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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Existe uma relação direta entre ecossistemas da machosfera e o movimento antivacina

Existe uma relação direta e documentada entre os ecossistemas da machosfera e o movimento antivacinas, uma convergência que é ilustrada na perfeição pelo conteúdo da imagem associado a Andrew Tate. Esta ligação assenta sobretudo na partilha de uma visão do mundo profundamente cética em relação às instituições estabelecidas e numa narrativa de resistência individual.

O principal ponto de contacto entre estas duas subculturas é a rejeição do que apelidam de "sistema" ou a Matrix. Tanto os grupos da machosfera como os ativistas antivacinas partilham a premissa de que os governos, os meios de comunicação social e a comunidade científica manipulam a população para manter o controlo. A metáfora da red pill - a ideia de tomar a pílula vermelha para "despertar" para a verdade oculta - é amplamente utilizada em ambos os universos, criando um terreno fértil para que teorias da conspiração sobre a saúde pública encontrem adesão junto de audiências que já desconfiam das narrativas oficiais.

Além disso, a cultura do fitness, da masculinidade dita "Alfa" e do biohacking, muito presente na machosfera, promove uma obsessão pela pureza biológica e pela autonomia física. Neste contexto, as vacinas são frequentemente retratadas como intervenções externas desnecessárias ou até prejudiciais à virilidade, à fertilidade e aos níveis naturais de testosterona. O cumprimento de orientações sanitárias ou a aceitação de vacinas é por vezes associado a traços de passividade, fraqueza ou submissão, enquanto a recusa é vendida como um ato de força, independência e rebeldia masculina.

Por fim, os próprios algoritmos das plataformas digitais facilitam esta sobreposição. Um utilizador que consome conteúdos sobre masculinidade tradicional ou conselhos de sedução é frequentemente direcionado para círculos de desinformação médica, teorias conspiratórias e políticas de extrema-direita.

Figuras influentes deste meio aproveitam estes tópicos fraturantes para gerar controvérsia, aumentar o envolvimento nas redes sociais e reforçar a sua imagem de líderes destemidos que desafiam o consenso geral.

Who is Andrew Tate?

Referências Bibliográficas
Ler mais:

segunda-feira, 27 de julho de 2026

TR/ST - Gloryhole

Melhor som aqui
Letra

Warmth of your shiny breast
This season gives you white
Persistence and practice
My begging mother
Please hold me tight

[refrão] 2X
Wasted youth is smoldering
Our lust fell in from stars
Shall only pass this once
Devote only so far
Warmed as your season
Consistently white
Expensive swallow fills my throat
Warned off the preaching in wavering white
Lost in glossy now I know

"Gloryhole" dos TR/ST: significado, estética Queer e música de Intervenção
Apesar de surgir num contexto de música eletrónica de clube e de estética soturna, Gloryhole pode ser interpretada sob o prisma da música de intervenção, ainda que distanciada dos moldes tradicionais do protesto político direto. Em vez de utilizar panfletos ideológicos ou palavras de ordem explícitas, a canção atua como uma forma de intervenção social, corporizada e existencial ao dar voz à margem, ao anonimato e ao desejo dissidente. O próprio termo refere-se a um buraco numa divisória, habitualmente em casas de banho públicas ou espaços clandestinos, projetado para práticas sexuais anónimas sem contacto interpessoal direto. Enquanto a música de intervenção clássica se foca na denúncia de instituições, na crítica económica ou no combate a regimes, o TR/ST opera no plano da política do corpo. Ao centrar a narrativa no erotismo anónimo, no desejo visceral e nos espaços subterrâneos da subcultura queer, a canção recusa a higienização e a assimilação da identidade por parte das normas heteronormativas e da moralidade burguesa. Reivindicar a obscuridade, a abjeção e o perigo do desejo cru torna-se uma tomada de posição subversiva que nega a necessidade de pedir licença para existir.

O conceito do gloryhole representa uma arquitetura da clandestinidade que, historicamente, nasceu da sobrevivência e da fuga à perseguição policial e social. Ao trazer esta realidade erótica e marginal para o centro da obra, a música intervém no espaço público e força o ouvinte a confrontar geografias subterrâneas de prazer e dor que a sociedade prefere invisibilizar, transformando o estigma num espaço de validação da memória e de libertação. Esta dimensão de protesto cultural é amplificada pela popular associação visual ao filme Funeral Parade of Roses, de Toshio Matsumoto, conectando a sonoridade de TR/ST à história da contracultura queer dos anos 60 e à luta pelo direito à existência fora dos padrões impostos.

Neste cenário, o hedonismo sombrio e os versos que evocam uma juventude desperdiçada funcionam como uma resposta existencial ao desespero do mundo contemporâneo. Perante um futuro incerto ou sufocante, entregar-se ao efémero e encontrar beleza no que é rotulado de impróprio torna-se uma ferramenta de sobrevivência imediata, afirmando que o corpo e a vida pertencem ao indivíduo e não ao controlo social. A nível sonoro, a fusão de darkwave e EBM com vocais guturais atua como um manifesto contra a sonoridade comercial genérica, criando no espaço do clube subterrâneo um santuário de transe coletivo onde o trauma, a solidão e a vergonha são expurgados através da dança. Assim, a intervenção aqui não é partidária, mas sim profundamente política na forma como usa o corpo, o desejo e a transgressão estética para resistir à norma e resgatar a liberdade individual.

Mais info:
TR/ST (Album) wikipedia

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Manel Cruz com Clã - O Navio Dela


Letra
A minha mulher não é minha
É da cabeça dela
Mesmo achando que sim
Não precisa de mim
Isso é o que me agrada nela

Não deseja ser o meu mundo
Mas tem-me em seus desejos
Eu noto nos seus olhos
A nítida presença
Das nossas aventuras

Voa com seus pássaros fantásticos
Agnósticos, simpáticos
Por campos de razões
E quando volta traz-me caramelos

Ela não se põe à janela
De corpo iluminado
Mas mostra o universo
Ao animais de caça
Quando desce ao mercado

Desce nos cabelos das estrelas
Bem nas barbas dos fantasmas
Que aprendeu a desmontar
E acaba a transformá-los em brinquedos

A minha mulher não é minha
É da cabeça dela
Mesmo achando que sim
Não precisa de mim
Isso é o que me agrada nela

Ela é o capitão do seu navio

A junção de Manel Cruz com os Clã na interpretação de "O Navio Dela" — uma canção originalmente lançada pelo músico no seu álbum a solo Vida Nova, em 2019 — representa um dos momentos mais felizes da música portuguesa recente, expondo a cumplicidade de longa data entre estes artistas. Do ponto de vista do estilo musical, a versão original assenta numa folk-pop minimalista e acústica, guiada pelo ukulele e enriquecida por arranjos de sopros e violoncelo. Contudo, ao fundir-se com a identidade dos Clã, o tema ganha uma roupagem de pop-rock alternativo muito mais sofisticada, onde a energia instrumental, os teclados texturados e a precisão rítmica da banda abraçam a cadência poética e quase saltitante de Manel Cruz.

