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domingo, 16 de agosto de 2026

Desertificação. Portugal é o quinto país da UE com mais solo afetado


A desertificação em Portugal não mora só no Alentejo
Um relatório publicado em 2026 pelo Centro Comum de Investigação (JRC) da Comissão Europeia, “Rumo a uma melhor caracterização da degradação dos solos e da desertificação na União Europeia”, aplicou, pela primeira vez, uma metodologia comum a toda a União, respondendo a uma recomendação do Tribunal de Contas Europeu. As zonas áridas, semiáridas e sub-húmidas secas cobrem hoje 15% da UE, e a desertificação afecta 530 mil quilómetros quadrados, cerca de 12% do território comunitário, com impacto directo sobre 42 milhões de pessoas. As percentagens mais altas de território sob condições de desertificação registam-se em Espanha (53%), Chipre (45%) e Grécia (36%). Numa tabela mais detalhada do mesmo relatório, Portugal surge em 5.ª posição, com 27,5% do território classificado em desertificação - atrás da Bulgária, que soma 32,85%.

Cerca de 71% do território de Portugal continental apresenta suscetibilidade moderada, alta ou muito alta à desertificação, alerta a associação ambientalista ZERO, na véspera do arranque da 17.ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17).

A conferência começa esta segunda-feira, 17 de agosto, em Ulaanbaatar, na Mongólia, e prolonga-se até dia 28. Sob o lema «Restoring Land. Restoring Hope.» («Restaurar a Terra. Restaurar a Esperança»), a COP17 reúne as 197 Partes da Convenção, representantes da sociedade civil, cientistas e setores ligados à gestão da terra.

Num contexto em que até 40% da superfície terrestre do planeta está afetada pela degradação das terras, a ZERO defende que a conferência deve permitir acelerar a passagem dos compromissos à ação, nomeadamente através da substituição das atuais políticas de reação às secas por medidas de prevenção, preparação e aumento da resiliência dos territórios.

COP17 tenta chegar a acordo sobre resposta global à seca
Uma das principais questões em discussão na Mongólia será precisamente a governação internacional da seca. A COP16, realizada em Riade, em 2024, terminou sem acordo quanto ao modelo a adotar, remetendo para a conferência deste ano a negociação de um quadro global ou protocolo para uma gestão mais proativa das secas e a definição do seu grau de vinculação.

Para a ZERO, é necessário deixar de encarar as secas essencialmente como emergências às quais se responde depois de os seus efeitos se fazerem sentir. A associação defende o investimento antecipado na saúde dos solos, na retenção e utilização eficiente da água, na recuperação dos ecossistemas, em sistemas de alerta precoce e na adaptação da agricultura e do território.

Entre as prioridades que deverão marcar a COP17 estão a criação de um quadro internacional de prevenção e gestão das secas, a recuperação de solos e ecossistemas degradados, a definição de objetivos mensuráveis para o período pós-2030 e a garantia de financiamento, bem como de maior articulação entre as convenções internacionais sobre clima, biodiversidade e desertificação.

Quase um terço do território português tem suscetibilidade alta ou muito alta
Em Portugal, os dados citados pela ZERO a partir do Relatório do Estado do Ambiente mostram que 4,7% do território continental apresenta suscetibilidade muito elevada à desertificação, 27,9% alta e 38,2% moderada, perfazendo cerca de 71% do território nas três classes.

A associação recorda que desertificação não significa necessariamente a transformação de um território num deserto, mas sim a degradação das terras nas regiões secas, resultante da interação entre o clima e as atividades humanas.

As alterações climáticas aumentam o risco, mas, sublinha a ZERO, a desertificação não é inevitável: más práticas na utilização do solo e da água podem acelerar o fenómeno, enquanto políticas adequadas nas áreas da agricultura, floresta, água e ordenamento do território podem preveni-lo e contribuir para a sua inversão.

A COP17 realiza-se ainda no Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores. Em Portugal, as pastagens representam cerca de um quinto da área continental e mais de metade da Superfície Agrícola Utilizada. Quando corretamente geridas, contribuem para proteger o solo da erosão, reter água, armazenar carbono e preservar a biodiversidade, enquanto o sobrepastoreio, a compactação e a perda de coberto vegetal aceleram a degradação.

ZERO pede ao Governo que faça do combate à desertificação uma prioridade
A associação chama também a atenção para a revisão do Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação (PANCD). O processo deverá estar concluído no final deste ano e, segundo a ZERO, o novo programa deve estabelecer objetivos, metas, indicadores, calendário e financiamento concretos.

A organização ambientalista considera essencial articular as políticas de combate à desertificação com agricultura, regadio, gestão da água, florestas, biodiversidade, clima e ordenamento do território. «Combater a desertificação não é simplesmente aumentar a oferta de água», salienta, defendendo antes a recuperação dos solos, a retenção da água no território e a adaptação das culturas e atividades às disponibilidades hídricas.

À entrada da COP17, a ZERO apela, por isso, ao Governo para que assuma o combate à desertificação como uma prioridade nacional ligada à adaptação climática, conclua a revisão do PANCD com metas e financiamento claros, proteja as pastagens e os sistemas agroflorestais e dê prioridade à saúde dos solos e à retenção da água.

Para a associação, prevenir continua a ser a opção mais eficaz: evitar a degradação do solo é mais eficiente do que tentar recuperá-lo depois de perdida a sua fertilidade e capacidade de retenção de água, pelo que a COP17 deverá servir para acelerar essa mudança, tanto a nível mundial como em Portugal.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Densidade global e biomassa das redes de fungos micorrízicos arbusculares

Debaixo dos nossos passos existe uma arquitetura viva que começa agora a ganhar forma nos mapas da ciência. 

Um novo estudo publicado na revista Science estimou, pela primeira vez à escala global, a extensão e a biomassa das redes de fungos micorrízicos arbusculares nos primeiros 15 centímetros do solo. Estas redes são feitas de hifas, filamentos finíssimos que ligam fungos e plantas numa relação de troca vital.

As plantas entregam aos fungos parte do carbono que capturam pela fotossíntese. Em retorno, os fungos ajudam as plantas a obter nutrientes minerais, sobretudo fósforo e também azoto, alargando o alcance funcional das raízes no solo. Esta parceria sustenta florestas, prados, culturas agrícolas e muitos dos equilíbrios que fazem do solo um organismo vivo.

Os resultados apontam para uma dimensão difícil de imaginar. O estudo estima cerca de 110 quadriliões de quilómetros de hifas vivas. Se pudéssemos alinhar estes filamentos microscópicos, eles permitiriam percorrer a distância entre a Terra e o Sol mais de 700 milhões de vezes.

A imagem é quase cósmica, mas a sua importância é profundamente terrestre. Conhecer a densidade destas redes ajuda-nos a compreender melhor a fertilidade do solo, a saúde das plantas, a circulação de nutrientes, a resposta dos ecossistemas à seca e o caminho do carbono entre a atmosfera, as raízes e a vida subterrânea.

