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sábado, 22 de agosto de 2026

Hoje assinala-se o Dia Internacional de Homenagem às Vítimas de Atos de Violência Baseados em Religião ou Crença.

Marilyn Monroe "The Springtime of Life", near Mailbu, CA, 1946- foto de André de Dienes

Embora estas efemérides procurem proteger a liberdade de consciência, torna-se impossível ignorar o papel que a própria religião - ou a sua manipulação ideológica - desempenhou e continua a desempenhar na eclosão de conflitos e na perda de vidas humanas. Ao longo da história, dogmas religiosos têm sido instrumentalizados para alimentar um nacionalismo sectário, onde a fé deixa de ser uma busca espiritual individual e passa a funcionar como uma fronteira de exclusão política. Quando a identidade nacional se confunde com a ortodoxia religiosa, a divergência deixa de ser apenas uma diferença de opinião e passa a ser vista como uma ameaça à soberania, pavimentando o caminho para a perseguição, a guerra e a violência estatal.

Acompanho, com muita apreensão, a aceleração e crescimento  galopante dos evangélicos e da manipulação em massa de gente nova a aderir a discursos evangélicos e pentecostais, os chamados "soldados/soldadas de Cristo". O movimento "Mulheres Conservadoras em Portugal" é o clímax de uma orquestração, que já vem detrás.  A aproximação à direita brasileira ganha particular relevância pelo papel que as igrejas evangélicas desempenham no Brasil como importante base de apoio da direita e estão no Parlamento Brasileiro. Imitam o Novo Conservadorismo norte-americano, constituindo, portanto, uma real ameaça à democracia. 

Contudo, os números são impressionantes. A liberdade de religião e de crença permanece um dos direitos fundamentais mais transgredidos no mundo contemporâneo, afetando cerca de 4,9 mil milhões de pessoas - o equivalente a mais de 60% da população global - que vivem sob regimes com limitações severas ou perseguição ostensiva à prática espiritual, segundo o relatório da Fundação ACN (Aid to the Church in Need). A violência motivada pela fé não se restringe a uma região ou dogma específico, distribuindo-se de forma heterogénea e vitimando comunidades de diversas matrizes.

Entre as populações mais afetadas, estima-se que mais de 365 milhões de cristãos enfrentem níveis elevados de discriminação ou opressão, registando-se perto de 5.000 assassinatos anuais por razões diretamente ligadas à sua fé, concentrados maioritariamente na África subsariana, com a Nigéria a responder por mais de 80% destas vítimas mortais, de acordo com os dados monitorizados pelo WWL da Open Doors International. Paralelamente, minorias muçulmanas sofrem repressão sistémica em várias geografias, como ilustrado pela detenção de mais de 1 milhão de Uigures em campos de reeducação em Xinjiang, na China, documentada pelo Relatório de Avaliação do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (OHCHR), e pelo deslocamento forçado de cerca de 740.000 muçulmanos Rohingya forçados a fugir de Mianmar para o Bangladesh, segundo os registos do Portal de Dados Operacionais do ACNUR/UNHCR. O antissemitismo também tem apresentado surtos globais, com aumentos superiores a 300% em incidentes violentos e de intimidação registados em países ocidentais após a escalada de conflitos no Médio Oriente a partir do final de 2023, de acordo com as estatísticas da Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA).

A gravidade do panorama estende-se ao enquadramento jurídico de vários Estados. Em cerca de 13 nações - localizadas maioritariamente no Médio Oriente, Norte de África e Sul da Ásia —, crimes como a apostasia e a blasfémia preveem formalmente a pena de morte, enquanto em mais de 80 países a renúncia à religião maioritária ou a crítica a dogmas resulta em penas de prisão efetiva, acusações criminais ou privação de direitos civis, como documenta a Humanists International no seu Freedom of Thought Report. Nestes cenários, a ausência de crença também é severamente punida, tornando ateus e agnósticos alvos frequentes de sanções estatais.

A esta realidade soma-se a expansão de novos movimentos de traço sectário que instrumentalizam o estatuto de liberdade religiosa para exercer coerção psicológica, exploração financeira ou violação de direitos individuais. O grande desafio da comunidade internacional e dos Estados de direito reside em equilibrar a salvaguarda da liberdade de consciência com a aplicação rigorosa da lei, garantindo que o pretexto da fé não sirva para legitimar abusos, nem que o poder estatal seja utilizado para silenciar a diversidade de crenças.

O Afeganistão sob o domínio do Taliban representa um dos exemplos mais radicais de como a instrumentalização da religião pode anular o Estado de direito e refundar a identidade de um país sob uma lógica de exclusão absoluta. Desde o regresso do grupo ao poder em agosto de 2021, a interpretação ultrafundamentalista da lei islâmica de matriz Deobandi foi erguida como a única fonte de soberania e legitimidade, transformando a fé num instrumento de controlo social totalitário.

Esta fusão entre dogma e governação resultou no apagamento prático da diversidade cultural e religiosa do país. Minorias históricas, como a comunidade Hazara (maioritariamente xiita, representando entre 10% a 15% da população afegã), enfrentam episódios recorrentes de violência, marginalização e deslocamento forçado sem qualquer garantia de proteção estatal, conforme documentado nos Relatórios sobre o Afeganistão da Amnistia Internacional. Ao mesmo tempo, o desvio da ortodoxia oficial, a conversão a outro credo ou o abandono da fé são classificados como apostasia — um crime punível com a pena de morte no enquadramento penal do regime, o que força qualquer dissidência espiritual ao anonimato absoluto sob risco de vida.

Paralelamente, a narrativa religiosa serve de justificação para uma segregação de género sem paralelo no mundo contemporâneo, frequentemente descrita por organismos internacionais como um sistema de apartheid. Mais de 1,4 milhões de raparigas afegãs foram deliberadamente privadas do acesso ao ensino secundário e universitário por decretos do regime, segundo o Relatório sobre a Situação da Educação no Afeganistão da UNESCO, enquanto mais de 80 diretivas executivas restringem o trabalho feminino, a frequência de espaços públicos e o direito das mulheres de circularem sem um tutor masculino (mahram), como detalhado nos Destaques da Situação das Mulheres da ONU Mulheres.

O cenário afegão ilustra como o extremismo religioso transcende a dimensão espiritual para dar lugar a um pseudo-nacionalismo dogmático. A pertença à nação deixa de assentar na cidadania ou no direito de nascimento e passa a depender da submissão a um código ideológico estrito, no qual a divergência não é apenas encarada como uma heresia, mas como uma ameaça à própria sobrevivência do Estado.

domingo, 24 de maio de 2026

Regina Spektor - All The Rowboats


[Verse 1]
All the rowboats in the paintings
They keep trying to row away
And the captains' worried faces
Stay contorted and staring at the waves


[Hook]
They'll keep hanging in their gold frames
For forever, forever and a day
All the rowboats in oil paintings
They keep trying to row away, row away

[Verse 2]
Hear them whispering French and German
Dutch, Italian, and Latin
When no one's looking, I touch a sculpture
Marble, cold, and soft as satin

[Pre-Hook]
But the most special are the most lonely
God, I pity the violins
In glass coffins they keep coughing
They've forgotten, forgotten how to sing, how to sing
La da da da da, la da da da da, la

[Instrumental]

[Verse 3]
First there's lights out, then there's lock up
Masterpieces serving maximum sentences
It's their own fault for being timeless
There's a price to pay and a consequence
All the galleries, the museums
Here's your ticket, welcome to the tombs
They're just public mausoleums
The living dead fill every room

[Pre-Hook]
But the most special are the most lonely
God, I pity the violins
In glass coffins they keep coughing
They've forgotten, forgotten how to sing

[Hook]
They will stay there in their gold frames
For forever, forever and a day
All the rowboats in oil paintings
They keep trying to row away, row away

[Instrumental]

[Verse 4]
First there's lights out, then there's lock up
Masterpieces serving maximum sentences
It's their own fault for being timeless
There's a price to pay and a consequence
All the galleries, the museums
They will stay there forever and a day

[Outro]
All the rowboats in oil paintings
They keep trying to row away, row away
All the rowboats in oil paintings
They keep trying to row away, row away

A música é uma metáfora brilhante sobre museus de arte interpretados como prisões de alta segurança.