O significado da canção centra-se numa celebração absoluta da autonomia, da liberdade e da independência feminina. O tema desarma o ouvinte logo no primeiro verso ao afirmar que "a minha mulher não é minha, é da cabeça dela", desconstruindo de imediato a ideia patriarcal de posse nas relações amorosas. O "navio" funciona aqui como uma metáfora visual para a vida, os pensamentos e o destino dessa mulher, que assume o papel de única capitã da sua jornada. O eu lírico não demonstra qualquer desejo de controlo; pelo contrário, expressa uma admiração reverente por vê-la navegar livre e por testemunhar a sua capacidade de enfrentar os próprios fantasmas e transformá-los em brinquedos, resultando numa ode ao respeito pela individualidade dentro do amor.

Quanto ao seu enquadramento, "O Navio Dela" pode ser considerada uma canção de intervenção, embora se distancie do modelo clássico e histórico do género em Portugal. Enquanto os temas de intervenção tradicionais de figuras como Zeca Afonso ou Sérgio Godinho se focavam no combate político direto e na denúncia das injustiças sociais, esta composição alinha-se com uma abordagem moderna de intervenção cultural e de costumes. Em vez do tom de protesto agressivo, a música recorre à poesia, à sensibilidade e à subtileza do quotidiano para transmitir uma mensagem profundamente política sobre o feminismo e a igualdade de género. Ao atacar o conceito de que o amor legitima a posse, a canção intervém diretamente na desconstrução do machismo e das mentalidades conservadoras, provando que a música pode ser uma arma social através do afeto e da consciencialização.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Maioria dos homens não é tóxico, aponta estudo da Universidade de Auckland


Levantamento internacional aponta baixos níveis de traços problemáticos na maior parte dos participantes. No entanto, especialistas apontam que realidade do Brasil é diferente e é preciso cautela.

A maioria dos homens é tóxica?
A maioria dos homens é realmente "tóxica"? Um estudo da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, com mais de 15 mil participantes, diz que não. A pesquisa revelou que 89,2% dos homens apresentam níveis baixos ou moderados de traços problemáticos.

O termo “homem tóxico” se popularizou e se tornou parte do vocabulário popular. Nas redes sociais, milhares de vídeos com essa tag trazem conteúdos que explicam sinais que podem indicar que um homem tem uma inclinação a ser machista, misógino ou violento.
A ciência já vinha tentando entender o que é o homem tóxico, e uma pesquisa apontou uma checklist que poderia colocar ou retirar homens dessa “categoria”. Agora, pesquisadores entrevistaram mais de 15 mil homens para entender: a maioria é ou não é tóxica?

Diferente do que muitos poderiam imaginar, a pesquisa aponta que não. Na verdade, a maioria dos homens entrevistados estava fora dessa categoria.

A pesquisa vem sendo replicada nas redes sociais, mas o que especialistas ouvidos pelo g1 explicam é que os dados são importantes, mas é preciso levar em consideração o abismo social entre a Nova Zelândia, onde o estudo foi feito, e o Brasil.

Aqui, o país vem batendo recordes de violência contra a mulher, e a maioria dos homens acha que há muita cobrança sobre eles para a igualdade entre os gêneros.

Homens não são tóxicos?
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, analisou diferentes dimensões de atitudes associadas à masculinidade — incluindo agressividade, controle emocional, visões sobre mulheres e normas de gênero. A partir disso, os participantes foram divididos em cinco perfis.

O que eles descobriram:
O perfil “atóxico”, que não tem nenhum traço tóxico, representava o maior grupo. Cerca de 35% dos homens da pesquisa estavam nele e apresentavam os menores níveis de comportamentos considerados problemáticos.
O grupo mais extremo, denominado “tóxico hostil”, teve os menores índices, representando apenas 3,2% dos entrevistados.

Para identificar o grupo mais problemático, os pesquisadores analisaram respostas ligadas a oito indicadores. Os homens classificados como “hostis” se destacaram por combinar pontuações altas em temas como:
  1. crença de que mulheres buscam controlar os homens;
  2. valorização da agressividade e da dominação;
  3. dificuldade extrema de expressar vulnerabilidade;
  4. rejeição a traços considerados femininos e maior preconceito;
  5. tendência a comportamentos de controle em relações íntimas;
  6. baixa capacidade de lidar com emoções.
“Dizer que homens são tóxicos é uma forma solta de avaliar o momento que estamos vivendo. Se queremos uma mudança de comportamento, não tenho certeza se usar o termo como se usa, de forma ampla, como um rótulo para os homens, seja útil”, explica Deborah Hill Cone, autora do estudo.

Entre os dois extremos encontrados na pesquisa, ficaram perfis considerados intermediários, com homens que podem apresentar algum nível de sexismo ou visões tradicionais de gênero, mas sem traços de hostilidade ou agressividade elevada.

Foram eles:
  1. Moderados Tolerantes a LGBT (27,2%): Níveis baixos a moderados de traços tradicionais, mas com alta aceitação da diversidade.
  2. Moderados Anti-LGBT (26,6%): Perfil semelhante ao anterior, porém com maior preconceito sexual. Ainda assim, com poucos traços de agressividade relacionada.
  3. Tóxicos Benevolentes (7,6%): Homens que apresentam um sexismo "paternalista", acreditando que as mulheres devem ser protegidas e se manter em papéis sociais restritos. Ainda assim, com pouco índice de agressividade.
Isso vale para o Brasil?
O que Hill e a pesquisadora brasileira sobre género e doutora em psicologia Ana Maria Bercht explicam é que não.

A ideia da pesquisa é ter um norte, mas é preciso entender que existe um abismo social entre o Brasil e a Nova Zelândia.

O país está nas primeiras posições de rankings mundiais de paridade de gênero, enquanto o Brasil segue na 70ª posição.

"impossível que esses dados sejam aplicados ao Brasil, que tem a violência contra mulheres vivida como uma epidemia. O resultado da Nova Zelândia reflete uma trajetória de políticas públicas que colocaram as mulheres em pé de igualdade com os homens no país. Hoje, lá, elas são vistas como pessoas individuais, e não como alguém que deve ser submissa a seus maridos." - Ana Maria Bercht, pesquisadora sobre género.

Hill, autora do estudo, reforça que a pesquisa traz uma análise importante sobre o quão distorcidas podem ser essas “etiquetas sociais” criadas, mas que isso precisa ser analisado levando em conta o cenário do país.

“Podem existir diferenças transculturais significativas se a pesquisa fosse replicada em outro contexto cultural, como o caso do Brasil”, diz.

E por que o cenário no Brasil é tão diferente?
Para os especialistas, essa é uma questão cultural, em que, no Brasil, a mulher ainda é vista como um anexo do homem, e não em sua individualidade.

Para Bercht, isso tem relação com mudanças sociais tardias: No Brasil, tem menos de 100 anos que a mulher tem o direito ao voto, a ser eleita e ao trabalho formal. Isso tudo só aconteceu no país nos anos 30. E foi só nos anos 70 que a mulher recebeu o direito de se divorciar.

Para que um homem entenda uma mulher como pessoa, ele precisa vê-la nos mesmos espaços que ele, com o mesmo poder de decisão, pautando as discussões. Isso demorou para nos ser permitido no Brasil e ainda está longe de ser equilibrado. As mulheres ainda ganham menos no mercado e não somos nem mesmo a metade dos que nos representam nas esferas de poder. - Ana Maria Bercht, pesquisadora sobre gênero.