Esta nova cartografia pode transformar a forma como olhamos para a agricultura, para as florestas e para o restauro ecológico. Os fungos micorrízicos arbusculares ligam raiz e mineral, planta e paisagem, carbono atmosférico e solo vivo. Quanto mais coberto, diverso, poroso e rico em matéria orgânica for o solo, melhores serão as condições para que estas redes cumpram a sua função ecológica.

A sua importância climática nasce desta intimidade com as plantas. Parte do carbono retirado da atmosfera pela fotossíntese passa pelas raízes e entra nas redes fúngicas. O estudo estima que estas redes recebam das plantas cerca de mil milhões de toneladas métricas de carbono por ano, valor próximo de 4 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente. A ciência continua a investigar quanto desse carbono permanece armazenado ao longo do tempo.

Preservar os fungos do solo significa cuidar da fertilidade construída lentamente pela vida subterrânea, da resiliência que nasce de solos cobertos, diversos e bem estruturados, e da comunidade microscópica que sustenta grande parte da vegetação terrestre. O futuro da agricultura e das florestas dependerá, cada vez mais, da atenção que dermos a estes organismos e às relações que eles tecem entre raízes, minerais, água e carbono.

Proteger estas redes é também proteger a vida que nasce acima delas. Quando cuidamos do solo, cuidamos da trama invisível que alimenta a paisagem.

terça-feira, 23 de junho de 2026

António Guterres exige "toda a verdade" sobre o custo climático da IA

O secretário-geral da ONU avisou que o mundo precisa de agir com "muito mais urgência" para limitar o aquecimento global. O secretário-geral da ONU, António Guterres, instou os líderes do setor da Inteligência Artificial a “dizerem toda a verdade” sobre o impacto ambiental dos centros de dados, apontando o dedo aos combustíveis fósseis.

“Chega de custos escondidos. Chega de impor este fardo aos mais vulneráveis. É tempo de dizer toda a verdade. Se a IA quer contribuir para a construção de um futuro melhor, precisa de ser honesta sobre o seu custo atual”, disse António Guterres esta terça-feira, durante o seu discurso na Semana de Ação Climática de Londres, um evento anual realizado na capital britânica.

O secretário-geral da ONU anunciou o lançamento da Iniciativa de Transparência Ambiental da IA, que exigirá que os gigantes globais da inteligência artificial calculem e divulguem a pegada ambiental das suas atividades — em termos de carbono, água e uso da terra, por exemplo. As empresas ficam comprometidas, então, a abastecer essas atividades com energia renovável até ao final da década.

“As comunidades desconhecem muitas vezes o impacto ambiental da infraestrutura que está a ser desenvolvida à sua volta”, sublinhou Guterres, reconhecendo que a IA é “exigente em termos de terra, água e energia”, embora possa contribuir para “acelerar as soluções climáticas”.

Os centros de dados - os repositórios de servidores que alimentam a IA e outros serviços digitais - consomem energia de forma extremamente intensiva e atingiram a marca dos 448 terawatts/hora (TWh) de eletricidade em 2025. A consultoria Gartner estima um aumento de 26%, elevando o consumo para 565 TWh e a potência para 132 GW em 2026. As projeções da Agência Internacional da Energia (AIE) apontam para um consumo que pode variar entre 945 TWh e 1.050 TWh até 20230.

Guterres pede “mais urgência”
Numa altura em que a Europa enfrenta uma vaga de calor e vários países, como o Reino Unido, França e Itália, batem recordes de calor, o secretário-geral da ONU alerta que é preciso agir “com muito mais urgência”.

“Devemos agir com muito mais urgência para limitar rigorosamente a extensão e a duração de qualquer ultrapassagem de 1,5°C”, disse Guterres, referindo-se ao limite de aquecimento estabelecido pelo Acordo de Paris de 2015, em comparação com os níveis pré-industriais.

Para além da proposta relativa ao setor tecnológico, o secretário-geral da ONU lançou também um “apelo global à ação sobre o metano”, o segundo maior contribuinte para as alterações climáticas a seguir ao dióxido de carbono (CO2), com o objetivo de alcançar “emissões próximas de zero em toda a cadeia de valor”.

Para isso, Guterres propõe uma série de metas relacionadas com as fugas de metano na indústria do petróleo e gás e com a queima, que consiste na queima do gás natural emitido durante a extração de petróleo sem o seu aproveitamento.

Guterres defende também a redução das emissões do setor agrícola e dos aterros sanitários.
"Exorto a indústria dos combustíveis fósseis a assumir a responsabilidade e a fazer o que já deveria ter sido feito há muito tempo", disse António Guterres, sublinhando que "só em 2025, foram queimados cerca de 167 mil milhões de metros cúbicos de gás, o equivalente ao consumo anual de África".

"Não podemos continuar a depender de um sistema baseado em combustíveis fósseis que alimenta tanto a crise climática como a crise energética", declarou o secretário no discurso durante a conferência em Londres.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Estudo científico revela que as cidades europeias podem produzir quase 30% das hortícolas que necessitam


O estudo recentemente publicado na revista Sustainable Cities and Society analisou 840 cidades europeias e concluiu que os espaços urbanos poderão produzir milhões de toneladas de hortícolas por ano.

Coberturas planas, quintais, terrenos abandonados, faixas verdes pouco utilizadas e outros espaços urbanos poderiam contribuir para alimentar cerca de 190 milhões de pessoas, chegando em alguns cenários a cobrir perto de 30% das necessidades de hortícolas frescos dessas cidades.

O mais interessante é que os investigadores não basearam as suas conclusões em tecnologias futuristas, agricultura vertical muito dispendiosa ou sistemas altamente industrializados.

Pelo contrário, o estudo focou-se sobretudo em soluções relativamente simples, acessíveis e de baixa tecnologia, baseadas em hortas no solo ao ar livre, em telhados planos e em terrenos baldios, muito próximas daquilo que muitos agricultores urbanos já fazem há décadas.

Na verdade, as cidades sempre produziram alimento. Durante séculos, Lisboa, Porto, Coimbra, Braga ou Évora viveram rodeadas de hortas, vinhas, olivais, pomares e pequenos campos agrícolas integrados no tecido urbano e periurbano.

O século XX alterou profundamente essa relação. Impermeabilizámos solos férteis, enterrámos linhas de água, destruímos quintas históricas e afastámos progressivamente a produção alimentar dos centros urbanos. Hoje começamos finalmente a compreender a fragilidade estrutural deste modelo.

As alterações climáticas, os eventos extremos, as crises energéticas e a inflação alimentar estão a obrigar cidades e governos a repensar a segurança alimentar. A agricultura urbana deixa assim de ser apenas uma ferramenta educativa ou recreativa. Passa a ser uma estratégia de resiliência territorial.

Depois de mais de vinte anos ligado à agricultura regenerativa urbana, continuo profundamente convencido de que uma cidade capaz de produzir parte do que come é uma cidade mais saudável, mais justa e mais resiliente.

