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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Os muçulmanos eram historicamente menos tolerantes do que os cristãos?

A resposta curta é: não. E também não é verdade o contrário.

A História raramente cabe em slogans.

Se olharmos para o território que hoje é Portugal, entre os séculos VIII e XIII, encontramos uma realidade bem mais complexa. Durante o domínio islâmico, cristãos e judeus podiam manter a sua religião mediante o pagamento de impostos específicos e com algumas limitações legais. Não tinham igualdade de direitos, mas também não eram automaticamente expulsos ou obrigados à conversão. Houve discriminação, sim; mas também houve séculos de convivência, comércio e intercâmbio cultural.

Depois da Reconquista cristã, a situação inverteu-se. Os muçulmanos que permaneceram em território português (os mudéjares) continuaram inicialmente a existir em comunidades próprias, mas a sua liberdade foi sendo progressivamente restringida. Muitas mesquitas foram transformadas em igrejas, surgiram mourarias segregadas e, com o passar dos séculos, aumentaram as pressões para a conversão. No final do século XV e início do XVI, Portugal deixou praticamente de admitir a existência pública do Islão e do Judaísmo.

Ou seja: houve períodos de maior tolerância e períodos de maior intolerância dos dois lados.

Também é importante lembrar que o conceito moderno de liberdade religiosa simplesmente não existia. Tanto reinos cristãos como Estados muçulmanos entendiam a religião como parte da ordem política. A tolerância, quando existia, era normalmente pragmática e limitada, não baseada na igualdade entre cidadãos.

A História de Portugal mostra precisamente isso: nem um paraíso de convivência, nem uma guerra permanente de civilizações. Houve guerras, massacres, discriminações, mas também séculos de coexistência, acordos e influência mútua.

Outro exemplo que mostra como a História é mais complexa do que slogans é a Palestina.

Antes da criação de Israel, em 1948, a Palestina sob o Mandato Britânico tinha comunidades muçulmanas, cristãs e judaicas. Havia tensões e episódios de violência entre elas, mas também coexistência em muitas cidades. A liberdade religiosa existia, embora condicionada pelo contexto político e pelos conflitos crescentes entre comunidades.

Depois de 1948, e sobretudo após 1967, a situação tornou-se muito mais complexa. A ocupação israelita da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental trouxe restrições de circulação que afetam o acesso de muçulmanos e cristãos aos seus locais sagrados em determinados períodos. Ao mesmo tempo, Israel garante liberdade de culto dentro das suas fronteiras reconhecidas, embora organizações internacionais tenham documentado restrições relacionadas com segurança, discriminação e acesso aos locais santos.

Quem procura provar que "uma religião foi sempre mais tolerante do que a outra" está normalmente a usar o passado para alimentar debates do presente (e não a fazer História).

Fontes:

segunda-feira, 29 de junho de 2026

The New Division & Podsongs - Idols

Melhor som aqui

Letra
[verso1]
Prayers to fill the silence of the void
Notions of control have been destroyed
When enveloped and caressed
Doubt collapses under its duress

[Chorus 1]
It goes on and on and on and on, we go,
We start and stop, we speed and slow
Now we know we're all we ever had
We all worship idols good and bad 

[verso 2]
Preaching to the prophets in the crowd
Heretics and loyals all allowed
Every leader's worshipped like a God
Hanging on the words they offer us

[Chorus 2]
We go on and on and on and on, we go,
We offer up, we cast below
Do we know we're all we ever had?
When we worship our idols good and bad 

O conceito de "Idols" nasceu de uma forma muito curiosa. O Podsongs é um podcast gerido por Jack Stafford onde músicos entrevistam personalidades inspiradoras (filósofos, cientistas, ativistas) e criam uma música inédita baseada nessa conversa.

Para esta faixa, John Kunkel entrevistou o filósofo e teólogo norte-irlandês Peter Rollins. O debate girou em torno da ideologia moderna, do vazio existencial, das contradições humanas e do que Rollins chama de "a tirania da felicidade" (a cobrança social implícita para estarmos sempre bem).

O tema central aborda as contradições humanas, o vazio existencial e aquilo que Rollins designa como a "tirania da felicidade", questionando a tendência da nossa sociedade para transformar líderes, figuras públicas ou conceitos em ídolos, como se fossem divindades capazes de nos oferecer respostas definitivas. Através de uma letra que explora a futilidade da nossa procura por controlo e a constatação de que, no fundo, somos tudo o que temos, a música acaba por ser um manifesto filosófico disfarçado de tema para a pista de dança.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Viva o 1º de Maio

Giuseppe Pellizza da Volpedo - "O Quarto Estado" (1901)

Giuseppe Pellizza dá este nome à sua obra porque os trabalhadores sentiam que não eram representados pelo sistema político da época, o chamado parlamentarismo burguês. Eles constituíam um "novo grupo" social que passava a exigir voz própria e participação ativa nas decisões da sociedade. Historicamente, essa nomenclatura marca uma evolução clara: se o Terceiro Estado, liderado pela burguesia, foi o responsável por derrubar o absolutismo do Clero e da Nobreza, o Quarto Estado surgia agora como o proletariado organizado para reivindicar direitos diante da exploração exercida por essa mesma burguesia.

