Mostrar mensagens com a etiqueta UNCTAD. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta UNCTAD. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Estudo científico revela que as cidades europeias podem produzir quase 30% das hortícolas que necessitam


O estudo recentemente publicado na revista Sustainable Cities and Society analisou 840 cidades europeias e concluiu que os espaços urbanos poderão produzir milhões de toneladas de hortícolas por ano.

Coberturas planas, quintais, terrenos abandonados, faixas verdes pouco utilizadas e outros espaços urbanos poderiam contribuir para alimentar cerca de 190 milhões de pessoas, chegando em alguns cenários a cobrir perto de 30% das necessidades de hortícolas frescos dessas cidades.

O mais interessante é que os investigadores não basearam as suas conclusões em tecnologias futuristas, agricultura vertical muito dispendiosa ou sistemas altamente industrializados.

Pelo contrário, o estudo focou-se sobretudo em soluções relativamente simples, acessíveis e de baixa tecnologia, baseadas em hortas no solo ao ar livre, em telhados planos e em terrenos baldios, muito próximas daquilo que muitos agricultores urbanos já fazem há décadas.

Na verdade, as cidades sempre produziram alimento. Durante séculos, Lisboa, Porto, Coimbra, Braga ou Évora viveram rodeadas de hortas, vinhas, olivais, pomares e pequenos campos agrícolas integrados no tecido urbano e periurbano.

O século XX alterou profundamente essa relação. Impermeabilizámos solos férteis, enterrámos linhas de água, destruímos quintas históricas e afastámos progressivamente a produção alimentar dos centros urbanos. Hoje começamos finalmente a compreender a fragilidade estrutural deste modelo.

As alterações climáticas, os eventos extremos, as crises energéticas e a inflação alimentar estão a obrigar cidades e governos a repensar a segurança alimentar. A agricultura urbana deixa assim de ser apenas uma ferramenta educativa ou recreativa. Passa a ser uma estratégia de resiliência territorial.

Depois de mais de vinte anos ligado à agricultura regenerativa urbana, continuo profundamente convencido de que uma cidade capaz de produzir parte do que come é uma cidade mais saudável, mais justa e mais resiliente.

Este estudo vem apenas confirmar aquilo que muitos agricultores urbanos conhecem há décadas. Por baixo do betão continua a existir território fértil, e dentro das cidades continua a existir uma profunda necessidade humana de cultivar alimento.

Já em 2013, um relatório da UNCTAD afirmava que o modelo de agricultura industrial era insustentável e que os modelos agroecológicos locais/ regionais diminuiriam a desigualdade entre Norte Global e Sul Global, entregando às populações de países ditos menos desenvolvidos ferramentas e educação para poderem obter os seus próprios alimentos.

Mais info:

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Globalização e Democracia



A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) usa, no relatório de 2018, o termo hiperglobalização para designar o ritmo e o tipo de integração económica que teve lugar nas últimas décadas. Citando o mesmo relatório:

«Entre 1990 e 2015, o número de acordos comerciais aumentou de 50 para 279, muitos dos quais plurilaterais e, portanto, envolvendo um número maior de pares de países […]. Os tratados bilaterais de investimento (TBIs) cresceram quase dez vezes, de 238 para 2239 no mesmo período […]. Ao mesmo tempo, a “abrangência” de tais acordos continuou a aumentar, colocando sob o seu alcance muitas áreas políticas que até agora haviam sido excluídas das negociações comerciais. Historicamente, os acordos comerciais focavam questões relacionadas principalmente com taxas aduaneiras e cotas. Depois de 1995, as chamadas disposições OMC-plus incluídas na maioria dos acordos comerciais […] também cobriam regulamentos alfandegários, impostos de exportação, medidas antidumping, medidas de direitos compensatórios, barreiras técnicas ao comércio e padrões sanitários e fitossanitários. Outros acordos obrigaram ainda os signatários a fazer cumprir disposições que liberalizassem serviços financeiros ou aquisições públicas, com implicações de longo alcance para políticas públicas, emprego e distribuição de rendimento. Quanto às disposições “extras da OMC” […], que não são discutidas sob a égide da OMC, incluem um conjunto abrangente e em expansão de áreas de política, que muitas vezes reduzem ainda mais o espaço político dos países em desenvolvimento.»

Este fenómeno tem sido insustentável do ponto de vista ambiental, económico e político.