É a partir desse histórico que a mulher é vista na sociedade. E, ainda que algumas dessas conquistas tenham quase 100 anos, dados recentes reforçam essa percepção de que o Brasil ainda caminha a passos lentos na igualdade de gênero.

Uma pesquisa feita pela Ipsos em parceria com o Instituto Global de Liderança Feminina do King's College London mostra que no país:
  1. 70% dos brasileiros sentem que está sendo exigido demais dos homens para apoiar a igualdade (a média global é de 46%).
  2. 21% concordam que a mulher deve obedecer ao marido.
  3. 16% dos homens acreditam que cuidar dos filhos torna o homem "menos masculino".
Para Hill e Bercht esse contexto que traduz a violência quase epidêmica que mulheres vem sofrendo no país e que ainda não afastam uma parcela importante dos homens de uma postura de violência e subordinação.

"Vivemos uma violência quase epidêmica contra mulheres. Ainda não somos vistas no país de forma individual e livres. Muitos homens brasileiros sequer entendem a violência como tal. Pesquisas recentes mostram que autores de violência doméstica, mesmo após serem condenados, justificam seus atos culpando a vítima ou o ciúme, demonstrando uma forte desresponsabilização masculina", explica Bercht.

A misoginia não passa batido nem mesmo nas redes sociais. Ela se reflete nas trends recentes, que trazem dicas de como homens devem tratar mulheres, com conteúdos misóginos que acumulam milhões de seguidores. Além da incitação à violência.

Recentemente, o Senado aprovou o projeto de lei que equipara a misoginia ao racismo e prevê penas maiores para crimes de ódio contra mulheres. A votação na Casa foi unânime, mas o consenso encontrou resistência na Câmara dos Deputados, onde parlamentares da oposição fazem críticas e prometem trabalhar para barrar o avanço do projeto. Porém, até agora, o projeto não saiu do papel.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Razan Al Mubarak - Foco e Filosofia

"O futuro do nosso planeta — o nosso futuro — dependerá da nossa capacidade de trabalhar não apenas entre setores, mas também entre geografias e entre culturas." - Razan Al Mubarak

Razan Al Mubarak nasceu em 1979, nos Emirados Árabes Unidos. Razan Al Mubarak é uma líder ambiental e gestora pública reconhecida pelo seu papel fundamental na proteção da biodiversidade e na luta contra as alterações climáticas.
𝐀𝐥 𝐌𝐮𝐛𝐚𝐫𝐚𝐤 foi incluída na lista das 𝟏𝟎𝟎 𝐏𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐌𝐚𝐢𝐬 𝐈𝐧𝐟𝐥𝐮𝐞𝐧𝐭𝐞𝐬 𝐝𝐞 𝟐𝟎𝟐𝟒 𝐝𝐚 𝐫𝐞𝐯𝐢𝐬𝐭𝐚 𝐓𝐢𝐦𝐞, consolidando o seu estatuto como uma voz essencial para o futuro do planeta.
Al Mubarak tem um mestrado em Compreensão Pública das Alterações Ambientais pela University College London e uma licenciatura em Estudos Ambientais e Relações Internacionais pela Tufts University.

Em setembro de 2021,fez história ao ser eleita Presidente da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), para um mandato de 4 anos tornando-se a segunda mulher a liderar a organização nos seus 75 anos de história e a primeira do mundo árabe 

Percurso Profissional e Liderança
O seu impacto é sentido tanto a nível nacional como internacional:
  1. Agência do Ambiente de Abu Dhabi (EAD): actuou como Diretora-Geral, sendo a pessoa mais jovem a assumir este cargo. Sob a sua liderança, a agência expandiu significativamente os seus esforços na proteção de espécies ameaçadas e na gestão de recursos naturais.
  2. Fundo Mohamed bin Zayed para a Conservação de Espécies: é  a Diretora Executiva desta fundação, que já apoiou milhares de projetos de conservação em mais de 160 países, focando-se em salvar espécies da extinção.
  3. COP28: em 2023, desempenhou o papel crucial de Campeã de Alto Nível das Nações Unidas para as Alterações Climáticas na COP28, que decorreu no Dubai. Nesta função, foi a ponte entre o governo e os intervenientes não estatais (cidades, empresas e sociedade civil).
Foco e Filosofia
Razan Al Mubarak é uma defensora acérrima de soluções baseadas na natureza. O seu trabalho destaca-se por:
  1. Inclusão: defende que a conservação deve incluir as comunidades locais e os povos indígenas como guardiões da biodiversidade.
  2. Multidisciplinaridade: combina a conservação científica com estratégias económicas e políticas públicas eficazes.
  3. Identidade de Género: É uma voz ativa no empoderamento feminino em cargos de decisão ambiental.
"A conservação não é apenas sobre proteger a natureza de nós próprios; é sobre proteger a natureza para nós próprios." — Razan Khalifa Al Mubarak

Reconhecimento
 Em 2018, o Fórum Económico Mundial nomeou-a Jovem Líder Global do Fórum. Em 2013, a Câmara de Comércio Americana de Abu Dhabi atribuiu a Al Mubarak o Prémio Mulheres nos Negócios.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Quem tem medo da transição verde? O que diz o novo estudo sobre o apoio ao Pacto Ecológico Europeu

Fonte: aqui

Um relatório do  Instituto Sindical Europeu designado por Who supports a (just) green transition? chegou às seguintes conclusões:
  1. O Medo do Desemprego Verde é Real: existe uma perceção generalizada de "risco socioecológico". A preocupação com a perda de postos de trabalho devido às políticas climáticas é muito forte em todos os países analisados. Este receio afeta sobretudo as pessoas com menores rendimentos, menor nível de escolaridade e trabalhadores em situações de maior precariedade laboral.
  2. Os Impostos Verdes são os mais impopulares: o estudo divide as preferências por tipo de política e conclui que as taxas e impostos ecológicos são a medida que colhe menos simpatia junto do público. Em contrapartida, as políticas de proteção social têm um apoio massivo entre os grupos mais vulneráveis.
  3. Pontes entre o Social e o Ecológico: nem tudo é divisão. O relatório descobriu que certos grupos profissionais — e não apenas os mais privilegiados ou bem posicionados no mercado de trabalho - apoiam simultaneamente tanto as políticas ambientais como as sociais.
  4. A "Fórmula Mágica" para o apoio público: o apoio à transição verde aumenta significativamente quando o ambiente é associado a medidas de compensação social. O estudo demonstra que combinar políticas ambientais com o apoio direto aos trabalhadores e a criação de impostos sobre as grandes fortunas (wealth taxes) ajuda a reduzir os conflitos distributivos e a conquistar a opinião pública.
Conclusões Detalhadas do Relatório
O estudo baseia-se num inquérito internacional realizado em sete países europeus: Alemanha, Espanha, França, Itália, Polónia, Suécia e Reino Unido.