Na representação visual da tela, nota-se que a multidão não está armada; pelo contrário, os trabalhadores avançam de forma pacífica, mas com uma determinação inabalável. Trata-se de uma marcha em direção à "luz" do progresso e da justiça social, um recurso artístico que indica que o futuro pertenceria a esse novo estrato social. Em resumo, o Quarto Estado retratado por Pellizza era a classe operária consciente de si mesma e do seu papel histórico, marchando para ocupar o seu lugar de direito ao lado — ou mesmo à frente - dos três grupos que tradicionalmente detinham o poder.

Saber mais:
  1. Primeiro de Maio de 2026: a remuneração dos CEO mais elevados aumentou 20 vezes mais rapidamente do que a remuneração dos trabalhadores em 2025, acusa a Confederação Sindical Internacional, num relatório devastador.
  2. Em 2024, a Oxfam apresentou uma queixa formal contra a Amazon e a Walmart às Nações Unidas. Leia mais sobre a vigilância e o sofrimento nos armazéns da Amazon e da Walmart.
  3. A 7ª edição do Inquérito Mundial de Valores revelou que metade das pessoas acredita que “os ricos compram frequentemente eleições” nos seus países.
  4. A Oxfam estima que os multimilionários têm 4.000 vezes mais probabilidades de ocupar cargos políticos do que as pessoas comuns.
  5. Descarregue o relatório da CSI “Corporações que Minam a Democracia 2025”.
  6. Mais de 840 mil mortes por ano ligadas a riscos psicossociais no trabalho, diz novo relatório da OIT 

domingo, 5 de abril de 2026

Feliz Páscoa


Josh Clare é um prestigiado pintor contemporâneo norte-americano, nascido em 1982 no estado do Utah. Criado no seio das paisagens imponentes das Montanhas Rochosas, consolidou a sua base técnica na Brigham Young University-Idaho, onde se licenciou em 2007 em Belas Artes (BFA) com especialização em Ilustração. Foi durante o seu percurso académico que descobriu uma ligação profunda com a pintura de paisagem, sob a mentoria de professores que o incentivaram a observar a natureza de forma direta e rigorosa.

O seu estilo artístico fundamenta-se no impressionismo clássico e na tradição do realismo americano, com um foco quase devocional na prática en plein air (pintura ao ar livre). O trabalho de Clare é reconhecido pela habilidade magistral em captar os efeitos efémeros da luz natural, utilizando pinceladas confiantes e uma paleta de cores harmoniosa para traduzir a atmosfera de cenários rurais e montanhosos. Para o artista, a pintura transcende a mera representação visual; trata-se de uma busca por captar a essência e a "verdade" da criação, transformando elementos simples do quotidiano campestre em composições repletas de poesia e profundidade emocional. Atualmente, é considerado uma das figuras mais influentes do movimento de pintura de paisagem nos Estados Unidos, acumulando prémios de prestígio e expondo em importantes galerias nacionais.

Da Mitologia à Tradição: A Origem Pagã do Coelho e do Ovo da Páscoa

A génese desta tradição recua aos cultos pré-cristãos do Norte da Europa, onde a chegada da primavera era celebrada sob o signo da deusa Eostre, ou Ostara, a divindade teutónica da aurora e do renascimento. Para os povos antigos, a transição do inverno para o florescimento da terra exigia símbolos que traduzissem visualmente a ideia de fertilidade e vida latente. Surge aqui a lebre — a antecessora do nosso coelho doméstico — que, pela sua extraordinária capacidade reprodutiva e pelo facto de ser um dos primeiros animais a reaparecer nos campos após o degelo, se tornou o emblema vivo da abundância da deusa.

A ligação específica entre a lebre e o ovo encontra a sua raiz numa narrativa mitológica persistente, segundo a qual Eostre teria transformado um pássaro ferido num animal terrestre para o salvar do frio. Apesar da metamorfose, a criatura conservou a faculdade de pôr ovos, que decorava com cores vibrantes e oferecia à divindade em sinal de gratidão. Este mito serviu para explicar a união de dois símbolos de regeneração: enquanto o ovo representa o microcosmo e o mistério da vida protegida por uma casca que parece inerte, o coelho personifica a força ativa e a rapidez com que essa mesma vida se propaga na superfície da terra. Com a expansão do cristianismo, estas práticas não foram eliminadas, mas sim integradas através de um processo de inculturação, onde o renascimento da natureza foi reinterpretado como a ressurreição de Cristo.

A partir do século XVI, na Alemanha, esta herança consolidou-se na figura do "Osterhase", a lebre da Páscoa que avaliava o comportamento das crianças e escondia ovos decorados nos jardins. A prática foi reforçada pela proibição do consumo de ovos durante a Quaresma; como as galinhas não interrompiam a postura, os ovos eram cozidos e guardados, sendo depois oferecidos e consumidos com festividade no Domingo de Páscoa. Foi apenas no século XIX que a indústria de confeitaria, aproveitando a iconografia já profundamente enraizada no imaginário popular, começou a produzir estes símbolos em chocolate, transformando um antigo rito agrário no fenómeno global que conhecemos hoje.

Para fundamentar esta investigação, podem consultar-se obras como "Deutsche Mythologie" de Jacob Grimm (1835) , que explora as ligações linguísticas e rituais de Ostara, ou o clássico "An Egg at Easter: A Folklore Study" de Venetia Newall (1971) , que detalha a simbologia do ovo através das eras. Outras fontes essenciais incluem "The Stations of the Sun" de Ronald Hutton (1996) , sobre a evolução do calendário ritual britânico, "The Easter Hare" de Charles J. Billson , publicado na revista Folklore (1882), e o texto medieval "De Temporum Ratione" de Beda, o Venerável (775), que constitui o primeiro registo histórico da deusa que deu nome à celebração.  