Do ponto de vista ambiental, o desafio das alterações climáticas, cujos danos materiais e humanos podem superar os da Segunda Guerra Mundial, de acordo com o relatório Stern, não são os únicos que testemunham a insustentabilidade do actual sistema. As florestas tropicais ocupavam cerca de 15% da superfície terrestre há poucas décadas, e ocupam hoje cerca de 7%, sendo que o ritmo da sua desflorestação não abrandou. Em poucos anos o peso dos plásticos nos oceanos pode superar o peso dos peixes, trazendo consequências devastadoras para a nossa saúde. De acordo com o trabalho de Steffen et al. (2015) publicado na revista Nature, existem nove «fronteiras planetárias» essenciais à nossa sobrevivência enquanto espécie, das quais sete são quantificadas, sendo as alterações climáticas apenas uma de quatro onde a actividade humana tem sido insustentável.



De facto, na Europa e nos Estados Unidos, os níveis de desigualdades atingem valores semelhantes aos que existiam quando se deu a ascensão da extrema-direita nos anos 20 e 30 do século passado. O esvaziamento da democracia promovido pela hiperglobalização por processos que iremos abordar também pode resultar num aumento do cinismo e revolta contra a democracia que é aproveitado por líderes demagógicos num contexto social que se torna propício ao seu surgimento. Por outro lado, a hiperglobalização, ao aumentar a desigualdade, acabou por incentivar um consumo guiado pelo aumento do endividamento possibilitado pela desregulamentação financeira, aumentando por essa via a instabilidade do sistema financeiro. As crises financeiras de maior severidade, que se tornam assim mais frequentes, tendem, por seu lado, a reforçar a extrema-direita (como investigação recente tem demonstrado empiricamente).

A globalização não teria, no entanto, de ser perversa. O alargamento dos mercados poderia trazer prosperidade, seja por via dos ganhos associados às vantagens comparativas absolutas e relativas (como já descrito por David Ricardo); seja por via de um conjunto de economias de escala que possam conduzir a redução de custos e menor dispêndio de recursos (como descrito por Krugman); seja até pela redução do número e violência dos conflitos militares devido à maior integração económica. Esta maior prosperidade poderia traduzir-se em maiores salários, num estado social melhor financiado e mais robusto e em maior qualidade de vida. E se é verdade que a forte diminuição da fome e miséria que tem ocorrido no mundo ao longo das últimas décadas tenha tido outras causas mais importantes (o desenvolvimento tecnológico e tendências de convergência que teriam lugar mesmo em economias isoladas), não deixa de ser verdade que o aumento do comércio internacional teve um impacto positivo neste processo. Por fim, vale a pena lembrar que o progresso tecnológico tem permitido reduzir as distâncias e facilitar o alargamento dos mercados.


No entanto, se ao alargamento geográfico dos mercados não corresponder um alargamento geográfico do exercício do poder democrático, a discrepância entre as escalas permite subalternizar a Democracia, principalmente na esfera económica.

Um exemplo claro deste fenómeno é o dos paraísos fiscais: se os mercados se alargam mais que o espaço político de decisão, as empresas multinacionais tenderão a pagar menos impostos, independentemente da vontade da maioria da população desse mercado comum. Imaginemos dois países vizinhos com a mesma população e estrutura económica que se juntam num mercado comum, mas com política fiscal independente. Enquanto que uma política fiscal comum obrigaria os eleitores a pesar os ganhos globais de uma descida dos impostos face às perdas globais dessa descida, uma política fiscal separada faz com que os eleitores pesem os ganhos locais e as perdas locais, com menos consideração pelos impactos nos cidadãos do estado vizinho. Isto cria uma dinâmica de corrida para o fundo: aquele país que descer ligeiramente os impostos vai encorajar deslocalizações e aumentar a receita fiscal. O outro país perderá receita fiscal ou copiará o exemplo. No global, teremos um processo do tipo jogo do prisioneiro ou tragédia dos comuns em que quase todos ficam a perder. Isto explica porque é que nas últimas décadas o capital detido em paraísos fiscais aumentou de forma explosiva, tendo ultrapassado todas as economias incluindo a China e os EUA. Recorrendo a estas formas de evitar a tributação, as empresas multinacionais aumentaram seu poder e dimensão e hoje dos 100 governos e empresas mais ricas do mundo, 69 são empresas multinacionais e apenas 31 são governos.


Acrescidamente, as questões fiscais estão muito longe de ser as únicas onde processos deste tipo ocorrem. A legislação laboral está sujeita ao mesmo efeito; bem como defesa dos direitos dos consumidores; bem como a defesa do bem-estar animal. Praticamente todas as áreas de regulação e intervenção económica podem ser afectadas e inibidas por este processo.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Acabar com a crise climática tem apenas uma solução simples - TNPCF

Há 9 anos, o falecido Arcebispo Desmond Tutu já pedia o fim da indústria petrolífera. A principal ameaça ao nosso clima, biodiversidade, saúde humana e água: os combustíveis fósseis.


