Mostrar mensagens com a etiqueta proTejo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta proTejo. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O Impacto Hídrico dos Data Centers em Abrantes: Do Rio Tejo à Evaporação

A discussão em torno do impacto ambiental dos novos projetos de megacentros de dados planeados para Abrantes (como o EDC One e o Hyperion) exige uma análise rigorosa e desprovida de alarmismo. Ao analisar a transição entre a desativada Central Termoelétrica do Pego e estas novas infraestruturas digitais, torna-se evidente uma mudança estrutural na gestão dos recursos hídricos do rio Tejo: a transição de um modelo de utilização com devolução de caudal para um modelo de consumo por evaporação atmosférica.

Historicamente, a antiga central a carvão do Pego operava sob uma licença da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) para a captação de cerca de 5,7 a 6,2 milhões de metros cúbicos de água por ano. Apesar do volume substancial retirado do rio para o arrefecimento das turbinas, a arquitetura do sistema mantinha um balanço mássico quase neutro no troço local. Sob regras estritas de controlo térmico impostas pela Diretiva do Quadro da Água da União Europeia — que limitava o aumento de temperatura da água devolvida a um máximo de 3 °C -, a esmagadora maioria do volume captado regressava diretamente ao caudal do Tejo a jusante da captação.

Em contrapartida, as estimativas divulgadas pelo movimento ambientalista proTEJO para os novos data centers apontam para necessidades hídricas diárias situadas entre os 3,6 e os 22,2 milhões de litros. Isto traduz-se num volume anual projetado de 1,3 a 8,1 milhões de metros cúbicos de água. Embora o cenário mais baixo se assemelhe aos valores históricos do Pego, o cenário de pico ultrapassa-os significativamente. Contudo, a diferença mais crítica não reside no volume bruto captado, mas sim na tecnologia de arrefecimento evaporativo adotada por estas infraestruturas de processamento de dados.

Ao contrário do circuito da central termoelétrica, as torres de arrefecimento evaporativo convertem entre 70% a 80% da água captada em vapor de água, retirando-a de forma irreversível do ciclo hídrico local a curto e médio prazo. Apenas os restantes 20% a 30% permanecem no estado líquido como efluentes de purga (blowdown), caracterizados por uma elevada concentração de sais minerais e que exigem encaminhamento para estações de tratamento de águas residuais. Desta forma, o troço do Tejo em Abrantes perde permanentemente a maior parte da água captada, intensificando a pressão sobre o caudal ecológico local, especialmente durante os períodos de seca estival.

Esta pressão torna-se ainda mais preocupante num cenário de incerteza quanto à infraestrutura hídrica nacional. O anunciado plano de barragens e mini-barragens - essencial para reforçar a capacidade de retenção e regularização do caudal, sobretudo nos afluentes do Tejo - continua sem conhecer execução prática. Sem estas obras de armazenamento e regularização, o Tejo fica desprovido de uma "almofada" hídrica que possa compensar captações intensivas em anos secos.

Esta transição ocorre num contexto em que os relatórios do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) identificam a Península Ibérica como uma das regiões europeias mais suscetíveis à redução das precipitações e ao stresse hídrico. Perante a incerteza quanto à execução de novas infraestruturas de regularização de caudais na bacia do Tejo, torna-se urgente promover uma reflexão séria e científica. A transição digital de Portugal deve ser encorajada, mas exige o compromisso com soluções tecnológicas sustentáveis, como o arrefecimento a ar (dry cooling), circuitos fechados ou o uso de Águas para Reutilização (ApR), salvaguardando a resiliência do ecossistema do rio Tejo.

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

proTEJO denuncia novo foco de poluição vindo de Espanha


O movimento ambientalista proTEJO denunciou no sábado, 9 de setembro, que “a poluição de bloom de algas (cianobactérias) de extrema toxicidade e com cheiro putrefacto, com origem em Espanha, invadiu novamente o rio Tejo e já chegou a Vila Velha de Ródão”, tendo feito notar que o ministro do Ambiente “deve exigir explicações ao seu congénere espanhol”.

“O proTEJO constatou hoje [sábado], à semelhança de anos anteriores, que um novo bloom de algas (cianobactérias que podem produzir cianotoxinas prejudiciais aos seres vivos com elevada toxicidade e cheiro putrefacto proveniente de Espanha invadiu o rio Tejo em Vila Velha de Ródão estendendo-se pela albufeira do Fratel e que irá progredir contaminando todo o rio Tejo a montante da barragem do Fratel”, explica a proTEJO em comunicado enviado à nossa redação.

