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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A Senda da Altitude

Em tempos perigosos em que cobiça e desumanidade rimam com grosseira desmemória, os povos caminham para o abismo. A voracidade ultraliberal põe o nosso Mundo finito a ferro e fogo, ruína e saque. Nem as riquezas do fundo dos mares escapam agora aos novos ogres (os que chamam a essa rapina dos recursos vitais...«liberdade») ! Sempre a ânsia do lucro para poucos.
Nunca como hoje o sentido de leveza da vida residiu mais na busca da Altitude, individual e colectiva. A partilha, a fraternidade, o amor, a poesia, a arte, a busca de saberes, são o sal na estrada dos homens e mulheres sábios. 
Por isso de novo evoco a pintora Lourdes Castro (1930-2022), nome maior da arte portuguesa, a quem ouvi louvar a desprendida altitude que só se afirma no avançar do nosso caminhar na existência, sem egoísmo, acima de vãs vaidades, sempre na busca e partilhas de brisas essenciais: «Eu não gosto do nome 'velhice' e então inventei outra palavra, que é 'ALTitude' (do alemão 'alt', idade). Quando se entra em altitude é assim» ! 
Numa entrevista conduzida pelo jornalista João Pacheco (Expresso, 1-IX-2019), dizia a artista: «é bonito isto de as coisas na vida se irem transformando, irem gerando outras. Continua-se a respirar». Sim, é isso. Abraçar o Mundo de que fazemos parte ínfima, sentindo as suas misérias e os seus anseios. Com memória. Com utopia. Com altitude.

P.S. Um dos trabalhos da série Sombras Projectadas (Lourdes Castro com René Bértholo): os homens medem-se aos palmos na sua capacidade de solidariedade e leveza.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Superfície global do oceano atingiu a temperatura recorde de 21 graus em 2024

Extensão do gelo no Ártico e na Antártida está a atingir mínimos históricos, de acordo com outros dados recolhidos no relatório do Serviço de Monitorização Marinha do programa europeu Copernicus.

Superfície global do oceano atingiu a temperatura recorde de 21 graus em 2024© Daniele Semeraro

O ritmo do aquecimento do oceano está a "acelerar" e a temperatura global à superfície bateu um recorde na primavera de 2024, atingindo 21 graus Celsius (ºC), segundo um relatório do Serviço de Monitorização Marinha do programa europeu Copernicus.

"Todo o oceano é afetado pela tripla crise planetária: alterações climáticas, perda de biodiversidade e poluição", é referido no nono relatório sobre o estado dos mares do Serviço de Monitorização Marinha do programa da União Europeia de observação da Terra publicado esta terça-feira.

O nível do oceano está a subir a um ritmo sem precedentes de 40,8 milímetros (mm) por década, e a extensão do gelo no Ártico e na Antártida está a atingir mínimos históricos, de acordo com outros dados recolhidos no relatório.

"Reduzir as emissões, embora essencial, já não é suficiente por si só para salvar o planeta", conclui o relatório, sublinhando que "os governos devem restaurar os ecossistemas e reforçar as políticas oceânicas para proteger uma economia azul global que vale milhares de milhões".

De acordo com os dados apresentados, analisados por mais de 70 cientistas, o aquecimento da superfície do oceano é "particularmente rápido" e três vezes superior à média no Mar Negro, praticamente o mesmo que no Báltico, e mais do dobro da média no Mediterrâneo, onde o aumento é de 0,41ºC por década e as ondas de calor marinhas ocorrem entre 16 e 23 dias a mais a cada 10 anos.

Tanto 2023 como 2024 registaram ondas de calor "excecionalmente intensas e persistentes", que levaram a temperaturas da superfície do oceano 0,25ºC superiores aos recordes anteriores, superando os recordes de 2015 e 2016.

Houve zonas do Atlântico que, em 2023, experimentaram mais de 300 dias em condições de ondas de calor marinhas.

No verão desse ano, a onda de calor mais longa alguma vez registada no Mediterrâneo fez com que as temperaturas à superfície subissem 4,3 graus acima do normal naquele mar, ou seja, 40,8 mm de subida do nível do mar por década.

A subida global do nível do mar está também a "acelerar a um ritmo sem precedentes": 31,4 mm por década entre 1999 e 2006, 39,3 mm por década entre 2007 e 2015 e 40,8 mm por década entre 2016 e 2024.

O aumento cumulativo entre 1901 e 2024 é de 228 mm, sendo o risco resultante de inundações e erosão em zonas costeiras que albergam cerca de 200 milhões de pessoas.

