sábado, 28 de dezembro de 2019

Os ultra ricos preparam um mundo pós-humano

Fonte: aqui

Por Douglas Rushkoff | Tradução: Inês Castilho
Publicado 19/11/2018 às 14:31 - Atualizado 24/12/2019 às 10:09
No ano passado, fui convidado a fazer conferência num resort superluxuoso para um público que, imaginei, seria de aproximadamente cem banqueiros de investimento. Era de longe a maior remuneração que jamais me foi oferecida por uma palestra – metade do meu salário anual como professor – tudo para fornecer algumas dicas sobre o tema “o futuro da tecnologia”.
Nunca gostei de falar sobre o futuro. A sessão de perguntas e respostas sempre acaba mais como um jogo de salão, em que me pedem para opinar sobre as últimas tendências da tecnologia como se fossem dicas precisas para potenciais investimentos: blockchain, impressão 3D, CRISPR. As audiências raramente estão interessadas em aprender sobre essas tecnologias ou sobre seus impactos potenciais, além da escolha binária entre investir nelas ou não. Mas o dinheiro chama; por isso, entrei no show.
Ao chegar, fui introduzido no que ma pareceu ser a sala reservada principal. Mas, ao invés de receber um microfone ou ser conduzido a um palco, simplesmente me sentei numa mesa redonda e minha audiência começou a chegar: cinco sujeitos super-ricos – sim, todos homens – do alto escalão do mundo dos fundos hedge. Depois de um pouco de conversa, percebi que eles não tinham interesse nas informações que eu havia preparado sobre o futuro da tecnologia. Haviam preparado suas próprias perguntas.
Começavam com aparente ingenuidade. Ethereum ou Bitcoin? A computação quântica é real? Mas, lenta e seguramente, concentraram-se em suas verdadeiras preocupações.
Qual região seria menos impactada pela crise climática que vem aí: Nova Zelândia ou Alasca? O Google está realmente construindo um “lar” para o cérebro de Ray Kurzweil e sua consciência viverá durante a transição, ou ele morrerá e renascerá inteiramente novo? Finalmente, o executivo-chefe de uma corretora explicou que havia quase concluído a construção de seu próprio sistema subterrâneo de abrigo e perguntou: “Como faço para manter a autoridade sobre minha força de segurança após o evento?
O Evento. Esse era o eufemismo que usavam para o desastre ambiental, a agitação social, a explosão nuclear, o vírus incontrolável ou os hackers-robôs que destroem tudo.
Essa única pergunta os ocupou pelo resto do tempo. Sabiam que guardas armados viriam para proteger seus complexos das multidões enfurecidas. Mas como pagariam os guardas, já que o dinheiro não teria valor? O que evitaria que os guardas escolhessem os próprios líderes? Os bilionários consideravam usar fechaduras de combinação especial que só eles conheciam para guardar sua provisão de comida. Ou fazer com que os guardas usassem colares disciplinares de algum tipo, em troca de sua sobrevivência. Ou talvez construir robôs para servir de guardas e trabalhadores – se essa tecnologia fosse desenvolvida a tempo.
Foi quando me bateu. Para esses senhores, essa era uma conversa sobre o futuro da tecnologia. Seguindo as dicas de Elon Musk colonizando Marte, Peter Thiel revertendo o processo de envelhecimento, ou Sam Altman e Ray Kurzweil inserindo suas mentes em supercomputadores, eles estavam se preparando para um futuro digital que tinha muito menos a ver com tornar o mundo um lugar melhor, do que com transcender inteiramente a condição humana e isolar-se do perigo hoje real das mudanças climáticas, aumento do nível do mar, migrações em massa, pandemias globais, pânico e esgotamento de recursos. Para eles, o futuro da tecnologia tem a ver com uma única coisa: escapar.
Não há nada de errado com avaliações loucamente otimistas de como a tecnologia pode beneficiar a sociedade humana. Mas o movimento atual de uma utopia pós-humana é outra coisa. É menos uma visão da migração da humanidade para um novo estado do ser do que uma busca de transcender tudo o que é humano: corpo, interdependência, compaixão, vulnerabilidade, complexidade. Como filósofos da tecnologia vêm apontando há anos, a visão transhumanista reduz muito facilmente toda a realidade a dados, concluindo que “ humanos não passam de objetos processadores de informação”.
