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sábado, 29 de outubro de 2022

Onde Estão os Pobres?


Por António Guerreiro

A pobreza é histórica e socialmente relativa, os critérios para a sua definição mudam consoante a época e a sociedade.

Ao mesmo tempo que eram divulgados alguns números sobre o aumento da pobreza em Portugal e se publicavam reportagens que amplificam demagogicamente a situação, o Governo depositava 125 euros na conta bancária de uma grande parte dos cidadãos. Esse dinheiro vai alimentar o fluxo económico e volta a reentrar parcialmente nos cofres do Estado. Mas o que importa é cultivar a imagem de um Estado benfeitor.

Muito embora o universo dos beneficiários inclua a maior parte da população e não se limite aos que têm rendimentos muito reduzidos ou se situam abaixo do limiar de pobreza, esta “dádiva”, no contexto em que é feita, arrisca-se a parecer uma manobra de assistência ou um suplemento de generosidade do sistema de protecção social.

Evidentemente, a operação é económica, bastante alargada, e tem objectivos políticos, mas na sua forma e graças à coincidência com a divulgação de dados alarmantes, acaba por se confundir demasiado com a assistência à pobreza. E ser assistido é, como sabemos desde que em 1907 Georg Simmel publicou o seu célebre estudo sobre os pobres, com o qual impulsionou uma “sociologia da pobreza”, o critério essencial para que uma pessoa seja representada pelos outros como pobre.

Onde está afinal esta enorme massa de população pobre se nós não a vemos ou a vemos muito pouco? Não a vemos porque na nossa sociedade (democrática e rica ou com aspirações a tal) é o modelo da riqueza que se tornou conspícuo ou até exuberante, enquanto os pobres foram relegados para a condição da invisibilidade. De outro modo, constituiriam um grande incómodo que justifica, aliás, o assistencialismo: este acaba por ser uma forma de assistência não apenas aos assistidos, mas aos sujeitos da assistência. É preciso apresentar ainda uma outra razão para esta invisibilidade: em países como Portugal há uma pobreza integrada socialmente.

Muitas pessoas com quem nos cruzamos diariamente, que nos prestam serviços e que nos atendem nas lojas, nos supermercados, nos cafés e restaurantes, fazem parte deste estrato social; nos países da Europa do Norte, pelo contrário (embora com alguns desvios que se têm acentuado nos últimos anos), a classe média é a regra geral e a pobreza é quase sempre marginal, os pobres vivem na condição de “restos”, de inadaptados, não formam um conjunto social.

Outra coisa que Simmel nos ensinou é que a pobreza é sempre relativa e, por isso, devemos interrogar a própria noção de pobreza, tal como ela é definida e quantificada pelas estatísticas. Basta mudar um pouco o limiar de pobreza oficial e imediatamente se altera a proporção dos pobres em relação à totalidade do universo populacional.

A pobreza é histórica e socialmente relativa, os critérios para a sua definição mudam consoante a época e a sociedade: um pobre em Inglaterra na época da revolução industrial não é o mesmo que um pobre na Inglaterra de hoje, tal como um pobre na Suíça não se assemelha a um pobre em Portugal. Mas esta definição relativa de pobreza aplica-se também às categorias profissionais. Um exemplo, que tem actualmente uma extrema evidência, demonstrativa desta realidade: a classe dos jornalistas tem os seus pobres, que são a maioria, e os seus ricos, uma minoria.

A pobreza, em sociedades como a nossa, é apenas bem visível quando ostentada pelos “outros”, os que não são como nós, os imigrantes ou os que são etnicamente identificados. Mas, para além de genericamente invisível, é também muda ou, pelo menos, muito pouco eloquente. Não se vê e pouco fala. Há quem fale por ela, muitas vezes instrumentalizando-a, mas é muito raro apreendê-la com voz própria e sem mediações. Uma excepção a esta regra é um livro-reportagem, um fabuloso livro de um notável escritor dos Estados Unidos, William T. Vollmann, intitulado Poor People (2007).

Vollmann percorreu entre 1994 e 2006 vastas zonas do mundo onde prolifera a pobreza e perguntou aos pobres porque é que são pobres. E as respostas que recebeu são as mais variadas: o destino, dizem uns, a preguiça, confessam outros, o infortúnio e as decisões políticas, avançam outros. Enfim, as respostas são muito diferentes e há até uma mulher indiana que lhe respondeu que a sua pobreza era ditada pelas leis da encarnação; e há um sem-abrigo, algures no México, que diz que não se considera pobre porque arranja dinheiro diariamente para se embebedar.

Relatórios 
Índice Multidimensional de Pobreza (ONU-2002)
UNICEF- Análise do impacto da Guerra Rússia-Ucrânia e a desaceleração económica na pobreza infantil na Europa Oriental e na Ásia Central

Política Nacional

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Primeiro Instituto Macrobiótico do país vai fechar


Esta terça-feira, 25 de janeiro, foi anunciado o encerramento do Instituto Macrobiótico de Portugal, que conta com mais de 40 anos de atividade. Nas redes sociais, Geninha Horta Varatojo – que fundou o Instituto ao lado do marido, Francisco, falecido em 2017 – atribuiu o fecho de portas às dificuldades financeiras trazidas pela pandemia e deixou uma mensagem de esperança.

Leia o comunicado:

“Como criar uma forma de vida mais saudável, harmoniosa e sustentável. Esse é o legado do Instituto Macrobiótico de Portugal. Depois de mais de 40 anos de actividade, o Instituto Macrobiótico de Portugal informa que irá encerrar. A nossa cozinha e loja encerram já no final do mês de Fevereiro mas as nossas aulas irão prosseguir até ao mês de Julho.

As dificuldades financeiras acentuadas nestes últimos três anos de pandemia ditaram o fim de um projecto de vida. Continuará, no entanto, temos essa convicção, através dos imensos alunos, professores, assistentes e demais interessados em promover uma Vida mais feliz para nós e para o Planeta. Foram muitos anos dedicados a esta Grande Vida, que alia tradições milenares aos conhecimentos mais modernos.

Quatro décadas a promover saúde e desenvolvimento pessoal, social e ambiental. A longa jornada do Instituto, iniciada por Francisco Varatojo, pode ter chegado ao fim mas continua em cada um dos que, um dia, cruzaram as portas do Instituto nas mais variadas actividades promovidas. Foram inúmeras aulas, palestras, workshops, formações, showcookings, consultas, terapias, retiros e até festivais.

O fim de um ciclo dita sempre o início de outro. Para nós e para os milhares que cruzaram o nosso caminho, foi uma caminhada com desafios, mas gratificante e cheia de sentido. A todos os alunos, professores, curiosos e interessados que, de alguma forma, nos procuraram, o meu muito obrigada.“

Por fim, Geninha esclareceu: “Até ao mês de Julho estamos com a escola a funcionar normalmente, com todos os cursos que já estão a decorrer e com muitos novos que estão ainda por vir. Continuarão a receber as nossas novidades. Obrigado por continuarem por aí!”.

Saber mais: