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domingo, 16 de agosto de 2026

Desertificação. Portugal é o quinto país da UE com mais solo afetado


A desertificação em Portugal não mora só no Alentejo
Um relatório publicado em 2026 pelo Centro Comum de Investigação (JRC) da Comissão Europeia, “Rumo a uma melhor caracterização da degradação dos solos e da desertificação na União Europeia”, aplicou, pela primeira vez, uma metodologia comum a toda a União, respondendo a uma recomendação do Tribunal de Contas Europeu. As zonas áridas, semiáridas e sub-húmidas secas cobrem hoje 15% da UE, e a desertificação afecta 530 mil quilómetros quadrados, cerca de 12% do território comunitário, com impacto directo sobre 42 milhões de pessoas. As percentagens mais altas de território sob condições de desertificação registam-se em Espanha (53%), Chipre (45%) e Grécia (36%). Numa tabela mais detalhada do mesmo relatório, Portugal surge em 5.ª posição, com 27,5% do território classificado em desertificação - atrás da Bulgária, que soma 32,85%.

Cerca de 71% do território de Portugal continental apresenta suscetibilidade moderada, alta ou muito alta à desertificação, alerta a associação ambientalista ZERO, na véspera do arranque da 17.ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17).

A conferência começa esta segunda-feira, 17 de agosto, em Ulaanbaatar, na Mongólia, e prolonga-se até dia 28. Sob o lema «Restoring Land. Restoring Hope.» («Restaurar a Terra. Restaurar a Esperança»), a COP17 reúne as 197 Partes da Convenção, representantes da sociedade civil, cientistas e setores ligados à gestão da terra.

Num contexto em que até 40% da superfície terrestre do planeta está afetada pela degradação das terras, a ZERO defende que a conferência deve permitir acelerar a passagem dos compromissos à ação, nomeadamente através da substituição das atuais políticas de reação às secas por medidas de prevenção, preparação e aumento da resiliência dos territórios.

COP17 tenta chegar a acordo sobre resposta global à seca
Uma das principais questões em discussão na Mongólia será precisamente a governação internacional da seca. A COP16, realizada em Riade, em 2024, terminou sem acordo quanto ao modelo a adotar, remetendo para a conferência deste ano a negociação de um quadro global ou protocolo para uma gestão mais proativa das secas e a definição do seu grau de vinculação.

Para a ZERO, é necessário deixar de encarar as secas essencialmente como emergências às quais se responde depois de os seus efeitos se fazerem sentir. A associação defende o investimento antecipado na saúde dos solos, na retenção e utilização eficiente da água, na recuperação dos ecossistemas, em sistemas de alerta precoce e na adaptação da agricultura e do território.

Entre as prioridades que deverão marcar a COP17 estão a criação de um quadro internacional de prevenção e gestão das secas, a recuperação de solos e ecossistemas degradados, a definição de objetivos mensuráveis para o período pós-2030 e a garantia de financiamento, bem como de maior articulação entre as convenções internacionais sobre clima, biodiversidade e desertificação.

Quase um terço do território português tem suscetibilidade alta ou muito alta
Em Portugal, os dados citados pela ZERO a partir do Relatório do Estado do Ambiente mostram que 4,7% do território continental apresenta suscetibilidade muito elevada à desertificação, 27,9% alta e 38,2% moderada, perfazendo cerca de 71% do território nas três classes.

A associação recorda que desertificação não significa necessariamente a transformação de um território num deserto, mas sim a degradação das terras nas regiões secas, resultante da interação entre o clima e as atividades humanas.

As alterações climáticas aumentam o risco, mas, sublinha a ZERO, a desertificação não é inevitável: más práticas na utilização do solo e da água podem acelerar o fenómeno, enquanto políticas adequadas nas áreas da agricultura, floresta, água e ordenamento do território podem preveni-lo e contribuir para a sua inversão.

A COP17 realiza-se ainda no Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores. Em Portugal, as pastagens representam cerca de um quinto da área continental e mais de metade da Superfície Agrícola Utilizada. Quando corretamente geridas, contribuem para proteger o solo da erosão, reter água, armazenar carbono e preservar a biodiversidade, enquanto o sobrepastoreio, a compactação e a perda de coberto vegetal aceleram a degradação.

ZERO pede ao Governo que faça do combate à desertificação uma prioridade
A associação chama também a atenção para a revisão do Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação (PANCD). O processo deverá estar concluído no final deste ano e, segundo a ZERO, o novo programa deve estabelecer objetivos, metas, indicadores, calendário e financiamento concretos.

A organização ambientalista considera essencial articular as políticas de combate à desertificação com agricultura, regadio, gestão da água, florestas, biodiversidade, clima e ordenamento do território. «Combater a desertificação não é simplesmente aumentar a oferta de água», salienta, defendendo antes a recuperação dos solos, a retenção da água no território e a adaptação das culturas e atividades às disponibilidades hídricas.

À entrada da COP17, a ZERO apela, por isso, ao Governo para que assuma o combate à desertificação como uma prioridade nacional ligada à adaptação climática, conclua a revisão do PANCD com metas e financiamento claros, proteja as pastagens e os sistemas agroflorestais e dê prioridade à saúde dos solos e à retenção da água.

Para a associação, prevenir continua a ser a opção mais eficaz: evitar a degradação do solo é mais eficiente do que tentar recuperá-lo depois de perdida a sua fertilidade e capacidade de retenção de água, pelo que a COP17 deverá servir para acelerar essa mudança, tanto a nível mundial como em Portugal.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Há um novo estreito em risco por causa da guerra entre Irão e EUA - trata-se do Estreito de Bab El-Mandeb : custos do comércio global podem disparar



O estreito de Bab El-Mandeb é uma das rotas comerciais mais importantes do mundo e separa os continentes asiático e africano. É a ligação entre o Mar Vermelho e o Oceano Índico, através do Golfo de Áden, e também uma das vias marítimas para o Canal do Suez, que liga ao Mediterrâneo.

A localização do Bab El-Mandeb confere-lhe uma enorme importância estratégica, que o Irão ameaça agora, através dos houthis, os maiores aliados que Teerão tem na região.

Os houthis são uma parte dos chamado Eixo da Resistência, uma coligação militar informal, liderada pelo Irão, que reúne vários grupos rebeldes armados que lutam contra a influência dos Estados Unidos, Israel e aliados no Médio Oriente.

O estreito fica entre o Iémen, o Djibuti e a Eritreia e é usado por cerca de 20 mil navios por ano, que representam um quinto de todo o comércio mundial.

Desde que o Irão bloqueou Ormuz, por exemplo, tem sido usado pela Arábia Saudita como única via para exportar milhões de barris de petróleo.

Nos últimos dois anos, os houthis atacaram e sequestraram alguns navios na passagem por Bab El-Mandeb, mas agora ameaçam com ataques em grande escala, que podem obrigar ao fecho do estreito e que podem, mesmo, chegar aos navios que atravessam o Mar Vermelho.

A ameaça de eventual bloqueio surge poucas horas depois de o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter voltado a endurecer o discurso contra Teerão, incluindo referências a possíveis ataques a infraestruturas como centrais elétricas e pontes.

Neste domingo Ali Akbar Velayati, conselheiro do novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, afirmou neste domingo numa publicação em inglês na rede social X que Washington deve encarar esta passagem estratégica “como encara Ormuz”, sugerindo que poderá sofrer perturbações semelhantes às já registadas no Golfo Pérsico.

Um analista do Atlantic Council não tem dúvidas do que pode acontecer se Trump não terminar rapidamente esta guerra: "O regime iraniano demonstrou o imenso poder global que pode exercer ao fechar o Estreito de Ormuz e ao pressionar a economia mundial. Se Trump agravar a situação ao atacar a ilha iraniana de Kharg, de onde é exportado 90% do petróleo do Irão, ou atacar a infraestrutura energética regional, o Estreito de Bab el-Mandeb tornar-se-á uma via crucial para o regime demonstrar o seu poder. Não estamos numa situação em que os iranianos estejam a capitular, já que Trump também está desesperado para negociar", constatou Danny Citrinowicz, citado pelo El País.

