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quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Serão as agências de classificação do carbono a chave para evitar o greenwashing?


Com a União Europeia a retomar a utilização de créditos de carbono como um mecanismo para ajudar as indústrias e empresas europeias a compensar as suas emissões de gases com efeito de estufa, a Euronews falou com Sebastien Cross, cofundador e diretor de inovação da agência de classificação de carbono BeZero Carbon, sediada em Londres.

Fundada em 2020, a agência tem como principal função avaliar os créditos de carbono e analisar a probabilidade de estes compensarem uma tonelada de carbono, um método análogo à forma como as agências de notação financeira avaliam a probabilidade de incumprimento de obrigações e instrumentos financeiros.

"O que fazemos como agência de notação é avaliar os créditos", disse Cross. "Não fornecemos as metodologias, não acreditamos. Analisamos os créditos e dizemos qual é a probabilidade de estes créditos refletirem efetivamente uma tonelada de carbono emitida, o que todos eles são rotulados como fazendo".

O mercado de carbono da UE27, o Regime de Comércio de Licenças de Emissão (CELE) permite às empresas europeias comprar e vender licenças para cobrir as suas emissões. Até 2020, o bloco utilizou créditos de carbono, então conhecidos como créditos do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que permitiam às nações mais ricas ganhar créditos investindo em projetos sustentáveis nos países em desenvolvimento.

A utilização dos MDL foi abandonada na sequência de acusações de "greenwashing", de crédito excessivo e de desvio dos esforços genuínos de redução das emissões a nível interno. No entanto, com o advento da lei da UE relativa ao objetivo climático para 2040, que visa reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em 90%, o bloco está novamente a considerar a utilização de créditos de carbono internacionais para reduzir 5% das suas emissões.

Mercados de carbono em maturação
O cofundador da agência BeZero afirmou que os governos que utilizam classificações estão a procurar ajuda para avaliar a credibilidade dos créditos que estão a adquirir ao abrigo do artigo 6.

"Vimos o interesse dos governos em usar as classificações como uma ferramenta enquanto procuram projetar como desejam usar os créditos de carbono em seus sistemas de conformidade", disse ele. "Obviamente, as discussões na UE são muito interessantes nessa perspetiva".

Cross observou que muita coisa mudou nos últimos cinco anos, incluindo a mentalidade sobre o risco e o desempenho real dos créditos de carbono.

"A agência de notação está a fornecer aos compradores e investidores uma medida de risco que lhes permite compreender a dinâmica subjacente real", afirmou, referindo que há cinco anos os mercados de carbono não tinham qualquer métrica de risco associada.

Cross afirmou que os mercados de carbono estão a tornar-se mais maduros, o que considerou um desenvolvimento positivo, dada a crescente atenção política aos créditos de carbono e ao seu papel na descarbonização.

A UE, o Brasil, a China, a França, a Alemanha e o Reino Unido, entre outros, aprovaram recentemente um compromisso global para os mercados de carbono, à margem da cimeira sobre o clima COP30. Esta iniciativa assinala uma ampla intenção de desenvolver mecanismos de fixação de preços do carbono e um mercado mundial do carbono.

Os créditos de carbono são emitidos em dois sistemas distintos: o mercado de cumprimento e o mercado voluntário.

Os governos gerem o mercado de conformidade, no qual certas empresas têm de comprar licenças oficiais que lhes permitem libertar uma determinada quantidade de CO2 ao abrigo de leis e limites rigorosos.

O mercado voluntário, por sua vez, permite às empresas comprar créditos de projetos ambientais, como a proteção das florestas ou a energia limpa, para reduzir a sua pegada de carbono.

No entanto, como explicou Cross, com a UE aberta a incluir os créditos de carbono como instrumento de descarbonização e a integrar o artigo 6.º do Acordo de Paris nos seus objetivos, será a UE ou os Estados-membros a fixarem o preço dos créditos.

"Precisamos de preços de carbono mais elevados para manter o incentivo à descarbonização", afirmou Cross. "E a preocupação é que, se os créditos forem permitidos no estrangeiro, o preço do carbono é reduzido, o que não incentiva as empresas a investir nas coisas necessárias para descarbonizar a nível nacional".

Também partilhou preocupações sobre as implicações da integração de créditos de carbono no CELE, uma vez que a UE27 está atualmente a ponderar a inclusão de remoções permanentes de carbono no seu âmbito.

"Existe um risco percetível de que isso reduza o preço do CELE, uma vez que os créditos serão mais baratos", disse Cross.

O problema da validação
Num sistema de crédito de carbono, os países ou empresas que emitem mais gases com efeito de estufa têm de comprar mais licenças de crédito. Caso emitam menos emissões, podem vendê-las, criando assim um sistema de comércio de licenças.

"O crédito de carbono considera uma atividade, ou melhor, uma intervenção, que está a reduzir ou a remover carbono e tenta creditar o carbono que foi reduzido ou removido", explicou Cross.

Estas intervenções podem ser baseadas na natureza, como a florestação e a proteção de mangais e turfeiras, ou não baseadas na natureza, como a utilização de tecnologias de captura e armazenamento de carbono.

"No que respeita às intervenções não baseadas na natureza, temos tido historicamente muitos créditos de energias renováveis. Se os créditos se referem ao facto de a energia marginal que produzimos ser proveniente de energias renováveis e não da rede, estamos a reduzir a intensidade de carbono", afirmou Cross.

Sempre que os créditos de carbono são emitidos, as empresas que os utilizam são obrigadas a tornar pública uma determinada quantidade de informação.

"Quando analisamos projetos emitidos, podemos começar com a informação disponível ao público. Depois, contactamos o promotor ou o proprietário do projeto se algumas informações não forem claras, precisarem de ser clarificadas ou estiverem em falta", explicou Cross.

"O papel da agência de notação é fornecer o máximo de informação e dados que pudermos para questionar a exatidão desses números. E isso reflete-se depois na nossa classificação principal".

Desempenho dos créditos de carbono
Cross disse à Euronews que existe uma variação considerável entre a eficácia dos diferentes créditos de carbono e que avaliar o seu verdadeiro desempenho é muitas vezes impossível.

"Não se pode observar exatamente o que estão a conseguir porque existem fatores como as linhas de base contrafactuais, em que não se pode observar, apenas se tenta estimar", disse. "Nunca há dados perfeitos por trás do número de créditos que são emitidos".

No caso da captura direta de dióxido de carbono da atmosfera, por exemplo, existe muita informação disponível para avaliação, porque os sistemas tecnológicos determinarão a quantidade de carbono que está a ser separada de outros componentes do ar e transportada. No entanto, ainda é necessário determinar um valor de referência para avaliar o impacto que estes esforços estão realmente a ter.

"É a parte mais controversa de um projeto de crédito de carbono - tentar perceber o que teria acontecido se o projeto não fosse para a frente - porque é isso que é preciso creditar entre essas duas linhas", disse Cross.

Esta é uma das razões pelas quais a UE teve dificuldades com a integração do MDL, explicou, porque vários projectos alegaram falsamente que estavam a fazer algo que levaria a evitar um certo número de emissões.

"A principal diferença agora é a disponibilidade de ferramentas como as nossas, que permitem compreender realmente o que está a ser alcançado ao nível do projeto", acrescentou, referindo-se a imagens de satélite e tecnologias mais avançadas do que qualquer outra disponível anteriormente.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Como funciona o Sistema de Comércio de Emissões nos Transportes?