É uma redução da evolução humana a um videogame em que alguém vence encontrando a saída de emergência e deixando alguns de seus melhores amigos pelo caminho. Serão Musk, Bezos, Thiel… Zuckerberg? Esses bilionários são os vencedores presumíveis da economia digital – o mesmo cenário de sobrevivência do mais apto que alimenta a maior parte dessa especulação.
Claro que nem sempre foi assim. Houve um breve momento, no início dos anos 1990, em que o futuro digital parecia aberto a nossa invenção. A tecnologia estava se tornando um playground para a contracultura, que via nela a oportunidade de criar um futuro mais inclusivo, igualitário e pró-humano. Mas os interesses de lucro do establishment viram somente novos potenciais para a velha exploração, e muitos tecnólogos foram seduzidos pelos unicórnios das bolsas de valores. O futuro digital passou a ser compreendido mais como ações futuras ou mercadorias futuras – algo a ser previsto e em que apostar. Assim, quase todos os discursos, artigos, estudos, documentários ou documentos técnicos eram considerados relevantes apenas na medida em que apontavam para um símbolo de corporação global. O futuro tornou-se menos uma coisa que criamos através de nossas escolhas ou esperanças pela humanidade, do que um cenário predestinado no qual apostamos com nosso capital de risco, mas ao qual chegamos passivamente.
Isso liberou todo mundo das implicações morais de suas atividades. O desenvolvimento da tecnologia tornou-se menos uma história de florescimento coletivo do que de sobrevivência pessoal. Pior, como vim aaprender, chamar atenção para isso era ser involuntariamente considerado um inimigo do mercado ou um rabugento antitecnológico.
A esta altura, o invés de tecer considerações éticas sobre empobrecer ou explorar muitos, em nome de poucos, a maioria dos acadêmicos, jornalistas e escritores de ficção científica passou a se dedicar a enigmas muito mais abstratos e fantasiosos: é justo um operador nos mercados financeiros usar drogas inteligentes? As crianças devem receber implantes para línguas estrangeiras? Queremos que veículos autônomos priorizem a vida dos pedestres, em detrimento dos passageiros? Devem as primeiras colônias de Marte ser administradas como democracias? Mudar meu DNA prejudica minha identidade? Os robôs devem ter direitos?
Fazer esse tipo de pergunta, embora filosoficamente divertido, é um substituto pobre para o exame dos verdadeiros dilemas morais associados ao desenvolvimento tecnológico desenfreado, em nome do capitalismo corporativo. As plataformas digitais já tornaram um mercado explorador e extrativista (pense na Walmart), em um sucessor ainda mais desumanizador (pense na Amazon). A maioria de nós tornou-se consciente desse lado sombrio na forma de empregos automatizados, trabalho temporário e o fim do varejo local.
Porém, os impactos mais devastadores desse capitalismo digital que avança recaem sobre o meio ambiente e os pobres do mundo. A produção de alguns de nossos computadores e smartphones ainda usa redes de trabalho escravo. Essas práticas estão tão profundamente arraigadas que uma empresa chamada Fairphone, fundada  a partir do zero para produzir e comercializar telefones éticos, verificou que era impossível. (Agora o fundador da empresa se refere a seus produtos como telefones “mais justos”)…
Enquanto isso, a mineração de metais raros e o descarte de nossas tecnologias altamente digitais destroem habitats humanos, substituindo-os por depósitos de lixo tóxico — recolhido por crianças camponesas e suas famílias, que vendem materiais utilizáveis de volta aos fabricantes.
Essa externalização — “fora da vista, fora da mente” — da pobreza e do veneno não desaparece apenas porque cobrimos nossos olhos com óculos de realidade virtual e ficamos imersos numa realidade alternativa. Quanto mais ignoramos as repercussões sociais, econômicas e ambientais, mais elas se tornam problemáticas. Isso, por sua vez, motiva ainda mais privação, mais isolacionismo e fantasia apocalíptica – e tecnologias e planos de negócios mais concebidos em desespero. O ciclo se retroalimenta.
Quanto mais comprometidos estamos com essa visão de mundo, mais passamos a ver os seres humanos como problema e a tecnologia como solução. A própria essência do que significa ser humano é tratada menos como uma característica do que como defeito intrínseco, um bug. As tecnologias são declaradas neutras, a despeito dos preconceitos nelas incorporados. Quaisquer que sejam os comportamentos ruins que induzam em nós, eles seriam apenas um reflexo de nosso próprio núcleo corrompido. É como se alguma selvageria humana inata fosse a culpada pelos nossos problemas. Assim como a ineficiência de um mercado de táxi local pode ser “resolvida” com um aplicativo que leva motoristas humanos à falência, as incômodas incoerências da psiqué humana podem ser corrigidas com um upgrade digital ou genético.
Em última análise, segundo a ortodoxia tecnosolucionista, o futuro humano chega ao climax se inserir nossa consciência num computador ou, talvez anda melhor, aceitar que a própria tecnologia é nossa sucessora na evolução. Como os membros de um culto gnóstico, ansiamos por entrar na próxima fase transcendente de nosso desenvolvimento, eliminando nossos corpos e deixando-os para trás junto com nossos pecados e problemas.
Nossos filmes e programas de televisão encenam essas fantasias por nós. Seriados de zumbis mostram um pós-apocalipse em que as pessoas não são melhores que os mortos-vivos – e parecem conhecê-los. Pior, esses filmes convidam os espectadores a imaginar o futuro como uma batalha de soma zero entre os humanos remanescentes, onde a sobrevivência de um grupo depende da morte de outro. Mesmo Westworld – baseado num romance de ficção científica em que robôs correm descontroladamente – encerrou sua segunda temporada com a revelação definitiva: os seres humanos são mais simples e previsíveis do que as inteligências artificiais que criamos. Os robôs aprendem que cada um de nós pode ser reduzido a apenas algumas linhas de código e que somos incapazes de fazer escolhas intencionais. Caramba, naquela série até mesmo os robôs querem escapar dos limites de seus corpos e passar o resto de suas vidas numa simulação de computador.
A ginástica mental requerida por essa profunda inversão de papéis entre humanos e máquinas depende do pressuposto subjacente de que os humanos são péssimos . Vamos mudá-los ou nos afastar deles para sempre.
Então, temos bilionários da tecnologia lançando carros elétricos ao espaço – como se isso simbolizasse algo mais que a capacidade de um bilionário promover-se na corporação. E se poucas pessoas conseguem escapar e de alguma forma sobreviver numa bolha em Marte – a despeito de nossa incapacidade de manter tal bolha até mesmo aqui na Terra, em qualquer dos dois testes multibilionários feitos na Biosfera – o resultado será menos a continuação da diáspora humana que um salva-vidas para a elite.
Quando os financistas de fundos hedge perguntaram sobre a melhor maneira de manter a autoridade sobre suas forças de segurança depois do evento, sugeri que sua melhor aposta seria tratar muito bem essas pessoas, desde já. Deviam envolver-se com suas equipes de segurança como se estas fossem formadas por membros de suas próprias famílias. E quanto mais eles pudessem expandir esse espírito de inclusão para o resto de suas práticas de negócios, gerenciamento da cadeia de suprimentos, esforços de sustentabilidade e distribuição de riqueza, menor a chance de haver um evento, em primeiro lugar. Toda essa magia tecnológica poderia ser aplicada desde já, para fins menos românticos, porém muito mais coletivos.
Eles ficaram pasmos com meu otimismo, mas na verdade não o aceitaram. Não estavam interessados em como evitar uma calamidade; estavam convencidos que já fomos longe demais. Apesar de toda a sua riqueza e poder, não acreditam que possam afetar o futuro. Estão simplesmente aceitando o mais sombrio de todos os cenários e, em seguida, trazendo todo o dinheiro e tecnologia que podem usar para isolar-se – especialmente se não conseguirem um lugar no foguete para Marte.
Felizmente, aqueles de nós sem dinheiro para considerar a negação de nossa própria humanidade têm disponíveis opções muito melhores. Não precisamos usar a tecnologia de modo tão antissocial e atomizante. Podemos nos tornar os consumidores e perfis individuais em que nossos dispositivos e plataformas desejam nos transformar, ou podemos nos lembrar que o humano verdadeiramente evoluído não caminha sozinho.
Ser humano não tem a ver com sobrevivência ou saída individual. É um esporte coletivo. Seja qual for o futuro dos humanos, será de todos nós.
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Douglas Rushkoff is the author of the upcoming book Team Human (W.W. Norton, January 2019) and host of the TeamHuman.fm podcast.

