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sábado, 9 de maio de 2026

Primeiros americanos: descoberta no Novo México recua povoamento em 23.000 anos


Durante décadas, os livros escolares afirmaram que os primeiros americanos chegaram há cerca de 13.000 anos. Contudo, pegadas fossilizadas descobertas no Parque Nacional de White Sands, no Novo México (EUA), acabam de deitar por terra essa cronologia. Os vestígios mais antigos têm quase 23.000 anos - e narram uma história de tirar o fôlego.

Cientistas utilizaram a datação por radiocarbono em sementes incrustadas nas pegadas para confirmar a sua idade milenar. Um dos trilhos mostra uma mulher, ou uma adolescente, a carregar uma criança ao colo, caminhando apressadamente sobre o leito lamacento de um antigo lago. Ela escorregou. Cansou-se. Pousou a criança por um momento. E depois continuou a avançar. 

Ao seu redor: lobos-terríveis (Aenocyon dirus) e tigres-dentes-de-sabre. Aquilo não era um passeio; era sobrevivência.

As pegadas estão tão bem preservadas que é possível distinguir os dedos dos pés da criança, a passada da mulher e até o local onde ela fez uma pausa. "Se alguma vez teve de correr para algum lugar importante enquanto carregava uma criança cansada, sentiu uma emoção muito semelhante", afirmou um dos investigadores. [toda a história aqui]

Naquele período, o continente atravessava o Último Máximo Glacial, uma fase marcada por um clima mais frio e pela presença de grandes carnívoros.

Esta descoberta no sul dos Estados Unidos reescreve, por completo, a história da presença humana na América do Norte.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Indigenous Communities Report Dramatic Loss Of Large Bird Species Over 80 Years


A recently published international study reports there are fewer and fewer large bodied bird species in Africa, Latin America and Asia. Led by a large team of researchers based at Institute of Environmental Science and Technology at the Universitat Autònoma de Barcelona (ICTA-UAB), the study finds that birds living in these regions are considerably smaller than those that predominated in 1940. The study documents the collective ecological memories of 10 Indigenous Peoples and local communities and reports a reduction of up to 72% in the mean body mass of the bird species present in these areas between 1940 and 2020.

“The project began in 2013, during my PhD fieldwork in the Bolivian Amazon,” ethnobiologist Álvaro Fernández-Llamazares told me in email. Dr Fernández-Llamazares works as a senior researcher at the ICTA-UAB. “Knowledge holders of the Tsimané people repeatedly told me that the large birds they had grown up with were rapidly disappearing.”

The Tsimané are indigenous people living in lowland Bolivia. They are primarily a subsistence agriculture culture, although hunting and fishing also contribute to many of the settlements’ food supplies.

“The Tsimané interact with birds on a daily basis through hunting, farming, rituals, and storytelling, which gives them long-term ecological memories that extend far beyond the timeframe of scientific monitoring,” Dr Fernández-Llamazares explained to me in email.

“As I later worked with Indigenous communities in other parts of the world, I realized that remarkably similar observations were being made elsewhere. That convergence made me realize that these place-based memories could reveal large-scale patterns of biodiversity change. This is what motivated me to carry out a global analysis to understand what Indigenous and local knowledge systems can tell us about long-term changes in bird populations.”
F I G U R E 1 : Locations of the ten study sites.doi:10.1017/s0030605325102615


The research is based on a global survey of 1,434 adult participants from 10 place-based communities across three continents (Figure 1). In total, Dr Fernández-Llamazares and collaborators surveyed 1,434 adults in ten communities in Bolivia, Chile, Mexico, Brazil, China, Ghana, Kenya, Madagascar, Mongolia, and Senegal. They compiled 6,914 unique bird reports (Figure 2) corresponding to 283 bird species, and compared the bird species most commonly reported during participants’ childhoods with those currently reported in their territories.
Distribution of bird reports over time in the 10 study sites (Fig. 1) and across all sites combined.

The reported differences in bird species were statistically significant in territories such as Tsimane (Bolivia), Timucuy (Mexico), Vavatenina (Madagascar) and Ordos Desert (China). At the same time, no significant differences were reported for Lonquimay (Chile) and Bulgan soum (Mongolia).