Se isso acontecer, será mais um golpe severo para a economia mundial, com os navios obrigados a irem dar a volta pelo Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, aumentando exponencialmente os custos de milhares de produtos essenciais.

domingo, 22 de março de 2026

«Manipulação climática»: gigantes dos combustíveis fósseis abandonam metas de neutralidade carbónica


Nova análise alerta que algumas das maiores petrolíferas mundiais entraram numa fase de manipulação para aumentarem os lucros

As grandes petrolíferas são acusadas de estarem a “abandonar discretamente” as suas promessas climáticas para justificarem a continuação do uso de combustíveis fósseis poluentes.

Uma nova investigação da Clean Creatives, um projeto para profissionais de relações públicas e publicidade conscientes do clima, acompanhou como as Big Oil têm vindo a mudar “de forma sistemática” a sua narrativa nos últimos quatro anos, apesar dos repetidos alertas sobre o aquecimento do planeta.

Intitulado Toxic Accounts: From Greenwashing to Gaslighting , o relatório analisa mais de 1.800 peças de campanha das gigantes dos combustíveis fósseis BP, Shell, ExxonMobil e Chevron entre 2020 e 2024.

Inclui anúncios pagos em redes sociais como o Facebook, YouTube, TikTok e Instagram, bem como spots de televisão, arquivos de bibliotecas, comunicados de imprensa, informação para investidores e discursos de executivos.

Grandes petrolíferas fazem “gaslighting” climático
No início do período analisado, as campanhas enfatizavam metas climáticas e compromissos com a transição para energia limpa, apresentando frequentemente as empresas como parceiras de transição.

No entanto, em 2023, a mensagem passou a apresentar cada vez mais o petróleo e o gás como “permanentes, indispensáveis e essenciais para a estabilidade económica e a segurança nacional”.

Em 2020, a BP passou da promessa de neutralidade carbónica e da retórica de “tornar as empresas mais verdes” para campanhas que, segundo a Clean Creatives, defendem a continuação da expansão do gás e do petróleo, ao mesmo tempo que recua nas suas ambições em matéria de energias renováveis.

A Chevron também abandonou o posicionamento “Human Energy” e passou para uma “mensagem nacionalista” que associa a produção interna de combustíveis fósseis à segurança económica e nacional, revela o relatório.

Investigadores alertam que, apesar das diferenças de tom, todas as grandes petrolíferas analisadas seguiram mudanças narrativas semelhantes, passando de se apresentarem como “parte da solução” para uma mensagem de “não podem viver sem nós”.

As campanhas passaram também a promover cada vez mais o gás natural liquefeito (GNL), a captura e armazenamento de carbono (CCS), o hidrogénio azul, os biocombustíveis e o gasóleo renovável como soluções climáticas, apesar de existirem provas de que estas tecnologias continuam a ser derivadas de combustíveis fósseis ou não estão comprovadas em larga escala.

“A velocidade com que as empresas passaram para mensagens centradas na segurança energética correlacionou-se com o seu desempenho financeiro”, lê-se no relatório.

“A Chevron e a ExxonMobil foram rápidas a orientar a sua mensagem para a predominância dos combustíveis fósseis e, como resultado, lideraram o mercado.”

O estudo concluiu também que a Shell, acusada no ano passado de minimizar o impacto climático dos combustíveis fósseis, deixou de se apresentar como líder da neutralidade carbónica para passar a destacar o GNL como mercado de crescimento a mais longo prazo.

Combustíveis fósseis mantêm-se “lucrativos” apesar da mudança de atitudes
“O ‘greenwashing’ assume agora uma nova forma”, afirma Nayantara Dutta, responsável pela investigação na Clean Creatives e autora principal do relatório.

“Em vez de fazerem afirmações falsas, as grandes petrolíferas promovem falsas soluções como a CCS e o gás natural, apesar de serem derivadas de combustíveis fósseis e de criarem uma dependência de longo prazo desses combustíveis.”

Dutta defende que as petrolíferas constroem uma narrativa que as mantém “lucrativas e no poder” perante uma oposição crescente.

A transição para longe dos combustíveis fósseis tornou-se um dos pontos de maior tensão na cimeira COP30 das Nações Unidas em Belém, no ano passado, apesar de não constar oficialmente da agenda.

Mais de 90 países, incluindo a Alemanha e os Países Baixos, apoiaram a ideia de um roteiro que permita a cada nação definir as suas próprias metas para avançar para a energia verde.

Apesar do apoio crescente a esta ideia, todas as referências aos combustíveis fósseis foram retiradas do acordo final nas últimas horas da cimeira. Isto significa que a esperança de um futuro sem combustíveis fósseis fica agora fora do âmbito das Nações Unidas.

Um relatório da Carbon Majors concluiu recentemente que 17 dos 20 maiores emissores em 2024 eram empresas controladas por países que vieram a bloquear o roteiro da COP30. Entre eles contam-se a Arábia Saudita, o Irão, o Qatar, a Índia, a Rússia e a China.

Irão: grandes petrolíferas e a guerra
“A transição do ‘greenwashing’ para a defesa da predominância da energia de origem fóssil é a mais recente reviravolta retórica na manipulação da opinião pública para aceitar as emissões de gases com efeito de estufa como apenas parte da atividade económica”, afirma Robert Brulle, sociólogo ambiental da Universidade Brown.

“Ao mesmo tempo, a guerra no Médio Oriente evidencia o erro da ideia de que os combustíveis fósseis proporcionam ‘segurança energética’.”

Vários especialistas têm usado a guerra contra o Irão para sublinhar a necessidade urgente de uma transição para a energia limpa, numa altura em que os preços do petróleo e do gás continuam a disparar.

A organização sem fins lucrativos 350.org apelou recentemente aos países do G7 para que apliquem um imposto sobre lucros extraordinários às grandes petrolíferas que, segundo a organização, estão a “lucrar” com a escalada do conflito no Médio Oriente.

Embora a guerra no Irão também tenha reforçado os apelos para que o Reino Unido abra novas licenças de perfuração no mar do Norte, uma análise da Universidade de Oxford concluiu que apostar nas energias renováveis é muito mais provável que faça baixar as faturas de energia das famílias.

“O que estamos a ver é a desinformação climática a evoluir em tempo real”, afirma Dana Schran, da coligação Climate Action Against Disinformation (CAAD).

“Em vez de negarem a crise, grandes petrolíferas como a BP e a Shell estão a reescrever a narrativa para que a expansão dos combustíveis fósseis pareça necessária e responsável. É um esforço sofisticado para proteger a influência política e os lucros, mesmo à medida que os impactos climáticos se agravam.”

Saber mais: 


sexta-feira, 6 de março de 2026

Invasão do Irão - a complexa teia de conflitos no Médio Oriente: um contributo histórico e teológico


Este cartoon que circula na net é pura desinformação e demonstrativo que há muita ignorância sobre o Islamismo,  o papel dos EUA, Palestina, Irão e Israel e Arábia Saudita e o extremismo muçulmano.
Vamos por partes: 

O Irão era um país governado por xiitas. Uma minoria no mundo muçulmano. 

Geografia
O termo "países sunitas" geralmente se refere a nações onde a maioria da população muçulmana segue o Sunismo, que é o maior ramo do Islão (estimado em 85% a 90% de todos os muçulmanos do mundo).

Diferente do Xiismo, que tem uma concentração geográfica muito clara (principalmente Irão e Iraque), o Sunismo está distribuído por quase todo o mundo islâmico.