Este estudo vem apenas confirmar aquilo que muitos agricultores urbanos conhecem há décadas. Por baixo do betão continua a existir território fértil, e dentro das cidades continua a existir uma profunda necessidade humana de cultivar alimento.

Já em 2013, um relatório da UNCTAD afirmava que o modelo de agricultura industrial era insustentável e que os modelos agroecológicos locais/ regionais diminuiriam a desigualdade entre Norte Global e Sul Global, entregando às populações de países ditos menos desenvolvidos ferramentas e educação para poderem obter os seus próprios alimentos.

Mais info:

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Mau tempo: País não podia evitar tempestades mas deve usar melhor o território


Maria José Roxo, um dos nomes mais relevantes da Geografia portuguesa e especialista em catástrofes e riscos ambientais considera que o país não podia evitar as recentes tempestades, mas poderia minimizar os efeitos dos fenómenos meteorológicos extremos com outra forma de ocupar e “usar o território”.

“Não podíamos evitar porque aquilo que está a acontecer em Portugal, e em muitas outras áreas do planeta, como estamos a ver nos últimos dias, com a tempestade de neve nos Estados Unidos muitíssimo forte e com as chuvas muito intensas no Brasil, são fenómenos que têm a ver com algo que nós andamos há muitíssimo tempo a falar, que é o efeito do aquecimento global”, afirmou Maria José Roxo.

Em declarações à Lusa, a professora do departamento de Geografia e Planeamento Regional da Universidade Nova de Lisboa, analisou os efeitos das recentes depressões Kristin, Leonardo e Marta, que desde a madrugada de 28 de janeiro provocou pelo menos 18 mortos, centenas de feridos e desalojados, principalmente nas regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo.

A também investigadora do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (CICS), da Nova, salientou que Portugal possui a particularidade de ter um clima de grande variabilidade, de características mediterrânicas e atlânticas, que “tem sido perturbada por este aquecimento global”, tornando as tempestades e as superfícies frontais cada vez mais intensas.

“Não podíamos evitar, mas podíamos minimizar. E aqui é que temos que nos concentrar. Este minimizar implicava o que há muito tempo se vem falando sobre a forma como se está a ocupar e a usar o território, e esse é que é o grave problema”, apontou.

O problema, sublinhou, está na maneira como se utilizam os recursos naturais, perturbando a dinâmica dos sistemas naturais, com a canalização dos cursos de água nas áreas urbanas e o uso do “recurso solo”, com a impermeabilização das áreas urbanas.

“Pensar cidade é pensar cidade com a natureza. As cidades têm que ser cidades esponjas, que absorvam água, viu-se o exemplo de Setúbal, com a bacia de retenção, e todos esses aspetos de mais verde nas cidades, mais espaços de absorção, menos impermeabilização”, defendeu, aludindo ao exemplo do parque urbano da cidade junto ao Sado que amorteceu as recentes cheias.

A especialista em desertificação, catástrofes e riscos ambientais, recursos naturais e geomorfologia, exemplificando com as caleiras nas cidades para colocar árvores, constatou que em muitos sítios “são mínimas, muitas vezes até impermeabilizadas”, tornando difícil compreender até como é que as “árvores sobrevivem”.

“Esta questão de como fazemos planeamento tem que ser equacionada devidamente, porque é necessário pensar de uma forma diferente” e de uma forma integrada, defendeu Maria José Roxo, acrescentando que não se pode só pensar nos solos, mas também nos cobertos vegetais e na água, três elementos que “têm que estar sempre associados”.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Cheias no Baixo Mondego: não nos atirem Girabolhos para os olhos




Desenterrou-se agora o projecto da barragem de Girabolhos e atirou-se ao espaço público como solução milagrosa, tardia mas redentora, para um problema complexo: as cheias do Baixo Mondego. Esta, diga-se já, é uma solução intelectualmente desonesta, tecnicamente errada, financeiramente pesada e politicamente estúpida.

Por piada — mas apenas por piada — poderia dizer que, se a garantia de controlo das cheias é feita por um Governo cujo líder, Luís Montenegro, parece acreditar que os caudais do Mondego se regularizam com telefonemas para Madrid, quando toda a bacia hidrográfica se encontra no nosso país, talvez fosse mais eficaz fazer promessas e ir a Fátima.

Mas este não é um assunto para sarcasmos fáceis. Custa dinheiro público, cria expectativas infundadas e, no fim, entrega apenas soundbites de acção governativa. A ciência, porém, não se governa por conferência de imprensa. 

Convém começar pelo princípio. O Baixo Mondego é, historicamente, uma zona susceptível a inundações. Sempre foi. Durante séculos, as cheias sazonais faziam parte do regime natural da região e, mesmo sendo uma calamidade, contribuíam para a fertilidade agrícola dos campos. Foi para domesticar esse comportamento que, a partir das décadas de 1970 e sobretudo de 1980, se avançou com grandes obras de regularização hidráulica: diques longitudinais (para aumentar a capacidade de encaixe de caudais sem inundação adjacente), canais, rectificações e barragens.

Entre estas, destacam-se as barragens da Aguieira e do Raiva, que entraram em exploração nos anos 80 e reduziram de forma clara a frequência e a severidade das inundações a jusante. Isto é um facto histórico e técnico, não uma opinião.

Não foi aí que “algo falhou”. Pelo contrário: durante décadas, o sistema funcionou de acordo com os objectivos para que foi concebido. Também não é sério atribuir as cheias actuais a uma alegada pluviosidade excepcional. Conforme destaca Paulo Fernandes, professor da Universidade de Trás-os-Montes, os dados são claros: Janeiro de 2026 foi apenas o 11.º mês de Janeiro mais chuvoso desde 1940 na série de Coimbra. Não estamos, assim, perante um episódio extremo em termos históricos.

Quando há cheias significativas sem precipitação recorde, o problema raramente está no céu; está quase sempre na bacia.
E é aqui que o debate se torna incómodo e nos remete para o Verão passado — e por isso mesmo politicamente evitado: os incêndios rurais.

Nos últimos anos, e de forma particularmente intensa em 2025, vastas áreas da bacia hidrográfica do Mondego, sobretudo no alto curso e em sub-bacias críticas, foram devastadas por incêndios florestais de grande dimensão. Na bacia do Mondego, na Serra da Estrela e zonas de cabeceira e vertentes declivosas arderam como há muito não se via. Em Agosto houve um incêndio iniciado em Arganil que devastou mais de 65 mil hectares de áreas florestais e de matos; na região de Trancoso, outro que dizimou quase 47 mil hectares. Do ponto de vista hidrológico, isto não é um detalhe: é uma alteração estrutural do comportamento da bacia.

Solos queimados perdem cobertura vegetal, reduzem, de forma drástica, a infiltração, tornam-se mais susceptíveis à erosão e aceleram o escoamento superficial. O tempo de concentração da água encurta; os picos de cheia tornam-se mais rápidos e mais altos; o transporte de sedimentos aumenta, assoreando linhas de água e reduzindo a capacidade hidráulica dos canais. Tudo isto está documentado há décadas na literatura científica. E tudo isto ocorre quer se construa ou não mais uma barragem a montante.