domingo, 22 de dezembro de 2019

O encontro do saber indígena com a ciência para resolver a alteração climática




Para enfrentar um problema da dimensão da alteração climática é preciso unir o conhecimento científico e o indígena, defende a ativista ambientalista Hindou Oumarou Ibrahim. Nesta palestra, ela mostra como a sua comunidade nómada do Chade está a atuar em conjunto com cientistas para restaurar ecossistemas ameaçados de extinção, e ensina como criar comunidades mais resilientes.

sábado, 14 de dezembro de 2019

COP25 aconteceu em Santiago, Chile, entre 2 e 13 de dezembro



A COP 25 aconteceu em Santiago, Chile, entre 2 e 13 de dezembro. Com o tema "As ações do clima dependem de todos nós. A hora de agir é agora!", após o Brasil desistir de realizar o evento.

Página Oficial


Youtube

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Entrevista- Exploring the Amazing World of Lichens with Manuela Dal Forno


Os líquenes estão ao nosso redor – em árvores, rochas e até em alguns edifícios. Mas, o que é um líquen? E de que adiantam? A cientista de líquens Manuela Dal Forno ajudará os alunos a entender a relação simbiótica especial dentro de cada líquen. Ela mostrará aos alunos os diferentes passos que ela dá para estudar os líquenes: encontrá-los na natureza, observá-los ao microscópio e analisar seu DNA. Ela compartilhará por que nos preocupamos com os líquenes. Compreender a vida ao nosso redor é importante para entender a natureza e como os ambientes estão mudando. Por exemplo, muitos líquens são indicadores da qualidade do ar e outros fornecem habitats para insetos e material de ninho para beija-flores.
Este programa foi ao ar originalmente em 28 de março de 2019, como parte da série de webcast do Smithsonian Science How, projetada para levar pesquisas e cientistas de história natural para alunos do ensino fundamental e médio.

Saiba mais sobre o programa Science How e inscreva-se para uma transmissão ao vivo no canal Youtube do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Veja o discurso completo em português de Greta Thunberg na COP 25


Há um ano e meio, eu não falava com ninguém, a menos que realmente precisasse. Mas depois encontrei um motivo para falar. Desde então, dei muitos discursos e aprendi que, quando você fala em público, começa com algo pessoal ou emocional para atrair a atenção de todos.

Diga coisas como “nossa casa está pegando fogo”, “quero que você entre em pânico” e “como se atreve”. Mas hoje não vou fazer isso, porque as pessoas apenas se concentram nessas frases. Elas não se lembram dos fatos, o motivo pelo qual eu falo.

Não temos tempo para ignorar a ciência. No último ano, falei constantemente sobre o rápido declínio dos limites de emissão de carbono. Mas como continua sendo ignorado, continuarei repetindo.

No capítulo 2, na página 108, no relatório SR1.5 do Ipcc, publicado no ano passado, diz que, em 1º de janeiro de 2018, para termos uma chance de 67% de limitar o aumento da temperatura global a 1,5ºC, tínhamos 420 Gigatons de CO2 restantes. Esse número, claro, é muito menor hoje, e emitimos 420 Gigatons todos os anos, incluindo o uso da terra.

O verdadeiro perigo é quando políticos e diretores de empresas fazem parecer que uma ação real está acontecendo quando, na verdade, quase nada está sendo feito além de contabilidade inteligente e propagandas criativas.

Com os níveis de emissões atuais, o limite será esgotado em cerca de 8 anos. Esses números não são opiniões de ninguém ou opiniões políticas, é a melhor ciência atualmente disponível. Embora muitos cientistas digam que esses números são demasiado moderados, são os que foram aceitos pelo Ipcc.

Por favor, observe que esses números são globais. Não há nada a dizer sobre o aspecto da igualdade, que é absolutamente essencial para fazer o Acordo de Paris funcionar em escala global.