Todos os países europeus com densidades populacionais costeiras acima das 200 pessoas por quilómetro quadrado estão a registar uma subida do nível do mar acima da média.

Em relação à perda de gelo marinho, o Ártico registou quatro mínimos históricos entre dezembro de 2024 e março de 2025, mês em que se registaram menos 1,94 milhões de quilómetros quadrados do que a média de inverno de longo prazo, uma área quase seis vezes superior à Polónia.

Na Antártida, 2025 marca o terceiro ano consecutivo de baixa extensão de gelo marinho. Em fevereiro, havia menos 1,6 milhões de quilómetros quadrados do que a média de longo prazo, uma área quase três vezes superior à de França.

O aquecimento e a acidificação afetam 16% dos corais ameaçados e 30% dos severamente ameaçados.

Os resíduos plásticos poluem todas as bacias oceânicas e, entre os países que emitem mais de 10.000 toneladas por ano, 75% fazem fronteira com os recifes de coral.

O Serviço de Monitorização Marinha é um dos seis que compõem o programa de observação da Terra Copernicus, financiado pela União Europeia.

sábado, 20 de setembro de 2025

Florestas Marinhas no Norte de Portugal: Aliadas na Luta Contra as Alterações Climáticas


Um estudo pioneiro liderado por investigadores do CIIMAR e do Centro de Ciências Marinhas e Ambientais (MARE) identifica as florestas de algas marinhas da costa norte de Portugal como aliadas estratégicas na captura e armazenamento de carbono.

O novo estudo publicado na prestigiada revista Scientific Reports revela que as florestas de kelp desempenham um papel crucial na captura e armazenamento de carbono, oferecendo uma poderosa ferramenta natural para mitigar os efeitos das alterações climáticas. Este trabalho centrou-se no estudo das florestas marinhas da costa norte de Portugal, em particular das espécies Laminaria hyperborea e Saccorhiza polyschides, as duas espécies predominantes nesta zona do país.

A investigação, liderada pelos investigadores Francisco Arenas do CIIMAR e João Franco do MARE, com o contributo de uma equipa de investigadores de ambos os centros, foi financiada pelo programa BlueGrowth do EAA Grants e teve como objetivo quantificar pela primeira vez o stock de carbono armazenado por estes habitats no norte de Portugal.

As Florestas Marinhas do Norte de Portugal
As florestas de kelp são habitats formados por algas castanhas de grande porte que desempenham um papel crucial na manutenção da biodiversidade e da produtividade marinha local. “Estes habitats são comuns na costa norte de Portugal, onde existem condições únicas para o seu desenvolvimento, e representam a fronteira mais a sul para algumas das espécies aqui encontradas”, explica Francisco Arenas, líder da investigação. No entanto, estes habitats são altamente vulneráveis ​​às alterações climáticas. “Já foi detectado um processo de tropicalização nas águas portuguesas, que coloca em risco a biodiversidade associada, bem como os serviços ecológicos que estas florestas prestam, incluindo a capacidade de capturar e armazenar carbono, conhecido como Carbono Azul, contribuindo para a mitigação das alterações climáticas”, acrescenta.

Resultados impressionantes
O estudo em causa quantificou pela primeira vez o stock de carbono armazenado por estes habitats no norte de Portugal através de medições de campo, incluindo a extensão, biomassa, crescimento e teor de carbono. “Foi a primeira avaliação do valor do carbono azul associado às florestas de kelp em Portugal”, afirma o líder do estudo e investigador do CIIMAR.

Os resultados agora publicados no artigo Potential blue carbon in the fringe of Southern European Kelp forestsmostram que estas florestas armazenam cerca de 16,48 gigagramas (Gg) de carbono numa área de 5.100 hectares, o equivalente a mais de 5.000 campos de futebol. Embora ocupem uma área relativamente pequena em comparação com o tamanho do planeta, estas florestas de algas marinhas demonstram uma eficiência de captura de carbono por metro quadrado comparável ou superior à de habitats mais extensos. Este valor corresponde a 14% do carbono azul inventariado até ao momento para Portugal, cujas estimativas anteriores se limitavam a sapais e tapetes de ervas marinhas.

Principais aliados no Carbono Azul
Graças à sua elevada produtividade, estima-se que estes habitats sejam capazes de sequestrar e exportar cerca de um terço do carbono capturado anualmente por todos os habitats de plantas marinhas do país. Esta taxa excecional de sequestro de carbono realça o papel essencial, e até agora amplamente subvalorizado, das florestas de algas marinhas na mitigação das alterações climáticas.