Em vez de ver o museu como um lugar de celebração da beleza, Regina adota a perspetiva dos próprios objetos de arte. Ela canta sobre barcos a remo pintados em telas barrocas, estátuas e obras-primas que estão "vivas", mas trancadas, congeladas no tempo e vigiadas por câmaras e seguranças.

A arte foi feita para ser livre, para estar no mar (no caso dos barcos) ou exposta aos elementos, mas foi "capturada" pela humanidade para consumo público. Os barcos querem navegar, mas os seus "remos de tinta" não conseguem mover-se. É uma crítica poética à forma como tentamos possuir e domesticar a história e a criatividade.

Melhor som aqui

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

WhiteDate. 32 homens em Portugal tinham perfis no "Tinder Nazi"



Mais de 30 homens residentes em Portugal tinham contas na plataforma de encontros WhiteDate, conhecida como o "Tinder Nazi", um site que promovia encontros entre pessoas de ascendência europeia com valores "tradicionais".
 
O WhiteDate (que na tradução livre significa literalmente "Encontro Branco", referindo-se à etnia caucasiana) apresentava-se como um local para pessoas de valores "tradicionais" e de "ascendência europeia", que pretendiam contribuir para "criar uma sociedade racialmente pura".

O site foi, entretanto, apagado, mas graças ao trabalho de Martha Root (pseudónimo) - uma hacker alemã que levou a cabo a divulgação dos perfis e dados de quem tinha uma conta - é possível ainda consultar esta informação.

No site, criado pela própria, os utilizadores podem consultar um mapa mundo, onde são assinalados os perfis de quem tinha uma conta no WhiteDate. Para aprofundar a informação, pode-se ainda visitar estes perfis um a um e ler o que tinham na plataforma.


"Nascido em Portugal, mas a viver na Noruega, consciente do que significa ser europeu, procuro encontrar uma parceira de ascendência europeia para criar e cuidar de uma família", lê-se no perfil de um homem de 31 anos. 

Mais abaixo, nas orientações políticas, este utilizador admite ser de extrema-direita e até mesmo fascista.

"Estou farto de toda a degeneração que tem corroído a civilização ocidental, sobretudo nas relações entre homens e mulheres", lê-se numa outra biografia. "A necessidade de encontrar uma parceira a quem eu possa dedicar todo o meu coração na sociedade atual parece valer a pena apenas com a ajuda de iniciativas como esta comunidade romântica online para pessoas brancas", acrescenta.

E num outro perfil, este de um homem de 23 anos: "Acho que é importante para nós, brancos, termos os nossos próprios espaços, especialmente no que diz respeito às relações sexuais".

Nas dezenas de perfis, a grande maioria apresenta-se como "pro-white" ou "pró-branco", em português, com muitos a dizerem-se também anti-vacinas e a admitirem não terem sido vacinados contra a Covid-19.

As idades variam entre os 20 e os 50 anos.

Mas há um outro dado que se faz notar: em Portugal, não há um único perfil de uma mulher, apesar de todos estes homens estarem à procura de uma parceira.

De facto, no total dos oito mil perfis divulgados, com mais de 6.500 ativos na altura da exposição, cerca de 86% pertencia a homens. Apenas 14% dos utilizadores da plataforma eram mulheres.

Perante a disparidade, Martha Root chegou mesmo a ironizar, dizendo que a plataforma "faz com que a aldeia dos Smurf parecia uma utopia feminista".

A hacker alemã infiltrou-se na plataforma durante uma conferência tecnológica realizada em Hamburgo, na Alemanha, em dezembro de 2025, (onde apareceu mascarada de Power Ranger rosa para proteger a sua identidade) mas a ação resultou de um trabalho de vários meses.

Ao longo desse tempo, Root disse ter descoberto que a cibersegurança da plataforma era tão má que "faria a conta de AOL da tua avó corar".

"Imagina dizeres que fazes parte da ‘raça superior’ e esqueceres-te de proteger o teu próprio site - talvez seja melhor dominar o WordPress [plataforma de criação de sites] antes de dominar o mundo", atirou.

O WhiteDate era gerido, alegadamente, por uma mulher de extrema-direita a partir da Alemanha.

Dos cerca de 6.500 perfis ativos, cerca de metade eram dos Estados Unidos com 3.411 utilizadores. Seguia-se o Reino Unido, com 399 perfis, França, com 380, e o Canadá, com 357. A vizinha Espanha tinha 46 utilizadores. 

sábado, 8 de novembro de 2025

Duas versões excelentes do fantástico tema dos Joy Division - "Love WIll Tear Us Apart", por Mísia e Stone Roses




O nome Joy Divison foi retirado do romance ‘House of Dolls’, em 1956 da autoria de Yehiel De-Nur, sobrevivente do Holocausto. Nesse livro Joy Division (Divisão da Alegria) é o nome dado para a área onde as mulheres judias eram mantidas prisioneiras e “oferecidas” sexualmente aos oficiais nazis. Era um nome forte, poderoso, e já carregava por si caráter e crítica social. Mas não corresponde à verdade.
Um porta-voz do Memorial e Museu de Auschwitz-Birkenau disse ao The Guardian que "não há registos históricos de qualquer ‘ala’ de um campo de concentração onde mulheres judias fossem forçadas à escravidão sexual". Dos livros que já li sobre o Holocausto (e foram muitos, muitos) também nunca nada sobre isso lá aparece.
Foi um período histórico em que era comum bandas se inspirarem no III Reich, mas sem "activismo" racista ou intenções anti-semitas. Apenas para chocar, incomodar, criar impacto social. 
Portanto é um mito urbano classificar os Joy Division como uma banda antissemita e/ou nazi. Daniel Rachel explica isso muito bem - livro aqui

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Padre alemão descobre na internet que é neto de Heinrich Himmler, o 'arquiteto' do Holocausto


German pastor Henrik Lenkeit was shocked to discover his grandfather was top Nazi politician Heinrich Himmler through a World War II documentary. Himmler, Hitler’s deputy and a main architect of the Holocaust, was involved in an affair with Lenkeit’s grandmother that led to two children, one of whom was Lenkeit’s mother. He told 10 News+ the discovery was psychologically devastating, and he now speaks out against antisemitism, decrying everything his grandfather stood for.

Henrik Lenkeit viveu 47 anos sem saber que era familiar do braço direito de Hitler, um dos homens mais cruéis da Alemanha nazi.

Henrik Lenkeit, pastor evangélico alemão, descobriu no ano passado, aos 47 anos, que é neto de Heinrich Himmler, braço direito de Hitler e um dos arquitetos da 'Solução Final' do Terceiro Reich, que levou à morte de milhões de judeus, ciganos, homossexuais e dissidentes políticos durante a Segunda Guerra Mundial. Ficou em choque e ainda não acredita que a sua avó tenha sido amante de "um monstro assassino nazi", conforme contou numa recente entrevista à 'Sky News'.