Principais países de maioria Sunita
Estes países são centros políticos, culturais ou demográficos do mundo sunita:
  1. Arábia Saudita: considerada o "berço do Islão", abriga Meca e Medina. É a principal potência sunita no Médio Oriente
  2. Indonésia: o país com a maior população muçulmana do mundo, predominantemente sunita.
  3. Egito: sede da Universidade de Al-Azhar, a instituição de ensino sunita mais prestigiada do mundo.
  4. Turquia: embora laico é uma potência regional com uma longa tradição histórica sunita (herança do Império Otomano).
  5. Paquistão: possui uma das maiores populações sunitas globais.
  6. Nigéria: tem a maior população muçulmana da África Subsariana, maioritariamente sunita.
  7. Palestinos são maioritariamente sunitas.
Além disso existem países onde os xiitas não são a maioria absoluta, mas controlam o destino da nação:
  1. Líbano: não há um censo oficial recente, mas estima-se que os xiitas sejam o maior grupo religioso individual (cerca de 30-35%). Através do Hezbollah, os xiitas exercem um poder militar e político que muitas vezes supera o do próprio estado libanês.
  2. Iémen: cerca de 35-42% da população é Zaidita (um ramo do xiismo, como discutimos sobre os Houthis). Eles controlam atualmente a capital, Sanaa, e grande parte do norte do país.
  3. Síria: o país é majoritariamente sunita (70%), mas é governado pela família Al-Assad, que pertence aos Alauítas (um ramo minoritário e místico do xiismo). Por serem uma minoria xiita governando uma maioria sunita, o Irão é o seu aliado mais vital para se manterem no poder.
As diferenças teológicas entre sunitas e xiitas
A divisão entre Sunitas e Xiitas é a maior e mais antiga cisão do Islão. Embora ambos partilhem os pilares fundamentais — como a crença em um único Deus (Allah), no Alcorão e no Profeta Muhammad — a divergência começou como uma disputa política de sucessão que, ao longo dos séculos, ganhou camadas teológicas profundas. A separação ocorreu logo após a morte do Profeta Muhammad em 632 d.C.
  1. Sunitas: acreditavam que o líder (Califa) deveria ser escolhido por consenso entre os membros da comunidade e os seus companheiros. Eles apoiaram Abu Bakr, um amigo próximo do Profeta.
  2. Xiitas: acreditavam que a liderança era um direito divino e deveria permanecer na linhagem direta do Profeta. Eles apoiaram Ali, primo e genro de Muhammad, afirmando que ele foi designado pelo próprio Profeta. 
Com o passar dos séculos, essa disputa política evoluiu para divergências teológicas fundamentais. A principal delas reside no conceito de Imã. Para os sunitas, o Imã é um líder religioso e de oração, um homem respeitável, mas sem poderes sobrenaturais ou infalibilidade. Já para os xiitas, o Imã é uma figura divinamente inspirada e infalível, que possui um conhecimento esotérico do Alcorão inacessível aos homens comuns. A vertente majoritária do xiismo acredita em uma linhagem de doze Imãs, sendo que o último teria entrado em ocultação e retornará no fim dos tempos como o Mahdi, o salvador da humanidade.

Essas visões de mundo também alteraram a estrutura de autoridade. O Islã sunita é historicamente menos hierarquizado, focando na interpretação de textos por diversos juristas. O Islã xiista, por sua vez, desenvolveu uma hierarquia clerical muito forte e organizada — como os Aiatolás no Irão — onde os fiéis buscam orientação em líderes vivos que representam a autoridade do Imã oculto. 
Até mesmo nos rituais há nuances: embora ambos rezem voltados para Meca e sigam os cinco pilares do Islão, os xiitas costumam tocar a testa numa pequena pedra de argila (turbah) durante a prece e celebram datas de martírio, como a Ashura, com uma intensidade emocional e ritualística que não existe no mundo sunita.

Os Houthis (oficialmente conhecidos como Ansar Allah) trazem uma camada extra de complexidade a essa conversa. Eles são muçulmanos, mas pertencem a um ramo específico e diferente do que discutimos até agora.

Aqui está o "RX" religioso e político dos Houthis:
1. Eles são Xiitas, mas "Diferentes"
Os Houthis pertencem ao Zaidismo (ou Xiismo de Cinco Imames).O que isso significa? O Zaidismo é um ramo do xiismo que existe quase exclusivamente no Iémen.
Proximidade com os Sunitas: teologicamente, os zaiditas são considerados o ramo do xiismo mais próximo dos sunitas. Eles não acreditam na infalibilidade dos Imames da mesma forma que os xiitas do Irão (Duodecimanos) e não partilham a mesma hierarquia clerical rígida.
2. A Relação com o Irão
Embora os Houthis sejam zaiditas e os iranianos sejam xiitas duodecimanos, eles se tornaram aliados próximos por razões estratégicas- O "Eixo de Resistência": O Irão fornece armas, drones e treino aos Houthis.
Inimigo Comum: Ambos se opõem fortemente à influência dos EUA e da Arábia Saudita (que faz fronteira com o Iémen e interveio militarmente contra os Houthis).

Onde eles se encaixam no mapa que montamos?

Para facilitar a visualização de quem é quem nas alianças atuais:

Grupo radical/País

Ramo Religioso

Principal Aliado

Hamas (Palestinos)

Sunita

Irão (Apoio financeiro/militar)

Hezbollah (Líbano)

Xiita (Duodecimano)

Irão (Alinhamento total)

Houthis (Iémen)

Xiita (Zaidita)

Irão (Apoio militar/logístico)

ISIS e Al-Qaeda (Arábia Saudita)

Sunita 

EUA / Países do Golfo


Curiosidade: o Lema Houthi
Se você vir imagens dos Houthis, verá frequentemente uma bandeira com frases escritas em árabe (o Sarkha). O lema deles é bastante agressivo e reflete sua ideologia política: "Deus é o maior, morte à América, morte a Israel, maldição sobre os judeus, vitória para o Islão".

Política e gestão estratégica petróleo e nuclear
Na política do Médio Oriente, prevalece a regra de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo. A Arábia Saudita, de liderança sunita, e o Irão, de maioria xiita, disputam a hegemonia da região há décadas, e o Irão é visto pelos sauditas como uma ameaça muito mais direta e existencial do que Israel. Como Israel também é o maior adversário do Irão, a Arábia Saudita e Israel tornaram-se aliados informais, trocando inteligência e cooperação militar de forma discreta para conter a influência iraniana.

Somado a isso, há a aliança estratégica com os Estados Unidos, já que a Arábia Saudita é um dos maiores parceiros americanos no mundo e o seu exército é quase inteiramente equipado com tecnologia dos EUA. Como Israel é o aliado número um de Washington, uma invasão saudita a Israel seria um suicídio diplomático e militar, pois os Estados Unidos cortariam todo o apoio à monarquia e possivelmente interviriam para proteger o Estado judeu.

O Paquistão consolida-se como uma das nações mais complexas do cenário global, sendo o país com a segunda maior população muçulmana do mundo, atrás apenas da Indonésia. Sua identidade é intrinsecamente ligada ao Islão, tendo sido fundado em 1947 como um refúgio para os muçulmanos do subcontinente indiano — um projeto liderado por Muhammad Ali Jinnah, que, curiosamente, era de origem xiita. Embora o país tenha nascido sob um ideal de união muçulmana contra o domínio britânico e a maioria hindu da Índia, a realidade interna contemporânea é marcada por uma profunda divisão sectária. A vasta maioria da população (cerca de 80-85%) é sunita, predominantemente da escola Hanafi e dividida entre os tradicionais Barelvi e os rigorosos Deobandi. No entanto, o Paquistão também abriga a segunda maior comunidade xiita do planeta (10-15%), o que representa um contingente expressivo de até 30 milhões de pessoas.

Essa composição demográfica coloca o Estado em uma posição diplomática delicada, funcionando como um pêndulo entre as influências da Arábia Saudita e do Irão. Enquanto os sauditas atuam como pilares económicos, fornecendo petróleo e suporte financeiro, o Irã é um vizinho geográfico direto com o qual o Paquistão precisa manter uma estabilidade fronteiriça pragmática. Essa dualidade frequentemente transborda para conflitos internos, onde grupos radicais sunitas realizam ataques sectários alimentados por rivalidades externas. O que eleva drasticamente o peso dessa instabilidade interna é o fato de o Paquistão ser a única nação do mundo islâmico a possuir um arsenal nuclear comprovado, o que torna sua segurança institucional uma prioridade de vigilância global.