Isso significa que os países mais ricos precisam fazer a sua parte, reduzir as emissões muito mais rapidamente e, em seguida, ajudar os países mais pobres a fazer o mesmo. Assim, as pessoas nas partes menos afortunadas do mundo podem elevar seus padrões de vida.

Esses números também não incluem a maioria dos loops de feedback, pontos não lineares ou aquecimento adicional oculto pela poluição tóxica do ar. A maioria dos modelos pressupõe, no entanto, que as gerações futuras serão capazes de eliminar centenas de biliões de toneladas de CO2 do ar com tecnologias que ainda não existem na escala necessária e talvez nunca venham a existir.

O limite de 67% é aquele com as maiores chances dadas pelo Ipcc. E agora temos menos de 340 giga toneladas de CO2 para emitir, que deve ser compartilhado de forma justa.

E por que é tão importante manter o aumento a 1,5ºC graus? Porque mesmo com 1ºC, as pessoas estão morrendo devido à crise climática. Porque é isso que os cientistas pedem para evitar desestabilizar o clima, para que tenhamos a melhor chance possível de evitar reações irreversíveis em cadeia, como geleiras derretidas e derretimento de zonas permanentemente geladas.

Cada fração de grau é importante. Então, aí está novamente. Esta é a minha mensagem. É nisso que eu quero me concentrar. Então, por favor, diga-me como reage a esses números sem sentir pelo menos algum nível de pânico? Como reage ao fato de que basicamente nada está sendo feito sem sentir o mínimo de raiva? E como falar sobre isso sem parecer alarmista? Eu realmente gostaria de saber.

Desde o Acordo de Paris, os bancos globais investiram US$ 1,9 trilião em combustíveis fósseis. 100 empresas são responsáveis ​​por 71% das emissões globais. Os países do G20 representam quase 80% do total de emissões. Os 10% mais ricos da população do mundo produzem metade de nossas emissões de CO2, enquanto os 50% mais pobres representam apenas um décimo.

De fato, temos algum trabalho a fazer, mas alguns mais que outros.

Recentemente, alguns países ricos se comprometeram a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa em aproximadamente tantos porcento nessa ou naquela data. Ou tornar-se neutro em termos de clima e com emissão líquida zero em tantos e tantos anos.

Isso pode parecer impressionante à primeira vista, mas mesmo que as intenções possam ser boas, isso não é liderança. Isso não é liderar, isso é enganar. Porque a maioria dessas promessas não inclui aviação, transporte marítimo, importação e exportação de bens e consumo. No entanto, incluem a possibilidade dos países compensarem suas emissões em outros lugares.

Essas promessas não incluem as taxas de reduções imediatas anuais, nem para os países ricos, que são necessárias para permanecer dentro do limite existente. Zero em 2050 não significa nada se as altas emissões continuarem mesmo por poucos anos. Até lá, o limite restante se esgotará.

Sem ver o cenário completo, não resolveremos esta crise. Encontrar soluções holísticas é o objetivo da COP, mas, pelo contrário, parece ter dado algum tipo de oportunidade para os países negociarem brechas e evitarem aumentar sua ambição.

Os países estão encontrando maneiras inteligentes para não tomar medidas reais, como contar em dobro as reduções de emissões, mudar suas emissões para o exterior, voltar atrás em suas promessas de aumentar as ambições ou recusar-se a pagar por soluções, perdas e danos. Isso tem que parar.

O que precisamos é de cortes drásticos nas emissões na fonte. Mas é claro que apenas reduzir as emissões não é suficiente. Nossas emissões de gases de efeito estufa precisam parar. Para estabilizar em 1,5ºC, precisamos ser neutrais nas emissões de carbono. Apenas estabelecer datas distantes e dizer coisas que dão a impressão de que a ação está em andamento causará mais mal do que bem, porque as mudanças necessárias ainda não estão à vista. As políticas necessárias não existem hoje, apesar do que você possa ouvir dos líderes mundiais.

E ainda acredito que o maior perigo não é a inação. O verdadeiro perigo é quando políticos e diretores de empresas fazem parecer que uma ação real está acontecendo quando, na verdade, quase nada está sendo feito além de contabilidade inteligente e propagandas criativas.

