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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Corrupção aumenta globalmente com EUA a atingir pior nível de sempre


O Índice de Perceção da Corrupção de 2025 da Transparência Internacional revela que a corrupção está a aumentar globalmente, mesmo em democracias consolidadas. 

A corrupção está a aumentar mesmo em democracias consolidadas, tendo os Estados Unidos atingido, no ano passado, o pior nível de sempre, segundo o Índice de Perceção da Corrupção (IPC) de 2025, hoje publicado pela organização Transparência Internacional.

Segundo o documento, apesar de os desenvolvimentos de 2025 ainda não estarem totalmente refletidos na análise hoje divulgada, os Estados Unidos registaram uma forte queda no índice de perceção.

O país obteve uma pontuação de 64 pontos numa escala de 0 (altamente corrupto) a 100 (muito íntegro).

Os Estados que se destacam pela elevada transparência e integridade do setor público têm classificações de 80 ou mais pontos, sendo a lista liderada pela Dinamarca (89), Finlândia (88) e Singapura (84).

No entanto, alertou a organização não-governamental (ONG), os Estados com índices elevados não estão livres de corrupção, já que apoiam, em alguns casos, a corrupção noutros países ao facilitar o branqueamento e a transferência de dinheiro proveniente de atos de corrupção, o que a análise do IPC não abrange.

Por exemplo, a Suíça (80) e Singapura (84) estão entre os países com melhores pontuações, mas têm sido alvo de críticas por facilitarem a movimentação de dinheiro ilícito, destacaram os analistas da organização.

42 pontos a nível global, o nível mais baixo em mais de uma década
Em termos globais, a pontuação média ficou-se pelos 42 pontos, o que representa o nível mais baixo em mais de uma década.

"A grande maioria dos países não consegue controlar a corrupção: mais de dois terços -- 122 em 180 -- têm uma pontuação inferior a 50" pontos, observou a Transparência Internacional.

De acordo com o IPC deste ano, o número de países com pontuação acima de 80 diminuiu dos 12 registados há uma década para apenas cinco.

Influência dos EUA no mundo
A queda registada nos Estados Unidos teve repercussões no mundo, avaliou a ONG, lembrando, por exemplo, que a Lei sobre Práticas de Corrupção no Estrangeiro (que proíbe pessoas e empresas norte-americanas ou cotadas em bolsas dos Estados Unidos) tem um forte impacto em empresas internacionais, exigindo rigorosas práticas de contabilidade.

"O congelamento temporário [decidido em fevereiro de 2025, no início do segundo mandato de Donald Trump] sinalizou uma tolerância para com práticas comerciais corruptas", apontou a Transparência Internacional no relatório.

Além disso, os cortes nas ajudas dos Estados Unidos à sociedade civil no estrangeiro "enfraqueceram os esforços globais anticorrupção", acrescentou.

Segundo os analistas, estas decisões foram interpretadas pelos líderes políticos de outros países "como um sinal para restringir ainda mais as organizações não-governamentais, os jornalistas e outras vozes independentes".

Por isso, a perceção da corrupção piorou também em países como o Canadá (75 pontos), a Nova Zelândia (81) e em várias partes da Europa, como o Reino Unido (70), França (66) e a Suécia (80).

"Desde 2012, 13 países da Europa Ocidental e da União Europeia [UE] apresentaram um declínio significativo [no IPC], e apenas sete melhoraram significativamente", alertou a Transparência Internacional no mesmo documento.

Apesar do cenário, "a corrupção não é inevitável", sublinhou o presidente da Transparência Internacional, François Valérian, citado na análise, apelando aos governos e aos líderes para que "atuem com integridade e cumpram as suas responsabilidades".

É fundamental proteger o espaço cívico, pondo fim aos ataques a jornalistas, ONG e denunciantes, e interrompendo os esforços para restringir o trabalho independente da sociedade civil, segundo o representante.