Segundo Francisco Arenas, estas florestas marinhas são “frequentemente desconhecidas e subvalorizadas, apesar do seu valor ecológico e económico extremamente importante na costa norte de Portugal”. Estes habitats são fundamentais tanto pela sua capacidade de mitigar as alterações climáticas como como promotores da biodiversidade local, proporcionando abrigo, alimento e áreas de reprodução para inúmeras espécies marinhas.

O estudo recomenda ainda políticas específicas para a monitorização, conservação e, eventualmente, restauração destas áreas, reforçando a sua importância não só como sumidouros de carbono, mas também como habitats vitais para a saúde dos oceanos. À luz da actual crise climática, os cientistas defendem que a inclusão das florestas de kelp nas políticas de conservação marinha e de carbono azul deve ser uma prioridade, tanto a nível nacional como global. “Com a Lei de Restauração da Natureza da União Europeia em fase inicial de implementação, é urgente desenvolver e implementar técnicas eficazes de restauração ecológica, particularmente em habitats altamente vulneráveis, mas também com elevado potencial para a prestação de serviços ecossistémicos, como as florestas marinhas”, conclui Francisco Arenas.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Compromisso de Nice declara "vitória" mesmo sem Tratado fechado sobre águas internacionais


A maior conferência de sempre sobre Oceanos não teve uma declaração vinculativa, dando força à necessidade de aprovar compromissos em diversas políticas oceânicas. O Tratado do Alto Mar está mais próximo da entrada em vigor, em janeiro, e há um grupo de 20 países que também fazem pausa na mineração do mar profundo.

O Presidente francês, Emmanuel Macron, começou a gritar "vitória" ainda a Conferência dos Oceanos estava a começar. Com a presença de 64 chefes de Estado e de Governo, 115 ministros e 12 mil delegados, a organização partilhada entre França e Costa Rica esperava dar um impulso a diversas frentes negociais na diplomacia dos oceanos. Mas apesar da mobilização, a declaração de Nice não tem metas nem é vinculativa e a reunião não foi suficiente para chegar às 60 ratificações do Tratado do Alto Mar, que deve regular 64% do oceano global.

Cinquenta Estados já depositaram os seus instrumentos de ratificação e mais seis países terminaram os seus processos nacionais nesse sentido. O comunicado final revela que 12 Estados adicionais "comprometeram-se a depositar os seus instrumentos de ratificação" do Acordo sobre Biodiversidade Além da Jurisdição Nacional até à Semana de Alto Nível da Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro de 2025. A cerimónia que marca a concretização das ratificações tem até data marcada: 23 de setembro em Nova Iorque.

A entrada em vigor deve acontecer 120 dias depois, ou seja, no final de janeiro. Com este Tratado, arranca um processo vinculativo de decisão com as COP (Conferências das Partes) semelhantes às mediáticas Conferências do Clima, ambas no domínio das Nações Unidas. A COP 1 do Alto Mar poderá ser organizada em Setembro de 2026.

Campeões dos Oceanos
No final da Conferência de Nice, contabilizam-se 37 países que aprovaram uma pausa preventiva à mineração no fundo do mar, defendendo que é preciso investigar, em primeiro lugar, os ecossistemas antes de explorar os seus recursos. Portugal foi o primeiro país a transformar esta moratória numa lei aprovada na Assembleia da República, com os votos contra do Chega e abstenção da Iniciativa Liberal.

Vinte e três países publicaram uma declaração conjunta para mobilizar a comunidade internacional neste sentido, contando também com o apoio de alguns bancos que anunciaram que não deverão financiar mais projetos de mineração nessa área.

No total, foram identificados 20 Estados-membros considerados "campeões dos oceanos" por terem ratificado o Acordo BBNJ e apoiado a moratória sobre a mineração no fundo do mar. Este grupo de países pretende mobilizar a comunidade internacional para uma governança ambiciosa dos oceanos.

Portugal está entre os 20 países deste grupo, a par do Chile, Chipre, Costa Rica, Dinamarca, Espanha, Fiji, Finlândia, França, Grécia, Ilhas Marshall, Letónia, Malta, Micronésia, Mónaco, Palao, Panamá, Eslovénia, Tuvalu e Vanuatu.

Plásticos e Áreas Protegidas
O combate à poluição registou diversos compromissos, sobretudo uma declaração subscrita por 96 países de apoio ao tratado global para combater a poluição por plástico, a negociar em Agosto. 19 Estados anunciaram planos nacionais para proteger e restaurar ecossistemas oceânicos e gerir os resíduos costeiros, incluindo os plásticos. Menos significativo foi o avanço em relação a métodos de pesca destrutivos, com a Dinamarca e França a assumirem liderança da proibição da pesca de arrasto de fundo.