Tive a sorte de poder viajar pelo mundo e, na minha experiência, a falta de consciência é a mesma em todos os lugares. Não menos presente entre os que foram eleitos para nos liderar. Nunca existe um senso de urgência. Nossos líderes não estão se comportando como se estivéssemos numa emergência.

Em caso de emergência, você muda seu comportamento.

Se houver uma criança parada no meio da estrada e os carros se aproximando com velocidade total, você não desviará o olhar porque é muito desconfortável. Você sai imediatamente e resgata a criança.

Sem esse senso de urgência, como podemos fazer as pessoas entender que estamos enfrentando uma crise real. E se as pessoas não estiverem totalmente conscientes do que está acontecendo, não pressionarão as pessoas no poder para agir.

E sem a pressão do povo, nossos líderes podem ficar impunes sem fazer basicamente nada, que é onde estamos agora. E isso acontece de novo e de novo.

Em apenas três semanas entraremos numa nova década. Uma década que definirá o nosso futuro. No momento, estamos desesperados por qualquer sinal de esperança.

Bem, estou lhe dizendo que há esperança. Eu já vi isso. Mas não vem dos governos ou corporações, vem do povo. As pessoas que desconheciam estão começando a acordar. E uma vez que tomamos consciência, mudamos. As pessoas podem mudar. E as pessoas estão prontas para a mudança. E essa é a esperança, porque temos democracia. E a democracia está acontecendo o tempo todo. Não apenas no dia das eleições, mas a cada segundo e a cada hora. É a opinião pública que governa o mundo livre. De fato, todas as grandes mudanças em nossa história vieram do povo. Não precisamos esperar. Podemos começar a mudança agora mesmo. Nós, as pessoas.

Obrigada.

Jørgen Randers - “Global development on a finite planet towards 2050”


Jorgen Randers (born 1945) is professor emeritus of climate strategy at the BI Norwegian Business School. He has always worked on issues of the future, especially related to sustainability, climate, and energy. Professor Randers lectures and provides advice all over the world, and increasingly in China.

He has spent one third of his life in academia, one third in business, and one third in the NGO world. He was president of BI Norwegian Business School 1981-89, and Deputy Director general of WWF International 1994-99. He has been the chair of three Norwegian banks, non-executive member of numerous corporate boards and the sustainability councils of three multi-nationals. He is a full member of the Club of Rome and is the founding chair of the Club of Rome China Association.

Professor Randers has written many papers and books, starting with co-authoring The Limits to Growth in 1972. His recent writings include 2052 – A Global Forecast for the Next Forty Years in 2012, Reinventing Prosperity with Graeme Maxton in 2016, and Transformation is feasible! with Johan Rockstrøm and others in 2018.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Video da semana : "Como os lobos mudam os rios" (Legendado)


A Natureza é um ser inconstante. Se uma coisa muda, pode afectar todo o ecossistema. Na verdade, não há lugar onde o efeito borboleta seja mais visível do que na Natureza.

Veja-se o Parque Nacional de Yellowstone nos Estados Unidos, por exemplo. Esta enorme reserva natural não foi o lar de lobos durante 70 anos, mas quando eles foram reintroduzidos, toda a paisagem do parque mudou radicalmente.

É incrível como uma matilha de lobos pode causar uma mudança tão drástica, mas isto é apenas a forma como a Natureza funciona. É exactamente por isso que precisamos pensar, criar e ter mais acções para explicar como as "nossas acções" afectam o meio ambiente. 

Uma pequena mudança é o suficiente para perturbar o equilíbrio de ecossistemas inteiros.

sábado, 7 de dezembro de 2019

Madrid ou a vergonha de Prometeu



Oque está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Habitamos hoje numa sociedade desordenadamente global, que já não depende da política no sentido liberal clássico. A ideia de que o Estado democrático está revestido de um poder legítimo, que pode vencer ameaças existenciais e transformar a realidade para melhor, perde brilho em cada COP. Os grandes atores globais, o sistema financeiro mundial e as grandes multinacionais não estão sequer presentes à mesa das negociações. Limitam-se a passear pelos corredores. O motor do mundo contemporâneo reside numa inércia económica, autorizada pela capitulação cúmplice das políticas públicas, desde o início dos anos 1980. É esta inércia que constitui o novo e inexorável rosto do destino. Em Madrid, o imperativo da urgência face ao perigo ergue-se, para logo sucumbir à tragédia do inexorável fado do crescimento exponencial. Essa inércia que devora a Terra e todas as suas criaturas, tudo arrastando na sua voragem caudalosa.

