Mostrar mensagens com a etiqueta Acédia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Acédia. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Valter Hugo Mãe - O Século dos Imbecis


No ano em que assinala três décadas de vida literária, Valter Hugo Mãe debruça-se sobre o paradoxo de "vivermos claramente no século da informação, mas isso não corresponder ao século do conhecimento". Povoado pelos sete pecados mortais, "O século dos imbecis" poderia, inclusive, ter-se chamado "o século dos pecadores". No entanto, e na ótica do escritor, "o pecado parece uma coisa que define menos a perplexidade perante a contemporaneidade".

Isto porque, ainda que "morrer de burro [seja] algo que se faz desde que há gente", o espanto reside "em atravessarmos uma época em que uma certa ignorância ou uma certa oposição ao conhecimento perdeu o pudor e se glorifica como algo válido". Aliás, conforme admitiu Valter Hugo Mãe ao Notícias ao Minuto, basta observar a forma como muitas lideranças políticas "se desinteressam por qualquer tipo de verdade e, em última análise, se desinteressam agressivamente ou se opõem agressivamente àquilo que é comprovado cientificamente".

Ao encetar um ciclo de obras chamado Crimes e Vindouros, "O século dos imbecis" joga com as virtudes, a moralidade, a fé e a justiça, evidenciando que, "enquanto totalidade, estamos, de facto, numa espécie de movimento em direção a um certo fim do mundo, a um certo fim de todas as coisas", no advento da Inteligência Artificial (IA) e da "substituição de quem somos", o que culminará com a descida "à condição de animal, ao invés de ascendermos mais e mais à condição humana".

O que é que o motivou a escrever esta obra, tendo em conta que a sociedade atual, de facto, tem tanto de informação como de desinformação?
O que me motiva neste trabalho é criar uma certa reflexão em torno deste paradoxo, que é vivermos claramente no século da informação, mas isso não corresponder ao século do conhecimento; não garantir que a informação produzida e que o acesso à informação se expresse através do conhecimento. Então, parece-me trágico que, num tempo de tanta preparação, de tanta oportunidade, estejamos a claudicar em tantos sentidos com uma certa folia pela facilidade e por aquilo que é mais destituído. É como se o mesmo gesto que abre a porta para um esplendor humano pudesse perigar por propor também um retrocesso. Eventualmente, seria de esperar que, podendo ser melhores, estejamos meio interessados em facilitar de tal maneira a nossa vida ao ponto de nos destituirmos de capacidades e nos tornarmos piores.

Até com o advento da Inteligência Artificial (IA)...
Sim, a tecnologia está a oferecer algo que é propenso a ser maravilhoso, mas que, perversamente, também sugere ou também seduz para uma abundante, uma larga desistência. E dá-me a sensação de que tudo quanto seja desistir de uma sofisticação do fazer e uma sofisticação do pensar é um passo dado no retrocesso da humanidade. É como se a tecnologia tivesse tudo para nos sofisticar enquanto gente, mas a tentação é usá-la para que nos simplifique e nos retire, em última análise, até a condição humana.

Sim, a IA devia ser usada para coisas como limpar a casa, curar doenças, mas está a ser usada para produzir arte, música… Como é que se explica isto?
Para criar uma espécie de substituição de quem somos. Que possa haver ali uma substituição de muito do que fazemos é uma coisa. Agora, que nos possa interessar uma substituição de quem somos é trágico, porque significa que não nos consideramos à altura e que não estamos predispostos a um esforço para estar à altura correspondendo àquilo que consideramos o que devíamos ser. É muito terrível, inclusive, porque mesmo para que as tecnologias substituam muito do que fazemos, isso acarreta perigos, porque fazer significa também melhorarmos quem somos. É a partir do fazer que as nossas capacidades se comprovam e se podem testar e, inclusive, podemos arriscar melhorar e potenciá-las. Se nos destituirmos do fazer, da condição de fazedores, eventualmente podemos destituir-nos das capacidades do fazer.

Linearmente encontrarmos um gadget qualquer que nos aspire a casa está muito bem, mas chegar ao limite de encontrar um gadget que substitua as nossas necessidades de cálculo, de avaliação… Eventualmente, até a nossa humanidade será reduzida, até a potência humana será reduzida, o que significa que descemos mais à condição de animal ao invés de ascendermos mais e mais à condição humana.