Nice trouxe também uma muito ligeira aproximação ao objetivo de proteger 30% das terras e mares até 2030. Passou de 8,4% para mais de 10% de áreas protegidas, embora muitos careçam de planos de gestão para evitar que sejam apenas "áreas de papel".

A nível científico, Nice assistiu à assinatura de uma declaração para a criação do Centro Internacional Mercator para o Oceano, com 12 Estados europeus, incluindo Portugal. Haverá um segundo congresso "One Ocean Science" em 2028 para avaliar o cumprimento das recomendações transmitidas no congresso que se realizou em Nice nos dias que antecederam a Conferência da ONU, com dois mil cientistas de todo o mundo.

Pescas e Portos
Nice permitiu ainda aumentar o número de ratificações do acordo "Fish 1" da Organização Mundial do Comércio, que limita os subsídios à pesca ilegal, à pesca de espécies esgotadas e às embarcações que pescam sem regulação no alto mar. São agora 103, incluindo 14 ratificações este ano, ainda curto para chegar às 111 necessárias para a entrada em vigor do acordo.

O objetivo de melhorar a segurança a bordo dos navios de pesca está também mais próximo. 23 países já ratificaram o "Acordo da Cidade do Cabo" da Organização Marítima Internacional, com 2.935 navios elegíveis, ainda longe das 3600 embarcações necessárias para entrar em vigor, previsivelmente no final do ano.

A China ratificou também o Acordo sobre Medidas do Estado do Porto (PSMA) da FAO, que conta agora com 82 partes, de acordo com o chamado Compromisso de Nice. Costa do Marfim e Bélgica juntaram-se a outros 22 países que se comprometem-se a garantir condições de trabalho dignas aos trabalhadores do setor das pescas, aprovando a Convenção de 2007 da Organização Internacional do Trabalho.

Falta dinheiro para o Mar
Vários acordos regionais foram apresentados, destacando-se o primeiro Pacto Europeu para o Oceano, com cerca de mil milhões de euros investidos em diversas facetas desta Pacto. Ao nível dos Parlamentos, foi criada a Coligação Interparlamentar para a Proteção dos Oceanos (ICOP), anunciando um "pacote legislativo para o oceano" que cada membro se compromete a levar ao seu próprio parlamento.

Ao contrário da expressão popular, falta "atirar" bastante dinheiro ao mar. No plano do financiamento, a presidência francesa da Conferência reconhece que há sub-financiamento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14 para a defesa da vida marinha. Apenas 10 mil milhões de dólares foram investidos quando as necessidades para a sustentabilidade dos oceanos situavam-se em 175 mil milhões de dólares entre 2015 e 2019. Por isso, foi criado o programa One Ocean Finance, plataforma que junta governos, instituições financeiras, Nações Unidas e sociedade civil para dar um novo impulso no financiamento azul.

No entanto, a organização prefere sublinhar o compromisso de milhares de milhões de euros das empresas e fundações privadas, na ordem de 8,7 mil milhões de euros para os próximos 5 anos, metade dois quais com origem no setor filantrópico.

Os ativos sob gestão das instituições signatárias do Compromisso de Financiamento Oceânico "BackBlue "ultrapassam os 3 mil milhões de euros. 20 bancos públicos de desenvolvimento, representando 7,5 mil milhões de dólares por ano em investimentos em finanças azuis sustentáveis, uniram-se para formar a Coligação Oceânica das Finanças em Comum. 80 organizações de 25 países, representando um volume de negócios combinado de 600 mil milhões de euros e empregando 2 milhões de pessoas, aprovaram o apelo "Negócios no Oceano".

Um dos pontos mais sensíveis diz respeito à descarbonização total do transporte marítimo até 2050. O acordo nesse sentido foi reafirmado pelos países e armadores presentes em Nice e deverá mobilizar 100 mil milhões de dólares nos próximos dez anos para combustíveis limpos, transição energética marítima nos países do Sul e desenvolvimento do transporte por propulsão a vela.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Petição – Moratória à Mineração em Mar Profundo . Petition for a moratorium on deep-sea mining

Para: Sr. Primeiro-Ministro de Portugal, António Costa | Your Excellency, The Prime Minister of Portugal

Assinar Petição

[Português]
Exmo. Sr. Primeiro-Ministro de Portugal, António Costa

A sociedade portuguesa, ciente do importante papel do Oceano no equilíbrio climático e bem-estar de todos nós, apela a que Vossa Excelência decrete uma moratória à mineração no mar profundo português, até que os riscos ambientais, sociais e económicos sejam compreendidos de forma abrangente e esteja claramente demonstrado que esta atividade pode ser gerida de forma a assegurar a efetiva proteção do ambiente marinho e, evitar a perda de biodiversidade e salvaguardar as comunidades costeiras e a saúde humana. O Governo deve também defender internacionalmente uma moratória a esta atividade em águas internacionais.