A modernidade terminal em que estamos mergulhados nasceu sob o signo do humanismo confiante. Para alguns, a crença no homem tornou-se uma nova teologia. É verdade que tivemos alguns avisos. Pico della Mirandola alertava-nos em 1486: a liberdade humana tanto pode ascender à mais alta elevação do espírito como pode degradar-se abaixo das mais primitivas criaturas. Em 1881, Nietzsche advertia-nos para os enormes desafios deste tempo da "morte de Deus", temendo que acabássemos por sacrificar a liberdade recente à tutela de uma multidão de ídolos medíocres e cruéis. Acertou em cheio: o Prometeu emancipado cedo deu lugar ao Prometeu agrilhoado a novos ídolos: a nação, a raça, a história, o Estado, o mercado... Em 1945, com o Holocausto, pensávamos que o humanismo moderno havia batido no fundo. Contudo, o século XXI, dominado sem alternativa pelo ídolo do capital, o mais tenaz e virulento de todos, ameaça desaguar no colapso planetário, incluindo a extinção da nossa espécie. Se tal ocorrer, ninguém cá estará para testemunhar se algum deus verterá lágrimas pelo crepúsculo de Prometeu. Talvez o homem não seja mais do que um breve erro e uma frágil ilusão divina...

Do lixo à arte: 30 "animais" de Bordalo II que alertam sobre a poluição

"Big Trash Animals" de Artur Bordalo é uma série de obras de arte que visam chamar a atenção para a poluição através de obras criadas com lixo recolhido nas ruas.
Fonte aqui
O artista português teve tanto sucesso em transmitir a sua mensagem que se tornou num fenómeno global. O site Bored Panda reuniu alguns dos seus trabalhos mais recentes, variando de lugares tão diversos quanto os EUA, Estónia e, claro, Portugal. Bordalo II recolhe os seus materiais de resíduos que foram deixados na área e produz impressionantes esculturas de animais para simbolizar tanto a beleza da natureza quanto os resíduos que a ameaçam.

Artur Bordalo nasceu em 1987, em Lisboa, teve no avô, o pintor Real Bordalo, a grande fonte de inspiração para se transformar também ele em artista plástico (ou “artivista” como se define).

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Middle Earth: the fight to save the Amazon's soul

In the heart of the Amazon rainforest, an alternative climate conference is taking place that brings together youth activists, indigenous leaders, scientists and forest dwellers. In a region known as Middle Earth, they are building a new alliance and demonstrating that the rainforest is central to life on Earth, even though Brazil backed out of hosting this year's official UN climate talks after the election of Jair Bolsonaro as president

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Lovins: Nuclear Makes Climate Crisis Worse by Blocking Faster Uptake of Cheaper Options



Contrary to industry propaganda, nuclear power plants are not an essential tool in the fight against climate change, but an increasingly dangerous drag on the deployment of more practical renewables and energy efficiency, Rocky Mountain Institute Chair and Chief Scientist Amory Lovins declares in a recent post for Forbes.

Though the recent World Nuclear Industry Status Report 2019 shows the global nuclear industry clearly “dying of an incurable attack of market forces,” writes Lovins, American support for the technology remains tenacious, with proponents across the political spectrum promoting nuclear as indispensable in the effort to lower carbon emissions.

And yet, “building new reactors, or operating most existing ones, makes climate change worse compared with spending the same money on more climate-effective ways to deliver the same energy services,” Lovins says.

The critical mistake among climate-focused supporters of nuclear generation is to look solely at the matter of carbon, he explains. The problem with that approach is that, with so much ground to catch up in so little time, “we must save the most carbon at the least cost and in the least time, counting all three variables—carbon and cost and time. Costly options save less carbon per dollar than cheaper options. Slow options save less carbon per year than faster options. Thus even a low- or no-carbon option that is too costly or too slow will reduce and retard achievable climate protection.”

