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sexta-feira, 17 de junho de 2022

Economia e política ao serviço da vida



Quando se olha para a presente situação do mundo, não é difícil constatar que o que está decisivamente em crise é a razão moderna com o seu imperialismo devastador. Ao contrário do que pensam os seus profetas mais ardentes, após a crise/implosão do chamado "socialismo real", o capitalismo desenfreado, neoliberal, não constituiu de modo nenhum a solução do futuro nem é a palavra mágica, decisiva e definitiva da História. A prova está em que pretender que toda a humanidade viva segundo os padrões do mundo mais desenvolvido, tecnocrático, seria pôr fim à própria possibilidade de continuação da História. O modelo dos países do hemisfério norte, sendo necessário sublinhar que ele se implantou já noutras paragens, não pode estender-se ao mundo inteiro, isto é, não é universalizável, sob pena de pura e simplesmente não haver futuro para o planeta. E, não sendo universalizável, não é ético.

A crise ecológica, de que os pobres acabam por ser as principais vítimas e também, na luta pela sobrevivência, uma das grandes causas, coloca-nos perante a crise da nossa civilização, que pretendeu organizar a casa comum da humanidade com base na ideologia do progresso ilimitado. Urge, pois, mudar de rumo, o que implica pôr termo a um antropocentrismo exacerbado e reconhecer e respeitar o valor da natureza e de todos os seres do ecossistema, a começar pelo homem e pela mulher pobres e explorados. Impõe-se uma conversão socio-ecológica, no sentido da transformação do modelo de desenvolvimento em que assentou a modernidade. Se é o presente modelo de desenvolvimento que gera simultaneamente a crise ecológica e a injustiça estrutural no mundo, então a construção da casa comum da humanidade exige uma nova consciência ética - veja-se a ligação entre ethos, que também significa habitação, toca do animal, e donde provém ética, e oikos, que significa casa, interconectando ética, economia (lei, governo da casa) e ecologia (tratado da casa, que hoje percebemos melhor ser a casa comum de todos) -, aliada a uma nova proposta político-cultural global, para uma nova ordem económico-ecológica global, no quadro de um autêntico eco-humanismo, proposto pelo Papa Francisco - diga-se entre parêntesis que, se não fosse por muitas outras magnas razões, Francisco ficaria na História por causa da sua encíclica Laudato Sí, onde aparece o conceito de "ecologia integral", que mostra que a degradação do meio ambiente e a degradação do mundo social caminham juntas.

Pretender que toda a humanidade viva segundo os padrões do mundo mais desenvolvido, tecnocrático, seria pôr fim à própria possibilidade de continuação da História.

Hoje, tomamos consciência de que tudo e todos estamos interligados e somos interdependentes. Isto, pelo menos, nos deveria ter ensinado a pandemia: infectamo-nos uns aos outros e, por isso, ou nos salvamos juntos ou nos perdemos todos. Só posso estar de acordo com o filósofo Peter Sloterdijk, quando, com outros, propugna uma "Declaração de Dependência" universal, assinada por todos. Assim, dadas as relações realmente existentes entre todos e o vínculo indissolúvel com a catástrofe ecológica, damo-nos pela primeira vez conta de que, perante a ameaça comum de que somos objecto todos, se impõe que a humanidade, se quiser ter futuro, se tem de tornar sujeito comum da responsabilidade pela vida. Ou a humanidade como um todo se torna sujeito do seu futuro e da responsabilidade pela vida em geral ou pura e simplesmente não haverá futuro para ninguém. Em termos simples e cínicos: se não quisermos ser solidários uns com os outros por razões de ética e humanidade, sejamo-lo, ao menos, por razões de egoísmo esclarecido.

A globalização arrasta consigo inevitavelmente questões gigantescas e desperta paixões, que nem sempre permitem um debate sereno e racional. Mais uma vez, o teólogo Hans Küng procurou contribuir para esse debate, que assenta, segundo ele, em quatro teses: a globalização é : 1. "inevitável"; 2. "ambivalente (com ganhadores e perdedores); 3. "incalculável" (pode levar ao milagre económico ou ao descalabro), mas também - e isto é para mim o mais importante - "dirigível". Isto significa que precisamente a globalização económica exige uma globalização no domínio ético. Impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes e critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global, também para salvaguardar as diferentes tradições culturais da lógica global e avassaladora de uma espécie de "metafísica do mercado" e de uma sociedade de mercado total.

Quem é que responsavelmente pode aceitar que a moral no domínio económico se identifica com o incremento insaciável do lucro? Tornou-se claro que a mão invisível do mercado que funcionaria a favor de todos os cidadãos não passa de "um mito refutado pela realidade", exactamente como a ideia de que o socialismo conduz todos os homens ao "paraíso do bem-estar", escreveu Hans Küng. Por isso, à economia de mercado tout court é preciso contrapor a economia social e ecológica de mercado.

O sentido da economia e da política só pode ser o serviço da vida. Trata-se de uma política para a vida (Vitalpolitik, segundo Alexander Rüstow), que sabe que, ao contrário de uma política da concorrência, orientada só para a eficiência, tem em consideração muitos outros factores, já que, em ordem ao bem-estar, a uma sociedade boa, a uma vida feliz, para os seres humanos, incluindo os capitalistas, não basta a economia. O homo sapiens não se identifica pura e simplesmente com o homo oeconomicus.

Anselmo Borges- Padre e professor de Filosofia.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Hans Küng: O teólogo que ensinou a mensagem revolucionária de Cristo

Na Igreja Católica, ainda os há à imagem de Cristo. Dos que trazem na alma um instinto de ruptura, uma radicalidade em direção ao que significa ser um homem entre homens, e à luta que o amor impõe em todas as épocas. Hans Küng tinha a coragem das suas convicções, e uma inteligência que apontava claramente o que havia a fazer, sem receio de chocar com os elementos tradicionalistas daquela instituição, desafiando os valores e dogmas mais retrógrados.