Lenkeit viu um documentário sobre nazis e depois procurou mais informação online. Foi aí, na Internet, que se deparou com uma fotografia da avó materna, Hedwig Potthast, com a legenda "amante de Himmler".

Depois descobriu que Himmler era, nada mais, nada menos, que o pai biológico da sua mãe. E ficou em choque. "Como é que se processa que és familiar de um dos maiores criminosos da história? Não processas", admitiu. "Quem sou? Quem eu era? Por que não me disseram a verdade durante 47 anos? A minha vida foi uma mentira!"

Mais a frio, Lenkeit reconheceu que os pais quiseram na realidade protegê-lo da verdade. A avó tinha sido secretária pessoal de Himmler, acabando depois por se tornar sua amante. "Ela era uma pessoa muito carinhosa, nunca pensei que pudesse ter sido amante de um assassino."

O pastor evangélico acredita que a avó conhecia os crimes cometidos por Himmler. "Eles eram amantes. Amantes monstruosos", acrescenta, mostrando-se horrorizado com a sua herança genética. "Pergunto-me qual é a minha herança de tudo aquilo?"

Henrik não hesita em considerar o avô "um assassino em massa", "maléfico" e "demoníaco". "Todas as coisas más que se possa imaginar. Homem de confiança de Hitler... É meu avô e não há nada que eu possa fazer em relação a isso."

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

White Supremacy. White Right: Meeting the Enemy


Deeyah Khan, uma cineasta britânica-norueguesa de origem paquistanesa, conhecida pelos seus trabalhos sobre direitos humanos e extremismo, decidiu encontrar e conversar pessoalmente com membros e líderes de grupos supremacistas brancos nos Estados Unidos.

Documentário pungente.

O documentário mostra encontros reais com:
  1. Jeff Schoep, então líder do National Socialist Movement (movimento neonazi norte-americano);
  2. Ken Parker, ex-membro da Ku Klux Klan e neonazi;
  3. Outros militantes e manifestantes de extrema-direita, incluindo participantes do violento protesto em Charlottesville (2017).
Deeyah Khan, sendo mulher muçulmana e não branca, aproxima-se deles com uma postura calma, empática e curiosa — não para os confrontar com ódio, mas para tentar entender a raiz da intolerância, do medo e da raiva racial.

💬 Mensagem central
O documentário mostra que a ideologia supremacista branca nasce de medo, frustração e alienação, não apenas de ódio puro.
Khan demonstra como a empatia e o diálogo podem levar alguns extremistas a questionar as suas crenças.
De facto, alguns dos entrevistados, como Ken Parker, acabaram por renunciar ao extremismo após o encontro com ela — algo que o filme documenta parcialmente.

⚖️ Significado e impacto
“White Right: Meeting the Enemy” é uma reflexão sobre o poder do diálogo humano em tempos de polarização extrema.
O documentário foi vencedor de um BAFTA (British Academy Film Award) em 2018.

Ler mais: 
Brands can’t choose their customers. So what happens when extremists wear their clothes?

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Chega: sexo, mentiras e Deus


Numa pequena cidade dos EUA, um contabilista obeso morreu subitamente no seu cubículo de trabalho. No seu funeral estavam apenas a mulher e os filhos, que mal o conheciam. O homem vivia em frente ao computador e falava pouco. Nessa mesma noite, longe da família enlutada, houve outro funeral. “Ajax”, a personagem que o contabilista protagonizava num jogo de computador, foi homenageada por milhares de pessoas, no mundo inteiro, que nunca viram o contabilista solitário, não sabiam quem era ou onde morava. Esse funeral foi épico, com amigos, aliados, inimigos e adversários, que celebravam os feitos heróicos de Ajax naquele jogo. Afinal, qual era a “vida” realmente importante do homem que morreu? Na realidade ou no jogo?

Esta história é contada por Steve Bannon, o antigo conselheiro de Donald Trump, que dirigiu a sua campanha vitoriosa em 2016, no filme American Dharma, de Errol Morris (2018). Bannon argumenta que o “destino” (dharma) da vida de milhões de pessoas está vazio — e pronto a ser preenchido por quem o saiba compreender. “Vem aí uma revolução”, explica o guru de Trump a um céptico realizador que o tenta confrontar. Bannon e Morris não parecem discordar sobre as causas desse vazio: as classes médias sentem-se hoje como os servos russos do século XVIII, ou como hamsters numa gaiola, concede Bannon, enumerando as razões materialistas que levam muitas pessoas a refugiar-se nos jogos, nas teorias da conspiração e na ficção para encontrar um sentido para as suas vidas. Estão reféns do sector financeiro e entregaram a sua auto-determinação às plataformas digitais e à inteligência artificial — tudo isso é verdade, argumenta o estratega político. Mas para se entender a mobilização que alimenta esta corrente política que nem sequer tem um nome consensual — “direita radical”, “extrema-direita” ou “direita populista” — é preciso juntar à realidade os mecanismos da pura ficção. Aqueles que procuram um sentido são os combatentes da “guerra” que os políticos como Trump, Ventura ou Bolsonaro seduzem para travar.

Não será por acaso que Miguel Carvalho, jornalista que investigou o Chega nos últimos cinco anos, escolheu começar o seu livro (Por Dentro do Chega, com a chancela da Objectiva) por uma história que André Ventura criou. Ameaçado por uma suposta investigação judicial que pretendia prendê-lo — mas nunca existiu —, Ventura refugiou-se na luxuosa Quinta das Nespereiras, em Odiáxere (Lagos). O proprietário, Arlindo Fernandes, militante do Chega, conta que viu chegar, “borradinhos de medo”, o líder do partido e a sua mulher, mais um grupo restrito de dirigentes. Estávamos em 2020 e Ventura era deputado. O seu plano era passar à “clandestinidade”, numa lancha rápida com destino a Tânger, Marrocos. Um político como Ventura precisa de criar uma personagem, com um “destino”, um arco narrativo. É esse mecanismo que o liga aos votantes — mais de um milhão e 400 mil nas últimas legislativas.

Miguel Carvalho recolheu centenas de testemunhas, de dirigentes e militantes do Chega. Muitos, certamente sem conhecerem a teoria de Bannon, apontam essa explicação “Ajudei a nascer o Chega porque acreditei que era algo que Deus queria que eu fizesse. Entretanto, o André revelou-se um Saul e não um David. É um grande actor,” diz Lucinda Ribeiro, a mulher nascida em Meimoa, Penamacor, que organizou o crescimento do Chega nas redes sociais. A seu lado trabalhava outra mulher, de origem social bem diferente: Patrícia Sousa Uva gosta de se chamar a si própria de “dondoca”. O seu testemunho sobre Ventura também revela uma personagem construída: “É uma mistura de padre com chico-esperto do futebol de Mem Martins.”

O grupo que geria as redes sociais de Ventura incluía ainda Gerardo Pedro, de Santarém. “Via-o a ralhar na CMTV, no ‘Rua Segura’, e deixei-me ir naquela conversa, era música para os meus ouvidos…” Hoje, Lucinda, Patrícia e Gerardo deixaram de se rever na personagem. “Sinto vergonha de ter andado nisto. Não é o que quero, nem para a minha filha… Este homem não pode governar o país. Não pode”, diz Gerardo Pedro. Mas o seu trabalho (muitas vezes de sapa, com perfis falsos, montagens e difamações sobre outros políticos) permitiu a Ventura libertar-se da sua ajuda. O líder é a personagem, como revela o livro: 80% dos fundadores do Chega já saíram do enredo.