Quem desejar fazer uma investigação mais profunda, sugerem-se as seguintes referências:
  1. Gimbutas, Marija (1982). The Goddesses and Gods of Old Europe. (essencial para compreender os símbolos de fertilidade, como o ovo, na pré-história e na antiguidade).
  2. Hutchinson, Sharon Elswit (2012). The East Easter Egg: A History of Symbols. (explora a transição dos ovos naturais para os ovos artísticos e a sua simbologia religiosa).
  3. Sermon, Richard (2008). From Easter to Ostara: the Reinvention of a Pagan Goddess?. In: Time and Mind. (uma análise crítica e moderna sobre como a figura de Ostara foi interpretada pelos estudiosos do século XIX, como os Irmãos Grimm).

sexta-feira, 13 de março de 2026

Laibach - God Is God


(God is God)
(God is God)
(Is God)

(God is God) [4x]

You shall see Hell all clear in the sky
You shall see darkness (Darkness)
You shall see good and evil (Evil)
You shall see city walls crumble and towers fall

[Chorus:]
God is God
God is God
God is God
God (Is God)

You shall see Lord of Life and Death
You shall see Heaven in Hell (Heaven in Hell)
You shall be blinded by light
You shall see darkness (You shall see darkness)

[Chorus]

You shall see the walls crumble (Crumble)
Walls built of pain (The walls built of pain)
And above the cries of man (The cries of man)
Hear one voice saying: (Aaargh)

I am Alpha and Omega
The beginning and the end
I am the first
And I
Am the last

(God is God, Aagh)
(God Is God)
[3x]

You shall see Hell (You shall see)
You shall see evil (You shall see)
You shall see darkness (You shall see)
You shall see sorrow (You shall see)
You shall see Death (You shall see)
You shall see

[Chorus]

A canção "God Is God", lançada no álbum Jesus Christ Superstars (1996), é na verdade uma reinterpretação de um tema original dos Juno Reactor, um projeto de música eletrónica de nacionalidade britânica. 
Esta antecipação de cerca de sete meses só foi possível porque ambas as bandas faziam parte da família Mute Records. Durante uma visita aos escritórios da editora, os membros dos Laibach ouviram uma demo da faixa de Ben Watkins e, com o humor subversivo que lhes é característico, decidiram gravá-la primeiro.
Enquanto a versão original se focava num transe psicadélico e numa experiência espiritual de dança, o Laibach transformou-a num hino pesado e ritualista. O significado da faixa na voz do grupo esloveno reside na exploração da natureza do poder e da submissão; a repetição do mantra sugere uma verdade absoluta e inquestionável, confrontando o ouvinte com a forma como as massas se curvam perante figuras de autoridade, seja na religião ou na política.

A voz de barítono profunda de Milan Fras, cria e adensa essa atmosfera que oscila entre o solene e o provocatório.

Ao misturar o sagrado e o profano através de uma sonoridade militarista, a banda promove um espelhamento ideológico, questionando se a fé fervorosa difere, na sua essência, do fanatismo político.

Este processo é parte da estratégia de "superidentificação" do Laibach, que adota símbolos autoritários de forma tão extrema que força o público a refletir sobre a própria natureza da obediência.

"The cover version can be seen as a cynical populist tactic by artists lacking in originality, a gesture of contempt or as a respectful example of good taste and seriousness.
Laibach's open rejection of originality makes the first view irrelevant and the new originals are too ambivalent to be either entirely contemptuous or totally respectful.
A Laibachised song is sometimes more kitsch, sometimes more serious and sometimes more emotional than the "old original" it is based on.
Laibachisation re- and de-animates a song, reviving it for long enough to dispatch it again." - Alexei Monroe, author of Interrogation Machine

The origin of “God Is God” is as a semi-parody of Juno Reactor [remix]’s song of the same name, which includes samples of Charlton Heston in The Ten Commandments, in which the main character (Moses) declares the plagues and wrath that will come form God. Laibach expands on that concept by using their own verses based on that “you will see” motif.

As it happens, the Juno Reactor song this is based on was a response to Laibach’s previous hit “Life Is Life/Opus Dei.” Which, it turns out, was itself a thematic parody of a pop-rock song “Live Is Life” by Austrian light rock band Opus.

sábado, 7 de março de 2026

Buffy Sainte-Marie: Universal Soldier


Canção e letra Buffy Sainte-Marie, no início dos anos 60. Buffy é uma excelente activista, com um passado atribulado. Porém foi declarada "Falsa Indígena"  

He's five feet two and he's six feet four
He fights with missiles and with spears
He's all of 31 and he's only 17
He's been a soldier for a thousand years

He's a Catholic, a Hindu, an atheist, a Jain,
a Buddhist and a Baptist and a Jew
and he knows he shouldn't kill 
and he knows he always will
kill you for me my friend and me for you

And he's fighting for Canada, 
he's fighting for France,
he's fighting for the USA,
and he's fighting for the Russians 
and he's fighting for Japan, 
and he thinks we'll put an end to war this way

And he's fighting for Democracy
and fighting for the Reds
He says it's for the peace of all
He's the one who must decide 
who's to live and who's to die
and he never sees the writing on the walls