Chegados aqui, importa desmontar o mito central: o que mudaria, na realidade, a barragem de Girabolhos? Do ponto de vista técnico, a resposta é muito menos impressionante do que o discurso político sugere. Girabolhos regularizaria apenas uma fracção limitada da bacia do Mondego — abarcará uma área de drenagem de apenas 980 km², cerca de 15% quer da área total contributiva quer do escoamento total anual.

Não estamos a falar, portanto, de uma albufeira com capacidade para controlar todo o sistema; estamos a falar de uma infra-estrutura que interceptaria uma pequena parte do escoamento a montante, deixando intactos contributos significativos de sub-bacias a jusante e de afluentes críticos.

Além disso, mesmo a regularização inter-anual proporcionada por Girabolhos não elimina cheias em cenários de precipitação concentrada ou de resposta rápida da bacia — precisamente aqueles que os incêndios tornam mais prováveis. As barragens não “absorvem” cheias por decreto: têm limites operacionais, volumes já ocupados antes das chuvas invernais (ainda mais se o uso predominante for hidroeléctrico), regras de exploração e constrangimentos de segurança. Em certos contextos, podem até agravar picos a jusante se forem obrigadas a descarregar.

Dizer, portanto, que Girabolhos “resolveria” as cheias do Baixo Mondego é vender uma solução simples para um problema que deixou de ser simples há muito. É ignorar a degradação do território, a política florestal errática, a ausência de gestão integrada da bacia e a incapacidade crónica de lidar com as consequências hidrológicas dos incêndios. E, em suma, é preferir betão a planeamento, obra visível a intervenção estrutural, fotografia de capacete a políticas de gestão do solo.

Nada disto significa que o debate sobre Girabolhos seja ilegítimo. Pode discutir-se a sua utilidade para armazenamento, para regularização de caudais em certos cenários, para produção energética ou para abastecimento. Aquilo que não se deve fazer é instrumentalizar a barragem como resposta automática a cheias que têm causas múltiplas e bem identificadas. E a imprensa engolir

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Chegou a hora de repor a permeabilidade do solo nas nossas cidades

Porquê?
1. Redução do risco de inundações e gestão das águas pluviais.
As superfícies impermeáveis ​​impedem que a água da chuva se infiltre no solo. Em vez disso, a água escoa rapidamente para o sistema de drenagem, muitas vezes sobrecarregando os sistemas durante chuvas intensas.

Repermeabilizar o solo:
- Diminui o escoamento superficial;
- Permite que a água se infiltre e recarregue o lençol freático;
- Reduz as inundações superficiais e o transbordo de esgotos, que infelizmente muitas vezes também recebem àguas pluviais.
Isto é cada vez mais crucial à medida que os eventos de chuva intensa se tornam mais frequentes, uma tendência destacada nas avaliações climáticas urbanas globais.

2. Arrefecimento das cidades e redução das ilhas de calor urbanas.
As superfícies impermeáveis ​​​​absorvem e irradiam calor, intensificando o efeito de ilha de calor urbana. Superfícies permeáveis ​​e com coberto vegetal:
- Retêm a humidade, permitindo o arrefecimento evaporativo;
- Reduzem as temperaturas da superfície e do ar ambiente;
- Melhoram o conforto térmico nas ruas e espaços públicos.

3. Recuperação do ciclo urbano da água e recarga dos aquíferos.
Quando as cidades estão totalmente impermeabilizadas:
- Os níveis das águas subterrâneas diminuem;
- A vegetação urbana torna-se dependente da rega;
- As cidades tornam-se mais vulneráveis ​​às secas.
Os solos permeáveis ​​ajudam a reconectar a água da chuva com os ciclos hidrológicos naturais, melhorando a segurança hídrica a longo prazo, o que é especialmente importante em cidades com escassez de água.

4. Apoio à biodiversidade urbana e à saúde do solo.
Solos saudáveis ​​abrigam microrganismos, insetos e raízes de plantas.
Permeabilizar o solo e design permeável:
- Melhoram a respiração e a fertilidade do solo;
- Permitem que as árvores urbanas desenvolvam raízes mais profundas e fortes, mais resistentes às intempéries;
- Apoiam polinizadores e habitats urbanos.

5. Equidade, habitabilidade e ordenamento do território
Em muitas cidades:
- Os antigos aglomerados urbanos estão localizados em zonas sujeitas a inundações e com deficiente drenagem;
- Soluções de engenharia são hoje fundamentais para resolver os problemas do passado, mas não se pode estar atualmente criar novos problemas resultantes de um mau planeamento.

As abordagens permeáveis ​​e baseadas na natureza (valas de infiltração, drenagem com vegetação, pátios permeáveis) são:
- Mais baratas e adaptáveis;
- Mais fáceis de serem concebidas em conjunto com as comunidades.

6. De que forma a permeabilização se parece na prática:
- Pavimentos e áreas de estacionamento permeáveis;
- Permeabilização de passeios, pátios escolares e espaços subutilizados;
- Jardins de chuva, valas de infiltração e trincheiras de infiltração;
- Árvores urbanas com solos estruturais;
- Recuperação de ribeiros naturais ou cursos de água sazonais.

sábado, 31 de janeiro de 2026

Porque caem tantas árvores durante as tempestades?


Nos últimos anos Portugal tem assistido a um aumento significativo da queda de árvores durante tempestades intensas. Embora estes episódios sejam muitas vezes percecionados como acontecimentos súbitos ou inevitáveis, a ciência mostra que não se trata de fenómenos aleatórios. Pelo contrário, a queda de árvores resulta da combinação previsível entre condições do solo, características das próprias árvores, contextos urbanos e florestais, e eventos meteorológicos cada vez mais extremos.

Um dos fatores críticos é o estado do solo. Durante períodos de chuva intensa ou cheias, os solos ficam saturados de água e perdem grande parte da sua resistência. A água acumulada nos poros do solo reduz o atrito e a coesão que mantêm as raízes firmemente ancoradas. Nessas circunstâncias, árvores que permaneceriam estáveis em solos secos podem tombar mesmo sob ventos moderados. Este mecanismo é uma das explicações mais bem documentadas para a queda de árvores associada a tempestades.

A idade das árvores e o tipo de povoamento também desempenham um papel decisivo. Árvores jovens, comuns em plantações recentes, ainda não desenvolveram sistemas radiculares profundos e extensos. Em florestas mais maduras, as raízes entrelaçam-se e criam uma estabilidade coletiva que ajuda a dissipar a força do vento. Em contraste, povoamentos jovens e homogéneos – muitas vezes compostos por árvores da mesma idade e espécie – são estruturalmente mais frágeis, o que explica porque grandes áreas podem ser afetadas de forma simultânea durante eventos extremos.