“O meio é a mensagem”, explica Bannon ao cineasta americano (e seu adversário político) Errol Morris. Não se trata de uma citação nova, nem original. Quando Marshall McLuhan a escreveu, em 1967, não havia X, nem TikTok, nem Facebook, nem Youtube, ou qualquer das “redes” onde a maioria das pessoas hoje forma as suas opiniões, e onde os políticos da direita radical “pescam” os seus apoiantes. Mas a ideia continua a fazer sentido, seja ali ou na televisão, que reproduz de maneira acrítica os vídeos — encenados ao detalhe — que Ventura diariamente protagoniza.

As redes substituíram os media e têm consequências — pessoais, políticas, económicas, estéticas, psicológicas, morais, éticas e sociais — que nenhuma força política tradicional, de esquerda ou de direita, parece compreender. A extrema-direita foi hábil a identificar esta mudança estrutural no debate político. As redes são a sua casa (e o dono do X, Elon Musk, faz saudações nazis para os acolher).

“Aqui a gente destrói os caras”, explica Silas Malafaia, mostrando o seu telemóvel. É um pastor evangélico, celebridade nas redes e na televisão brasileira. Ele é a personagem principal de Apocalipse nos Trópicos (Netflix, 2024), o mais recente documentário da brasileira Petra Costa.

Entrevistado ao longo dos últimos anos, em visitas pessoais a Bolsonaro no Palácio do Planalto, ou a viajar no seu avião privado que — gaba-se — custou mais de um milhão de dólares, Malafaia é um religioso que quer ser influente na política, depois de ter herdado uma igreja evangélica que há dez anos tinha 15 mil fiéis. “Tem 100 mil agora”, exclama. “Evangélicos e católicos somos a maioria absoluta do país! A democracia é a vontade da maioria absoluta”, teoriza o evangélico rico.

Essa via para um regime político de faceta teocrática não existe apenas no Brasil ou nos Estados Unidos. Já chegou a Portugal há algum tempo. Lucinda Ribeiro é não só uma eficaz “guerreira" nas redes sociais, mas abriu as portas do Chega a um grupo demográfico novo: o voto evangélico.

Só na região de Lisboa há mais de mil igrejas evangélicas. As mais pequenas têm menos de 100 pessoas, enquanto as maiores (como a IURD ou a Igreja Maná) organizam muitos milhares. Miguel Carvalho aponta alguns nomes curiosos de congregações: “Assembleia de Deus Fogo para a Europa”, “Igreja Baptista Cristo Vive em Células”, “Igreja do Avivamento em Portugal”, ou “Igreja Evangélica Bola de Neve”.

Estas igrejas são espaços comunitários, raros, nas nossas sociedades, quando quase todas as formas de organização (incluindo a Igreja Católica, os sindicatos, as associações culturais) estão em crise. No início deste século, os evangélicos representavam 5% da população brasileira, sendo agora quase um terço dos 212 milhões de habitantes do Brasil. Ricardo Marchi, observador (muitas vezes participante) do Chega é citado por Miguel Carvalho: “Muitos evangélicos comprometeram-se com o Chega desde o início, compartilhando vídeos e textos de fiéis brasileiros contrários à agenda da esquerda (principalmente política de género e mobilização LGBTQIA+).”

Ventura deixou nas redes o convite: “O Chega é a religião dos portugueses comuns”; “Nós somos como aquelas seitas religiosas: fortíssimos”; “Sou muito religioso e acredito que o que me aconteceu a mim e ao Chega na História de Portugal, desde o meu percurso de comentador até ao Parlamento, é um milagre”; “Quero todas as igrejas cristãs com o Chega. Todas. Sem medo nem preconceito”; “Deus no Comando!”

“Olham para Ventura como Messias político e testa de ferro dos seus interesses”, explica, no livro de Miguel Carvalho, João Viegas, pastor evangélico português. “Somos um partido de fanáticos religiosos”, acrescenta Luís Alves, ex-dirigente do Chega, em Sintra.

Poder, dinheiro e favores são a moeda de troca neste negócio político-religioso, detalha o livro.

Steve Bannon gosta de repetir uma frase estranhamente ameaçadora: "É melhor reinar no inferno do que servir no céu." (John Milton, Paraíso Perdido).

terça-feira, 15 de julho de 2025

Sem distracções


Por Anabela Fino 
As palavras de ordem “Palestina Livre” e “Morte às IDF” foram proferidas pela dupla de punk rap Bob Vylan num concerto transmitido em directo pela BBC. Tornaram-se num assunto de Estado: Keir Starmer, primeiro-ministro britânico, condenou o sucedido; a embaixada israelita denunciou a “retórica odiosa”; os EUA revogaram os vistos da banda; a United Talent Agency cancelou a sua representação do grupo; a BBC retirou a gravação do ar, emitiu uma declaração de desagravo e acabou com os directos; a polícia britânica iniciou uma investigação não se sabe a quê. A criminalização do activismo pró-Palestina e a identificação de crítica com anti-semitismo aumentam na razão directa da crescente impossibilidade de negar o genocídio. Criminoso é quem comete genocídio, não quem o denuncia.

«Hoje, muitas pessoas querem fazer-vos acreditar que uma banda punk é a ameaça número um à paz mundial. Não somos a história. Somos uma distracção da história. E quaisquer sanções que recebamos serão uma distracção. O governo não quer que perguntemos por que razão se mantém em silêncio perante esta atrocidade? Que perguntemos por que não fazem mais para parar a matança? Para alimentar os famintos?»

As palavras acima constam da declaração emitida pela dupla de punk rap Bob Vylan, na sequência do escarcéu suscitado pela sua condenação das IDF [Forças de Defesa de Israel], durante a actuação no palco West Holts do Festival de Glastonbury, a 28 de Junho. De forma certeira, a banda põe a nu a hipocrisia sem limites das chamadas democracias ocidentais no que respeita à questão da Palestina e a conivência com os crimes de Israel.

A criminalização do activismo pró-Palestina e a identificação de crítica com anti-semitismo aumentam na razão directa da crescente impossibilidade de negar o genocídio. Não há memória de os genocidas anunciarem tão claramente as suas intenções como faz Israel. Consulte-se a documentação apresentada pela África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça. Alguns exemplos: diz Benjamin Netanyahu que esta é «uma luta entre os filhos da luz e filhos das trevas, entre a humanidade e a lei da selva»; «estamos a enfrentar monstros… Esta é uma batalha não apenas de Israel contra esses bárbaros, é uma batalha da civilização contra a barbárie».

O presidente Isaac Herzog, que escreve mensagens à mão nas bombas lançadas sobre Gaza, não destoa: «É uma nação inteira lá fora que é responsável … lutaremos até lhes quebrarmos a espinha»; «erradicaremos o mal para bem de toda a região e do mundo».

Os ministros fazem coro: «cerco completo a Gaza. Sem electricidade, sem comida, sem água, sem combustível. Tudo está fechado. Estamos a lutar contra animais humanos»; «são todos terroristas e devem ser destruídos».

EUA, NATO, UE aplaudem e apoiam o regime sionista, o terrorismo de Estado, a ocupação, o apartheid, o genocídio dos palestinianos, os assassinatos de estrangeiros, a invasão e ocupação de outros países. Criminosos, nesta versão distópica da “democracia”, são os que denunciam os crimes, os que não se calam, os que não se rendem. A ver se nos distraem do essencial. Em vão. Por cada um que cair, outro virá para empunhar a bandeira.

sábado, 17 de maio de 2025

Octave Mirbeau sobre o ódio


"Não odeies pessoa alguma, nem mesmo os maus. Compadece-te deles, porque jamais conhecerão o único gozo que consola na vida: fazer o bem."