Interferência dos Estados em ONG
Na última década, a interferência politizada nas operações das ONG aumentou em países como a Geórgia (50), Indonésia (34) e Peru (30), onde os governos introduziram novas leis para limitar o acesso ao financiamento das organizações e lançou campanhas de difamação e intimidação.

Nestes contextos, tornou-se cada vez mais difícil aos jornalistas independentes, organizações da sociedade civil e ativistas manifestarem-se contra a corrupção, facilitando, por sua vez, a manutenção dos abusos de poder.

Foi o que aconteceu em países como a Rússia (22) e a Venezuela (10), onde a repressão da sociedade civil aumentou o número de críticos do regime obrigados ao exílio, assinalou a Transparência Internacional.

Estes ambientes restritivos não só silenciam os críticos e os órgãos de fiscalização, como também criam perigos reais para aqueles que ousam expor irregularidades, frisou a organização, referindo que "desde 2012, 150 jornalistas que cobriam temas relacionados com corrupção em zonas sem conflito foram assassinados -quase todos em países com elevados níveis de corrupção".

Segundo o IPC, os países com as pontuações mais baixas apresentam, na sua grande maioria, sociedades civis severamente reprimidas e elevados níveis de instabilidade, como acontece no Sudão do Sul (9), na Somália (9) e na Venezuela (10).

Cenários que ameaçam os 50 países que viram as suas pontuações descerem significativamente nos últimos 13 anos, como aconteceu com a Turquia (31), a Hungria (40) e a Nicarágua (14).

sábado, 20 de janeiro de 2024

Não há liberdade religiosa num terço dos países do mundo


O relatório sobre liberdade religiosa no mundo de 2023 indica que, em cerca de um terço dos países do mundo, não há liberdade religiosa ou há uma violação, revelou hoje a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (FAIS).
"Dos 196 países analisados, em 61 há restrições à liberdade religiosa. Este relatório mostra-nos que em cerca de um terço dos países do mundo não há liberdade religiosa ou há uma violação da liberdade religiosa", destacou a diretora em Portugal da FAIS.
A Fundação Ajuda à Igreja que Sofre apresenta na tarde de sábado, no Seminário Maior de Coimbra, o Relatório da Liberdade Religiosa no Mundo 2023, um documento que costumam publicar de dois em dois anos.
Em declarações à agência Lusa, Catarina Martins de Bettencourt explicou que o documento analisou "todas as religiões em 196 países do mundo, na perspetiva da liberdade religiosa"."Outra conclusão muito importante deste relatório é que cerca de 62% da população mundial vive nestes 61 países, onde não há efetivamente liberdade religiosa", constatou.
Os países onde há ausência de liberdade religiosa situam-se "em África, Meio Oriente e Ásia" e, pela primeira vez, o relatório menciona o continente americano, "por causa da situação que se vive em Cuba, Venezuela e também na Nicarágua".
Segundo a diretora em Portugal da FAIS, o relatório distingue os países onde se verifica discriminação religiosa e os países onde há perseguição, com pessoas a serem presas ou mortas com base na sua fé.
"No caso da perseguição com base na religião, temos países como a Índia, Paquistão, Afeganistão, China, Arábia Saudita e Irão, no continente asiático. Se olharmos para a África, há perseguição em países como a Nigéria, Mali, Sudão, República Democrática do Congo e no norte de Moçambique", referiu.
Questionada sobre a realidade na Europa, Catarina Martins de Bettencourt evidenciou que no relatório não constam países da Europa, apesar de já existirem "alguns sinais de preocupação".
"Há, às vezes, alguma discriminação e a profanação de alguns símbolos religiosos no continente europeu. Mas, na nossa análise e tendo em conta toda a gravidade do que se vive no resto do mundo, nós consideramos que a Europa ainda é um continente onde há relativa liberdade religiosa", apontou.
No caso de Portugal, considerou que é um país onde se pode exercer livremente a fé, independentemente de qual seja.
"A realidade no mundo é diferente. Há muitas pessoas que, infelizmente, vivem em países onde não há essa possibilidade de viver livremente a sua fé. Há pessoas que são discriminadas em termos de acesso à educação, acesso à saúde, acesso ao mercado de trabalho, só porque são de determinada religião", sustentou.
À Lusa, Catarina Martins de Bettencourt frisou ainda a importância deste relatório, que pretendem apresentar em todas as dioceses do país, por pretender provocar uma reflexão.
"Descrevemos algumas situações que foram acontecendo, ao longo desse ano, e que precisamos refletir. Gostaríamos que os nossos governos olhassem para este relatório e para as suas conclusões e, de alguma forma, também tomassem medidas que evitem esta escalada", alertou.
O relatório aponta também no sentido da "importância da educação", inclusive em contexto escolar.
"É muito importante educarmos as crianças desde pequenas, no sentido de perceberem o que é que é cada religião, as diferenças entre todas as religiões e ensiná-las no sentido da tolerância. Ensinar a não discriminar ninguém, a não perseguir ninguém, apenas porque é de uma religião ou de outra", concluiu.

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Metade dos regimes democráticos em todo o mundo em declínio

Um em cada dois regimes democráticos em todo o mundo está em declínio, fragilizado por problemas de legitimidade, limitações de liberdades essenciais ou por ausência de transparência, revela um relatório que vai ser hoje apresentado.


O mais recente relatório sobre o Estado Global das Democracias, relativo ao ano de 2021, do Instituto Internacional para a Democracia e a Assistência Eleitoral (IDEA), que vai ser hoje apresentado num evento público, indica que o número de países democráticos em regressão é o mais elevado da última década.

"O número de países a nível mundial que avançam na direção do autoritarismo excede o dobro do número de países que avançam numa direção democrática", acrescenta o relatório, que mostra que mesmo democracias estabelecidas, como a norte-americana, estão hoje a braços com problemas que minam a sua credibilidade junto dos eleitores.

Nos últimos cinco anos, o progresso das democracias a nível global tem estagnando nos índices destes relatórios do IDEA, verificando-se mesmo algumas regressões e, em vários parâmetros, não estão melhores do que em 1990.

O relatório do IDEA mede o desempenho democrático de 173 países desde 1975 e procura fornecer um diagnóstico sobre o estado das democracias em todo o mundo.

"Estamos perante uma situação muito grave. Mesmo países com sistemáticos bons resultados nos índices refletem quedas, provando que há um problema global com as democracias", disse à Lusa o secretário-geral do IDEA, Kevin Casas-Zamora.

O declínio da democracia global reflete-se em diferentes parâmetros, incluindo a credibilidade dos resultados eleitorais, restrições às liberdades cívicas e de expressão, a desilusão dos jovens com a atividade política.

Quando os investigadores do IDEA procuram encontrar causas para o declínio dos regimes democráticos detetam explicações no afastamento dos eleitos perante os problemas reais dos eleitores, o aumento da corrupção e a ascensão de partidos demagógicos e populistas que polarizam e radicalizam a atividade política.

Ao mesmo tempo, o relatório deste ano mostra que os regimes autoritários são cada vez mais numerosos e estão a aprofundar a sua atividade repressiva, tendo 2021 sido o pior ano de que há registo.

"Mais de dois terços da população mundial vivem agora em democracias em regressão ou sob regimes autoritários e híbridos", conclui o relatório, que ainda assim deixa alguns sinais de otimismo, relativamente ao cenário político global.

"As pessoas estão a unir esforços de forma inovadora, para renegociar os termos dos contratos sociais, pressionando os seus governos a satisfazer as exigências do século XXI, desde a criação de estruturas comunitárias de cuidados infantis, na Ásia, até às liberdades reprodutivas na América Latina", conclui o estudo do IDEA.

Em declarações à Lusa, o secretário-geral deste instituto com sede em Estocolmo reconheceu que há muitos casos interessantes de atividade cívica, como os movimentos ambientais, as manifestações a favor dos direitos das mulheres no Irão ou os protestos políticos na Tailândia, revelando que "os cidadãos mostram vontade de ultrapassar os limites do politicamente possível".

"Os próximos anos vão ser desafiantes", garante Casas-Zamora, lembrando que "ao contrário do que os pessimistas democráticos podem sugerir, os regimes autoritários e os sistemas alternativos de governação não superaram o desempenho dos seus pares democráticos".

Ainda assim, o relatório sobre a saúde das democracias no planeta apresenta indicadores preocupantes para quem acredita nesta forma de regime político, como o facto de, no final de 2021, metade dos 173 países avaliados terem revelado declínio em pelo menos um dos atributos democráticos.

Na Europa, por exemplo quase metade de todas as democracias, num total de 17 países, sofreram erosão nos últimos cinco anos, e Portugal não foi exceção, depois de, em 2020, ter registado uma queda em três dos parâmetros que medem a qualidade das democracias.

Portugal, apesar de tudo, mantém-se como uma democracia saudável e partilha com outros países europeus algum défice na componente da corrupção e na falta de maior abertura à participação dos cidadãos nas decisões governativas.

Nos continentes asiático, africano e sul-americano persistem problemas sistémicos e históricos de graves défices democráticos, com países como Afeganistão, Bielorrússia, Comores ou Nicarágua a repetir desempenhos de declínio dos parâmetros democráticos.

"A democracia não parece estar a evoluir de uma forma que reflita a rápida evolução das necessidades e das prioridades. As melhorias são pouco significativas, mesmo nas democracias em que se regista um desempenho de médio ou alto nível", conclui o relatório.

O documento do IDEA recomenda uma série de medidas políticas para renovar e reativar os regimes democráticos, nomeadamente com a adoção de contratos sociais mais equitativos e sustentáveis, com reformas das instituições políticas e com o fortalecimento das defesas contra o autoritarismo.

sábado, 11 de março de 2017

Papa diz que povos indígenas devem ter a palavra final sobre suas terras


No século XV, as bulas papais promoveram e forneceram uma justificativa legal para a conquista e o saqueamento das terras e recursos dos povos indígenas – cujas consequências são sentidas ainda hoje. O direito à conquista em uma tal bula, Romanus Pontifex, emitida por volta de 1450 quando Nicolau V era o papa, foi dada em caráter perpétuo.