The Indigenous Peoples’ cultural memory strongly contrasts with most people’s memories of environmental conditions, which are continually deteriorating over time, a phenomenon known as the Shifting Baseline Syndrome (ref). Basically, in the absence of past information or experience with historical conditions, members of each new generation accept the situation in which they were raised as being “normal”. This psychological and sociological phenomenon is increasingly recognized as one of the fundamental obstacles to addressing a wide range of today’s global environmental issues.

Dr Fernández-Llamazares and collaborators’ analysis reveals the deeply worrying pattern where large bodied bird species are rapidly disappearing from local environments, only to be replaced by smaller bodied species. For example, this study found that the average mass of reported bird species exceeded 1,500 grams (3.3 pounds) in the 1940s, whereas the average mass in 2020 is reported to be closer to 535 grams (1.17 pounds). This coincides with a significant decline in body mass of 72% over eight decades.

The secretary bird (Sagittarius serpentarius) is a large endangered bird of prey that is endemic to open grasslands and savannah of the sub-Saharan region of Africa. Its body mass ranges from 2.3kg to 5kg (5–11 pounds) 

What happened to these large birds? They were likely driven locally extinct because large bird species are more vulnerable than small ones to hunting, habitat destruction and fragmentation, and to infrastructure development, according to Dr Fernández-Llamazares. Further, the loss of these birds threatens biodiversity and environmental health and is accompanied by the loss of key functional roles held by these birds in their ecosystems, particularly seed dispersal, pest control, and forest regeneration.

Dr Fernández-Llamazares and collaborators’ study serves to highlight critically important alterations to the intimate, lived experiences with nature of generations of people within their territories. It also points to the collective impoverishment of Indigenous Peoples’ cultural identity, memory and traditional practices around the world.

“Bird declines are not abstract statistics: they are visible, remembered, and felt by people who live closest to nature,” Dr Fernández-Llamazares stated in email. “When ten Indigenous Peoples and local communities across three continents independently report that birds are getting smaller, it tells us the avian extinction crisis is deeper and more pervasive than we tend to acknowledge with scientific data.”

Source:
Álvaro Fernández-Llamazares et. al. (2026). Indigenous Peoples and local communities report a consistent decline in the body mass of birds across three continents, Oryx | doi:10.1017/s0030605325102615

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Mudar regimes tem sido uma aposta arriscada para os EUA


A posição dos EUA que levou à Guerra do Iraque ameaça agora criar problemas sérios na Venezuela.

Os Estados Unidos são o país que mais intervenções externas liderou para impor mudanças de regime. Calcula-se que tenham derrubado 35 governos estrangeiros nos últimos 120 anos. Este recorde assenta numa combinação perigosa de forte poder militar e um grande número de actores considerados inimigos — além de uma excessiva autoconfiança que se tem revelado sistematicamente errada.

Ninguém se tem mostrado mais tentado a recorrer às forças armadas e à economia mais fortes do mundo para vencer discussões, conquistar territórios, derrotar adversários e intimidar aliados do que Donald Trump. Neste momento, Washington tem em curso uma campanha militar e dos serviços secretos cada vez mais intensa contra o presidente Nicolás Maduro, da Venezuela, depois de já ter atacado o Irão e o Iémen e de ter ameaçado, de forma mais vaga, a Nigéria, o México, o Panamá e mesmo a Dinamarca e o Canadá.

O derrube de líderes de outros países é uma tática suficientemente frequente para ter direito a uma sigla específica entre os académicos: FIRC, ou foreign-imposed regime change (mudança de regime imposta pelo estrangeiro).

De acordo com um levantamento realizado por Alexander Downes, professor associado e cientista político da Universidade George Washington e autor do livro Catastrophic Success: Why Foreign-Imposed Regime Change Goes Wrong (Sucesso Catastrófico: Porque Falham as Mudanças de Regime Impostas pelo Estrangeiro), entre 1816 e 2011, os Estados Unidos foram responsáveis por cerca de um terço das 120 destituições forçadas de líderes por uma intervenção externa em todo o mundo.