Lovins makes clear that nuclear fails resoundingly on both cost and turnaround time: “Being carbon-free does not establish climate-effectiveness,” he declares.

Well-intentioned nuclear proponents aside, Lovins writes scathingly of industry magnates who “milk” the system, taking “multi-billion-dollar bailouts from malleable state legislatures for about a tenth of the nuclear fleet so far, postponing the economic reckoning by shooting the market messenger.” He warns that “such replacement of market choices with political logrolling distorts prices, crowds out competitors, slows innovation, reduces transparency, rewards undue influence, introduces bias, picks winners, invites corruption, and even threatens to destroy the competitive regional power markets where renewables and efficiency win.”

Lovins cautions against accepting the findings of a late May report by the International Energy Agency, which claimed that abandoning nuclear power would make climate action “drastically harder and more costly,” as well as the still widely-held assumption that the climate emergency “demands every option, including preserving nuclear power at any cost”. Invoking the “bedrock economic principle of ‘opportunity cost’,” he notes that “you can’t spend the same money on two different things at the same time. Each purchase foregoes others. Buying nuclear power displaces buying some mixture of fossil-fueled generation, renewable generation, and efficient use.”

At an estimated cost of US$118 to $192 per megawatt-hour in 2019, he adds, nuclear stands no competitive chance whatsoever against utility-scale solar power at $32 to 42/MWh, onshore wind power at $28 to 54/MWh, or energy efficiency at $0 to $50, but typically around $25/MWh. “Efficiency, being already delivered to your meter, also avoids roughly $42/MWh of average delivery cost that all remote generators incur,” he adds.

With new U.S. nuclear development off the table, Lovins adds, “today’s hot question” concerns the fate of “the 96 existing reactors, already averaging about a decade beyond their nominal original design life.” Operating costs exceed $40/MWh for the costlier half of the grouping, and $50/MWh for the “costliest quartile”, while wind farm maintenance costs come in “as low as $11/MWh” in 2018.

All the operating cost data swirling around the energy marketplace points to “an important climate opportunity”, Lovins observes. “Customer efficiency costs utilities only $20 to 30/MWh on average—less if they shop carefully. Therefore, closing a top-quartile-cost nuclear plant and buying efficiency instead, as utilities could volunteer or regulators require, would save considerably more carbon than continuing to run the nuclear plant.”

Those calculations show that “while we close coal plants to save carbon directly, we should also close distressed nuclear plants and reinvest their large saved operating cost in cheaper options to save carbon indirectly. These two climate-protecting steps are not alternatives; they are complements.”

And that doesn’t even address the glacially slow pace at which conventional nuclear plants are sited, approved, and built.

Even as the World Nuclear Association touts its product as “the fast track to decarbonization”, real-life experience shows that “nuclear plants take many years to build, typically around a decade, while renewable projects can take a year or less—even months or weeks,” he writes. “Further, national nuclear power programs need three times as much lead time for institutional preparations as modern renewables need. For both reasons, renewables can start saving carbon many years sooner.”

None of which has stopped the U.S. nuclear industry from pushing a new federal tax subsidy on nuclear fuel and maintenance costs, in a bid to “help level the playing field with other clean energy sources”. The legislation would cost $22 to $26 billion in the first decade, or $33 billion “counting the crowding-out of cheaper competitors,” Lovins notes. And “every billion dollars thus bilked from taxpayers is unavailable to provide more electrical services and save more carbon by cheaper means.”

Meanwhile, “unlike renewable credits that have helped to mature important new technologies, the nuclear credit would elicit no new production, capacity, or innovation,” but rather “simply transfer tens of billions of dollars to the owners of uncompetitive nuclear assets bought decades ago.”

This kind of “anti-market monkey business cannot indefinitely forestall the victory of cheaper competitors,” Lovins concludes. “But it can delay and diminish climate protection, while transferring tens of billions of unearned dollars from taxpayers and customers to nuclear owners.”

Which means the climate emergency and market health both demands vigilant attention, “not only to carbon but also to cost and time,” in tandem with a vigorous defence of “markets’ ability to choose climate solutions that can save the most carbon per dollar and per year.” Ultimately, Lovins says, “our best climate strategy would be to start taking economics seriously.”