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terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Satélites revelam que o sul da Europa está a ficar sem água. E nós somos o sul


Durante anos, a seca foi uma imagem associada a outros continentes. Agora, os mapas gravíticos que “pesam” a água do subsolo mostram uma mancha em aceleração sobre o sul e o centro da Europa. Em duas décadas de medições, os cientistas vêem aquíferos em queda de Espanha à Roménia e avisam que o que falta debaixo dos nossos pés pode transformar-se depressa em problema à superfície: nas torneiras, nos campos e nas prateleiras dos supermercados

Vastas reservas de água doce na Europa estão a encolher, sobretudo no sul e no centro do continente, com efeitos anunciados para a agricultura, os ecossistemas e o abastecimento urbano.

A conclusão resulta de uma análise a dados de satélite entre 2002 e 2024, conduzida por investigadores da University College London (UCL) em colaboração com a organização Watershed Investigations e o jornal britânico The Guardian, que desenha um mapa em contraste: o norte e o noroeste da Europa, incluindo partes do Reino Unido e de Portugal, aparecem mais húmidos, enquanto grandes áreas do sul e do sudeste, da Península Ibérica à Roménia e à Ucrânia, surgem cada vez mais secas.

Para chegar a estas tendências, a equipa recorreu a satélites que medem variações no campo gravitacional da Terra e permitem “pesar” quanta água está armazenada em aquíferos, rios, lagos, solos e glaciares, já que a massa da água altera o sinal.

Quando cruzaram esses registos com bases de dados climáticos, as curvas bateram certo. “A quebra do clima” está escrita ali, no subsolo, resume Mohammad Shamsudduha, professor de crise hídrica e redução de risco na UCL, citado pelo The Guardian. Shamsudduha lembra que já não se discute realisticamente limitar o aquecimento global a 1,5 °C e que o mundo caminha para mais 2 °C face à era pré-industrial, "com consequências já visíveis".

Uma análise específica à água subterrânea mostrou um desenho muito parecido ao da água total em terra, o que confirma que até as reservas consideradas mais resilientes estão a ser esvaziadas. No Reino Unido, nota este académico, o sinal é cada vez mais claro: o Oeste fica mais húmido, o Leste mais seco, com chuva total estável ou ligeiramente crescente, mas concentrada em aguaceiros intensos e verões com períodos longos sem precipitação, o que favorece cheias repentinas e menos recarga dos aquíferos.

Estratégia de resiliência hídrica
Do lado das pressões humanas, os dados da Agência Europeia do Ambiente indicam que, entre 2000 e 2022, o volume total de água captada de origens superficiais e subterrâneas na União Europeia desceu, mas as captações de água subterrânea subiram 6 %, puxadas pelo abastecimento público e pela agricultura. Em 2022, os aquíferos garantiam 62 % da água que chega às torneiras e um terço da procura agrícola nos Estados-membros.

Bruxelas responde com uma “estratégia de resiliência hídrica” que quer adaptar a gestão à nova climatologia, construir uma “economia inteligente em água” e melhorar a eficiência em pelo menos 10 % até 2030, com prioridade a reduzir perdas numa rede onde as fugas variam entre 8 % e 57 %.

É nesse contexto que vozes como a da hidróloga Hannah Cloke, da Universidade de Reading, também citada pelo jornal The Guardian, descrevem como “angustiante” ver confirmada estatisticamente a perda de água subterrânea num país, a Inglaterra, que tem atravessado grandes secas e avisos de chuva abaixo da média.

A Agência Europeia do Ambiente já pediu à Inglaterra que se prepare para a possibilidade de a seca se prolongar até 2026, e o Governo britânico anuncia nove novos reservatórios para reforçar a resiliência, mas Cloke contrapõe que infra-estruturas que só estarão prontas dentro de décadas não resolvem o problema imediato e defende mais reutilização, menos consumo, separação clara entre água potável e água reciclada e soluções baseadas na natureza para desenhar cidades e novas urbanizações.
“As alterações climáticas são reais, estão a acontecer e estão a afectar-nos”

Os investigadores avisam que o padrão de secagem observado em muitas regiões europeias terá impactos “de longo alcance” sobre a segurança alimentar, a actividade agrícola e os ecossistemas dependentes de água, em especial os habitats alimentados por aquíferos.

A redução das reservas em Espanha, exemplifica Mohammad Shamsudduha, pode sentir-se directamente num Reino Unido que depende fortemente de frutas e legumes importados daquele país e de outros parceiros europeus. E lembra que o que agora se vê no mapa europeu é uma versão próxima de fenómenos há muito descritos no Sul global, do sul da Ásia a partes de África e do Médio Oriente.

Secas prolongadas e aquíferos em queda estendem-se hoje também pelo Médio Oriente, Ásia, América do Sul, costa oeste dos EUA, Canadá e regiões frias como a Gronelândia, a Islândia e Svalbard. No Irão, Teerão aproxima-se do “dia zero” em que deixará de ter água canalizada, o Governo prepara racionamentos e o Presidente, Masoud Pezeshkian, já admitiu que a capital poderá ter de ser evacuada se essas medidas falharem.

Perante este quadro, Shamsudduha insiste na mesma ideia: é preciso aceitar “que as alterações climáticas são reais, estão a acontecer e estão a afectar-nos” e usar isso como ponto de partida para uma outra forma de gerir a água, abrindo espaço a soluções que ainda soam pouco convencionais, como a captação generalizada de água da chuva em países como o Reino Unido.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Como é que os fatores ambientais contribuem para as doenças cardiovasculares na Europa?

Uma em cada cinco mortes por doenças cardiovasculares na UE poderia ser evitada com a melhoria do ambiente, de acordo com um novo relatório da Agência Europeia do Ambiente (AEA).

As doenças cardiovasculares são a causa mais comum de morte na UE, segundo a Sociedade Europeia de Cardiologia.

Em 2022, mais de 1,7 milhões de pessoas morreram na sequência destas doenças, representando um terço de todas as mortes no bloco nesse ano.

Contribuem também significativamente para a incapacidade, a reforma antecipada e o absentismo, o que diminui a qualidade de vida e reduz a esperança de vida.

Além do custo humano, as doenças cardiovasculares custam à UE mais de 282 mil milhões de euros anualmente devido à diminuição da produtividade e da produção económica, segundo a Comissão Europeia.

Para além das características pessoais, como a idade e o historial familiar, os fatores ambientais também desempenham um papel fundamental nas doenças cardiovasculares.

Na UE, estima-se que factores como a poluição atmosférica, as temperaturas extremas e os produtos químicos causem pelo menos 18% de todas as mortes por doenças cardiovasculares.


Em contraste, a Finlândia e a Suécia registaram as taxas mais baixas, com 9,72% e 10,01%, respetivamente.

A poluição atmosférica causa cerca de 8% das mortes por doenças cardiovasculares na UE por ano, segundo a Rede Europeia do Coração.

As partículas finas — provenientes de fontes como as emissões dos veículos, os processos industriais e a queima de combustíveis fósseis — o dióxido de azoto e o ozono são os três principais poluentes associados às doenças cardiovasculares na Europa.

Em 2022, a Polónia (82,32%) e a Irlanda (81,83%) foram os Estados-Membros com as taxas mais elevadas de mortes prematuras devido à exposição a partículas finas no bloco.

Por outro lado, a Finlândia e a Estónia registaram as percentagens mais baixas, com 5,48% e 11,21%, respetivamente.

A exposição prolongada a estes poluentes contribui significativamente para a mortalidade prematura e para as doenças cardiovasculares crónicas, incluindo ataques cardíacos, AVC e insuficiência cardíaca.