Agilulfo morre de burro, como consequência do divertimento dos outros. Estamos a condenar vários ao mesmo destino, devido às redes sociais e à propaganda de que somos alvo? Estamos em risco de morrer de burros?
De algum modo, sempre se morreu de burro, porque a sofisticação do pensamento, a educação, digamos assim, é esplendorosa ou pode ser esplendorosa porque nos protege em relação a todos os males e a todos os perigos. Por isso, em última análise, numa vida minimamente normal, convencional, o conhecimento já é uma cura para muitas doenças, porque a pessoa escapa de muitas doenças por aprender a comer. Até a simples aprendizagem da travessia de um lado da rua para o outro já é uma salvação da vida ou, eventualmente, da saúde. Tudo o quanto nos instrui propende para nos salvar a vida, propende para cuidar da nossa saúde, por isso, cuida do lado material da vida, cuida do corpo. E tudo o quanto não nos instrui, por deferência, obviamente, propende para perigar o nosso corpo e para perigar a nossa vida. Por isso, morrer de burro é algo que se faz desde que há gente. Agora, o espanto está nisto, está em atravessarmos uma época em que uma certa ignorância ou uma certa oposição ao conhecimento perdeu o pudor e se glorifica como algo válido. E é só ver muitas lideranças políticas… A maneira como se desinteressam por qualquer tipo de verdade e, em última análise, se desinteressam agressivamente ou se opõem agressivamente àquilo que é comprovado cientificamente. Para mim, isso traz um espanto grotesco, diria.

Depois, os seus apoiantes vão atrás e, mesmo confrontados com os factos, negam-nos completamente.
A única maneira destas ignorâncias imperarem é através do fanatismo, através de uma posição obstinada que não quer provas, que não precisa de provas e vive assente em emoções muitas das vezes justificadas por preconceitos. Significa que são posições na vida ou são visões na vida que não pretendem qualquer relação com noções de justiça, por exemplo. O que querem é uma imposição de uma vontade imperativa, despótica e, normalmente, excludente, o que é tudo ao avesso do projeto ou do ideal humano. É tudo ao avesso do que devia ser, do que, eticamente, devia ser. É mais do que uma bizarria, é um perigo. É um perigo porque, pela primeira vez, parece que se propõe uma mudança no paradigma humano que vai meio no sentido de acabar com o humano propriamente dito.

Lá está, quando Agilulfo sobe à torre e adquire todo o conhecimento, profere uma palavra que ninguém compreende, mas à qual é dado um significado aleatório e que todos fingem ter entendido logo. É este o estado da sociedade? Alguém diz alguma coisa e, para não sermos as ovelhas negras, concordamos sem questionar ou compreender o que está em causa?
Sim, é uma padronização de um conhecimento que não é conhecimento nenhum, que é algo que se propaga e que já não se consegue questionar por inteiro, que se instala com um sentido algo dogmático, e é a partir dos dogmas que o fanatismo pode ser levantado. Por isso, para um lado ou para o outro da barricada, as posições vão-se estremando a partir das suas convicções, que são quase convicções de fé.

Estamos num tempo em que, definitivamente, precisamos de ganhar uma consciência em relação às coisas, ao invés de assumirmos que as coisas não nos atingem ou não deverão ser preocupações nossas, porque simplesmente não incorremos nesses erros. O facto de não incorrer nesse erro não implica que não deva ativamente lutar contra esse erro

Devo confessar que achei esta parte deliciosa porque, durante o julgamento, a defesa de Omobon e Omobestia disse, e passo a citar, que "queria apresentar as condolências à família daquele que não evitou a trágica consequência de perder a vida". O primeiro-ministro, Luís Montenegro, disse isto em fevereiro, no rescaldo das intempéries.

Ai disse? Não sabia.
Não sabia?

Não.
Disse precisamente que queria apresentar as condolências "às famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida". A minha pergunta era se foi de propósito, se não foi de propósito.

Oh, meu Deus! Foi uma coincidência, talvez no meu subconsciente tenha ficado a expressão… Não sei, não saberia dizer a expressão de cor, mas é eventualmente um lamento que acontece, que as pessoas fazem em relação a quem não evita perder a vida.

E é idêntica, portanto é muito engraçado ter sido uma coincidência.
Uma coincidência terrível.

Acha que vão interpretar mal?
Acho que vão entender que é algo que não se deve dizer. Que é algo muito estranho, atribuir a culpa à vítima. É elementarmente estranho.

Mas foi esse o seu objetivo, ou não?
Claro. É uma denúncia, é uma discordância. Discordo profundamente com culpar-se as vítimas. É uma boca, é uma provocação, é uma resposta. É uma resposta que a literatura cria em relação à contemporaneidade concreta, à mais concreta contemporaneidade. Sou licenciado em Direito. Não é possível que se estabeleça como justo um princípio que culpa a vítima. Não é possível. É mais do que um paradoxo, é uma imbecilidade.

Um bocadinho nessa linha, Omobon acaba com uma pena mais severa, mesmo mostrando-se arrependido, porque "à bondade exige-se responsabilidade". Considera que isso também acontece na nossa sociedade? Os bons e honestos são mais penalizados?
É, porque dos bons esperamos uma lisura, esperamos resultados condizentes. Dos maus, já de alguma forma os demitimos de servirem de exemplo para alguma coisa. E por isso há uma ironia, ou há um sarcasmo associado. Aliás, todo o livro é sarcástico, mas há um sarcasmo tremendo associado a essa condenação porque, de facto, tendemos a sofrer um desgosto muito maior quando vemos os bons falharem. E isso vai ao encontro do que Martin Luther King dizia, que mais do que temer o ruído dos maus, temia o silêncio dos bons. É um pouco isso. A passividade dos bons, perante uma hipótese de derrocada da humanidade, torna-se profundamente obscena, como se os bons fossem os culpados. Não bastará ser bom, é essencial agir no sentido de fazer com que a bondade seja um princípio ativo. Eu entendo muito assim. Até no foro dos ativismos, digamos assim, acho que estamos num tempo em que não podemos achar que somos só indiferentes a determinadas torpezas. Temos de ser ativamente contra essas torpezas. Por exemplo, não basta eu dizer que não sou racista; é preciso ser ativamente antirracista.

Estamos num tempo em que, definitivamente, precisamos de ganhar uma consciência em relação às coisas, ao invés de assumirmos que as coisas não nos atingem ou não deverão ser preocupações nossas, porque simplesmente não incorremos nesses erros. O facto de não incorrer nesse erro não implica que não deva ativamente lutar contra esse erro. É um pouco o que está em causa entre os bons e os maus. Os bons, não basta que sejam bons, é preciso que sejam ativamente agentes do bem, que produzam o exercício do bem como uma obrigação coletiva.

É curioso, porque a união devia fazer a força, enquanto coletivo devíamos ser muito mais robustos e devíamos funcionar como um exército bastante defendido, mas vemos que não, que os coletivos avançam impavidamente em direção ao abismo, ainda que cada um de nós saiba perfeitamente que, se chegar ao limite, não interessa saltar. Porque é que, enquanto coletivo, caminhamos em direção ao abismo?
Até porque, depois da pandemia, ou durante a pandemia, dizia-se que as pessoas iam ficar mais próximas, mais solidárias, e estamos a ver um pouco o contrário, não é? Estamos cada vez mais individualistas.

Era uma coisa que a história também já explicava, que depois das pandemias voltam as guerras e voltam as atomizações e todos os oportunismos e avançam todos os sentidos de imperialismo e de domínio de uns perante os outros. A história explica que, com cada pandemia, há um ciclo que se inicia e que tem uma tramitação, digamos assim, que é repetida. Quem leu alguma coisa já sabia que era inevitável passarmos por esta fase. A candura que se criou no período da pandemia, que fez com que as pessoas achassem que, quando pudéssemos estar juntos, quando pudéssemos voltar às ruas e normalizar um pouco as nossas vidas, haveríamos de ser muito mais fraternos, estaríamos todos saudosos de nos vermos e de nos abraçarmos… Essa candura é exatamente um dos instrumentos mais valiosos para o oportunismo, porque as pessoas entorpecem, digamos assim, os sentidos, ficam iludidas com uma fantasia e acabam por estar meio predispostas para serem enganadas em todas as situações. Por isso é que a história também comprova que é nesse instante de candura universal que os malfeitores avançam.

Não deixa de ser estranho... Como é que a história já mostrou isso tantas vezes e, mesmo assim, continuamos repeti-lo?
É como se individualmente fôssemos todos muito capazes, mas coletivamente somos sempre um pouco mais falhos. É curioso, porque a união devia fazer a força, enquanto coletivo devíamos ser muito mais robustos e devíamos funcionar como um exército bastante defendido, mas vemos que não, que os coletivos avançam impavidamente em direção ao abismo, ainda que cada um de nós saiba perfeitamente que, se chegar ao limite, não interessa saltar. Porque é que, enquanto coletivo, caminhamos em direção ao abismo? É estranho, porque cada um de nós sozinho não tem interesse nenhum em seguir essa direção, mas no coletivo fazemo-lo. Enquanto totalidade, estamos, de facto, numa espécie de movimento em direção a um certo fim do mundo, a um certo fim de todas as coisas.

A Marquesa, mulher bicuda e propensa a diarreias que acha que "o povo é estúpido", tem um final aberto, associado ao cofre de Agilulfo. O cofre representa o quê exatamente? O desconhecido, o ideal da informação? A soberba?
O cofre, para mim, é um mistério que não é aceite, que algumas personagens não conseguem aceitar. É um mistério que acontece às vezes nos meus livros. É uma equação irresoluta, que não tem solução à vista. E, depois, as pessoas distinguem-se entre aquelas que tomam a rédea das suas vidas independentemente de tudo ou as outras que não conseguem avançar em sentido algum enquanto uma resposta não lhes for dada. Por isso, a Marquesa não consegue existir para lá daquela resposta e a Criada existe para lá daquela resposta.

Torna-se a patroa, não é?
É e, por isso, de alguma maneira, as pessoas ficam distintas, são distintas por esta atitude em relação a uma equação irresolúvel. Ou achamos que a vida é justa independentemente de nos responder ou não, ou, então, não aceitamos o facto de não nos responder e estabelecemos a vida como impossível.

Tendo em conta as referências à religião, às tantas dei por mim a tentar identificar os sete pecados mortais. Foi propositado ou eu é que levei a minha análise demasiado a fundo?
Não, tem, porque há um jogo com as virtudes no livro e, por isso, todos os pecados estão presentes, de alguma forma. Podia ser o século dos pecadores, mas o pecado parece uma coisa que define menos a perplexidade perante a contemporaneidade. Mas existe o uso das iniquidades todas.

Se estabelecermos como verdade alguma coisa que nos é dita sem ser comprovada, sem ser passível sequer de prova, estamos a aceitar uma certa realidade paralela. Estamos a aceitar que as evidências não esgotam aquilo que há para saber e, diante das evidências, podemos estar crentes de uma coisa completamente distinta. Podemos confiar mais no que sentimos do que aquilo que está diante dos nossos olhos de uma forma concreta

Falou há pouco sobre a justiça. No livro escreveu que, "quanto mais se propagava a justiça, mais se notavam as falhas de carácter e o quanto a informação, afinal, não podia nada contra o prejuízo dos gestos" e que "a população aumentava de emoção, […] decidia por sentir e não por pensar". É um pouco isto que estamos a viver, não é?
É seguir as perceções. O sentimento é um bocadinho criado por uma perceção que pode ser completamente fantasiosa e que não se fundamenta por completo. Por isso, é uma espécie de ciência do achismo, que faz com que as pessoas se movam e tomem decisões a partir de um ponto de vista pessoalíssimo e normalmente errado – muitas vezes errado. De facto, uma das tragédias da contemporaneidade é fazermos ascender o sentimento à ciência, é confundirmos sentimento com ciência.

Até que os personagens criam uma nova santa.
Há uma Nossa Senhora que vai exatamente ser criada ao arrepio daquilo que as pessoas sentem. Em última análise, a religião é um sentimento, não consegue ser uma ciência, não fornece respostas concretas. Estabelece apenas dogmas, que é um bocadinho o que os sentimentos também vão fazendo. Vão criando em nós uns certos dogmas, umas certas inclinações para achar que as coisas são assim ou assado. E a religião é feita de dogmas e está cheia de decisões que temos de tomar e que têm que ver com acreditar em alguma coisa que não é minimamente comprovável e, às vezes, nem plausível. Então, achei interessante que o sentimento destas pessoas desse origem à criação de uma nova santa.

Às vezes, a religião é necessária para sobreviver, para suportar a vida, mas também cria bastante resistência ao conhecimento.
Sim. Tudo o quanto pode, a partir do ponto de vista do estabelecimento de um dogma, que não deixa de ser um preconceito, porque é um pré-conceito, um conceito prévio, acaba por ser modo de eventualmente perigar o conhecimento ou perigar a ciência. Se estabelecermos como verdade alguma coisa que nos é dita sem ser comprovada, sem ser passível sequer de prova, estamos a aceitar uma certa realidade paralela. Estamos a aceitar que as evidências não esgotam aquilo que há para saber e, diante das evidências, podemos estar crentes de uma coisa completamente distinta. Podemos confiar mais no que sentimos do que aquilo que está diante dos nossos olhos de uma forma concreta.

Ao longo destes 30 anos enquanto escritor, que momentos colocaria no seu top três?
A edição do meu primeiro livro, que é um livro do qual eu hoje não gosto, mas que foi um livro que surge na minha vida um pouco de surpresa, sem que eu o tivesse procurado, mas que encontrei, digamos assim. Em 1996, foi absolutamente mudador, foi uma concretização tão gratificante que nunca esperaria que pudesse acontecer. Não tinha a convicção de que isso me pudesse acontecer. Depois, eventualmente, o instante de ganhar o Prémio Saramago, que me retira de uma lonjura e que me oferece a oportunidade de participar um pouco do teatro literário nacional. Diria, depois, a publicação no Brasil. A passagem por um grande festival no Brasil e a recetividade dos leitores brasileiros em relação à minha obra acabam por retificar ou legitimar, diria, uma relação forte que tinha com a cultura brasileira e que faz com que hoje me sinta balançando entre os dois países de um modo muito gratificante.

E faria tudo igual?
Talvez, se fazer tudo igual me trouxesse a este dia, a esta hora, desta maneira, sim, faria, sim. Não saberia fazer de outra maneira, porque o que decidi foi o que soube decidir. Estou muito feliz, sobretudo estou muito feliz com os livros que escrevi, com os livros que escrevo, com o novo livro, de maneira que este foi o percurso que me garantiu a possibilidade de escrever este livro, então foi o percurso certo.

Que outros projetos é que tem em mãos?
Este livro começa um ciclo chamado Crimes e Vindouros, por isso já estou com a cabeça no próximo romance. À partida será uma tetralogia também; gosto de funcionar por ciclos de quatro livros. Estou com a cabeça nestes assuntos, do que podem ser os grandes crimes de hoje, herdados pelas pessoas do futuro; que crimes estamos nós a deixar para que as pessoas do futuro herdem. É nisso que estou metido.

Gosto muito da imagem do Albuquerque Mendes, que é um mestre pintor português, um grande amigo, e que, ao longo da escrita do livro, me foi ouvindo falar sobre ele. Enquanto escrevia, falámos quase todos os dias, e fui contando ao Albuquerque o que estava a acontecer. Ainda antes de ler o livro, ele conseguiu criar essa imagem, que me parece perfeita para o clima do livro, para a desconfiança entre a Marquesa e a Criada, entre as mulheres, a presença da máquina de costura, e o fantasma do Agilulfo deitado como sombra delas mesmas. Então, foi muito especial ter uma imagem do Albuquerque Mendes neste livro, porque surge da nossa amizade e dessa partilha de uma coisa que ainda não acontece, ou que está a acontecer, mas que ainda não existe por inteiro. Ele ajudou-me a ver o livro antes que o livro estivesse completo. É muito especial ter esses bonecos, digamos, esses desenhos na capa do livro.

Sim, é muito bonita. É a cena em que estão a vender os vestidos.
Vendem os vestidos e estão, de alguma forma, transformadas em colegas de trabalho, e assim, meio que aldrabando a clientela, meio que impingindo à clientela a tralha que têm para vender.

Mais tarde ainda é pior, porque usam trapos e cortinados.
Exatamente, depois perdem a cabeça. É o desespero, é a fome.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Melancolia foi um movimento cultural Europeu atingindo sobretudo a elite Inglesa dos séc. XVI e VII: John Eccles - The Mad Lover


Melancolia (do grego antigo: μελαγχολία, romanizado: melancholía; de μέλαινα χολή, mélaina cholḗ, 'bile negra') é um conceito encontrado ao longo da medicina antiga, medieval e pré-moderna na Europa que descreve uma condição caracterizada por um humor marcadamente deprimido, queixas físicas e, por vezes, alucinações e delírios. Além de uma condição patológica, a melancolia também se podia referir a um estado de espírito ou temperamento e, por vezes, era até usada como uma descrição da condição humana em geral.

A melancolia (ou mais precisamente a 'bile negra', da qual a melancolia deriva o seu nome) era considerada um dos quatro temperamentos que correspondiam aos quatro humores. Até ao século XVIII, os médicos e outros estudiosos classificavam as condições melancólicas como tal devido à sua causa comum percebida – um excesso de um fluido nocional conhecido como "bile negra", que estava comummente ligado ao baço. Hipócrates e outros médicos antigos descreveram a melancolia como uma doença distinta com sintomas mentais e físicos, incluindo medos e desalentos persistentes, falta de apetite, abulia, insónia, irritabilidade e agitação. Mais tarde, os delírios fixos foram adicionados à lista de sintomas por Galeno e outros médicos. Na Idade Média, a compreensão da melancolia mudou para uma perspetiva religiosa, com a tristeza a ser vista como um vício e a possessão demoníaca, em vez de causas somáticas, como uma potencial causa da doença.

Durante o final do século XVI e o início do século XVII, surgiu em Inglaterra um culto cultural e literário da melancolia, associado à transformação da melancolia, por parte do neoplatonista e humanista Marsilio Ficino, de um sinal de vício numa marca de génio. Esta melancolia da moda tornou-se um tema proeminente na literatura, na arte e na música da época.

Movimento cultural inglês

Durante o final do século XVI e o início do século XVII, surgiu em Inglaterra um curioso culto cultural e literário da melancolia. Num influente ensaio de 1964 na revista Apollo, o historiador de arte Roy Strong traçou as origens desta melancolia da moda até ao pensamento do popular neoplatonista e humanista Marsilio Ficino (1433–1499), que substituiu a noção medieval de melancolia por algo novo:

"Ficino transformou o que até então tinha sido considerado o mais calamitoso de todos os humores na marca do génio. Não admira que, eventualmente, as atitudes de melancolia se tenham tornado logo um complemento indispensável para todos aqueles com pretensões artísticas ou intelectuais."


The Anatomy of Melancholy (A Anatomia da Melancolia, ou na sua versão completa: O Que Ela É: Com Todos os Seus Tipos, Causas, Sintomas, Prognósticos e Várias Curas... Filosoficamente, Medicinalmente, Historicamente, Aberta e Dissecada) de Robert Burton, foi publicada pela primeira vez em 1621 e continua a ser um monumento literário definidor dessa moda. Outro grande autor inglês que se expressou extensamente sobre o facto de ter uma disposição melancólica foi Sir Thomas Browne na sua obra Religio Medici (1643).

Night-Thoughts (Queixume: ou, Pensamentos Noturnos sobre a Vida, a Morte e a Imortalidade), um longo poema em verso livre de Edward Young, foi publicado em nove partes (ou "noites") entre 1742 e 1745, tornando-se enormemente popular em várias línguas. Teve uma influência considerável nos primeiros românticos em Inglaterra, França e Alemanha. William Blake foi mais tarde contratado para ilustrar uma edição posterior.

Nas artes visuais, esta melancolia intelectual da moda surge frequentemente na retratística da época, com os modelos posados sob a forma de "o amante, com os braços cruzados e o chapéu desabado sobre os olhos, e o erudito, sentado com a cabeça apoiada na mão" – descrições retiradas do frontispício da edição de 1638 da Anatomia de Burton, que mostra exatamente essas personagens que, por essa altura, já se tinham tornado clichés. Estes retratos eram frequentemente ambientados ao ar livre, onde a Natureza oferecia "o cenário mais adequado para a contemplação espiritual", ou num interior sombrio.

Na música, o culto pós-elisabetano da melancolia está associado a John Dowland, cujo mote era Semper Dowland, semper dolens ("Sempre Dowland, sempre em pranto"). O homem melancólico, conhecido pelos contemporâneos como um "malcontente", é personificado pelo Príncipe Hamlet de Shakespeare, o "Melancólico Dinamarquês".

Um fenómeno semelhante, embora não sob o mesmo nome, ocorreu durante o movimento alemão Sturm und Drang, com obras como As Dores do Jovem Werther de Goethe, ou no Romantismo com obras como Ode sobre a Melancolia de John Keats, ou ainda no Simbolismo com obras como A Ilha dos Mortos de Arnold Böcklin. No século XX, grande parte da contracultura do modernismo foi alimentada por uma alienação comparável e por um sentimento de falta de propósito chamado "anomia"; a preocupação artística anterior com a morte passou a ser designada sob a rubrica de memento mori. A condição medieval de acedia (acédia em português) e o Weltschmerz romântico eram conceitos semelhantes, com maior probabilidade de afetar o intelectual.

Mais detalhado aqui

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Os ásperos tempos de acédia

Edvard Munch, Melancolia (1891)
Fonte: Outras Palavras29/01/2022
Não conseguimos superar as condições de uma época, mas nunca tais condições nos anulam completamente. Impõe-se refletir profundamente sobre essas condições, sabendo que refletimos com elas. Em O Futuro Começa Agora: da Pandemia à Utopia (Edições 70, 2020), defendo que estamos a entrar num período de pandemia intermitente, ou seja, que a pandemia vai continuar a condicionar a nossa vida pessoal e social por muito tempo. Um ano depois de ter publicado o livro, tudo leva a crer que essa previsão, vaga como é, se vai confirmando. Vamos saindo da fase aguda da pandemia e entrando na sua fase crónica com sequelas difíceis de prever. Em que medida é que essa intermitência se vai refletir na vida pessoal e social dos humanos (para não falar dos seres vivos não humanos)? O impacto da pandemia será muito diverso e desigual nas diferentes sociedades e no interior de cada uma delas.

Proponho-me iniciar uma resposta tendo em mente os seguintes grupos sociais: os que me podem ler, porque têm suficiente instrução formal para ler e escrever; os que têm dinheiro para comprar o JL[Jornal das Letras, no qual este artigo originalmente foi publicado] ou a revista do seu país que publicar este texto; os que têm tempo para ler porque não têm de se preocupar com a comida e a água que eles e suas famílias vão consumir hoje e nos próximos tempos; os que estão suficientemente tranquilos para poder ler, porque não estão ameaçados na sua segurança pessoal por nenhuma guerra irregular entre grupos armados; os que não vivem em nenhuma sociedade em que estar a ler um jornal (ou um certo jornal) é proibido e pode ser punido; os que pertencem a uma cultura em que faz sentido e é possível refletir individualmente sobre temas tão gerais sem consultar a comunidade relevante (incluindo os antepassados), sem ter específica autoridade para fazer reflexão ou sem ter de cumprir certos rituais. Se juntarmos todas estas condições, pode facilmente concluir-se que a minha pergunta e a minha reflexão se referem a uma pequena parcela da população mundial. É bom termos isto presente. É que toda a reflexão teórica no mundo Ocidental desde o século XVII se construiu sobre o pressuposto de dizer respeito a toda a humanidade e ser, por isso, universal, apesar de ter por referência apenas a experiência das classes nobres e instruídas do pequeno canto da Eurásia que era (e é) a Europa. Tendo isto em mente, posso avançar na minha reflexão consciente dos limites do seu alcance.

O monge João Cassiano, em escrito do século V, é o primeiro a chamar a atenção para a condição psicológica de muitos monges da Palestina, Síria e Egito dos primeiros tempos do cristianismo, uma condição a que chamou acédia (do grego: akedia, indiferença, ausência de cuidado). Tratava-se de um estado de letargia permanente, incapacidade de se concentrar em objetivos de estudo ou de culto, exaustão mental e espiritual, apatia, melancolia, torpor, dispersão ou extravio do pensamento (a peruagatio cogitacionum da retórica medieval). Evágrio Pôntico designa a acédia por “demónio do meio-dia”, porque era ao meio-dia, com o sol a pique e imóvel, que os monges ficavam mais inquietos nas suas celas, o dia parecia durar cinquenta horas e a sua vida parecia não ter sentido. Cassiano atribuía a acédia às condições monásticas de isolamento social, de confinamento espacial e de silêncio monacal, uma enorme privação que contrastava com a imensa tarefa de chegar mais próximo de Deus. Mais tarde, a acédia chegou a ser convertida num dos sete pecados capitais, a preguiça. Mas foi sempre muito mais que isso. Hoje será fácil assimilar acédia a burnout, à depressão, como em período anterior foi assimilada ao ennui ou à Weltschmerz. Penso que tais designações, embora corretas em si, não passam da superfície do contexto em que hoje é pertinente falar da acédia. Em meu entender, a acédia é um dos sintomas deste novo tempo, diferente segundo os contextos e os grupos sociais, uma condição que muitos sofrerão e de que outros se aproveitarão. Não se trata de um tempo totalmente novo (se é que tal seria possível), mas antes de um acentuar qualitativamente diferente de tendências que vinham a acumular-se desde meados do século passado. Proponho-me iniciar uma reflexão sobre as causas da acédia no nosso tempo, a sua diversificada fenomenologia e o seu impacto nas relações sociais e políticas.

Do mundo em pausa ao mundo intermitente
Desde há dois anos, a vida pessoal e social vive-se em registo de pausa. Estar em pausa, tal qual no computador, é ter a tarefa momentaneamente interrompida. Nem abandonada, nem concluída. Os planos pessoais e sociais sempre passam por momentos de pausa. E durante estes anos temos recorrido permanentemente ao registo de pausa nas nossas relações e nas nossas expressões. Despedimo-nos dos amigos numa mensagem mandando beijos ou abraços, mesmo sabendo que, se estivéssemos agora na presença deles, não nos poderíamos beijar ou abraçar em face dos riscos de contaminação que isso envolveria. Vibramos com a antecipação de um encontro íntimo com alguém que não está fisicamente próximo, mesmo sabendo que tal encontro não pode ter, por agora, dia marcado e poderia ter consequências fatais se ocorresse. Planeamos convívios e atividades sociais e profissionais sempre sujeitos à intermitência da pandemia. Planear para a intermitência não é o mesmo que planear para a linearidade. E isto é válido tanto no plano pessoal como no coletivo, tanto no âmbito privado como no público. Se for recorrente, a intermitência da pausa cria uma discrepância com a experiência existencial: vivemos continuamente e não intermitentemente. Se o registo da pausa se instalar, teremos de passar a planear como nunca para poder viver como sempre. Com o passar do tempo, é possível que tal planeamento se transforme em planear como sempre, e a vida, já transformada por ele, se transforme em vida como sempre. Essa possível transformação está expressa na ideia do “novo normal”. Uma ideia, em si, contraditória: se uma condição é normal, não é nova e, se é nova, não é, de imediato pelo menos, normal.

Se o registo de pausa se mantiver, perde a natureza de pausa. Como será vivermos depois de esquecidos de que tudo começou vivendo em pausa, interrompendo-se o que, em princípio, não seria interrompido? Como serão as relações “profundas” ou “duradouras”? Serão duradouras e profundas as relações que se adaptarem melhor à intermitência, numa espécie de lógica de seleção darwiniana das espécies? Como se reinventam os conceitos de progresso e de regresso ou de retrocesso? Como planear uma carreira profissional ou uma família? Como conceber a satisfação das necessidades e a felicidade? A recompensa instantânea passa a ocupar o lugar dos “grandes objetivos”? O corpo adaptar-se-á melhor à intermitência que a mente ou vice-versa? Dos nossos cinco sentidos, qual será o mais afetado pela intermitência? A visão só vê com alguma (mínima) distância, pois, como dizia Nietzsche, sempre tão preocupado com os seus olhos, os olhos veem tudo, só não se veem a si próprios. Mas, e o tato ou o paladar, que parecem exigir o oposto? E o olfato, numa posição intermédia? A memória da intermitência torna-se, ela própria, intermitente? A hiperproximidade dos corporalmente próximos como regra de segurança conduzirá a novos tribalismos, bolhas de likes corporais, como já existem hoje nas redes sociais?

Todas estas perguntas e todas as outras que se poderiam juntar podem parecer à superfície das coisas como pura imaginação e certamente ninguém terá tempo para lhes dedicar muita atenção. Em meu entender, o problema reside aí. A pandemia está a ser uma vivência mais profunda na vida das pessoas e das sociedades do que se pode imaginar, mas só temos suspeita disso através de sintomas que, como todos os sintomas, são ambíguos. Tais sintomas são aflorações de questionamentos existenciais e quem os experiencia faz a sua tradução para a sua vida pessoal e coletiva da forma que lhe pareça menos disruptiva. Não o faz sozinho. Fá-lo nas condições que a sociedade lhe permite. Vejamos, pois, como pode estar a acontecer o processo de tradução.

Nas centenas de intervenções online que tenho tido nestes dois últimos anos (seminários e debates em meio universitário, na comunicação social, em meios artísticos e culturais, com grupos políticos e movimentos sociais) tenho-me apercebido da transformação da condição de suspensão pessoal e social causada pela pandemia, uma condição que vai criando estados de espírito específicos, alguns dos quais se cristalizam enquanto outros se desvanecem. A transformação pode resumir-se assim: da pausa/suspensão à intermitência, da intermitência à bifurcação entre resistência ou desistência, com um longo período de hesitação na encruzilhada da bifurcação. Esta transformação é epocal e reside existencialmente no modo como a pandemia exterior se vai metamorfoseando em pandemia interior. As camadas mais jovens estão talvez a viver com mais intensidade esta transformação. A acédia – vivida de múltiplas maneiras – é a expressão da dificuldade desta transformação. A transformação começa quando subliminarmente se vai insinuando a suspeita de que a pausa, mais que um momento de interrupção, pode ser o sinal de um novo estado e de uma nova permanência, a permanência da intermitência. Os imponderáveis e as incertezas aumentam assim exponencialmente. Se a tarefa ou o plano não estão apenas interrompidos, significa que talvez não possam ser concluídos e, consequentemente, terão de ser abandonados. E se assim for, o menu é vasto: reavalia-se e desvaloriza-se a tarefa ou o plano específico (síndrome dos sour grapes, o estão verdes, em bom português), recusa-se o abandono, aceita-se, esquece-se ou substitui-se por outras tarefas e planos menos sensíveis às variações da intermitência, pondera-se a resignação, opta-se pela revolta e pelo inconformismo perante a situação, mas sem alternativas e com possíveis transferências para gratificações-à-mão. O que resulta de múltiplas trocas e debates é uma outra suspensão, a mais difícil de todas: os jovens não sabem o que escolher perante tão vasto menu. Nisso reside a causa próxima da acédia deste começo de século.

Não sou psicólogo nem psiquiatra e por isso não me aventuro sobre a avaliação da acédia enquanto condição mental. Tão pouco sou teólogo para poder avaliar se a acédia é um pecado (como já foi) e que tipo de pecado. Não tenho, pois, de me ocupar da possível cura individual ou, muito menos, da absolvição. Enquanto sociólogo, penso que nem a psicologia nem a psiquiatria ajudarão os mais jovens (talvez ajudem os mais velhos) a negociar as transformações em curso com menos custos pessoais e com eventuais ganhos sociais. E se a acédia fosse o sinal de uma oportunidade social nova? É uma questão para o futuro. Intermitente?

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Margarida David Cardoso: “É muito perverso fechar conteúdos”


Esta semana, partilhamos contigo a conversa que tivemos com a Margarida David Cardoso, jornalista no Fumaça. Esta entrevista, conduzida no dia 16 de abril de 2021, foi uma das que fizemos aquando da investigação que deu corpo à última edição da Revista Gerador (maio) para explorar a problemática do jornalismo lento.

Margarida David Cardoso é da Lixa e estudou no Porto, encontrando-se, hoje, a trabalhar em Lisboa. O Jornal Universitário do Porto foi a primeira redação em que encontrou, tornando-se, mais tarde, editora de cultura e, posteriormente, codiretora. Licenciada em Ciências da Comunicação, trabalhou durante dois anos e meio no Público, nas secções de Local e Sociedade. Depois desta experiência, encontrou o Fumaça que lhe permitiu fazer aquilo em que sempre acreditou: “que só com tempo se encontram outras vozes, se reduz a inevitabilidade de cometermos erros, se aprende a olhar para onde ninguém parece estar a olhar. Acredito que só com tempo, profundidade e diálogo o jornalismo se aproxima de algo verdadeiramente livre”, explica no site do Fumaça.

O Fumaça é um órgão de comunicação social que se afirma como independente, progressista e dissidente, apostando no jornalismo de investigação em áudio, feito com profundidade e tempo para pensar. No seu site, podemos aceder a variadas investigações como são exemplo as sériesPalestina, histórias de um país ocupado”, “A Serpente, o Leão e o Caçador” ou “Segurança Privada: Exército de Precários”. É ainda possível encontrar várias entrevistas como “Rafaela Granja: ‘A prisão empobrece reclusos e familiares’” e reportagens como “A Resistência: quarentena na rua”.

Esta é a sexta entrevista da nova rubrica Entrevistas com Jornalistas, que o Gerador irá continuar a lançar ao longo das próximas semanas e que se irá debruçar sobre os grandes desafios que a profissão continua a enfrentar.