Para incentivar as indústrias poluentes a reduzir as suas emissões, os governos fixam um limite ao nível máximo de emissões que um setor é autorizado a emitir. O limite é reduzido ao longo do tempo para que o total de emissões caia. Os governos criam licenças para cada unidade de emissão. As empresas devem obter e ceder uma licença para as suas emissões. Podem obter licenças do governo ou através do comércio com outras empresas. Para as empresas que são demasiado poluentes em comparação com os concorrentes, torna-se demasiado caro comprar licenças e a empresa terá de reduzir as emissões. Por outras palavras, a emissão tem um preço. O comércio de emissões é um instrumento-chave utilizado pelos governos para reduzir as emissões - inclusive no setor dos transportes. Na Europa, os três principais modos de transporte em causa são os automóveis, aviões e navios.

Nos automóveis
Na UE, o ETS está em vigor desde 2005 para setores intensivos em energia como a energia, siderurgia, cimento, químicos e muito mais. Mas a mais recente adição à lista são os automóveis e o aquecimento. Desta vez não são as empresas, mas aqueles que conduzem veículos poluentes e utilizam caldeiras a gás que irão pagar pela sua poluição. Para evitar o pesadelo logístico de rastrear a poluição de automóveis e caldeiras individuais, os intermediários, como empresas que vendem combustível para automóveis e aquecimento, são obrigados a demonstrar o cumprimento da regulamentação, entregando as licenças de poluição. Em última análise, o consumidor final cobre o custo. As famílias mais ricas, que conduzem e consomem mais para aquecimento e arrefecimento, acabam por pagar mais. Mas as famílias de baixos rendimentos arriscam-se a gastar uma parte maior do seu rendimento em energia, restando pouco para mudar para alternativas limpas. É por isso que os governos da UE introduziram simultaneamente o Fundo Social Climático para canalizar fundos (gerados pela venda de licenças de emissão de carbono) para as famílias mais vulneráveis. Isto ajudará as famílias de baixos rendimentos a aceder a transportes públicos acessíveis, aparelhos de aquecimento e arrefecimento sustentáveis e a isolar adequadamente as suas casas.

Nos aviões
O ETS para a aviação existe desde 2012 - mas apenas afetou os voos dentro do espaço económico europeu. Em dezembro, os negociadores tiveram de decidir se isto seria alargado aos voos de longo curso - que representam 58% das emissões de CO2 da aviação na Europa. Mas isto falhou e a dimensão do ETS está condenada a permanecer a mesma. Isto faz da aviação internacional um dos setores da economia da UE que não está sujeito a um limite de emissões ou a um preço. Como o preço do carbono da aviação é transferido para os passageiros, as famílias europeias médias que viajam dentro da Europa para as suas férias anuais continuarão a pagar muito mais pelas suas emissões de CO2 do que os passageiros frequentes de longo curso. Apesar disso, as companhias aéreas ainda encontraram motivos para protestos. O acordo prevê a eliminação gradual das licenças gratuitas - um fim às licenças gratuitas de poluição, das quais as companhias aéreas têm beneficiado durante anos.

Nos navios
Até agora, não havia mercado de carbono para o transporte marítimo. A situação alterou-se imenso nos últimos dias de 2022. A partir de 2024, as companhias de navegação serão obrigadas a pagar pelas emissões tanto de viagens domésticas como internacionais de e para a UE. Embora o sistema abranja inicialmente apenas o CO2, as emissões de metano serão rapidamente introduzidas no sistema nos anos seguintes. Ao contrário de qualquer outro setor, as companhias de navegação não terão licenças de poluição gratuitas. Embora seja pouco provável que as taxas de poluição ao abrigo do ETS façam a ponte entre os preços dos combustíveis fósseis marinhos e as alternativas verdes, o sistema continuará a gerar quantidades substanciais de receitas que a UE e os estados membros poderão reinvestir em tecnologias verdes para navios, tais como os combustíveis à base de hidrogénio.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Sexta extinção em massa já começou e foi engatilhada por atitudes humanas

Peixes mortos no maior lago Ho Tay de Hanói em 3 de outubro de 2016

Um artigo publicado na Biological Reviews, Janeiro de 2022, alerta para a possibilidade de que a sexta extinção em massa já tenha começado. Analisando dados de crustáceos e outros invertebrados, os cientistas afirmam que não é possível encarar a extinção em massa com ceticismo.

Os pesquisadores catalogaram a extinção de diversas espécies de moluscos, incluindo caracóis, lesmas e mexilhões. O foco nesses invertebrados entra em conflito com a informação recolhida pela lista vermelha de espécies ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).

Estudos anteriores usaram dados da UICN para refutar a noção de que estamos a entrar numa sexta extinção em massa. Robert Cowie e os seus colegas refutaram esta suposição compilando as taxas de extinção de caracóis terrestres e lesmas. O estudo comprovou que, desde 1500, é estimado que 7,5% a 13% de vertebrados tenham sido extintos. Esse nível de extinção é considerado catastrófico, e é maior do que já foi visto no passado.

De acordo com os pesquisadores envolvidos na pesquisa, a UICN não tem dados da maioria dos invertebrados, que constituem cerca de 95% da biodiversidade terrestre.

A mudança e ameaças à biodiversidade terrestre, de acordo com o artigo, foi impulsionada pela ação humana sob essas espécies.

Anteriormente, o planeta já passou por cinco extinções em massa. Porém, nenhuma tinha sido categorizada pelas mãos humanas. As extinções em massa são categorizadas como catástrofes naturais que têm a capacidade de eliminar cerca de 75% de espécies em pouco tempo. Agora, com os avanços da tecnologia que possibilitam a exploração do meio ambiente, os resultados são ainda mais catastróficos.

Embora os resultados da pesquisa indiquem que a extinção é pior em terra do que no mar, as espécies marinhas também estão sendo ameaçadas pela ação humana. É possível, também, que a extinção em ecossistemas de ilhas aconteça mais rapidamente.

Além de alertar sobre uma possível extinção em massa, Cowie e os seus colegas abordam uma série de contra-argumentos que, segundo eles, minimizam a gravidade das pressões humanas sobre as espécies do mundo, ou até mesmo sugerem que os humanos deveriam aproveitar essas mudanças ecológicas para nosso próprio benefício.

A equipa de pesquisadores não vê os resultados como reversíveis, ou que a extinção em massa possa ser evitada. Ela já começou e não há muito o que fazer, porém agir despreocupadamente em frente ao colapso da biodiversidade ainda é errado.

Uma das soluções analisadas é a de reunir e preservar a maior quantidade possível de espécies em centros de reprodução, antes que elas sejam perdidas para sempre.

Referências

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Brasil foi considerado o país mais perigoso para ativistas ambientais nos últimos 10 anos


O Brasil foi o país mais perigoso do mundo para os ativistas ambientais e de defesa da terra durante a última década, sublinha o relatório anual da organização não governamental Global Witness.

Pelo menos 1733 ativistas foram mortos em todo o mundo entre 2012 e 2021, o que representa, em média, um homicídio a cada dois dias, com o Brasil a registar o número mais elevado, indicou o relatório divulgado na quarta-feira. 200 deles foram mortos só no ano passado, sendo que mais de dois terços dos assassínios ocorreram na América Latina.

O México registou 54 assassínios de ativistas no ano passado, mais 24 do que em 2020, no terceiro ano consecutivo em que o número de mortos aumentou. No Brasil foram identificados 26 assassínios, mais do que no ano anterior. Colômbia (33) e Nicarágua também registaram mais de dez ativistas mortos.

Já este ano, em junho, o jornalista britânico do jornal “The Guardian”, Dom Phillips, de 57 anos, e o ativista indígena brasileiro Bruno Pereira, de 41, foram alegadamente assassinados na região remota ocidental da floresta amazónica do Brasil.