As mudanças de regime e outras intervenções violentas raramente correm de acordo com os planos. Pela sua parte, algumas das ameaças agora lançadas por Trump — como entrar «aos tiros» na Nigéria, onde há grupos extremistas armados e fortes conflitos étnicos e sectários — têm tudo para correr muito mal. Os fracassos do passado deveriam servir para recordar os americanos de que a arrogância pode ter consequências catastróficas, seja para os indivíduos, seja para os Estados.

Veja-se o caso da mudança de regime estrangeiro n.º 34, imposta pelos EUA ao Iraque, cujo resultado eu pude testemunhar numa série de patrulhas militares que acompanhei como repórter em Bagdad, em maio de 2006.

Três anos depois de os Estados Unidos terem derrubado Saddam Hussein com base em alegações falsas sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque, não havia sinais da vaga de democratização que a equipa do presidente George W. Bush vaticinara para o Médio Oriente. Pelo contrário, quando as acompanhei, as patrulhas da 10.ª Divisão de Montanha tinham-se convertido num serviço de remoção de cadáveres. Todas as noites, recolhiam e transportavam os cadáveres de iraquianos que outros iraquianos deixavam abandonados nas ruas e nas calçadas de Bagdad.

Os mortos, na sua maioria jovens, alguns com as mãos estendidas no ar em choque ou amarradas atrás das costas pelos seus assassinos, foram vítimas de uma guerra civil sectária que a administração Bush não antecipou. Derrubar o governo sunita de Saddam e as suas forças de segurança foi uma tarefa fácil para as Forças Armadas dos EUA. Não se pode dizer o mesmo relativamente à luta pelo poder entre as milícias xiitas iraquianas, apoiadas pelo Irão, e os grupos revoltosos sunitas, nascidos do vazio de segurança que se seguiu à intervenção norte-americana. O desenrolar dos acontecimentos acabou por deixar o Irão mais forte, além de ter criado as condições para o surgimento do Estado Islâmico enquanto ameaça global. Há tropas americanas na região até hoje.

Muito tempo depois de as forças americanas terem expulsado Saddam, os cidadãos iraquianos ainda sentiam na pele as consequências dessa intervenção. Todos os dias, enfrentavam sequestros, torturas e assassínios, carros armadilhados, bombas suicidas, entre outros ataques.

Certa noite, em Bagdad, as tropas americanas foram atingidas por uma bomba de fabrico artesanal. A explosão deixou alguns dos jovens soldados a coxear ou atordoados. Já um motorista iraquiano que circulava ali perto foi atingido na cabeça e morreu.

Naquela noite, Will Shields, o segundo-tenente de 23 anos que liderava a patrulha, dirigira-se a um posto da polícia de Bagdad — uma das forças de segurança controladas pelos xiitas que os Estados Unidos tinham criado para impor a ordem no Iraque. Entre exortações e negociações, Shields incitou os polícias xiitas assustados a saírem dos seus gabinetes para, sob a proteção americana, ajudarem a patrulha dos EUA a recolher os corpos daquela noite durante o tempo que fosse necessário.

«Vocês têm noção de que é o vosso trabalho?», perguntou o frustrado tenente norte-americano à polícia iraquiana naquela noite. «Como é que podem esperar que os americanos façam alguma coisa, se vocês não fazem nada?»

A dimensão dos assassínios com motivações sectárias impediu que fossem atribuídos nomes e histórias de vida aos mortos iraquianos, reduzindo-os a uma sucessão de ferimentos, registados pelos soldados enquanto atiravam os corpos para dentro dos veículos de caixa aberta.

O caso da Venezuela representa o regresso a uma longa tradição de interferência dos EUA na América Latina. Segundo a investigação de Downes, cerca de 20 das 35 mudanças de regime apoiadas pelos EUA ocorreram na América Central, na América do Sul ou nas Caraíbas.

Em alguns desses países, os governantes foram sucessivamente afastados e substituídos pelos Estados Unidos, numa cadência digna de quem sacode uma máquina de venda automática para que caia o chocolate certo. Só em 1954, por exemplo, Washington D.C. destituiu três líderes guatemaltecos.

A nível mundial, um terço de todas as quedas forçadas de regime resultaram, nos dez anos seguintes, em guerras civis no país intervencionado, concluiu Downes.