Nas cidades, o problema tende a ser ainda mais grave. As árvores urbanas vivem sob múltiplos fatores de stress: solos compactados, pouco espaço para enraizar, impermeabilização do terreno, poluição, temperaturas elevadas e podas excessivas ou mal executadas. Ao longo do tempo, estas condições enfraquecem as árvores, favorecem o desenvolvimento de podridões internas e reduzem a sua capacidade de resistir ao vento. Como resultado, as árvores urbanas têm maior probabilidade de falhar, seja pelo arranque da raiz, seja pela quebra do tronco ou dos ramos.

As próprias tempestades amplificam estes riscos. A força exercida pelo vento aumenta rapidamente com a sua velocidade, e as copas molhadas pela chuva tornam-se mais pesadas e oferecem maior resistência ao ar. As rajadas provocam movimentos repetidos que “cansam” o tronco e o sistema radicular, acelerando a falha estrutural, sobretudo quando o solo já se encontra saturado.

Este cenário é agravado pelo contexto das alterações climáticas. Em Portugal, é cada vez mais comum a sucessão de longos períodos de seca – que debilitam as árvores – seguidos de episódios de chuva intensa e tempestades severas. Estes eventos combinados aumentam significativamente o risco de queda, uma vez que as árvores não têm tempo suficiente para recuperar nem para adaptar a sua estrutura às novas condições.

Em suma, a queda de árvores durante tempestades é um fenómeno explicável e, até certo ponto, previsível. Resulta da interação entre solos encharcados, sistemas radiculares pouco desenvolvidos, stress fisiológico (particularmente em ambientes urbanos) e eventos meteorológicos extremos cada vez mais frequentes.

Se queremos continuar a viver com árvores, e a beneficiar dos múltiplos serviços ecológicos, climáticos e sociais que prestam, é imperativo preparar não apenas as infraestruturas físicas, mas também as infraestruturas naturais. Isso implica reconhecer que árvores não são elementos decorativos nem obstáculos urbanos, mas organismos vivos que dependem de solos funcionais, espaço para enraizar, diversidade estrutural e tempo para se adaptarem. A gestão do risco associado às tempestades futuras passa, portanto, por investir na qualidade dos solos, no desenho ecológico das cidades e das florestas, e numa abordagem preventiva baseada no conhecimento científico. Sem esta preparação sistémica, a coexistência com árvores tornar-se-á cada vez mais frágil num clima em rápida mudança.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Webinar - Indicadores Biológicos do Solo: Métodos de Amostragem


A Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DGADR) e a Parceria Portuguesa para o Solo promovem, no próximo dia 12 de dezembro, um webinar dedicado aos indicadores biológicos do solo e aos respetivos métodos de amostragem, dirigido a técnicos envolvidos no aconselhamento agrícola

A ação de capacitação, realizada em formato webinar, tem como principal objetivo apresentar os métodos utilizados na recolha e análise de indicadores biológicos que permitem avaliar a saúde do solo, reforçando a importância de protocolos padronizados e boas práticas durante o processo de amostragem.

A sessão será conduzida por Ruth Pereira, investigadora da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e do centro GreenUPorto – Centro de Investigação em Produção Agroalimentar Sustentável. A oradora abordará princípios e exemplos de aplicação de técnicas como o ensaio de bait-lamina, atividades enzimáticas, respiração do solo, diversidade da fauna edáfica e outros indicadores utilizados na monitorização funcional do microbioma.

A formação destina-se a técnicos com formação superior em ciências agrárias, especialmente aqueles que actuam no aconselhamento agrícola nas áreas relacionadas com o Plano de Fertilização.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Solos em vários países de África estão repletos de “químicos eternos” que ameaçam ecossistemas e saúde pública



Substâncias poluentes químicas estão a acumular-se nos solos e culturas agrícolas em níveis potencialmente perigosos para os ecossistemas e a saúde pública em vários países africanos.

A revelação é feita por uma investigação publicada este mês na revista ‘New Contaminants’, na qual um grupo de cientistas da China, do Quénia e da Rússia alerta para altas concentrações de ácido perfluorooctanossulfónico (PFOS), integrado na categoria dos poluentes persistentes conhecidos vulgarmente como “químico eternos” devido à sua resistência à degradação, em países como Gana, África do Sul, Quénia e Uganda.

Embora digam que o uso de PFOS tenha sido abandonado em muitas partes do mundo, os investigadores apontam que contaminação histórica, atividades industriais ainda em curso, o processamento de resíduos eletrónicos e descargas de águas residuais, por exemplo, continuam a introduzir essas substâncias nos solos agrícolas africanos.

“O nosso objetivo era chamar a atenção para um desafio ambiental silencioso que tem amplamente passado despercebido em África”, diz, citado em comunicado, Bonface Oginga, primeiro autor do estudo.

“O solo e os sistemas vegetais que suportam a produção de alimentos estão já sob stress. A presença de PFOS acrescenta ainda mais uma camada de pressão que os países não estão devidamente equipados para monitorizar ou gerir”, acrescenta.

A equipa refere que em alguns dos países estudados as lamas resultantes do tratamento de águas residuais contêm altos níveis de “químicos eternos”, pelo que, quando são usadas como fertilizantes agrícolas, esses poluentes entram nas culturas e nos alimentos produzidos. E, a partir daí, podem chegar às populações humanas.

“Compreender como é que os PFOS entram no solo e nas plantas é essencial para avaliar os riscos para as comunidades que dependem da agricultura local”, salienta Fredrick Owino Gudda, coautor do artigo.

No que toca aos impactos ecológicos, os cientistas indicam que a exposição aos PFOS pode afetar as comunidades de microrganismos que vivem e sustentam o bom funcionamento dos solos e interferir negativamente na absorção de nutrientes por parte das plantas. Em regiões onde os solos são já pobres em nutrientes essenciais para as plantas, como fósforo e nitrogénio, a produtividade agrícola pode ser ainda mais reduzida.

Assim, os investigadores apelam aos governos africanos e às respetivas agências ambientais que expandam os seus esforços de monitorização, que adoptem tecnologias avançadas de análise e que reforcem os regulamentos para combater os “químicos eternos”. A par de tudo isso, é imprescindível, argumentam os autores, investir na investigação científica.

“Ao fortalecerem a monitorização, a regulamentação e a investigação, os países africanos podem proteger melhor os seus solos, culturas agrícolas e comunidades face aos riscos de longo-prazo resultantes dos PFOS”, sublinha Chao Qin, que também assina este trabalho.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Solos superficiais guardam 45% mais carbono do que o estimado


A camada superior dos solos armazena 45% mais carbono do que se estimava, conclui um relatório da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) que apela à proteção jurídica do solo, à semelhança da atmosfera e dos oceanos.

As camadas mais finas do topo do solo são uma solução climática mais eficaz do que se pensava mas continuam excluídas das políticas climáticas globais, alerta o relatório da Comissão Mundial de Direito Ambiental da IUCN (WCEL), da Aroura e do movimento Save Soil, divulgado no Dia Mundial do Solo, que hoje se celebra.