“Há uma pressão crescente sobre os recursos naturais em todo o mundo e essa batalha está a desenrolar-se particularmente na Amazónia brasileira”, disse uma investigadora da Global Witness.

Segundo a televisão britânica BBC, Shruti Suresh sublinhou que 85% dos assassínios de ativistas no Brasil ocorreram na Amazónia.

“Trata-se de desigualdade de terras, em que os defensores estão a lutar pelas suas terras e nesta crescente corrida para obter mais terras para adquirir e explorar recursos, as vítimas são as comunidades indígenas, as comunidades locais, cujas vozes estão a ser suprimidas”, alertou.

“A maioria dos crimes acontece em lugares distantes do poder e são infligidos àqueles com menos poder”, sublinhou o relatório.

A Global Witness reconheceu que os dados “provavelmente serão subestimados, uma vez que muitos assassínios não são relatados, principalmente em áreas rurais e em determinados países”.

Os conflitos relacionados com a disputas de terra e a exploração de recursos mineiros causaram 27 mortos em todo o mundo, o maior número para qualquer setor. Quinze dos assassínios ocorreram no México.

A Global Witness pediu aos governos que apliquem leis que protejam os ativistas e exijam a aprovação das comunidades indígenas, além de exigir que as empresas sejam responsáveis por todas as suas operações mundiais e tenham uma política de tolerância zero para ataques contra os defensores da terra.

“Ativistas e comunidades desempenham um papel crucial como primeira linha de defesa contra o colapso ecológico, além de serem pioneiros na campanha para o evitar”, disse o diretor executivo da Global Witness, Mike Davis, no relatório.

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sábado, 21 de janeiro de 2023

Revelado: mais de 90% das compensações de carbono da floresta tropical pelo maior fornecedor são inúteis, mostra a análise

Uma investigação ao Verra, o principal padrão mundial de carbono para o mercado de compensações voluntárias de 2 mil milhões de dólares, descobriu que, com base na análise de uma percentagem significativa dos projetos, mais de 90% dos seus créditos de compensação de florestas tropicais - entre os mais utilizados pelas empresas - são provavelmente "créditos fantasma" e não representam verdadeiras reduções de carbono. Segundo os estudos, apenas alguns dos projetos de Verra relativos à floresta tropical mostraram provas de reduções da desflorestação, com análises adicionais que indicam que 94% dos créditos não tiveram qualquer benefício para o clima. A ameaça às florestas tinha sido sobrestimada em cerca de 400% em média para os projetos de Verra, segundo a análise de um estudo da Universidade de Cambridge de 2022. Gucci, Salesforce, BHP, Shell, EasyJet, Leon e a banda Pearl Jam estavam entre dezenas de empresas e organizações que compraram compensações de floresta tropical aprovadas por Verra para garantias ambientais.

Olivillo (Aextoxicon punctatum) forest in the Valdivian Coastal Reserve 

As compensações de carbono florestal aprovadas pelo principal fornecedor mundial e usadas pela Disney, Shell, Gucci e outras grandes corporações são em grande parte inúteis e podem piorar o aquecimento global, de acordo com uma nova investigação.

A pesquisa sobre o Verra, o principal padrão de carbono do mundo para o mercado de compensações voluntárias de $ 2 biliões (£ 1,6 bilião) , descobriu que, com base na análise de uma porcentagem significativa dos projetos, mais de 90% de seus créditos de compensação de florestas tropicais - entre os mais comumente usados ​​pelas empresas – provavelmente são “créditos fantasmas” e não representam reduções genuínas de carbono.

A análise levanta dúvidas sobre os créditos comprados por várias empresas de renome internacional – algumas delas rotularam seus produtos como “neutros em carbono” ou disseram a seus consumidores que podem voar, comprar roupas novas ou comer certos alimentos sem piorar a crise climática .

Mas dúvidas foram levantadas repetidamente sobre se eles são realmente eficazes.

A investigação de nove meses foi realizada pelo Guardian, o semanário alemão Die Zeit e SourceMaterial , uma organização de jornalismo investigativo sem fins lucrativos. Baseia-se numa nova análise de estudos científicos dos esquemas de floresta tropical de Verra.

Também se baseou em dezenas de entrevistas e relatórios de campo com cientistas, membros da indústria e comunidades indígenas. As descobertas – que foram fortemente contestadas por Verra – provavelmente colocarão sérias questões para as empresas que dependem de compensações como parte de suas estratégias líquidas zero.

A Verra, com sede em Washington DC, opera vários padrões ambientais líderes para ação climática e desenvolvimento sustentável, incluindo seu padrão de carbono verificado (VCS), que emitiu mais de 1 bilhão de créditos de carbono. Aprova três quartos de todas as compensações voluntárias. Seu programa de proteção às florestas tropicais representa 40% dos créditos que aprova e foi lançado antes do acordo de Paris com o objetivo de gerar receita para proteger os ecossistemas.

Verra argumenta que as conclusões dos estudos estão incorretas e questiona sua metodologia. E destacam que seu trabalho desde 2009 permitiu que bilhões de dólares fossem canalizados para o trabalho vital de preservação das florestas.

A investigação constatou que:
Apenas um punhado de projetos de floresta tropical de Verra mostrou evidências de reduções de desmatamento, de acordo com dois estudos, com uma análise mais aprofundada indicando que 94% dos créditos não tiveram nenhum benefício para o clima.

A ameaça às florestas foi superestimada em cerca de 400%, em média, para os projetos Verra, de acordo com a análise de um estudo de 2022 da Universidade de Cambridge.

Gucci, Salesforce, BHP, Shell , easyJet, Leon e a banda Pearl Jam estavam entre dezenas de empresas e organizações que compraram compensações de florestas tropicais aprovadas pela Verra para reivindicações ambientais.

Questões de direitos humanos são uma preocupação séria em pelo menos um dos projetos de compensação. O Guardian visitou um projeto emblemático no Peru e viu vídeos que os moradores disseram mostrar suas casas sendo cortadas com motosserras e cordas por guardas do parque e policiais. Eles falaram sobre despejos forçados e tensões com as autoridades do parque.

A análise: “É decepcionante e assustador”
Para avaliar os créditos, uma equipe de jornalistas analisou as conclusões de três estudos científicos que usaram imagens de satélite para verificar os resultados de vários projetos de compensação florestal, conhecidos como esquemas Redd+ . Embora vários estudos tenham analisado as compensações, esses são os únicos três que tentaram aplicar métodos científicos rigorosos para medir o desmatamento evitado.

As organizações que estabelecem e executam esses projetos produzem suas próprias previsões de quanto desmatamento vão parar, usando as regras de Verra. As previsões são avaliadas por um terceiro aprovado pela Verra e, se aceitas, são usadas para gerar os créditos que as empresas podem comprar e usar para compensar suas próprias emissões de carbono.

Por exemplo, se uma organização estima que seu projeto interromperá 100 hectares (247 acres) de desmatamento, ela pode usar uma fórmula aprovada pela Verra para converter isso em 40.000 CO 2 e (dióxido de carbono equivalente) de emissões de carbono economizadas em uma floresta tropical densa se não houver desmatamento, embora a fórmula varie de acordo com o habitat e outros fatores. Essas emissões economizadas podem então ser compradas por uma empresa e aplicadas em suas próprias metas de redução de carbono.

Dois grupos diferentes de cientistas – um baseado internacionalmente, o outro de Cambridge, no Reino Unido – analisaram um total de cerca de dois terços dos 87 projetos ativos aprovados pela Verra . Vários foram deixados de fora pelos pesquisadores quando sentiram que não havia informações suficientes disponíveis para avaliá-los de forma justa.