Diferente de Estados laicos, a "República Islâmica" integra a Sharia em seu sistema judicial e exige constitucionalmente que seus líderes máximos sejam muçulmanos. Em 2026, o desafio do país permanece o mesmo: equilibrar uma economia fragilizada e as pressões de grupos extremistas internos com a responsabilidade de ser uma potência nuclear em uma das regiões mais voláteis do mapa. A manutenção deste equilíbrio é o que define não apenas a sobrevivência do Estado paquistanês, mas a própria segurança regional no Sul da Ásia.

Neste cenário de equilíbrios delicados, a Turquia desempenha um papel de "irmã estratégica" e modelo político alternativo. Ao contrário do modelo teocrático iraniano ou da monarquia absoluta saudita, a Turquia — historicamente laica, mas sob uma liderança que busca resgatar o prestígio islâmico — oferece ao Paquistão uma parceria baseada na cooperação militar e tecnológica. Ancara é um dos principais fornecedores de hardware militar para Islamabad (incluindo navios de guerra e drones), ajudando o Paquistão a modernizar suas defesas sem depender exclusivamente do Ocidente ou da China. Além disso, a Turquia utiliza o "soft power" cultural, como suas produções televisivas de temática histórica islâmica, para fortalecer laços com a juventude paquistanesa, promovendo uma visão de liderança sunita moderna e resiliente.

Essa aproximação com a Turquia permite ao Paquistão reduzir sua dependência histórica de Riade, embora os sauditas continuem sendo os principais financiadores económicos e fornecedores de petróleo. Enquanto o Irã permanece como um vizinho geográfico que exige uma convivência pragmática para evitar conflitos de fronteira, a Turquia surge como o parceiro ideal para o desenvolvimento industrial e a projeção de voz nos fóruns internacionais. Em 2026, o desafio do governo paquistanês é navegar por esse triângulo de potências (Arábia Saudita, Irão e Turquia) enquanto gere uma economia fragilizada e garante que seu poderio nuclear permaneça sob controle firme, evitando que as tensões sectárias internas alimentadas por rivalidades externas desestabilizem o Estado.

Israel, Arábia Saudita e Estados Unidos
Atualmente, o foco saudita mudou sob a liderança do Príncipe Herdeiro Mohammed bin Salman, que lançou o plano Visão 2030 para modernizar a economia e reduzir a dependência do petróleo. Ele sabe que uma guerra regional destruiria os planos de atrair turistas e empresas de tecnologia, pois a estabilidade é melhor para os negócios do que o conflito ideológico. Esse caminho da diplomacia ficou evidente com os Acordos de Abraão, onde a Arábia Saudita estava muito perto de reconhecer oficialmente Israel antes do conflito em Gaza em 2023. Para os sauditas, a causa palestina funciona hoje mais como uma ferramenta de negociação para obter concessões do que como um motivo real para uma guerra aberta.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Ataque directo: Trump reverte avanços na acção climática nos primeiros 10 dias de 2026



Passados apenas 10 dias de 2026, Donald Trump já lançou uma série de ataques sucessivos ao clima.

A administração dos EUA tem vindo a afastar-se gradualmente de reconhecer o seu envolvimento na crise climática ou de a enfrentar, apesar de ser o segundo maior emissor anual de gases com efeito de estufa e, historicamente, o maior contribuinte para o aquecimento global.

No ano passado, os EUA não enviaram qualquer delegação às negociações da COP30 e, desde então, apagaram todas as referências a combustíveis fósseis do site da sua Agência de Proteção Ambiental. Entretanto, Trump tem criticado o boom das energias renováveis e levado a sua atitude "drill baby drill" ao plano global.

Eis um resumo do que o Presidente dos EUA fez até agora, com menos de duas semanas de 2026.

EUA retiram-se de tratado climático da ONU

Esta semana, o Presidente foi acusado de "descer a um novo mínimo" depois de retirar os EUA de um tratado climático crucial numa retirada abrangente das instituições globais.

Num Memorando Presidencial assinado a 7 de janeiro, Trump argumentou ser "contrário aos interesses dos EUA" permanecer membro, participar ou prestar apoio a mais de 60 organizações, tratados e convenções internacionais.

Isto inclui a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC), que visa estabilizar as emissões de gases com efeito de estufa, e o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), a principal autoridade mundial em ciência do clima.

"Numa altura em que a subida do nível do mar, o calor recorde e desastres mortais exigem ação urgente e coordenada, o governo dos EUA escolhe recuar", afirma Rebecca Brown, presidente e CEO do Center for International Environmental Law (CIEL).

"A decisão de retirar financiamento e sair da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC) não absolve os EUA das suas obrigações legais de prevenir as alterações climáticas e reparar os danos climáticos, como o mais alto tribunal do mundo deixou claro no ano passado".

Venezuela: controlo do petróleo
Após forças especiais dos EUA terem capturado o Presidente da Venezuela e a sua mulher numa operação relâmpago, Trump mostrou claro interesse nas reservas de petróleo.

A Venezuela detém as maiores reservas provadas de petróleo bruto do mundo, estimadas em 303 mil milhões de barris (Bbbl), superando petroestados como a Arábia Saudita e o Irão.

Trump confirmou de imediato que os EUA estariam "muito fortemente envolvidos" na indústria petrolífera do país, com planos para enviar grandes empresas norte-americanas para reparar a infraestrutura petrolífera da Venezuela e "começar a fazer dinheiro para o país". Numa entrevista a 8 de janeiro, disse que os EUA poderiam explorar as reservas de petróleo da Venezuela durante anos.

"Numa era de agravamento acelerado da crise climática, cobiçar as vastas reservas de petróleo da Venezuela desta forma é simultaneamente imprudente e perigoso", diz Mads Christensen, da Greenpeace International.

"O único caminho seguro passa por uma transição justa longe dos combustíveis fósseis, que proteja a saúde, salvaguarde os ecossistemas e apoie as comunidades, em vez de as sacrificar por lucros de curto prazo".

Novas orientações alimentares
Os Departamentos de Saúde e Serviços Humanos e da Agricultura dos EUA foram alvo de críticas após publicarem as orientações alimentares de 2026, que incentivam as famílias norte-americanas a privilegiarem dietas assentes em "alimentos integrais e densos em nutrientes".

A nova pirâmide alimentar coloca uma imagem de um bife de vaca e carne de vaca picada no topo, na secção "proteína", apesar de a carne de vaca ser responsável por emissões de gases com efeito de estufa 20 vezes superiores por grama de proteína do que alternativas de base vegetal, como feijões e lentilhas.

Nenhum destes alimentos surge na pirâmide alimentar, mas ambos são referidos nas orientações completas.

"Embora existam muitas formas de satisfazer as nossas necessidades de proteína, nem todas as fontes de proteína têm o mesmo impacto nas pessoas ou no planeta", afirma Raychel Santo, investigadora de alimentação e clima no World Resources Institute (WRI).

"A carne de vaca e o borrego, em particular, têm alguns dos custos ambientais mais elevados entre os alimentos ricos em proteína, com emissões de gases com efeito de estufa, uso do solo e poluição da água significativamente superiores por onça de proteína face à maioria das alternativas".

Bloqueio de Trump às renováveis
No ano passado, a administração Trump suspendeu concessões em todos os projetos eólicos offshore nos EUA, invocando preocupações de segurança nacional. A medida travou trabalhos em cinco locais, incluindo os parques Revolution Wind e Sunrise Wind da Ørsted, bem como áreas de empresas como a Equinor e a Dominion Energy.

Segue-se à crítica constante de Trump às energias renováveis, que já descreveu como a "burla do século". Mas a decisão teve consequências dispendiosas que transitaram para o novo ano.