1. O Medo do Desemprego Afeta 1 em cada 5 Europeus: Mais de 20% dos inquiridos temem perder o emprego devido às políticas de transição ecológica. Este medo (chamado no estudo de "risco socioecológico indireto") é o grande motor da resistência política (green backlash) e afeta sobretudo os trabalhadores fabris/de produção (production workers), pessoas com menor escolaridade e baixos rendimentos.

2.O Duplo Risco: Curiosamente, o estudo descobriu uma ligação direta: as pessoas que vivem em regiões mais expostas às alterações climáticas (risco direto) são frequentemente as mesmas que mais temem perder o emprego devido às leis ambientais (risco indireto).

3. Radiografia dos Grupos Profissionais e Apoios:
  • Trabalhadores de Produção (Fábricas): Apoiam fortemente a proteção social tradicional, mas rejeitam os impostos verdes por medo do desemprego.
  • Profissionais de Escritório, Serviços de Baixa Qualificação e Setor Socio-Cultural: Apoiam tanto as políticas sociais como as ambientais. O relatório identifica-os como a base eleitoral chave para avançar com uma transição justa.
  • Gestores e Quadros Superiores (Managers): Revelaram-se o grupo mais oposto à estratégia de transição justa, rejeitando tanto a intervenção pública na área social (como impostos sobre a riqueza) como a regulação ambiental.
4. Atitude Perante as Políticas: Os subsídios verdes são as medidas mais populares em geral. Os impostos e as regulações são fortemente rejeitados pelas classes mais vulneráveis e pelos gestores, encontrando apoio quase exclusivo nos cidadãos com ensino superior.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Muitos homens evitam envolver-se na questão da crise climática porque o torna feminino

Arnold Schwarzenegger é um orgulhoso defensor do clima. Homens, não querem ser como o Arnold?



“(Sê homem) Devemos ser velozes como um rio caudaloso
(Sê homem) Com toda a força de um grande tufão
(Sê homem) Com toda a força de um fogo ardente” — “Mulan” (1998)

Preocupar-se com o clima torna-o feminino?

De certa forma, é uma pergunta tola. Mas, por outro lado, é um dilema crucial para aqueles de nós que estão empenhados na luta climática. Porque a triste realidade é que muitos homens evitam envolver-se por estarem convencidos de que isso irá prejudicar a sua masculinidade.

Pelo menos é o que indica um novo estudo.

O artigo revisto por pares é relativamente simples. O professor Michael P. Haselhuhn, da escola de negócios da UC Riverside, recrutou participantes para várias pesquisas e também examinou dados de pesquisas já existentes. Controlou a idade e a ideologia política, factores que podem influenciar a percepção das pessoas sobre a crise climática. E, consistentemente, encontrou uma clara relação entre a expressão de género e a preocupação com o clima.

Especificamente, os homens que atribuem maior importância a "ser homem" são menos propensos a preocupar-se com o aquecimento global, menos propensos a sentir responsabilidade pessoal pela redução do aquecimento e menos propensos a acreditar que o aquecimento é causado pelos humanos. 

Os homens que sentem mais ansiedade em situações que ameaçam a sua masculinidade — como perder no desporto — estão menos convencidos de que as alterações climáticas estão a afectar o planeta como um todo (e os Estados Unidos em concreto).

Porque é que os homens — ou pelo menos alguns homens — se preocupam que a consciência climática dilua a sua masculinidade conquistada com tanto esforço? Haselhuhn descobriu que o desafio surge entre os homens que percecionam a "afetividade" como uma característica feminina. O problema é que preocupar-se com o ambiente também é visto como uma característica afetuosa, pelo menos tradicionalmente.

“Não é só que os homens queiram parecer homens”, disse-me Haselhuhn. “Querem evitar parecer femininos.”

De certa forma, tudo isto é intuitivo e previsível: muitos homens têm egos frágeis escondidos sob as suas aparências arrogantes e robustas. Imagino que o estudo de Haselhuhn não tenha sido nenhuma surpresa para a jornalista Amy Westervelt e para a equipa por detrás do podcast Carbon Bros, uma análise fascinante e profunda da masculinidade tóxica e da negação das alterações climáticas. Basta pensar em Joe Rogan, que destila o negacionismo climático regularmente.

Mas o estudo de Haselhuhn chamou-me a atenção.

Para começar, identificou um mecanismo psicológico que leva os homens — ou pelo menos certos homens — a rejeitar a preocupação com as alterações climáticas. Então, o que podemos fazer, se é que podemos fazer alguma coisa, para contrariar este mecanismo? Se alguns homens receiam que o envolvimento com as questões climáticas possa fazê-los parecer excessivamente efeminados e, portanto, demasiado sensíveis, poderemos reformular a acção climática de formas menos ameaçadoras para estes homens?

Infelizmente, Haselhuhn não tinha uma boa resposta. Disse-me que, na sua pesquisa, tentou reformular a questão climática para que se concentrasse na proteção dos filhos e da família. Mas isso não fez grande diferença.

"Talvez isso ajude um pouco, mas não é a solução", disse.

Noutro estudo, descobriu que, se pedir aos homens que perdoem os colegas de trabalho por erros cometidos no ambiente profissional, eles geralmente dirão que não. Mas se der aos homens a oportunidade de afirmarem primeiro a sua masculinidade — ou seja, deixá-los contar histórias que comprovem a sua masculinidade — e só depois lhes pedir que perdoem, eles tendem a concordar mais facilmente.

Infelizmente, "isto não é tão útil no mundo real", reconheceu Haselhuhn. "Não se pode estar sempre a elogiar os homens e depois perguntar sobre o clima." O seu estudo também me chamou a atenção porque me fez refletir sobre o desporto. Escrevendo sobre desporto e clima nos últimos anos, às vezes pergunto-me: será que há tão pouco activismo climático nos desportos dos EUA porque o sector é tão dominado por homens?

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

A expressão “ideologia de género” não é um conceito científico

Ler artigo aqui


Circula pelas redes sociais uma petição "Fim à Ideologia de Género" promovida pela Maria Helena Costa do Gabinete de Estudos do CHEGA e que já foi presidente de uma concelhia do mesmo partido, é também presidente da Associação Família Conservadora. Como mãe chegou a ser acusada pelo próprio filho Miguel Salazar de o ter sujeitado as chamadas "Terapias de Conversão" e de o ter feito passar por um inferno por ser homossexual!

Ora  expressão “ideologia de género” não é um conceito científico, e é por isso que não aparece na literatura académica em biologia, psicologia ou ciências sociais como uma teoria validada.

Aqui está o que é importante entender:
✅ 1. O que existe cientificamente
Em ciência existem conceitos como:
  1. identidade de género
  2. expressão de género
  3. papéis de género
  4. estudos de género
  5. variação biológica do sexo
Estes são estudados de forma científica por áreas como biologia, neurociência, psicologia do desenvolvimento, antropologia e sociologia.

❌ 2. O que não existe como conceito científico
O termo “ideologia de género” não é usado pela ciência.
É uma expressão criada em contextos políticos, culturais e religiosos, especialmente a partir dos anos 1990–2000, para criticar políticas de igualdade de género, educação sexual, direitos LGBTQIA+ ou estudos académicos sobre género.

Ou seja:
👉 É um rótulo político, não um termo técnico.