Os dois estudos do grupo internacional de pesquisadores encontraram apenas oito dos 29 projetos aprovados pela Verra, onde uma análise mais aprofundada foi possível, mostraram evidências de reduções significativas do desmatamento.

Os jornalistas puderam fazer uma análise mais aprofundada desses projetos, comparando as estimativas feitas pelos projetos de compensação com os resultados obtidos pelos cientistas. A análise indicou que cerca de 94% dos créditos produzidos pelos projetos não deveriam ter sido aprovados.

Os créditos de 21 projetos não tiveram nenhum benefício climático, sete tiveram entre 98% e 52% menos do que o reivindicado usando o sistema de Verra e um teve 80% a mais de impacto, segundo a investigação.

Separadamente, o estudo da equipa da Universidade de Cambridge de 40 projetos Verra descobriu que, embora alguns tenham interrompido o desmatamento, as áreas eram extremamente pequenas. Apenas quatro projetos foram responsáveis ​​por três quartos do total de florestas protegidas.

Os jornalistas novamente analisaram esses resultados mais de perto e descobriram que, em 32 projetos onde foi possível comparar as alegações de Verra com as descobertas do estudo, os cenários de linha de base de perda florestal pareciam ser exagerados em cerca de 400%. Três projetos em Madagascar alcançaram excelentes resultados e tiveram um impacto significativo nos números. Se esses projetos não forem incluídos, a inflação média é de cerca de 950%.

Os estudos usaram diferentes métodos e períodos de tempo, analisaram diferentes gamas de projetos, e os pesquisadores disseram que nenhuma abordagem de modelagem é perfeita, reconhecendo as limitações de cada estudo. No entanto, os dados mostraram amplo consenso sobre a falta de eficácia dos projetos em comparação com as previsões aprovadas pela Verra.


No entanto, Verra contestou veementemente as conclusões dos estudos sobre seus projetos florestais e disse que os métodos usados ​​pelos cientistas não conseguem captar o verdadeiro impacto no solo, o que explica a diferença entre os créditos que aprova e as reduções de emissões estimadas pelos cientistas.

O padrão de carbono disse que seus projetos enfrentaram ameaças locais únicas que uma abordagem padronizada não pode medir, e trabalha com os principais especialistas para atualizar continuamente suas metodologias e garantir que reflitam o consenso científico. Encurtou o período de tempo em que os projetos devem atualizar as ameaças que enfrentam para capturar melhor os fatores imprevistos, como a eleição de Jair Bolsonaro no Brasil. A Verra disse que já utilizou alguns dos métodos implantados pelos pesquisadores em seus próprios padrões, mas não acredita que sejam adequados para esse tipo de projeto.

Robin Rix, Diretor Jurídico, Política e Mercados da Verra, disse ao Guardian: “É absolutamente incorreto dizer que 90% dos créditos REDD+ certificados pela Verra são inúteis. O artigo baseia essa falsa afirmação em extrapolações de três relatórios de dois grupos diferentes, que avaliaram um pequeno número de projetos usando suas próprias metodologias. Publicaremos nossa própria avaliação completa em breve.

“As principais críticas às metodologias de REDD+ de Verra citadas no artigo já foram abordadas por uma revisão em andamento desde 2021. As múltiplas metodologias utilizadas atualmente para evitar projetos de desmatamento não planejado estão sendo consolidadas e uma abordagem de alocação jurisdicional está sendo adotada. Enquanto isso, as linhas de base do projeto agora são reavaliadas a cada seis anos, em vez de dez.

“A Verra certificou mais de 1.500 projetos de carbono, que foram avaliados dezenas de milhares de vezes por auditores terceirizados. Eles entregaram bilhões de dólares para áreas rurais no sul global, em apoio à ação contra a mudança climática e a perda de biodiversidade. Este nível de financiamento foi alcançado devido a fortes padrões e metodologias, que continuaremos a fortalecer, em cooperação com governos, cientistas e comunidades locais em todo o mundo.”

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

S.O.S. - Declare a Climate Emergency!


Fossil fuel producers must be forced to ‘take back’ carbon, say scientists [The Guardian]

Fossil fuel companies should be forced to “take back” the carbon dioxide emitted from their products, handing them direct responsibility for cleaning up the climate, a group of scientists has argued.

The principle that the producer of pollution should pay for its clean-up is established around the world, but has never been applied to the climate crisis.

Yet technology to capture and store carbon dioxide underground is advancing, and is now technically feasible, according to Myles Allen, a professor of geosystems science at the University of Oxford.

“The technology exists – what has always been lacking is effective policy,” he said. “The failure has been policy, not technology – we know how to do this.”

The companies that profit from extracting fossil fuels – oil, gas and coal producers around the world – should be paying for an equivalent quantity of carbon dioxide to be stored geologically as a condition of being allowed to operate, he argued.

Allen is a co-author, along with four other scientists from Oxford, the US and the Netherlands, of a paper published on Thursday in the journal Environmental Research Letters that sets out how such an “extended producer responsibility” could work.

Under a “carbon takeback obligation”, all fossil fuels extracted or imported into a nation or group of nations would be offset by storing underground an amount of carbon dioxide equivalent to that generated by that fuel. Phased in over time, it could be used to store 100% of emissions by 2050, to help the world reach net zero.

Unlike a carbon tax, which discourages the use of fossil fuels by making them more expensive, the authors of the paper argued that such a system would ensure the effect on the climate was neutralised, and the cost of doing so would be part of the cost of fossil fuel production.

Although carbon capture and storage technology is expensive at present, within a few decades it is likely to come down sharply in price, according to the paper.

This would enable the storage of carbon dioxide in the “geosphere” – underground – rather than the biosphere, in the form of forests and vegetation, which stores carbon but is under pressure as so much land is needed for growing food around the world.

“If you generate too much carbon dioxide, you are going to have to put it somewhere, and you can’t rely on the biosphere to ramp up, as you need the biosphere for food production. So it’s going to have to go back in the ground,” said Allen. “This is a focused policy that will deliver the outcomes we need.”

The group pointed out that the Intergovernmental Panel on Climate Change, the body of the world’s leading climate scientists, has made clear that limiting global temperatures to 1.5C above pre-industrial levels, which is necessary to avoid the worst ravages of climate breakdown, is likely to require the removal of carbon dioxide from the atmosphere as well as the phasing out fossil fuels and the rapid deployment of renewable energy.

Allen’s previous attempt to turn the idea into policy failed in 2015, however, when the former chief of Shell, Lord Oxburgh, introduced an amendment to an energy bill in the House of Lords. Though it nominally had the support of government and opposition, the proposal fell owing to parliamentary procedures and was not revived.

Carbon takebacks could work alongside carbon border taxes, or carbon border adjustment mechanisms (CBAM), by penalising or preventing imports from countries that do not impose some form of carbon reduction obligation on their industries.

Hugh Helferty, a retired corporate strategic research manager at ExxonMobil, and co-author of the paper, said the cost of carbon removal must be borne somehow if the 1.5C target were to be kept.

“Who pays?” he asked. “Should it be the taxpayer, or producer, or the producer and consumer together? It makes sense that the producer and user should pay, rather than the taxpayer. That puts the drive to reduce emissions in the right place.”

Several other scientists, who were not involved with the paper, applauded the idea.

Dr Hannah Chalmers, a reader in sustainable energy systems at the University of Edinburgh, said: “Introducing an extended producer responsibility for fossil fuels would be a gamechanger in successfully responding to the challenge of delivering affordable, low-carbon energy.

“Geological storage of carbon dioxide is likely to play an important role in reaching net zero emissions by 2050.