Na semana passada, Ørsted apresentou uma ação judicial contra a suspensão do governo dos EUA, argumentando que já tinha obtido todas as licenças federais e estaduais exigidas em 2023. O seu projeto Sunrise Wind deverá custar ao promotor mais de 1 milhão de dólares por dia (cerca de 859 100 euros).

O Departamento do Interior afirmou, em dezembro, que a pausa daria ao governo "tempo para trabalhar com concessionários e parceiros estaduais na avaliação da possibilidade de mitigar os riscos de segurança nacional colocados por estes projetos".

Interesse de Trump na Gronelândia
A obsessão crescente de Trump com a Gronelândia suscitou preocupações entre ambientalistas relativamente aos seus recursos minerais críticos, vistos como "essenciais" para a transição para a energia verde.

Um levantamento de 2023 concluiu que 25 dos 34 minerais considerados "matérias-primas críticas" pela Comissão Europeia foram encontrados na Gronelândia. Estima-se que o território detenha entre 36 e 42 milhões de toneladas métricas de óxidos de terras raras, o que o torna a segunda maior reserva depois da China.

Explorar estes recursos poderia ajudar os EUA a reduzir a dependência da China, que atualmente processa mais de 90 por cento dos minerais de terras raras do mundo, e reforçar a posição dos EUA à medida que a procura aumenta.

Desde o primeiro mandato, Trump tem procurado responder a este tema, aprovando leis para aumentar a produção mineral norte-americana e intensificando a mineração em mar profundo, tanto em águas dos EUA como em águas internacionais.

No entanto, alguns especialistas acreditam que as reservas minerais da Gronelândia podem ser apenas uma cortina de fumo para os verdadeiros motivos de Trump.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Mensagem de Natal do Primeiro-Ministro - a essência de um regime cleptocrata


A mensagem de Natal de Luís Montenegro não foi neutra. Foi uma armadilha retórica para deslocar a responsabilidade do Governo para as pessoas. Segundo o Primeiro-Ministro, o país está bem e a economia cresce. Se não sentes isso na tua vida, se o salário é curto, o problema não é estrutural, é teu. Falta-te ambição. Falta-te “mentalidade de campeão”.

É aqui que a analogia com Cristiano Ronaldo se torna ofensiva. O modelo deste Governo não é quem segura o SNS ou a escola pública, é um multimilionário a jogar na Arábia Saudita, um regime autoritário que usa o desporto para lavar a sua imagem internacional. A mensagem é simples. Se ele conseguiu, tu também consegues. Ronaldo é a exceção absoluta. Usar uma exceção para julgar a vida de milhões de portugueses que trabalham, descontam e cumprem é profundamente desonesto.

Sete minutos de ladainha. Dizem que está tudo óptimo, mas quando chega à prática temos o menor aumento percentual do salário mínimo dos últimos anos e um ataque cerrado aos direitos laborais. Sinal claro de que a propaganda vive melhor do que as pessoas.

Enquanto vendem a ilusão do “país rico”, os números mostram onde fica a riqueza:
Jerónimo Martins: faturou 33,4 mil milhões € em 2024 (lucro: 599M€).
Sonae: cerca de 10 mil milhões € de volume de negócios (lucro: 223M€).
EDP: 801M€ de lucro.
Galp: 961M€ de lucro.
Banca: lucros recorde de 6,3 mil milhões €, à custa dos juros pagos pelas famílias.

A riqueza existe. A distribuição é que não. O “trickle-down” é uma mentira contada muitas vezes. A produtividade sobe, mas os ganhos ficam nos salários e prémios dos CEOs e nos dividendos, não nos salários de quem trabalha.

E sobre o essencial? Silêncio.

Ignorou as falhas graves no SNS, a habitação que esmaga vidas e ignorou a transparência. O mesmo Primeiro-Ministro que pede “mentalidade” opôs-se a revelar detalhes de 55 imóveis e lidera um Governo com um património conjunto de 20,9 milhões €, com três ministras a concentrarem mais de 11M€.
A distância entre quem governa e quem trabalha é abismal.

Esta mensagem não serviu para unir o país. Serviu para disciplinar. Para justificar desigualdade.
Para transformar problemas colectivos em culpas individuais.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

COP30: Alto-comissário para os Direitos Humanos critica “inércia fatal” dos líderes


O Alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, destacou hoje os “resultados insignificantes” da COP30 no Brasil, alertando para a “inércia fatal” dos líderes que poderá vir a ser considerada um crime contra a humanidade.

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) terminou no sábado em Belém, no Brasil, com a adoção de um acordo minimalista, sem menção explícita ao abandono dos combustíveis fósseis, mas saudado por alguns como prova de que o multilateralismo ainda funciona.


Num discurso no Fórum das Nações Unidas sobre empresas e direitos Humanos, em Genebra, Volker Türk referiu que os “resultados insignificantes” da COP30 ilustram como os desequilíbrios de poder corporativos se manifestam na emergência climática.

“A indústria de combustíveis fósseis gera lucros colossais enquanto devasta algumas das comunidades e países mais pobres do mundo”, apontou, destacando como imprescindível responsabilizar os responsáveis pelos danos ligados às alterações climáticas.

Volker Türk pediu ainda aos países que imponham obrigações de diligência às empresas e que promovam reparações por danos relacionados com o clima.

“A resposta inadequada de hoje poderia ser considerada um ecocídio, ou mesmo um crime contra a humanidade?”, questionou.

A China bloqueou discretamente uma linguagem mais incisiva à porta fechada. Os Estados Unidos, o maior emissor e a maior economia do mundo, nem sequer estavam presentes. Quando os principais intervenientes se afastam do Acordo de Paris, o mito do consenso absoluto desmorona-se diante dos nossos olhos.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

A ética foi vendida. Cristiano Ronaldo é o rosto. O verdadeiro jogo dos milhões que envolveu EUA, Arábia Saudita e até Musk fez-se nos bastidores.


A Arábia Saudita deu esta semana um passo decisivo para se afirmar como um dos polos mundiais da Inteligência Artificial. O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman fechou em Washington, DC um acordo que junta a xAI, empresa de Elon Musk, à recém-criada Humain - o braço estatal saudita dedicado à IA - para construir no país um novo megacentro de dados com capacidade até 500 megawatts. De acordo com o ministro do Investimento do país, Khalid Al-Falih, o valor do acordo é de 557 mil milhões de dólares.

A parceria foi anunciada num pacote mais vasto de entendimentos militares e tecnológicos entre Riade e Washington, DC, num momento em que os EUA flexibilizam o acesso saudita a semicondutores avançados - chips essenciais para treinar modelos de IA e que se tornaram instrumentos de diplomacia tecnológica.

Elon Musk tem procurado novos aliados para acelerar o crescimento da xAI e aproximar-se do ritmo de gigantes como a OpenAI, Anthropic e Google. Já a Arábia Saudita está a canalizar parte do seu fundo soberano de riqueza, avaliado em cerca de um bilião de dólares, para diversificar a economia além do petróleo e transformar o reino num fornecedor global de capacidades de computação.

Esta convergência de interesses resultou no acordo com a Humain, empresa lançada em maio pelo príncipe herdeiro e que ambiciona fornecer 6% da capacidade global de computação para IA nos próximos anos. A estratégia saudita passa por aproveitar a vasta disponibilidade energética, extensas áreas de terreno e ligações a cabos de fibra ótica internacionais para oferecer capacidade de processamento a preços competitivos. 

A parceria com Musk, que inclui também a expansão do uso dos modelos da Grok, o chatbot da xAI, reforça a tendência: cada grande empresa norte-americana de IA está a aproximar-se de um aliado estratégico na Península Arábica: a OpenAI fechou este ano um acordo com a MGX e a G42, dos Emirados Árabes Unidos, para a construção de um centro de dados perto de Abu Dhabi e a Anthropic recebeu investimento do fundo soberano do Catar. Já a Nvidia, a Amazon, a Microsoft e a Qualcomm têm vindo igualmente a reforçar presença na Arábia Saudita.