📌 3. Porque é que há confusão?

Porque:

  • alguns grupos usam a expressão para descrever qualquer abordagem moderna sobre género,

  • enquanto a comunidade científica usa conceitos diferentes, baseados em dados, não em ideologias.

🧭 Em resumo

Do ponto de vista científico, “ideologia de género” não é uma categoria, teoria ou disciplina.
O que existe são estudos de género e pesquisa sobre identidade e expressão de género, que seguem métodos científicos.

✅ Origem do termo “ideologia de género”

📌 1. Surge nos anos 1990 em contextos religiosos, não científicos

O termo nasce no final dos anos 1990, principalmente em documentos e discursos ligados a sectores da Igreja Católica. A expressão é uma tradução de “gender ideology”, usada inicialmente para criticar:

  1. as políticas internacionais de igualdade de género,
  2. o reconhecimento de direitos LGBTQIA+,
  3. e a introdução do conceito de género (como diferente de sexo biológico) em debates públicos.

O ponto decisivo foi a IV Conferência Mundial sobre a Mulher da ONU (Pequim, 1995), quando a palavra gender começou a ser adoptada amplamente nas políticas globais de direitos humanos. Alguns grupos interpretaram isso como uma tentativa de “relativizar” a diferença sexual.

Daí surgiu a reação: rotular esses avanços como “ideologia de género”.

📌 2. Ganha força nos anos 2000 através de movimentos políticos conservadores

A partir dos anos 2000, o termo espalhou-se por:

  1. movimentos anti-direitos LGBTQIA+
  2. sectores conservadores na Europa, América Latina e EUA
  3. discursos populistas que se opõem à educação sexual e às políticas de igualdade

É frequentemente usado como estratégia retórica para criar medo ou confusão, apresentando qualquer estudo sobre género como uma “ideologia imposta”.

📌 3. Não é reconhecido pela ciência ou pela academia

Nenhuma área científica — biologia, psicologia, sociologia, antropologia — usa o termo.

O que a ciência estuda é:

  1. género como construção social,
  2. identidade de género,
  3. papéis de género,
  4. diversidade sexual e de género.

Ou seja, “ideologia de género” é um conceito político-cultural, religioso e não académico.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

O que é o patriarcado? O que significa e porque é que toda a gente fala dele?

Amazona - Afro-Brasileira

O que é o patriarcado?
Derivado da palavra grega patriarkhēs, patriarcado significa literalmente “a regra do pai” e é usado para se referir a um sistema social em que os homens controlam uma parte desproporcionalmente grande do poder social, económico, político e religioso, com a herança geralmente a passar pela linha masculina.

Definindo o patriarcado, o famoso sociólogo americano Allan Johnson escreveu: “O patriarcado não se refere a qualquer homem ou conjunto de homens, mas a um tipo de sociedade em que participam homens e mulheres... Uma sociedade é patriarcal na medida em que promove o privilégio masculino ao ser dominada por homens, identificada por homens e centrada em homens. Está também organizada em torno de uma obsessão pelo controlo e envolve como um dos seus aspetos-chave a opressão das mulheres.”

Quais são as características de uma sociedade patriarcal?
Não existem duas sociedades patriarcais exatamente iguais, uma vez que as culturas e as normas são moldadas por diferentes fatores, tais como a geografia, a língua e a religião - e também porque as exigências e os avanços dos movimentos feministas em todo o mundo não são idênticos. No entanto, a principal caraterística de uma sociedade patriarcal é o facto de os homens deterem mais poder e autoridade, o que conduz subsequentemente ao privilégio masculino.

Os preconceitos profundamente enraizados fazem com que os homens ocupem a maioria das posições de liderança e controlem os recursos, tanto na esfera pública como na privada, enquanto as mulheres desempenham um papel secundário e são vistas como mais fracas e mais adequadas ao trabalho doméstico. Como tal, o lugar da mulher numa sociedade patriarcal é principalmente o de dona de casa, procriadora ou cuidadora.

Esta dominação masculina perpetua crenças e práticas (normas culturais) que - consciente ou inconscientemente - favorecem os homens em detrimento das mulheres, e estas crenças não são apenas defendidas pelos homens, mas pela maioria das pessoas nessa sociedade, independentemente do seu género.

Dados recentes do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento revelaram, em junho, que os preconceitos de género contra as mulheres “permanecem enraizados”, concluindo que “quase 9 em cada 10 homens e mulheres em todo o mundo continuam atualmente a ter esses preconceitos”. O relatório do Índice de Normas Sociais de Género da organização concluiu que “metade das pessoas em todo o mundo ainda acredita que os homens são melhores líderes políticos do que as mulheres e mais de 40% acredita que os homens são melhores gestores de negócios do que as mulheres”.

Em muitas partes do mundo, as normas patriarcais significam que as raparigas recebem pouca ou nenhuma educação, podem casar-se jovens, têm pouco ou nenhum controlo sobre o seu corpo (através do acesso a contracetivos ou abortos) ou sobre o rendimento familiar, e têm menos acesso digital do que os rapazes.

Mesmo quando os resultados escolares são comparáveis ou as raparigas têm melhores resultados escolares, as expectativas patriarcais moldam as trajetórias profissionais, estando as mulheres sub-representadas nas áreas STEM [acrónimo inglês para Ciências, Tecnologias, Engenharias e Matemáticas] e sobre-representadas por exemplo na enfermagem. Os patriarcados também se caracterizam por salários desiguais para o mesmo trabalho; menos investigação sobre doenças que afetam desproporcionadamente alguns géneros mais do que outros (por exemplo endometriose ou enxaquecas); um sentimento de direito ao sexo e ao prazer por parte daqueles que encarnam géneros mais masculinos; a existência de pobreza menstrual, que pode afetar todas as pessoas que menstruam, e o imposto cor-de-rosa - em que os bens de consumo destinados às mulheres são mais caros; encargos desiguais com os cuidados; invisibilidade das mulheres na velhice e estereótipos sobre a menopausa; e a prevalência e aceitação da violência cometida por homens: abuso doméstico, assédio sexual e feminicídio.

O patriarcado é outro termo para designar a desigualdade de género?
A desigualdade de género - o tratamento desigual de alguém com base apenas no seu género - é um resultado das sociedades patriarcais, mas os termos não significam a mesma coisa. A desigualdade de género refere-se às diferenças injustas no tratamento, oportunidades e direitos entre pessoas com base no género. Já o patriarcado é um sistema social e cultural em que o poder e a autoridade estão historicamente concentrados nos homens, o que cria e mantém essas desigualdades.

Os Estados Unidos são um patriarcado?
Apesar dos avanços no sentido da igualdade de género que têm vindo a ganhar força há mais de um século, os EUA continuam a ser uma sociedade patriarcal.

Até à data, por exemplo, nunca nenhuma mulher foi Presidente dos EUA, pelo que o poder supremo como comandante-chefe sempre coube a um homem.

Os dados mostram que os EUA ficam atrás de muitos dos seus aliados em todo o mundo no que diz respeito à licença parental remunerada, aos cuidados de saúde maternos, às taxas de fertilidade na adolescência e, cada vez mais, aos direitos reprodutivos. Também existe uma disparidade salarial persistente entre os géneros, com as mulheres a ganharem, em média, 82 cêntimos por cada dólar ganho por um homem em 2022, de acordo com uma análise do Pew Research Center. Os dados sublinham que esta diferença quase não se alterou em 20 anos e é pior para as mulheres indígenas, asiáticas, latinas e negras.

O progresso no sentido da igualdade de género não é linear nem garantido. Os ganhos no acesso ao aborto perderam-se no ano passado (com a revogação do acórdão Roe vs. Wade) e outros ganhos podem também perder-se, uma vez que a Constituição dos EUA não contém qualquer disposição que proteja explicitamente contra a discriminação com base no sexo. A Emenda dos Direitos Iguais, introduzida no Congresso em 1923, nunca foi ratificada por um número suficiente de estados, embora tenha havido esforços recentes para a reativar.

Todas as sociedades são patriarcais e sempre o foram?
Não. Nem sempre o foram.

Escrevendo para a BBC, a jornalista científica britânica Angela Saini explica que “quanto mais mergulhamos na pré-história, mais variadas são as formas de organização social que encontramos”. Referindo-se a dados arqueológicos de Çatalhöyük, na atual Turquia, descrita como uma das cidades mais antigas do mundo, Saini escreve que esta era “uma povoação em que o género fazia pouca diferença na forma como as pessoas viviam”.

Mas também existem sociedades deste género no mundo contemporâneo. Investigações anteriores identificaram pelo menos 160 populações matrilineares que existem atualmente. Trata-se de sociedades em que a linhagem é transmitida pela mãe. Isto não significa, porém, que os homens sejam discriminados nas matriarquias. Saini escreve: “Muitas vezes, nas comunidades matrilineares, o poder e a influência são partilhados entre mulheres e homens. Nas comunidades matrilineares Asante, no Gana, a liderança é dividida entre a rainha-mãe e um chefe masculino, que ela ajuda a selecionar.”

Que outras sociedades são matriarcais?
Eis apenas algumas das sociedades matriarcais que se sabe existirem em todo o mundo:

Os Minangkabau são a maior sociedade matriarcal conhecida do mundo, compreendendo milhões de pessoas que vivem na ilha de Sumatra, na Indonésia. São matrilineares, traçando a descendência e a herança através da linha feminina.

Os Bribri são uma das mais antigas comunidades matrilineares sobreviventes do mundo. Este grupo indígena vive principalmente na região montanhosa de Talamanca, na Costa Rica e, em 2015, estimava-se que existiam 11 500 pessoas nesta área, com uma população mais pequena no Panamá, mas diz-se que a sua cultura está ameaçada.

Há também os Mosuo na China, os Khasi na Índia, os Himba em Angola e na Namíbia e muitos outros. Mas mesmo as ordens sociais não existem numa escolha binária entre patriarcados e matriarcados. Das 1291 populações definidas no estudo de 2019, 590 eram patrilineares. Para além das matriarquias, tal como referido acima, o estudo também identificou cinco outras formas de as sociedades decidirem a linhagem.

O patriarcado é bom para os homens?
Sim e não. Embora tal não seja concedido de forma uniforme a todos os homens, ser designado à nascença como homem numa sociedade patriarcal traz privilégios. Mas também traz expectativas, e são essas expectativas - de que um “homem viril” é heterossexual, sempre forte, mostra pouca emoção, é o provedor e não o cuidador, domina sobre os outros, deve estar sempre no controlo - que levaram ao que é popularmente referido como masculinidade tóxica.

Estes ideais não são isentos de consequências, certamente para as mulheres (o facto de a violação conjugal não ser crime em muitos países e só ter passado a sê-lo em todos os estados dos EUA em 1993 é apenas um exemplo), mas também para os homens: estudos exploraram - e demonstraram - uma ligação entre o patriarcado e taxas de mortalidade mais elevadas nos homens.

No seu livro de 2004, “The Will to Change: Men, Masculinity and Love” [tradução à letra, “A Vontade de Mudar: Homens, Masculinidade e Amor”], a autora feminista negra Bell Hooks escreveu: “O primeiro ato de violência que o patriarcado exige aos homens não é a violência contra as mulheres. Em vez disso, o patriarcado exige de todos os homens que se envolvam em atos de automutilação psíquica, que matem as partes emocionais de si próprios."

O patriarcado pode ser desmantelado?
Qualquer sistema criado por pessoas pode ser alterado por pessoas.

O patriarcado é um sistema social que foi concebido por homens para favorecer os homens. Foi adotado ao longo dos tempos através de comportamentos aprendidos e normas culturais que colocam os homens no topo. Para desmantelar este ideal, temos de desafiar os preconceitos enraizados contra as mulheres.

Parece simples, mas há muito trabalho a fazer. Face ao “retrocesso dos direitos sexuais e reprodutivos” e aos “direitos das mulheres (...) a serem abusados, ameaçados e violados em todo o mundo”, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou em março que a igualdade de género parecia estar “a 300 anos de distância”.

Enumerando várias áreas de desigualdade, Guterres foi explícito quanto às suas causas: “Séculos de patriarcado, discriminação e estereótipos prejudiciais criaram uma enorme lacuna de género na ciência e na tecnologia”, antes de acrescentar: “Sejamos claros: as estruturas globais não estão a funcionar para as mulheres e raparigas do mundo. Têm de mudar”.

São muitas as estratégias que podem conduzir à mudança que Guterres exige, desde os esforços para alterar as normas culturais, ao acesso das raparigas à educação, à capacitação económica das mulheres e à reforma institucional. Mas a principal delas é também o financiamento e o apoio às organizações de defesa dos direitos das mulheres.

Numa coluna para a CNN, a presidente da Democracy Alliance, Pamela Shifman, escreveu: “Para inverter os danos crescentes que estão a ser causados todos os dias aos direitos das mulheres e dos LGBTQ+, os movimentos feministas precisam de mais recursos. Precisam também de liberdade para responder a novas ameaças e oportunidades e para inovar com coragem. As ameaças, na sua origem e natureza, estão sempre a mudar e precisamos de organizações feministas que sejam resilientes e capazes de mudar também. Chegou o momento de financiar a criação dessas organizações”.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Machosfera “não é brincadeira de rapazes”, é bomba relógio


Escolhem as mulheres como inimigo, são orgulhosamente misóginos, transformam a violência de género em espetáculo ‘online’, doutrinam crianças e lucram com isso – eis a machosfera, uma “bomba relógio que já explodiu”, alertam especialistas.

“Temos uma sociedade pornificada, com plataformas digitais desreguladas, onde a misoginia e a violência contra as mulheres é espetacularizada, monetizada, comercializável. É uma bomba-relógio, um problema social que já explodiu nas nossas mãos”, sublinha Maria João Faustino, especialista em violência sexual.

Isto “não é uma mera brincadeira de rapazes”, garante Inês Amaral, investigadora do Observatório de Masculinidades do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

Segundo a especialista, a misoginia “vende”, enquanto propaga filosofias “doentias e assustadoras”, num universo onde homens partilham “filmagens não consentidas de encontros com mulheres, ou até vídeos sem nada de sexual das mulheres, mães, irmãs, até das filhas”.