“Implementing a CTBO [carbon takeback obligation] in key regions would ensure that sufficient funding is available for scaling up geological storage of carbon dioxide at the right scale to meet global climate policy goals.

“The CTBO also ensures that the right organisations are responsible for financing deployment of geological storage of carbon dioxide.”

Paul Ekins, a professor of resources and environmental policy at University College London, said: “There is an urgent need for radical new CO2 emission reduction policies. [This proposal] provides a means to get built the substantial carbon capture and storage infrastructure that nearly all models say will be needed if the 1.5C target is to be met.

The [UN climate] meetings need urgently to start discussing such measures before the target gets irrevocably out of reach.”

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Webinar do projecto Proteína Verde - Plantar a Alimentação do Futuro


Assiste ao vídeo para descobrir mais sobre o impacto da alimentação, associada à indústria da pecuária intensiva, nos domínios ambiental, ecológica e social, da pegada ecológica em Portugal, dos benefícios nutricionais das leguminosas, de um possível cenário de transição para proteína vegetal, da política agrícola em Portugal e na Europa, entre outros temas.


5 Organizações apelam ao Governo português pela mudança urgente no sistema alimentar

Após o lançamento do primeiro relatório “Proteína Verde: Plantar a Alimentação do Futuro”, em julho deste ano, o movimento Proteína Verde apresenta agora uma segunda publicação, desta vez especialmente dirigida aos decisores políticos: o Plano Nacional de Incentivo à Produção e Consumo de Proteínas Vegetais, disponível aqui, no site da iniciativa.

Este documento, que resulta de uma colaboração entre Associação Vegetariana Portuguesa (AVP), associação ambiental ZERO, Greenpeace, GEOTA e Associação Portuguesa de Educação Ambiental (ASPEA), argumenta a favor da implementação de 15 medidas políticas pela transição alimentar sustentável e ecológica, essencialmente assente em proteína de base vegetal.

“A urgência em combater a ineficiência do sistema alimentar é de tal ordem que estas organizações uniram forças para mostrar que é preciso alterar o rumo do que produzimos e do que comemos, como forma de evitar o suicídio ambiental e climático, mas também económico”, refere Joana Oliveira, que integra a Associação Vegetariana Portuguesa e a equipa de coordenação e desenvolvimento da iniciativa Proteína Verde.

“Numa época de grandes instabilidades sociais e ambientais, e em que todos os esforços de reequilíbrio são imperativos, a ASPEA (Associação Portuguesa de Educação Ambiental) apoia fortemente iniciativas como esta, que atuam tanto ao nível da saúde humana, como ao nível da saúde planetária. É uma proposta que pretende contribuir para a mitigação de vários problemas ambientais, como as alterações climáticas, e em que todos podem contribuir.”, afirma Anabela Pereira, gestora de projetos da ASPEA.



No Plano Nacional de Incentivo à Produção e Consumo de Proteínas Vegetais, os atores políticos são desafiados a criar condições que permitam a mudança positiva na produção e no consumo alimentares em Portugal, propondo-se 15 soluções concretas que aumentam a abrangência do compromisso climático português para incluir o sistema alimentar, “considerando-se o enorme ónus ambiental que este representa, particularmente em Portugal e no que diz respeito à pecuária intensiva”, defende Nuno Alvim, presidente da Associação Vegetariana Portuguesa.

“Dentro dos grandes contribuintes para a problemática, surge a agricultura intensiva e em particular o sector pecuário intensivo, que representa um impacto particularmente negativo no sistema climático, nos ecossistemas, na manutenção da biodiversidade e na saúde humana”, afirma Pedro Ribeiro, gestor de ação política no projeto Proteína Verde.

“É tempo de alterarmos hábitos e consumos para uma vida mais saudável e mais em harmonia com o planeta. As mudanças na alimentação devem ter por base uma dieta adequada, com base em leguminosas e legumes, que é mais saudável e económica, e que fornece as proteínas necessárias à nossa alimentação, para além da sua produção ser mais sustentável do que a produção de proteínas animais”.Patrícia Tavares, da Comissão Executiva do GEOTA.



Uma mudança geral na alimentação em direção a um maior consumo de proteínas vegetais terá um efeito considerável na mitigação das alterações climáticas, podendo atingir-se uma redução, no limite, de 8 mil milhões de toneladas de CO2 (equivalente), por ano, até 2050.

15 recomendações políticas para a transição alimentar

Entre as 15 recomendações enunciadas, as organizações propõem a criação de mecanismos que incentivem a conversão dos terrenos atualmente destinados à pecuária intensiva em unidades agrícolas de produção de base vegetal, a capacitação formativa para disponibilização de refeições de base vegetal no setor da restauração pública, a ampliação do apoio associado ao cultivo de leguminosas e a consideração dos impactos ambientais que decorrem da agropecuária nos apoios públicos concedidos.

Registo de visita à Assembleia da República, a 12 de outubro, no âmbito de uma reunião com o Partido Socialista para abordar o Plano Nacional de Incentivo à Produção e Consumo de Proteínas Vegetais e o projeto Proteína Verde.

O projeto Proteína Verde apresenta, igualmente, as suas 15 propostas de atuação em Petição Pública, que foi divulgada no passado dia 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, e está disponível para subscrição aqui.

Segundo este plano nacional conjunto de várias ONGs, existe a necessidade de melhorar a atual estratégia climática do Governo, recomendando-se o direcionamento dos mecanismos específicos do Fundo Ambiental para um maior desenvolvimento de políticas que envolvam a sustentabilidade do setor alimentar (a alimentação é o que mais pesa na pegada ecológica dos portugueses) e, deste modo, coloquem Portugal mais próximo da meta de neutralidade carbónica até 2050.

O assassinato não tão suave da estratégia Farm to Fork (do Prado ao Prato), da UE


Fonte: EU Observer, 16.12. 2022 

Quando se trata de política europeia, pode-se dizer que o espírito de George Orwell está em Bruxelas atualmente.

Uma ONG - ou grupo de frente - chamada "Fight Impunity" está no centro de um dos maiores escândalos de corrupção da história do Parlamento Europeu.

Os cientistas repetem que o 'uso intenso de pesticidas químicos na agricultura está fortemente ligado ao declínio de insetos, pássaros, biodiversidade em sistemas terrestres e aquáticos e impactos prejudiciais na saúde pública global' (Foto: Wikipedia)

E na segunda-feira (19 de dezembro) o Conselho Europeu está prestes a matar suavemente a principal parte legislativa da estratégia Farm to Fork e Biodiversidade em nome da segurança alimentar.

Os ministros da UE e seus especialistas estão, na COP15 em Montreal, a negociar um tratado internacional para uma ação ousada para impedir a dramática diminuição da biodiversidade a ser anunciada na segunda-feira.

Mas, no mesmo dia, os seus colegas em Bruxelas concordarão em dar um passo que atrasará e inviabilizará a proposta legislativa mais significativa da Comissão Europeia para proteger a biodiversidade.

O ridículo argumento do Conselho é: "não podemos nos permitir quaisquer políticas destinadas a tornar a produção de alimentos mais sustentável por causa da guerra na Ucrânia".

Mais de 500 cientistas e mais de 200 ONGs estão chamando-os.

Não somos ingénuos e tememos que eles permaneçam surdos e cegos: ou como os ministros europeus estão prestes a escrever sua versão de notícias falsas e aumentar a esquizofrenia da UE.

Então, infelizmente, segunda-feira pode ser o dia terrível em que o lobby agroquímico da Croplife e o lobby do agronegócio de Copa-Cogeca , com a ajuda de seus aliados políticos do Partido Popular Europeu e da presidência checa, conseguirão o que querem e deterão as ambições verdes legais da Farm to Fork Strategy, um pilar essencial do Green Deal apresentado há três anos por Ursula von der Leyen, como o "momento homem na lua" da Europa.

Em junho, o comissário da UE Frans Timmermans apresentou a proposta legislativa europeia, Regulamento de Uso Sustentável , (SUR) para alcançar uma redução de 50% de pesticidas até 2030.

Isso para evitar que o interior da Europa em um futuro próximo se transforme em uma paisagem lunar: a Comissão Européia rotula 60-70 por cento dos solos como "insalubres".

E os cientistas repetem hoje que o "uso intenso de pesticidas químicos na agricultura está fortemente ligado ao declínio de insetos, pássaros, biodiversidade em sistemas terrestres e aquáticos e impactos prejudiciais na saúde pública global".

Eles acrescentam na declaração de hoje que "por essa razão, a redução global do uso de pesticidas é um dos principais pontos de negociação durante a Cúpula da Biodiversidade da ONU (COP15) em Montreal".

Em total contraste com esses fatos, o lobby tóxico para descarrilar as ambições do Farm to Fork - por exemplo, usando estudos científicos parciais e instrumentalizados sobre a produtividade agrícola - conseguiu obter seu pedido de uma avaliação de impacto extra na agenda política logo após o início do Guerra da Ucrânia .

O Conselho Agrícola solicitou uma avaliação de impacto adicional à avaliação minuciosa realizada pela Comissão antes do início da guerra na Ucrânia.

De acordo com os cientistas, "o ganho de conhecimento das adições necessárias à avaliação de impacto completa realizada pela Comissão Europeia (no SUR) é altamente questionável, pois os desafios de longo prazo enfrentados pelo sistema alimentar da UE e o estado da biodiversidade não mudaram desde o início da guerra na Ucrânia".

Ou nas palavras de Timmermans: "Usar a guerra na Ucrânia para diluir propostas e assustar os europeus fazendo-os acreditar que sustentabilidade significa menos comida é, francamente, bastante irresponsável.

"Porque as crises do clima e da biodiversidade estão diante de nós. E todo cidadão europeu está vendo isso diariamente agora, onde quer que você viva. Sejamos também bastante diretos: a ciência é muito clara: é isso que ameaça a segurança alimentar. Isso é o que ameaça nossa segurança alimentar a longo prazo."

O principal signatário e copresidente do Conselho Mundial de Biodiversidade, Josef Settele, disse na semana passada: "Os atuais esforços políticos para abandonar as metas de sustentabilidade do Acordo Verde Europeu, incluindo a redução do uso de pesticidas e a restauração da biodiversidade, não nos protegem de a atual crise alimentar, mas levar a um agravamento e tornar a crise permanente".

De fato, na primavera, o grupo de cientistas publicou a declaração de Potsdam - na qual enfatizava "a necessidade de tomar ações do lado da demanda para preparar o sistema alimentar da UE para o futuro, mitigando assim as pressões sobre a biodiversidade global e sustentando a base por muito tempo -segurança alimentar a prazo".

E a avaliação de impacto extra não parece tão dramática que se poderia pensar. Mas isso causaria tanto atraso que a proposta SUR não será negociada, votada ou implementada antes das eleições de 2024 da UE. E assim estar fora da mesa.

Isso também seria um tapa na cara dos 1,1 milhão de cidadãos da UE que assinaram a recente iniciativa oficial de cidadãos europeus 'Save Bees and Farmers Initiative'

'Período sensível'

Num documento interno descrevendo uma reunião com a DG Agri em 10 de outubro, Pekka Pesonen, chefe da Copa-Cogeca, reclama do fato de que o último discurso sobre o estado da União de von der Leyen "não incluiu nenhuma referência direta à agricultura e/ou comida segura."

Sobre a SUR, a Copa-Cogeca considera "a proposta de metas insustentável e deve ser rejeitada".

Pesonen destaca que o setor passa por um “período muito sensível” de mercado pela incerteza em muitas frentes, como o preço da energia e também de outros insumos como fertilizantes e …a guerra da Ucrânia.

Tudo isso Personen argumenta preocupações sobre a sustentabilidade econômica de alguns negócios. A imposição de novas medidas especialmente no âmbito do SUR é uma grande preocupação para os agricultores, afirma Pesonen, porque "puxará muitos deles para fora do mercado".

Pesonen deve saber que, apesar de centenas e centenas de bilhões de dinheiro dos contribuintes para a PAC, um terço dos agricultores da UE faliram e sua renda média é 30% menor do que a renda média da UE.

Os preços de pesticidas e fertilizantes subiram drasticamente nos últimos 20 anos. O agronegócio dá lucros enormes, os agricultores e a biodiversidade literalmente desaparecem.

Os cientistas escrevem que "é preocupante observar que vários governos de estados membros e deputados do Parlamento Europeu pediram o atraso e/ou atenuação do novo regulamento de pesticidas. Citando questões questionáveis ​​de 'segurança alimentar' e 'resiliência'".

A menos que pelo menos um deles acorde, o Conselho de Energia da UE aprovará na próxima segunda-feira o chamado ponto A em sua agenda, pedindo a avaliação de impacto extra. Parece uma coisa técnica, mas é altamente política e, de alguma forma, pode ser um momento decisivo para o Green Deal da UE.

De acordo com as regras de procedimento do Conselho, seria preciso um ministro corajoso para pedir formalmente que o item fosse retirado da ordem do dia.

Enquanto na COP15 em Montreal a comunidade mundial tenta fechar um acordo para proteger a natureza e os ecossistemas e obter um 'Acordo de Paris' para preservar o que resta da biodiversidade, em Bruxelas eles fazem o oposto. Exatamente no mesmo dia.

Orwelliano na melhor das hipóteses, tóxico e cínico com certeza.

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

26% da floresta amazónica está no ponto de inflexão, segundo estudo (já em Setembro de 2022)

“O ponto sem retorno não está no futuro; é agora."

Vinte e seis por cento da floresta amazónica já atingiu um “ponto de inflexão” ao mudar de floresta para pastagem devido a uma combinação de desmatamento e degradação.

Essa é uma descoberta alarmante de um novo relatório intitulado “ Amazónia contra o relógio: uma avaliação regional sobre onde e como proteger 80% até 2025 ”. O relatório, escrito por uma coalizão de cientistas e líderes indígenas, afirma que não é tarde demais para salvar a floresta tropical ecologicamente importante, mas devemos agir agora.

“Ele revela novas evidências que demonstram que a Amazônia já se encontra em crise”, disse a colaboradora Jessika Garcia, da Coordenadoria de Organizações Indígenas da Bacia do Rio Amazonas (COICA), em entrevista coletiva em 5 de setembro anunciando as descobertas. “O ponto sem retorno não está no futuro; é agora."

Contra o relógio

O novo relatório surge um ano após o Congresso da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) aprovar a moção 29 para proteger 80% da floresta amazônica até 2025. Ele foi pesquisado pela Rede Amazônica de Informações Socioambientais Georreferenciadas (RAISG) e elaborado com a ajuda da iniciativa “Amazônia para a Vida: proteja 80% até 2025” e grupos de defesa COICA e Stand.earth. Os resultados foram divulgados na 5ª Cúpula dos Povos Indígenas Amazônicos da COICA.

No geral, os resultados enfatizam a importância de proteger uma parte significativa da Amazônia até 2025, não 2030, como sugeriram algumas entidades.