Um caminho frequente rumo ao desastre é o que se verifica quando os regimes entram em colapso total, deixando as forças de segurança armadas, insatisfeitas e desnorteadas. Outro rumo desastroso frequente é quando as potências estrangeiras colocam no poder um novo líder, o qual é obrigado a uma tremenda ginástica para ir ao encontro de prioridades diversas do seu povo e da potência estrangeira que o colocou no poder.

«O grande problema das mudanças forçadas de regime é a tendência para não se pensar no que vem depois, não se saber qual é o plano para o futuro», afirmou Downes. «E é incrível a frequência com que isso acontece», acrescentou. «Os países continuam a interferir e, das duas, uma, ou não pensam no que vai acontecer a seguir ou acreditam... que as coisas vão ser diferentes naquele caso.»

Trump optou por recorrer a meios militares e à CIA, seja para assustar Maduro levando-o a abandonar o poder, seja para forçar a sua saída de cena.

De acordo com as estatísticas, as mudanças forçadas de regime têm mais hipóteses de conseguir levar a uma democracia consolidada se ocorrerem em países com prévia experiência democrática, que sejam economicamente prósperos e tenham uma população relativamente homogénea, como o Japão ou a Alemanha no imediato pós-Segunda Guerra Mundial, concluíram Downes e os seus colegas de investigação.

Quando esses critérios não se verificam, surgem situações como o regresso ao poder dos talibãs no Afeganistão ou a ascensão da República Islâmica depois de os Estados Unidos e o Reino Unido terem ajudado o xá do Irão, afastando o seu adversário político. Após duas décadas de assassínios e rebeliões, o Iraque alcançou um certo grau de estabilidade, mas o custo de todo o processo assustou os restantes países da região, tornando-os ainda mais relutantes em relação a eventuais experiências democráticas. Alguns especialistas veem com alarme qualquer tentativa de impor uma mudança de regime na Venezuela, um país produtor de petróleo onde a má governação do autocrata socialista Maduro e do seu antecessor Hugo Chávez, agravada pelas sanções internacionais, destruíram a economia e criaram milhões de refugiados.

A administração Trump acusou Maduro de ligação ao tráfico de droga, mas os Estados Unidos exageram o papel da Venezuela no contrabando de droga para os Estados Unidos. Para reforçar a presença militar, Washington enviou o seu maior porta-aviões para a região. Dezenas de pessoas foram mortas em ataques norte-americanos contra lanchas que, segundo os Estados Unidos, mas sem que tenham sido apresentadas provas, transportavam droga.

A administração Trump tem sido vaga quanto às intenções dos EUA, nomeadamente se pretendem usar a força para expulsar Maduro (que manipulou as eleições para se manter no poder), ou se, com as suas ações militares — como os ataques aéreos —, visam encorajar os venezuelanos a tratarem eles mesmos do assunto.

A estratégia mais pacífica que caracterizou o primeiro mandato de Trump — com imposição de sanções financeiras para aumentar a pressão sobre Maduro e a proposta de um acordo de partilha de poder para facilitar a sua saída — não serviu, ao contrário do que se esperava, para capacitar a oposição venezuelana. Neste novo mandato, Trump optou por recorrer a meios militares e à CIA, seja para assustar Maduro, levando-o a abandonar o poder, seja mesmo para o forçar a sair de cena.

Os opositores de Maduro consideram que a Venezuela tem um governo eleito, liderado pelo candidato da oposição, que para os EUA e outros países, é o vencedor das presidenciais de 2024

«Já vimos este filme antes», declarou Jacqueline Hazelton, especialista no tema do impacto político do poder militar e anteriormente professora do Naval War College, hoje editora da revista International Security, segundo a qual este tipo de intervenções costuma desencadear o choque violento entre fações.

A Venezuela tem uma oposição democrática forte e motivada, liderada por Maria Corina Machado, galardoada com o Prémio Nobel da Paz em 2025. Porém, Maduro dispôs de vários anos para reforçar e diversificar o seu domínio sobre as instituições do país. Corina Machado não tem capacidade para quebrar esse domínio e reprimir adversários, disse ainda Hazelton.