Entusiasta do anarquismo e ardente deyfusista, encarna o protótipo de intelectual comprometido com os assuntos públicos de sua época, assumindo como dever primordial desmistificar as instituições que alienam e oprimem. Nesta tarefa buscou constituir uma estética da revelação que levasse a lucidez, capaz de obrigar os voluntariamente cegos a encararem a realidade das injustiças do mundo. Combateu a sociedade burguesa e a economia capitalista, fazendo frente a formas literárias e estéticas tradicionais que contribuíam para anestesiar consciências, rejeitou o naturalismo, o academicismo e o simbolismo, buscando seu caminho entre o impressionismo e expressionismo.

domingo, 11 de maio de 2025

O paradoxo militar e autoritário de Israel


Quando Israel bombardeia a Síria, o Líbano e Gaza, é “autodefesa”. Quando o Iémen responde, de repente é “antissemitismo”.

sábado, 10 de maio de 2025

A vergonha absoluta


"Acho que nunca escrevi um artigo em estado de maior indignação. O que se passa em Gaza e no território da Autoridade Palestiniana convoca não só a política, a geopolítica, as relações de forças entre Estados, o mundo do “Ocidente” e do Oriente, todos os conflitos em curso, o “Sul global”, o papel das Nações Unidas, mesmo o direito internacional, convoca tudo o que quiserem, mas tudo está abaixo de um repto moral, de uma obrigação de falar, de um dever de protestar e actuar perante um massacre cruel, diante dos nossos olhos, de um povo, o palestiniano. Só conheço uma comparação para esta indiferença, vergonhosa e também, ao mesmo tempo, a mais certeira e, num certo sentido, a mais diabólica: o encolher de ombros de todos os que sabiam que o Holocausto estava em curso – e havia muitos altos responsáveis entre os inimigos dos alemães que sabiam – e nada fizeram.

E não me venham com a história do anti-semitismo, que é um argumento insultuoso para justificar os crimes de Israel, da mesma natureza que o canto “desde o rio até ao mar” serve para justificar o massacre do Hamas. Estão bem uns para os outros.

Já sabemos que tudo começou com um massacre perpetrado pelo Hamas e que devia ter uma resposta israelita dura, como teve. Mas o que se passa nos dias de hoje é outra coisa, é outro patamar político, racial, nacional, que nada tem a ver com uma resposta com qualquer racionalidade militar para combater o Hamas. É uma política de destruição em massa de um povo e do seu “lugar”, e conheceu mais um agravamento na semana passada, com o anúncio da anexação de mais uma parte do território de Gaza ao Estado de Israel. Trata-se, certamente, de preparar a “Riviera” que um Presidente demente diz querer fazer. Bastava esta declaração de Trump, com a aquiescência cínica e interesseira de Bibi, para nós percebermos o grau de loucura que está à frente da maior potência mundial.

Ah! Sim, muita gente diz-se preocupada todas as vezes que Trump abre a boca, ou move as mãos para fazer aquela assinatura infantil em mais uma ordem executiva à margem da Constituição e dos poderes do Congresso, mas isso não chega. Em particular, não chega para a hipocrisia moral de muitos países da União Europeia, como Portugal, que nem sequer o passo de reconhecer o Estado palestiniano são capazes de dar. É uma atitude quixotesca? Se for levada a sério, com a instalação de embaixadas no novo Estado, a assinatura de acordos económicos, políticos e militares, com um Estado soberano, então a coisa fia mais fino. Acresce que Israel, violando todas as regras do direito internacional, conduzindo um massacre quotidiano, não tem sanções.

No entretanto, todos os dias se mata gente inocente, crianças, mulheres, velhos, sem sequer qualquer racionalidade militar que não seja destruir, matar ou atirar para fora da sua terra milhões de pessoas, para depois terraplanar as ruínas e lá instalar colonos israelitas, os mesmos que andam também a matar palestinianos nas terras da Autoridade Palestiniana, a base eleitoral dos partidos da extrema-direita que estão no governo de Bibi. Quem acredita que o que Bibi quer é dar a Trump os hotéis de luxo e as praias da costa de Gaza para fazer vários Mar-a-Lago, e que alguma vez alguém vai lá por o seu rico dinheiro para fazer uma estância turística, rodeada, por terra, por três muros e um pequeno exército de segurança e, por mar, por patrulhas em lanchas, está tão demente como Trump. Não é o caso de Bibi que quer outras coisas, todas locais, todas no Médio Oriente, todas culminando num ataque ao Irão. Para isso, ele até é capaz de construir a tal Riviera vazia de gente, como as aldeias Potemkin em cartão, deslocadas de quarteirão em quarteirão, para a glória de Trump e depois, conseguindo o que quer, trazer o seu eleitorado de extrema-direita para tomar banho na sua Riviera.

E, já agora, não convinha perguntar, em plenas eleições, algo de verdadeiramente importante ao PS, ao PSD, ao CDS, ao Chega, por aí adiante, se, chegando ao Governo, estão dispostos a reconhecer o Estado palestiniano, estão dispostos a impor sanções a Israel e a usar todos os meios ao dispor de um Estado da União Europeia para punir os criminosos? E, para além disso, o que é que eles acham do que se está a passar com as crueldades de Israel em Gaza?

As respostas seriam até uma razão bem mais sólida e moral para decidir o voto."

P.S. Historiador que é, tem obrigação, todos temos, de saber que um 6 de outubro de 2023 existia, e que já nesse 6 de outubro a ocupação criminosa da Palestina conhecia novos picos de brutalidade. Que nunca deixou de conhecer desde 1948. Sem essa percepção, sem esse reconhecimento dos muitos crimes hediondos dos últimos 77 anos, nunca o povo palestiniano conhecerá justiça.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

O novo macarthismo é uma oportunidade para a Europa?


«Foram poucos minutos, mas os suficientes para o ato de resistência ser fotografado e partilhado. Hasteado numa residência estudantil de Harvard, um pequeno pano lembrava que a “liberdade de expressão inclui a Palestina”. A mensagem responde ao estrangulamento financeiro às universidades decretado pela administração Trump. Com base na acusação de inação perante o antissemitismo, Trump exige que alterem currículos com critérios políticos e pretende influenciar critérios na admissão de estudantes internacionais.

Quem não capitular perante o novo macarthismo sentirá, de forma ainda mais violenta, o apertar no torniquete dos cofres públicos. A Johns Hopkins despediu mais de dois mil funcionários após um corte de 800 milhões de dólares. A Universidade de Columbia cedeu, após ver congelados 400 milhões por causa dos protestos estudantis contra a ocupação de Gaza. Dos 25 estabelecimentos de ensino superior que mais financiamento federal receberam nos EUA em 2023, pelo menos 16 estão sob investigação. Entre estes, 10 estão a ser alvo de especial atenção por parte de uma task force governamental contra o alegado antissemitismo, tratando qualquer crítica a Israel como apologia do Hamas.

Rebecca Simmons, médica e investigadora há mais de 50 anos nos EUA, viu o seu projeto sobre complicações na gravidez entre mulheres negras e pobres bloqueado por uma ordem executiva que proíbe financiamento federal a estudos sobre diversidade. Como este, há centenas de casos semelhantes, com impacto direto na saúde pública e inovação médica.

Nem as universidades internacionais com protocolos com as americanas, como algumas portuguesas, são poupadas, exigindo a administração Trump o fim de políticas contra a discriminação ou o fim da investigação em áreas “sensíveis” como a saúde pública.