Assine e divulgue o TNPCF- Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis

À medida que a COP27 se desenrola no Egipto, ouvimos falar de uma grande variedade de soluções para a mudança climática, desde construção com bambu absorvente de carbono e usando menos plástico para crescendo mais algas nos oceanos para reter seus estoques de carbono e aumentar a biodiversidade.

Todas essas ideias são importantes e podem levar a resultados ambientais positivos se implementadas com sucesso.

No entanto, como cientistas do clima, acreditamos que eles também podem ser distrações perigosas, desviando a atenção das três coisas que precisamos fazer para acabar com a crise climática: parar de queimar carvão, parar de queimar petróleo e parar de queimar gás natural.

Acabar com o uso de combustíveis fósseis é essencial para acabar com a crise climática, e não há alternativa.

Um problema simples com uma solução simples

O aquecimento global é fundamentalmente um problema muito simples.

O uso humano de combustíveis fósseis – seja na forma de carvão, petróleo ou gás natural – liberta dióxido de carbono (CO2) e outros gases de efeito estufa na atmosfera, tornando o efeito estufa da Terra mais forte e aumentando a temperatura da Terra.

O aumento da temperatura, que atingiu 1.25 C e contando continuará a menos que paremos de adicionar CO2 à atmosfera. A única maneira de conseguir isso é acabar com o uso de carvão, petróleo e gás natural.

Outras soluções, incluindo menos desmatamento, áreas naturais mais conservadas e restauradas e melhores práticas agrícolas poderia ajudar a retardar o aquecimento global. Estes também teriam Benefícios adicionais como fortalecer a biodiversidade e aumentar a resiliência da comunidade aos impactos climáticos.

Capturar e armazenar carbono também pode eventualmente desempenhar um papel menor na limitação dos piores efeitos da mudança climática, mas depois de décadas de pesquisa ainda não temos uma estratégia económica para colocar centenas de biliões de toneladas de CO2 de volta no solo uma vez os combustíveis fósseis foram queimados.

Se não acabarmos com o uso de combustíveis fósseis, todo o resto não passará de galhos empilhados nos trilhos em frente a um trem desgovernado. Eles podem desacelerar o trem temporariamente, mas até entrarmos no motor e desligarmos o acelerador, o trem continuará acelerando.
É um grande desafio, mas não complexo

A solução para a crise climática não é complexa. Mas é grande.

A quantidade de carvão, petróleo e gás natural extraídos da Terra somam biliões de toneladas por ano. Assim, mudar de combustíveis fósseis para sistemas de energia melhorados exigem esforços muito além o que até agora foi alocado para resolver o problema climático.

Mas “grande” não é o mesmo que “complexo”. O termo “complexo” implica que realmente não sabemos quais são as soluções ou se elas funcionarão de facto. Nenhum dos dois é verdade aqui: sabemos com absoluta certeza que a substituição de combustíveis fósseis por sistemas de energia livres de carbono resolveria o problema climático. Além do mais, é a única maneira de fazer isso.

Até agora, falhamos em tomar as medidas necessárias para lidar com esse problema grande, mas simples, principalmente porque o problema parece complexo.


Por muitos anos, o argumento foi que o sistema climático é complexo e que talvez as emissões de gases de efeito estufa não fossem um problema. Hoje, esse mesmo disfarce de complexidade está sendo usado para propagar dúvidas sobre a eficácia de soluções reais e para promover ações que nos levarão na direção errada. Mesmo agora, os representantes do gás na COP27 estão sugerindo que queimando mais gás natural faz parte da solução.

É hora de olharmos para além dessa fachada de complexidade e começarmos a trabalhar nas soluções que sabemos que funcionarão.

Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis mostra o caminho

Nós sabemos o que precisa ser feito. O Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis é um passo promissor na direção certa. O tratado, lançado na Semana de Ação Climática de Nova York em 2020, pedia, finalmente, para interromper a expansão do desenvolvimento de novos combustíveis fósseis e administrar uma transição justa do carvão, petróleo e gás para a energia limpa.

Mas não podemos parar por aí. Precisamos agir rapidamente para interromper completamente o uso de combustíveis fósseis, substituindo a infraestrutura existente o mais rápido possível com energia solar, eólica e outras fontes de energia não fósseis, para que as pessoas possam prosperar em um futuro climático seguro.

É hora de deixar de lado as distrações e focar na solução simples para a crise climática. Precisamos parar de queimar carvão, petróleo e gás natural. Nosso futuro climático depende disso.
Sobre os autores

H. Damon Matthews, Professor e Cadeira de Pesquisa da Concordia University em Ciência Climática e Sustentabilidade, Concordia University e Eric Galbraith, Professor de Ciências da Terra e Cadeira de Pesquisa do Canadá em Dinâmica do Sistema Humano-Terra, McGill University