summers, sobre as diferenças biológicas entre os sexos (que, segundo ele, seria um dos factores que explicaria a reduzida presença feminina em algumas áreas da ciência) despertou uma série de polémicas na academia e na imprensa, inclusive sobre o uso da biologia para justificar a existência de desigualdades sociais. O debate sobre as consequências políticas da ideia da influência da biologia sobre o comportamento humano, mais uma vez, foi retomado. Qual a sua opinião sobre as possíveis implicações políticas da ciência do comportamento (behavioral science)?
Frans de Waal: É claro que existem grandes diferenças de género ancoradas na biologia, química cerebral, hormonas e etc. Mas nós não sabemos se essas diferenças afetam a capacidade intelectual e nem como elas afectam. Não está claro se os homens são inerentemente melhores do que as mulheres para certas profissões e, se esse for o caso, ainda assim existirão excelentes mulheres que poderão desempenhar essas profissões. Noutros primatas, também, machos e fêmeas são bastante diferentes. Muitas das diferenças entre os géneros que nós observamos entre os humanos são também reconhecíveis entre os primatas. Por exemplo, eu tenho afirmado que as fêmeas dos chimpanzés são melhores do que os machos para evitar conflitos e manter a paz no grupo. Mas, por outro lado, elas não são tão boas quanto os machos em retomar e reparar relações depois da ocorrência de uma grande briga. Ou seja, a resolução de conflitos, o fazer as pazes com o inimigo não é o forte das fêmeas e estudos com crianças têm indicado o mesmo para meninos e meninas: elas tendem a guardar ressentimentos por mais tempo do que eles. Essas são diferenças interessantes que, provavelmente, fazem parte de nossa biologia.
Ler ainda noutra postagem anterior no BioTerra.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
The Age of Empathy: Nature’s Lessons for a Kinder Society. By Frans de Waal