Revolução Cultural
Das grandes firmas de advocacia às cadeias de televisão, a capitulação perante as exigências autocráticas tem sido regra nestes loucos meses em Washington. Justiça seja feita a Trump: nem as instituições mais poderosas são poupadas. Pelo contrário, a sua capitulação é especialmente importante, exatamente pelo seu poder simbólico. Por isso o braço de ferro com Harvard se tornou tão relevante.

Em resposta à chantagem, Harvard decidiu enfrentar Trump, garantindo que prefere perder 2000 milhões de dólares vindos dos cofres federais do que abdicar do controlo da instituição e da liberdade de definir os seus currículos. Claro que o desafogo financeiro da universidade mais rica do mundo, com um orçamento anual de 50 mil milhões de dólares, ajuda a alguma resistência. Mas o reitor sabe que tem muito a perder, como a isenção fiscal de que beneficia, vital para apoios privados. Até agora, nem isso demoveu a instituição, que sente também a responsabilidade de defender as restantes faculdades sem o seu músculo financeiro, de enfrentar a administração Trump em tribunal. O que está em causa, com este corte financeiro, não é tanto o funcionamento da universidade, mas o dos seus centros de investigação médica. Dos 9000 milhões de dólares que Harvard recebe do Estado, 7000 destinam-se a onze hospitais em Boston e Cambridge.

Os EUA estão a viver uma guerra cultural inspirada, na sua lógica, no estertor de Mao: a purificação do sistema político contra a imposição de um quadro de valores, não natural, pelas elites que dominam o sistema contra a vontade do povo. J.D. Vance não podia ter sido mais claro: “as universidades são o inimigo”. Vance, ele próprio formado em Yale, argumenta que a verdade e o conhecimento nos EUA têm sido moldados pelas universidades com base numa tirania. E perguntou: “Porque consentiram os conservadores esta tirania intelectual?” Quebrar as universidades é fundamental para impor uma nova hegemonia cultural.

A guerra cultural americana já não é meramente simbólica. Atacar as universidades serve três propósitos: destruir uma das últimas barreiras institucionais ao autoritarismo, castigar quem não se ajoelha e consolidar o ressentimento das bases contra as “elites do saber”. Trump segue o guião da Hungria, onde Orbán fez o mesmo, quebrando sem dificuldade a resistência das universidades, agora transformadas em fundações com amplo controlo político.

Vive-se, por cá, o mito da ausência de Estado no domínio tecnológico e científico norte-americano. A eficácia da chantagem de Trump, usando o corte de apoios públicos, desmonta a fantasia.

O investimento federal nas universidades ascende a 60 mil milhões de dólares, um valor trinta vezes superior (atualizado à inflação) às transferências anteriores à Segunda Guerra Mundial. Foi a corrida pela descoberta da bomba nuclear, um esforço titânico que juntou dezenas de investigadores das maiores universidades e institutos, que abriu o caminho para o financiamento de projetos de larga escala. A Guerra Fria, a conquista do espaço, a nova fronteira tecnológica, tudo foi consolidando o apoio público à investigação aplicada que abriu caminho a quase todas as grandes inovações do nosso tempo.

As empresas privadas investem quantias astronómicas em inovação aplicada. Mas ela repousa em décadas de investigação em ciência base que permite, anos depois, a massificação de produtos ou novas tecnologias. A nova geração de vacinas usadas para combater a Covid-19 foi possível graças à pesquisa e ao desenvolvimento efetuados nos anos 60 do século passado.

RIO
Consoante o ranking, 16 ou 20 das 25 melhores universidades do mundo estão nos EUA. Tirando uma breve aparição de Zurique, só as do Reino Unido, com três dos lugares cimeiros, se destacam nas europeias. Nenhuma de uma União Europeia que tanto fala em ciência e inovação. A China, pelo contrário, tem uma ou duas (e Singapura uma).

Não está escrito em pedra que as melhores universidades e centros de inovação fiquem sempre no mesmo país. A Alemanha foi o centro académico até 1933, e deixou de o ser com a perseguição aos judeus e à liberdade de expressão, essencial para o trabalho académico, dando origem a uma fuga de cérebros prontamente acolhida pelos EUA.

Mais de 75% dos investigadores que responderam a um inquérito conduzido pela Nature admitem abandonar os EUA para poder prosseguir o seu trabalho na Europa ou no Canadá. Algumas universidades europeias já sentem o aumento do número de candidaturas do outro lado do oceano e, como sempre, alguns estão mais acordados do que outros. Doze governos escreveram uma carta à comissária europeia da Inovação, defendendo uma estratégia concertada para tentar captar talento internacional para as universidades do continente. Entre esses países encontramos a França, Espanha, Alemanha ou Grécia, mas, como é evidente, nem sinal de Portugal.

É preciso repetir programas de atração, como o que os EUA levaram a curso no pós-guerra (Operação Paperclip), mas desta vez em sinal contrário. A Europa ainda tem uma vantagem em relação à China: é vista como um espaço de liberdade de pensamento, crítica e investigação.

Como avisa Bruno Maçães no Perguntar Não Ofende, a liberdade não chega (nem é certo que, em algumas áreas, isso seja assim tão relevante para os cientistas). A diferença salarial e de investimento em investigação é enorme. É preciso investir e coordenar investimento.

Primeiro Macron, depois Von der Leyen, foram bastante agressivos no discurso sobre a captação de talento das universidades norte-americanas. “A Europa deve continuar a ser a pátria da liberdade académica e científica”, disse a presidente da Comissão Europeia, na apresentação do programa “Escolhe a Europa”. Garantindo que a União Europeia já apoia investigadores que venham para o espaço europeu, atribuindo um complemento à sua bolsa, anunciou “um novo pacote de 500 milhões de euros para 2025-2027, para tornar a Europa um pólo de atracção para os investigadores.” Dá pouco mais 150 milhões por ano para todos os países europeus. Para que se perceba a gota no oceano, mesmo com os cortes de Trump, os EUA continuam a investir 7000 milhões só em Harvard.

Também aqui, o bom aluno português decide ficar para trás. Se a situação já não era boa com o anterior governo, agora temos o orçamento mais baixo da Fundação Ciência e Tecnologia desde 2018. De nada nos serve ter investigadores internacionais com vontade de vir para Portugal se os nossos centros estiverem lotados de precários a trabalhar sem reconhecimento. Não é só uma questão monetária, mas também de estatuto, autonomia e ambiente favorável à investigação.

Ou encaramos a produção de saber como um fator de diferenciação e qualificação da economia, ou continuaremos condenados a olhar para o sucesso dos outros, a depender de monoculturas de baixo valor acrescentado, como a do turismo, e a baixar o IRC na esperança de que assim nasçam flores no deserto. É uma escolha que devia passar pela campanha eleitoral.»

quarta-feira, 16 de abril de 2025

A propósito de Harvard


É difícil compreender que se possa colocar em causa uma universidade que, ao longo da sua história, se afirmou como uma referência nacional e internacional. Uma instituição de ensino superior que, de forma consistente, tem ocupado posições cimeiras nos rankings, contribuindo de modo inquestionável para o progresso científico, económico e social do país. Uma universidade que formou quadros extraordinários, muitos dos quais ocupam hoje posições de destaque nas mais prestigiadas empresas e instituições. Uma universidade que acolheu e inspirou inúmeros prémios Nobel, e que tem gerado conhecimento, inovação e soluções com impacto real e duradouro na vida das pessoas. Causa perplexidade e indignação que se procure fragilizar precisamente as instituições que mais têm contribuído para a prosperidade do país. Colocar em causa o conhecimento é um risco que não é apenas simbólico: é estrutural e profundamente destrutivo.

domingo, 16 de junho de 2024

Uma Vida Singular (2024) - One Life


Baseado na história verídica de Sir Nicholas Winton, conhecido por "Nicky", um jovem corretor da bolsa londrino interpretado por Anthony Hopkins, que, com Trevor Chadwick e Doreen Warriner do Comité Britânico para os Refugiados na Checoslováquia, resgatou 669 crianças aos nazis nos meses que antecederam a Segunda Guerra Mundial, uma operação que ficou conhecida como o Kindertransport.