Estima-se ainda que cerca de 66.000 mortes prematuras anuais na UE sejam atribuíveis à exposição ao ruído dos transportes, sendo mais de 30% devido a causas cardiovasculares.

As políticas e regulamentos da UE, que visam combater a poluição atmosférica, estão, no entanto, a surtir efeito. A poluição atmosférica diminuiu em toda a UE, resultando num menor número de mortes prematuras atribuíveis.

Ainda assim, 95% dos residentes da UE, particularmente os que vivem em zonas urbanas, continuam expostos a níveis de poluição inseguros.

sábado, 11 de outubro de 2025

Data de origem dos parques nacionais mais antigos da Europa

A ideia de parque nacional nasceu longe daqui — em 1872, com Yellowstone, nos Estados Unidos — mas foi na Europa que ela ganhou uma identidade própria: menos selvagem e mais humana, onde a natureza e a cultura se entrelaçam há séculos. 
Tudo começou em 1909, quando a Suécia criou os seus nove primeiros parques nacionais, entre eles Sarek e Abisko. Eram territórios de montanha e tundra, quase intocados, que simbolizavam o orgulho nacional e a necessidade de preservar paisagens únicas. Foi o nascimento oficial da conservação europeia moderna. 
Poucos anos depois, em 1914, a Suíça instituiu o seu Parque Nacional na Engadina — o mais antigo parque alpino e ainda hoje um exemplo de rigor científico. Em 1922, a Itália seguiu o caminho com o Gran Paradiso, criado a partir de uma antiga reserva de caça real. Um ano mais tarde nasceu o Parque Nacional dos Abruzos, reforçando a ideia de que proteger a natureza também é cuidar do património cultural e da vida rural. Nos Balcãs, o atual Parque Nacional do Triglav (Eslovénia) foi proposto em 1924, unindo montanhas, lagos e tradições locais — uma visão de natureza como paisagem vivida, não separada do humano. 
Depois da Segunda Guerra Mundial, o movimento expandiu-se: Reino Unido (1951), França (1963) e Espanha (1918, com Covadonga/Picos de Europa) integraram a rede de parques. A conservação deixou de ser elitista e passou a envolver o direito de todos a usufruir e proteger a natureza. A partir dos anos 1970, os parques nacionais tornaram-se também espaços de educação ambiental e sustentabilidade, com comunidades locais no centro das decisões. 
Hoje, a Europa conta com mais de 350 parques nacionais, cobrindo cerca de 1,3 milhão de quilómetros quadrados. São refúgios de biodiversidade, mas também laboratórios de convivência entre o humano e o natural — talvez a verdadeira marca do espírito europeu.

Fontes e referências
  1. Sveriges Nationalparker (oficial)
  2. Parco Nazionale del Gran Paradiso 
  3. Swiss National Park
  4. EUROPARC Federation 
  5. Terrestrial protected areas in Europe

quinta-feira, 25 de julho de 2024

James Webb deteta ‘super Júpiter’ que demora mais de um século a dar a volta à sua estrela

O aglomerado de galáxias SMACS 0723 em primeiro plano

Um ‘super Júpiter’ foi avistado em torno de uma estrela vizinha pelo Telescópio Espacial James Webb, revelou na quarta-feira uma equipa de cientistas, acrescentando que o planeta tem também uma ‘superórbita’.

O planeta tem aproximadamente o mesmo diâmetro que Júpiter, mas com seis vezes a massa. A sua atmosfera é também rica em hidrogénio como a de Júpiter.

A grande diferença é que este planeta demora mais de um século, possivelmente até 250 anos, a dar uma volta em torno da sua estrela. É 15 vezes mais a distância para a sua estrela do que da Terra ao Sol.

Os cientistas já suspeitavam há muito tempo que um grande planeta orbitava esta estrela a 12 anos-luz de distância, mas não tão massivo ou longe da sua estrela. Um ano-luz tem cerca de 9,46 triliões de quilómetros.

Estas novas observações mostram que o planeta orbita a estrela Epsilon Indi A, parte de um sistema de três estrelas.

Uma equipa internacional liderada por Elisabeth Matthews, do Instituto Max Planck de Astronomia, na Alemanha, recolheu as imagens no ano passado e publicou as descobertas na quarta-feira, na revista Nature.

Os astrónomos observaram diretamente o gigante gasoso incrivelmente antigo e frio — um feito raro e complicado —através do uso de um dispositivo de sombreado especial no Webb.

Ao bloquear a luz das estrelas, o planeta destacou-se como um pequeno ponto de luz infravermelha.

O planeta e a estrela têm 3,5 mil milhões de anos, 1 mil milhões de anos mais novos do que o nosso sistema solar, mas ainda assim considerados antigos e mais brilhantes do que o esperado, de acordo com Matthews.

A estrela está tão próxima e brilhante do nosso sistema solar que é visível a olho nu no hemisfério sul.
“Este é um gigante gasoso sem superfície dura ou oceanos de água líquida”, explicou Matthews, em declarações à agência Associated Press (AP).

É improvável que este sistema solar tenha mais gigantes gasosos, realçou mas pequenos mundos rochosos podem estar à espreita.

Mundos semelhantes a Júpiter podem ajudar os cientistas a compreender “como estes planetas evoluem em escalas de tempo de giga anos”, acrescentou.

Os primeiros planetas fora do nosso sistema solar – apelidados de exoplanetas – foram confirmados no início da década de 1990.

A contagem da NASA é agora de 5.690 em meados de julho. A grande maioria foi detetada através do método de trânsito, em que uma queda fugaz da luz das estrelas, repetida a intervalos regulares, indica um planeta em órbita.

Os telescópios no espaço e também no solo estão à procura de ainda mais, especialmente planetas que possam ser semelhantes à Terra.

Lançado em 2021, o telescópio Webb da NASA e da Agência Espacial Europeia é o maior e mais poderoso observatório astronómico alguma vez colocado no espaço.

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Dia Mundial da Terra: Quais são as soluções aos problemas ecológicos globais que enfrentamos?


"Esta frase é na verdade mais uma falácia [...] É uma questão mal formulada porque parte de uma estrutura conceitual errónea".
"Todo o trabalho que fiz nesses 14 anos de divulgação, é resumido em que não há maneira técnica de manter o capitalismo. Não é possível, fisicamente, continuar com o mesmo sistema socioeconómico. Faltarão recursos, faltará energia, e os problemas ambientais e as Alterações Climáticas, em particular, já estão a causar catástrofes em cascata que afectam a execução "normal" do sistema económico".
"Essa questão contém implicitamente a ideia de soluções técnicas para manter o sistema como está. Ao fazer essa pergunta dessa maneira, supõe-se que o capitalismo deve ser mantido e só é aceite ouvir sobre os desenvolvimentos científicos e tecnológicos.
Estamos presos neste momento literalmente décadas. Sabemos há 50 anos que não existem soluções técnico-científicas para manter o capitalismo, mas temos colocado todo o peso da discussão em soluções técnico-científicas há 50 anos.
É a estrutura mental do inimigo. Pensamos com a estrutura mental do inimigo, o que torna impossível encontrar qualquer solução".
"Quais são as soluções?"
Existe apenas uma.
Saia da estrutura mental do inimigo.
Não há solução possível dentro do capitalismo. Simplesmente não há.
O crescimento econômico é incompatível com a preservação ambiental. A própria Agência Europeia do Ambiente diz isso, órgão dependente da Comissão Europeia.
Não há negociação possível com o capitalismo. A única coisa que podemos discutir é a sua conclusão, se queremos ter um futuro.
Existem soluções, mas não são de natureza técnica. Isso não significa que a ciência, a técnica e o desenvolvimento tecnológico não sejam úteis. Eles são; Além disso, eles são uma parte essencial da solução. Mas fora de um quadro capitalista.
Os industriais continuam a fazer barulho repetidamente para nos impedir de parar e perceber que o problema está mal colocado. Que o problema não pode ser resolvido com mais tecnologia, mas sim com mais cultura, mais sociedade, mais pessoas verdadeiramente humanas. O solucionismo distrai-nos da discussão real.
A mudança que precisamos é cultural, é social, é económica, é política e é radical, já que é necessário ir à raiz do problema. Precisamos sair da estrutura mental do inimigo e começar a pensar por nós mesmos, sendo livres, respirando".
António Turiel
(cientista e divulgador, licenciado em Física e Matemática e doutor em Física Teórica pela Universidade Autônoma de Madrid)

quarta-feira, 6 de março de 2024

Reflorestação marinha em 10 zonas costeiras


A Seaforester pretende avançar com reflorestação marinha, no sentido da recuperação de habitats rochosos na costa continental portuguesa, que outrora dominados por abundantes laminárias, algas marinhas de grande importânciaecológica e económica. O projeto será aplicado nas seguintes zonas, de norte para sul: Carreço, Amorosa, Peniche Sul, Ericeira, Cascais, Cabo Raso, Guia, Pedra do Sal, Porto Covo, Ilha do Pessegueiro, Serro do Sudoeste, Mar das Troncas e Baixa Atafonas. A SeaForester tem recebido apoio do governo Português por intermédio de vários projetos financiados pelos mecanismos do Fundo Azul (Seaforest Portugal) e EEA Grants (Blueforests e Blueforesting). 

sexta-feira, 7 de julho de 2023

O Planeta continua a aquecer!

Num caminho cujo final se desconhece, mas se antevê seja um precipício, o Planeta continua a aquecer!

Dia 4 de Julho foi o dia mais quente do mundo já registado, ultrapassando o recorde de 17,01°C da véspera, dia 3, atingindo a temperatura média global 17,18°C; os especialistas preveem que este recorde seja ultrapassado em breve.

Os recordes mundiais de temperatura foram quebrados pelo segundo dia consecutivo, e os especialistas emitiram um alerta de que os dias mais quentes deste ano ainda estão por vir – e com eles os dias mais quentes já registados. (Fonte: Centro Nacional de Previsão Ambiental dos EUA).

Em 2020, a temperatura média global ficou cerca de 1,2°C acima do nível pré-industrial. Para este ano, com a formação do fenómeno El Niño agravado pelas mudanças climáticas, já ultrapassamos os recordes da temperatura média global do ar na Terra duas vezes. A previsão é que o mês de Julho seja o mais quente de todos os tempos. Nos próximos meses, o mundo pode ultrapassar o marco de aquecimento de 1,5°C com ondas de calor intenso (Fonte: BBC).

O relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, IPCC deixa claro: se ultrapassarmos 1,5°C de aquecimento as consequências serão irreversíveis e estamos perigosamente à beira do precipício. O mundo enfrentará uma crise humanitária sem precedentes. (Fonte: ONU - Relatório do Estado do Clima Global da Organização Meteorológica Mundial (OMM)

Por isso, e não só, defender o ambiente é defender a vida de cada um de nós: a Agência Europeia do Ambiente (AEA) estima que 18% das mortes por doenças cardíacas na Europa são causadas por problemas ambientais, nomeadamente a poluição e as temperaturas extremas Este número está subestimado, pois há muitos parâmetros ambientais que não foram considerados no estudo. (Fonte: Lusa, 23/06/2023).

Por que é que a Terra está a aquecer tanto nos últimos 100 anos?

Durante milhares de anos, a natureza regulou a concentração de gases na atmosfera que retêm o calor emitido pela Terra e agem como uma estufa para permitir a vida no planeta. Isso começou a mudar depois da Revolução Industrial quando indústrias passaram a queimar combustíveis fósseis como fonte de energia e promover o consumo e descarte em massa, causando um aumento exponencial das emissões não naturais de gases do efeito estufa. Neste curto período de 150 anos, o planeta ficou coberto por uma capa densa de gases que aprisiona o calor do Sol.

Uma pesquisa publicada pela Science reconstruiu a temperatura do planeta nos últimos 11 mil anos e chegou a mesma conclusão que relatórios já vinha alertando: no século XX a Terra aqueceu mais do que em qualquer outro momento desde o fim da última era glacial.

Quem são os principais poluidores?

Dados mostram que 100 empresas de combustíveis fósseis são responsáveis por 70% das emissões de gases efeito estufa históricas de todo o planeta e as 20 maiores Petrolíferas e Companhias de Gás são responsáveis por um terço de toda essa emissão sozinhas . A americana Chevron sozinha tem emissões projetadas equivalentes às emissões anuais de 364 centrais a carvão, e mais do que as emissões de 10 países europeus combinadas por um período semelhante de três anos.

Apesar de todos conhecerem esses dados, a indústria do petróleo investe milhões de dólares para persuadir tomadores de decisão, acionistas e o público que leva a sério a ação climática (Influence Map- 2022).

O caminho é a redução do consumo, o aumento da eficiência energética, a pesquisa de novas fontes de energia menos poluentes, a par com a renaturalização de amplas áreas do planeta.[IPCC AR6 Synthesis Report: Summary for Policymakers 2023]

P.S. O IPCC conta com a revisão de 270 autores-pesquiadores de 67 países e mais outros 675 colaboradores ao redor do mundo debruçados sobre mais de 34 mil artigos e 62 mil comentários de países para organizar a análise científica.

quinta-feira, 15 de junho de 2023

Votação no Parlamento Europeu de lei sobre restauro da natureza adiada para 27 de junho


A natureza europeia está num estado de deterioração alarmante. Mais de 80% dos seus habitats estão em mau estado. As zonas húmidas, as turfeiras e os habitats de dunas estão entre os mais afectados. Além disso, 71% das populações de peixes e 60% das populações de anfíbios diminuíram na última década. Estima-se que entre 1997 e 2011, a perda de biodiversidade tenha representado uma perda anual de entre 3,5 e 18,5 mil milhões de euros.

A votação final da diretiva europeia sobre recuperação da natureza foi hoje adiada para 27 de junho pela comissão do Ambiente do Parlamento Europeu, tendo sido votadas emendas e rejeitada uma moção do PPE para a retirada do texto.

A proposta, apresentada em 22 de junho de 2022 pela Comissão Europeia, prevê, nomeadamente, a redução em 50% do uso de pesticidas químicos na UE até 2030 e a proibição do uso dos mesmos em parques infantis, jardins públicos, áreas de lazer, desportivas e zonas protegidas.

A Lei do Restauro da Natureza, que integra o Pacto Ecológico Europeu, prevê ainda que sejam reparados 30% dos ecossistemas danificados até 2030, com objetivos vinculativos para os Estados-membros

Até 2050, as medidas devem abarcar 80% dos ecossistemas da UE que têm de ser restaurados e incluem tornar os núcleos urbanos ‘mais verdes’.

A conservação da natureza tem particular impacto económico nos que dela dependem diretamente, nomeadamente agricultores, silvicultores e pescadores, tendo Bruxelas previsto um apoio financeiro aos agricultores, por um período de cinco anos, para a aplicação das novas regras.

O Partido Popular Europeu (PPE, que inclui o PSD e o CDS) tem contestado o texto da Comissão Europeia.


Tentativa do Partido Popular Europeu de pôr na gaveta a proposta de lei que quer restaurar habitats marinhos e terrestres na Europa foi rejeitada na Comissão de Ambiente do Parlamento Europeu.

Foi por um triz, mas a proposta da Comissão Europeia da Lei de Restauro da Natureza ainda está viva. A votação que ocorreu na manhã desta quinta-feira em Estrasburgo, na França, na Comissão de Ambiente, Saúde Pública e Segurança Alimentar do Parlamento Europeu não deu luz verde à proposta do Partido Popular Europeu (PPE), que quer rejeitar uma lei em que um dos principais objectivos é restaurar 20% das áreas de terra e de mar da União Europeia até 2030.

No entanto, o resultado foi renhido: 44 dos 88 eurodeputados da comissão votaram a favor da proposta do PPE e outros 44 votaram contra. Ou seja, houve um empate técnico que, de acordo com as normas, significa que a proposta é rejeitada, permitindo que a Lei de Restauro da Natureza se mantenha de pé. Se 45 eurodeputados tivessem votado a favor da proposta do PPE, então a Lei de Restauro da Natureza não avançaria e uma das peças-chave do Pacto Verde europeu cairia por terra.

“A Lei de Restauro da Natureza está viva e recomenda-se”, afirma ao PÚBLICO Sara Cerdas, eurodeputada portuguesa do Partido Socialista que faz parte da Comissão de Ambiente e votou contra a proposta do PPE, liderada por Manfred Weber, eurodeputado alemão e presidente do grupo parlamentar europeu do PPE, que tem sido muito criticado pela sua posição. “É uma primeira derrota do PPE. A rejeição [à Lei de Restauro da Natureza] foi rejeitada. Mas os votos estão muito renhidos.”

O resultado mostra o estado de dissenso que reina na União Europeia relativamente a esta lei e também como as eleições europeias de 2024 já estão a influenciar as discussões em Estrasburgo.

Nas várias horas seguintes, os eurodeputados votaram uma série de emendas da Lei de Restauro da Natureza, muitas foram rejeitadas com o mesmo equilíbrio de 44 eurodeputados a favor e 44 contra. E a sessão foi insuficiente para terminar a votação das emendas e do relatório da lei como um todo. Por isso, haverá novo encontro da comissão a 27 de Junho.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Perdas económicas ligadas à seca podem atingir 45 mil milhões de euros ano


As perdas económicas na Europa ligadas à seca a podem atingir os 45 mil milhões de euros por ano se o aquecimento global a chegar aos três graus célsius, segundo um estudo hoje divulgado.

Um relatório da Agência Europeia do Ambiente estima que o sul e o centro da Europa vão tornar-se mais secos e quentes ao longo deste século e as perdas económicas ligadas à seca – que abrangem todos os setores económicos, mas com especial impacto o setor agrícola – podem passar, até final do século XXI, dos atuais nove mil milhões de euros anuais para 25 mil milhões de euros por ano com um aquecimento global de 1,5 graus célsius (°C), para 31 mil milhões de euros anuais com um aquecimento de 2°C, e para 45 mil milhões de euros com um aquecimento de 3°C, com base em cenários científicos.

O relatório aponta para a necessidade urgente de adaptação no setor agrícola, sob pena de quebra nos rendimentos e receitas no setor.

A agência recomenda adaptações nas variedades de culturas, alterações nas datas de sementeira e também dos padrões de irrigação.

Desde 2018, mais de metade da Europa tem sido afetada por condições de seca extrema – a categoria mais grave da seca meteorológica – quer no verão quer no inverno.

O relatório alerta ainda para os perigos das vagas de calor, cada vez mais frequentes, e os mais mortais dos fenómenos climáticos extremos, apelando à adoção de medidas que protejam as pessoas, nomeadamente as mais vulneráveis.

Os eventos de fortes precipitações e cheias na Europa deverão tornar-se também mais frequentes, particularmente no norte de centro do continente.

Os fenómenos extremos relacionados com o tempo e o clima causaram perdas económicas estimadas em 560 mil milhões de euros na União Europeia entre 1980 e 2021, dos quais apenas 170 mil milhões de euros (30%) estavam cobertos por seguros.

No mesmo período, quase 195.000 vítimas mortais foram causadas por inundações, tempestades, vagas de calor e de frio, incêndios florestais e deslizamentos de terras na UE.

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Limpar, dessalinizar, reciclar: há mais água a chegar aos europeus


Com o aumento da procura e as alterações climáticas, a Europa está a investir em novas formas de reaproveitar um dos recursos mais valiosos do mundo: a água.

A vida na Terra depende da água doce, um recurso sob pressão. A explosão da procura global e as alterações climáticas estão a torná-la cada vez mais preciosa. Mesmo na Europa, onde inundações e secas são cada vez mais brutais e estão a afetar a vida de milhões de pessoas.

Também corremos o risco de os químicos presentes no nosso quotidiano estarem a passar para o que bebemos e persistirem no ciclo da água.

Mas, por outro lado, a qualidade dos cursos de água está a melhorar, em geral, e o acesso à água potável é elevado, indo ao encontro da nova diretiva europeia sobre a água potável visa garantir o acesso de todos a uma água de qualidade.




O maior reservatório de água potável da Europa

O Lago de Constança, na região alemã de Baden-Württemberg, é o maior reservatório de água potável da Europa, bebida por milhões de pessoas. Orgulho da cidade, rege-se por um princípio simples: quanto menos poluída for a água, menos terá de ser limpa.

Marie Launay, uma cientista francesa radicada na Alemanha, trabalha na região, à frente de uma unidade dedicada à luta contra os micropoluentes, nocivos para os peixes, os ecossistemas e seguramente para os seres humanos.

"Estamos a usar cada vez mais químicos em casa, nos produtos domésticos. Estamos a usar mais medicamentos e também mais pesticidas. E estas substâncias, quando são persistentes, também persistem no ambiente. Por isso, é importante poder eliminá-las para preservar a qualidade da água”, afirma.

Parte da solução está nas estações de tratamento de águas residuais que tratam a água que usamos, antes de a devolver à natureza.

Várias estações deste estado federal alemão foram equipadas com um tratamento adicional, por ozono, em que os poluentes são decompostos.

A tecnologia deverá ser desenvolvida noutros locais, numa altura em que a regulamentação europeia sobre as águas residuais está a mudar e é provável que a lista de poluentes a eliminar aumente.

"Existem planos para eliminar os micropoluentes das grandes estações e das regiões sensíveis a nível da União Europeia. Está previsto que as indústrias farmacêutica e cosmética paguem o financiamento destas instalações de proteção ambiental.

Espanha aposta na rega com água do mar

Espanha, o nível das reservas de água é preocupante, sobretudo em algumas regiões como Valência, regularmente afetada pela seca.

Para fazer face a esta situação, o país criou instalações de dessalinização, que produzem água doce a partir da água do mar e são responsáveis por cerca de 9% da água doce consumida a nível interno.

Trata-se de uma tecnologia cara e que consome muita energia, mas necessária,

José Luis Zaplana, diretor da fábrica de dessalinização Cadagua, na zona industrial valenciana. explica que, por exemplo, a sua central "permite que a água do rio Jucar seja devolvida a outras populações que não dispõem deste recurso".

"Pode pensar-se que dessalinizar a água do mar é caro, mas é melhor do que não ter água", defende.

Também Mariola Dura, responsável pelas operações da companhia de saneamento Acuamed, reconhece as vantagens da tecnologia.

"Ajuda muito o motor económico, o turismo, a agricultura, neste caso a indústria. Não temos de nos preocupar tanto se chove, ou não".

Águas residuais contribuem para bebida local

Espanha é também campeã europeia na reutilização de águas residuais. Sobretudo para a agricultura, que capta muitos recursos.

Da horta, uma grande zona agrícola perto do centro da cidade de Valência, saem regularmente produtos frescos para os habitantes, por vezes regados na totalidade com águas recicladas na estação de tratamento de águas residuais.

A prática será incentivada e regulada através de novas regras europeias, que vão entrar em vigor este verão.

Mas as vantagens destas fábricas de reciclagem de água, lembra Juan Ángel Conca, diretor da Companhia Pública de Saneamento de Águas Residuais da Comunidade Valenciana (EPSAR), não se ficam apenas pela água para rega.

"Há lugares no mundo onde a água que sai das estações de tratamento de águas residuais pode ser bebida! Tudo isto, que parece uma fábrica, é uma fábrica de recursos. É uma fonte de água limpa para a agricultura, de água limpa para o ambiente, mas também de lamas, que são utilizadas para fazer fertilizantes para a agricultura. E, finalmente, uma fonte de energia, porque produzimos biogás que usamos nas nossas instalações".

A água é usada para regar diferentes frutas e legumes e em muitos casos, chufa, tubérculo típico de Valência, usado como principal ingrediente da orchata, a bebida local.

Enrique Aguilar é agricultor e lembra-se de como, no início, as águas tratadas deixavam os produtores de pé atrás. “No início, os agricultores tinham dúvidas. Mas já usamos esta água há mais de 25 anos e o resultado é muito positivo.

E será que com água reciclada a chufa sabe ao mesmo? Enrique não hesita na resposta: “Água é água. Ela tem todas as qualidades necessárias. Regamos com água reciclada há muitos anos e nunca ninguém notou nada".

quarta-feira, 19 de abril de 2023

ZERO alerta para 6 pontos negativos na exploração de lítio no Barroso



Termina hoje, dia 19 de abril, a consulta pública relativa ao Estudo de Impacte Ambiental do projeto de ampliação da Mina do Barroso (MdB), na sua versão do projeto reformulado apresentado no âmbito do Artigo 16.º do Regime jurídico da avaliação de impacte ambiental, após parecer desfavorável da Comissão de Avaliação devido à identificação de potenciais impactes negativos muito significativos em fatores ambientais como recursos hídricos, sistemas ecológicos, paisagem e socioeconomia.

A ZERO reconhece que, neste momento, é uma prioridade o combate às alterações climáticas que afeta milhões de pessoas, inclusive na Europa, e a eletrificação da sociedade tem atualmente na tecnologia com base no lítio um importante aliado na transição energética. Contudo, não deixa de ser verdade que a mesma não pode justificar uma extração de recursos minerais a qualquer custo. Mesmo que Portugal tenha potencialmente a maior reserva de lítio em território europeu, a eventual exploração não poderá de forma alguma avançar sem que sejam devidamente acautelados os impactes sociais, económicos e ambientais e o passivo ambiental que ficará no território para as gerações futuras. Para além disso, não poderemos defender uma exploração predatória que vise única e exclusivamente retirar no mais curto espaço de tempo os recursos mineralógicos, sem garantir que todo o ciclo de transformação seja assegurado em território nacional, criando uma cadeia de mais valias que dificilmente se consegue com a mera instalação de uma mina.

A ZERO apresenta seis pontos negativos no projeto de exploração de lítio do Barroso

Da análise que a ZERO efetuou, e com base na qual elaborou um parecer negativo ao Estudo de Impacte Ambiental, destacam-se seis pontos:
  1. A incomodidade e impactes sobre a vida das pessoas continua a ser uma preocupação. Uma exploração mineira desta natureza, a menos de 1.000 metros do aglomerado populacional, levanta muitas dúvidas relativamente ao nível de incomodidade. O cumprimento da legislação e a amenização dos problemas com a redução da laboração da mina com um limite máximo em algumas das cortas para as 23 horas, garantindo horas de descanso é positivo, mas não é suficiente, porque cumprimento da legislação não significa ausência de incomodidade. A lavaria continuará a laborar 24 horas por dia. O estudo refere que “importa assinalar que a extensão no tempo destes efeitos de perturbação e a sua continuidade diária podem contribuir para um agravamento da qualidade de vida e saúde da população”.
  2. O impacto na paisagem é muito significativo. No estudo é referido que as áreas a intervencionar no âmbito do projeto são muito reduzidas no contexto da região do Barroso, nomeadamente na área classificada de Património Agrícola Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), dado que as intervenções da fase de construção são maioritariamente temporárias e reversíveis, sendo as suas áreas de implementação recuperadas e os seus usos repostos. Para além do impacte visual durante um período que pode chegar a perto de 17 anos, resta saber qual o impacto que este projeto terá na imagem da região.
  3. O passivo ambiental, resultante da localização dos rejeitados da lavaria, levanta muitas dúvidas. É positiva a alteração ao nível da sequência de exploração de forma a que as escombreiras sejam depositadas nas primeiras cortas a serem exploradas, permitindo abandonar a ideia iniciar de criar duas lagoas e alegadamente possibilitar a reabilitação da maioria das linhas de água. Contudo, permanece a preocupação com a instalação de rejeitados da lavandaria, cuja estrutura com 13,9 Mt numa extensão de 28,4 ha, atingirá uma altura de 85 metros. Embora estejamos na presença de resíduos da lavaria, que serão alvo de desidratação antes da sua deposição em local impermeabilizado e com canais de drenagem, em caso de acidente devido a anomalia ou qualquer outro fenómeno estocástico, devido à orografia do local e à proximidade de linhas de água, poderão existir consequências imprevisíveis sobre o comportamento destes sedimentos de granulometria fina. Esta é uma situação que, em termos de localização, continua a suscitar-nos imensas dúvidas quando ao cumprimento das melhores práticas na exploração mineira.
  4. A preocupação com a disponibilidade hídrica nesta nova versão do projeto mantém-se. Abandona-se a extração direta do rio Covas, mas constroem-se várias barragens, embora sejam apelidadas de reservatórios de água, para garantir o abastecimento e necessidades da exploração mineira. Fica a ideia de que o consumo anual de água na ordem dos 330 000 m3 poderá exigir que, no período de estio, obrigue à diminuição da laboração da lavaria para garantir o caudal ecológico na linha de água principal, o rio Covas. Num cenário de alterações climáticas, em que os fenómenos de seca são cada vez mais comuns e prolongados no tempo, aliados a eventuais problemas na disponibilidade de água subterrânea na aldeia de Covas do Barroso (decorrente da exploração nas cortas mais próximas da aldeia), levanta-se a grande preocupação quanto ao impacte deste projeto nos recursos hídricos desta área.
  5. A compensação na componente ecológica centra-se muito em estudos académicos. É apresentada a concretização de um conjunto de planos de monitorização nos primeiros 5 anos, nomeadamente o Plano de monitorização para a truta, o Plano de monitorização do lobo e o Plano de monitorização da flora – este último numa Estratégia Ambiental de Offsetting, baseada nos princípios de compensação da biodiversidade com o objetivo de desenvolver um ganho. Fica a questão sobre qual o real impacto destes planos de monitorização. A compensação ambiental faz-se com investimento efetivo no terreno na conservação de valores naturais, muito para lá de meros investimentos em estudos académicos.
  6. O Plano de Partilha de Benefícios e um Plano de Boa Vizinhança é algo imposto e não negociado com os interessados. É positiva a intenção de partilha de benefícios, contudo e tratando-se de um plano que já está pré-formatado, com um conjunto de iniciativas a implementar, dificilmente se consegue perceber qual o alcance do plano e o que de positivo ficará e perdurará após o encerramento da MdB. Nunca existiu um processo participativo na construção de uma verdadeira estratégia de desenvolvimento local que poderia ser alavancado por parte dos elevados lucros expectáveis gerados pela exploração da MdB e que resulte numa mais valia a longo prazo.
Em suma, no projeto reformulado, mantém-se a ideia de que todos os impactes são mitigáveis, são recuperáveis e que no final ficará tudo ainda melhor, com a criação de uma nova paisagem a um nível local, ainda que potencialmente melhor em termos ecológicos e de biodiversidade no período pós-exploração mineira, e com um retorno muito positivo para o Município e comunidades locais.

Para a ZERO, este é mais um exemplo de um projeto que, desde o primeiro momento, descurou o diálogo com as populações e não acautelou a qualidade de vida de quem vive nas imediações da área de concessão da mina. Para além disso, existe uma grave falta de visão estratégica e planeamento sobre os investimentos, retorno positivo e a sua sustentação no pós-exploração que verdadeiramente contribua para o desenvolvimento regional e a melhoria da vida dos cidadãos deste território, que serão de certa forma sacrificados face a um desígnio nacional e europeu.

Na verdade, estamos em presença de um projeto que tem evidentes impactes ambientais, muitos deles cuja alegada reversibilidade é muito duvidosa, pelo que jamais se pode afirmar que estamos perante um suposto projeto de “Mineração Verde” (Green Mining), um conceito falacioso e tecnicamente errado que apenas poderá ser suportado por uma narrativa de “greenwashing” numa atividade que a própria indústria reconhece que inevitavelmente gerará um considerável passivo ambiental para as gerações futuras.

sexta-feira, 17 de março de 2023

Os países ricos exportam o dobro de resíduos plásticos para o mundo em desenvolvimento do que se pensava anteriormente


Os países desenvolvidos há muito enviam seus resíduos para o exterior para serem jogados fora ou reciclados – e uma equipa independente de especialistas diz que eles estão inundando o mundo em desenvolvimento com muito mais plástico do que o estimado anteriormente.

De acordo com uma nova análise publicada na semana passada, os dados das Nações Unidas sobre o comércio global de resíduos não contabilizam plásticos “ocultos” em têxteis, fardos de papel contaminados e outras categorias, levando a uma subestimativa anual dramática de 1,8 milhão de toneladas métricas. da quantidade de plástico que sai da União Europeia, Japão, Reino Unido e Estados Unidos para os países pobres. Os autores destacam os riscos ambientais e de saúde pública que as exportações de plástico representam no mundo em desenvolvimento, onde os importadores frequentemente despejam ou incineram um excesso incontrolável de resíduos plásticos.

“Os produtos químicos tóxicos desses plásticos estão envenenando as comunidades”, disse Therese Karlsson, consultora técnica e científica da Rede Internacional de Eliminação de Poluentes, ou IPEN, sem fins lucrativos. O IPEN ajudou a coordenar a análise junto com uma equipe internacional de pesquisadores da Suécia, Turquia e Estados Unidos

Muitas estimativas da escala do comércio de resíduos plásticos fazem uso de um banco de dados da ONU que rastreia diferentes tipos de produtos por meio de um “sistema harmonizado de descrição e codificação de mercadorias”, que atribui a cada categoria de produto um código que começa com as letras HS. A HS 3915 — “resíduos, aparas e sucata” de plásticos — costuma ser considerada por pesquisadores e formuladores de políticas como a descrição do volume total de plástico comercializado globalmente. Mas a nova análise argumenta que isso é apenas “a ponta do iceberg dos resíduos plásticos”, já que o HS 3915 deixa de lado grandes quantidades de plástico incluídas em outras categorias de produtos.

Roupas descartadas, por exemplo, podem ser rastreadas como HS 5505 e não contabilizadas como lixo plástico, embora 60 a 70 por cento de todos os têxteis sejam feitos de algum tipo de plástico. E outra categoria chamada HS 6309 – roupas e acessórios usados ​​– é considerada pela ONU como reutilizada ou reciclada e, portanto, não é considerada resíduo, embora cerca de 40% dessas roupas exportadas sejam consideradas inaproveitáveis ​​e acabem sendo despejadas em aterros sanitários. .

A contaminação plástica em fardos de papel – as enormes pilhas de papel não classificado que são enviadas para o exterior para serem recicladas – também tende a ser negligenciada nas estimativas do comércio internacional de resíduos plásticos, embora esses fardos possam conter de 5 a 30 por cento de plástico que deve ser removido e descartado.

A contabilização de plástico apenas dessas duas categorias de produtos aumenta as exportações de resíduos plásticos de todas as regiões analisadas em até 1,8 milhão de toneladas métricas por ano - 1,3 milhão de fardos de papel e meio milhão de têxteis. Isso é mais do que o dobro do plástico contabilizado quando apenas “resíduos, aparas e sucata” de plástico são analisados.

Categorias de produtos adicionais, como eletrónicos e borracha, agregam ainda mais ao comércio global de resíduos plásticos, embora Karlsson tenha dito que a falta de dados torna difícil quantificar sua contribuição exata. Todo esse plástico sobrecarrega a infraestrutura de gerenciamento de resíduos dos países em desenvolvimento, fazendo com que grandes quantidades de resíduos plásticos acabem em lixões, aterros sanitários ou incineradores. A queima desses resíduos causa poluição do ar perigosa para as comunidades próximas, e lixões e aterros sanitários podem libertar produtos químicos como PCBs – um grupo de compostos que podem causar cancro em humanos – no solo e no abastecimento de água.

Mais de 10.000 produtos químicos são usados ​​na produção de plástico, e um quarto deles foi sinalizado por pesquisadores por sua toxicidade e potencial de acúmulo no meio ambiente e no corpo das pessoas. O relatório pede maior transparência das indústrias de plástico e petroquímica sobre os produtos químicos que colocam em seus produtos de plástico e que os reguladores exijam que usem menos produtos químicos não tóxicos.

Karlsson também pediu a proibição total do comércio global de resíduos plásticos, juntamente com limites aplicáveis ​​à quantidade de plásticos que o mundo produz em primeiro lugar. “Independentemente de como lidamos com o lixo plástico, precisamos diminuir a quantidade de plástico que geramos”, ela disse a Grist, “porque a quantidade de lixo plástico produzida hoje nunca será sustentável”.

Sem uma ação agressiva para reduzir gradualmente a produção de plástico, o mundo está a caminho de produzir 26 biliões de toneladas métricas de resíduos plásticos até 2050 , a maioria dos quais será incinerada, despejada ou enviada para aterros sanitários.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Putin genocída

O fim da Guerra está nas mãos de Putin.
Factos:
  • Rússia: direito de veto no Conselho de Segurança da ONU; membro da OPEC/OPEP, Grupo 8 e do Grupo 20.
  • Ucrânia: Zero.
  • A charada do acordo de Minsk
Campanha Internacional: Stop Russian oil

Tal como há 30-40 anos atrás a União Soviética utilizava os seus fantoches nos países ocidentais com a "better red than dead" que terminou com a vitória dos democratas e derrota humilhante dos comunistas soviéticos, também actualmente o genocida Putin tenta intoxicar a opinião pública ocidental com as mensagens dos lacaios do genocida Putin numa altura em que todos os dias centenas de soldados russos são mortos em campo de batalha e terras ucranianas são libertadas do jugo déspota do genocida Putin, tentando com as suas mentiras manter-se ao comando do Estado terrorista russo. A guerra terminará um dia sim mas só quando o heróico povo ucraniano recuperar todo o território pertencente à Ucrânia e o genocida Putin e seus lacaios Peskov, Labrov, Lukashenko e outros forem presentes a Tribunal Penal Internacional e condenados.


O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou, esta terça-feira, que a Rússia está disposta a negociar o conflito na Ucrânia com o Papa Francisco e os Estados Unidos.

A posição de Moscovo surge após o presidente francês, Emmanuel Macron, ter apelado a uma negociação entre os seus homólogos russo, Vladimir Putin, e norte-americano, Joe Biden, o patriarca da Igreja Ortodoxa e o Papa Francisco.

"Estamos prontos a discutir tudo [a situação na Ucrânia] com os americanos, com os franceses e com o pontífice", disse Peskov aos jornalistas, citado pela agência de notícias russas TASS.

O responsável russo acrescentou que, se as negociações forem "na direção dos esforços para encontrar possíveis soluções, podem ser vistas de uma forma positiva". "Repito: a Rússia está aberta a todos os contactos. Mas temos de partir da premissa de que a Ucrânia proibiu a continuação das negociações", frisou.

Sublinhe-se que as últimas negociações de paz entre a Ucrânia e a Rússia ocorreram em março, sob mediação da Turquia, mas acabaram sem qualquer acordo, com Kyiv e Moscovo a responsabilizarem-se mutuamente pelo fracasso negocial

O conflito entre a Ucrânia e a Rússia começou com o objetivo, segundo Vladimir Putin, de "desnazificar" e desmilitarizar a Ucrânia para segurança da Rússia. A operação foi condenada pela generalidade da comunidade internacional.

A ofensiva militar lançada a 24 de fevereiro pela Rússia na Ucrânia causou já a fuga de mais de 13 milhões de pessoas - mais de seis milhões de deslocados internos e mais de 7,7 milhões para países europeus -, de acordo com os mais recentes dados da ONU, que classifica esta crise de refugiados como a pior na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

A ONU confirmou que cerca de seis mil civis morreram e quase dez mil ficaram feridos na guerra, sublinhando que os números reais serão muito superiores e só poderão ser conhecidos quando houver acesso a zonas cercadas ou sob intensos combates.

Jornalismo que conta:

Investigação que conta:

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

A renaturalização das cidades devia ser uma prioridade da política pública em Portugal


Áreas marinhas protegidas da Europa não estão a proteger os oceanos


De acordo com um relatório desenvolvido por auditores do Tribunal de Contas Europeu, as áreas marinhas protegidas da Europa criadas, especificamente, para evitar a perda de biodiversidade no mar, não estão a proteger os oceanos. Desta forma, a investigação salienta que as ações levadas a cabo na última década não conseguiram travar a perda de biodiversidade nas águas europeias e restaurar a pesca sustentável.

Os investigadores afirmam não haver sinais significativos de progresso no mar Mediterrâneo, uma vez que é o mar com mais pesca excessiva do mundo, destacando que a pesca está duas vezes acima dos níveis sustentáveis, prejudicando aos habitats marinhos vulneráveis.

Além disso, o relatório repercutiu uma avaliação recente da Agência Europeia do Ambiente (EEA), ao concluir que menos de 1% das áreas marinhas protegidas da Europa estavam totalmente protegidas por proibições de pesca, apelando para uma melhor gestão das áreas protegidas.

Importância dos Mares na Sustentabilidade Ambiental Mundial
João Figueiredo, Membro do Tribunal de Contas Europeu e Responsável pelo relatório, refere que “pela sua importância económica, social e ambiental, os mares são um verdadeiro tesouro. No entanto, a ação da União Europeia (U.E) não tem sido capaz de restaurar os mares europeus a um bom estado ambiental, nem a pesca a níveis sustentáveis.” Salientando, “para serem eficazes, as áreas protegidas da Europa teriam de cobrir de forma suficiente as espécies marinhas mais vulneráveis ​​da U.E e os seus habitats, incluir restrições à pesca quando necessário e ser bem geridas”.

Criar uma rede devidamente protegida de habitats de peixes, ao longo do Mediterrâneo, criar uma ação renovada para estabelecimento de novas zonas de restrição de pesca e incluir uma gestão adequada que sustente as espécies e a respetiva pesca insustentável é fundamental para um caminho futuro verdadeiramente mais sólido, equilibrado e verde.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Em vésperas de eleições autárquicas, inquérito da Quercus mostra que os municípios portugueses estão longe dos seus compromissos climáticos


Um inquérito promovido pela Quercus junto dos Municípios que se comprometeram publicamente a reduzir emissões ou a adaptar o seu território aos impactos das alterações climáticas, revela que a ação está bastante longe das promessas. Os discursos de campanha eleitoral para as Autárquicas demonstram também um alheamento geral em relação à necessidade de ação climática local e emergência de adaptação dos territórios aos impactos das alterações climáticas.

O Pacto de Autarcas para o Clima e Energia
A Comissão Europeia lançou, em 2008, o Pacto de Autarcas para o Clima e Energia, uma iniciativa de adesão voluntária por parte dos municípios europeus no sentido de assumirem a meta de reduzir pelo menos em 20% as emissões de carbono e para elaborar um plano de ação. Posteriormente, em 2014 a iniciativa “Mayors Adapt” promovia a adaptação dos territórios aos impactos das alterações climáticas. Finalmente, em 2015, houve uma fusão das duas iniciativas, tendo-se estabelecido como meta para 2030 a redução das emissões de dióxido de carbono para 40%. Dos 308 municípios existentes em Portugal, até agora 165 municípios aderiram ao Pacto de Autarcas, mas, infelizmente nem todos os signatários submeteram um plano de ação ou apresentaram provas de execução das medidas. Por outro lado, falta também que os municípios alinhem as suas metas climáticas com a ambição europeia de reduzir as emissões em 55% até 2030.

Inquérito aos municípios que subscreveram o Pacto
No âmbito do inquérito realizado pela Quercus aos municípios subscritores (2), para o qual foram contactados todos os municípios portugueses, apenas 86 responderam, ou seja, cerca de 52% do total dos inquiridos, apesar das várias recordatórias enviadas. Os principais resultados encontram-se nos slides e gráficos em anexo, que também comparam o grupo total dos signatários com o grupo que efetivamente respondeu ao inquérito, tendo em conta vários aspetos como a data de adesão, a dimensão do município, o compromisso a que aderiu, etc.

Falhas no sistema e falta de um acompanhamento sério por parte dos municípios
Comparando as respostas com os dados disponíveis no portal oficial do Pacto de Autarcas, foi possível verificar diversas incongruências. Em alguns casos, poderá tratar-se de um atraso na atualização de informação dentro do portal (por exemplo, sobre o cumprimento dos prazos de entrega de documentos dos Municípios, ou a suspensão dos mesmos, etc) embora se verifique que há muitos municípios com atrasos significativos na entrega de relatórios, planos ou outros documentos. Porém, noutros casos, é evidente que essas incongruências partem dos municípios, tais como:

– alguns municípios disseram não ter enviado qualquer Plano de Ação, quando é possível descarregar o seu plano no portal;
– 27 municípios responderam que tinham um compromisso diferente do indicado no portal;
– 11 municípios afirmam estarem alinhados apenas com a meta para 2020, quando no website aparecem como comprometidos com a meta para 2030 (na maior parte dos casos, tendo esses municípios aderido à iniciativa depois de 2015, nem seria possível terem aderido ao compromisso de 2020);
– 15 dos municípios que afirmaram não ter enviado nenhum Plano de Ação, têm na sua página do website a data da submissão do seu plano, e até, na maior parte dos casos, o próprio documento disponível para descarregamento;
– 13 municípios afirmam não ter enviado relatório, quando no portal é indicado que a sua atividade se encontra monitorizada;

Todas estas incongruências revelam que em muitos casos quem respondeu ao inquérito não está por dentro do assunto, seja por não haver um responsável para coordenar o processo; por o mesmo não estar a ser acompanhado de forma consistente, ou por ter sido até abandonado.

Execução dos compromissos e dos Planos de Ação
Dos 86 municípios, 53 afirmaram ter enviado um Plano de Ação, dos quais apenas 10 afirmaram ter posto em prática mais de 70% das ações propostas; 5 afirmaram ter posto em prática 50 a 70% das ações e 11 referem ter executado entre 30 e 50% das ações. Apenas 10 municípios afirmam terem enviado mais do que um relatório de monitorização para Bruxelas, os quais não obstante devem ser enviados de 2 em 2 anos.

Dificuldades sentidas pelos municípios
A falta de recursos humanos foi a principal dificuldade encontrada pelos Municípios, seguida de deficiências na recolha de dados necessários e, em terceiro lugar, da falta de financiamento. No que se refere ao impacto da pandemia, 30 municípios referiram que a mesma dificultou o processo, ou porque colocou o Pacto para segundo plano ou porque impossibilitou a realização de atividades.

A 26ª Conferência do Clima e o papel dos governos locais
“Juntos pelo Nosso Planeta” é o mote da 26ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que se realizará de 31 de outubro a 12 de novembro em Glasgow, Escócia (3). “Trabalhar juntos para produzir resultados” é um dos 4 objetivos principais do encontro, pelo que para a Quercus também os municípios devem assumir que podem ser parceiros essenciais no combate às alterações climáticas, como fez a Associação de Governos Locais inglesa (4). Os municípios estão bem colocados para transformar as ambições climáticas em ação concreta no terreno, dado que contribuem em larga medida para a definição do território, das infraestruturas, do funcionamento dos transportes, da conectividade e dos serviços. Têm impacto nas compras públicas, detêm ou gerem terrenos, infraestruturas, edifícios de habitação e outros; e têm também um papel essencial de convocadores de parcerias e de comunicação entre partes e com o público.

Declaração de Glasgow Clima e Alimentação
A Quercus, no âmbito da sua participação na Rede Alimentar Cidades Sustentáveis, tem colaborado ativamente na divulgação da Declaração de Glasgow Alimentação e Clima (5), um compromisso feito pelos governos locais para dar resposta à emergência climática através de políticas alimentares integradas, incitando os governos nacionais a agir. Até agora aderiram apenas os municípios de Maia, Mértola, Montemor-o-Novo, Torres Vedras e a Região de Coimbra.

ANEXO: Apresentação dos principais resultados da análise dos dados disponíveis no portal https://pactodeautarcas.eu relativos aos municípios portugueses signatários e das respostas recolhidas no inquérito realizado junto dos mesmos.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Documentário da Semana: O Lado Negro das Energias Verdes




Carros elétricos, aerogeradores, painéis solares...
A transição energética traz a promessa de um mundo mais próspero e pacífico, finalmente livre de petróleo e poluição. Mas esta tese oficial prova ser um mito: ao libertarmo-nos dos combustíveis fósseis, estamo-nos a preparar para uma nova dependência de metais raros.

E se o "mundo verde" que nos espera se revelar um novo pesadelo?

O filme parte da tese de que, ao mudarmos de uma economia energética baseada em combustíveis fósseis para as chamadas energias verdes, estamos a criar uma nova dependência de metais raros, necessários, por exemplo, ao funcionamento das baterias dos automóveis eléctricos. O documentário fala das minas a céu aberto, das vidas humanas que valem menos que o valor económico da extracção, da promessa de uma nova revolução industrial que poderá levar determinados países a uma prosperidade económica, do avanço e interesse da China nesta transição, da poluição invisível e da ironia das cidades verdes.

“E se a promessa de uma energia limpa for apenas uma ilusão?” – é a questão levantada logo no início. No final, a mensagem que fica é simples e prende-se com o consumo de matérias-primas e de energia: “É urgente repensar a nossa relação com as matérias-primas para acabar por consumir menos energia e extrair menos recursos.” Por outras palavras, o filme acaba por reflectir que o pode ser necessário para salvar o Planeta é diminuir as nossas necessidades industriais de matérias-primas e o consumo energético global. Estas energias verdes acabam por relocalizar a poluição gerada para longe do nosso olhar, para longe das nossas cidades, mas ainda sobre o nosso mundo.

Uma dos contrastes mais fortes que este documentário traça tem a ver precisamente com esta ideia de relocalização da poluição: por exemplo, para a Noruega ser um país onde 60% dos automóveis vendidos são eléctricos há vidas humanas subvalorizadas pelo sistema económico, ganancioso e cruel, numa outra ponta do planeta, lençóis freáticos despidos e mares de poluição que ninguém na Noruega, a conduzir o seu eléctrico, sonhará que acontece. Os carros eléctricos são um caso muito paradigmático da falência desta transição energética: ao serem produzidos em grande escala fazem aumentar a pressão sobre os metais raros e a sua extracção. Enquanto alguns países – aqueles onde as fábricas automóveis já estão estabelecidas – querem continuar a fazer dinheiro com a produção de veículos, outros olham de modo cego para as novas oportunidades que a procura por um novo recurso lhes pode trazer.

Os carros eléctricos são, neste caso, apresentados como um mito da sustentabilidade. Tal como os novos cigarros electrónicos estilo IQOS deverão ajudar a indústria tabaqueira a manter o seu domínio no mercado, agora que esta enfrenta restrições e evidências científicas inegáveis por causa do malefícios dos seus primeiros produtos, os carros eléctricos deverão ter ao mesmo efeito para a indústria automóvel. Ou seja, ajudá-la a prolongar o seu poderio, agora que os males dos seus anteriores produtos – os veículos a gasolina ou gasóleo – passam também por cada vez mais restrições baseadas em factos. São inegáveis os efeitos nocivos da poluição atmosférica – só em Portugal, por exemplo, mata 6630 pessoas por ano e custa à cidade de Lisboa 635 milhões de euros anuais. Segundo a Agência Europeia do Ambiente, o meio de transporte mais poluente na Europa é o carro (60%). Todo o tráfego automóvel emite mais CO2 que toda a aviação civil junta (13,4%); mas a solução, como explica o documentário, deve ser ponderada.

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segunda-feira, 26 de abril de 2021

Protocolo de Montreal (ODS)




O Protocolo de Montreal é um acordo global que visa proteger a camada de ozono estratosférico através da eliminação progressiva dos químicos que a empobrecem. Esta eliminação progressiva abrange tanto a produção como o consumo de substâncias que enfraquecem a camada de ozono (ODS - ozone depleting substances).

Tendo em conta que as ODS são igualmente gases com efeito de estufa com elevado potencial de aquecimento, esta eliminação progressiva é também crítica para a atenuação das alterações climáticas. Além disso, não obstante o facto de os hidrofluorocarbonetos (HFC) não empobrecerem a camada de ozono, o protocolo visa reduzir progressivamente a sua produção e consumo para evitar que as ODS sejam substituídas pelos HFC, que contribuem significativamente para as alterações climáticas.

O Protocolo de Montreal foi acordado em 1987, entrou em vigor em 1989 e foi alterado diversas vezes. Na sua alteração mais recente, a emenda de Quigali apela à redução progressiva dos HFC.

As emissões de HFC estão abrangidas pelo Acordo de Paris, aprovado pela Decisão (UE) 2016/1841. Assim, o Protocolo de Montreal ajuda a cumprir o objetivo de manter o aumento da temperatura global bastante abaixo dos 2 ºC acima dos níveis pré-industriais e a prosseguir esforços para limitar ainda mais o aumento da temperatura a 1,5 ºC acima dos níveis pré-industriais.

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