“[Um] horizonte de 2030 pode ser catastrófico para a maior floresta contínua do planeta e para mais de 500 nacionalidades e grupos indígenas distintos que a habitam e para a humanidade”, escrevem os autores do estudo em seu Sumário Executivo.

A parte mais preocupante do novo relatório envolve a percentagem da Amazónia que atingiu o ponto crítico em que faz a transição de floresta para savana. Se toda a floresta ultrapassasse esse limite, a área se transformaria em pastagem e deixaria de armazenar dióxido de carbono para libertá-lo, contribuindo ainda mais para a crise climática.

Os dados, que abrangem o período de 1985 a 2020, constataram que 26% da Amazônia já estava desmatada ou degradada o suficiente para atingir esse ponto de inflexão, com 20% sujeita a “mudança irreversível do uso da terra” e os outros 6% extremamente degradados. Noventa por cento dessas áreas de risco estavam localizadas na Bolívia ou no Brasil, sendo o Brasil responsável por 82% da floresta degradada. Trinta e quatro por cento da Amazônia brasileira está se alterando ou extremamente degradada.

“Essa realidade ameaça toda a região, já que o Brasil é o país que abriga dois terços da Amazónia”, escreveram os autores do estudo.

Bruno Kelly / Amazonia Real

No geral, a agricultura – e especialmente a pecuária – é o principal fator de desmatamento na Amazónia. A quantidade de área florestal agora dedicada à agricultura triplicou desde 1985, e o desmatamento da floresta tropical para a criação de gado é responsável por quase 2% das emissões anuais de gases de efeito estufa em todo o mundo.

A Amazónia brasileira especificamente sofreu pressão adicional nos últimos três anos sob a liderança do presidente de direita Jair Bolsonaro, que promoveu as indústrias extrativas em detrimento da proteção ambiental e dos direitos indígenas.

“No Brasil, assistimos a um governo com uma política de Estado ostensivamente anti-indígena que busca, de todas as formas, legalizar o que é ilegal”, disse Nara Baré, ex-coordenadora da COIAB, em entrevista no boletim para a imprensa partilhado com Treehugger. “A destruição desenfreada e a ganância de nossos territórios ancestrais, nossa Amazônia, no norte do país, é a face visível da histórica violação de direitos a que nós, povos indígenas do Brasil, estamos submetidos há décadas.”

No entanto, embora a situação no Brasil seja talvez a mais urgente, 66% da floresta está ameaçada por estressores legais ou ilegais na forma de agricultura, mineração, extração de combustíveis fósseis ou construção de barragens e estradas.

Trabalhos de reparo no oleoduto danificado que causou o derramamento de óleo em abril de 2020. Este trecho de reparos ocorreu no auge do passo conhecido como "El Reventador" na estrada Quito - Lago Agrio.Ivan Castaneira / Agência Tegantai

“A Amazónia desempenha um papel ecológico fundamental e, nos últimos 20 anos, a mudança no uso da terra e o desmatamento atingiram níveis extremamente altos, com mais de 500 milhões de hectares de floresta eliminados”, disse à imprensa a principal autora do relatório, Marlene Quintanilla, da RAISG.

Outra tendência alarmante nos últimos 20 anos foi o aumento de incêndios na Amazónia, que atingiram mais de 100 milhões de hectares de floresta nas últimas duas décadas, e isso só aumentou nos últimos anos, com incêndios queimando 27 milhões de hectares de floresta somente em 2020. 

Esperança para a Floresta

Dito isso, os autores do relatório afirmam que ainda é possível proteger 74% da Amazónia intacta remanescente e restaurar os 6% degradados. Para conseguir isso, os líderes políticos devem prestar atenção ao crescente corpo de evidências de que respeitar os direitos territoriais dos povos indígenas é a melhor maneira de proteger a biodiversidade contida em seus territórios.

“Somos as pessoas, as nações, as nacionalidades que estão propondo que a humanidade continue existindo”, disse José Gregorio Díaz Mirabal , membro do povo Wakuenai Kurripaco da Venezuela e líder eleito da COICA, em coletiva de imprensa.

O relatório constatou que 86% do desmatamento ocorreu fora dos Territórios Indígenas ou Áreas Protegidas e que 33% dessas áreas desprotegidas já estavam em transição para o cerrado, seis vezes mais do que em áreas protegidas e mais de oito vezes mais do que em Territórios Indígenas reconhecidos. 

“Isso deve nos indicar que devemos fortalecer os Territórios Indígenas para proteger a Amazónia”, disse Quintanilla na coletiva de imprensa. “A luta contra a mudança climática deve reconhecer o papel igualitário dos Territórios Indígenas e dos países amazónicos.”

As comunidades indígenas protegem 80% da biodiversidade restante do mundo, mas precisam se proteger. Um número impressionante de 232 líderes indígenas foi assassinado entre 2015 e os primeiros seis meses de 2019 em disputas por terras e recursos na região amazónica, segundo o relatório. 

“A Amazónia já se encontra em crise. O ponto sem retorno não está no futuro; é agora."

Quarenta e oito por cento da Amazónia é atualmente uma Área Protegida reconhecida ou Território Indígena, mas 52% não é e, portanto, corre o risco de desaparecer sem ação. Os autores do estudo pediram para garantir a proteção da biodiversidade e dos direitos indígenas, reconhecendo os aproximadamente 100 milhões de hectares de Territórios Indígenas que foram identificados, mas estão em disputa ou não estão oficialmente protegidos. Eles também recomendaram que a área florestal remanescente seja governada em conjunto com comunidades indígenas e locais e que cada país amazónico elabore um plano de ação para atingir a meta de 2025.

A comunidade internacional pode ajudar, em parte, perdoando condicionalmente a dívida dos países amazónicos.

“A dívida externa dos países amazónicos deve ser entendida como um motor sistémico e combustível para atividades extrativistas em toda a região. Como coalizão, propomos o cancelamento dessa dívida como medida de proteção imediata para aliviar os desafios económicos que os nossos países enfrentam. Esse cancelamento estaria condicionado à proteção de 80% da Amazónia. Os países industrializados e as instituições financeiras internacionais assumiriam a responsabilidade de proteger o planeta, mitigar a mudança climática e aliviar a pressão sobre a Amazónia com a liderança dos países amazónicos”, disse o vice-coordenador da COICA Tuntiak Katán no comunicado à imprensa.

Além disso, empresas, governos e consumidores em países ricos devem prestar atenção à origem dos produtos que fabricam, importam ou desfrutam.

“Os impulsionadores da destruição da Amazônia são principalmente as cadeias de abastecimento dos países industrializados”, disse Alicia Guzmán, co-coordenadora da Stand Earth Initiative, no comunicado à imprensa. “Sem saber, comemos, transportamos e nos vestimos com produtos que destroem a Amazónia. Não podemos perder mais um hectare. O futuro da Amazónia é responsabilidade de todos.”

Fonte: Treehugger

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sábado, 7 de janeiro de 2023

Amazónia está a acelerar para um ponto de não retorno



Durante a COP27, realizada em Sharm el Sheikh, Egipto, o World Wildlife Fund (WWF) publicou o Relatório Amazónia Viva 2022. Este relatório lançou luz sobre o estado atual da floresta tropical amazónica e a gravidade da desflorestação que está a ter lugar. O WWF avisa, agora, que a Amazónia está a acelerar até um ponto sem retorno. Argumentam que devem ser implementadas medidas extensivas para proteger 80% da floresta tropical até 2025, avança o “Inhabitat”.

A Amazónia – Um bioma de importância global
Segundo a mesma fonte, a Amazónia é um bioma, o que significa que é o lar de uma grande comunidade biológica que se formou em resposta ao ambiente físico único da área. O bioma amazónico engloba a bacia do rio Amazonas e a floresta tropical com outros sub-ecossistemas a que está ligado. Estende-se por oito países e é o maior sistema contínuo de florestas tropicais e rios do mundo.