Nicky visitou Praga em dezembro de 1938 e encontrou famílias que tinham fugido à ascensão dos nazis ao poder na Alemanha e na Áustria e que viviam em condições desesperadas, com falta de abrigo e comida.

Apercebeu-se imediatamente de que se tratava de uma corrida contra o tempo. Quantas crianças poderiam ele e a sua equipa salvar antes do encerramento das fronteiras?

Cinquenta anos depois, em 1988, Nicky vive assombrado pelo destino das crianças que não conseguiu levar para Inglaterra, culpando-se sempre por não ter feito mais. Só quando o programa de televisão da BBC "That's Life!" o surpreende, apresentando-lhe algumas das crianças sobreviventes já adultas, é que Nicky começa finalmente a lidar com a culpa e a dor que carregou durante cinco décadas.

No final uma interrogação persistia em mim, passados oitenta anos como é possível assistirmos ao extermínio sem dó nem piedade de milhares de crianças palestinianas, pelas mãos de alguns que bem podem ser descendentes dos que foram salvos da barbárie nazi. Como é possível e a que ponto chegamos para que quem no mundo tem poder para impedir este monstruoso crime, permaneça impávido e sereno.

sábado, 8 de junho de 2024

Criatividade construtiva é a reposta

Rumores recentes abundam sobre coisas nefastas e imprudentes e acontecimentos gerais em vários grupos aqui, no Planeta, supostamente relacionados ao nosso anfitrião ou outras coisas problemáticas

Alguém tem algo pessoal importante a acrescentar?

'Nós, cidadãos que confiamos nas ondas de informação' merece saber o que é o quê?

domingo, 19 de maio de 2024

Abraço

Racismo e incitamento ao ódio é crime! Está na nossa constituição e em muitos países. Retirei este poster do Ministério Federal Brasileiro, onde há povos originários, há mestiçagens, há multiculturalismo

Abraço
Abraço os leprosos, os inocentes, os rebeldes
Abraço os heterossexuais 
Abraço os  LGBTQIA+
Abraço os filósofos, biólogos, os hactivistas e activistas
Abraço os defensores da liberdade de expressão
Abraço os excluídos, incluídos, os bem formados
Abraço os imigrantes e emigrantes
Somos todos Homo sapiens. As mesmas lágrimas, o mesmo suor e cor do sangue

Geneticamente não há raças. Somos todos Homo sapiens.

Quanto à liberdade de expressão, esta não pode servir de desculpa para encobrir racismo e xenofobia, e Aguiar branco, Presidente da Assembleia da República tem a responsabilidade de compreender isso. Não podemos permitir que o discurso de ódio seja facilitado e estimulado na casa da Democracia, a pretexto de respeitar a liberdade de expressão, que é uma das grandes conquistas de Abril. Abril é liberdade, mas é também igualdade e justiça social, e facilitar quem promove os valores contrários, o ódio, o ressentimento, o desrespeito na diferença, é ignorar o essencial. Nós não temos dúvidas: vamos dar combate diário a este discurso, combate diário para construir uma sociedade mais unida e coesa. Enquanto houver quem promova o ódio e o ressentimento, o BioTerra não descansará.


O que autoriza Aguiar Branco a defender André Ventura, um reincidente criminoso racista? É a escala de valores morais e éticos que coloca a dignidade humana em disputa com o bem jurídico da liberdade de expressão. Ora, nenhuma liberdade de expressão está acima da dignidade humana. A primeira função das instituições da república é precisamente a defesa da dignidade humana. Em democracia quem não souber incarnar essa responsabilidade com o compromisso de defender de forma intransigente a inviolabilidade da dignidade humana, não merece o cargo que o ocupa. Aguiar Branco deve demitir-se da presidência da AR e o criminoso racista, André Ventura, deve ser julgado e responsabilizado pelos seus crimes.