O acordo com a xAI esteve meses em negociação, travado pelas dúvidas em Washington, DC sobre o destino final dos chips que Riade pretende adquirir. Em maio, a administração Trump anunciou o envio de milhares de unidades da Nvidia para o país, mas o processo ficou pendente devido às preocupações sobre as ligações sauditas à China. 

Com o desbloqueio do dossiê, o projeto avançou e Musk celebrou publicamente a parceria: "O futuro da inteligência será construído com computação massiva e eficiente, combinada com modelos de IA avançados. As capacidades de Humain permitem-nos acelerar esse futuro na Arábia Saudita". 

Tareq Amin, diretor-executivo da Humain, disse tratar-se de uma operação que cria "uma escala que poucos podem igualar".

Arábia Saudita quer garantir soberania na computação 
Na mesma semana, outro desenvolvimento reforçou as ambições digitais do reino. O fundo público de investimento saudita (PIF), a Saudi Information Technology (SITE) e a Microsoft assinaram um memorando de entendimento para explorar a implementação de serviços de "cloud soberana" no país - infraestruturas que permitem alojar dados sensíveis sob controlo nacional, cumprindo requisitos estritos de segurança e residência de dados. 

A Microsoft, que já proporciona soluções semelhantes a governos e setores altamente regulados noutros países, irá trabalhar com o PIF e a SITE para avaliar de que forma o modelo pode ser aplicado à realidade saudita. O objetivo passa por reforçar a infraestrutura digital e apoiar o crescimento do setor das tecnologias de informação no reino. 

O memorando, ainda não vinculativo, prevê igualmente cooperação em investigação, desenvolvimento, inovação e transferência de conhecimento.

As críticas recorrentes ao histórico saudita em matéria de direitos humanos não parece ser um fator dissuasor para as empresas tecnológicas. Na véspera do anúncio, líderes de algumas das maiores empresas dos EUA participaram num jantar em Washington, DC em honra de Mohammed bin Salman, onde Elon Musk também marcou presença - assim como Cristiano Ronaldo.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

O encontro desejado de Cristiano Ronaldo com Trump e as Arábias


Jamal Khashoggi era colunista do Washington Post quando foi assassinado dentro do consulado saudita em Istambul, a mando do governo saudita. O mundo inteiro condenou o crime em 2018, com exceção de Trump. Não se tratava de um mero "things happen". Tratou-se de um assassinato cruel sancionado pelo Estado, motivado pelo exercício da liberdade de expressão. 
Agora Trump 2025 insiste na tecla "Aconteceram coisas, mas o Príncipe não sabia de nada, e podemos ficar por aí", disse aos jornalistas, no Salão Oval. 𝐌𝐞𝐧𝐭𝐢𝐮!! Em novembro desse ano, um relatório da CIA, divulgado na imprensa americana, concluiu Mohammad bin Salman de ter ordenado a morte de Khashoggi, o que causou furor internacional e tensões diplomáticas.
Donald Trump acrescentou ainda que Jamal Khashoggi era "uma pessoa extremamente controversa" (???). 
Mohammed ben Salman disse, por sua vez, que a morte do jornalista foi dolorosa e que a Arábia Saudita fará tudo o que está ao seu alcance "para que não volte a acontecer".
As declarações surgem após o anúncio de um investimento saudita de quase um bilião de dólares nos Estados Unidos, durante a primeira visita do príncipe aos EUA desde 2018.
O The New York Times já tinha avançado que o craque da Seleção portuguesa e do Al Nassr ia regressar aos Estados Unidos, avançando com a marcação de um jogo amigável entre Estados Unidos e Portugal, para março de 2026.
Essa será a primeira vez que Cristiano Ronaldo vai jogar em solo norte-americano desde 2014, altura em que defrontou o Manchester United com a camisola do Real Madrid, a 2 de agosto daquele ano.
Pela Seleção jogou nesse mesmo verão a Nova Jérsia, a 10 de junho, contra a República da Irlanda.
Portanto Cristiano Ronaldo está assim de regresso aos Estados Unidos, país onde não joga há mais de 11 anos, e onde tem uma polémica com Kathryn Mayorga, professora que acusou o jogador de violação em 2017, numa entrevista dada ao jornal alemão Der Spiegel, e num caso que remonta a 2009, quando o jogador esteve de férias em Las Vegas.
Desde então que a presença de Cristiano Ronaldo em solo norte-americano tem sido uma questão polémica, não havendo quaisquer registos públicos do jogador naquele país - o último data de 2016. A ausência foi particularmente notada depois de jogos da Juventus terem sido reagendados para outros locais quando o jogador representava o clube italiano.
No dia em que internamente Donald Trump é pressionado para libertar os ficheiros de Epstein, o jantar de  Cristiano Ronaldo com Donald Trump e  Mohammed ben Salman é uma espécie de sportswahing atendendo que os três são figuras internacionais com escândalos e Ronaldo funcionará como um troféu para a melhoria da imagem de países com problemas de direitos humanos, como a Arábia Saudita e EUA.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Cop30: Desmascarar os bloqueios e exigir acção real

Em novembro de 2025, Belém do Pará, no coração da Amazónia, acolherá a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP30). O lugar não é neutro: é o epicentro de uma floresta que regula o clima global e, ao mesmo tempo, uma das regiões mais ameaçadas pela desflorestação, pela exploração predatória e pela desigualdade social. Realizar a COP na Amazónia é um gesto político e simbólico: o debate climático no território onde se decide o destino do planeta.

Mas o simbolismo não basta. O mundo chega a Belém dividido, com emissões recorde e promessas incumpridas. A diplomacia climática vive uma crise de confiança, e os interesses fósseis continuam a ditar o ritmo da ação global. A COP30 será, por isso, um momento de verdade sobre o futuro coletivo da humanidade.

A crise climática é hoje uma evidência incontornável. Secas, cheias e ondas de calor extremo afetam todos os continentes e o tempo para agir esgota-se. O clima precisa de todos, mas sobretudo precisa de coragem política.

Mais de metade das emissões globais provém de empresas estatais sediadas em regimes autoritários. Das vinte maiores companhias de combustíveis fósseis do mundo, dezasseis são públicas e controladas por governos como os da China, Rússia, Irão e Arábia Saudita. Estes países tornaram-se o principal travão à descarbonização. A Rússia usa a energia como arma geopolítica; a China, responsável por cerca de 30 % das emissões globais, continua a construir centrais a carvão; o Irão e a Arábia Saudita financiam a dependência global do petróleo e bloqueiam sistematicamente o avanço dos acordos internacionais. Enfrentar esta realidade é uma exigência civilizacional.

Durante demasiado tempo, a diplomacia internacional preferiu o silêncio à verdade. Tratou por igual quem age e quem sabota, quem investe na transição e quem lucra com a destruição. Esse modelo está esgotado: não se vence uma emergência planetária com concessões a quem nega o futuro.

Mas a hipocrisia não é exclusiva das autocracias. Democracias como o Reino Unido, o Japão e o Canadá continuam a subsidiar combustíveis fósseis enquanto proclamam metas de neutralidade carbónica. Esta duplicidade mina a confiança global e fragiliza a liderança moral do mundo democrático.

A União Europeia deve abandonar a complacência e assumir o papel de força motora. É urgente aplicar de forma firme o ajustamento de carbono nas fronteiras, eliminar os subsídios ao petróleo e ao gás, e investir decisivamente na transição justa - dentro e fora de fronteiras. A diplomacia climática precisa de ser estratégica, transparente e corajosa.

A COP30 será um teste. Mais do que uma conferência, é a fronteira entre o discurso e a ação. O mundo precisa de recuperar a confiança na cooperação internacional e provar que ainda é capaz de convergir em torno do essencial: garantir um futuro habitável. A crise climática é também uma crise de desigualdade. Não haverá transição justa sem redistribuição de poder, de riqueza e de oportunidades. 

Combater a emergência climática é construir justiça social e regeneração económica. A humanidade precisa de decisões.