Embora a Amazónia seja constituída por menos de 1% da terra, contém quase 10% da biodiversidade da Terra. Isto inclui 13% de peixes de água doce, 22% de plantas vasculares, 14% de aves e 8% de anfíbios. No entanto, há lugares dentro do bioma onde até 90% da biodiversidade ainda nem sequer foi cientificamente documentada.

A região é também o lar de 47 milhões de pessoas, com 2,2 milhões de povos indígenas de mais de 500 grupos distintos. Isto significa que é uma infinidade de história e cultura ancestral rica. De facto, só nesta região são faladas aproximadamente 300 línguas.

Os vastos ecossistemas da Amazónia suportam a vida à escala global e são cruciais para a nossa sobrevivência. O solo e a vegetação sequestram 200 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono, ajudando a mitigar o aquecimento global e as alterações climáticas. O ecossistema também fornece 15-20% da água doce e dos nutrientes que fluem para o Oceano Atlântico. Para além da sua contribuição de alimentos à base de plantas à escala global, mais de 4% das capturas mundiais de água doce provêm da Amazónia, totalizando cerca de 511.000 toneladas de peixe por ano.

Globalmente, devido à função do bioma como habitat e aos seus recursos, a Amazónia é incrivelmente importante para todos os organismos vivos.

A situação atual da Amazónia
A Amazónia está a sofrer uma imensa degradação e destruição como resultado de várias formas de atividade humana. Estas ameaçam a biodiversidade do bioma e os habitantes humanos, enquanto limitam os recursos e serviços ambientais que este proporciona, tais como a estabilização do clima.

Existem várias ameaças que a Amazónia enfrenta atualmente. Estas são a desflorestação através do abate ilegal e insustentável de árvores ou incêndios, o aumento das atividades agrícolas (culturas e gado), infraestruturas mal planeadas, extração e mineração, contaminação de resíduos (urbanos e industriais), e caça ilegal e sobrepesca.

Desflorestação
A desflorestação é o resultado de pressões que incluem a exploração florestal, a agricultura, as infraestruturas e as atividades extrativas. Em 2021, foram desmatados quase 12.200 quilómetros quadrados de floresta – mais de 18% de aumento a partir de 2020. Esta foi a maior taxa anual de desflorestação desde 2008 e parece que irá continuar em 2022. De facto, os dados mostram que a desflorestação na primeira metade de 2022 foi a mais elevada de que há registo desde 2016. Mais desflorestação e erosão do solo ocorrem quando os incêndios são utilizados para limpar a terra para a agricultura e mineração.

Barragens hidroelétricas
Para além dos ecossistemas terrestres da Amazónia estarem ameaçados pela vegetação e pela erosão do solo em resultado da desflorestação e dos incêndios, os ecossistemas aquáticos da Amazónia estão também ameaçados pela atividade humana. As centrais hidroelétricas são uma das principais ameaças da Amazónia. As barragens hidroelétricas restringem o fluxo dos rios e inundam grandes áreas de floresta. Isto prejudica a vida selvagem e provoca mudanças de paisagem. As barragens também têm impacto nos padrões de inundação que perturbam os ciclos de vida da vida aquática. Globalmente, na Amazónia, as centrais hidroelétricas são a causa mais comum de destruição ou perda de áreas protegidas.

Resíduos urbanos e industriais, infraestruturas e extração
Como resultado de resíduos tóxicos produzidos pelo homem que contaminam os ecossistemas naturais, a saúde da flora, fauna e seres humanos é posta em risco. Infraestruturas como estradas e pontes também prejudicam a vida selvagem. Animais como os répteis, anfíbios e mamíferos são frequentemente mortos em iniciativas de limpeza de terras ou atropelados por veículos, em resultado dos seus habitats fragmentados. Finalmente, as concessões de mineração e extração abrangem 15% da Amazónia, incluindo 30% das suas áreas protegidas. Para além da rutura de habitats para a flora e fauna, as estimativas mostram que 37% dos territórios indígenas são também afetados pelas indústrias extrativas.

Caça e sobrepesca
Recentemente, animais selvagens incluindo capuchinhos, jaguares e periquitos são comercializados ilegalmente ou caçados para lazer, investigação ou alimentação. Isto é insustentável, levando a um aumento das gotas nas populações de fauna bravia. Várias populações caíram tão baixo que as espécies se tornaram em perigo. Se estas práticas continuarem, muitas espécies estão em risco de extinção.

A investigação mostra que a Amazónia está a aproximar-se de um ponto de viragem ecológico. Isto significa que está prestes a perder a sua capacidade de recuperação ou resiliência. Se se perder apenas 5% de aumento da floresta, o bioma nunca recuperará e as suas consequências irão espiralar-se. Por conseguinte, a WWF está a defender uma paragem na perda de ecossistemas naturais na região.

Que impactos poderá ter a desflorestação acelerada da Amazónia?
A WWF adverte que, através da destruição contínua da Amazónia, o objetivo de manter o aquecimento global a 1,5 graus Celsius não pode ser atingido. Isto deve-se principalmente à quantidade de CO2 que a floresta tropical pode sequestrar na sua vegetação e solo. Além disso, o CO2 que tem sido capturado e armazenado no bioma durante séculos está agora a ser libertado a um ritmo acelerado devido a atividades insustentáveis relacionadas com o homem. As estimativas mostram que as emissões de CO2 provenientes da degradação florestal excedem as provenientes da desflorestação. Se não forem tomadas medidas rápidas, os impactos terão repercussões locais e globais sobre o ambiente.

A desflorestação e outras ameaças aos ecossistemas da Amazónia resultam na perda de biodiversidade, na libertação de carbono previamente sequestrado, na incapacidade de sequestrar os gases com efeito de estufa, na erosão, e nas alterações hidrológicas e climáticas. Todos estes impactos afetam as flores, a fauna e as comunidades locais que vivem na região. Além disso, há repercussões nos recursos da Amazónia que apoiam o bem-estar e a subsistência das pessoas. Numa escala global, esta perda de habitat afeta-nos a todos, uma vez que dependemos da capacidade da Amazónia de proporcionar estabilidade ecológica à Terra.

Os cientistas identificaram cinco possíveis pontos de rutura para a Amazónia que poderão resultar numa mudança abrupta da vegetação que acabará por ter impacto em todo o bioma e na Terra como um todo. Estes incluem uma menor precipitação, estações secas prolongadas, défices excessivos de água, uma desflorestação cumulativa de 20 a 25% ou um aumento de 2 graus Celsius na temperatura global. Estes acontecimentos podem levar à perda de todo o ecossistema florestal e conduzir a uma espiral descendente do bioma.

O que devemos fazer?
Atualmente, as áreas protegidas e as terras indígenas protegem legalmente 25,5% e 27% da bacia amazónica. Estas áreas são fundamentais para aumentar a resiliência climática e mitigar as ameaças atualmente enfrentadas pelo bioma. Para reforçar ainda mais a proteção da Amazónia, a WWF estabeleceu o objetivo 80×25. Ao aumentar as áreas e territórios protegidos, as atividades humanas podem ser controladas para assegurar a conservação da biodiversidade e o desenvolvimento sustentável. Contudo, isto exigirá compromissos políticos de alto nível para enfrentar a pletora de atividades humanas destrutivas que ameaçam a flora, a fauna e os seres humanos. Só através de um trabalho holístico para atingir este objetivo é que o bioma pode transitar para uma Amazônia saudável e próspera.

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