David Hill* – The Guardian / IHU On-Line
Mas o tempo muda. Na semana passada, mais de 560 anos depois, Francisco, o primeiro papa latino-americano, deu um tom bem diferente: pôs-se a favor dos povos indígenas ao redor do mundo, a favor do direito à terra (algo que possui um significado prático), e pôs-se a favor de uma melhor relação com o meio ambiente. Publicamente disse que os povos indígenas têm o direito ao “consentimento prévio e informado”. Em outras palavras, nada deveria acontecer nas – ou impactar suas – terras, territórios ou recursos a menos que concordem.
“O principal desafio é conciliar o direito ao desenvolvimento, incluindo também o social e cultural, com a tutela das características próprias dos povos e territórios indígenas”, disse Francisco, segundo texto divulgado pela Sala de Imprensa da Santa Sé.
“[Esta conciliação] fica ainda mais evidente quando atividades econômicas interferem com as culturas indígenas e sua relação ancestral com a terra”, continuou o papa. “Nesse sentido, sempre deve prevalecer o direito ao consenso prévio e informado, segundo exige o artigo 32 da Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas. Somente assim é possível garantir uma cooperação pacífica entre as autoridades governamentais e os povos indígenas, que supere contradições e conflito”.
Francisco falava a representantes indígenas em Roma na conclusão do 3º Fórum dos Povos Indígenas, realizado pelo Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola – FIDA, órgão da ONU.
A Declaração das Nações Unidas – não vinculativa juridicamente – foi adotada há 10 anos. Em seu artigo 32, diz que “é dever do Estado consultar e cooperar de boa-fé com os povos indígenas interessados, por meio de suas instituições representativas, a fim de obter seu consentimento livre, prévio e informado antes de adotar e aplicar medidas legislativas e administrativas que os afetem”.
Francisco também declarou que a “humanidade peca gravemente, deixando de cuidar da terra”, e instou os líderes indígenas a resistirem às novas tecnologias e que “não permitais aquelas que destroem a terra, que destroem a ecologia, o equilíbrio ecológico e que acabam por destruir a sabedoria dos povos”. Convidou os governos a capacitar os povos originários a participarem plenamente no desenvolvimento de “diretrizes e projetos”, tanto no nível local quanto nacional.
Vários meios de comunicação convencionais, incluindo a BBC, os jornais The Independent e Washington Post, interpretaram as palavras do papa como um comentário – ou um comentário aparente – sobre o atual conflito em torno do oleoduto Dakota Access, nos EUA, como se este fosse o único conflito indígena do que se sabe hoje. Mas e quanto a outros casos ao redor do mundo? Essa interpretação foi rapidamente rejeitada por uma porta-voz do Vaticano, que disse que “não há elementos nas palavras do papa que nos permita saber se ele estava falando de algum caso específico”.
Então, o que algumas das pessoas que estavam com Francisco naquele dia pensam do que ele afirmou? Até que ponto o que foi dito é significativo a eles?
Myrna Cunningham, ativista miskita da Nicarágua e ex-presidente do Fórum Permanente sobre Questões Indígenas, da ONU, disse que o papa estava enviando mensagens importantes. Estas incluem a “necessidade conciliar o direito ao desenvolvimento, incluindo também o social e cultural, com a tutela das características próprias dos povos e territórios indígenas”, e a importância da Declaração da ONU, do consenso, que, segundo ela, “de algum modo foi uma resposta às demandas indígenas”.
“Eu esperava uma mensagem incisiva, porém a postura dele excedeu as minhas expectativas”, disse Cunningham ao jornal The Guardian. “Ele foi claro sobre as lutas do nosso povo e vem sendo uma voz importante para fazer que nossas demandas sejam ouvidas”.
Elifuraha Laltaika, da Associação de Direito e Advocacia a Pastoralistas na Tanzânia, diz que foi um “chamado a despertar oportuno aos governos”.
“[Os comentários do papa] foram feitos num momento em que os governos cada vez mais violam e olham com desconfiança para os padrões mínimos da Declaração da ONU”, disse Laltaika ao The Guardian. “Sem ouvir o chamado do Papa Francisco, com certeza a vida vai se tornar mais miserável aos povos indígenas do que alguma vez já foi. A ganância para com a extração de hidrocarbonetos e minerais irá criar rachaduras além das existentes já, acentuando a pobreza dos povos indígenas e a incapacidade deles de lidar com os impactos da mudança climática e uma miríade de outros desafios”.
Para Alvaro Pop, represente maya da Guatemala, as palavras de Francisco demonstram o compromisso contínuo dele para com os direitos dos povos originários.
“Os povos indígenas têm sido os guardiões destes recursos há séculos”, diz Pop, um dos presidentes do Fórum Permanente da ONU. “O consentimento livre, prévio e informado é uma das questões mais importantes do século XXI. As palavras do papa são verdadeiramente significativas”.
Victoria Tauli-Corpuz, membro do povo Kankanaey Igorot das Filipinas e atualmente relatora especial da ONU para os Direitos dos Povos Indígenas, diz que a fala do papa ilustra “a compreensão que ele tem da importância” de implementar a Declaração da ONU.
“A visão dele de que uma maior chance de superar o confronto e o conflito entre os povos indígenas e as autoridades governamentais pode ser alcançada se um consentimento prévio e informado for respeitado ecoa o que muitos povos vêm afirmando”, disse Tauli-Corpuz ao The Guardian.
Les Malezer, da Austrália, descreve como “gratificante” que o papa tenha assumido uma postura tão dura no tocante à necessidade de respeitar os direitos dos povos indígenas, e diz que ele também aproveitou a oportunidade para levantar a questão da “Doutrina da Descoberta” – conceito jurídico internacional fundamentado nas bulas papais do século XV.
“Todos entre nós tiveram a oportunidade de dizer algumas poucas palavras ao papa quando ele circulou pelo salão”, disse Malezer, de Queensland. “Pedi que o papa continuasse a rever a Doutrina da Descoberta, que foi seguida por muitos casos de genocídio dos povos indígenas e pela tomada de suas terras. Também pedi que a Igreja Católica busque conscientizar, em nível mundial, as pessoas para a situação e os direitos dos povos indígenas”.
Ao abordar o direito ao consentimento dos povos indígenas, Francisco ecoava – e dava sustentação a – um órgão crescente do direito e da jurisprudência internacional que vincula os governos, diretrizes, princípios e procedimentos operacionais adotados por algumas instituições financeiras, agências da ONU e grupos do setor privado. Segundo um relatório de 2013 emitido pela REED (sigla inglesa para Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação, entidade da ONU) sobre a base jurídica internacional para o que se conhece por “CLPI” – iniciais para consentimento livre, prévio e informado –, “mais de 200 estados ratificaram numerosos tratados e convênios internacionais e regionais que proveem expressamente o dever e a obrigação do Estado de obter o CLPI onde circunstâncias assim se justificarem”.
*Tradução é de Isaque Gomes Correa.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Quais são os países mais afetados pela mudança climática


Segundo organização germânica, em primeiro lugar na categoria de risco estão os países insulares ou mais próximos à costa: Honduras, Mianmar e Haiti. Brasil está em zona de risco moderado.
Por Juliana Winkel, da Agência Jovem de Notícias, via Envolverde
Nesta terça-feira (12 de Novembro de 2013), a COP19 sediou a discussão a respeito dos índices da organização não-governamental Germanwatch, dedicada a analisar onde e como têm ocorrido os principais danos ambientais ao longo dos últimos anos, em especial ligados a fenómenos bruscos e de consequências violentas (inundações, tufões, ondas de calor e outros). Foram divulgados os dados mais recentes apurados pela organização, abrangendo o período entre 1993 e 2012. Em primeiro lugar na categoria de risco, estão os países insulares ou mais próximos à costa: Honduras, Mianmar e Haiti. Olhando para o último ano, os mais afectados foram as Filipinas, Paquistão e novamente o Haiti.

Outros países com índices altos de incidência ou risco de catástrofes, na América Latina, são Nicarágua, República Dominicana e Guatemala – dividindo a classificação com Banladesh, Vietnam, Mongólia e Tailândia. O Brasil está em zona de risco moderado – entre 51 e 100, em uma escala de zero a 100, embora também apresente potencial de risco especialmente em suas áreas litorâneas. De acordo com os especialistas do Germanwatch, é preciso uma união de tecnologia, recursos financeiros e conhecimento científico para enfrentar as mudanças climáticas.
Confira o relatório completo do Germanwatch (em inglês) neste link.

sábado, 2 de janeiro de 2010

COP15 / MOP5 – Copenhaga, Dinamarca (dezembro de 2009)

                                          

A Conferência de Copenhague marcou o ápice de um processo de dois anos de negociações sobre um novo acordo climático, iniciado no Plano de Ação de Bali em 2007. A COP15 / MOP5 reuniu um público sem precedentes na história das Conferências, contando com a presença de cerca de 115 líderes mundiais e mais de 40.000 pessoas representando governos, organizações não governamentais, imprensa, entre outros.