But without him how would Hitler have 
condemned him at Dachau
Without him Caesar would have stood alone
He's the one who gives his body 
as a weapon to a war
and without him all this killing can't go on

He's the universal soldier and he 
really is to blame
His orders come from far away no more
They come from him, and you, and me
and brothers can't you see
this is not the way we put an end to war

"Universal Soldier" é uma canção escrita e gravada pela cantora e compositora canadiana Buffy Sainte-Marie. A canção foi originalmente lançada no álbum de estreia de Sainte-Marie, It's My Way!, em 1964. "Universal Soldier" não foi um sucesso popular imediato na altura do seu lançamento, mas chamou a atenção da comunidade da música folk contemporânea. Tornou-se um sucesso um ano depois, quando Donovan a regravou, assim como Glen Campbell. Sainte-Marie disse sobre a canção: "Escrevi 'Universal Soldier' ​​na cave do café The Purple Onion em Toronto, no início dos anos sessenta. É sobre a responsabilidade individual pela guerra e como o velho pensamento feudal nos mata a todos."
Em 1965, a canção chamou a atenção do aspirante a cantor folk Donovan, que a gravou usando um arranjo semelhante ao da gravação original de Buffy Sainte-Marie. Na versão de Donovan, Dachau tornou-se Liebau (Lubawka, Polónia), um centro de treino para a Juventude Hitleriana. A gravação de Donovan foi lançada num EP intitulado The Universal Soldier no Reino Unido (15 de agosto de 1965). O EP deu continuidade à sequência de lançamentos de Donovan com posições elevadas nas tabelas do Reino Unido, alcançando o 5º lugar. As faixas do EP são "Universal Soldier"; "The Ballad of a Crystal Man" com "Do You Hear Me Now?" (Bert Jansch); "The War Drags On" (Mick Softley).
A falta de interesse pelo formato EP nos Estados Unidos levou a Hickory Records a lançar a canção como single em setembro de 1965. A versão de Donovan de "Universal Soldier" teve como lado B outra faixa do EP britânico: "Do You Hear Me Now?" de Bert Jansch. O lançamento de "Universal Soldier" por Donovan nos EUA também se tornou um sucesso, alcançando uma posição superior nas tabelas do que o seu single anterior, "Colours", e chegando finalmente ao 53º lugar da tabela da Billboard. Este sucesso levou a Hickory Records a incluir a canção no lançamento nos Estados Unidos do segundo álbum de Donovan, Fairytale, substituindo uma versão de "Oh Deed I Do", de Bert Jansch. A Cash Box descreveu-a como "uma canção plangente, com um toque country, de ritmo moderado e que assume uma forte posição contra a guerra".
Saint-Marie ficou feliz por o sucesso de Donovan com esta música ter feito com que mais pessoas a ouvissem.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Carnaval - Sobre o Riso, o Ridículo e o Sagrado


Os Evangelhos referem mais de uma vez que Jesus chorou: nomeadamente, pela morte do seu amigo Lázaro e sobre Jerusalém e a sua ruína. Nunca se diz explicitamente que sorriu ou riu. Mas está escrito que se alegrou e exultou.

Comover-se, chorar, é próprio do ser humano. Como é próprio do ser humano sorrir e rir. Por isso, lá está Santo Tomás de Aquino a argumentar que, se era humano, é claro que também riu e sorriu. O animal não chora, nem ri. O rosto de um ser humano que ri às gargalhadas pode ser do mais bonito que há. Sorrir e rir é sinal da transcendência humana: o ser humano está para lá do dado e do facto e, por isso, sempre também para lá de si mesmo. Ai do homem incapaz de rir-se de si próprio.

Evidentemente, há muitas formas de sorriso e riso, e as suas causas são múltiplas. O riso exultante não se identifica com o riso do desdém. O sorriso saltitante do acolhimento e da ternura nada tem a ver com o sorriso da ironia sardónica, e, muito menos, com o sorriso sobranceiro do desprezo. Em situações-limite, o riso estoira em lágrimas e a dor explode em riso. Tive uma vez uma jovem estudante que me pediu para escrever um “trabalho” precisamente sobre o riso, pois aconteceu-lhe que a mãe ao entrar na igreja e ao ver o cadáver da sua própria mãe (avó da jovem) começou a rir. Cá está: foi tal a dor, a angústia pela morte da mãe, que começou a rir-se - é isso: rimos até às lágrimas, choramos até ao riso.

Sintomaticamente, parte substancial das nossas piadas e anedotas não versam propriamente sobre o jocoso, em si mesmo, mas sobre realidades tremendamente sérias: o sexo, a morte, o Além. Talvez por isso mesmo: por serem terrivelmente sérias. Talvez também por isso, o poder, em princípio, não tem boas relações com o humor e o riso e as ditaduras não o toleram. É que o humor e o riso podem transportar consigo doses maciças de subversão corrosiva do poder no seu exercício, sobretudo no seu ridículo - não provém ridículo de ridere, precisamente rir?

Estas más relações são notórias concretamente quando consideramos o poder eclesiástico. Ainda não há muitos, muitos anos que os seminaristas nos seminários e as freiras nos conventos passavam os dias e as noites de Carnaval em adoração ao Santíssimo Sacramento, desagravando-o pelos pecados cometidos nesses dias e nessas noites. Não sei se alguém sabia ou saberá exactamente onde é que estava ou está a diferença entre os pecados do Carnaval e os pecados das outras épocas do ano.