Este bloom de algas, segundo o Movimento pelo Tejo, com sede em Vila Nova da Barquinha, resulta de vários fatores, tendo indicado, em primeiro lugar, a “concentração elevada de nutrientes, nomeadamente fósforo, e as substâncias tóxicas depositadas no fundo das albufeiras da Extremadura espanhola, Azutan, Torrejon, Valdecañas, Alcantâra e Cedillo, ao longo de décadas de descargas de águas residuais sem adequado tratamento e das escorrências de fertilizantes agrícolas”.

Por outro, lado, aponta “a permissão à empresa Iberdrola, por parte dos governos de Portugal e Espanha, de livre gestão das descargas de caudais das suas barragens, uma vez que não se encontram implementados caudais ecológicos entre ambos os países, conduz a uma constante e contínua volatilidade do caudal do rio Tejo com alternância de ausência de caudal e de descargas significativas de água pelas barragens espanholas, que tem como única finalidade maximizar o lucro da produção de energia hidroelétrica fazendo descargas quando o preço da energia no mercado espanhol se encontra em níveis bastante elevados”.

Neste sentido, o proTEJO lembra que, “em 2021, o governo espanhol colocou um processo de investigação à empresa concessionária destas barragens, a Iberdrola, pela drástica redução de água para aproveitar o elevado preço para multiplicar a sua produção hidroelétrica, do qual nada se sabe até hoje”.

Por último, e como terceiro fator, o movimento ambientalista indica “as condições de temperatura e luminosidade elevadas, que se observam nos meses de Verão em que estas barragens armazenam pouca água em resultado do seu esvaziamento artificial pelas barragens, criam as condições propícias à proliferação deste bloom de algas que também dispõe dos nutrientes necessários”.

Neste contexto, o proTEJO considera que o ministro do Ambiente e Ação Climática “deve exigir explicações ao seu congénere espanhol, “visto que esta situação, que ocorre ano após ano, constitui um agravamento adicional do estado ecológico das massas de água do rio Tejo em Portugal em incumprimento da Convenção de Albufeira quanto à obrigatoriedade de garantir o bom estado ecológico das massas fronteiriças e transfronteiriças e em incumprimento da Diretiva Quadro da Água que impõe o objetivo de alcançar um bom estado ecológico das massas de água”.

Além disso, o proTEJO considera que se encontram “reforçados os fundamentos para apresentar uma Queixa à Comissão Europeia contra os governos de Portugal e Espanha assente no incumprimento da Diretiva Quadro da Água por permitirem uma gestão das barragens para a produção hidroelétrica com critérios meramente economicistas de maximização do lucro que causa uma deterioração adicional do estado ecológico das massas de água do rio Tejo e impede que se alcancem os objetivos ambientais do nº 1 do Artigo 4º da DQA ao não assegurar um “regime hidrológico consistente com o alcance dos objetivos ambientais da DQA em massas de águas superficiais naturais” como decorre do documento de orientação nº 31 “Caudais ecológicos na implementação da Diretiva Quadro da Água”.

Fonte e mais fotos: MedioTejo

domingo, 3 de novembro de 2019

Barcos parados e pedras a descoberto. Nas margens do Tejo contam-se prejuízos e pede-se ação para salvar o rio

Barcos parados ou abandonados, terra e pedras a descoberto. Aos olhos de quem passa hoje pelo território do Tejo Internacional não faltam imagens que ilustram a descida dos níveis de água, atualmente os mais baixos das últimas décadas.



Na região transfronteiriça, o assunto é tema de todos os dias. Junto à barragem de Cedillo, em Espanha, encontra-se desde um cais do barco turístico caído a uma embarcação parada no meio do rio.

Do lado de cá da fronteira, no distrito de Castelo Branco, o rio Pônsul é um dos afluentes do Tejo agora secos, onde os pilares de uma ponte registam as marcas do nível habitual da água. Mais de uma dezena de metros abaixo, sobram terras e muitas pedras, mas água… quase nem vê-la.

Para o presidente da Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa (CIMBB) e da Câmara de Vila Velha de Ródão, o que está a acontecer no Tejo Internacional é o reflexo daquilo que apelida de “política calculista” de gestão de águas, em que são privilegiados os interesses económicos em detrimento do território e dos interesses ambientais.

“Para nós, há duas palavras que são aqui incontornáveis: esta situação é inexplicável e é injustificável. É inexplicável porque não há nada que leve a que o Tejo, a montante da barragem de Cedillo, esteja hoje com aquele cenário desolador com que somos confrontados. E é inaceitável porque de facto o Governo português e o Governo espanhol têm a obrigação de se articularem e evitarem uma situação destas”, sublinha, em declarações à Lusa.