A justiça climática exige clareza, coragem e ação. Agora.

Diário de Coimbra, 4 de novembro de 2025

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Paz efémera: um histórico dos cessar-fogos Rússia-Ucrânia



Desde a anexação ilegal da península ucraniana da Crimeia, em 2014, tem havido várias tentativas de dar um fim definitivo à guerra na Ucrânia, envolvendo tanto os apoiadores europeus do país quanto os Estados Unidos – sem qualquer sucesso.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, propôs uma nova rodada de negociações de cessar-fogo em Istambul nesta quinta-feira (15/05). O anúncio coincidiu com um novo ataque com drones a Kiev, dando fim à "trégua" de três dias declarada unilateralmente por Moscou.

Os líderes europeus recusaram a proposta de conversações diretas, enquanto ambas as partes do conflito não declarassem cessar-fogo incondicional. O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, iniciamente apoiou essa proposta, mas decidiu participar das conversas em Istambul após o presidente dos EUA, Donald Trump, insistir que ele deveria fazer isso. Não está claro ainda se Putin irá ou se enviará um representante.

Nos últimos meses, os EUA vêm promovendo prolongadas negociações separadas com a Ucrânia e com a Rússia. Antes de ser eleito, Trump prometera dar fim ao conflito já em seu primeiro dia de presidência. Além de a promessa não ter se cumprido, as repetidas intervenções de Washington denotam um favorecimento dos interesses de Putin.

Apesar do insucesso em alcançar um cessar-fogo duradouro, desde o início da invasão russa da Ucrânia em larga escala em 2022 houve diversos acordos de curto prazo. Kiev e Moscou têm-se acusado mutuamente de violar tanto esses pactos quanto os cessar-fogos declarados unilateralmente.

Desde 1994, a Rússia já rompeu diversos pactos visando assegurar a existência da Ucrânia após a queda da União Soviética (URSS).

Memorando de Budapeste e Tratado de Amizade Russo-Ucraniano
O Memorando de Budapeste foi um acordo entre a Ucrânia e a Rússia, coassinado pelos EUA e o Reino Unido em 5 de dezembro de 1994. A condição fora Kiev concordar em entregar as armas nucleares que a Rússia herdara da URSS. Em troca, Moscou, Washington e Londres se comprometiam a "respeitar a independência e soberania e as fronteiras existentes" e "abster-se de ameaçar ou empregar força contra a integridade territorial e a independência política da Ucrânia".

Além disso, em 1997, o Tratado de Amizade, Cooperação e Parceria comprometia ambas as partes ao "respeito e confiança mútuos" e "respeitar a respectiva integridade territorial".

Ambos os pactos visavam prevenir um conflito entre as duas nações do Leste Europeu. Ao invadir e anexar a Crimeia, no Mar Negro, em fevereiro de 2014, e prosseguir invadindo e atacando território ucraniano, os russos violaram repetidamente seus compromissos sob o Memorando e o Tratado.

Acordos de Minsk
Dois acordos assinados em Bielorussia – país aliado da Rússia – e apoiado por potências europeias, que receberam o nome de sua capital, não bastaram para garantir a paz russo-ucraniana. Firmado em 5 de setembro de 2014, o Protocolo de Minsk (também denominado "Minsk I") continha 12 tópicos relativos à desescalada do recente conflito no leste da Ucrânia, mas fracassou dentro de alguns dias.

Em 12 de fevereiro de 2015 seguiu-se "Minsk II", em que as duas nações em conflito, as forças separatistas pró-russas das regiões ucranianas de Donetsk e Luhansk, e a Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) acordaram sobre 13 pontos. Seguiu-se um cessar-fogo imediato, porém poucas horas antes de a trégua entrar em vigor, russos e ucranianos já se acusavam mutuamente de violações.

Escalada em 2022 e cessar-fogos rompidos
Desde a invasão em larga escala pela Rússia, em 24 de fevereiro de 2022, diversos cessar-fogos de prazo curto foram instaurados e rompidos:
  • 6 de março de 2022: Breve cessar-fogo humanitário é cancelado em meio a notícias de bombardeio da cidade de Mariupol, no Mar de Azov.
  • 8 de março de 2022: Tentativas repetidas de formar corredores de evacuação humanitária redundam em acusações de que a Rússia estaria impedindo a passagem dos civis.
  • 7 de janeiro de 2023: Rússia decreta cessar-fogo unilateral para celebração do Natal ortodoxo. Poucas horas mais tarde, líderes ucranianos relatam a retomada dos bombardeios inimigos. Por sua vez, a imprensa estatal russa acusa a Ucrânia de ataques com drones contra posições militares.
  • 18 de março de 2025: Negociações entre EUA e Rússia na Arábia Saudita, em seguida a telefonema entre Trump e Putin, resultam em acordo de cessar-fogo de 30 dias para "energia e infraestrutura". Zelenski concorda com um cessar-fogo parcial alinhado com essas conversas.
  • 25 de março de 2025: No contexto de negociações lideradas pelos EUA, Ucrânia e Rússia concordam em suspender ofensivas no Mar Negro, uma rota de navegação vital.
  • 27 de março de 2025: Kiev e Moscou acusam-se mutuamente de violar, com ataques à infraestrutura, a trégua temporária de 18 de março.
  • 19 de abril de 2025: Supostamente por razões humanitárias, Putin declara "trégua de Páscoa" das 18h00 (12h00 em Brasília) de 19 de abril à meia-noite de 21 de abril. Ucrânia expressa cepticismo, o presidente Zelenski afirma que ataques com drones continuam. Mais tarde, ele alega que Rússia cometera milhares de violações ao longo do front.
  • 10 de maio de 2025: Rússia declara cessar-fogo unilateral em comemoração aos 80 anos da derrota da Alemanha nazi na Segunda Guerra Mundial. Contudo, a Ucrânia acusa o país de violar sua própria trégua 734 vezes.

sábado, 23 de novembro de 2024

COP do Clima na reta final em Baku ou como navegar à vista entre as ausências, o “greenwashing” e as taxas solidárias



Na 29.ª Cimeira do Clima, quase a terminar no Azerbaijão com um sabor amargo, o financiamento da ação climática voltou a ser “o tema” em debate. Existem sectores da economia que são largamente sub-tributados, mas que poluem enormemente o planeta, daí que a task force “Global Solidarity Levies: For People and the Planet” tenha esta semana divulgado o seu segundo relatório, no qual propõe taxas solidárias a cobrar aos maiores vilões ambientais, entre os quais se encontram os produtores de combustíveis fósseis, a aviação, o transporte marítimo internacional, as criptomoedas ou a indústria dos plásticos. Sem esquecer, com o pontapé dado há dias pelo Brasil no G20, e já antes no âmbito do Quadro Inclusivo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), os super-ricos ou, para usar o eufemismo da Declaração do Rio de Janeiro, os “indivíduos com um património líquido ultra-elevado”.

E porque a justiça climática anda de mãos dadas com a justiça fiscal, aquele grupo de trabalho, presidido pela ex-diplomata francesa Laurence Tubiana, uma das arquitectas do Acordo de Paris, já anunciou, em parceria com o Banco Mundial, a OCDE, académicos reputados e peritos das Nações Unidas, as contas feitas se os maiores poluidores forem tributados: 216,2 mil milhões USD/ ano (taxa sobre a extração de combustíveis fósseis, com base na tributação de 5 dólares por tonelada de CO2); 200-250 mil milhões USD/ ano (taxa de 2% sobre o património líquido dos bilionários); 173,4 mil milhões USD/ ano (imposto de 50% sobre os lucros excepcionais das 14 maiores empresas de combustíveis fósseis por capitalização bolsista, entre julho de 2021 e julho de 2023); 133 a 274 mil milhões USD/ ano (imposto sobre as transacções financeiras, com base numa taxa nominal de 0,3 ou 0,5%); 127 mil milhões USD/ ano (taxa de transporte marítimo, calculando entre 150-300 USD por tonelada de CO2); 121 mil milhões USD/ ano (taxa de passageiro frequente: 9 dólares/ passageiro em cada segundo voo do ano e 177 dólares no vigésimo voo no mesmo ano); 104 mil milhões USD/ ano (valor da taxa de carbono aplicada em 2023); 25 a 25 mil milhões USD/ ano (taxa sobre a produção de polímeros primários, cobrando entre 60 a 90 dólares por tonelada); 18 mil milhões de USD/ ano (taxa sobre o consumo de querosene nos voos internacionais, a 0,33 dólares/ litro); e, por último, 5 mil milhões de dólares/ ano (taxa sobre a mineração das bitcoin, com base na cobrança de 0,045 dólares por kWh de energia consumida).