Foi tardiamente que os cristãos aceitaram os festejos carnavalescos às portas dos rigores da Quaresma. Apesar das tentativas da Igreja oficial para travá-los, eles continuaram e impuseram-se. Seja como for, havia na Idade Média uma festa, que era a Festa dos Loucos. Nessa festa, chegava-se ao cúmulo de paramentar um burro, que entrava, portanto, na igreja com as vestes litúrgicas.

Realizava-se a Festa dos Loucos, uma crítica brutal ao poder eclesiástico. Arranjava-se um subdiácono, o grau mais baixo da hierarquia, era vestido de “bispo”, colocado em cima de um burro, entrava na igreja com a face voltada para a cauda, de costas para o altar. Em momentos fundamentais da liturgia, o celebrante e o povo zurravam. Na transmissão simbólica do báculo episcopal, rezava-se o Magnificat naquele passo: “E Deus derrubou os poderosos e exaltou os humildes.”

Há um texto da Faculdade de Teologia de Paris, que, em 1444, assim quer justificar a Festa dos Loucos: “Os nossos eminentes antepassados permitiram esta festa. Porque haveria ela de ser-nos interdita? Os tonéis do vinho rebentariam, se de vez em quando não se abrisse o batoque para arejá-los. Ora, nós somos velhos tonéis mal ajustados, que o vinho da sabedoria rebentaria se o deixássemos ferver numa devoção contínua ao serviço divino. É por isso que dedicamos alguns dias aos jogos e à palhaçada, a fim de voltarmos em seguida com mais alegria e fervor ao estudo e aos exercícios da religião.” Pelo menos, nessa altura, era permitido pôr a ridículo o poder clerical.

No meio de todo aquele aparato do Vaticano, não há uma contradição entre a pompa e a cruz? E há aquele texto do filósofo Sören Kierkegaard, que diz mais ou menos assim: vai Sua Excelência Reverendíssima o Bispo de Copenhaga, revestido de paramentos com filamentos de ouro e um báculo e uma mitra debruados de pedras preciosas, com todo o seu séquito em esplendor, senta-se num cadeirão de prata e dá início à sua homilia sobre a pobreza. E ninguém se ri!

A alguém que se sentisse irritado com estas perguntas lembro um texto de Joseph Ratzinger, mais tarde Bento XVI, no qual escreveu que, se hoje se critica menos a Igreja do que na Idade Média, não é porque se tem mais amor à Igreja, mas a si e à carreira.

É, para mim, evidente que não deve, não pode ser permitido ridicularizar de modo boçal o Sagrado, o Divino. Se isso fosse permitido, era a hecatombe. Mas a questão é outra: pôr a nu, pelo riso, a diferença entre o Sagrado e aquilo que nós, seres humanos finitos, fazemos dele é saudável. Porque o Divino e o Sagrado não se identificam com o que fazemos deles. Quem pode imaginar e admitir o ridículo de certas imagens de Deus na inteligência e no coração de alguns crentes? Assim, rir-se do modo como nós falamos do Mistério e do modo como o tratamos pode ser uma maneira sã de nos darmos conta da Transcendência do Mistério e do Divino. Que ao mesmo tempo se revelam e se ocultam.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Unkle feat. Moby - God Moving Over The Face Of The Waters

O vídeo em questão, intitulado "UNKLE feat. Moby - God Moving Over The Face Of The Waters", é uma montagem que combina a música de Moby com cenas de um dos filmes mais icónicos do ano 2010, resultando numa fusão entre música eletrónica e cinema.

Significado da Canção
A música "God Moving Over The Face Of The Waters" foi composta por Moby para o seu álbum Everything Is Wrong (1995) e tornou-se famosa mundialmente como o tema de encerramento do filme Heat.

Título e Espiritualidade: O título é uma referência bíblica direta ao livro do Génesis 1:2 ("...e o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas").

Interpretação de Moby: Moby descreveu a canção como a sua favorita, afirmando que a compôs com uma visão da criação — um estado de vazio e escuridão antes de algo novo surgir. Musicalmente, a mistura de arpejos de piano delicados com sintetizadores orquestrais simboliza a dualidade entre a luz e a escuridão, a esperança e a tristeza.

Quem é UNKLE?
No contexto deste vídeo específico, UNKLE aparece como o responsável pela mistura ou edição sonora. Fundado por James Lavelle em 1994, o UNKLE é um projeto britânico de música eletrónica e trip-hop conhecido por colaborar com grandes artistas (como Thom Yorke, DJ Shadow e o próprio Moby).

Conexão com o Cinema: O UNKLE tem uma relação profunda com o cinema. Neste caso, o UNKLE atua como um curador audiovisual. James Lavelle (o fundador) sempre teve a visão de que o UNKLE não é apenas uma banda, mas uma experiência estética. Ao colaborar com Ross Cairns, eles pegam em "Elite" (2010) um filme que por si só já é uma obra de arte sobre a condição humana - e dão-lhe uma nova camada emocional através da música.

Ao unir as imagens de "Elite" (violência pura, esforço físico e dor) com esta música espiritual, o vídeo representa a beleza no sofrimento.Os golpes são reais. O filme é um retrato visceral de boxeadores de "bare-knuckle" (combate sem luvas) e lutadores profissionais. Cairns utilizou câmaras de alta velocidade (Phantom) para captar o impacto real dos punhos no rosto, a ondulação da pele e o suor, criando uma estética crua e hipnótica Os "socos genuínos" tornam-se metáforas para as pancadas da vida, enquanto a música de Moby sugere uma elevação espiritual ou superação através dessa dor.