Luís Pereira diz mesmo que a situação dos rios Tejo e Pônsul demonstra bem a necessidade de se renegociar a Convenção de Albufeira, definida entre Portugal e Espanha para a cooperação na proteção e no aproveitamento sustentável das águas das bacias hidrográficas.

A revisão da convenção foi já recomendada pelo parlamento português e o programa do novo Governo socialista, aprovado no sábado, promete um processo de “aprofundamento” do acordo, “garantindo caudais diários no rio Tejo e a gestão conjunta das massas de águas comuns”.

Enquanto o movimento ambientalista proTejo tem reiterado que Espanha não cumpriu os caudais definidos no ano hidrológico 2018/2019 e pedido a publicação dos dados, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) afirma que “tudo parece indicar o cumprimento do regime de caudais anuais”, apesar de o boletim anual ainda estar em execução.

“Há prejuízos imediatos e que são já mensuráveis, que têm a ver com a atividade turística, que está suspensa; com infraestruturas que estão danificadas e que têm de ser recuperadas; com a pesca, que neste momento está também inativa. Depois, há prejuízos, a médio e longo prazo, no meio ambiente que de facto ainda não são mensuráveis, mas que calculamos que sejam significativos e que ponham em causa muitos projetos que estavam a ser desenvolvidos na área do Parque Natural do Tejo Internacional”, frisa o autarca.

De um e do outro lado do Tejo, recorda, há uma “voz única de solidariedade” ao nível dos municípios, afetados de igual forma e que exigem a resolução do problema.

As autarquias esperam que sejam defendidos os interesses ambientais e do desenvolvimento de todo o território: “A continuarmos com este quadro, aquilo que estamos a ver é o prejuízo deste território do nosso país em detrimento dos interesses das elétricas espanholas e da agricultura espanhola”, conclui Luís Pereira.

O ambientalista da Quercus Samuel Infante realça que há vários anos que a associação defende a renegociação da Convenção de Albufeira.

“Tem de ser revista e tem de ser revista à luz da nova diretiva-quadro da água, em que remete a obrigação para os Estados-membros de olharem para os rios como um ecossistema e não apenas como um reservatório de água. Ao longo destes anos, Espanha continua a fazer uma gestão à luz dos seus interesses e não dos interesses do rio, do ecossistema e das populações portuguesas. E hoje estamos aqui em mais uma situação crítica”, afirma.

Samuel Infante diz que, além dos problemas recorrentes da falta de qualidade da água que Espanha deixa passar, atualmente “há um incumprimento claro” da convenção.

“Espanha passou apenas 93% do acordo. Portanto, nem a quantidade de água que se comprometeu a passar. Este resultado foi uma tentativa de, no último momento, tentar cumprir a Convenção de Albufeira. Abriu literalmente as portas da barragem de Cedillo e este é o cenário catastrófico que temos aqui. Temos largas dezenas de quilómetros de vários afluentes que estão completamente secos e está a afetar a atividade económica, o ambiente, várias espécies, as populações ribeirinhas e a pesca”, sublinha.

O ambientalista espera que a sociedade em geral se mobilize, desde logo a começar pelos cidadãos e pelos municípios.

De Espanha, considera, “há uma falta de transparência enorme” em relação à barragem de Cedillo: “Continuam a não ser publicadas […] as descargas e a albufeira de Cedillo pura e simplesmente não tem essa informação. Os cálculos que a APA faz são cálculos indiretos. Portanto, Espanha continua a fazer a gestão à sua maneira”.

O alcaide de Cedillo, António González Riscado, entende que houve uma má gestão da água no Tejo ao longo de todo o ano.

“Em vez do caudal mínimo, podiam ter deixado passar mais água para não se chegar a este extremo. Chegado a este ponto, creio que deviam ter negociado, as autoridades portuguesas e espanholas, para largar a água que fosse necessária, mas não desta forma, que a única coisa que fez foi prejudicar os interesses portugueses”, defende.

António González Riscado insiste em que a gestão da água, por parte de Espanha, não foi bem feita, apesar de se ter cumprido a lei.

O autarca recorda que todos os municípios portugueses e espanhóis abrangidos pelo Tejo Internacional estiveram reunidos em Castelo Branco para analisar a situação e fizeram um comunicado pedindo explicações, bem como “uma gestão da água de forma responsável, porque causaram prejuízos ambientais e económicos aos pescadores e aos operadores turísticos”.

António González Riscado espera que esta situação tenha servido de lição para todos: “O servir de lição para todos quer dizer que não podemos tropeçar duas vezes na mesma pedra. Isto já aconteceu e já não o podemos evitar. Mas o que podemos fazer – e creio que é a obrigação de todos – é gerir melhor a água para que não volte a acontecer, porque, no final, isto prejudica toda a gente”.

Ver mais fotos aqui