sábado, 4 de maio de 2024

A intifada que Israel tem de encarar. E o Velho Mundo também


Alexandra Lucas Coelho
"1. Eu ia começar este texto pela Califórnia. Só que ontem à noite o meu amigo W. escreveu a dizer que tinha conseguido sair de Gaza. Meio morto mas incrivelmente vivo, ao fim de sete meses de um horror sem precedentes no nosso tempo. Contarei adiante o que ele quiser contar, a partir do Egipto. Para já, vai dormir, ser tratado e reencontrar a filha mais nova, que conheci pequenina há 19 anos e agora terá o pai na sua festa de casamento. 
2. Quando W. estava prestes a atravessar o Sinai, no longo êxodo de Gaza, muitos milhares de estudantes, ainda mais novos do que essa filha dele, estavam acampados em mais de cem campus por toda a América, num apoio também sem precedentes à Palestina, contra a participação dos EUA na guerra e para exigir às universidades o fim dos apoios a Israel. Um dos maiores acampamentos era o da UCLA (Universidade da Califórnia, em Los Angeles). E de repente, na terça-feira à noite, véspera de feriado, jovens a 12.200 quilómetros de Gaza, com vidas mais ou menos confortáveis, estavam ali numa barricada, a serem atacados por uma milícia pró-Israel com bastões, ferros, foguetes, objectos pesados, gás-pimenta. Não era um confronto entre duas facções. Foi um raide bélico contra um acampamento pacífico. Dezenas de estudantes ficaram feridos. Há inúmeros vídeos com os atacantes a destruir e espancar. Dois dias antes, provocadores já tinham desafiado o acampamento, muitos falando hebraico. Havia bandeiras israelitas. 
Na terça, os atacantes foram mascarados, mas não há dúvida de que eram pró-Israel. “Em 33 anos na UCLA, nunca vi nada tão aterrorizador”, escreveu David N. Myers, “Distinguished Professor” de história e cultura judaica, no Forward, jornal com mais de cem anos, feito por judeus americanos. Um “falhanço total da universidade, da cidade de L.A. e do estado da Califórnia”, porque os atacantes agiram “com impunidade durante três horas”, apesar de a UCLA ter a sua própria força policial e de a polícia de L.A. estar algures no campus. Havia sinais de perigo desde domingo e nada foi feito para evitar a escalada. Então, além de “condenar a violência chocante”, a universidade tem de “investigar como os manifestantes antiguerra foram deixados sem defesa durante horas”, aponta Myers. Mas não só: “Tornar claro que exprimir oposição à guerra em Gaza é legítimo, que anti-semitismo e islamofobia não têm lugar no campus, e que a retórica irresponsável sobre o perigo que representariam manifestantes pacíficos contribuiu para horror”. Com a força de ser quem é, Myers desafia ainda os líderes da comunidade judaica a denunciarem atacantes que agem em nome de uma suposta protecção dos estudantes judeus. Quando há incontáveis judeus em protesto nos campus, e eles mesmos foram alvos do ataque de 30 de Abril. No dia seguinte, a UCLA ainda viveu a brutalidade do desmantelamento policial dos acampados. Com balas de borracha: sim. Com 200 estudantes detidos. Ao todo, vamos em mais de dois mil detidos desde que a repressão policial na Universidade de Colúmbia acendeu o levante por todo o país. Toda a América do Norte, já, porque nos últimos dias sucederam-se acampamentos no Canadá, e também na Universidade Autónoma do México, que tem memórias vívidas de repressão. Como Colúmbia e outras universidades têm. Gaza é o novo Vietname nos campus da América, desta vez em directo. Esta geração vê o horror nos seus telefones há sete meses, e viu agora o que a polícia fez a estudantes. E professores. 
Eu vi filósofas de cabelo branco serem atiradas ao chão, imobilizadas à bruta, levadas polícia, na universidade de Emory. Não só milhares de estudantes foram feridos, detidos, como suspensos, impedidos de assistir às aulas, ameaçados de expulsão, ou banidos, mesmo. E, ainda assim, estão determinados a não parar. A, por exemplo, mostrar um cartaz com a palavra genocídio na cara de responsáveis de Harvard. Sim, têm coisas a perder, e já pagaram um preço, físico e académico. É o próprio futuro da universidade que está em risco longo ensaio de Louis Menand há dias na New Yorker). Chamar a polícia para reprimir estudantes no campus é uma linha vermelha. Ser presidente numa universidade e marioneta de um tribunal público é incompatível. Tenho amigos em várias universidades americanas. 
Um deles, João José Reis, dos mais importantes historiadores brasileiros, está há meses numa visita a Princeton (depois de temporadas noutros campus, desde há décadas). “Essa é a guerra da vez, e é uma guerra também americana, pelo nível de engajamento dos EUA”, escreveu-me, quando perguntei se gostaria de dizer algo. “Já tínhamos lido e visto o jornalismo daqui adoptar essa atitude entre autocondescendente e covarde, mas ver acontecer nas universidades é chocante, por se apresentarem ao mundo como o paraíso da liberdade e do pensamento crítico. A máscara caiu. Prevalece o poder dos doadores pró-Israel, apesar de muitas universidades terem dinheiro por anos e séculos. Então vale tudo, vale ter seus alunos ameaçados de expulsão e também seus professores, apesar de empregos teoricamente estáveis. Vale as universidades se calarem e até aplaudirem a violência e a prisão.” Enquanto isso, duas universidades tão prestigiadas como a Rutgers e a Brown mostraram como era possível dialogar com os estudantes, e os acampamentos serem desmontados pacificamente. Na Rutgers, os estudantes conseguiram, entre outras vitórias, bolsas para jovens de Gaza. Oito em dez pontos aceites, num clima de alegria. E a universidade aceitou debater os restantes, incluindo o desinvestimento em Israel. Contraste total entre as imagens ali e a militarização em Colúmbia ou na UCLA. Ou seja, havia boas alternativas a chamar a polícia. Outro amigo, Pedro Schacht Pereira, está como visitante em Yale, e em contacto permanente com a Ohio State University, onde éprofessor Æxo, tem um filho estudante e a polícia também actuou. Aí, raparigas foram forçadas a tirar o hijab. Professores e pais questionaram a universidade. Entretanto em Yale, um provocador de megafone, com um discurso de ódio contra os palestinianos, insultava os manifestantes. Pedro não testemunhou qualquer resposta anti-semita, ao contrário, uma organização empenhada em impedir que isso acontecesse. Eu vi centenas de imagens e relatos de várias universidades. E vi também um provocador pró-israelita de megafone, desta vez na Califórnia, que dizia: “Tirem os vossos hijabs e arranjem um emprego! Vocês são gordas, feias e falidas.” Islamofobia desbragada. Como dizer “Voltem para a Polónia” é anti-semitismo, e li no Haaretz que isso aconteceu num campus. Também li, e foi amplamente noticiado na imprensa americana, que a universidade de Colúmbia baniu um estudante do campus porque ele tinha dito “os sionistas não merecem viver”. Quando dei uma primeira olhada nas notícias, pensei que ele tinha dito aquilo agora no campus. Lendo mais, ficávamos a saber que era um post no Instagram. Feito em Janeiro. De que ele se retractara. Mas no retrato geral que me chegava de Israel era como se os campus da América estivessem a gritar ao megafone que os sionistas não mereciam viver. A palavra campus passara a estar atrelada à palavraanti-semitismo. É a forma favorita e Israel não pensar no seu próprio problema. Estava resolvido: o que se passava nos campus da América era anti-semitismo. Mas esta intifada também é contra isso: a exploração do anti-semitismo. O que está a acontecer nos campus da América não é pequeno, e não é anti-semitismo. Embora haja anti-semitas por toda a parte, como há racistas por toda a parte, nenhum mais importante que outro, todos criminosos. E todos para levar a sério. O anti-semitismo mata, como os judeus sabem. Incluindo os que estão nos campusda América agora a lutar pela vida. O futuro dos judeus não está no governo de Israel. Está na mão deles." (este texto continua amanhã)

terça-feira, 9 de abril de 2024

Música do BioTerra: Anohni - Drone Bomb Me

[Chorus 1]
Drone bomb me
Blow me from the mountains, and into the sea
Blow me from the side of the mountain
Blow my head off, explode my crystal guts
Lay my purple on the grass

[Verse 1]
I have a glint in my eye, I think I wanna die
I wanna die
I wanna be the apple of your eye

[Chorus 1]

[Verse 2]
Let me be the first
I'm not so innocent
Let me be the one
The one that you choose from above
After all, I'm partly to blame

[Chorus 2]
So, drone bomb me, I'm partly to blame
Blow me from the mountains, and into the sea
I'm partly to blame
Blow me from the mountains, and into the sea
I wanna die
I’m not so innocent
I'm partly to blame
Blow my head off
Explode my crystal guts

[Verse 3]
My blood, my blood, my blood
Choose me, choose me, choose me tonight
Choose me
Let me be the one
The one that you choose tonight
Choose me tonight, tonight

Acerca do Tema: Drone Bomb Me

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Israel declara Lula como “persona non grata” por comparação de ação de Israel em Gaza com Holocausto



O governo de Israel declarou, nesta segunda-feira (19), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como “persona non grata”. A decisão foi tomada após o líder brasileiro comparar as ações de Israel na Faixa de Gaza com o extermínio judeu pela Alemanha nazi.

"Não perdoaremos e não esqueceremos — em meu nome e em nome dos cidadãos de Israel, informei ao Presidente Lula que ele é uma 'persona non grata' em Israel até que ele peça desculpas e se se retrate", escreveu o ministro das Relações Exteriores de Israel, Israel Katz, nas redes sociais.

A expressão “persona non grata” é um instrumento jurídico utilizado em relações internacionais para indicar que um representante oficial estrangeiro não é mais bem-vindo.

Katz ainda afirmou que "a comparação do presidente brasileiro Lula entre a guerra justa de Israel contra o Hamas e as ações de Hitler e dos nazistas, que exterminaram 6 milhões de judeus, é um grave ataque antissemita que profana a memória daqueles que morreram no Holocausto".

Em viagem a Etiópia no último final de semana, Lula definiu os ataques de Israel em Gaza como “genocídio” e “chacina”. Ele ainda cobrou uma postura diferente do Conselho de Segurança da ONU.

"O que está acontecendo na Faixa de Gaza e com o povo palestino não existe em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu: quando o Hitler resolveu matar os judeus", disse Lula.

Além disso, o ministro das Relações Exteriores de Israel convocou o embaixador do Brasil para uma reunião para debater a declaração de Lula.

Ler mais:

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Juntos somos um Só(nho)


Tenho amigos casados com japonesas, outros com vietnamitas, muitos casados com pessoas dos países da CPLP. Os meus vizinhos são uma família de brasileiros. Tive na minha carreira docente turmas multiculturais. Dei-me bem. Ucranianos, russos, sírios, judeus, afrodescendentes, japoneses, chineses, alemães, belgas, franceses e brasileiros. Era uma festa!