Este vídeo é considerado por muitos fãs como a união perfeita entre a estética da dor e a euforia sonora.

Sandrine Piau and Armand Amar : Vivaldi - "Nisi Dominus"




Cum dederit dilectis suis 
somnum; 
Ecce haereditas Domini, filii: 
Merces, fructus ventris. 

When he has given sleep
to those he loves,
Behold, children are an inheritance
of the Lord,
A reward, the fruit of the womb


Embora o "Nisi Dominus" (RV 608) de Antonio Vivaldi tenha passagens que soam profundamente melancólicas e introspectivas, ele não é uma música de luto (como um Requiem), mas sim um Salmo de louvor e confiança.

O Significado e o Texto
A obra é uma ambientação musical do Salmo 127 (ou 126 na Vulgata Latina). O tema central não é a morte, mas a dependência humana de Deus.

A Tradução do Título: "Nisi Dominus" significa "A menos que o Senhor...".

A Mensagem: O texto diz que, sem a bênção divina, o trabalho humano é inútil: "Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam".

Por que ela soa como luto?
A confusão é muito comum por causa de um movimento específico: o "Cum Dederit".

O "Cum Dederit": É o quarto movimento desta obra e um dos mais famosos de Vivaldi. Ele é lento (Largo), etéreo e possui uma linha vocal que parece flutuar sobre cordas em surdina.

O Tema do Sono: A letra deste movimento diz: "Pois ele dá o sono aos seus amados". Na música barroca, o "sono" era frequentemente uma metáfora para a morte ou para a paz espiritual absoluta.

Uso no Cinema: Essa faixa é constantemente usada em filmes para cenas de tragédia, introspecção ou luto (como no filme James Bond: Spectre ou Suburra), o que reforça essa associação emocional no nosso cérebro.

AspectoDescrição
GêneroMúsica Sacra (Vesperal)
VozEscrita originalmente para um Contralto (ou Contra-tenor)
SentimentoContemplação, serenidade e submissão divina

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Fokofpolisiekar - Ek Skyn(Heilig)


Te vinnigTe veelEk sal al my beloftes breek as jy my net 'n kans kan geeWie sal vir my liefde maak?Wie sal vir my liefde maak?As die somer so lekker is, hoekom voel ek so fucked?
Ek skynEk skyn heiligOnder die straatligOnder die maanligSê vir my as die rewolusie verby is
GeliefdesOns weet'n Hond sal altyd na sy braaksel toe terugkeerMoenie so verbaas wees nieGooi net 'n bietjie vet op die vuurDoos siek en melancholies
Ek skynEk skyn heiligOnder die straatligOnder die maanligSê vir my as die rewolusie verby is
Ek bly verveeldEn my bene is seerEk staan voor jou deurEn my kop klop
Genade onbeskryflik grootEk is die Hel inBibber en beef die boere bedriëerDie wêreld gaan jou haat, my seunAs jy die waarheid praat gaan hulle jou wil doodmaak
Ek skynEk skyn heiligOnder die straatligOnder die maanligSê vir my as die rewolusie verby is
Ek bly verveeldEn my bene is seerEk staan voor jou deurEn my kop klop

Curiosidade: O nome da banda traduz-se literalmente como "Fck Off Police Car" o que gerou muita controvérsia na África do Sul na época da sua formação em 2003.

A canção "Ek Skyn(Heilig)" é uma das obras mais profundas e críticas do Fokofpolisiekar. Para entender o seu significado, é preciso olhar para o trocadilho no título e para o contexto cultural da banda.

1. O Jogo de Palavras: "Ek Skyn(Heilig)"
O título é um trocadilho brilhante em língua africâner:

"Ek skyn": Significa "Eu brilho".

"Skynheilig": Significa "Hipócrita" (literalmente, alguém que "brilha como um santo" mas não o é).

Ao colocar o "Heilig" (Santo) entre parênteses, a banda sugere que, enquanto tentam "brilhar" ou ser autênticos, a sociedade ou a religião os rotula como hipócritas — ou vice-versa.

2. O Significado e Temas Principais
A letra é um desabafo contra as expectativas da sociedade conservadora sul-africana e a desilusão com a religião institucionalizada.

A Luta contra a Hipocrisia: A música critica as pessoas que mantêm uma aparência de santidade ("brilham") mas vivem vidas vazias ou julgadoras. A banda questiona as normas morais impostas pela geração anterior.

Crise de Identidade: O refrão explora a sensação de estar perdido. Eles cantam sobre não se sentirem em casa e sobre a dificuldade de encontrar a "luz" (verdade) num mundo cheio de falsidade.

Desespero Existencial: Há um tom de cansaço. A música pergunta se vale a pena tentar ser "bom" segundo os padrões de outros quando isso parece inalcançável ou falso.

3. Impacto Cultural
Lançada no álbum Swanesang (2006), esta música tornou-se um hino para a juventude africâner que se sentia alienada pela Igreja Reformada Holandesa e pelo peso histórico do Apartheid. A canção diz, essencialmente: "Eu prefiro admitir que sou imperfeito do que brilhar com uma santidade falsa."