Como argumento em prol de uma intervenção dos EUA na Venezuela, os seus defensores invocaram a 31.ª mudança forçada de regime liderada pelos EUA, ocorrida no Panamá em 1990, em que o governo militar foi substituído por um governo democrático.

O Panamá, no entanto, é um país muito mais pequeno do que a Venezuela, quer em território, quer em população, e estava aí baseado um contingente militar dos EUA, o que não acontece na Venezuela, observou Downes.

Os defensores da intervenção dos EUA na Venezuela têm-se esforçado por responder a quaisquer dúvidas sobre esta opção. Ao ponto de um escritor da oposição venezuelana, defensor da intervenção dos EUA, ter rejeitado que seja apropriado usar a expressão «mudança de regime», no caso do seu país.

Maduro chefia uma rede criminosa de tráfico de drogas, por isso não se trata de derrubar um governo legítimo, disse-me Walter Molina, que fugiu da Venezuela de Maduro e vive agora em Buenos Aires. Molina e outros opositores ao regime consideram que a Venezuela tem um governo eleito, liderado pelo candidato da oposição, o qual, segundo os Estados Unidos e outros países, venceu as eleições presidenciais de 2024, mas que foi posto de lado por Maduro, e que aguarda as condições para regressar.

Qualquer intervenção dos EUA servirá «para respeitar a vontade do povo venezuelano», declarou Molina.

Até pode ser verdade — talvez a conjugação entre o desagrado interno face à má governação de Maduro e uma intervenção forte do exterior sejam suficientes para derrubar um autocrata e instaurar a democracia. A incerteza, contudo, é suficiente para justificar cautela. O mundo, aliás, já assistiu mais vezes a este tipo de abordagem, como quando Dick Cheney, então vice-presidente dos EUA, declarou que as forças armadas norte-americanas seriam «recebidas como forças de libertação» no Iraque.

Sobre a imposição de mudanças de regime em países terceiros, Downes comentou: «É tentador simplesmente avançar, dizendo: “Bem, aconteça o que acontecer, não pode ser pior do que está”. Só que isso por vezes não é verdade.»

terça-feira, 27 de maio de 2025

Jovens receiam não ter green skills necessárias para combater eficazmente as alterações climáticas


O novo estudo do Research Institute da Capgemini e do Generation Unlimited da UNICEF analisou as perspetivas dos jovens sobre a crise climática. O estudo inclui os seus pontos de vista sobre as green skills, a obtenção de diplomas que os capacitem para os green jobs, e a forma como as empresas e os governos podem trabalhar com os jovens para impulsionar uma maior consciência sobre as questões climáticas e a defesa do ambiente.

De acordo com a investigação, a maioria dos jovens está preocupada com as mudanças climáticas, com mais de dois terços em todo o mundo a reconhecer que estão apreensivos com a forma como as alterações climáticas podem afetar o seu futuro, o que representa um aumento face aos dados recolhidos em 2023, quando um inquérito da UNICEF nos EUA revelou que 57% dos jovens a nível mundial sofriam de «ansiedade ambiental». Neste âmbito, os jovens do hemisfério norte reportaram àquela data níveis mais elevados de ansiedade relacionados com as alterações climáticas (76%), por comparação com os seus colegas do hemisfério sul (65%).

A divisão entre os mundos rural e urbano apresentava-se então também de forma evidente, com 72% dos jovens a viverem em zonas urbanas e suburbanas a manifestarem preocupação com o impacto das alterações climáticas no seu futuro, contra apenas 58% dos seus homólogos das zonas rurais.

Jovens acreditam que ainda há tempo para resolver problemas causados pelas alterações climáticas
Não obstante os elevados índices de ansiedade ambiental/climática, a maioria dos jovens acredita que as green skills são essenciais para que o futuro possa ser melhor, e 61% consideram mesmo que ao desenvolverem-nas estão a potenciar as suas possibilidades de acesso a mais oportunidades profissionais. Os jovens querem, além disso, alinhar as suas carreiras profissionais com os seus valores climáticos/ambientais: mais da metade dos jovens (53%) em todo o mundo, e quase dois terços (64%) no hemisfério norte, estão interessados em ter um emprego e uma carreira na área ambiental.