As “culturas digitais reacionárias e patriarcais” estão a construir “novas gerações que promovem ideias distorcidas sobre intimidade, consentimento, prazer mútuo e igualdade”, aponta Diana Pinto, da Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres.

As narrativas misturam “ressentimento, violência e nostalgia por uma ordem patriarcal perdida”, vendo como ameaça a emancipação feminina.

“Nos fóruns, nas redes sociais e nas plataformas de ‘streaming’, proliferam discursos misóginos que promovem uma cultura que sexualiza, desumaniza e até responsabiliza as raparigas e as mulheres pela violência que sofrem”, indica.

Esta “cultura digital violenta” é “potenciada por algoritmos e pela monetização de conteúdos sexistas, altamente lucrativos para alguns, nomeadamente para as plataformas”, assegura.

O problema de raiz é “muito profundo e está sedimentado em muitos séculos de desigualdade e supremacia masculina”, ganhando no ‘online’ “novas avenidas e dimensões de impunidade”, sinaliza Maria João Faustino, alertando que é “muito fácil aliciar, capturar e radicalizar jovens rapazes” para estes discursos.

A machosfera “tem muitos ecos e muitas alianças” com “a pornografia ou a extrema-direita” e “não está só nas catacumbas da internet”.

“Os misóginos são homens que partilham da vida em sociedade connosco, que vivem connosco, nas nossas casas, nas nossas famílias. É preciso fazer o reconhecimento doloroso de que são homens como nós, e muitas vezes homens que amamos, que são os nossos filhos, os nossos pais, homens em quem confiamos”, sublinha.

Maria João Faustino alerta que o problema é estrutural e tem passado “sem uma resposta preventiva ou uma abordagem séria”.

O britânico Andrew Tate, auto-denominado misógino, é para estes homens “uma espécie de herói” e propaga discursos “de uma violência atroz e uma promoção de ódio muito substancial, consumidos por centenas de milhares de jovens numa base quotidiana”, relata Inês Amaral.

“As crianças não vão ativamente à procura destes conteúdos, mas são o alvo destas pessoas”, avisa a investigadora.

Depois, “há o passa a palavra e o consumo de determinadas plataformas, nomeadamente de jogos, cheias destas ideias”, destaca, encontrando uma “ligação direta” entre a machosfera e os movimentos de Alt-Right (direita alternativa focada na supremacia branca) dos Estados Unidos da América.

É um “problema terrível”, fomentado “pelos discursos conservadores dos grupos e partidos de extrema-direita, que legitimam um discurso mais duro, de recurso à violência e de menorizar o papel das mulheres”, sinaliza Sandra Cunha, da FEM – Feministas em Movimento.

Tiago Rolino, jurista, gestor de investigação e ativista, olha para o machismo como “manifestação do sistema patriarcal”, o “topo da pirâmide de privilégios” que “está sempre presente”, bloqueando “a igualdade plena de direitos e oportunidades”.

“As primeiras vítimas do machismo são as mulheres. Mas os homens também. Têm mais suicídios, sofrem mais de doenças evitáveis porque não vão ao médico, consomem mais drogas, comentem mais crimes e têm mais depressões”, afirma.

Ser “provedor, corajoso, forte, bem constituído fisicamente, esconder as emoções, ser mulherengo e bem-sucedido” são os “pilares da masculinidade que o homem de verdade tenta atingir”, mas “nenhum os atinge a todos”, o que “causa problemas de frustração” e recurso à “violência para se imporem”, explica.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

"Ideologia do género"


Em qualquer país ocidental, por detrás da luta contra a ideologia de género, há sempre o desejo de regressar ao passado: as mulheres em casa; os gays no armário; imigrantes, só enquanto houver carência de mão de obra nacional.
Factos:
👁‍🗨Montenegro que disse que se abstinha entre Trump e Hillary Clinton.
👁‍🗨Passos Coelho apresentou o livro “Identidade e Família” do conservador Paulo Otero, com um texto contra ideologia de género.
👁‍🗨Hugo Soares disse que teria "muita dificuldade" em escolher entre Trump ou Kamala Harris.
👁‍🗨Aprovada proposta do CDS que pede o fim de "projetos ideológicos" e da possibilidade de se poder abordar a identidade de género nas aulas. Votos a favor: PSD, CHEGA, CDS, IL e Miguel Arruda.
👁‍🗨Miguel Relvas, antigo ministro do Governo de Passos Coelho, defende que PSD deve aliar-se ao partido misógino, racista e xenófobo.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Dia Internacional da Língua Materna



A língua materna, também conhecida como idioma materno, língua nativa ou primeira língua, é a língua que cada pessoa começa a adquirir logo que nasce e cria o vínculo afetivo-linguístico.

Trata-se do primeiro idioma que uma pessoa aprende, aquele que se domina melhor. Sendo, também, a língua que se fala num determinado país ou região, é relativa a quem é natural desse espaço e que se adquire, portanto, de forma natural, através da interação com o meio envolvente e está relacionada com as primeiras lembranças que a pessoa possui da sua infância.

Assim, a língua não é um mero veículo de comunicação. Encerra em si uma carga afetiva e é, para cada pessoa, estruturante da sua identidade e pertença. A língua, a par da bandeira, da constituição e de outros símbolos identifica, também, as nações e os povos.

Por outro lado, as palavras de uma língua, além de serem elementos centrais da nossa comunicação, são uma ferramenta de poder, capazes de moldar pensamentos, atitudes e comportamentos.

As palavras que escolhemos têm um impacto significativo na sociedade, podendo ser utilizadas para enaltecer, dignificar e valorizar, mas também para oprimir, acentuar injustiças e promover desigualdades.

Comunicar usando linguagem inclusiva permite combater estereótipos, contribuindo, desta forma, para afirmar o princípio constitucional da igualdade.

Esta forma de comunicação é um meio de reconhecimento de todos os membros da sociedade, legitimando, assim, a sua presença no meio linguístico.

O uso do masculino genérico, ou “falso neutro”, contribui para a perpetuação de estereótipos de género e para a invisibilizar pessoas e grupos de pessoas.

Usar uma linguagem inclusiva, que respeita o direito de todas as pessoas, é mais fácil do que pensa.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

A literatura científica contemporânea demonstra de forma consistente que a desigualdade de género não possui fundamento biológico


Estudos de Eagly e Wood (2012) mostram que diferenças entre homens e mulheres derivam principalmente de papéis sociais e contextuais, enquanto Hyde (2005) demonstra que as semelhanças psicológicas entre os sexos superam largamente as diferenças, contrariando explicações biológicas para desigualdades. Fine (2010) reforça que não há evidência sólida de que capacidades cognitivas inatas expliquem disparidades sociais. Organizações internacionais, como o World Economic Forum (2024), a UNESCO (2019) e a OMS, também identificam que desigualdades persistentes resultam de fatores estruturais e económicos, não naturais. Assim, o consenso académico indica que a desigualdade de género é socialmente construída e carece de qualquer justificação científica.