O encontro era considerado de elevada importância, pois tinha como principal objetivo estabelecer as metas de redução de gases de efeito estufa para o período que se inicia em 2013 e poderá ser finalizado em 2020; o período final também será definido pelas partes em COP. Porém, o que de fato aconteceu foi uma sucessão de discussões e embates entre países e blocos de países, que resultou no documento Acordo de Copenhague, formulado por Brasil, China, Índia, África do Sul e Estados Unidos, produzido em negociações por um grupo de 26 países.

Alguns países que não participaram da negociação, como Bolívia, Venezuela, Nicarágua, Cuba, entre outros, não aceitaram o acordo alegando que se tratava de um processo pouco transparente e antidemocrático.

Diante desse impasse, a solução foi a decisão da COP de “tomar nota” do Acordo de Copenhague, que significa que o texto deve funcionar como um adendo à COP, sem caráter decisório nem juridicamente vinculante como se esperava. Sua situação não oficial fez com que suas implicações práticas fossem questionadas, uma vez que o acordo não foi formalmente adotado como resultado das negociações.

O documento, baseado no Quarto Relatório de Avaliação do IPCC, aponta a necessidade de manter o aumento da temperatura global abaixo de 2°C, porém não menciona o corte nas emissões necessário para isso. Segundo ele, as Partes incluídas no Anexo I comprometem-se a implementar, individual ou conjuntamente, metas quantificadas de emissões para 2020 a serem submetidas ao Secretariado até 31 de janeiro 2010.

No Acordo de Copenhague, os países desenvolvidos assumiram o compromisso de contribuir com US$ 10 bilhões ao ano, entre 2010 e 2012, e com US$ 100 bilhões ao ano a partir de 2020, para a mitigação e adaptação dos países mais vulneráveis frente aos efeitos das mudanças climáticas. O texto ainda reconhece a importância de reduzir as emissões produzidas pelo desmatamento e degradação das florestas e concorda em promover incentivos positivos para financiar tais ações com recursos dos países desenvolvidos.

Apesar do esfriamento das negociações na tentativa de estabelecimento de um novo acordo global, essa Conferência teve como pontos positivos um reposicionamento da política climática dos EUA, a participação de países como o Brasil, a Índia, a África do Sul e a China assumindo, pela primeira vez, metas públicas de redução de emissões de CO2, e a participação paralela de empresas, organizações da sociedade civil e governos.

Saiba mais sobre a COP15



quarta-feira, 10 de novembro de 2004

E os Prémios Nobel Alternativo 2004 foram para...

Foram atribuídos os prémios ditos Nobel Alternativo de 2004 pela Right
Livelihood Award Foundation, que serão entregues em cerimónia a 9 de
Dezembro em Estocolmo.

Os prémios de honra foram atribuídos a Swami Agnivesh, reformador social
hindu destacado, e Asghar Ali Engineer, destacado erudito e activista
muçulmano, pelo forte empenhamento e cooperação de ambos ao longo de muitos
anos para a promoção dos valores da coexistência, tolerância e compreensão
na Índia e entre os países do Sul da Ásia.

Os premiados do ano foram
1) Memorial - Volunteer Public Organisation Memorial, Historical
Educational, Human Rights and Charitable Society (Rússia), cuja obra tem
três aspectos principais: criar uma memória histórica dos crimes cometidos
pelo regime soviético através de investigação e publicações; trabalho social
a favor das vítimas do regime soviético e seus parentes; direitos humanos na
Rússia de hoje.

2) Bianca Jagger (Nicarágua), pelo seu contributo na luta pelo
reconhecimento dos direitos dos povos indígenas e defesa de outros direitos
humanos, bem como de valores ecológicos

3) Raúl Montenegro (Argentina), pelo seu papel na criação da FUNAM (Fundação
de Defesa Ambiental), que preside desde 1995, com dimensões diversas,
incluindo: - antinuclear; parques nacionais; eliminação de resíduos tóxicos;
poluição química e linhas de alta tensão; florestas, vida selvagem e
biodiversidade; ambiente aquático; legislação ambiental; educação ambiental.

Mais informações:
info@rightlivelihood.se
Rigt Livehood