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Pensamento e Filosofia de Desmond Tutu

"Esperança é conseguir ver que há luz apesar de toda a escuridão." - Desmond Tutu

Desmond Tutu (07/10/1931 26/12/2021) foi uma das figuras morais mais relevantes do século XX, articulando de forma original a filosofia africana, a teologia cristã e a ética política. O seu pensamento desenvolveu-se sobretudo como resposta a contextos históricos concretos de injustiça estrutural, em particular o regime do apartheid na África do Sul, o que confere à sua reflexão um carácter marcadamente prático e aplicado. Mais do que construir um sistema filosófico abstrato, Tutu propõe uma ética orientada para a transformação social e para a reconstrução da humanidade ferida pela opressão.

No centro do seu pensamento encontra-se o conceito africano de Ubuntu, que funciona simultaneamente como fundamento ontológico e ético. Segundo esta conceção, o ser humano não é um indivíduo isolado, mas um ser relacional, cuja identidade se constrói no interior da comunidade. A ideia de que “eu sou porque nós somos” expressa uma ontologia relacional que contrasta com modelos individualistas predominantes na tradição filosófica ocidental. Para Tutu, a realização pessoal só é possível quando as relações humanas são justas, solidárias e reconhecedoras da dignidade de todos. O Ubuntu sustenta, assim, uma ética comunitária em que o bem individual não pode ser separado do bem comum.

A noção de dignidade humana ocupa um lugar central nesta perspetiva. Tutu defende que a dignidade é intrínseca e universal, não dependendo de raça, estatuto social, cultura ou reconhecimento jurídico. Nenhum sistema político ou económico pode legitimamente negar a humanidade de um grupo sem, ao mesmo tempo, desumanizar toda a sociedade. Esta convicção fundamenta a sua crítica moral ao apartheid, entendido não apenas como um erro político, mas como uma violação profunda da condição humana, tanto das vítimas como dos opressores. A partir daqui, o pensamento de Tutu aproxima-se das éticas dos direitos humanos, rejeitando qualquer relativismo cultural que pretenda justificar a exclusão ou a violência.

Um dos contributos mais relevantes de Desmond Tutu para a reflexão ética e política contemporânea é a defesa da justiça restaurativa. Esta abordagem ganhou expressão institucional na Comissão da Verdade e Reconciliação da África do Sul, que Tutu presidiu após o fim do apartheid. Ao contrário da justiça retributiva, centrada na punição do culpado, a justiça restaurativa procura reconhecer a verdade, responsabilizar moralmente os perpetradores e, sobretudo, reparar as relações sociais destruídas pela violência. A justiça deixa de ser entendida apenas como aplicação da lei e passa a ser concebida como um processo de cura social, no qual a memória, o reconhecimento do sofrimento e o diálogo desempenham um papel fundamental.

Neste contexto, o perdão assume uma dimensão ética e política central. Para Tutu, perdoar não significa esquecer nem negar a gravidade do mal cometido. O perdão pressupõe a verdade e a responsabilização, mas recusa a perpetuação do ressentimento como base da vida coletiva. Trata-se de um ato moral exigente, que rompe ciclos de vingança e cria condições para uma convivência futura. O perdão é, assim, entendido como uma forma de práxis transformadora, capaz de libertar tanto as vítimas como os ofensores da lógica da violência contínua.

A relação entre religião, ética e política é outro eixo fundamental do pensamento de Tutu. Embora profundamente enraizado na tradição cristã, ele rejeita uma separação absoluta entre fé e esfera pública. A religião, na sua perspetiva, deve funcionar como consciência crítica da sociedade, denunciando estruturas de injustiça e interpelando o poder quando este viola a dignidade humana. A sua célebre frase resume bem esta posição:“Se és neutro em situações de injustiça, escolheste o lado do opressor.” A neutralidade perante a injustiça é, para Tutu, uma forma de cumplicidade moral, o que levanta importantes questões filosóficas sobre responsabilidade ética, compromisso cívico e o papel das convicções morais na vida pública.

Em síntese, o pensamento de Desmond Tutu pode ser compreendido como uma ética da interdependência humana, fundada no Ubuntu, na dignidade universal e na convicção de que a justiça deve restaurar, e não apenas punir. A sua reflexão permanece particularmente актуada em contextos de pós-conflito, nos debates sobre memória histórica, reconciliação e direitos humanos, bem como na educação para a cidadania democrática. Trata-se de uma filosofia que, partindo de uma experiência histórica concreta, propõe princípios com clara relevância universal, convidando à construção de sociedades mais justas, solidárias e humanas.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Complete sequencing of ape genomes