A ANP|WWF, ONG promotora desta petição, bem como os signatários, desejam que Portugal se junte ao movimento global de países, empresas e organizações que defendem a conservação dos oceanos e não querem colocar o nosso património comum em risco. As Ilhas Fiji, Samoa e Palau anunciaram no primeiro dia da Conferência da ONU sobre Oceanos moratórias à mineração em mar profundo nas suas águas, lançando também uma Aliança Contra a Mineração em Mar Profundo. Gigantes industriais e tecnológicos, como a BMW, Google, AB Volvo, Samsung, Renault, Volkswagen, Scania, Philips, Microsoft e Northvolt já tornaram público que não irão usar minerais provenientes do fundo do mar nos seus processos produtivos. Bancos como Credit Suisse e ABM Amro também anunciaram que não vão financiar esta atividade que a UNEP já declarou ser incompatível com os seus Princípios para o Financiamento da Economia Azul Sustentável. O Presidente francês, Emmanuel Macron, apelou durante a Conferência dos Oceanos a uma moratória à mineração em mar profundo em águas internacionais.

A mineração em mar profundo destina-se a extrair minerais como cobalto, níquel e lítio do fundo do mar, com máquinas gigantescas e poderosíssimas a operar em condições muito adversas e arriscadas (elevada profundidade e sujeitas a grande pressão), destruindo localmente ecossistemas e perturbando outros a largos milhares de quilómetros em redor.

Permitir que os fundos do mar português, tão rico em biodiversidade e ecossistemas únicos como as fontes hidrotermais dos Açores, sejam alvo desta atividade tão destrutiva vai em contra-ciclo com os compromissos assumidos pelo Governo português durante a Conferência dos Oceanos da ONU, realizada em Lisboa de 27 de junho a 1 de julho, relativamente à conservação da biodiversidade e ao papel do oceano na regulação do clima.

As evidências hoje demonstram que existem muitas incógnitas a colmatar e muito a fazer em ciências marinhas, políticas e inovação industrial antes que qualquer atividade mineira em mar profundo seja permitida. Apontam ainda para o impacto que a mineração pode ter nas pescas e outras atividades económicas, trazendo prejuízos inestimáveis para todas as pessoas que dependem do mar. Além disso, pode comprometer os ciclos de carbono e nutrientes dos oceanos, enfraquecendo o importante papel que os oceanos desempenham na mitigação e adaptação às alterações climáticas.

Face ao desconhecimento dos efeitos potencialmente devastadores da atividade mineira em mar profundo, o Governo Português deve aplicar o princípio da precaução, declarando já uma moratória a esta atividade em todas as áreas marinhas sob jurisdição nacional,e defender o mesmo para as águas internacionais, pois permitir a mineração em ambientes tão pristinos e valiosos é um retrocesso, e não um passo à frente rumo a um futuro sustentável, equilibrado e equitativo.

[English]

Your Excellency, The Prime Minister of Portugal

Being aware of the important role the Ocean plays in the climate balance and well-being of ua all, the Portuguese Society calls on Your Excellency to enact a moratorium on mining the Portuguese seabed, until this activities’ environmental, social and economic risks are comprehensively understood, and it is clearly demonstrated that deep-sea mining can be managed in a way that ensures the effective protection of the marine environment, prevents biodiversity loss and safeguards coastal communities and human health. The Government should also internationally advocate for a moratorium on this activity in international waters.

ANP|WWF, the NGO promoting this petition, as well as the signatories, want Portugal to join the global movement of countries, companies and organizations that actively defend ocean conservation and do not wish to put our common heritage at risk. On the first day of the UN Ocean Conference, the island nations of Fiji, Samoa and Palau announced moratoriums on deep-sea mining in their waters, also launching an Alliance Against Deep-Sea Mining. Industrial and technological giants such as BMW, Google, AB Volvo, Samsung, Renault, Volkswagen, Scania, Philips, Microsoft and Northvolt have already made public that they will not use minerals taken from the seabed in their production processes. Banks such as Credit Suisse and ABM Amro have also announced that they will not finance this activity which UNEP has already declared to be incompatible with its Principles for Financing a Sustainable Blue Economy. Also during the UN Ocean Conference, the French President Emmanuel Macron called for a moratorium on deep-sea mining in international waters.