Foi um dos que exigiram do Papa Bento XVI que assumisse responsabilidades pelo encobrimento dos casos de pedofilia na Igreja. Era há muito uma das figuras mais incómodas. Crítico da doutrina sobre a infalibilidade papal, viu, em 1979, ser-lhe revogada a licença para ensinar teologia católica. Küng morreu no dia 6 de abril, aos 93 anos, na sua residência em Tübingen, na Alemanha. Em 2013, anos depois de lhe ter sido diagnosticada a doença de Parkinson, vira-se forçado a abandonar a vida pública.

Nascido em Sursee, Suíça, a 19 de março de 1928, foi ordenado sacerdote em 1954. Seis anos mais tarde tornou-se professor titular da Faculdade de Teologia Católica da Universidade de Tübingen, tendo sido convidado pelo Papa João XXIII a participar do Concílio Vaticano II como especialista. Era um dos mais jovens, ele e o seu colega Joseph Ratzinger, o futuro Bento XVI, e estavam então mais próximos na proposta de um conjunto de reformas que prometiam abalar de forma decisiva as bases em que, até ali, assentava a Igreja Católica.

Além de defender um modelo mais colegial e descentralizado, o suíço punha em causa outros elementos da doutrina católica, como a obrigatoriedade do celibato sacerdotal, a interdição das mulheres no sacerdócio, a contracepção e até a proibição da eutanásia. Realizado entre 1962 e 1965, o concílio abriu uma perspetiva de modernização da Igreja, mas com o passar dos anos muitos dos que viram naquele um momento charneira acabaram por ficar desiludidos com a capacidade da instituição para se esquivar ao confronto.

Depois de a Congregação para a Doutrina da Fé lhe ter revogado a faculdade de ensinar como teólogo católico, Küng não abdicou de se manter fiel aos seus princípios, continuando a dar aulas como professor emérito de teologia ecuménica em Tübingen. Aprofundou o estudo da história das religiões, em particular as religiões Abraâmicas, e foi essa especialidade que acabou por definir a sua ligação ao grande projecto daquela Universidade, o Ethos Mundial, que partiu da sua proposta de encontrar os mínimos denominadores comuns a todas as culturas e religiões, «o contributo destas para a construção de uma base de princípios éticos mundiais que permitissem à humanidade entender-se pacificamente». O teólogo João Duque, pro-reitor da Universidade Católica Portuguesa e professor na Faculdade de Teologia, em Braga, adianta que não sendo uma fase especificamente teológica, talvez seja a fase pela qual ele é mais conhecido do público em geral.

Já o padre e professor de filosofia Anselmo Borges, enquadra Küng entre as vozes dissonantes numa altura em que João Paulo II protagonizava um regresso ao conservadorismo, e afastado da sua missão canónica, restou-lhe prosseguir na docência universitária, numa cátedra de diálogo inter-religioso «que o levou a aprofundar o seu projecto de uma ética global, restaurando o chamado ‘parlamento das religiões mundiais’, muito baseado no princípio segundo o qual não haverá paz entre as nações sem que haja também paz entre as religiões e que esta não é possível sem diálogo». Ao Público, Anselmo Borges referiu ainda que, colocado à margem da Igreja, o teólogo suíço foi um trabalhador incansável, deixando um legado gigantesco, destacando-se a trilogia sobre o Cristianismo, o Judaísmo e o Islão, que foi traduzida para português.

Em grande medida, o perfil de Küng traça-se num contraste decisivo com Ratzinger, tendo os dois sido professores na mesma universidade, e tendo sido o primeiro quem convenceu a instituição a nomear o futuro Papa para lecionar Teologia Dogmática. Quando foi afastado, um dos votos contra Küng terá sido o do seu ex-colega, então cardeal.
Já depois de ter sido eleito Papa, em 2005, Bento XVI tentou uma reaproximação, chamando-o para jantar na sua residência, em Castel Gandolfo.

Apesar de o Vaticano ter garantido que a reunião aconteceu «num clima amistoso», os dois tinham assumido de antemão que não havia forma de superarem o fosso que há muito os separava. Küng chegou a dizer que falar com Ratzinger tinha-se tornado semelhante a falar com um agente do KGB e manteve o seu repúdio à forma como os tradicionalistas bloquearam as reformas firmadas no Concílio Vaticano II, acusando-os de serem «ultra-conservadores e anti-democráticos». Assim, o encontro não foi verdadeiramente uma trégua, mas apenas um sinal de respeito de parte a parte, tendo a conversa contornado as divergências doutrinárias persistentes.

Numa tentativa de estender um ramo de oliveira, Bento XVI dizia ter apreciado «o esforço do Professor Küng em contribuir para um renovado reconhecimento dos valores morais essenciais da humanidade através do diálogo das religiões e no encontro com a razão secular». Mas o sinal de que não houve verdadeira reconciliação, e aquilo que permitiu ao suíço ensaiar a estocada final, foram os casos de pedofilia que a Igreja encobriu ao longo de décadas, tendo Küng atacado o pontífice emérito por se ter afastado, provando, no fundo, que sempre lhe faltou o carácter e a coragem para estar à altura dos desafios com que a Igreja se confrontava.

Assim, em 2013, Küng celebrou a eleição do Papa Francisco como «a melhor escolha possível». Nesse ano em que se afastou da vida pública, o teólogo suíço descreveu ainda o argentino como «um raio de esperança», mostrando-se reconciliado, por fim, com a instituição a que dedicou a sua vida.