Artigo científico
Foi feita a sequenciação genética de vários primatas, que confirma a nossa proximidade com os chimpanzés e bonobos. Na verdade, 98,7% dos genes são idênticos e apenas 1,3% explicam as nossas diferenças. 
Quando Charles Darwin publicou em 1871 "A Ascendência do Homem", puseram a sua cabeça num corpo de chimpanzé como sátira de que vínhamos dos macacos. Ainda hoje há muita gente que pensa o mesmo e que somos seres especiais vindos de não sei onde porque que assim acredita não explica a nossa origem e, não ausência de explicações válidas, remetem para os extraterrestres ou a religião, que é o conforto dos tolos.
A nossa proximidade dos chimpanzés, dos quais divergimos há 6,2 milhões de anos, não quer dizer que um dia fomos chimpanzés mas que tivemos antepassados comuns, que por sinal são mais recentes de que com os dos gorilas, dos orangotangos ou dos gibões. Cada espécie actual de primatas é a ponta de um ramo de uma árvore muito antiga que remonta aos primeiros mamíferos do Cretácico, há 71 milhões de anos, quando quando os dinossauros ainda dominavam e divergiram dos restantes mamíferos primitivos. Nessa árvore dos primatas que se subdiviu, primeiro em símios e prossimios (lémures e afins),  em numerosos galhos cada vez mais finos dos quais um somos nós, e as espécies actuais não são mais que o resultado de milhões de anos de evolução e divergências. 
Não é correcto dizer que, apesar da nossa proximidade aos chimpanzés, evoluímos a partir destes, nem é correcto dizer que evoluímos dos macacos, pois todos os primatas são macacos e nós não somos excepção. A grande diferença que temos em relação aos nossos parentes primatas mais próximos não é tanto a capacidade de fazer ferramentas, de ter cultura ou linguagem falada - os chimpanzés e bonobos também os têm -, mas a capacidade de preservar e aumentar o conhecimento pela escrita, o que levou a uma evolução sem precedentes a nível tecnológico

domingo, 30 de novembro de 2025

Islamismo, cães, gatos, FIFA e legislação sobre alimentação de animais de rua em Portugal


Marrocos estará a considerar o abate de 3 milhões de cães de rua antes do Campeonato do Mundo de Futebol de 2030 para "melhorar" a aparência da cidade. Os activistas dos direitos dos animais estão indignados. Cerca de 300 mil cães são mortos todos os anos, e este número tem aumentado desde que Marrocos foi escolhido como um dos países anfitriões.

A maioria dos muçulmanos acredita que os cães são animais impuros e, inclusive , procuram evitar todo e qualquer contato com eles, principalmente com a saliva do animal.
O engraçado é que essa crença, ao contrário do que muitos deles pensam, não está no Alcorão. O Alcorão (ou seja, Allah) não fala que os cães são impuros. O que acontece é que os muçulmanos seguem, além do Alcorão, suas interpretações: as Sunas e os Hadiths.

Sunas são as tradições e os ensinamentos transmitidos pelo profeta Muhammad (Maomé em português), que é o mais recente e último profeta do Deus de Abraão.

Hadith é um corpo de leis, lendas e histórias sobre a vida do profeta Muhammad. 

No fundo em todas as religiões do mundo há contradições e modificar uma postura incongruente e pouco ética de cada religião, demora o seu tempo.

Não deveria acontecer em parte nenhuma do mundo, infelizmente nuns países pior do que noutros e Portugal, não é exceção. Até há regulamentos municipais em Portugal que proíbem, com coimas, alimentar cães e gatos de rua.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Nordvargr - Hascimh Reborn


Hailing back to the late '80s, Nordvargr (real name Henrik Nordvargr Björkk) has been making subconscious-melting industrial, black and ambient music for more than enough time now to become well known to dark ambient fans. "Re-Awaken" is a re-release/re-mix/re-invention of the Nordvargr's 2002 debut "Awaken." If you have heard Lustmord, there will not be too many surprises here. 80% of this album follows the dark ambient passage you'd expect it to take and the defining elements are not so different as to warrant any extended reference. That is not to say, however, that "Re-Awaken" is a release that is lacking. Quite the opposite; it is a genuinely fulfilling dark ambient experience.

First off, you can't fault Nordvargr in terms of quantity on this disc. Most tracks range around the seven-minute mark and there's over an hour of sucking vortex fridge noises here to keep you entertained or mesmerize or whatever people do when they listen to dark ambient. Summon demons maybe? I can only assume so.

As you'd expect, the music itself is undeniably and hellishly dark. It's a pick and mix of horror movie soundtracks, whose only goal seems to be aggravating you with menacing build ups and more mellowed songs that are less likely to ambush you, but still likely to leave you a paranoid, possibly zen, hermit. Each track has the individual charm to keep you from hitting skip out of boredom and dynamics, such as a piano lead or pseudo black metal guitar riff or vocal line, will spring up and fill in various gaps. I will add that this fails in the case whenever the campy eastern chanting brigade turns up, but otherwise, the tracks are solid dark ambient goo.

Is that enough? Well, I personally demand a little more out of my ambient music. Mortiis, Earth, and the master himself Brian Eno can all leave me mesmerized. While I genuinely did enjoy all the tracks on display enough to get some replay value, it hasn't vaulted to the top of my ambient list. Stuff like the soft beating drums of "Sulphur Mist" and the echoing gurgles in "Natt" all add up to a polished release, but not one that you haven't essentially heard before in the dark ambient field.

Perhaps the issue is that nothing seems to push to the front and demand you remember one defining element. Ironically, there may be too much dynamic energy in "Re-Awaken" to avoid feeling like a how-to of all dark ambient features. If any element is truly mastered, it is the mellow, cavernous and tribal tracks like "Hascimh" - now that would have made for a great full length had it been pursued with minimalist zeal.

Perhaps simply being a re-issue of a great debut is enough to warrant its existence once again. It's an album that succeeds in every way it should and provides plenty of substance for enthusiasts. Thrills and chills abound, I fully recommend at least taking a dive into the strange black pool of Nordvargr.

Highs: The cavernous, quasi tribal drippings of the more minimalist tracks

Lows: No one single element that makes Nordvargr stand out from other dark ambient albums

Bottom line: "Re-Awaken" is a more than solid overview of everything dark and ambient.

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