Deep-sea mining is aimed at extracting minerals such as cobalt, nickel and lithium from the seabed, with gigantic and very powerful machines operating in very adverse and risky conditions (high depth and subject to great pressure), destroying local ecosystems and disturbing others up to thousands of kilometers around.

Allowing the Portuguese seabed - as rich in biodiversity and unique ecosystems as the hydrothermal vents of the Azores - to be targeted by this destructive activity, goes directly against the commitments made by the Portuguese Government during the UN Ocean Conference, held in Lisbon from the 27th of June to the 1st of July, regarding the conservation of biodiversity and the oceans’ role in climate regulation.

The knowledge available today demonstrates that there are many unknown factors to be addressed and much to be done in marine science, policy and industrial innovation before any deep-sea mining should be allowed. It also points out the impact that mining can have on fisheries and other economic activities, bringing invaluable losses to all people who depend on the sea. Furthermore, it can compromise the oceans' carbon and nutrient cycles, undermining the important role the oceans play in climate change mitigation and adaptation.

Given the lack of knowledge of the potentially devastating effects of deep-sea mining, the Portuguese Government must apply the Precautionary Principle, declaring a moratorium on this activity in all marine areas under national jurisdiction, and defend the same for international waters. Allowing mining in such pristine and valuable environments is a step backwards, not a step forward towards a sustainable, balanced and equitable future.

Subscritores iniciais / Initial subscribers:

ANP|WWF - Associação Natureza Portugal, em associação com a WWF
Sciaena - Oceanos # Conservação # Sensibilização
AAPF - Associação de Armadores e Pescadores da Fuzeta
AMB - Associação Mariscadores das Berlengas
APAP - Associação de Pescadores de Armação de Pêra
APECE - Associação Portuguesa para o Estudo e Conservação dos Elasmobrânquios
Associação de Moradores da Culatra
Associação de Operadores Marítimo Turísticos dos Açores
Associação Praia do Monte Clérigo
Atlantic Naturalist
Birdlife International
ClimAção Centro
Coligação C6
DSCC - Deep Sea Conservation Coalition
FAPAS - Associação Portuguesa para a Conservação da Biodiversidade
Generation Earth - Portugal
GEOTA - Grupo de Estudos em Ordenamento do Território e Ambiente
Greve Climática Estudantil
Mission Blue
LPN - Liga para a Protecção da Natureza
OIKOS - Cooperação e Desenvolvimento
OMA - Observatório do Mar dos Açores
Ocean Alive
Ocean Rebellion
OlhãoPesca - Organização de Produtores de Pescado do Algarve
Plataforma Oceano Livre
PONG-Pesca - Plataforma das ONG Portuguesas sobre a Pesca
QuarPescas - Associação de Armadores e Pescadores de Quarteira
Quercus - Associação de Conservação da Natureza
Seas At Risk
SPEA - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves
The Climate Reality Project - Equipa em Portugal
ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Entrevista a Sylvia Earle - “Somos exímios a destruir o mundo natural. E pomo-nos a nós em risco”

Aos 85 anos, a “Joana D’Arc dos oceanos” — como a apelidou o explorador e cineasta James Cameron — continua incansável na sua defesa dos oceanos. Sylvia Earle esteve em Portugal para participar na Glex Summit, que decorreu entre Lisboa e os Açores ao longo dos últimos seis dias. O Expresso falou com a oceanógrafa, este sábado, num dos seus espaços favoritos de Lisboa — o Oceanário. No dia anterior tinha estado a mergulhar ao largo do Faial. Há mais de cinco décadas que a aclamada bióloga e oceanógrafa se dedica à defesa dos mares e das suas criaturas, lembrando sempre que “sem oceanos não há vida”. Conta com mais de sete mil horas passadas debaixo de água a explorar as profundezas marinhas e a interagir com as seres que nelas vivem. O jornal “New York Times”, deu-lhe o " petit nom" de “Sua Profundeza”.