“Os jovens em todo o mundo, e particularmente nos EUA, estão profundamente conscientes dos desafios urgentes que as alterações climáticas nos colocam. É claro que eles também estão ansiosos por fazerem parte da solução”, afirma Sarika Naik, Group Chief Corporate Responsibility Officer da Capgemini. “Temos de ajudar os jovens a transformar esta paixão em ações concretas e com impacto positivo, investindo em capacitá-los com as competências ambientais necessárias. Este estudo evidencia o quão importante é que as empresas, os governos e os líderes da área da educação trabalhem em conjunto para colmatar o défice de competências, dando voz e habilitando os jovens, criando vias de acesso a carreiras profissionais com impacto positivo a nível ambiental”.

“Os jovens estão a criar e a implementar soluções inovadoras que respondem às alterações climáticas que as suas comunidades enfrentam”, refere Kevin Frey, CEO, Generation Unlimited da UNICEF, sublinhando que ”a Green Rising com o seu ecossistema de parceiros dos setores público e privado, está a ajudar os jovens a adquirirem as competências e as oportunidades de que necessitam para poderem agir no combate às alterações climáticas, criarem empresas ambientalmente sustentáveis, terem acesso a empregos e carreiras na área do ambiente e a colocarem em prática soluções verdes”.

Jovens não possuem competências ambientais necessárias
Os jovens são uma reserva de talento fundamental para assegurar o combate às alterações climáticas, mas a transição verde exige mão-de-obra altamente qualificada e especializada. De acordo com a OCDE – Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico, a competência em matéria de sustentabilidade ambiental assenta numa base científica sólida, na compreensão das alterações climáticas, no compromisso de proteger o ambiente, na confiança na explicação dos problemas ambientais e na motivação para agir de forma sustentável.

No entanto, o estudo conclui que só menos de metade dos jovens em todo o mundo (44%) acredita possuir as competências ambientais necessárias para poder ser bem-sucedido no atual mercado de trabalho. Neste contexto, verifica-se igualmente que os jovens das zonas rurais estão ainda mais atrasados do que os das zonas suburbanas e urbanas. A percentagem também varia conforme as regiões. No hemisfério sul, cerca de seis em cada dez jovens brasileiros afirmam possuir competências ambientais, um valor que contrasta fortemente com os 5% dos jovens etíopes que dizem possuí-las.

A verdade é que os conhecimentos dos jovens no que diz respeito às competências ambientais regrediram desde 2023, quando foi realizado o estudo anterior pelo Research Institute da Capgemini. Entre os jovens com idades compreendidas entre os 16 e os 18 anos na Alemanha, Áustria, EUA, França, Japão e Reino Unido, a reciclagem e a redução de resíduos continuam a ser as competências ambientais mais difundidas.

Mas a proporção de jovens com conhecimentos de design sustentável, energia e transportes diminuiu significativamente desde 2023. Já no hemisfério sul, os jovens têm mais conhecimentos sobre reciclagem e redução de resíduos, conservação de energia e água, mas menos sobre tecnologias verdes, análise de dados e design sustentável.

A maioria dos jovens em todo o mundo (71%) concorda que devem ter uma forte influência na política e na legislação ambiental. No entanto, consideram que os líderes empresariais e políticos em todo o mundo não estão a desempenhar o seu papel e devem contribuir mais para o combate contra as alterações climáticas. Quase dois terços dos jovens sentem-se suficientemente confiantes para falarem com os seus líderes locais sobre a ação climática. No entanto, só menos de metade acredita que as suas opiniões são realmente tidas em conta.

O estudo incita os líderes locais a apoiarem os jovens na promoção das soluções e das competências ambientais. O Young People’s Perspetives on Climate: Preparing for a Sustainable revela igualmente que integrar a educação ambiental, expandir o acesso à formação e alinhar os objetivos climáticos com as estratégias de emprego dos jovens, são aspetos que devem ser parte da solução a ser implementada pelos decisores políticos. Também os líderes empresariais devem ser incentivados a colaborar na criação dos green jobs, a investirem em iniciativas lideradas por jovens e a integrarem as suas vozes nas estratégias de RSE, ESG e clima das suas empresas com o objetivo de reforçar a confiança e estimular a inovação sustentável.

