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| No dia 5 de Julho de 2026, durante uma onda de calor opressiva, parisienses e turistas nadaram no Sena, um de muitos rios que foram limpos e estão a receber novamente banhistas urbanos. |
Durante a maior parte da vida de Pauline Janbon, a ideia de tomar banho no rio Sena, em Paris, era inimaginável.
“Quando éramos crianças diziam-nos que havia cadáveres a flutuar na água”, disse Janbon, uma estudante de 20 anos da Universidade da Sorbonne, em Paris. “Tinha a reputação de ser extremamente sujo.”
Em Junho deste ano, porém, quando uma onda de calor inédita assolou o país, Janbon e milhares de parisienses mergulharam nas águas outrora temidas da cidade para se refrescarem. No dia em que a conheci, ela estava junto à margem do Canal Saint-Martin, rodeada por hordas de banhistas, que saltavam, nadavam e boiavam na água.
“Até hoje, nunca tinha dado um mergulho na minha própria cidade”, disse Janbon, enquanto espremia água do cabelo. “Parece que estou de férias.”
Paris é apenas uma de muitas cidades europeias que se têm esforçado para tornar as suas vias aquáticas novamente seguras para banhos. Copenhaga, Basileia, Zurique, Berna e Oslo passaram anos a melhorar os seus sistemas de gestão de águas residuais, criando uma infra-estrutura de águas pluviais e implementando políticas para controlar melhor a poluição aquática. Os seus esforços têm sido maioritariamente bem-sucedidos, com os residentes das cidades da Europa a regressarem às suas águas. E à medida que as alterações climáticas criam ondas de calor mais intensas e frequentes, os urbanistas e residentes também estão a virar-se para estas águas para lidar com os dias mais quentes.
“Estamos a ver pessoas a renegociar os seus contratos sociais com a água nestas cidades”, disse Matthew Sykes, co-fundador e director do programa Swimmable Cities, uma aliança de organizações que promove o direito ao usufruto das vias aquáticas urbanas. “As pessoas começam a perceber que é melhor ter uma cidade onde se possa nadar.”
Um regresso histórico às águas
Até ao início do século XX, tomar banho nos rios urbanos era uma actividade comum na Europa ocidental e em algumas zonas da América do Norte. Eram construídas casas de banhos directamente em cima dos rios e havia sítios que as pessoas visitavam a lazer, bem como para se lavarem. A falta de canalizações em casas particulares significava que estas casas de banho – populares em cidades como Nova Iorque, Londres, Boston, Filadélfia e Paris – eram frequentemente o único sítio onde as pessoas podiam lavar-se.
À medida que a industrialização foi avançando e as populações subiram a pique nas cidades, os rios urbanos da Europa tornaram-se inimaginavelmente sujos. Em Paris, águas residuais, partes do corpo de animais e escoamentos de lavandarias eram despejados directamente no Sena. Por esta razão, a cidade proibiu os banhos em 1923, declarando a água insegura para a saúde humana.
As autoridades municipais começaram a discutir a limpeza do rio em 1988, mas só em 2016 é que a presidente da câmara de Paris, Anne Hidalgo, renovou o empenho da cidade em limpar o Sena, transformando o rio num pilar essencial da candidatura de Paris aos Jogos Olímpicos de Verão de 2024.
“Paris fez muito do trabalho pesado pelas outras cidades”, disse Sykes, comentando que o gabinete do presidente da câmara sofreu muitas críticas da parte da imprensa e dos eleitores. “Tiveram de provar que uma iniciativa como esta, que já tinha sido testada em cidades mais pequenas, era possível em grandes metrópoles urbanas.”
Em Julho de 2025, quando o Sena abriu oficialmente ao público, mais de 100.000 pessoas nadaram nas áreas de banho designadas, levando a cidade a prolongar a época balnear até ao início de Setembro. Agora, com o rio a entrar na sua segunda temporada de banhos, Paris está a provar que limpar os rios não só é possível, como é essencial na época das alterações climáticas.
Em Junho, Paris sofreu a sua onda de calor mais grave de que há registo. França tem poucos equipamentos de ar-condicionado: apenas um quarto das casas e menos de 7 por cento das escolas estão equipadas com sistemas de refrigeração. Em Paris, os edifícios haussamannianos que dão à cidade o seu visual emblemático, são notoriamente mal isolados contra o calor, deixando os parisienses com poucas opções para se refrescarem. Quando as temperaturas aumentaram no final de Junho, os parisienses suados procuraram refúgio nos corredores refrigerados dos supermercados e aguardaram em longas filas para entrar nas piscinas municipais da cidade. No entanto, as opções mais populares para muitos foram os rios e canais recentemente limpos de Paris, aos quais hordas de pessoas desceram para dar o seu primeiro mergulho na cidade.
Cientificamente falando, os parisienses têm poucas razões para se preocuparem com a higiene da sua água. Todos os dias, a cidade monitoriza o Sena em busca de E. Coli e enterococci, que podem causar febre, infecções do tracto urinário e diarreia. Estes testes têm concluído de forma consistente que a água é segura para banhos, de acordo com os regulamentos da União Europeia.
Mesmo assim, um bloqueio mental impede muitos parisienses de nadar no Sena. Em 2021, quando a agência de sondagens IFOP pediu a mil pessoas francesas a sua opinião sobre o Sena, 70 por cento dos inquiridos descreveram-no como sujo, poluído e malcheiroso. Poucos disseram que seriam capazes de mergulhar no rio. E embora essa perspectiva tenha começado a mudar, a longa reputação do Sena como um rio sujo é difícil de limpar.
“Estou feliz por os meus filhos poderem desfrutar da água, mas eu não meto os pés lá dentro”, disse Soizic Prado, de 52 anos, sentada num banco, toda vestida, a ver os filhos brincar. “Tenho a certeza que é segura, mas passei a minha vida inteira a ouvir dizer que a água é suja”, explicou. “Ça donne pas envie” [“Não dá vontade”].


