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

A identidade de género é um resultado das sociedades patriarcais


A desigualdade de género refere-se às diferenças injustas no tratamento, oportunidades e direitos entre pessoas com base no género. Já o patriarcado é um sistema social e cultural em que o poder e a autoridade estão historicamente concentrados nos homens, o que cria e mantém essas desigualdades.

Fontes sobre Patriarcado
A United Nations Economic and Social Commission for Western Asia define patriarcado como «uma forma tradicional de organizar a sociedade que muitas vezes está na raiz da desigualdade de género… onde os homens, ou o que é considerado masculino, têm mais importância do que as mulheres, ou o que é considerado feminino». 

Um artigo teórico afirma que o patriarcado é «o principal obstáculo ao avanço e desenvolvimento das mulheres… as instituições e relações sociais patriarcais são responsáveis pelo estatuto inferior ou secundário das mulheres». 

Outro estudo explora como normas patriarcais (e atitudes de género inequitativas) funcionam como motoras de violência contra as mulheres, mostrando como a estrutura patriarcal se traduz em desigualdades práticas e de poder. 

Uma publicação académica define “patriarchy” como “sistemas de poder sociais, políticos e económicos estruturados à volta da desigualdade de género. As relações de poder no patriarcado fundamentam-se na primazia dos homens, ou da masculinidade, face aos não-homens”. 

Sobre desigualdade de género: um estudo na região de Nepal mostra que «as hierarquias baseadas no poder fazem com que as mulheres enfrentem subordinação e violência», sendo a desigualdade de género “resultado” dessas relações de género desiguais. 

“O que é patriarcado?” — artigo no site do Instituto Claro. Explica que «o patriarcado representa um sistema social e cultural em que o poder … privilegia homens». 

“Patriarcado: o que é, como funciona, hoje” — no site Mundo Educação. Define patriarcado como “um sistema de organização social e cultural baseado na dominação masculina” e explica consequências como desigualdade salarial, exclusão política das mulheres, etc. 

Patriarcado - GEDES” — página do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES). Explora o patriarcado, as relações de gênero e como ele se articula com outras opressões como raça, classe e sexualidade. 

Manual/relatório: “Patriarcado e Mulher: Análise da Violência na Ordem Patriarcal de Género à Mulher Idosa” (autor Cássius Chai et al.) — discute como a ordem patriarcal de género condiciona a violência. 

Capacitação Maria Penha/MS” — define patriarcado como «uma hierarquia entre homens e mulheres, com primazia masculina». 

Fontes sobre Desigualdade de Género
Dossier “Desigualdade de Género” do Centro de Estudos Sociais (CES) (Portugal) — aborda «as desigualdades decorrentes da identidade de género e/ou sexualidade, e o modo como se cruzam com variáveis como classe social, etnicidade, nacionalidade…» 

Artigo “Desigualdade de Gênero no Brasil: Desafiando o Patriarcado e Avançando rumo à Igualdade” — demonstra a ligação entre patriarcado e desigualdade de género. 

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Nancy Fraser sobre capitalismo, opressão de género, marxismo e o momento populista pós-esquerda


O "momento populista pós-esquerda" refere-se a um período em que o populismo (tanto de direita quanto de esquerda) surge como uma resposta às crises e insatisfações sociais, especialmente após o enfraquecimento do consenso neoliberal que dominava a política entre a direita e a esquerda. A ascensão da extrema-direita e o surgimento de novas formas de mobilização social, como as dos movimentos pelos direitos ambientais e raciais, também caracterizam este período. A ascensão do populismo de esquerda é vista como uma estratégia para canalizar as insatisfações e desafiar o modelo neoliberal, enquanto o populismo de direita tende a polarizar a sociedade, defendendo valores tradicionais contra o que considera uma agenda de esquerda.

O cenário político:
Pós-política e o retorno da política
Crise do consenso neoliberal: a crise de 2008 expôs os limites do capitalismo financeiro, enfraquecendo a hegemonia neoliberal que antes unia partidos de centro-direita e centro-esquerda.
O "retorno da política": o enfraquecimento do consenso neoliberal permitiu o retorno de debates políticos mais radicais e polarizados, com a emergência de novos movimentos e ideologias.

Populismo de esquerda
Estratégia política: procura reunir diferentes demandas sociais, como as relacionadas à exploração e discriminação, para criar uma "vontade coletiva" e um "nós" que se oponha aos poderes neoliberais.
Objetivo: desafiar o modelo económico e social neoliberal, defendendo valores como igualdade e justiça social, e reconquistando instituições democráticas.
Oposição: A principal oposição é direcionada às grandes corporações e às forças da globalização, e não a outros grupos sociais como imigrantes.

Populismo de direita
Reticência: enquanto o populismo de esquerda busca romper com o neoliberalismo, o populismo de direita, embora use uma retórica anti-neoliberal, pode não estar disposto a tomar ações políticas que vão além da esfera retórica.
Polarização: Este tipo de populismo tende a polarizar a sociedade, criando uma retórica de "nós" versus "eles", onde "eles" são a agenda de esquerda, o multiculturalismo, a imigração, os direitos humanos, etc..

Desafios e críticas
Populismo e democracia: alguns académicos, como Jan-Werner Müller, questionam a ideia de populismo de esquerda, alertando que os populistas (de ambos os lados) podem ser perigosos para a democracia, pois proclamam ser a única voz do povo, atacam e excluem os que discordam deles.
Fonte de medo: outros alertam que o populismo de esquerda, ao se apoiar em "inimigos políticos permanentes", pode levar a uma sociedade baseada no medo.

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Como o capitalismo oprime as mulheres

A desigualdade de género constitui uma manifestação concreta das relações de poder que estruturam as sociedades patriarcais. O patriarcado, entendido como um sistema histórico e sociocultural que privilegia os homens e o masculino, estabelece uma hierarquia de género que legitima e reproduz a subordinação das mulheres e de outras identidades marginalizadas (Walby, 1990; Beauvoir, 1949). Trata-se, portanto, de uma estrutura geradora de assimetrias que se expressam em múltiplas dimensões — económica, política, simbólica e cultural (Bourdieu, 1998). A desigualdade de género, por sua vez, constitui o resultado observável dessas dinâmicas estruturais, manifestando-se na divisão sexual do trabalho, na disparidade salarial, na sub-representação política e na violência de género (Scott, 1986; Federici, 2004). Distinguir ambos os conceitos é essencial para compreender que o combate à desigualdade de género não se resume à correção de disparidades pontuais, mas exige a transformação profunda dos mecanismos patriarcais que as produzem (Butler, 1990; hooks, 2000).

📚 Referências sugeridas

Beauvoir, S. de (1949). Le Deuxième Sexe. Paris: Gallimard.

Bourdieu, P. (1998). La domination masculine. Paris: Seuil.

Butler, J. (1990). Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity. New York: Routledge.

Federici, S. (2004). Caliban and the Witch: Women, the Body and Primitive Accumulation. New York: Autonomedia.

hooks, b. (2000). Feminism is for Everybody: Passionate Politics. Cambridge, MA: South End Press.

Scott, J. W. (1986). “Gender: A Useful Category of Historical Analysis” The American Historical Review, 91(5), 1053–1075.

Walby, S. (1990). Theorizing Patriarchy. Oxford: Basil Blackwell.