Os dados das organizações indicam que os solos armazenam 2.822 gigatoneladas de carbono no metro superior e que isso significa que os solos superficiais retêm 45% mais carbono do que as estimativas anteriores.

O relatório denuncia uma persistente marginalização dos solos, da terra e dos sistemas agrícolas no financiamento climático e nas políticas climáticas, lembrando que 40% da terra do planeta está degradada, valor que vai subir para 90% até 2050, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

“Restaurar a saúde do solo pode ser uma solução imensa para a mitigação climática e uma ferramenta de sequestro de carbono, mas até que estabeleçamos caminhos claros e acessíveis para investimentos em grande escala, os solos permanecerão estruturalmente excluídos das soluções climáticas”, afirmou Praveena Sridhar do Movimento Save Soil, citada em comunicado.

A organização defende que, para manter o limite de 1,5 °C, o sistema climático deve reconhecer a restauração do solo e da terra como um dos pilares centrais da estabilidade climática global.

Cerca de 27% das emissões necessárias para manter o aquecimento abaixo de 2°C podem ser sequestradas em solos saudáveis, segundo o estudo, no entanto 70% dos países não incluíram a restauração do solo como solução de mitigação das alterações climáticas nas suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (CNDs), da cimeira do clima COP30.

One EU project seeks to address this. ⁠A Soil Deal for Europe has an estimated investment of around 1 billion euros (US$1.15 billion) up to 2028, which involves establishing 100 Living Labs, research, innovation, and developing the monitoring framework, includes mapping. ⁠While other EU funding, like the Common Agricultural Policy (CAP), also contributes to soil management, the 1 billion euros is the most direct figure associated with the Soil Mission that underpins the new EU-wide soil health monitoring framework. Its ⁠goal is to develop a robust, harmonized EU-wide soil monitoring framework, which will contribute to assessing and achieving healthy soils by 2030 in line with the EU Green Deal’s long-term vision of healthy soils by 2050.

Unlike the UN Convention on the Law of the Sea (UNCLOS) for oceans and the Paris Agreement for the climate, soil lacks a global legal protection framework. However, the EU, the Pan-African Parliament and the International Union for Conservation of Nature (IUCN) last month took steps mandating the development of a Global Legal Instrument for Soil Security.

At a COP30 High-Level Ministerial Event on Wednesday, Brazil’s Minister of Agriculture and Livestock Carlos Fávaro launched the Resilient Agriculture Investment for Net-Zero Land Degradation as a legacy effort to restore degraded farmland and promote sustainable agriculture.

The report introduces the Soil Security Framework, a practical model for protecting and restoring the world’s soils across five dimensions: capacity, condition, connectivity (how people value soil), capital, and codification (legal protection). This approach reframes soil from an agricultural variable to a strategic resource underpinning food, water security, climate resilience and economic stability.

Soil health is fundamental not only as a carbon sink, but also for climate adaptation. “Living soils are fundamental to agriculture,” said Sridhar. “They support you when you go through climate shocks. Healthy, living soils can absorb flood waters, and in drought they hold water like sponges. The crops are not successful because of the inputs you put on top like chemicals and pesticides – the security lies below the surface.”

Chuva que somos

Chuva que somos
"A chuva cai
como quem devolve ao mundo
a memória do que é simples.
Não molha a terra —
acorda-a.
E cada gota, ao tocar o solo,
faz o planeta respirar mais fundo,
como se dissesse:
“Estou vivo contigo.”
Há um silêncio verde
que cresce entre as raízes,
um pensamento que não é meu
nem de ninguém,
porque a Natureza pensa sem palavras.
Vejo a chuva cair nos campos,
e percebo que não há fronteiras
entre o que sou
e aquilo que se renova.
Sou apenas mais um corpo húmido,
uma pele que o mundo toca
para me lembrar
que pertenço.
E então sinto —
sem querer sentir —
que tudo é suficiente:
a terra que bebe,
o ar que se perfuma,
o chão que se entrega
sem nunca pedir.
A chuva é a mestra mais antiga:
ensina caindo,
e ensina sempre
a mesma lição.
Que viver é deixar-se molhar
pelo que vem do céu
e regressa ao chão
para começar de novo."

sábado, 6 de dezembro de 2025

Que fazer aos cigarros electrónicos usados?


Além dos graves riscos à saúde associados ao uso de cigarros eletrónicos, esses dispositivos também representam uma ameaça significativa ao meio ambiente. O seu descarte inadequado gera uma série de consequências nocivas.

Frequentemente, quando os dispositivos chegam ao fim da sua vida útil, são abandonados como lixo comum em locais públicos, como parques, calçadas ou beiras de estrada. Além do impacto visual, esse descarte irregular pode causar danos materiais — como furos em pneus de veículos — e contribuir para a poluição ambiental.

No entanto, os problemas são ainda mais profundos. Os cigarros eletrónicos contêm metais pesados, como antimónio, níquel e chumbo, que podem infiltrar-se no solo e nos corpos de água quando descartados de forma incorreta. Muitos modelos, especialmente os descartáveis, são alimentados por baterias de íon-lítio, que oferecem risco de incêndio ou explosão se manuseadas inadequadamente, mesmo em aterros sanitários. Além disso, as carcaças de plástico podem degradar-se em microplásticos, agravando a contaminação do solo e da água.

De acordo com as normas ambientais, os cigarros eletrónicos usados devem ser encaminhados para pontos de coleta especializados em resíduos eletrónicos ou para instalações autorizadas a manusear resíduos perigosos, garantindo assim um descarte seguro e responsável.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Over a pint in Oxford, we may have stumbled upon the holy grail of agriculture

I knew that a revolution in our understanding of soil could change the world. Then came a eureka moment – and the birth of the Earth Rover Program

It felt like walking up a mountain during a temperature inversion. You struggle through fog so dense you can scarcely see where you’re going. Suddenly, you break through the top of the cloud, and the world is laid out before you. It was that rare and remarkable thing: a eureka moment.

For the past three years, I’d been struggling with a big and frustrating problem. In researching my book Regenesis, I’d been working closely with Iain Tolhurst (Tolly), a pioneering farmer who had pulled off something extraordinary. Almost everywhere, high-yield farming means major environmental harm, due to the amount of fertiliser, pesticides and (sometimes) irrigation water and deep ploughing required. Most farms with apparently small environmental impacts produce low yields. This, in reality, means high impacts, as more land is needed to produce a given amount of food. But Tolly has found the holy grail of agriculture: high and rising yields with minimal environmental harm.

He uses no fertiliser, no animal manure and no pesticides. His techniques, the result of decades of experiment and observation, appear to enrich the crucial relationships between crops and microbes in the soil, through which soil nutrients must pass. It seems that Tolly has, in effect, “trained” his soil bacteria to release nutrients when his crops require them (a process called mineralisation), and lock them up when his crops aren’t growing (immobilisation), ensuring they don’t leach from the soil.

So why the frustration? Well, Tolly has inspired many other growers to attempt the same techniques. Some have succeeded, with excellent results. Others have not. And no one can work out why. It’s likely to have something to do with soil properties. But what?