Quando foi a última vez que mergulhou no oceano?
Ontem, nos Açores. Foi excitante observar aquelas pequenas criaturas debaixo de água. É tão pacífico. À superfície pudemos ver sete cachalotes magníficos. Terá havido um tempo em que sabiam que deviam temer os humanos. Agora, isso já não acontece, pelo menos nos Açores e noutras partes do mundo onde já não são caçadas. É um milagre quando mostramos empatia e nos colocamos no lugar do outro. A regra de ouro é tratar o outro como gostaríamos de ser tratados.
Como foi esta viagem aos Açores?
Foi uma grande alegria poder estar novamente nos Açores, no meio do Atlântico, por onde cruzam baleias, atuns e outras criaturas dos mares. è um lugar de grande riqueza marinha e que só agora, no início do século XXI, começamos a conhecer verdadeiramente. Mas ainda temos muito por descobrir.
"Desde que eu era criança, já desapareceram 90% dos grandes peixes."
Conhecemos mais sobre Marte ou a Lua do que sobre as profundezas dos oceanos?
Um amigo cientista disse-me que só se conhece uma em cada dez espécies das florestas tropicais. No oceano esse número sobe para um em 100 ou um em mil. Temos muito a descobrir sobre as pequenas e grandes criaturas do mar profundo. E isso é excitante. Ao longo da minha vida, apercebi-me da magnitude da nossa ignorância. Essa ignorância deve levar-nos a ter muito cuidado em relação ao que destruímos. Somos exímios a destruir o mundo natural. Mas ao fazê-lo pomo-nos a nós em risco. Temos o poder de eliminar ecossistemas inteiros. No último meio século, exterminámos florestas e biodiversidade em terra e no mar. Desde que eu era criança, já desapareceram 90% dos grandes peixes.
Começou a explorar os mares nos anos 50 do século XX. Quando olha para os últimos 70 anos de ação humana, o que sente?
Sinto-me muito triste. Não só pelo que afeta o oceano, mas também em relação à minha espécie. Pela primeira vez podemos olhar para todo o mundo e para o nosso lugar nele de uma forma que mais nenhuma criatura pode fazer. As baleias são muito espertas, os golfinhos são incrivelmente inteligentes, as aves têm um grande conhecimento e também conheço uns quantos peixes e polvos bem espertos. Mas não conseguem saber o que as crianças humanas hoje já sabem.
Se esses seres marinhos pudessem votar, as coisas seriam diferentes?
Já estaríamos fora daqui (risos). Nós somos destruidores e temos uma longa história de tirar, tirar, tirar. Podíamos pensar que estamos na era mais próspera da nossa história, e não nos apercebemos que nos colocamos em risco. Precisamos das árvores, da natureza, das baleias, dos atuns. E eles precisam de nós para cuidarmos do mundo natural e restaurar o que destruímos. Adorava testemunhar o mundo de há mil anos, antes de termos começado a exterminar a vida na terra.
James Cameron vê-a como a Joana d'Arc dos oceanos. Vê-se neste papel?
(risos) Não me vejo neste ou naquele papel. Apenas tive o privilégio de ver coisas que outros não viram e de testemunhar e partilhar o que vi. Imagine se os astronautas não partilhassem o que veem? Falei com a Cathy Sullivan, depois dela ter dado os seus passos no espaço, há muitos anos, e perguntei-lhe como foi. E ela apenas disse: “Foi mesmo fantástico!” E partilhou imagens do que viu. O James Cameron também foi às profundezas do oceano e mostrou-nos imagens maravilhosas do que lá viu.
O secretário geral da ONU, António Guterres, tem alertado para pararmos com a guerra contra a natureza, mas parece que os líderes mundiais continuam a não ouvir.
Não é porque não saibam. Há o conhecimento e há provas científicas de que estamos em guerra com a natureza, como diz o secretário-geral da ONU. E esta guerra contra a natureza vai contra o nosso sistema de suporte de vida. Os astronautas fazem tudo o que podem para se manter vivos no espaço, cuidam do sistema de oxigénio que os suporta, mantêm a temperatura adequado. E também há muito que nos enviaram a mensagem de que o imenso Universo que nos rodeia não é amistoso. Não é uma alternativa para os quase oito mil milhões de pessoas que vivem neste planeta. A Terra é a nossa casa. E temos de cuidar dela e não o temos feito.
E porquê?
Porque olhamos para a natureza como uma fonte de recursos, de produtos. Mas acho que estamos a começar a ver as coisas de forma diferente. Sem oceanos não temos vida em terra.
A sua organização Mission Blue tem-se dedicado, em parceria com outras organizações, nomeadamente com a Fundação Oceano Azul, à criação de áreas marinhas protegidas — a que chama “Hope Spots”. Fale-nos desse projeto.
A ideia surgiu em 2009, quando ganhei um prémio TED que permitiu juntar meios para abraçar o oceano e criar espaços de esperança com tamanho suficiente para salvar e restaurar o coração azul do planeta. Nessa altura, apenas 1% da área dos oceanos era protegida. É uma ilusão pensar que os peixes e outras espécies marinhas nunca vão acabar. Já desapareceram 90% dos peixes! As alterações climáticas estão aí e assistimos à acidificação e desoxigenação dos oceanos. Temos de reforçar a proteção dos oceanos! Com o projeto “Hope Spots”, a ideia é trabalhar com os Governos, com organizações não governamentais, empresas e fundações para criar áreas marinhas protegidas, que sirvam de locais de descanso e de esperança para os animais marinhos, a salvo da predação humana. Mas é preciso trabalharmos em conjunto. Nenhuma organização isolada consegue fazer a diferença necessária. Daí projetos como os do Pristine Seas, da National Geographic [que também participou no programa Blue Azores, organizado pela Waitt Foundation e pela Fundação Oceano Azul] .

Há anos que passa a mensagem de que “sem os oceanos não temos vida em terra”. Mas a humanidade não mudou muito o seu comportamento no último meio século.
Está a começar a mudar. E, pela primeira vez, vejo verdadeiras razões para ter esperança. Temos de transformar o nosso coração e criar empatia pelas outras formas de vida, seja a dos animais que temos andado a destruir, seja a de outros seres humanos.

Acha possível atingir o objetivo de proteger 30% dos nossos mares até 2030, como defende a ONU e a Estratégia Europeia para a Biodiversidade?
Acredito que é possível proteger 30% dos oceanos, porque temos o conhecimento para tal. Sabemos que temos de dar outro valor à natureza, que temos de cuidar do nosso sistema de suporte de vida. É aos oceanos que vamos buscar o oxigénio de que precisamos para respirar. São os oceanos que nos permitem controlar as temperaturas e a química planetária. É a diversidade de vida em terra e no mar que torna o planeta habitável. E quanto mais a destruirmos, mais pomos em risco a nossa própria vida. Sabemos de tudo isto e não há desculpas. Estamos no século XXI, precisamos de outras políticas, de outras atitudes e de leis que impeçam que se continue a matar grandes quantidades de vida selvagem. Se continuarmos a agir como temos agido, isso vai-nos assombrar.
Uma baleia vale mais viva do que morta. Isso é claro nos Açores, em que a observação turística ou científica de baleias há anos revela ser mais rentável do que a sua pesca, mas também para as alterações climáticas.
Na cimeira de Davos, antes da pandemia varrer o mundo, fizeram um cálculo sobre o valor das baleias vivas, pela capacidade de armazenarem carbono a pensar nas alterações climáticas e estimam que possa representar um trilião de dólares em sequestro de carbono que permite manter o clima mais estável. E se funciona com as baleias também funciona com os atuns, as lulas ou outros seres marinhos. São todos capazes de sequestrar carbono no oceano e quando os matamos estamos a libertar carbono para a atmosfera.
Que expectativas tem face ao futuro?
Espero que as crianças cresçam e mudem as coisas. O ano de 2020 revelou-nos que quando a nossa vida está em risco, mudamos comportamentos. Se nos dissessem em 2019 que não poderíamos viajar durante um ano, que teríamos de usar sempre máscara e de nos afastarmos dos nossos amigos, as pessoas diriam que era uma loucura. Mas fizemo-lo e vimos que está a funcionar. Por vezes, basta parar de fazer o que andamos a fazer e portar-mo-nos bem durante algum tempo. A natureza celebra quando entramos em confinamento. E precisamos de criar empatia com o mundo vivo.
É a voz da campanha “Rise Up”, subscrita por centenas de organizações, que pretende reforçar a necessidade de medidas como a suspensão de novas explorações de hidrocarbonetos, a proibição da pesca de arrasto ou da utilização de plásticos de uso único até 2025. O que pensa da mineração em mar profundo?
É mesmo uma má ideia. Temos de impedir que se consumam recursos que estão ainda intactos. Temos de nos afastar dos combustíveis fósseis e deixar onde estão todos os depósitos de minerais no fundo do mar. Estamos na era dos smartphones, dos tablets e dos computadores que precisam de materiais para as suas baterias e ecrãs. Mas podemos reutilizar mais e reciclar o lítio, o cobalto, o níquel e outros materiais que já capturamos em terra, em vez de continuarmos a explorar recursos que estão intactos. A terra é a nossa casa e temos de nos erguer para defendê-la. Não há tempo a perder.