Movimentos globais como o Green Rising (que tem como objetivo apoiar 20 milhões de jovens até 2026, capacitando-os para poderem participar no combate às alterações climáticas e para conseguirem agir localmente nas suas comunidades, proporcionando-lhes oportunidades de voluntariado, de ativismo, de trabalho remunerado e de empreendedorismo), respondem ao anseio crescente dos jovens de melhorarem as suas competências ambientais. Esta iniciativa é liderada pela Generation Unlimited da UNICEF e é apoiada por várias organizações dos setores público e privado, incluindo a Capgemini.

sábado, 2 de dezembro de 2023

Os morcegos polinizam à noite?

Sim. Diversas espécies de morcegos frugívoros e nectarívoros, especialmente da família Phyllostomidae (nas Américas) e Pteropodidae (na Ásia, África e Oceânia), visitam flores durante a noite para se alimentarem de néctar, pólen e frutos.
Este fenómeno é conhecido como quiropterofilia.
 
Adaptações das plantas polinizadas por morcegos
As flores tipicamente quiropterófilas têm características específicas:
Emissão de compostos aromáticos fortes ao anoitecer
Grande produção de néctar
Flores pálidas ou esbranquiçadas (facilitam a deteção noturna)
Estruturas robustas capazes de suportar o peso de um morcego
Abertura das flores ao crepúsculo ou início da noite
 
Exemplos conhecidos
Agaves (incluindo Agave tequilana, associada à produção de tequila)
Baobás
Algumas espécies de cactos colunares (ex.: Saguaro, Organ Pipe)
Diversas epífitas tropicais

Referências bibliográficas
The Evolution of Bat Pollination: a Phylogenetic Perspective — Theodore H. Fleming, Cullen Geiselman & W. John Kress 2009, Annals of Botany 104(6):1017–1043  Revisão evolutiva da quiropterofilia: evolução independente da polinização por morcegos em várias linhagens de plantas, adaptações de plantas e morcegos, implicações ecológicas e evolutivas.

Floral Specialization and Bat Pollination in Subtribe Cereinae (Cactaceae): A Morphological Approach 2023, Diversity 15(2):207 Estudo morfológico de cactos da subtribo Cereinae com atributos de polinização por morcegos — confirma especialização floral para quiropterofilia em algumas espécies de cactos colunares.

Bat pollination in Bromeliaceae — Pedro A. Aguilar-Rodríguez, Thorsten Krömer, Marco Tschapka etc. 2019, Plant Ecology & Diversity   Documenta casos de plantas Bromeliaceae polinizadas por morcegos — destaca as adaptações florais à polinização noturna por morcegos (cheiro, néctar, forma de flor, etc.).

The role of bats in pollination networks is influenced by landscape structure 2019, Global Ecology and Conservation 20: e00702  Estudo empírico de redes de polinização em pomares mistos — examina como estrutura da paisagem, estações florais e uso da terra afetam a importância da polinização por morcegos.

Agave flower visitation by pallid bats, Antrozous pallidus, in the Chihuahuan Desert 2023, Journal of Mammalogy 102(4):1101–1110  Evidência de consumo de néctar por morcego insectívoro (Antrozous pallidus) em agaves e presença de pólen de Agave no corpo dos morcegos — sugere que morcegos generalistas também podem funcionar como polinizadores eficazes.

The pollination biology of two paniculate agaves from northwestern Mexico: contrasting roles of bats as pollinators 2011, Journal of Arid Environments (via PubMed)  Estudo comparativo da biologia de polinização de duas espécies de agave — mostra que, em uma delas, morcegos nectarívoros são responsáveis pela maioria da frutificação; na outra, insetos ou aves também participam.

Bat pollination in the Caatinga: A review of studies and peculiarities of the system in the new world's largest and most diverse seasonally dry tropical forest 2023, Flora 305:152332  Revisão recente da polinização por morcegos na Caatinga (bioma seco tropical) — reúne registros de mais de 38 espécies de plantas polinizadas por morcegos, discute lacunas de conhecimento e importância ecológica.