Not for the first time, I had stumbled into a knowledge gap so wide that humanity could fall through it. Soil is a fantastically complex biological structure, like a coral reef, built and sustained by the creatures that inhabit it. It supplies 99% of our calories. Yet we know less about it than any other identified ecosystem. It’s almost a black box.

Many brilliant scientists have devoted their lives to its study. But there are major barriers. Most soil properties cannot be seen without digging, and if you dig a hole, you damage the structures you’re trying to investigate. As a result, studying even basic properties is cumbersome, time-consuming and either very expensive or simply impossible at scale. To measure the volume of soil in a field, for example, you need to take hundreds of core samples. But as soil depths can vary greatly from one metre to the next, your figure relies on extrapolation. This makes it very hard to tell whether you’re losing soil or gaining it. Measuring bulk density (the amount of soil in a given volume, which shows how compacted it might be), or connected porosity (the tiny catacombs created by lifeforms, a crucial measure of soil health), or soil carbon – at scale – is even harder.

So farmers must guess. Partly because they cannot see exactly what the soil needs, many of their inputs – fertilisers, irrigation, deep ploughing – are wasted. Roughly two-thirds of the nitrogen fertiliser they apply, and between 50% and 80% of their phosphorus, is lost. These lost minerals cause algal blooms in rivers, dead zones at sea, costs for water users and global heating. Huge amounts of irrigation water are also wasted. Farmers sometimes “subsoil” their fields – ploughing that is deep and damaging – because they suspect compaction. The suspicion is often wrong.

Our lack of knowledge also inhibits the development of a new agriculture, which may, as Tolly has done, allow farmers to replace chemical augmentation with biological enhancement.

So when I came to write the book, I made a statement so vague that it reads like an admission of defeat: we needed to spend heavily on “an advanced science of the soil”, and use it to deliver a “greener revolution”. While we know almost nothing about the surface of our own planet, billions are spent on the Mars Rover programme, exploring the barren regolith there. What we needed, I argued, is an Earth Rover programme, mapping the world’s agricultural soils at much finer resolution.

I might as well have written “something must be done!” The necessary technologies simply did not exist. I sank into a stygian gloom.

At the same time, Tarje Nissen-Meyer, then a professor of geophysics at the University of Oxford, was grappling with a different challenge. Seismology is the study of waves passing through a solid medium. Thanks to billions from the oil and gas industry, it has become highly sophisticated. Tarje wanted to use this powerful tool for the opposite purpose – ecological improvement. Already, with colleagues, he had deployed seismology to study elephant behaviour in Kenya. Not only was it highly effective, but his team also discovered it could identify animal species walking through the savannah by their signature footfall.

By luck we were both attached, in different ways, to Wolfson College, Oxford, where we met in February 2022. I saw immediately that he was a thoughtful man – a visionary. I suggested a pint in The Magdalen Arms.

I explained my problem, and we talked about the limits of existing technologies. Was seismology being used to study soil, I asked. He’d never heard of it. “I guess it’s not a suitable technology then?” No, he told me, “soil should be a good medium for seismology. In fact, we need to filter out the soil noise when we look at the rocks.” “So if it’s noise, it could be signal?” “Definitely.”

We stared at each other. Time seemed to stall. Could this really be true?

Over the next three days, Tarje conducted a literature search. Nothing came up. I wrote to Prof Simon Jeffery, an eminent soil scientist at Harper Adams University, whose advice I’d found invaluable when researching the book. I set up a Zoom call. He would surely explain that we were barking up the wrong tree.

Simon is usually a reserved man. But when he had finished questioning Tarje, he became quite animated. “All my life I’ve wanted to ‘see’ into the soil,” he said. “Maybe now we can.” I was introduced to a brilliant operations specialist, Katie Bradford, who helped us build an organisation. We set up a non-profit called the Earth Rover Program, to develop what we call “soilsmology”; to build open-source hardware and software cheap enough to be of use to farmers everywhere; and to create, with farmers, a global, self-improving database. This, we hope, might one day incorporate every soil ecosystem: a kind of Human Genome Project for the soil.

We later found that some scientists had in fact sought to apply seismology to soil, but it had not been developed into a programme, partly because the approaches used were not easily scalable.

My role was mostly fixer, finding money and other help. We received $4m (£3m) in start-up money from the Bezos Earth Fund. This may cause some discomfort, but our experience has been entirely positive: the fund has helped us do exactly what we want. We also got a lot of pro-bono help from the law firm Hogan Lovells.

Tarje, now at the University of Exeter, and Simon began assembling their teams. They would need to develop an ultra-high-frequency variant of seismology. A big obstacle was cost. In 2022, suitable sensors cost $10,000 (£7,500) apiece. They managed to repurpose other kit: Tarje found that a geophone developed by a Slovakian experimental music outfit worked just as well, and cost only $100. Now one of our scientists, Jiayao Meng, is developing a sensor for about $10. In time, we should be able to use the accelerometers in mobile phones, reducing the cost to zero. As for generating seismic waves, we get all the signal we need by hitting a small metal plate with a welder’s hammer.

On its first deployment, our team measured the volume of a peat bog that had been studied by scientists for 50 years. After 45 minutes in the field, they produced a preliminary estimate suggesting that previous measurements were out by 20%. Instead of extrapolating the peat depth from point samples, they could see the wavy line where the peat met the subsoil. The implications for estimating carbon stocks are enormous.

We’ve also been able to measure bulk density at a very fine scale; to track soil moisture (as part of a wider team); to start building the AI and machine learning tools we need; and to see the varying impacts of different agricultural crops and treatments. Next we’ll work on measuring connected porosity, soil texture and soil carbon; scaling up to the hectare level and beyond; and on testing the use of phones as seismometers. We now have further funding, from the UBS Optimus Foundation, hubs on three continents and a big international team.

Eventually, we hope, any farmer anywhere, rich or poor, will be able to get an almost instant readout from their soil. As more people use the tools, building the global database, we hope these readouts will translate into immediate useful advice. The tools should also revolutionise soil protection: the EU has issued a soil-monitoring law, but how can it be implemented? Farmers are paid for their contributions “to improve soil health and soil resilience”, but what this means in practice is ticking a box on a subsidy form: there’s no sensible way of checking.

We’re not replacing the great work of other soil scientists but, developing our methods alongside theirs, we believe we can fill part of the massive knowledge gap. As one of the farmers we’re working with, Roddy Hall, remarks, the Earth Rover Program could “take the guesswork out of farming”. One day it might help everyone arrive at that happy point: high yields with low impacts. Seismology promises to shake things up.