Esta solução permitiria obter o bilião de dólares anuais necessários para reverter a crise climática bem como o encolher de ombros dos países mais ricos e com maiores responsabilidades históricas nas emissões de gases com efeito de estufa (GEE). Até ao momento, a generosidade Norte-Sul resume-se a 700 milhões de dólares, isto é “aproximadamente ao salário anual dos dez jogadores de futebol mais bem pagos do mundo", como disse António Guterres, frisando a necessidade de “passar de biliões a triliões”.

Conforme afirmou recentemente Nadia Calviño, presidente do Banco Europeu de Investimento (BEI), “um dólar investido em adaptação e resiliência poupa cinco a sete dólares em reparações e indemnizações por danos.” Numa Conferência marcada pela ausência de muitos chefes de Estado e de Governo e pelo abandono da delegação argentina, o porta-voz da Aliança dos Pequenos Estados Insulares (AOSIS), particularmente ameaçados pelo aquecimento global, pôs o dedo na ferida ao dizer que se sentem “abandonados”.

No estertor da era dos combustíveis fósseis, o monstro continua a estrebuchar e a perspetiva de ter nos EUA uma Administração liderada por Donald Trump torna mais real atingirmos um aumento médio da temperatura de 3,1°C até 2100, na senda do alerta dado há um mês pela agência das Nações Unidas para o ambiente (UNEP) ao lançar o relatório Emissions Gap Report 2024. A dura realidade é que, nove anos após a assinatura do Acordo de Paris, em 2015, as emissões GEE aumentaram 8%. Também o desempenho climático de Portugal piorou, tendo o país descido duas posições no Índice de Desempenho das Alterações Climáticas (CCPI) apresentado na COP29.

Greenwashing files
Ao mesmo tempo que as ONG e o ativismo indígena têm mostrado crescente dificuldade em fazer ouvir a sua voz nas COP, os lobistas voltam a integrar as delegações nacionais em grande número. Após analisar as listas de participantes, a plataforma Kick Big Polluters Out revelou que “mais de 200 lobistas da agricultura industrial, representando as maiores empresas agro-alimentares do mundo”, além de 1770 lobistas das companhias fósseis, tiveram acesso às negociações oficiais da COP29.

A verdade é que as empresas de combustíveis fósseis não querem deixar no solo o petróleo, o gás e o carvão que nos matam. Pelo contrário, querem extrair mais e mais, enquanto der lucro, e os Governos continuam a dar uma mãozinha ao negócio, financiando com dinheiro dos contribuintes uma atividade que devia caminhar a passos largos para a extinção. Mas não, caminha apenas para nos extinguir a todos!

As companhias sabem há décadas dos perigos de queimar combustíveis fósseis. Por isso, tal como aconteceu com as tabaqueiras no passado, que esconderam os malefícios para a saúde e enfatizaram o glamour de fumar, fizeram tudo o que puderam para que o assunto se mantivesse fora do radar, financiando campanhas massivas de desinformação, comprando cientistas e governos. Agora que já não conseguem mentir mais, avançaram com técnicas mais sofisticadas, o chamado marketing verde ou greenwashing. A ONG ClientEarth, sediada em Londres, desmontou magistralmente esta nova forma de enganar os incautos nos seus greenwashing files.

As campanhas da Aramco, Chevron, Drax, Equinor, ExxonMobil, INEOS, RWE, Shell e Total mostram que cumprir as metas do Acordo de Paris, ou seja, manter o aumento da temperatura da Terra em 1,5°C, face aos níveis pré-industriais, não é uma preocupação para estas empresas. A sua principal preocupação é parecerem preocupadas. E continuarem a faturar.

“Os estudos mostram que existem planos para produzir 120% mais combustíveis fósseis até 2030 do que o necessário para nos mantermos abaixo deste limiar. Não podemos simplesmente queimar todo o stock mundial de carvão, petróleo e gás e esperar evitar uma catástrofe climática”, refere a ClientEarth.

A Aramco é detida pelo Governo da Arábia Saudita e considerada a empresa de petróleo e gás que mais emite no mundo inteiro. É responsável, desde 1965, por mais de 4% de todas as emissões globais. Detém reservas fósseis, até pelo menos 2077, que ultrapassam as reservas combinadas da Exxon, Chevron, Shell, BP e Total. Em 2020, anunciou que iria aumentar a sua produção de 12 para 13 milhões de barris de petróleo por dia. Em 2023, na sequência do aumento dos preços da gasolina após a pandemia, a companhia anunciou lucros recordes de 161 biliões de dólares (154,5 biliões de euros), valores superiores aos resultados publicados pela ExxonMobil e pela Shell (55,7 e 39,9 biliões de dólares de lucro - €53,5 biliões e €38,3 biliões - respetivamente). A Aramco recusa revelar as suas emissões GEE. Também não divulga os montantes que investe em inovação e em tecnologias de baixo carbono.

A Coligação para os impostos solidários, que nasceu da iniciativa conjunta dos Barbados, França e Quénia, reúne hoje infelizmente apenas 17 Estados! Seria bom que Portugal, além da conversão da dívida em apoio às iniciativas de mitigação e adaptação dos países de expressão portuguesa, seguisse o exemplo francês e integrasse esta frente, contribuindo com a sua quota-parte para o esforço global de ajuda aos países mais vulneráveis. O Governo de Montenegro prometeu dar para esse fim 11 milhões de euros anuais até ao final da década. Uma quantia manifestamente insuficiente. Tal como o ambíguo X inscrito como valor na proposta inicial de texto final apresentado pela presidência azeri. Fonte

terça-feira, 18 de junho de 2024

Pelo menos 19 mortos na peregrinação a Meca devido ao calor extremo


Pelo menos 19 muçulmanos morreram e cerca de 2.700 ficaram doentes devido a insolações causadas pelo calor extremo durante a peregrinação do Hajj em Meca, na Arábia Saudita.

Entre as vítimas mortais estão 14 jordanos e cinco iranianos. Outros 17 cidadãos da Jordânia estão desaparecidos, informa o Ministério dos Negócios Estrangeiros do país em comunicado.

Mais de 1,8 milhões de muçulmanos estavam a completar a sua peregrinação de cinco dias quando as temperaturas chegaram aos 48 graus Celsius, de acordo com o Centro Nacional Saudita de Meteorologia.

Os peregrinos aproveitaram as primeiras horas da manhã de segunda-feira para realizar o segundo dia do apedrejamento simbólico do demónio, um dos rituais integrados nas celebrações religiosas.
O apedrejamento dos pilares que representam o demónio tem lugar em Mina, uma planície desértica nos arredores da cidade de Meca. Para esta terça-feira está prevista uma terceira lapidação.

A peregrinação Hajj, um dos maiores encontros religiosos do mundo, é um dos cinco pilares do Islão. Todos os muçulmanos devem fazer o Hajj de cinco dias pelo menos uma vez na vida, se tiverem condições físicas e financeiras para tal.

Durante o Hajj do ano passado, pelo menos 240 pessoas - muitas das quais oriundas da Indonésia - morreram, de acordo com os números anunciados por vários países, que também não especificaram as causas das mortes.

Em 2023, foram registadas mais de 10 mil doenças relacionadas com o calor, 10% das quais por insolação, disse um funcionário saudita à AFP esta semana.