E-Livro: Regenesis, by George Monbiot

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Poema da Terra Inteira

"Aprendi com as ervas que nada tem pressa.
Nasce-se porque sim,
como a luz que se desprende da manhã
sem pedir licença ao dia.
Caminho pelos campos sem querer compreendê-los.
A compreensão é um peso dos homens.
A relva sabe estar,
o rio sabe seguir,
a pedra sabe durar.
E ninguém lhes ensinou nada.
Abraço um carvalho antigo
e ouço, no silêncio da casca,
a memória de tudo o que já passou por ele:
vento, pássaros, neve, populações antigas
a marca de um raio,
o calor de muitos verões.
E percebo que não sou dono de nada,
apenas hóspede de passagem.
A Natureza não precisa de mim,
mas eu preciso dela
como quem precisa de respirar fundo
para lembrar o próprio nome.
Porque viver é simples:
respirar com a paisagem,
escutar o que cresce,
e reconhecer — num gesto sereno —
que somos apenas uma voz
no grande coro da Terra."

Reflexão ecológica: transição filosófica do Antropoceno para o Ecoceno
Toda a ética ambiental começa num reconhecimento simples: a Terra não é um cenário, é uma comunidade viva da qual fazemos parte. A verdadeira sabedoria ecológica nasce quando deixamos de olhar para o mundo apenas como recurso e passamos a vê-lo como relação.
Cada forma de vida — da mais discreta à mais imponente — participa num equilíbrio que não é aconselhável controlar, pois dele dependemos profundamente.
Não há superioridade, apenas interdependência.

Cuidar do planeta não é um gesto moral isolado; é um novo paradigma.
Não desejamos mais extinção mas sim um futuro partilhado de todas as espécies, permitindo que as futuras gerações usufruam plenamente do Ecoceno.

E talvez o maior ensinamento seja este:
proteger a Terra não é salvar algo externo a nós — é preservar a continuidade da própria vida
de que somos expressão.
Joao Soares 04.12.2025

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Satélites revelam que o sul da Europa está a ficar sem água. E nós somos o sul


Durante anos, a seca foi uma imagem associada a outros continentes. Agora, os mapas gravíticos que “pesam” a água do subsolo mostram uma mancha em aceleração sobre o sul e o centro da Europa. Em duas décadas de medições, os cientistas vêem aquíferos em queda de Espanha à Roménia e avisam que o que falta debaixo dos nossos pés pode transformar-se depressa em problema à superfície: nas torneiras, nos campos e nas prateleiras dos supermercados

Vastas reservas de água doce na Europa estão a encolher, sobretudo no sul e no centro do continente, com efeitos anunciados para a agricultura, os ecossistemas e o abastecimento urbano.

A conclusão resulta de uma análise a dados de satélite entre 2002 e 2024, conduzida por investigadores da University College London (UCL) em colaboração com a organização Watershed Investigations e o jornal britânico The Guardian, que desenha um mapa em contraste: o norte e o noroeste da Europa, incluindo partes do Reino Unido e de Portugal, aparecem mais húmidos, enquanto grandes áreas do sul e do sudeste, da Península Ibérica à Roménia e à Ucrânia, surgem cada vez mais secas.

Para chegar a estas tendências, a equipa recorreu a satélites que medem variações no campo gravitacional da Terra e permitem “pesar” quanta água está armazenada em aquíferos, rios, lagos, solos e glaciares, já que a massa da água altera o sinal.

Quando cruzaram esses registos com bases de dados climáticos, as curvas bateram certo. “A quebra do clima” está escrita ali, no subsolo, resume Mohammad Shamsudduha, professor de crise hídrica e redução de risco na UCL, citado pelo The Guardian. Shamsudduha lembra que já não se discute realisticamente limitar o aquecimento global a 1,5 °C e que o mundo caminha para mais 2 °C face à era pré-industrial, "com consequências já visíveis".

Uma análise específica à água subterrânea mostrou um desenho muito parecido ao da água total em terra, o que confirma que até as reservas consideradas mais resilientes estão a ser esvaziadas. No Reino Unido, nota este académico, o sinal é cada vez mais claro: o Oeste fica mais húmido, o Leste mais seco, com chuva total estável ou ligeiramente crescente, mas concentrada em aguaceiros intensos e verões com períodos longos sem precipitação, o que favorece cheias repentinas e menos recarga dos aquíferos.

Estratégia de resiliência hídrica
Do lado das pressões humanas, os dados da Agência Europeia do Ambiente indicam que, entre 2000 e 2022, o volume total de água captada de origens superficiais e subterrâneas na União Europeia desceu, mas as captações de água subterrânea subiram 6 %, puxadas pelo abastecimento público e pela agricultura. Em 2022, os aquíferos garantiam 62 % da água que chega às torneiras e um terço da procura agrícola nos Estados-membros.

Bruxelas responde com uma “estratégia de resiliência hídrica” que quer adaptar a gestão à nova climatologia, construir uma “economia inteligente em água” e melhorar a eficiência em pelo menos 10 % até 2030, com prioridade a reduzir perdas numa rede onde as fugas variam entre 8 % e 57 %.

É nesse contexto que vozes como a da hidróloga Hannah Cloke, da Universidade de Reading, também citada pelo jornal The Guardian, descrevem como “angustiante” ver confirmada estatisticamente a perda de água subterrânea num país, a Inglaterra, que tem atravessado grandes secas e avisos de chuva abaixo da média.

A Agência Europeia do Ambiente já pediu à Inglaterra que se prepare para a possibilidade de a seca se prolongar até 2026, e o Governo britânico anuncia nove novos reservatórios para reforçar a resiliência, mas Cloke contrapõe que infra-estruturas que só estarão prontas dentro de décadas não resolvem o problema imediato e defende mais reutilização, menos consumo, separação clara entre água potável e água reciclada e soluções baseadas na natureza para desenhar cidades e novas urbanizações.
“As alterações climáticas são reais, estão a acontecer e estão a afectar-nos”

Os investigadores avisam que o padrão de secagem observado em muitas regiões europeias terá impactos “de longo alcance” sobre a segurança alimentar, a actividade agrícola e os ecossistemas dependentes de água, em especial os habitats alimentados por aquíferos.

A redução das reservas em Espanha, exemplifica Mohammad Shamsudduha, pode sentir-se directamente num Reino Unido que depende fortemente de frutas e legumes importados daquele país e de outros parceiros europeus. E lembra que o que agora se vê no mapa europeu é uma versão próxima de fenómenos há muito descritos no Sul global, do sul da Ásia a partes de África e do Médio Oriente.

Secas prolongadas e aquíferos em queda estendem-se hoje também pelo Médio Oriente, Ásia, América do Sul, costa oeste dos EUA, Canadá e regiões frias como a Gronelândia, a Islândia e Svalbard. No Irão, Teerão aproxima-se do “dia zero” em que deixará de ter água canalizada, o Governo prepara racionamentos e o Presidente, Masoud Pezeshkian, já admitiu que a capital poderá ter de ser evacuada se essas medidas falharem.

Perante este quadro, Shamsudduha insiste na mesma ideia: é preciso aceitar “que as alterações climáticas são reais, estão a acontecer e estão a afectar-nos” e usar isso como ponto de partida para uma outra forma de gerir a água, abrindo espaço a soluções que ainda soam pouco convencionais, como a captação generalizada de água da chuva em países como o Reino Unido.